terça-feira, 29 de junho de 2010

Mais que mil palavras





.... se tem algo que ninguém nunca poderá fazer é acusar Serra de ser inexpressivo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Infomania

Este é um programa americano que assisti na semana passada e que achei muito, muito engraçado. Ele basicamente comenta a mídia, o que aparece na mídia, mas com um humor bem afiado e interessante.
Eu já conhecia e gostava de um dos blocos dele -- o ótimo "Target: women", onde a comediante Sarah Haskins tira sarro dos estereótipos machistas presentes em propagandas de produtos femininos (conheci através do "falecido" Blog da Marjorie). Com exceção de uns poucos momentos, o programa inteiro vale muito a pena assistir.

Por coincidência, o primeiro e único episódio que assisti até agora foi justamente um feito na época da morte de Michael Jackson. Por isso, resolvi colocá-lo aqui como parte do "memorial" jacksoniando...




(Prestem atenção na parte em que mostram como o pai de Jackson usa o breve momento sob os holofotes ocasionado pela morte do filho para... fazer propaganda de sua gravadora. É constrangedor.)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago 2

por Marcelo

Devo começar pedindo desculpas ao Gabriel pelo atropelamento do post dele, mas como a morte do Saramago é uma dessas coisas das quais deve-se falar logo, não achei outra saída que não atrelar os dois textos.  Eu vinha pensando em escrever algo desde que soube de sua morte, mas um trabalho do mestrado e a copa do mundo me impediram de fazê-lo antes

Concordo plenamente com a primeira assertiva do Gabriel: "Saramago foi um daqueles que me fez ficar feliz por eu pertencer à língua portuguesa, e me fazia olhar com certa pena àqueles que não a têm impressa em si.".

 Saramago tinha muito mais que um estilo próprio, era rico em conteúdo e um belíssimo contador de histórias.  A analogia que me vem à mente é a de um grande jazzista das palavras: um artista que domina tanto o seu objeto de trabalho, no caso, a língua portuguesa, que é capaz de criar coisas impressionantes manipulando a língua, seja através de dissonâncias ou variações de melodia, mas sempre mantendo-se claramente conectado à trama principal.  Nesse sentido, acho que não é exagero dizer que Saramago foi um jazzman.



Quanto à sua temática, Saramago se destacou como um criador de parábolas fantásticas - muitas de suas histórias já têm início com o fato.  O português não era de perder muito tempo nas descrições "pré-enredo", e nesse aspecto, me lembra um tanto o Kafka - essa, prometo, será a única referência externa, a obra de Saramago é muito original e extensa, a comparação com outros autores não aumenta ou diminui em nada o que fez.

Como o Gabriel, o primeiro livro que li do autor foi "O evangelho segundo Jesus Cristo", e foi uma obra que me impressionou muito.  O ateísmo de Saramago é de uma vertente inusitada para aqueles que, como eu, estamos acostumados a discutir o tema a partir da ciência.  Saramago, pelo menos em sua obra, o faz a partir de uma minuciosa análise dos personagens bíblicos, das horríveis histórias contadas tanto no Novo quanto no Antigo Testamento.  Coisa curiosa é o fato de ter escrito seu primeiro livro do tema Deus (não li muita coisa dele, talvez tenha escrito algo antes) tratar justamente no Novo Testamento, onde, segundo os católicos, surge o "Deus do Amor", em substituição à figura perversa do Antigo Testamento, o "monstro do mal" de Dawkins.  Jesus aparece como um sujeito ingênuo, que revoltado com a morte do pai (José, e não Deus) foge de casa e é criado por um pastor racionalista - o Diabo.  A trama é deliciosa e altamente recomendável.

Outra curiosidade é o fato de seu último livro tratar justamente da covarde argumentação contra o Deus mau do antigo testamento (é mau no novo também).  Nas obras de Saramago, o deus bíblico era bastante poderoso, mas não onipotente ou infalível.  Assume não ser capaz do impossível e nem sabe o que os homens pensam.  Somente um deus com essas características seria compatível com as ações descritas na Bíblia.  Penso que "Caim" é um dos melhores fechos possíveis para a obra, apesar de ser muito inferior ao "Evangelho".

