quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Eu nunca quis ser jovem

Um dos blogs de arquitetura que visito ocasionalmente é A Barriga de um Arquiteto (cujo nome, salvo engano, vem do filme The Belly of an Architect, de Peter Greenaway). Seu mantenedor, o lusitano Daniel Carrapa, é também um arquiteto-professor-blogueiro e, além de escrever muito bem, tem um campo de interesses e reflexões com vários pontos de tangência aos meus (academicamente, inclusive). O post de Carrapa que reproduzo mais abaixo -- e que não é sobre arquitetura -- me pareceu particularmente relevante. 
 Lina, tempo e espaço.
A citação inicial de Lina Bo Bardi me chama atenção não só pela pessoa citada-- arquiteta que admiro não só pela arquitetura em si, mas pela rara e preciosa imbricação "modernista" entre elaboração arquitetônica e visão política/estética do mundo; mas porque eu, ainda que sempre um tanto moleque e acostumado a ser  "o mais novo" várias vezes em diversos contextos, nunca fui exatamente encantado com a minha própria juventude. (Devia ter postado isto quando fiz trinta anos, em abril...)
Meu interesse no texto está também no fato de que, embora um pouco mais novo, eu me veja forçosamente incluído na "geração" que Carrapa define como sua.


Eu nunca quis ser jovem
Daniel Carrapa
Eu nunca quis ser jovem. O que queria era ter história. Estas palavras de Lina Bo Bardi são hoje tão contra-corrente que merecem reflexão. O modo como encaramos o acto de envelhecer muda durante o percurso de uma vida inteira. Todos sabemos, em abstracto, que vamos morrer um dia. Mas, enquanto jovens, a abstracção esmaga-lhe o significado. É bom ser imortal.

Recordo-me do tempo em que envelhecer tinha um sentido de desfasamento das coisas. Ficar velho é perder o fio da contemporaneidade, é o caminho para a incompreensão do presente, na linguagem, na música, na moda. Ah, quanta arrogância.

Há um momento na vida em que a morte, por uma conjugação de factos, se torna real. Percebemos que a morte está lá, algures na nossa frente, inevitável. Para alguns a consciência trará temor, angústia. Para todos, talvez, um enorme sentido de perda das coisas, de toda a experiência, todo o saber que se vai perdendo em nossa volta, até que nós próprios nos extingamos, um dia, no vazio do esquecimento dos outros.

Presumo que não seja fácil ser jovem, hoje. Mergulhados num mundo que os envolve em subtilezas, adquirindo comportamentos, costumes, códigos invisíveis. Curioso que a sociedade da televisão produza uma imagem eternamente rebelde dessas criaturas mitológicas, para citar João Lopes, estereotipada à exaustão em mil e uma novelas “para jovens”. Uma estética desalinhada, no penteado, nas calças descaídas, no estilo informal, simulação perfeita de uma irreverência toda ela ficcionada. Quem leia o conteúdo pela superfície tomará essa imagem como digna dos novos hippies, de tão ostensivamente anti-sistema. E no entanto, nos mais pequenos pormenores, se denuncia o afinco de um produto de consumo desenhado em laboratórios de marketing social, fabricando pequenos seres para quem a vida não faz sentido sem os seus iphones e ipods.

Não, não é fácil ser jovem, hoje. Não é fácil resistir aos estrategas dos targets que barricaram o seu trajecto, implacáveis. Não é fácil compreender que nem sempre o que somos e o que pensamos nasceu na nossa cabeça. Que as convicções, os gostos, os desejos, até a formatação dos afectos, nos é incutida por uma profusão de veículos externos afinados para nos seduzir como esponjas. 

Sei que estou a ficar velho. Pertenço a uma geração sem causas. A minha geração não tem nada que a defina para além de uns programas de televisão e umas gasosas que deixaram de existir. Não, nós não fizemos nenhuma revolução, não protagonizámos nenhum conflito de gerações, não vislumbrámos nenhum sentido, não erguemos nenhum símbolo, não alvitrámos doutrina em que valesse a pena erguer uma sociedade. Na melhor das hipóteses, mostrámos o rabo a um qualquer ministro por causas fúteis há muito esquecidas de todos.

