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sábado, 27 de outubro de 2012
Revista Piauí e quadrinhos (carta)
Postado por
Gabriel G;
Quem lê a revista Piauí sabe que quadrinhos têm presença frequente na revista. Após uma sucessão de pequenas decepções com essa presença, vi que queria dizer algo à revista; assim, após anos de assinatura, mandei minha primeira carta. Segue:
Prezados realizadores da Piauí,
Até onde sei, Piauí é praticamente a única revista jornalística de peso no Brasil a dedicar um espaço tão significativo à ilustração e histórias em quadrinhos. Mais que pelos bons cartuns, charges e tiras que aparecem aqui e ali, sempre quis parabenizar vocês por dedicarem ocasionalmente algumas de suas amplas folhas a histórias de página inteira ou bem mais longas (parabéns!). Como os quadrinhos ainda são uma mídia relativamente marginalizada ou vista com condescendência, sempre considero oportuna sua presença num espaço de reconhecida qualidade.
Contudo (e aqui vem a crítica), é desanimador quando esse espaço esporádico dado a histórias maiores é ocupado por material aquém do nível geral da revista. Isso, ao meu ver, costuma ocorrer em boa parte por certa insistência nos mesmos nomes. Por exemplo, não foi à toa que tantos leitores queixaram-se do veterano Gotlib: seus poucos bons momentos não justificavam sua antiga frequência na revista (que, graças, deu uma trégua). Da mesma maneira, a relevância histórica e os momentos interessantes do casal Crumb não justificam a publicação de qualquer coisa feita por eles: até com "astros" precisa-se ser seletivo, e parte do material veiculado aqui tem sido repetitivo e dispensável (passei do puro divertimento para o enfado). As histórias longas de Caco Galhardo, por sua vez, têm se tornado sucessivamente mais pretensiosas, desinteressantes e mal-desenhadas (passei de admiração inicial à pura indignação). Por favor, não pensem que peço algum "banimento" do artista; apenas aconselho que se apresente aqui material mais decente, do qual temos evidência de que ele é capaz.
Porque me queixo disso, afinal? Afora sempre interessar ver a revista ser a melhor possível, eu lhes escrevo porque há um enorme número de autores com obras inteligentes e relevantes, no Brasil e mundo afora, que poderiam estar no lugar de certas aparições repetidas que, grosso modo, tornam-se cada vez mais desinteressantes. Não quero ser injusto: nomes "novos" aparecem por aqui volta e meia, e isso é ótimo. Mas além de tomar o espaço potencial desses "novos", a veiculação de material repetitivo e menos qualificado de "consagrados" presta um desserviço à mídia dos quadrinhos em geral -- que, infelizmente, ainda convive com a imagem de primo pobre, caipira, anão, corcunda e retardado das artes, para citar Art Spiegelman (cujas participações na Piauí, diga-se de passagem, têm sido impecáveis). Bem sei que nem os melhores acertam sempre, e que a crítica que apresento aqui é, inevitavelmente, um juízo subjetivo. Mas penso que muitos leitores da revista concordariam que o louvável espaço ocasional dado aos quadrinhos na Piauí tem um grande potencial que poderia ser mais frequentemente alcançado com uma seleção ainda mais ampla na autoria e mais criteriosa na qualidade.
No mais, permanecem meus parabéns, e que boas histórias em quadrinhos continuem a ocupando essas páginas enormes.
Gabriel Girnos
Rio de Janeiro
...
Sei que soa antipático tentar dizer a uma revista o que ela deveria ou não publicar, mas confio que às vezes uma opinião manifesta pode ajudar -- ainda mas se for consoante com a opinião oculta de muitos (o que, obviamente, não tenho como saber!).
Agora é esperar pra ver se eles vão 1) publicar o texto na seção de cartas da revista impressa, 2) publicar na íntegra ou editar muito e 3) tirar sarro da carta, como é de costume...
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
O dia em que Frank Miller me escreveu
Postado por
Gabriel G;
"Saludos,
Yo soy el Sr. Frank Miller, el gerente de créditos del Sistema Nacional de Salud Fiduciario en Holanda. Hay una cuenta que pertenece a la última miembro de la familia, Albert que voy a quiero discutir con usted acerca de y tiene algunas ofrelationship forma con que va por la similitud en el nombre. Estoy en el Reino Unido en el momento de someterse a una Curso de ingeniería financiera por favor envíeme un correo electrónico con respecto a esto. Usted me puede dar su número de teléfono personal para que yo pueda darle una llamada, que es urgente.
Saludos,
Frank Miller."
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A Fábrica de Monstros
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Post de divulgação de coisa interessante:
No começo do ano descobri (não me lembro mais como) o seguinte site:
Achei a idéia genial. O dono da coisa é Dave Devries, ilustrador/desenhista de quadrinhos, que trabalhou na Marvel desenhando Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico entre outras coisas, resolveu fazer arte a partir de desenhos de monstros feitos por crianças. O cara pega os desenhos tosquinhos e dá uma bela duma arte final em cima, conferindo um grau de realismo impressionante aos personagens.
Devries também dá palestras e workshops em escolas, ocasiões nas quais ele escolhe um desenho de alguma criança na hora e faz um quadro, o que deve fazer com que o (a) garoto (a) se sinta o máximo...
Alguns exemplos:
Enfim, só pra constar.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Laerte - nova fase
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Sem maiores delongas: o espaço que o Laerte ocupa aos sábados, que rendeu "Muchacha" e "Laertevisão" agora está sendo utilizado para uma experiência meio rara na produção do Laerte: Charges e quadros com temas políticos. As últimas 10 são assim, com exceção (talvez) da segunda na sequência que coloquei aqui:
Várias dessas se referem à discussão do casamento gay, sendo que na 9a. ele resolveu desenhar o Bolsonaro mesmo. Aliás, Bolsonaro foi o que aconteceu antes da primeira tirinha dessa série, que já havíamos postado aqui, como resposta àquela estupidez racista/homofóbica que ele disse à Preta Gil.
A quarta aparentemente trata do uso da norma culta na língua portuguesa (a discussão sobre o livro que relativiza os erros de português).
As outras são mais claras, e resolvi postá-las aqui depois de ver a última - talvez uma referência à entrevista do Palocci.
Divirtam-se!
Inserido posteriormente: ok, não tinha nada a ver com o Palocci, mea culpa....eu não tinha a menor noção da existência de um "Brilhante Ustra", ache com cara de barbudinho do PT).
Inserido posteriormente: ok, não tinha nada a ver com o Palocci, mea culpa....eu não tinha a menor noção da existência de um "Brilhante Ustra", ache com cara de barbudinho do PT).
sexta-feira, 13 de maio de 2011
"Sustentabilidade hedonista"
Postado por
Gabriel G;
E eis que fui semanas atrás numa palestra do Bjarke Ingels na PUC Rio. É ele mesmo, o cara que fez a primeira publicação monográfica de Arquitetura em forma de história em quadrinhos (Yes is More), que já apareceu no Wilbor antes.
A palestra era significativamente intitulada de "hedonistic sustainability". O tema já era explicado em seu Yes is More, e o mais novo projeto deles a ilustrar o "pincípio" pode ser visto nestes slides aqui.

(não, esta foto aqui não foi na PUC. Meramente ilustrativa.)
Lendo seu livro e acessando seu site, dá pra ver que Bjarke é um cara que entende e explora como ninguém neste momento o potencial da mídia para a propaganda e divulgação da arquitetura. Eu há tempos tinha intuições de que uma característica forte deste seria fato de usar as mídias de maneira "popularizável", voltada a um público "middle-brow" e não um super-intelectualizado e especializado. Em uma palavra: um discurso voltado em muito para leigos interessados, alunos de arquitetura e jovens arquitetos.
A quantidade de alunos se acotovelando afoitos num auditório lotado me reforçou essa intuição. Não deixe que a cara de ator de Malhação engane: ele é muito inteligente e astuto.Com 36 anos, um escritório construindo coisas no mundo todo, uma história em quadrinhos arquitetônica cada vez mais popular e um trendy look entre o bem-vestido e o calculadamente desarrumado, Ingels me parece ter potencial para ser o mais jovem arquiteto pop-star já visto.