Quanto ao filme "Blindness", conversei com muita gente que não gostou - todos os que tinham lido o livro.  A exemplo do Gabriel, eu gostei bastante e penso que a adaptação foi muito bem feita para a compreensão na língua inglesa - acho um belo filme.  De qualquer forma, tem uma cena que torna desnecessária qualquer defesa ao filme de Meirelles:


O velhinho só não fará mais falta ainda porque sua obra permanecerá para sempre, e além de me faltar ainda ler muita coisa, há os que certamente serão relidos.  De qualquer forma, um mundo sem a presença de sua personalidade fica certamente mais pobre.

Pra concluir com alguma graça, duas coisas:

1. O jornal do vaticano, aquele mesmo que publicou a declaração do papa afirmando que a máquina de lavar tinha feito mais pela mulher que a pílula, que discutimos nesse outro post, não poderia deixar de comentar a morte de Saramago.Em artigo publicado no último domingo, só faltou mesmo dizer que o português certamente estaria no inferno, coisa que certamente divertiria o autor, caso vivo estivesse.  Pra quem quiser conferir, é só clicar aqui.

2. A revolta da igreja começou com "O evangelho" e terminou com "Caim", do qual transcrevo um trechinho no qual deus acaba de explicar o plano do dilúvio para Caim, na presença de Noé:

    "(...) Então Caim disse, Com estas dimensões e a carga que vai levar dentro, a arca não poderá flutuar, quando o vale começar a ser inundado não haverá impulso de água capaz de a levantar do chão, o resultado será afogarem-se todos os que lá estiverem e a esperada salvação transformar-se-á em ratoeira, Os meus cálculos não me dizem isso, emendou o senhor, Os teus cálculos estão errados, um barco deve ser construído junto à água, não num vale rodeado de montanhas, a uma distância enorme do mar, quando está terminado empurra-se para a água e é o próprio mar, ou rio, se for esse o caso, que se encarregam de o levantar, talvez não saibas que os barcos flutuam porque todo o corpo submergido num fluido experimenta um impulso vertical e para cima igual ao peso do volume do fluido desalojado, é o princípio de arquimedes, Permite, senhor, que eu expresse o meu pensamento, disse noé, Fala, disse deus, manifestamente contrariado, Caim tem razão, senhor. se ficarmos aqui à espera de que a água nos levante acabaremos por morrer todos afogados e não poderá haver outra humanidade.  Enrugando a testa para pensar melhor, o senhor deu umas quantas voltas ao assunto e acabou por chegar à mesma conclusão, tanto trabalho para inventar um vale que nunca existira antes, e afinal para nada.  Então disse, O caso tem bom remédio, quando a arca estiver pronta mandarei os meus anjos operários para a levarem pelos ares para a costa do mar mais próxima, É muito peso, senhor, os anjos não vão poder, disse noé, Não sabes a força que têm os anjos, com um só dedolevantariam uma montanha, o que vale é serem tão disciplinados, não fosse isso e já teriam organizado um complô para me deporem, Como satã, disse caim, Sim, como satã, mas a este jã lhe encontrei a maneira de o trazer contente, de vez em quando deixo-lhe uma vítima nas mãos para que se entretenha, e isso lhe basta, Tal como fizeste a job, que não ousou amaldiçoar-te, mas que leva no coração toda a amargura do mundo, Que sabes tu do coração de job, Nada, mas sei tudo do meu e alguma coisa do teu, respondeu caim, Não creio, os deuses são como poços sem fundo, se te debruçares neles nem mesmo a tua imagemconseguirás ver, Com o tempo todos os poços acabam por secar, a tua hora também há de chegar.  O senhor não respondeu, mas olhou fixamente caim e disse, O teu sinal na testa está maior, parece um sol negro a levantar-se do horizonte dos olhos, Bravo, exclamou caim batendo palmas, não sabia que fosses dado à poesia, É o que digo, não sabes nada de mim.  Com esta magoada declaração deus afastou-se e, mais discretamente que a chegada, sumiu-se noutra dimensão.
    Picado por um debate em que, na opinião de qualquer observador imparcial, não tinha feito a melhor das figuras, o senhor resolveu mudar de planos.  Acabar com a humanidade não era o que poderia se chamar de uma tarefa urgente, a obrigada extinção do bicho-homem poderia esperar dois ou três ou mesmo dez séculos, mas, uma vez que havia tomado a decisão, deus andava a sentir uma espécie de comichão na ponta dos dedos que era sinal de impaciência grave."

 




Saramago

Morreu. E muitos falaram e vão falar muitas coisas; não tenho nada particularmente relevante para falar, mas ainda assim vou dizer três coisas.