Somos uns rebeldes na nossa cabeça. Uma coisa apenas nos define. Não gostamos muito uns dos outros. Mal educados para a vida em comunidade, somos complacentes com os nossos defeitos que intoleramos, passe a palavra, em todos os outros. Desengane-se quem tome tal por desatenção ou charme latino. É, tão só, uma tragédia.
Sim. Eu sei que estou a ficar velho.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Dia do Arquiteto II: Pensando Grande

Continuando as festividades arquitetônicas... aqui vão dois vídeos do BIG (Bjarke Ingels Group), grupo dinamarquês super jovem (o chefe-título tem 35 anos), que considero um "descendente" do O.M.A. de Rem Koolhaas.

O primeiro vídeo é uma fala de Bjarke para o TED. É de certa forma um apanhado de seu  livro instigante, pop e malandrão Yes is More -- sobre o qual ainda falarei no futuro.




O segundo vídeo é uma apresentação de seu Pavilhão Dinamarquês na China já construído... a partir de uma abordagem um tanto inusual: com o próprio arquiteto andando de bicicleta pelo edifício.



Seguindo a linha da fala em TED, deste outro vídeo aqui e de seu livro, Bjarke insiste sempre em ser personagem e protagonista de suas criações e explicações.

Mas esses caras certamente se divertem com o que fazem.

Dia do Arquiteto & Arquiteto do dia: Rem Koolhaas

Pra não deixar passar em branco o dia, uma vez que estou de volta à arquitetura.

Este texto a seguir é a transcrição/tradução para o português lusitano (que peguei do site Cosmopista) do discurso que o Arquiteto Holandês Rem Koolhaas (já citado antes aqui) pronunciou em 29 de maio de 2000, por ocasião do recebimento do Prêmio Prizker -- o "Prêmio Nobel" da arquitetura.
Feito há dez anos atrás, o discurso continua bonito, interessante e completamente pertinente.
(Tradução de Lucas Girard e Gabriel Kogan. Grifos e links são meus...)

Rem Koolhaas - Discurso do Prêmio Pritzker.

"Eu preparei um pequeno discurso. E talvez eu deva começa-lo com uma anedota. Pode ser uma anedota estranha, mas vir da Holanda e ter nascido em 1944 significa paradoxalmente que eu fui ignorante na questão do Judaísmo até os 21 anos. Na minha juventude, no meu país, era completamente incomum apontar as origens religiosas ou raciais de alguém, era um assunto que nunca falávamos. Isso mudou drasticamente quando eu fui pela primeira vez à Nova Iorque, e fui recebido, no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos, liderado pelo arquiteto Peter Eisenman, que a meu ver merece o Prêmio Pritzker ainda mais que eu.

A primeira vez que estive lá, Peter Eisenman me pegou pelo casaco, assim, de uma maneira bem agressiva, e disse: “Você sabe por que você está aqui, Koolhaas?” E eu disse, “Não”. “Você está aqui para representar o elemento Gótico”. Então isso me pôs em meu lugar e provavelmente explica alguns dos meus sentimentos aqui. De qualquer forma, eu quero começar pelos meus agradecimentos. Eu agradeço Cindy Pritzker e a família Pritzker e a sua fundação por sua excepcional identificação com arquitetura. Eu agradeço ao júri pela tão inspirada decisão este ano. Eu agradeço aos meus parceiros em meu escritório O.M.A. Todos e cada um dos quinhentos e cinqüenta deles fizeram contribuições que agora se mostram cruciais. Eu agradeço ao Harvard Design School por apoiar minha dupla vida como futurista. Eu agradeço aos meus clientes que engatilharam nosso trabalho encarregando-nos de suas necessidades.