Além da PUC, nesta visita ao Brasil ele foi entrevistado pela GNT e pela revista AU.
Aqui a entrevista da AU:
(O mais gozado é ouvir ele falar que, quando começou o curso de arquitetura, queria na verdade ser quadrinhista. Pra mim faz todo sentido)
E aqui a entrevista do programa "Nos Trinques", da GNT. É um programa para super-descolados (curiosidade: o entrevistador, Guto, foi meu bixo lá em São Carlos). Percebam que o tom da entrevista já é já é mais panorâmica, rasante e um tanto fashion; uma introdução a "leigos interessados".
Algumas considerações:
1) Deve ser um saco ficar repetindo as mesmas explicações o tempo todo. No livro, na palestra, nas duas entrevistas, e em outras apresentações, vi várias coisas serem distas de novo e de novo.
Nisso, BIG se torna um escritório de slogans e punchlines; e sabe fazer isso muito bem.
2) Como vários escritórios internacionais, BIG deve estar com sérios planos de invasão aqui da Brasiléia, e parece que estamos a corroborar seus planos (ao menos em publicidade). Na palestra ele começou falando sobre Brasil, mostrou foto de suas visitas à favelas (ficou hospedado em uma anos atrás), falou destas como potencialidades arquitetônicas e que têm a melhor vista do Rio e por aí vai. Se ele conseguir aportar seus trabalhos por aqui, há riscos de que arquitetura fique mais pop do que nunca no país... ou não. Vamos ver.
3) Você assiste à apresentação dele admirado (ainda mais se, como eu, você estudar apresentações), e alguns edifícios parecem realmente empolgantes e bem-bolados. Porém, ao mesmo tempo, me gera muita desconfiaça o fato de suas explicações fazerem tudo parecer simples demais.
O ponto principal de desconfiança: basicamente, as principais argumentações de BIG se dão na forma se sínteses de oposições. Um exemplo é o mote básico do grupo:
A questão é: será que não estamos falando aqui de "bonecos de palha"? Será que, astutamente, Bjarke não monta oposições relativamente caricatas para, por um lado, torná-las facilmente digeríveis paro público e, por outro, poder ele mesmo se posicionar e propagandear como grande desmistificador? (Esta, afinal, tem sido uma estratégia até usual ultimamente)
Essa última inquietação me desperta outro grupo de questões, mais sério que este. Não seria BIG, juntamente com muitos escritórios internacionais centrados em sustentabilidade, uma amostra de que estaríamos retomando fortemente uma espécie de "mito do design" característico do período modernista de até meados do século XX? O "design mudando a sociedade", só que agora na linguagem atual -- magnificado pela mobilização de mídias em apresentações impressionantes? Seria esta a forma que os arquitetos -- conscientes ou só subconscientes de praticarem uma profissão fundamentalmente frágil -- têm encontrado de colocar-se como alguma coisa útil e desejável no mundo atual?
Tentarei voltar a esse assunto futuramente.
A palestra era significativamente intitulada de "hedonistic sustainability". O tema já era explicado em seu Yes is More, e o mais novo projeto deles a ilustrar o "pincípio" pode ser visto nestes slides aqui.

(não, esta foto aqui não foi na PUC. Meramente ilustrativa.)
Lendo seu livro e acessando seu site, dá pra ver que Bjarke é um cara que entende e explora como ninguém neste momento o potencial da mídia para a propaganda e divulgação da arquitetura. Eu há tempos tinha intuições de que uma característica forte deste seria fato de usar as mídias de maneira "popularizável", voltada a um público "middle-brow" e não um super-intelectualizado e especializado. Em uma palavra: um discurso voltado em muito para leigos interessados, alunos de arquitetura e jovens arquitetos.
A quantidade de alunos se acotovelando afoitos num auditório lotado me reforçou essa intuição. Não deixe que a cara de ator de Malhação engane: ele é muito inteligente e astuto.Com 36 anos, um escritório construindo coisas no mundo todo, uma história em quadrinhos arquitetônica cada vez mais popular e um trendy look entre o bem-vestido e o calculadamente desarrumado, Ingels me parece ter potencial para ser o mais jovem arquiteto pop-star já visto.
Além da PUC, nesta visita ao Brasil ele foi entrevistado pela GNT e pela revista AU.
Aqui a entrevista da AU:
(O mais gozado é ouvir ele falar que, quando começou o curso de arquitetura, queria na verdade ser quadrinhista. Pra mim faz todo sentido)
E aqui a entrevista do programa "Nos Trinques", da GNT. É um programa para super-descolados (curiosidade: o entrevistador, Guto, foi meu bixo lá em São Carlos). Percebam que o tom da entrevista já é já é mais panorâmica, rasante e um tanto fashion; uma introdução a "leigos interessados".
Algumas considerações:
1) Deve ser um saco ficar repetindo as mesmas explicações o tempo todo. No livro, na palestra, nas duas entrevistas, e em outras apresentações, vi várias coisas serem distas de novo e de novo.
Nisso, BIG se torna um escritório de slogans e punchlines; e sabe fazer isso muito bem.
2) Como vários escritórios internacionais, BIG deve estar com sérios planos de invasão aqui da Brasiléia, e parece que estamos a corroborar seus planos (ao menos em publicidade). Na palestra ele começou falando sobre Brasil, mostrou foto de suas visitas à favelas (ficou hospedado em uma anos atrás), falou destas como potencialidades arquitetônicas e que têm a melhor vista do Rio e por aí vai. Se ele conseguir aportar seus trabalhos por aqui, há riscos de que arquitetura fique mais pop do que nunca no país... ou não. Vamos ver.
3) Você assiste à apresentação dele admirado (ainda mais se, como eu, você estudar apresentações), e alguns edifícios parecem realmente empolgantes e bem-bolados. Porém, ao mesmo tempo, me gera muita desconfiaça o fato de suas explicações fazerem tudo parecer simples demais.
O ponto principal de desconfiança: basicamente, as principais argumentações de BIG se dão na forma se sínteses de oposições. Um exemplo é o mote básico do grupo:
"Historically the field of architecture has been dominated by two opposing extremes. On one side an avant-garde full of crazy ideas. Originating from philosophy,mysticism or a fascination of the formal potential of computer visualizations they are often so detached from reality that they fail to become something other than eccentric curiosities. On the other side there are well organized corporate consultants that build predictable and boring boxes of high standard. Architecture seems to be entrenched in two equally unfertile fronts: either naively utopian or petrifyingly pragmatic. We believe that there is a third way wedged in the nomansland between the diametrical opposites. Or in the small but very fertile overlap between the two. A pragmatic utopian architecture that takes on the creation of socially, economically and environmentally perfect places as a practical objective"Assim, grande parte das contradições que em tese guiariam a sociedade -- utópico versus pragmático, público versus privado, sustentabilidade versus conforto, ecologia versus economia, etc-- seriam, no fundo, resolvíveis pelo bom projeto... ou seja: no fundo, seriam "falsas contradições".
A questão é: será que não estamos falando aqui de "bonecos de palha"? Será que, astutamente, Bjarke não monta oposições relativamente caricatas para, por um lado, torná-las facilmente digeríveis paro público e, por outro, poder ele mesmo se posicionar e propagandear como grande desmistificador? (Esta, afinal, tem sido uma estratégia até usual ultimamente)
Essa última inquietação me desperta outro grupo de questões, mais sério que este. Não seria BIG, juntamente com muitos escritórios internacionais centrados em sustentabilidade, uma amostra de que estaríamos retomando fortemente uma espécie de "mito do design" característico do período modernista de até meados do século XX? O "design mudando a sociedade", só que agora na linguagem atual -- magnificado pela mobilização de mídias em apresentações impressionantes? Seria esta a forma que os arquitetos -- conscientes ou só subconscientes de praticarem uma profissão fundamentalmente frágil -- têm encontrado de colocar-se como alguma coisa útil e desejável no mundo atual?
Tentarei voltar a esse assunto futuramente.
sábado, 30 de abril de 2011
Lavando a alma ou "Laerte strikes again"
Postado por
Gabriel G;
Duas das tiras me chamaram (politicamente) a atenção nos últimos meses...