1.  Saramago foi um daqueles que me fez ficar feliz por eu pertencer à língua portuguesa, e me fazia olhar com certa pena àqueles que não a têm impressa em si.
Após ler Ensaio sobre a cegueira, fiquei contagiado algumas semanas a pensar "saramagueamente", a produzir em minha cabeça frases que parodiavam/imitavam/homenageavam seu estilo peculiarmente e poeticamente lusitano de se expressar. Isso já passou faz tempo, mas ainda agora fico imaginando como os pobres tradutores poderia tentar verter suas saborosas/áridas construções de palavras para o inglês, por exemplo, sem se sentirem completamente inadequados à tarefa e sem sentirem, mesmo que só por um pequeno momento, sua própria língua como algo  inadequado.
(Pensando bem, talvez o filme "Blindness" de Fernando Meirelles seja a melhor adaptação possível de Ensaio sobre a cegueira, não para o cinema, mas para a língua inglesa...)

2. Curiosamente, o primeiro livro de Saramago que li me foi emprestado pelo Marcelo: O Evangelho segundo Jesus Cristo. Foi também o primeiro livro de Saramago de que ouvi falar, ainda na adolescência, através de minha mãe.
Eu andava com uma idéia de roteiro na minha cabeça envolvendo Jesus e o diabo. Meio surpreendido, ao ler o livro vi que Saramago já tinha há muito feito dentro dele algo na direção pretendida por mim (e com aquela elegância e profundidade que fazem suas idéias parecerem rabiscadas por um chipanzé esforçado). Então: Saramago me fez desistir de uma história.
(Ao mesmo tempo, fiquei pensando o que Neil Gaiman -- tão interessado em Deuses como persongens de suas obras --acharia se lesse o livro. Mas aí já entra o problema acima referido da tradução.)

3. O primeiro texto que li de Saramago foi sua introdução ao livro Terra, de Sebastião Salgado. Livro ao qual tenho hoje várias ressalvas (como a todos os livros de SS: qual o mercado em torno deles, afinal?). Mas o texto inicial até hoje está em minha memória.


Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a idéia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.

Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar -  as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.

Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de Si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea maxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido.

Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas. Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão.

Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.” E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito.” E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece." E Deus: "Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.” Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.” Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas. 


Após tantas e tantas palavras: o resto, disse-o outro, é o silêncio.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Consumidores de Informação"

Semanas atrás, fui num sarau aqui no Rio -- um dos sarais promovidos pela comunidade do Luís Nassif
Foi uma experiência muito interessante, conversei muito algumas pessoas antes desconhecidas -- por acaso, todas muito mais velhas que eu -- e todos eram muito animados e até deslumbrados com as possibilidades de debate e difusão de informações na internet, bem como extremamente críticos da grande imprensa brasileira. 
Nassif era, sem exagero, um verdadeiro herói para vários dos presentes lá (o que me deixa um pouco desconfortável às vezes, mas isso é assunto pra outro post).


Eu já acompanho há uns anos o blog do Nassif. Nunca tinha me filiado, apenas comentava muito esporadicamente alguns posts. Mas vi a gradativa onda gigantesca de pessoas se somando a ele, tonando-o um espaço de direcionamento cada vez mais coletivo. (e que, por exclusão em relação à grande imprensa, cada vez mais diretamente pró-Lula, o que é assunto para aquele outro post)
Pra quem não sabe, o Nassif publica textos e comentários dos freqüentadores do seu site e dos ligados à sua comunidade, quando estes lhe parecem pertinentes. Eu falei isso pra alguém lá no Sarau e concordaram comigo: Nassif é hoje um editor de jornal virtual. Um jornal que, por sua vez, não é uma empresa, mais uma montagem de livres contribuições e debates coletivos. 


Mas bem. Indo ao assunto mais específico. Um ou dois dias depois do Sarau,  Nassif escreveu um post sobre a contínua guinada à direita do discurso da grande imprensa e a apelação na discussão de política externa, se valendo da retórica "neo-con" (um assunto antigo do Nassif), e dizendo que era um lento suicídio, que os exageros a que eles chegavam  eram algo que só tinha repercussão "na extrema direita e nas viúvas de Sierra Maestra". Eu fiz um comentário ao post; nada muito elaborado ou longo, e não possuía título algum.