Depois de meus agradecimentos eu escrevi três pequenas anedotas, ou três pequenos episódios que para mim indicam tanto o passado recente da arquitetura quanto a atual situação da arquitetura e o, talvez provável, futuro da arquitetura. E eu quero discutir algumas das potenciais evoluções que eu – se não for cuidadoso, afastarei da possível evolução num futuro iminente. 


Eu quero começar em 1950 – cinqüenta anos atrás. Cinqüenta anos atrás, a cena arquitetônica não apoiava-se num indivíduo singular, o gênio, apoiava-se no grupo, no movimento. Não havia cena. Havia um mundo arquitetônico. A arquitetura não lidava com a maior diferença possível, mas sim com as sutilezas que poderiam ser desenvolvidas dentro de um estreito campo de semelhanças dentro da generalidade. Arquitetura era um continuum que terminava com o urbanismo. Uma casa era vista como uma pequena cidade. A cidade vista como uma imensa casa. Esse tipo de arquitetura enxergava-se como ideológica. Sua política abrangia todo o caminho entre o socialismo e o comunismo e todos os pontos intermediários. Grandes temas foram adotados para além da arquitetura, não a partir da imaginação individual da cabeça dos arquitetos. Os arquitetos estavam seguros em seu alinhamento com o que então se chamava sociedade, algo imaginado e que podia ser fabricado. 


Agora estamos em 2000, cinqüenta anos depois da idílica caricatura que eu descrevi a vocês. Nós temos Pritzkers, temos uma quantidade razoável deles sentados aqui na primeira fila – portanto nós temos identidades únicas, singulares, assinaturas até. Nos respeitamos um ao outro, mas não formamos uma comunidade. Não temos projetos juntos. Nosso cliente não mais é o estado ou suas derivações, mas indivíduos privados frequentemente envolvidos em ambições arriscadas e trajetórias dispendiosas, que nós arquitetos apoiamos sinceramente.

O sistema é final. A economia de mercado. Nós trabalhamos numa era pós-ideológica e por falta de apoio nós abandonamos a cidade ou quaisquer outras questões gerais. Os temas que inventamos e sustentamos são nossas mitologias privadas, nossas especializações. Nós não temos discurso sobre organização territorial, nenhum discurso sobre povoamento ou co-existência humana. No máximo nosso trabalho brilhantemente investiga e explora uma série de condições singulares. O fato de que essa aparência de sítio arqueológico é enfatizada acima de sua responsabilidade política mostra que a inocência política é uma importante parte do equipamento do arquiteto contemporâneo.

Fico grato que o texto do júri para o prêmio 2000 me descreva como definidor de novos tipos de relações, tanto teóricas quanto práticas, entre arquitetura e a situação cultural. Isso é de fato um sentido do que estou tentando fazer. Apesar de prever muito mal o futuro, muito preocupado com o presente, deixe-nos especular por um momento sobre o próximo intervalo de cinqüenta anos – a arquitetura como vai ser praticada em 2050 ou, se tivermos sorte, um pouco antes.

Um desenvolvimento é certo. Nos últimos três anos, brick and mortar (tijolo e argamassa) evoluíram para click and mortar (1). O retail (varejo) virou e-tail e não há como exagerar na importância destas coisas. Comparado ao brilho ocasional da arquitetura agora, o domínio do virtual afirma-se com abandono selvagem e confuso e está se proliferando numa velocidade que podemos apenas sonhar. Pela primeira vez em décadas, e talvez no milênio, nós arquitetos temos uma competição muito forte e fundamental. As comunidades que não podemos imaginar no mundo real vão florescer no espaço virtual. Os territórios e demarcações que mantemos no chão são fundidas e moldadas além do conhecido num domínio muito mais imediato, glamuroso e flexível – o da eletrônica.