A primeira é uma resposta ao pseudodesmistificador (raça em franca proliferação) que escreveu o livro "Guia politicamente incorreto da história do Brasil" -- que pra mim foi a reconfirmação de que, infelizmente, o "politicamente incorreto" se tornou uma bandeira de direita no Brasil, defendida principalmente pelos conservadores mudérninhos. (o próprio Laerte já o sabia, claro).
(Saudade do tempo em que "politicamente incorreto eram os Simpsons. Ainda bem que temos o Family Guy pra nos redimir de vez em quando).
A outra, bem... precisa comentar?
(Qualquer um que souber das posições "religiosas" do blog sabe que ninguém aqui acha burcas algo minimamente aceitável. Mas... tem coisa mais "politicamente correta" que o discurso furado de liberalização do Sarkozy?
"Ocidente: há quinhentos anos libertando pessoas. Mesmo que elas esperneiem".)
segunda-feira, 25 de abril de 2011
I Can't believe
Postado por
Gabriel G;
Eu tinha visto essa no blog do Scott McCloud. Uma variação das várias piadas com os produtos imitativos norte-americanos (a primeira que vi, That's not Yogurt, foi o Marcelo que me mostrou).
O melhor da piada, obviamente, está no final.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
O papel da oposição
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
A respeito de "o papel da oposição" recente artigo de FHC publicado na revista Interesse Nacional:
O trecho polêmico no qual FHC afirma que o PSDB deva desistir do povão é claramente um erro político - aliás, erro muito infantil...Lula provoca em FHC as reações mais viscerais, coisa muito gozada de se ver.
O trecho polêmico diz o seguinte:
Em primeiro lugar, não manter ilusões: é pouco o que os partidos podem fazer para que a voz de seus parlamentares alcance a sociedade. É preciso que as oposições se deem conta de que existe um público distinto do que se prende ao jogo político tradicional e ao que é mais atingido pelos mecanismos governamentais de difusão televisiva e midiática em geral. As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas. A definição de qual é o outro público a ser alcançado pelas oposições e como fazer para chegar até ele e ampliar a audiência crítica é fundamental. Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.
Lula aproveitou, óbvio, para responder:
"Sinceramente não sei como alguém estuda tanto e depois quer esquecer o povão. O povão é a razão de ser do Brasil. E do povão fazem parte a classe média, a classe rica, os mais pobres, porque todos são brasileiros."
Frase bobinha e demagógica, mas adequada para o fato político. Agora, a melhor coisa que vi sobre o assunto é a seguinte charge do Angeli:
Genial, não?
sábado, 9 de abril de 2011
Perdendo o respeito (ou "desventuras da idade")
Postado por
Gabriel G;
(Wilbor, como sempre, postando atrasado sobre polêmicas velhas...)
Em um post de anos atrás, prestei minhas homenagens ao Ziraldo, pela importância de seus livros na minha formação.Desde então já li e ouvi coisas terríveis sobre ele, já fiquei meio de saco cheio da "canonização em vida" que ele e várias outras personalidades (Chico, Caetano, Niemeyer e por aí vai) receberam, e das merdas que começaram a falar e fazer.
(tenho comigo que consagração excessiva não faz bem à produção de ninguém).
Mas também acho que muito é culpa da velhice. Se pensarmos, ela mistura fatores compreensíveis:
a) menor disposição e energia pra ver o que se passa e repensar suas posições
b) mais segurança e apego às próprias convicções
c) Menos respeito pelos que são mais jovens (afinal, eles "sabem menos")
d) Menos vergonha e menos necessidade de auto-afirmação pela aprovação alheia, sentindo-se a pessoa então mais livre para dizer o que der na telha
e) Menos disposição e paciência para receber críticas (devido aos motivos acima).
Não, não vou criticar a questão do milhão recebido por ele de idenização pela censura e prisão na época da ditadura. De todos os motivos pra se criticar, considero esse um dos mais babacas. O governo militar fodeu com ele. Fodeu muito mais com outros, que até hoje esperam justiça e que mereciam compensação muito mais que o Ziraldo. Mas isso não faz sua idenização injusta. PONTO.
Embora possa ser convencido do contrário, neste momento eu acho sinceramente que quem reclama do que ele recebeu se encaixa em pelo menos uma das alternativas:
a) não pensou muito no assunto;
e) não vai com a cara do Ziraldo (talvez até por bons motivos)
b) caiu no impulso sedutor de criticar "figuras consagradas" (o que tende a ser confundido como sinal de "independência intelectual" per se)
c) está com inveja;
d) tem ódio de figuras "de esquerda" em geral.
Não. O que eu pretendo criticar aqui é esta babaquice abaixo.
Cartaz do Ziraldo para o bloco de carnaval "Que merda é essa", que protesta contra a "sanitarização" da cultura infantil pelo "politicamente correto".
O gatilho pra tudo isso, segundo o que entendi, foi a polêmica em torno do fato do MEC desaconselhar a adoção de certos livros infantis de Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho incluso) do rol de livros obrigatórios no ensino público devido ao conteúdo racista de alguns trechos.
(de novo: desaconselhar a adoção como leitura obrigatória. Se você ouviu algum defensor de ocasião da liberdade de expressão dizendo histericamente que queriam proibir Monteiro Lobato, saiba que foi só isso mesmo: histeria.)
No desenho, Ziraldo tenta implicar que essa babaquice não cola aqui, que na verdade, no Brasil é tudo amor: no desenho estão juntos o cravo e a rosa (aqueles velhos cantiga fighters, lembra?); o gato e o pau (referência àquela velha tentativa de assassinato cantada que termina num berrô mi-áu); e Lobato e... a "mulata" que ele supostamente desprezava
(o carnaval une tudo: democracia racial pra ninguém botar defeito).
Igualar a questão do racismo do Lobato ao caso do "atirei o pau no gato" censurado é foda. Porquê?
Realmente, eu nunca quis atirar pau em gato algum só por causa dessa música. É, sim, "politicamente correta", boba, a alteração pra "não atire o pau no gato-tô". MAS: a comparação com Lobato aqui só seria realmente pertinente num mundo em que gatos fossem sencientes e freqüentassem escolas... e que lá tivessem que aprender a cantar essa música. Substitua a letra por "a-tirei o pau no criou-lô-lô" e você talvez vá ter uma idéia do que quero dizer.
Pior ainda é fazer isso colocando a imagem de uma típica e desfrutável "mulata de carnaval".
Mas bem, sou suspeito de falar. Eu ODEIO o carnaval. Desde sempre. Ou, pelo menos, odeio a babaquice televisiva-merchandising-celebridade-machismo-pornografia que se faz passar por carnaval. (O resto, as festas e bailes e blocos de gente fantasiada e bêbada, eu só não curto, mas não me causam nenhuma indignação.)
A coisa é que Ziraldo, provavelmente sem querer, acertou: ESSA é verdadeira "democracia racial brasileira" que interessa -- democracia do branco na mulata gostosa.
A questão interessante é que Lobato era mesmo literalmente (e literariamente) racista. Tinha desprezo declarado por mestiços: achava a mestiçagem uma degeneração racial, o fim da civilização, coisa que só gerava gente feia e burra. Mesmo.
Quem não acredita que Lobato tenha sido racista nunca leu muito a respeito dele -- ou não leu Sítio do Pica-Pau amarelo com muita atenção.
Eu li mais da metade da coleção entre os 09 e 11 anos. Gostava bastante. Algumas coisas eram meio antiquadas demais, mas ok, eu sacava isso. Mas havia alguns laivos racistas que, mesmo com 10, 11 anos, eu não pude deixar de perceber: alguns insultos raciais pontuais, simplemente grosseiros e gratuitos, geralmente destinados à Tia Anastácia, e geralmente proferidos pela boneca Emília. Minha impressão às vezes é que eles meio que visavam traçar uma linha, separando os "pretos" do resto. Suporte-os, faça-os personagem, até goste deles (em sua subalternidade); mas não se misture. É claro que isso não era a tônica dos livros, e havia muitas ambigüidades de afeto e desprezo. Mas os laivos racistas estão lá. São reais e sérios -- principalmente quando você pensa em obrigar crianças negras a lê-los.