E, pra minha surpresa, pela primeira vez um comentário meu foi publicado no blog. (eu só fiquei sabendo pela Marininha, que me scrapou no facebook). O que saiu no Nassif foi mais ou menos isso:



Consenso Frio e os consumidores de Informação
por Gabriel Girnos

Nassif,


Infelizmente pra mim, acho que esse discurso falacioso tem um alcance muito maior do que o que você dá a entender.
Tem uma coisa que eu ando chamando de "consenso frio".É um consenso mais ou menos inconsciente, que toma aspectos de senso comum e que pode ser mudado facilmente, porque é sobre aquelas questões que as pessoas sabem pouco -- como por exemplo, política externa. Porém, assim como pode ser mudado facilmente, esse consenso frio pode ser mantido facilmente, bastando a repetição da mesma lenga-lenga todo santo dia.
Exite uma classe especialmente suscetível a esse consenso: a classe dos consumidores de informação, aqueles que (para si mesmos) se distinguem do "povão" por ler jornais e estarem "informados", mas que ao mesmo tempo não chegam a ser críticos e analíticos a respeito do que estão lendo. É dessa classe informada, bem mais ampla do que apenas uma extrema direita encarnecida, que surge o grande número de pessoas dispostas a acreditar em tudo de ruim que se fala sobre um "ignorante" como o Lula, ou sobre os "radicais" da Bolívia.  É para essa classe que a Veja fala, e infelizmente eu acho que ainda surte bastante efeito.
Digo isto como professor universitário: estou cansado de ver como tudo que aparece na grande imprensa repercute nas falas coloquiais de meus colegas, pessoas que fazem parte das parcelas mais instruídas da população e não se vêem absolutamente como "de direita".


Acho que nunca fui tão lido na minha vida. Fiquei feliz da vida de ver bastante gente concordando, comentando, discutindo. Anunciei no Twitter e etc.
Repito: eu não era filiado à comunidade. Pode ser que a minha presença lá no Sarau tenha feito com que achassem que eu era um participante constante (há muitos), e portanto alguém "publicável" lá... talvez. Não sei. Mas coincidência ou não, foi logo após aparecer lá que fui publicado.
(ah, pra esclarecer: todos sabiam o nome de todos lá no Sarau, porque foi pedido que usássemos crachás com os nomes "internéticos". A coisa faz sentido, se você pensar que muitos já se conhecem via web mas nunca se viram pessoalmente)

Aí, semana passada o site do Nassif se transferiu para outro endereço, mudou o sistema de idexação.... e adivinhem: o post do meu comentário simplesmente desapareceu. Os links que eu coloquei para o post dão todos n'água.

Não sei se alguma hora ele vai reaparecer; mas resolvi colocar aqui alguns links e provas de que esse post (criador de meus "primeiros 15 minutos de fama" na internet) ao menos existiu.  Um está neste blog aqui, de um Roberto que eu não conhecia: http://beto-bob.blogspot.com/2010/05/os-consumidores-de-informacao.html


Na esteira da discussão subseqüente ao post no site de Nassif,  apareceram algumas questões e apontamentos interessantes.  Roberto (do link que coloquei acima) lembrou de uma propaganda escabrosa da Veja que ilustra bem a idéia de "consumidores de informação"... ou, melhor ainda, aquilo que o Marcelo costuma chamar "população semi-educada" do Brasil. 


Enjoy:




Pra finalizar. 
Outro comentarista, o "Jotavê", ressaltou algo muito importante: o quanto esse comportamento de "consumidor de informação" não de modo algum é exclusividade da "direita", coisa com a qual eu concordei totalmente. Inclusive, a posição de reprodução de idéias prontas e clichezões de esquerda -- na política, na imprensa, na academia e na militância estudantil -- é algo que me incomoda muito o tempo todo, e que me deixa constrangido (o Marcelo sabe muito bem do que falo). Fiz o seguinte comentário em meio à discussão do post:


- Jotavê, eu concordo plenamente com você. Já cansei de ver também preconceitos e falácias repetidas entre pessoas de esquerda às quais me sentiria, a princípio, mais próximo. A questão é mais de atitude que de conteúdo. Digo mais: quando eu falo de "consumidores de informação" eu incluo a todos nós internautas e comentaristas também. Todo "produtor" de informação é também um "consumidor".

Acho que esse um dos pontos principais do problema é o uso do conhecimento como "distinção" -- como instrumento para se sobressair perante outras pessoas. Digo isso porque se trata de um vício ao qual TODAS as pessoas instruídas estão suscetíveis. A "nossa" tentação aqui, por exemplo, seria a de, subrepticiamente, nos julgarmos o máximo perto dos "simples e alienados consumidores de informação", e aí começarmos a incorrer em auto-elogios. 