Após 4000 anos de fracasso, o Photoshop e o computador criam utopias instantaneamente. Nessa cerimônia neste local, a arquitetura está ainda fundamentalmente comprometida com a argamassa, como se apenas a proximidade com um dos maiores acervos reunidos da história da humanidade nos assegurasse outros 2 mil anos de usufruto de nosso nicho particular, e de nossa futura credibilidade. Mas o resto do mundo já liberou a arquitetura para nós. A arquitetura tornou-se a metáfora dominante, um agente controlador de tudo que necessita de conceito, estrutura, organização, entidade, forma. Apenas nós arquitetos não nos beneficiamos desta redefinição, ilhados em nosso próprio Mar Morto de argamassa.

A menos que quebremos nossa dependência do real e reconheçamos a arquitetura como uma maneira de pensar sobre todos os assuntos, do mais político ao mais prático e liberar-nos da eternidade para especular sobre novas, atraentes e imediatas questões, como a pobreza, o desaparecimento da natureza, a arquitetura talvez não chegue ao ano 2050.

Obrigado.



Rem Koolhaas”



(1) Expressão usada para denominar empresas e instituições que utilizam tanto a internet quanto o espaço não-virtual para realização de atividades (por exemplo, um banco que tem o ‘internet banking’ e também suas agências).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

EUREKA! EUREKA!


Pois é. Falei que ia encontrar. E que ia postar inteirinha aqui quando o fizesse.
Mas não esperava fazê-lo a tempo de constar no nosso aniversário de 5 anos!!
Ei-la: a história em quadrinhos de Fernando Gonsales que inspirou o nome deste Wilbor: "Que rostinho lindo", devidamente digitalizada e adaptada ao formato de visualização de nosso humilde blog. (Hooray!)

Por um fortuito e surpreendente acaso, encontrei a revista perdida de minha coleção em uma feira de livros e revistas usados no Largo do Machado: a Níquel Náusea nº 22, de abril de 1994. É a sincronicidade agindo a serviço de nosso querido Wilbor.

O momento mais preciso que inspira o nome do blog está na quarta página da história (que tem 7).
Antes que o leitor estranhe, já aviso: no original, não é Wilbor quem se revolta. Mas se o  leitor considerar a opção original, creio que há de concordar que, para se nomear um blog, foi uma troca até feliz.
Com vocês, a HQ:

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Som regional é tiroteio

... morando aqui no Rio, eu estava pensando em comentar algo sobre a surrealidade hiperreal desta última semana. Mas aí me mandaram este texto, que de certa forma já diz tudo.
Enquanto não tenho tempo pra elaborar algo especificamente meu pra dizer, segue a porrada do Mate com Angu.


SOM REGIONAL É TIROTEIO

Por matecomangu




Saio do texto. Ouço imagens e vejo sons…

Queremos a democratização e descentralização dos traçantes regionais pros médios e altos. A burguesia folclórica, que curte um tiroteio, tem que ter história pra contar.

É inaceitavel que só as zonas norte e oeste tenham acesso a esse bem cultural.

Dar tiro é arte pra quem ouve e vê. Eu, particularmente,  gosto de bombas e tanques. Fuzis e metralhadoras. Sangue seco escorrendo pelo chão. Uma risada diabólica fazendo o refrão. Foice.

Agora diz pra mim, que cidadão nascido e criado em Ipanema teve o prazer de ter sua alma vomitada por uma rajada de AK-47 no meio de um bloco carnavalesco? Boom! E que criança já teve seu big barraca (mac) arrancado das mãos dos homens de preto?

Silêncio profundo sendo perseguido pelas batidas fortes do coração.

Sacudindo a espinha,  queremos compartilhar essa parada com os desprovidos de informação.

Exijo que o caveirão destrua as caixas de som da Baronneti e jogue gás de pimenta nos mauricinhos que frequentam o Empório. Que as UPPs ocupem o Alto Leblon e que os maconheiros do posto 9 tomem tapa na cara por conta de um baseado. Que o baixo Gávea seja reprimido pelo choque de ordem e que o parque Garota de Ipanema vire reduto dos crackeados.

Que no pedal overdrive, meu fuzil não ganhe flores cor de rosas do último enterro. E que, marcando o ritmo, a Glock 9mm não ecoe longe feito ensaios de segunda à tarde na beira do valão.