Claro que Lobato estava longe de ser o único. Quem estudou só um pouco história das ciências sociais no Brasil vai saber do embate entre teorias racialistas que ocorreu no país entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Lobato é um exemplo delas, sem dúvida; haviam muitos como ele, homens letrados defensores da eugenia, para os quais a raça era uma questão crucial, de primeira necessidade, no desenvolvimento de uma nação e povo.
Mas ainda assim: pra mim, "politicamente correto" mesmo é dizer que Lobato era "simplesmente um homem de seu tempo". Ah, vá. Lobato era racista, PONTO. O Brasil inteiro era na época, verdade; mas Lobato, como se diz no Maranhão, era dicunforça. Elogiar a KuKluxKlan, mesmo que em carta íntima, não é pra qualquer um.
A maneira leviana e chauvinista com que Ziraldo se comportou a respeito é de lascar. E ainda lascou essa em sua defesa: "racismo sem ódio não é racismo".O pior dessa é que, além de errada na aplicação (pois Lobato desprezava sim) é errada no princípio: racismo não tem a ver com ódio, tem a ver com poder.
E pior: ISSO vem de alguém que famoso e de referência por ser "de esquerda", meu deus.
Quer fazer piada, tem que ter graça, pelo menos.
Enfim, é o tipo de caso que faz você ir perdendo o respeito por figuras admiradas. O que é sempre triste, mas faz parte do crescimento.
... Se alguém quer saber mais sobre o caso e sobre o racismo monteirolobático, recomendo a Carta Aberta a Ziraldo, de Ana Maria Gonçalves: o mais completo, visceral e definitivo que já li sobre essa polêmica, e de onde tirei algumas informações.
Em um post de anos atrás, prestei minhas homenagens ao Ziraldo, pela importância de seus livros na minha formação.Desde então já li e ouvi coisas terríveis sobre ele, já fiquei meio de saco cheio da "canonização em vida" que ele e várias outras personalidades (Chico, Caetano, Niemeyer e por aí vai) receberam, e das merdas que começaram a falar e fazer.
(tenho comigo que consagração excessiva não faz bem à produção de ninguém).
Mas também acho que muito é culpa da velhice. Se pensarmos, ela mistura fatores compreensíveis:
a) menor disposição e energia pra ver o que se passa e repensar suas posições
b) mais segurança e apego às próprias convicções
c) Menos respeito pelos que são mais jovens (afinal, eles "sabem menos")
d) Menos vergonha e menos necessidade de auto-afirmação pela aprovação alheia, sentindo-se a pessoa então mais livre para dizer o que der na telha
e) Menos disposição e paciência para receber críticas (devido aos motivos acima).
Não, não vou criticar a questão do milhão recebido por ele de idenização pela censura e prisão na época da ditadura. De todos os motivos pra se criticar, considero esse um dos mais babacas. O governo militar fodeu com ele. Fodeu muito mais com outros, que até hoje esperam justiça e que mereciam compensação muito mais que o Ziraldo. Mas isso não faz sua idenização injusta. PONTO.
Embora possa ser convencido do contrário, neste momento eu acho sinceramente que quem reclama do que ele recebeu se encaixa em pelo menos uma das alternativas:
a) não pensou muito no assunto;
e) não vai com a cara do Ziraldo (talvez até por bons motivos)
b) caiu no impulso sedutor de criticar "figuras consagradas" (o que tende a ser confundido como sinal de "independência intelectual" per se)
c) está com inveja;
d) tem ódio de figuras "de esquerda" em geral.
Não. O que eu pretendo criticar aqui é esta babaquice abaixo.
Cartaz do Ziraldo para o bloco de carnaval "Que merda é essa", que protesta contra a "sanitarização" da cultura infantil pelo "politicamente correto".
O gatilho pra tudo isso, segundo o que entendi, foi a polêmica em torno do fato do MEC desaconselhar a adoção de certos livros infantis de Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho incluso) do rol de livros obrigatórios no ensino público devido ao conteúdo racista de alguns trechos.
(de novo: desaconselhar a adoção como leitura obrigatória. Se você ouviu algum defensor de ocasião da liberdade de expressão dizendo histericamente que queriam proibir Monteiro Lobato, saiba que foi só isso mesmo: histeria.)
No desenho, Ziraldo tenta implicar que essa babaquice não cola aqui, que na verdade, no Brasil é tudo amor: no desenho estão juntos o cravo e a rosa (aqueles velhos cantiga fighters, lembra?); o gato e o pau (referência àquela velha tentativa de assassinato cantada que termina num berrô mi-áu); e Lobato e... a "mulata" que ele supostamente desprezava
(o carnaval une tudo: democracia racial pra ninguém botar defeito).
Igualar a questão do racismo do Lobato ao caso do "atirei o pau no gato" censurado é foda. Porquê?
Realmente, eu nunca quis atirar pau em gato algum só por causa dessa música. É, sim, "politicamente correta", boba, a alteração pra "não atire o pau no gato-tô". MAS: a comparação com Lobato aqui só seria realmente pertinente num mundo em que gatos fossem sencientes e freqüentassem escolas... e que lá tivessem que aprender a cantar essa música. Substitua a letra por "a-tirei o pau no criou-lô-lô" e você talvez vá ter uma idéia do que quero dizer.
Pior ainda é fazer isso colocando a imagem de uma típica e desfrutável "mulata de carnaval".
Mas bem, sou suspeito de falar. Eu ODEIO o carnaval. Desde sempre. Ou, pelo menos, odeio a babaquice televisiva-merchandising-celebridade-machismo-pornografia que se faz passar por carnaval. (O resto, as festas e bailes e blocos de gente fantasiada e bêbada, eu só não curto, mas não me causam nenhuma indignação.)
A coisa é que Ziraldo, provavelmente sem querer, acertou: ESSA é verdadeira "democracia racial brasileira" que interessa -- democracia do branco na mulata gostosa.
A questão interessante é que Lobato era mesmo literalmente (e literariamente) racista. Tinha desprezo declarado por mestiços: achava a mestiçagem uma degeneração racial, o fim da civilização, coisa que só gerava gente feia e burra. Mesmo.
Quem não acredita que Lobato tenha sido racista nunca leu muito a respeito dele -- ou não leu Sítio do Pica-Pau amarelo com muita atenção.
Eu li mais da metade da coleção entre os 09 e 11 anos. Gostava bastante. Algumas coisas eram meio antiquadas demais, mas ok, eu sacava isso. Mas havia alguns laivos racistas que, mesmo com 10, 11 anos, eu não pude deixar de perceber: alguns insultos raciais pontuais, simplemente grosseiros e gratuitos, geralmente destinados à Tia Anastácia, e geralmente proferidos pela boneca Emília. Minha impressão às vezes é que eles meio que visavam traçar uma linha, separando os "pretos" do resto. Suporte-os, faça-os personagem, até goste deles (em sua subalternidade); mas não se misture. É claro que isso não era a tônica dos livros, e havia muitas ambigüidades de afeto e desprezo. Mas os laivos racistas estão lá. São reais e sérios -- principalmente quando você pensa em obrigar crianças negras a lê-los.
Claro que Lobato estava longe de ser o único. Quem estudou só um pouco história das ciências sociais no Brasil vai saber do embate entre teorias racialistas que ocorreu no país entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Lobato é um exemplo delas, sem dúvida; haviam muitos como ele, homens letrados defensores da eugenia, para os quais a raça era uma questão crucial, de primeira necessidade, no desenvolvimento de uma nação e povo.
Mas ainda assim: pra mim, "politicamente correto" mesmo é dizer que Lobato era "simplesmente um homem de seu tempo". Ah, vá. Lobato era racista, PONTO. O Brasil inteiro era na época, verdade; mas Lobato, como se diz no Maranhão, era dicunforça. Elogiar a KuKluxKlan, mesmo que em carta íntima, não é pra qualquer um.
A maneira leviana e chauvinista com que Ziraldo se comportou a respeito é de lascar. E ainda lascou essa em sua defesa: "racismo sem ódio não é racismo".O pior dessa é que, além de errada na aplicação (pois Lobato desprezava sim) é errada no princípio: racismo não tem a ver com ódio, tem a ver com poder.
E pior: ISSO vem de alguém que famoso e de referência por ser "de esquerda", meu deus.
Quer fazer piada, tem que ter graça, pelo menos.