Temos que nos policiar contra esse sentimento (que é tão humano). Cultura e conhecimento não podem se limitar a um smartass contest.




E foi isso. Seria legal de ser "publicado" de novo numa plataforma tão lida, mas não vou contar muito com essa possibilidade.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Efeito feudalizante do Neo Liberalismo e do Comunismo uma Querela Insanável

Texto enviado por Marcel Rodrigo Alexandrino


Pretensamente, em uma análise rápida, mas não leviana, ao observar alguns programas televisivos me ocorreu a ululante contradição nos comentários feitos em diversos telejornais em especial da rede Bandeirantes.
Por vezes, os comentaristas dizem que o Estado gasta demais e precisamos diminuir o custo social e o custo país para balanceamento das contas públicas e para deixar o Brasil mais competitivo. Aliás, diga-se de passagem para deixar a República Federativa do Brasil, nome de nosso país, mais competitiva e alavancar nosso país a um novo patamar de desenvolvimento e austeridade político-econômico.
Contudo, em outro momento, os mesmos comentaristas dizem que o Estado não acolhe as pessoas necessitadas, que falta segurança, saúde e educação. Enfim, que existem gargalos no tripé básico da sociedade, além de incluir a “estrutura de base” do país nesse rol de investimentos.
Nos parece altamente contraditórias tais afirmações, senão vejamos.
Primeiramente, a afirmativa de que precisamos alavancar o país a um novo patamar de desenvolvimento cortando gastos públicos é muita vaga, umas que dá diversas margens a interpretações, quais seriam esses gastos públicos?
O indicativo, geralmente, transparece em corte de gastos do funcionalismo público, sendo que são justamente estes agentes que são os responsáveis pela educação, segurança e saúde.
Todavia, me pergunto como tal passe de mágica é possível se no Brasil ainda o aludido tripé básico da sociedade é manco???
Quer dizer, o governo deve cortar gastos de investimentos públicos, melhorar a segurança, melhorar o serviço público de saúde e a educação.
Não podemos quedar, de melhorar e otimizar toda estrutura de base do país para apronta-lo o mais rápido possível para um up no crescimento econômico.
Me parece, que cortar gastos de investimento público e dinamizar toda a estrutura do país ficaria inviável.
Obviamente, não me remeto aqui, a cargos de altos salários, como juizes, promotores e alguns defensores públicos, ou altos cargos da Petrobrás, por exemplo. Me refiro, ao funcionário padrão que trabalha na base da sociedade dando suporte ao povo, me refiro a corte de salários do bancário da Caixa Econômica que trabalha todo dia tendo que cumprir metas, ao psicólogo e assistente social que trabalham com problemas diuturnos junto a população desamparada (justamente pela presença adequada do Estado).
Luminescente, assim espero pelo menos, que se argumenta aqui, no entendimento que os gastos excessivos e/ou desnecessários e superfaturamentos, bem como desvios de verbas e finalidade devem ser tratados com o máximo rigor civil e criminal possível, e não só como uma questão de autotutela e autoexecutoriedade interna da Administração Pública. Coibidos e caçados (cassados também) como fugitivos na noite pela própria e incansável longa manus estatal e sob o olhar vigilante da própria sociedade civil organizada e de cidadãos em sua configuração atômica, isto é, individual, que por sinal são os mesmos que legitimam o próprio governo e a própria existência do Estado.
Assim, a postura leviana ao se comentar superficialidades em programas de visualização universalizante e formadora/divulgadora de opinião é no mínimo antiética, quando não criminosa. Na realidade, para mentes um pouco mais tocadas pela escola de um pensamento crítico tais afirmações levianas beiram, em verdade, a jocosidade.
Retornando ao pensamento anterior, cortes de gastos e investimentos são amplamente contraditórios, gerando, praticamente, um “dilema irretorquível”.
Ademais, não podemos esquecer que cortes de gastos públicos alardeados, como o são, pela mídia padrão nascidas de uma análise simplista e paradoxal, foram intentadas no suposto Milagre Econômico brasileiro da década de setenta.
Onde, se teve êxito econômico, mas sem divisão de renda com a população, nem investimentos estruturantes, sendo que na primeira crise econômica (foi uma grande crise, mas mesmo assim) o país mergulhou no caos, onde ao fim do período ditatorial viu-se o Brasil, afundado em dívidas, sem estrutura para crescer ao fim da crise, sem dinheiro para investimento sociais, que já não eram feitos, e com uma “batata quente” nas mãos, qual seja, inflação galopante.
Na realidade, tanto, pela falta de divisão e investimentos, quanto pela força que substituiu o pacto social e o necessário mutualismo entre sociedade civil e Estado, conforme ideais contratualistas , levou o Brasil a sofrer reflexos negativos mesmo na atualidade, mais de vinte anos após o fim da ditadura.
A dualidade desta discussão nos faz remeter a velhas discussão, hoje démodé, entre o Capitalismo Liberal e o Comunismo leninista.
No comunismo, haveria fases a serem seguidas, todas preceituados por Karl Marx e Engels, que superficialmente falando, no leninismo, pularia-se algumas dessas fases, incluindo-se o afamado Um Passo Em Frente, Dois Passos Atrás, onde primeiramente a Rússia (antes da formação da União Soviética) passou por um rápido capitalismo estruturante do país para depois reverter todos os bens e investimentos em um Socialismo, tendo como base um Estado mãe que a todos nutria e fornecia o necessário, comandado pela ditadura do Proletariado e fundamentado em uma economia planificada, isto é, sem, em tese, camadas sociais.,