Quero ver granada na Vieira Souto e desfile de mortos na Avenida Atlântica.

Queremos igualdade.

E não tem nada melhor do que dividir nossas experiências bebendo água de coco.


Josenstein
o cerol gordinho da baixada.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O MONSTRO SOUZA (4): The Monster Tour

Agora em definitivo: futuras cidades, datas, horas e locais de lançamento na semana que vem.
E o nome definitivo da turnê, claro.

(pôster feito por Bruno e Marcos Caldas em cima da Capa original que fiz em cima do Desenho original do Marcatti)

Tá confirmado: estarei em Sampa, dia 10 e Brasília, dias 11.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O MONSTRO SOUZA (3): Souza Tour

(calma: este é provavelmente o último post sobre o Monstro...)


As datas e locais futuros e passados de lançamento d'O Monstro Souza Brasil afora:

Rio de Janeiro (já ocorrida): 
dia 12 de novembro, na La Cucaracha e na Rio Comic Con. 

São Luís
Hoje, dia 23, às 21:00 na Feira do Livro
Assista o videozinho nesse link. Reportagem da transmissora da Globo no Maranhão, a rede Mirante (que Bruno apelidou de Sarney News). Se desse, eu colocava o vídeo aqui ( e baixava pra mim também).


Curitiba 
08 de dezembro, na Itiban. Junto ao Souza haverá o lançamento do volume 2 de Promessas de amor adesconhecidos enquanto espero o fim do mundo, de Pedro Franz, e Rua, de André Caliman.

São Paulo
10 de dezembro, na HQ mix (Praça Roosevelt, 142). lA ocasião também terá o lançamento paulistanao da ótima Golden Shower (já lançada na Rio Comic Con e na La Cucaracha)
Nesta eu estarei presente com Bruno!


Por agora é só.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O MONSTRO SOUZA (2)

Aconteceu.
O Monstro veio a público. 


O livro, que pude finalmente ver, é um objeto bonito. Faz juz às espectativas que eu e Bruno tínhamos, e faz juz aos nossos esforços e aos esforços dos muitos colaboradores. 
Estava lá na Comic Con e ainda está lá na Cucaracha e na Livraria da Travessa. Foi comprado e está sendo (eu espero) lido. Espero que suas qualidades sejam apreciadas; que dele se fale, que nossas piadas obscuras sejam compreendidas e que a maior parte dos erros que nosso amadorismo esforçado gerou passem despercebidos.


Links dos principais lugares onde foi noticiado até agora:
Quarto Mundo.
Universo HQ.
Gibizada, blog do jornal O Globo.
Blog do Zema Ribeiro.
Diário do André.
Roteiro Aberto.


Em comemoração,  adianto exclusivamente para os reservados leitores do Wilbor o "posfácio" que  escrevi para O Monstro Souza. 
(com o acréscimo de links e ilustrações outras que o livro não poderia ter... hehehe)



Dos monstros e monstruosidades que se escreve e se imagina:

...eis que a lista é longa e a história é velha. Até na porralouquice, como em qualquer face primordial do ser humano, há tradição e há padrões; do alto de sua eruditíssima picaretice, Humberto Eco poderia falar do gore e do camp e das preferências “decadentistas” dos exageradamente sofisticados (put your hand on the hips!).

Mas que se possa citar de Rabelais até Marquês de Sade até um Rubem Fonseca até um Robert Crumb até um Chuck Palahniuk até um Lourenço Mutarelli nos âmbitos da sacanagem e da nojeira impressa é fato que, ainda que interessante, acrescenta pouco aqui.  Exceto isto: que o deboche grotesco é uma forma enviesada, reincidente e contínua de análise social, de olhar para aquilo que ninguém está olhando. Não basta simplesmente escarafunchar o nojento, claro; é preciso encontrar aquilo que está lá no nojento e que não se vê por que é desagradável demais olhar pra todo aquele lodo e excremento por cima. Com o perdão da palavra, tem-se que transcender o nojento.