Enfim, é o tipo de caso que faz você ir perdendo o respeito por figuras admiradas. O que é sempre triste, mas faz parte do crescimento.
... Se alguém quer saber mais sobre o caso e sobre o racismo monteirolobático, recomendo a Carta Aberta a Ziraldo, de Ana Maria Gonçalves: o mais completo, visceral e definitivo que já li sobre essa polêmica, e de onde tirei algumas informações.
domingo, 3 de abril de 2011
sábado, 12 de março de 2011
piada inconveniente
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Única menção na segunda página da Folha de S. Paulo sobre a tragédia de ontem no Japão:
É do João Montanaro, chargista de 15 anos que ocupa, desde o ano passado, a charge da página 2 nos dias de sábado.
Não quero julgar o garoto, mas é o tipo de piada que certamente pega mal...assim que abri a Folha de hoje fiquei imaginando que amanhã (domingo), haverão muitas cartas de leitores revoltados. A segunda página é o espaço do editorial da Folha, no qual eles emitem opiniões. Já que o jornal se absteve de falar qualquer coisa em editorial, mesmo porque é difícil emitir opiniões acerca de eventos naturais fora de nosso controle, seria prudente não ter charge sobre o assunto...se quisessem, poderiam comparar com o terremoto do Haiti, que matou 200 mil, ou mesmo com o tsunâmi do Índico de 2004, que atingiu o sudeste asiático deixando 295 mil mortos, ressaltando a diferença que a infra-estrutura faz;
Por um lado, é louvável que a Folha não interfira no trabalho de seus colaboradores, assim, o Angeli publica o que bem entende...mas nesse caso, talvez fosse prudente um telefonema perguntando "você tem certeza que quer publicar essa charge?
A responsabilidade é do jornal. E não é a primeira vez que isso ocorre. Em agosto de 2009, o caderno de turismo da Folha trazia uma manchete de gosto duvidoso: "Balança, mas não cai", uma piadinha que fazia referência ao balançar dos navios de cruzeiro e com o acidente da TAM em Congonhas.
Tudo bem pro João, que vem mandando muito bem, mas tem apenas 15 anos. Falta dos "adultos responsáveis" da Folha.
É do João Montanaro, chargista de 15 anos que ocupa, desde o ano passado, a charge da página 2 nos dias de sábado.
Não quero julgar o garoto, mas é o tipo de piada que certamente pega mal...assim que abri a Folha de hoje fiquei imaginando que amanhã (domingo), haverão muitas cartas de leitores revoltados. A segunda página é o espaço do editorial da Folha, no qual eles emitem opiniões. Já que o jornal se absteve de falar qualquer coisa em editorial, mesmo porque é difícil emitir opiniões acerca de eventos naturais fora de nosso controle, seria prudente não ter charge sobre o assunto...se quisessem, poderiam comparar com o terremoto do Haiti, que matou 200 mil, ou mesmo com o tsunâmi do Índico de 2004, que atingiu o sudeste asiático deixando 295 mil mortos, ressaltando a diferença que a infra-estrutura faz;
Por um lado, é louvável que a Folha não interfira no trabalho de seus colaboradores, assim, o Angeli publica o que bem entende...mas nesse caso, talvez fosse prudente um telefonema perguntando "você tem certeza que quer publicar essa charge?
A responsabilidade é do jornal. E não é a primeira vez que isso ocorre. Em agosto de 2009, o caderno de turismo da Folha trazia uma manchete de gosto duvidoso: "Balança, mas não cai", uma piadinha que fazia referência ao balançar dos navios de cruzeiro e com o acidente da TAM em Congonhas.
Tudo bem pro João, que vem mandando muito bem, mas tem apenas 15 anos. Falta dos "adultos responsáveis" da Folha.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Isto é Esparta... de novo
Postado por
Gabriel G;
Pois: há três semanas, o "anjo do livro" (copyright by Mancha) me fez esbarrar com "Em defesa das causas perdidas", um catatau do Slavoj Zizek. E não é que, folheando-o, dei de cara com um texto chamado "a verdadeira esquerda de Hollywood"... que, entre vários filmes, discute justamente significados políticos de 300 com apontamentos bem diferentes dos meus.
Basicamente, entre outras provocações ele coloca que alguns filmes com mensagens superficialmente e obviamente vistas como "de esquerda" -- como Red, de Warren Beaty e mesmo uns de James Cameron como "Titanic" -- seriam um embuste para aquilo que um esquerdista tem de ter em vista nos dias de hoje, enquanto um filme como "300", acusado de facismo, guardaria vários valores genuinamente essenciais à "racionalidade revolucionária".
Pra minha sorte, tem o trecho exato de 300 na web, em inglês. Um pedacinho aqui:
The Spartan ruthless military discipline is not simply the external opposite of the Athenian "liberal democracy," it is its inherent condition, it lays the foundation for it: the free subject of Reason can only emerge through a ruthless self-discipline. True freedom is not a freedom of choice made from a safe distance, like choosing between a strawberry cake or a chocolate cake; true freedom overlaps with necessity, one makes a truly free choice when one's choice puts at stake one's very existence - one does it because one simply "cannot do it otherwise."
Vale a pena ir lá e ler tudo.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Christ, what an asshole
Postado por
Gabriel G;
Decobri essa no blog do McCloud: um certo cara teorizou que todas as tiras do The New Yorker poderiam ser terminadas com a frase "Chirst, what an asshole" sem prejuízo de suas qualidades cômicas. E fez alguns testes...
A experiência inteira está aqui. Vale a pena. (me lembrou um pouco o tipo de experiência feita em "Garfield minus Garfield" )
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Santo revanchismo, Batman!
Postado por
Gabriel G;
Este assunto já foi discutido recentemente em vários lugares; mas como é absurdo, rasteiro, sem vergonha e envolve duas áreas de interesses do Wilbor (política e quadrinhos) tinha que ser repercutido aqui, ainda que à tardinha.
Acontece que um tradutor (não colocarei o nome aqui), na revista nº 98 do Batman, deu de traduzir o adjetivo "nasty" (asqueroso, safado, canalha, malévolo, etc.) por... "petralha".
(Se você nunca ouviu o termo, não sou eu que vou lhe esclarecer. Google aí.)
Pois é. Teve bafafá e etc, obviamente. Um monte de gente estranhou, um monte de gente xingou, muitos nem entenderam, alguns não se importaram e outros apoiaram. A coisa foi repercutida até lá fora. O editor da Panini se desculpou. Teve até uma turma do "deixa-pra-lá" porque, afinal, o cara foi até "corajoso", assumiu a responsabilidade pelo tradutor e pediu desculpas.
(O mesmo tradutor, diga-se de passagem, já tinha dado uma outra gafe profissional, dessa vez envolvendo a tradicionalíssima revista italiana de faroeste-machão Tex. Nela, o personagem título aparece xingando de "macaco" um negro que o atacava -- tradução sem nada a ver com a fala original.)
Bem, era até pra deixar pra lá mesmo, mas... olhem só um trecho da "desculpa" :
Não houve por parte de ninguém da redação a intenção de atacar partido A ou B. O termo foi usado totalmente desvinculado de qualquer teor político, já que há muito ele deixou de ser apenas uma associação a um partido. O que me parece é que algumas pessoas desejam apenas ver sangue, ou seja, que alguém da redação seja mandado embora apenas para satisfazer seu ego cruel.
[...]Nosso erro foi pressupor que uma gíria que já perdeu o seu caráter político em alguns lugares, não o tenha perdido em todos. Não estávamos querendo tecer nenhuma crítica a partido algum. Acho que já deixei isso bastante claro. Só não entende quem não quiser"
Arrã. ("Vocês é que são uns frescos, rancorosos e desatualizados, mas eu peço desculpas, viu?").
E o Diretor de Marketing da empresa?
"A Panini considera o termo “petralha” como uma gíria que vem se popularizando no Brasil, e independente da origem do termo, não é mais utilizado no linguajar popular apenas com conotação política, mas como sinônimos para asqueroso, nojento, etc. "
Bom, pra mim nada que insulte tão desavergonhadamente a inteligência alheia deveria ficar sem comentário. O melhor comentário que vi até agora (gostaria que fosse o meu) foi o do cara do Liberal, Lertário, Libertino:
"Afinal, sério, eu chamo as pessoas de vaca piranha aleatoriamente, sabe? Pode ser homem, pode ser mulher: pra mim é tudo "vaca piranha". Ah, e meu amigo japa, o Inosuke, eu chamo ele de "crioulo" o tempo todo. Poxa, esse termo já perdeu qualquer associação com raça, oxe!"