Ao contrário do que alguns desavisados podem pensar, o Socialismo marxista-leninista, seria um tipo (“não me matem senhores sociólogos”) de evolução do capitalismo, sendo o capitalismo uma etapa para se alcançar ao fim o verdadeiro comunismo.
O Comunismo seria alcançado em um próximo passo, onde o estado diminuiria, ou deixaria de existir, gradualmente, talvez juntamente com a própria evolução do ser humano e da sociedade civil organizada.
Hoje, inclusive, poderíamos aludir transportando a teoria para uma nova roupagem hodierna, que haveria cooperativas e, talvez, ONGs que fariam as vezes do estado-mãe, este então meramente regulamentador ou inexistente. Nesta, análise, se aproximando muito do Anarco-sindicalismo, com a devida gradação prevista por Marx e não com o radicalismo daquele.
Ainda, ao remetermos aos contratualista tradicionais (inclusive, em alguns casos Marx é posto no rol de contratualistas), como Hobbes, o homem tem sua essência maligna (homo homini lupus), conjuntamente com uma análise de Locke (em relação a propriedade) e mesmo de Rousseau (sobre como um individuo toma o que de todos é e este crêem naquele), vemos que o homem tem a necessidade de ter, de possuir individualizadamente (o que pode ser explicado pelas teorias freudianas sobre o desejo e desvio das forças libidinosas), que faria com que o Comunismo, com suas, ao meu ver, cooperativas e organizações da sociedade firmassem uma hierarquia remetendo-nos a uma feudalização com fim do Estado. Fica mais envidente, ao fazermos o paralelo com pequenos reinos que então surgiriam.
Quer dizer, ao fim retornaríamos de onde partimos. Tal análise é embasada ainda pelo próprio professor de Direito Civil Lorenzzeti, que vê o fim do corpo de normas codificado e estruturado como um retorno feudal, o que se observa com o fim do Estado.
Quanto ao Capitalismo neo-liberal, este também, prevê a diminuição do Estado e privatização dos meios de sustentação da sociedade organizada, inclusive como meio de evolução de si mesmo, prevendo que o próprio capital se auto organizaria.
Ocorre, que nesta diminuição da atuação do Estado, seria introduzido cada vez mais, grandes corporações com hierarquia bem definida e leis internas, como um microestado pré-fabricado que açambarcaria os deveres e direitos estatais. O que, por sua vez, também dá azo a um viés feudalizante, inclusive mais acelerado, do que no comunismo, vez que neste caso, uma composição organizada já estaria presente não precisaria se formar.
Um ponto a ser estabelecido, para os que defendem tal teoria, é de que o Estado tomaria posição forte como grande Agência Reguladora, o problema de tal entendimento, é que assim se gera uma auto destruição da intenção do neo-liberalismo, pois então, o estado apenas diminuiria sua atuação direta na sociedade, enquanto incharia em sua atuação indireta de regulador das atividades. O que por sinal, manteria uma certa força tirânica do Estado sempre ativa, talvez até mesmo fazendo vistas grossas aos desmandos das mega empresas que teriam forças diretas sobre a sociedade civil, como nos parece que ocorre no Brasil com a ANAC, ANATEL, etc. Que poucas, ou nenhuma, força regulamentar mantém sobre suas reguladas.
Notório, fica assim, a estrutura feudal estabelecida, sendo o Suserano (Estado-governo) e os Senhores Feudais (grandes conglomerados). Dessa forma, também afrontando o contratualismo básico, onde, de certa forma, damos partes de nossos direitos ao Estado, que nos retribui com segurança em vários ramos da vida, tirando-nos do cruel meio natural, vez que dessa forma ficaríamos ao bel prazer de interesses particulares contrariando a própria evolução da sociedade e da história humana com o surgimento dos Estados Nacionais.
Quantos as “teorias meio termo”, como parece que se sobressai em uma almejada Social-democracia nos parece ainda insondável o custo social para manutenção do Welfare State (estado do bem estar social ou Estado Providência) que nasce após 2ª Guerra Mundial e da Grande Depressão.
Engraçado, este tipo de Estado surgir diretamente da Depressão de 1929 e agora gerar tantos problemas na Europa, inclusive na atual crise de Portugal e da Grécia e de um certo “empregalismo” exarcebado.
De qualquer forma, parece que o capitalismo de forma geral, com seus desdobramentos, é a atual vertente com um liberalismo mais moderado e com ele uma diretividade embasadora do estado, com fincas em uma Constituição Democrática.
Nos parece, que dentro deste liame, o melhor a seguir é uma esquerda em sua acepção primária, ou seja, uma discussão profunda das Instituição de Direito e das funções do Estado em contra parte a visão política de direita, em sua acepção inicial, qual seja, a de manutenção funcionalista do Estado e suas instituições.
Por derradeiro, ainda nos parece, que dentro da própria evolução da história humana e do âmbito do próprio desejo, a possibilidade mais evidente e justa dentro do possível no momento presente, seja o Welfare State, que precisa resolver o problema do custo social e do custo país de forma geral, sob uma ótica reformadora, seja aprimorando as instituições dentro de um funcionalismo, ou segundo minha preferência, dentro de uma reforma profunda das instituições em uma visão de esquerda. Pontuando, no que o Estado precisa realmente investir e no que realmente precisamos de austeridade orçamentária.
Não defendo que seja o ideal, mas parece que seja o possível no momento.
Isto, ou para ser malthusiano, diminuir drasticamente a quantidade de gente no mundo, somando ao ideal de termos um retorno ao meio natural, sempre torcendo para que Rousseau esteja certo (em sua teoria da Ecologia Profunda de que os males provem da sociedade).