O Monstro Souza por Gabriel GirnosEntão que se diga porque estamos aqui, e porque essa porralouquice existe impressa em papel. Ela existe, em primeiro lugar, porque Bruno é um cabra teimoso e obsessivo e porque eu continuo dando corda pra ele. Isto que se tem nas mãos, esse volume de papel e tinta, foi preparado, mastigado, deglutido, fermentado e regurgitado na mente e mão de seus autores há quase 10 anos. Com efeito, o primeiro esboço, desenhinho inocente que fiz a partir de uma descrição esdrúxula e insólita de monstro hot-dog, deve datar de 2000.

Como um cachorro-quente de barraquinha, a porrada de partes e elementos do livro foram compondo um “todo” meio que por acumulação. Este volume é quase um fanzine que foi inchando e inchando até ficar enorme, complexo e pretensioso — até querer virar “livro”. Aí é que a colcha de retalhos da narrativa passou a receber algo que pudesse ser chamado de “arquitetura”. Ainda que, muito à brasileira, uma arquitetura do puxadinho. 

Mas o que faz alguém amarrar seu bode por 10 anos numa idéia troncha dessas, meu Zeus? Aí é que está: é preciso “transcender” a sujeira, e dar sentido e validade a tudo isso virou também missão. Missão essa com o bônus de manter aceso nosso constante bate-bola de idéias.

De fato, este livro é fundamentalmente resultado de diálogo: um longo, trabalhoso e divertido papo de Bruno com um monte de pessoas. Eu, de início só um dos vários colaboradores, pela constância acabei tomando conta do pedaço e virando o interlocutor principal. Na parceria que acabamos firmando, foi altíssimo o nível de pitacos e interferências mútuas um nas competências do outro, de maneira que os limites de autoria ficaram um pouco promíscuos (e acabei ganhando meu nome na capa!). Mas embora quase tudo na forma e conteúdo em suas mãos tenha marcas de dedos de nós dois, acho que é justo identificar melhor as atribuições.

O livro foi basicamente “escrito, dirigido e produzido” por Bruno. Ele teve a idéia original toda e persistiu nela; escreveu o texto todo, bem como os roteiros de todas as histórias em quadrinhos; pesquisou, coletou e organizou os recortes, citações e todo o material “conteudístico”. Bruno também foi quem saiu por aí, incansavelmente, caçando e cutucando colaboradores, pavimentando a viabilidade do livro. É autor com A maiúsculo.

Eu poderia dizer que, de forma geral, organizei e burilei a forma visual que o livro veio a ter. Fiz o projeto gráfico, tipografei, diagramei, iconizei, desenhei; letreirei três histórias em quadrinhos (“a vida secreta das ervilhas”,”corações em chamas” e “caralho! uma aventura do delegado Caolho”) e  co-roteirizei uma (“alguns capítulos atrás); criei o logo do Monstro e outras coisitas. Colocado assim parece simples, mas reitero que o processo foi muito mais promíscuo: Bruno também se meteu a diagramar diretamente às vezes, e eu também contribuí o tempo todo com a estruturação da “arquitetura” do livro  (“gênese”, “revelações”, etc), com sugestões de organização e de texto. Um diálogo, enfim, em que olhares e habilidades diferentes se bateram sobre as mesmas coisas.




Fiel à geração editorial “dos anos 00”, este livro é mais um que deve sua existência à internet, à pirataria de software e ao barateamento dos processos de impressão. Eu e Bruno somos rigorosamente amadores: não ganhamos a vida com o que aqui fizemos (escrever, desenhar, diagramar e etc.), e não poderíamos bancar nem sequer os programas com os quais o fizemos. Sem falar que, sem a internet, seria impossível arregimentar tamanha variedade geográfica de colaboradores: gente em São Luís, Curitiba, Rio de Janeiro, São Carlos, Maringá, Teresina, São Paulo. Mais ainda, sem a web nossa própria parceria dificilmente teria vingado: na maior parte do tempo, nosso diálogo se deu a uma distância de quase três mil quilômetros. Eu, que saí da ilha há uns 13 anos, e Bruno, que continuou na sarjeta tentando nadar de braçada em sangue, merda e resto de baré tutti-fruti.