Ofereço humildemente quatro opções de interpretação para o caso da polêmica tradução.
1. A ingenuidade:
O tradutor é só um simples panaca que convive com um ciclo social paulistano muito fechado, composto quase exclusivamente de leitores, amigos e filhos de leitores da Veja e afins que não dão tanta atenção para política, limitando-se a achar que "tudo o que está aí uma pouca vergonha e se privatizasse ficava bem melhor" e tendo como modelo máximo de politização alguns leitores de Mainardi e Reinaldo Azevedo. Para estes o termo "petralha" simplesmente virou "natural", sem ter conotação de ofender pessoas específicas --afinal, não ofende ninguém que eles conheçam, só "aqueles fulanos ladrões lá".
Santo isolamento social, Batman!
2. O mau perdedor:
o tradutor é anti-petista convicto e apaixonado e, ainda puto da vida com o resultado das eleições, não conseguiu conter sua indignação sagrada e pôs em ação uma micro-vingança contra esse governo corrupto (ou até mesmo contra os "petistas" que ele conhecia pessoalmente). Santo revanchismo, Batman!
2. A ditadura
Acreditando estar num regime de censura que colocou uma ex(?)-terrorista no poder, o tradutor quis fazer seu dever cívico de denúncia e de exercício da livre-expressão, ameaçada pela ditadura gramsciana do "politicamente correto", num ato que jamais poderia vir à tona nessa mídia controlada! (todo mundo que lê Veja, Estadão e Reinaldo Azevedo sabe que o Brasil com seu governo petralha é campeão de conteúdos censurados no google!!!!) Mas... como fazê-lo? Ora, através de uma guerrilha semântica num meio menos vigiado, aparentemente inofensivo... o gibi!! (Tchaaannnnnn!!!). Seria caso parecido na tradução de "macaco" na Revista do Tex...o sagrado dever de se desafiar o politicamente correto!
Mas, infelizmente para ela, revelou-se que nada está abaixo do radar da petralhada. Santa ditadura, Batman!
4. "O segredo do sucesso"):
Tanto no caso Batman quanto no caso Tex, o tradutor simplesmente quis aparecer. Saberia que um monte de pessoas espumariam e gritariam aos quatro ventos, ao mesmo tempo em que várias outras apareceriam defendendo sua "ousadia" e "liberdade de expressão" e o alçariam a micro-herói contra a "patrulha ideológica" ( não importando quão despropositada, grosseira ou pura e simplesmente inadequada a sua tradução fosse no fim das contas).
Agora, sabe o que é mais legal? Nenhuma das opções exclui completamente as outras.
...
Pra ser justo: tem quem ache que a mudança pode ter sido feita pelo editor, o que isentaria o tradutor de culpa. As teorias, contudo, seguiriam valendo, com exceção da primeira. Afinal, porque mais alguém mais de cima na hierarquia da Panini iria querer interferir no gibi de maneira tão grosseira? Ora, certamente que não por causa dos contratos sem licitação que a editora tem com o governo paulista. São só 27 milhões, afinal.
Integridade não tem preço.
Acontece que um tradutor (não colocarei o nome aqui), na revista nº 98 do Batman, deu de traduzir o adjetivo "nasty" (asqueroso, safado, canalha, malévolo, etc.) por... "petralha".
(Se você nunca ouviu o termo, não sou eu que vou lhe esclarecer. Google aí.)
Pois é. Teve bafafá e etc, obviamente. Um monte de gente estranhou, um monte de gente xingou, muitos nem entenderam, alguns não se importaram e outros apoiaram. A coisa foi repercutida até lá fora. O editor da Panini se desculpou. Teve até uma turma do "deixa-pra-lá" porque, afinal, o cara foi até "corajoso", assumiu a responsabilidade pelo tradutor e pediu desculpas.
(O mesmo tradutor, diga-se de passagem, já tinha dado uma outra gafe profissional, dessa vez envolvendo a tradicionalíssima revista italiana de faroeste-machão Tex. Nela, o personagem título aparece xingando de "macaco" um negro que o atacava -- tradução sem nada a ver com a fala original.)
Bem, era até pra deixar pra lá mesmo, mas... olhem só um trecho da "desculpa" :
Não houve por parte de ninguém da redação a intenção de atacar partido A ou B. O termo foi usado totalmente desvinculado de qualquer teor político, já que há muito ele deixou de ser apenas uma associação a um partido. O que me parece é que algumas pessoas desejam apenas ver sangue, ou seja, que alguém da redação seja mandado embora apenas para satisfazer seu ego cruel.
[...]Nosso erro foi pressupor que uma gíria que já perdeu o seu caráter político em alguns lugares, não o tenha perdido em todos. Não estávamos querendo tecer nenhuma crítica a partido algum. Acho que já deixei isso bastante claro. Só não entende quem não quiser"
Arrã. ("Vocês é que são uns frescos, rancorosos e desatualizados, mas eu peço desculpas, viu?").
E o Diretor de Marketing da empresa?
"A Panini considera o termo “petralha” como uma gíria que vem se popularizando no Brasil, e independente da origem do termo, não é mais utilizado no linguajar popular apenas com conotação política, mas como sinônimos para asqueroso, nojento, etc. "
Bom, pra mim nada que insulte tão desavergonhadamente a inteligência alheia deveria ficar sem comentário. O melhor comentário que vi até agora (gostaria que fosse o meu) foi o do cara do Liberal, Lertário, Libertino:
"Afinal, sério, eu chamo as pessoas de vaca piranha aleatoriamente, sabe? Pode ser homem, pode ser mulher: pra mim é tudo "vaca piranha". Ah, e meu amigo japa, o Inosuke, eu chamo ele de "crioulo" o tempo todo. Poxa, esse termo já perdeu qualquer associação com raça, oxe!"
Ofereço humildemente quatro opções de interpretação para o caso da polêmica tradução.
1. A ingenuidade:
O tradutor é só um simples panaca que convive com um ciclo social paulistano muito fechado, composto quase exclusivamente de leitores, amigos e filhos de leitores da Veja e afins que não dão tanta atenção para política, limitando-se a achar que "tudo o que está aí uma pouca vergonha e se privatizasse ficava bem melhor" e tendo como modelo máximo de politização alguns leitores de Mainardi e Reinaldo Azevedo. Para estes o termo "petralha" simplesmente virou "natural", sem ter conotação de ofender pessoas específicas --afinal, não ofende ninguém que eles conheçam, só "aqueles fulanos ladrões lá".
Santo isolamento social, Batman!
2. O mau perdedor:
o tradutor é anti-petista convicto e apaixonado e, ainda puto da vida com o resultado das eleições, não conseguiu conter sua indignação sagrada e pôs em ação uma micro-vingança contra esse governo corrupto (ou até mesmo contra os "petistas" que ele conhecia pessoalmente). Santo revanchismo, Batman!
2. A ditadura
Acreditando estar num regime de censura que colocou uma ex(?)-terrorista no poder, o tradutor quis fazer seu dever cívico de denúncia e de exercício da livre-expressão, ameaçada pela ditadura gramsciana do "politicamente correto", num ato que jamais poderia vir à tona nessa mídia controlada! (todo mundo que lê Veja, Estadão e Reinaldo Azevedo sabe que o Brasil com seu governo petralha é campeão de conteúdos censurados no google!!!!) Mas... como fazê-lo? Ora, através de uma guerrilha semântica num meio menos vigiado, aparentemente inofensivo... o gibi!! (Tchaaannnnnn!!!). Seria caso parecido na tradução de "macaco" na Revista do Tex...o sagrado dever de se desafiar o politicamente correto!
Mas, infelizmente para ela, revelou-se que nada está abaixo do radar da petralhada. Santa ditadura, Batman!