Marcel Rodrigo Alexandrino
29.05.2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O cara

Como já disse o Obama sobre alguém, "esse é o cara".
No caso, "o cara" em questão aqui é Scott McCloud, que faz 50 anos hoje.



Poucos conseguiram me empolgar tanto em pensar sobre percepção, tecnologia, cultura e arte quanto McCloud -- e tudo sempre atrelado a sua discussão simples sobre quadrinhos. Foi assim com cada um de seus livros: animação contínua.
Então assisti via web essa palestra aí e gostei de ver como ele é empolgante também falando ao vivo -- e como ele sabe tirar proveito de slides para dar agilidade, significado e humor ao que fala.
Qualquer  professor, mesmo que não esteja interessado em quadrinhos, deveria ver esse vídeo. Nem que seja pra ver a capacidade e humor de um mestre em explicações em ação.

domingo, 6 de junho de 2010

Mondo Cane

(por Gabriel)

Acho que fica bem óbvio aqui no Wilbor que eu e o Marcelo somos fãs do Laerte (se houvesse uma carteirinha, teríamos).
Mas só quem nos conhece pessoalmente sabe que somos também fãs de cachorros.

Laerte sempre me pareceu um cara dos gatos, um "cat person". Suas tirinhas d'Os Gatos -- e mesmo o exemplo da Selina -- atestavam algo assim.
Mas uma série relativamente recente de Laerte, "Cães", me deixou muito interessado. Mais do que engraçada, duas de suas "reflexões" a respeito de cães me clarearam algumas questões que estavam presentes mas desarticuladas na minha cabeça.
Primeiro, temos esta:

LAERTE-25-03-10.jpg

Aqui já há uma questão sobre a qual eu já pensei muito: os tipos de relação que estabelecemos com animais, por um lado, e mais especificamente a impossibilidade de uma relação "igualitária" entre os pólos humano-animal na vida doméstica, por no mínimo dois motivos:
1. Por que a própria estrutura de nossa vida familiar e doméstica impõe hierarquia e diferenciação;
2.  Porque cães, particularmente, funcionam num mundo instintivo hierarquizado (gatos são ao mesmo tempo mais simples e mais complicados quanto a isso). Não há, para o cão, nenhuma aspiração ao tipo de "liberdade" da qual nós costumamos falar, nenhuma vontade complexa o suficiente para ser confundida com o que nós, depois de milhares de anos de evolução cultural, chamamos de "autonomia". 

