sábado, 12 de março de 2011

piada inconveniente

Única menção na segunda página da Folha de S. Paulo sobre a tragédia de ontem no Japão:



É do João Montanaro, chargista de 15 anos que ocupa, desde o ano passado, a charge da página 2 nos dias de sábado.

Não quero julgar o garoto, mas é o tipo de piada que certamente pega mal...assim que abri a Folha de hoje fiquei imaginando que amanhã (domingo), haverão muitas cartas de leitores revoltados.  A segunda página é o espaço do editorial da Folha, no qual eles emitem opiniões.  Já que o jornal se absteve de falar qualquer coisa em editorial, mesmo porque é difícil emitir opiniões acerca de eventos naturais fora de nosso controle, seria prudente não ter charge sobre o assunto...se quisessem, poderiam comparar com o terremoto do Haiti, que matou 200 mil, ou mesmo com o tsunâmi do Índico de 2004, que atingiu o sudeste asiático deixando 295 mil mortos, ressaltando a diferença que a infra-estrutura faz;

Por um lado, é louvável que a Folha não interfira no trabalho de seus colaboradores, assim, o Angeli publica o que bem entende...mas nesse caso, talvez fosse prudente um telefonema perguntando "você tem certeza que quer publicar essa charge?

A responsabilidade é do jornal.  E não é a primeira vez que isso ocorre.  Em agosto de 2009, o caderno de turismo da Folha trazia uma manchete de gosto duvidoso: "Balança, mas não cai", uma piadinha que fazia referência ao balançar dos navios de cruzeiro e com o acidente da TAM em Congonhas.

Tudo bem pro João, que vem mandando muito bem, mas tem apenas 15 anos.  Falta dos "adultos responsáveis" da Folha.

6 comentários:

joão disse...

Oi cara tudo bem?

Queria dizer que minha intenção não era mesmo fazer uma piada, eu apenas ilustrei o desastre. Não tem piada nem critica apenas um desenho retratando o desastre.
Na verdade foi bem difícil fazer essa charge pois não tem como fazer charge sobre cataclisma.

joao m

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Oi João,


Cara, eu quis fazer uma crítica à Folha. Eu não me senti pessoalmente ofendido, mas assim que vi o jornal sabia que muita gente se ofenderia.

Tenho certeza de que você fez a charge na maior inocência mesmo, mas acho que o jornal poderia ter pensado melhor.

Gosto muito do seu trabalho, tem até um outro post sobre você:

http://wrevolta.blogspot.com/2010/05/novidade.html

Abração e fica frio.

Ernst disse...

Charges não são necessariamente piadas, mas um convite à reflexão...

Não vejo nenhum problema em ilustrar a tragédia.. muito menos na publicaçao da charge...

os leitores da folha deveriam estar mais preparados para imagens que incomodam e aceitar o convite ao pensamento..

Parabéns Joao..

Gabriel G; disse...

Bom você aparecer por aqui, João. Gostamos do seu trabalho.

Compreendo e acredito que seu intuito não foi fazer piada. Eu também não consegui não pensar na referência do Hokusai quando vi o fato na televisão.
Mas o problema -- ainda mais num traço leve como o teu -- é que pra muita gente a charge ia acabar soando uma espécie de piada mesmo.

Me solidarizo com sua situação: é extremamente difícil tratar de tragédias, representá-las. Às vezes se acerta melhor o tom, às vezes não. Parabenizo João pela coragem, ainda que teu tom tenha também me parecido um pouco "leve" demais pro assunto -- então muitas pessoas vão confundi-lo com leviandade (e o limite entre ousadia e leviandade, infelizmente, é sutil).
No tratamento de tragédias, acho que o "no comments" do Angeli, feito por conta do 11 de setembro, foi talvez o melhor exemplo que já vi: conseguiu o tom certo de perplexidade, sem deixar dúvidas de que não era nada "engraçado".

Mas, novamente, é difícil lidar com essas coisas.

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Bom, conforme eu previ, a repercussão na Folha foi das piores.

Volto a dizer: nada contra a charge do João.

Agora, depois disso tudo, o jornal se viu obrigado a dar voz à multidão revoltosa que se manifestou e ainda colocar a equipe de chargistas e quadrinhistas para defender o garoto João. Laerte, Adão, Sieber...até o Ziraldo foi lá dizer que ele gostaria de ter tido a idéia.

Acho que o saldo final é o seguinte: uma exposição negativa desnecessária desse menino que é um grande talento; e uma charge que - repito - não tem nada de mais, pro bem ou pro mal.

Gabriel G; disse...

A internet tem o incontornável problema de "caixa de ressonância". As coisas tendem a virar bolas de neve...

A tempo: tenho comigo que um dos piores jeitos de tratar esse assunto é levar pra arena do "politicamente correto" versus "policamente incorreto".
É o que eu vi em parte dois comentários deste texto: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/889553-cartunista-da-folha-e-criticado-por-retratar-tsunami-em-charge.shtml

Eu vejo a coisa assim: declarou-se algo potencialmente ofensivo; esse algo ofendeu algumas pessoas; elas se manifestam contra isso -- às vezes de forma emocional e estúpida, as vezes de maneira razoável; o contrariado responde ; e por aí vai: forma-se um debate.
Isso chama-se "esfera pública": não só dizer o que se quer, mas ser responsabilizado e questionado por isso.
Mas me parece que a maioria das pessoas simplesmente não está preparada para o dissenso e entra na defensiva: tudo vira "patrulha".
Acho que defesa que o Adão fez, por exemplo, foi uma das piores,chamando quem não gostou da charge de burro. Não é preciso ser burro pra sentir-se desconfortável com o desenho do João (mas ate aí, normal: algumas pessoas são especialmente rápidas e loquazes em apontar a burrice dos outros). O melhor comentário ali me pareceu o do Sidney Gusmão: não se ofendeu, mas entendeu bem porque certas pessoas se ofenderiam...