4. "O segredo do sucesso"):
Tanto no caso Batman quanto no caso Tex, o tradutor simplesmente quis aparecer. Saberia que um monte de pessoas espumariam e gritariam aos quatro ventos, ao mesmo tempo em que várias outras apareceriam defendendo sua "ousadia" e "liberdade de expressão" e o alçariam a micro-herói contra a "patrulha ideológica" ( não importando quão despropositada, grosseira ou pura e simplesmente inadequada a sua tradução fosse no fim das contas).
Agora, sabe o que é mais legal? Nenhuma das opções exclui completamente as outras.
...
Pra ser justo: tem quem ache que a mudança pode ter sido feita pelo editor, o que isentaria o tradutor de culpa. As teorias, contudo, seguiriam valendo, com exceção da primeira. Afinal, porque mais alguém mais de cima na hierarquia da Panini iria querer interferir no gibi de maneira tão grosseira? Ora, certamente que não por causa dos contratos sem licitação que a editora tem com o governo paulista. São só 27 milhões, afinal.
Integridade não tem preço.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
EUREKA! EUREKA!
Postado por
Gabriel G;
Mas não esperava fazê-lo a tempo de constar no nosso aniversário de 5 anos!!
Ei-la: a história em quadrinhos de Fernando Gonsales que inspirou o nome deste Wilbor: "Que rostinho lindo", devidamente digitalizada e adaptada ao formato de visualização de nosso humilde blog. (Hooray!)
Por um fortuito e surpreendente acaso, encontrei a revista perdida de minha coleção em uma feira de livros e revistas usados no Largo do Machado: a Níquel Náusea nº 22, de abril de 1994. É a sincronicidade agindo a serviço de nosso querido Wilbor.
O momento mais preciso que inspira o nome do blog está na quarta página da história (que tem 7).
Antes que o leitor estranhe, já aviso: no original, não é Wilbor quem se revolta. Mas se o leitor considerar a opção original, creio que há de concordar que, para se nomear um blog, foi uma troca até feliz.
Com vocês, a HQ:
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O MONSTRO SOUZA (4): The Monster Tour
Postado por
Gabriel G;
Agora em definitivo: futuras cidades, datas, horas e locais de lançamento na semana que vem.
E o nome definitivo da turnê, claro.
Tá confirmado: estarei em Sampa, dia 10 e Brasília, dias 11.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O MONSTRO SOUZA (3): Souza Tour
Postado por
Gabriel G;
(calma: este é provavelmente o último post sobre o Monstro...)
As datas e locais futuros e passados de lançamento d'O Monstro Souza Brasil afora:
As datas e locais futuros e passados de lançamento d'O Monstro Souza Brasil afora:
São Luís
Hoje, dia 23, às 21:00 na Feira do Livro.
Assista o videozinho nesse link. Reportagem da transmissora da Globo no Maranhão, a rede Mirante (que Bruno apelidou de Sarney News). Se desse, eu colocava o vídeo aqui ( e baixava pra mim também).
Curitiba
08 de dezembro, na Itiban. Junto ao Souza haverá o lançamento do volume 2 de Promessas de amor adesconhecidos enquanto espero o fim do mundo, de Pedro Franz, e Rua, de André Caliman.
Hoje, dia 23, às 21:00 na Feira do Livro.
Assista o videozinho nesse link. Reportagem da transmissora da Globo no Maranhão, a rede Mirante (que Bruno apelidou de Sarney News). Se desse, eu colocava o vídeo aqui ( e baixava pra mim também).
Curitiba
08 de dezembro, na Itiban. Junto ao Souza haverá o lançamento do volume 2 de Promessas de amor adesconhecidos enquanto espero o fim do mundo, de Pedro Franz, e Rua, de André Caliman.
São Paulo
10 de dezembro, na HQ mix (Praça Roosevelt, 142). lA ocasião também terá o lançamento paulistanao da ótima Golden Shower (já lançada na Rio Comic Con e na La Cucaracha)
Nesta eu estarei presente com Bruno!
Por agora é só.
10 de dezembro, na HQ mix (Praça Roosevelt, 142). lA ocasião também terá o lançamento paulistanao da ótima Golden Shower (já lançada na Rio Comic Con e na La Cucaracha)
Nesta eu estarei presente com Bruno!
Por agora é só.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
O MONSTRO SOUZA (2)
Postado por
Gabriel G;
Aconteceu.
O Monstro veio a público.
O livro, que pude finalmente ver, é um objeto bonito. Faz juz às espectativas que eu e Bruno tínhamos, e faz juz aos nossos esforços e aos esforços dos muitos colaboradores.
Estava lá na Comic Con e ainda está lá na Cucaracha e na Livraria da Travessa. Foi comprado e está sendo (eu espero) lido. Espero que suas qualidades sejam apreciadas; que dele se fale, que nossas piadas obscuras sejam compreendidas e que a maior parte dos erros que nosso amadorismo esforçado gerou passem despercebidos.
Links dos principais lugares onde foi noticiado até agora:
Quarto Mundo.
Universo HQ.
Então que se diga porque estamos aqui, e porque essa porralouquice existe impressa em papel. Ela existe, em primeiro lugar, porque Bruno é um cabra teimoso e obsessivo e porque eu continuo dando corda pra ele. Isto que se tem nas mãos, esse volume de papel e tinta, foi preparado, mastigado, deglutido, fermentado e regurgitado na mente e mão de seus autores há quase 10 anos. Com efeito, o primeiro esboço, desenhinho inocente que fiz a partir de uma descrição esdrúxula e insólita de monstro hot-dog, deve datar de 2000.
O Monstro veio a público.
O livro, que pude finalmente ver, é um objeto bonito. Faz juz às espectativas que eu e Bruno tínhamos, e faz juz aos nossos esforços e aos esforços dos muitos colaboradores.
Estava lá na Comic Con e ainda está lá na Cucaracha e na Livraria da Travessa. Foi comprado e está sendo (eu espero) lido. Espero que suas qualidades sejam apreciadas; que dele se fale, que nossas piadas obscuras sejam compreendidas e que a maior parte dos erros que nosso amadorismo esforçado gerou passem despercebidos.
Links dos principais lugares onde foi noticiado até agora:
Quarto Mundo.
Universo HQ.
Gibizada, blog do jornal O Globo.
Blog do Zema Ribeiro.
Diário do André.
Roteiro Aberto.
Em comemoração, adianto exclusivamente para os reservados leitores do Wilbor o "posfácio" que escrevi para O Monstro Souza.
(com o acréscimo de links e ilustrações outras que o livro não poderia ter... hehehe)
Blog do Zema Ribeiro.
Diário do André.
Roteiro Aberto.
Em comemoração, adianto exclusivamente para os reservados leitores do Wilbor o "posfácio" que escrevi para O Monstro Souza.
(com o acréscimo de links e ilustrações outras que o livro não poderia ter... hehehe)
Dos monstros e monstruosidades que se escreve e se imagina:
...eis que a lista é longa e a história é velha. Até na porralouquice, como em qualquer face primordial do ser humano, há tradição e há padrões; do alto de sua eruditíssima picaretice, Humberto Eco poderia falar do gore e do camp e das preferências “decadentistas” dos exageradamente sofisticados (put your hand on the hips!).
Mas que se possa citar de Rabelais até Marquês de Sade até um Rubem Fonseca até um Robert Crumb até um Chuck Palahniuk até um Lourenço Mutarelli nos âmbitos da sacanagem e da nojeira impressa é fato que, ainda que interessante, acrescenta pouco aqui. Exceto isto: que o deboche grotesco é uma forma enviesada, reincidente e contínua de análise social, de olhar para aquilo que ninguém está olhando. Não basta simplesmente escarafunchar o nojento, claro; é preciso encontrar aquilo que está lá no nojento e que não se vê por que é desagradável demais olhar pra todo aquele lodo e excremento por cima. Com o perdão da palavra, tem-se que transcender o nojento.