Eu coloco falo aqui especificamente da "desigualdade" da vida doméstica simplesmente porque não tenho dados para opinar sobre a relação humano-animal em outras situações... Por exemplo: a relação entre mendigos e "seus" cães nunca me pareceu nada parecida com o tipo de "posse" que exercemos nas famílias, mas não posso falar muito sem cair no achismo total.

Acho desnecessário falar da "escravização" de cães e outros animais no mundo do trabalho;  animais têm sido nossas ferramentas desde nos tornamos capazes de utilizar-los para tal. Se tem algo que eu poderia qualificar como da "natureza" humana (e vocês só me verão falar de "natureza humana" entre aspas) é isso: instrumentalizar as coisas. Fazemos isso aos cachorros, fazemos com qualquer outro item do universo -- incluindo, obviamente, outros seres humanos.

(Lembram de um episódio do fim da vida -- e da sanidade -- de Nieztsche quando, vendo um cavalo ser chicoteado, ele entra em prantos e abraça o pobre bicho e pede perdão pelos pecados humanos contra a vida? Essa reflexão sempre me traz essa cena de volta à mente.)


A tira seguinte, por sua vez, me trouxe algo muito diferente. Ela se aproxima da anterior no fato de cutucar nossa compreensão de como percebemos e representamos os cães para nós mesmos -- e, por conseguinte, como nós vemos a nós mesmos (p.ex: de companheiros, passamos a escravizadores de cães). Mas a partir daí, a questão desta é bem outra.
LAERTE-24-03-10.jpg


Eu nunca tinha refletido sobre essa questão de representação bicho/gênero; mas, ao vê-la aqui, ela me soou tão verdadeira e natural como se eu mesmo já tivesse pensado nela. Acho que provavelmente os estudiosos e interessados na representação de gêneros (i.e. os "feministas" :) ) poderiam esboçar um sorriso de concordância ao lerem a tira. (Se o blog da Marjorie estivesse em funcionamento, eu mandaria isto para ela pra ver sua opinião)
Eu já tinha pensado bem de leve em como o comportamento dos gatos possui uma série de padrões associados com representações do feminino (charmoso, sedutor, manhoso, caprichoso, imprevisível, interesseiro, traiçoeiro... etc), mas não havia pensado ainda nos cachorros. O interessante é que, nesta tira, não se chega a fazer a contraposição entre "cão" e "gato". ; o texto se limita ao cachorro.
O que temos, então, é apenas um cão pensando e questionando suas próprias representações de gênero...

Quando pensei nisso, de repente me toquei: caramba, é um cão gay.

Laerte não estaria falando só de nosso vício de fazer projeções de nossas qualidades em bichos. Não se trata só de uma mera curiosidade diletante transformada numa "tirinha sem-piada". Ele fala aqui sobre como as pessoas representam a sexualidade para si mesmas. Como o cachorro é que é o sujeito da fala aqui, ele também está discutindo sua própria sexualidade.
Sua frase final, "quanta idiotice", me parece falar não só do fato dessas associações serem tolas, mas dele próprio não se ver refletido nelas -- não ser, portanto, tão "masculino" assim só por ser cão.
Não é só que os cães não se encaixam nesses estereótipos: é idiotice vincular a idéia de macho com qualidades como "leal" e "descomplicado". É idiotice esperar que as pessoas sejam qualquer coisa  só por seu gênero.
(E, no entanto, é isso que as pessoas inconscientemente fazem o tempo todo, até quando simplesmente vestem seus filhos de azul e as filhas de rosa.)

Laerte retorna nesta segunda tira a um assunto recorrente seu -- a representação de gêneros e sua inadequação frente às sutilezas do ser humano. (Ainda vou fazer um post gigantesco sobre a abordagem "laertiana" da homossexualidade. Na verdade, se  eu tiver tempo e saco de levantar e ler uma bibliografia mínima sobre o assunto das representações de gênero, ainda vou escrever um artigo a respeito).

 Laerte instabiliza espaços meio "seguros".Usando um espaço tradicionalmente brando e familiar -- as tirinhas de jornal --  e tomando como objeto algo também familias -- os cães -- ele elabora pequenas charadas para cutucar partes de nosa personalidade que nem sabíamos possuir.
Coisa, com o perdão da palavra, de artista.