Então que se diga porque estamos aqui, e porque essa porralouquice existe impressa em papel. Ela existe, em primeiro lugar, porque Bruno é um cabra teimoso e obsessivo e porque eu continuo dando corda pra ele. Isto que se tem nas mãos, esse volume de papel e tinta, foi preparado, mastigado, deglutido, fermentado e regurgitado na mente e mão de seus autores há quase 10 anos. Com efeito, o primeiro esboço, desenhinho inocente que fiz a partir de uma descrição esdrúxula e insólita de monstro hot-dog, deve datar de 2000.Como um cachorro-quente de barraquinha, a porrada de partes e elementos do livro foram compondo um “todo” meio que por acumulação. Este volume é quase um fanzine que foi inchando e inchando até ficar enorme, complexo e pretensioso — até querer virar “livro”. Aí é que a colcha de retalhos da narrativa passou a receber algo que pudesse ser chamado de “arquitetura”. Ainda que, muito à brasileira, uma arquitetura do puxadinho.
Mas o que faz alguém amarrar seu bode por 10 anos numa idéia troncha dessas, meu Zeus? Aí é que está: é preciso “transcender” a sujeira, e dar sentido e validade a tudo isso virou também missão. Missão essa com o bônus de manter aceso nosso constante bate-bola de idéias.
De fato, este livro é fundamentalmente resultado de diálogo: um longo, trabalhoso e divertido papo de Bruno com um monte de pessoas. Eu, de início só um dos vários colaboradores, pela constância acabei tomando conta do pedaço e virando o interlocutor principal. Na parceria que acabamos firmando, foi altíssimo o nível de pitacos e interferências mútuas um nas competências do outro, de maneira que os limites de autoria ficaram um pouco promíscuos (e acabei ganhando meu nome na capa!). Mas embora quase tudo na forma e conteúdo em suas mãos tenha marcas de dedos de nós dois, acho que é justo identificar melhor as atribuições.
O livro foi basicamente “escrito, dirigido e produzido” por Bruno. Ele teve a idéia original toda e persistiu nela; escreveu o texto todo, bem como os roteiros de todas as histórias em quadrinhos; pesquisou, coletou e organizou os recortes, citações e todo o material “conteudístico”. Bruno também foi quem saiu por aí, incansavelmente, caçando e cutucando colaboradores, pavimentando a viabilidade do livro. É autor com A maiúsculo.
Eu poderia dizer que, de forma geral, organizei e burilei a forma visual que o livro veio a ter. Fiz o projeto gráfico, tipografei, diagramei, iconizei, desenhei; letreirei três histórias em quadrinhos (“a vida secreta das ervilhas”,”corações em chamas” e “caralho! uma aventura do delegado Caolho”) e co-roteirizei uma (“alguns capítulos atrás); criei o logo do Monstro e outras coisitas. Colocado assim parece simples, mas reitero que o processo foi muito mais promíscuo: Bruno também se meteu a diagramar diretamente às vezes, e eu também contribuí o tempo todo com a estruturação da “arquitetura” do livro (“gênese”, “revelações”, etc), com sugestões de organização e de texto. Um diálogo, enfim, em que olhares e habilidades diferentes se bateram sobre as mesmas coisas.
Fiel à geração editorial “dos anos 00” , este livro é mais um que deve sua existência à internet, à pirataria de software e ao barateamento dos processos de impressão. Eu e Bruno somos rigorosamente amadores: não ganhamos a vida com o que aqui fizemos (escrever, desenhar, diagramar e etc.), e não poderíamos bancar nem sequer os programas com os quais o fizemos. Sem falar que, sem a internet, seria impossível arregimentar tamanha variedade geográfica de colaboradores: gente em São Luís, Curitiba, Rio de Janeiro, São Carlos, Maringá, Teresina, São Paulo. Mais ainda, sem a web nossa própria parceria dificilmente teria vingado: na maior parte do tempo, nosso diálogo se deu a uma distância de quase três mil quilômetros. Eu, que saí da ilha há uns 13 anos, e Bruno, que continuou na sarjeta tentando nadar de braçada em sangue, merda e resto de baré tutti-fruti.
A ilha, de fato, é onipresente em seu isolamento. Se há uma inspiração maior em nossa “missão”, bem como uma espinha dorsal (salsicha literária) neste livro-hotdog, essa é a cidade de São Luís do Maranhão. Josué Montello (pra quem o Bruno paga o maior pau) costurava várias de suas tramas a partir dos lugares. Sua construção de uma experiência literária da cidade (ou de uma experiência da cidade pela literatura – enfim, um negócio pra Benjaminianos ruminarem) é algo fortemente enraizado em Bruno. Claro que, na superfície, nada mais avesso a essa literatura grande que este livro pós-modernozinho aqui em mãos: Montello, São Luís e São Luís via Montello são uma referência básica para Bruno, mas não muito diferente de como o são Star Trek, Hellraiser, o cancioneiro brega e a cultura trash. Referencial esquizofrênico para uma cidade esquizofrênica numa geração idem.
Até mais que eu, Bruno ama o obscuro. E não se desculpa com ninguém por isso. Neste livro de piadas cifradas, nem tudo é pra ser compreendido de primeira, mas tudo tem sentido. Da mesma maneira que na vida real, digamos — nem que seja apenas aquele sentido grosseiro, o da pura causalidade.
Bruno também ama o feio. Amar e falar de São Luís exige um pouco isso, pois até e principalmente na beleza São Luís é ilha, rodeada de feiúra por todos os lados e com poucas pontes. Mas uma feiúra fértil, feiúra-humus, feiúra (sub)urbana de pobreza e sujeira e terreno baldio e ruína e mato e mofo, numa panela de pressão de calor melado, asfalto escaldante e mar barrento.
O mar, como o asfalto, é cinza; mas dá brisa.
Gabriel Girnos
outubro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O MONSTRO SOUZA
Postado por
Gabriel G;
Agora é pra valer.
Após intermináveis adiamentos, revisões e canos de editoras, eu e Bruno Azevêdo, do O PUTAQUEPARIU!, estamos lançando nosso velho, velho projeto O Monstro Souza.
Após intermináveis adiamentos, revisões e canos de editoras, eu e Bruno Azevêdo, do O PUTAQUEPARIU!, estamos lançando nosso velho, velho projeto O Monstro Souza.
Após vários estudos, opções e dores de cabeça, esta é a capa definitiva. Seguindo o histórico multicolaborativo e coletivo desse livro, convidamos o renomado Marcatti, grande autor do quadrinho underground brasileiro, para fazer o desenho original... e ele topou! Taí o resultado.
Já falamos uma ou outra vez aqui no Wilbor sobre esse projeto, citando o prêmio de literatura maranhense que ele ganhou (antes mesmo de ser lançado...) e até dando um "spoiler" de uma das HQs, desenhada por mim.
Pra quem quer saber o que diabos é o livro:
Conteúdo: em termos gerais, trata-se de uma paródia/pastiche dos absurdos da capital e da cultura maranhenses em meio à cultura de massa contemporânea, tudo a partir da história de um cachorro-quente de 1,80m de altura que trabalha como “loverbói” no centro histórico de São Luís e é um assassino serial.
Forma: o romance é uma narrativa grotesca de humor negro, que sobrepõe ao texto uma miríade de informações e referências culturais de outras mídias: histórias em quadrinhos, ilustrações, recortes e informações jornalísticas impressas e transcrições locuções de rádio. Enfim, um conjunto "transmidiático" que mistura fatos fictícios, fatos reais e fatos reais-mas-que-parecem-fictícios, como a história de Hidramix Hinfinito.
O lançamento do livro já começou a ser anunciado, inicialmente pelo Bigorna, e agora também pelo Ambrosia. Há uma entrevista bacana do Bruno neste blog aqui., e um comentário muito legal do excelente desenhista Odyr em seu blog. Mais à frente, deverei atualizar os novos links que aparecerem e dar notícias do andamento...
Como citei antes, o Monstro Souza foi uma construção de uma pancada de colaboradores. Já está no ar o blog do livro, que pretende juntar material inédito e desenhos de todos aqueles que participaram em algum momento da criação do livro, bem como de todos aqueles que, por qualquer motivo inescrutável, quiserem desenhar o Monstro e mandar o resultado pra mim ou para o Bruno.
O livro terá seu primeiro "grande" lançamento no Rio de Janeiro agora no dia 12 de novembro, em meio a Rio Comic Con 2010. Planeja-se lançamentos nas próximas semanas em São Paulo, Curitiba, Brasília e, é claro, São Luís. Assim que tiver as datas certinhas, postá-las-ei aqui.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
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