A ilha, de fato, é onipresente em seu isolamento. Se há uma inspiração maior em nossa “missão”, bem como uma espinha dorsal (salsicha literária) neste livro-hotdog, essa é a cidade de São Luís do Maranhão. Josué Montello (pra quem o Bruno paga o maior pau) costurava várias de suas tramas a partir dos lugares. Sua construção de uma experiência literária da cidade (ou de uma experiência da cidade pela literatura – enfim, um negócio pra Benjaminianos ruminarem) é algo fortemente enraizado em Bruno. Claro que, na superfície, nada mais avesso a essa literatura grande que este livro pós-modernozinho aqui em mãos: Montello, São Luís e São Luís via Montello são uma referência básica para Bruno, mas não muito diferente de como o são Star TrekHellraiser, o cancioneiro brega e a cultura trash. Referencial esquizofrênico para uma cidade esquizofrênica numa geração idem.

Até mais que eu, Bruno ama o obscuro. E não se desculpa com ninguém por isso. Neste livro de piadas cifradas, nem tudo é pra ser compreendido de primeira, mas tudo tem sentido. Da mesma maneira que na vida real, digamos — nem que seja apenas aquele sentido grosseiro, o da pura causalidade.

Bruno também ama o feio. Amar e falar de São Luís exige um pouco isso, pois até e principalmente na beleza São Luís é ilha, rodeada de feiúra por todos os lados e com poucas pontes. Mas uma feiúra fértil, feiúra-humus, feiúra (sub)urbana de pobreza e sujeira e terreno baldio e ruína e mato e mofo, numa panela de pressão de calor melado, asfalto escaldante e mar barrento.

O mar, como o asfalto, é cinza; mas dá brisa.




Gabriel Girnos
outubro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Tea Party, xenofobia sul/sudestina e a divisão brasileira entre azuis e vermelhos

Comecei esse post pensando em falar apenas do Tea Party e traçar um paralelo com a situação que vemos hoje no Brasil, com as reações anti-nordestinas que se iniciaram com a vitória de Dilma.  Acabei misturando com um outro post que estava preparando, mas acho que as coisas acabam se encaixando.  Aconselho que cliquem nas imagens para ampliá-las.

Pra quem ainda não entendeu o que é o "Tea Party" norte-americano, eis uma bela entrevista de Frank Rich, jornalista político no New York Times.  Frank faz uma belíssima análise do atual momento político econômico dos EUA.



Interessante pensar que o Tea Party tem início com uma reação nervosa contra a eleição de Obama, coisa que infelizmente me lembra o que está rolando por aqui, com a ascenção pós-eleitoral de grupos separatistas e xenofóbicos.

Não é a primeira vez que vejo isso acontecer: a reação que tivemos após a derrota de Geraldo Alckmin, em 2006, me mostrou que as idéias separatistas não eram coisa só do Sul.

Em Maringá sempre senti que havia um nível de preconceito contra nordestinos - baixo, mas havia - cheguei a sentir isso na pele no colégio Marista, onde estudei, por ser filho de mãe maranhense.  Sempre tive a impressão de que uma grande parcela da população seria a favor de uma separação da região sul.  OÓbvio, jamais foi uma posição declarada, talvez porque seja senso comum que tal coisa seria muito desgastante, etc, etc, etc...agora, se simplesmente acontecesse, estaria ótimo.

Em 2006, acompanhei, com muito desgosto, uma aproximação dos paulistas a esse movimento.  As mesmas declarações que causaram tanto frisson agora, já estavam lá...só faltava o twitter, já que blog a gente sabe que pouquíssima gente lê.

Para nosso bem, esse pessoal só fala de política faltando dois meses para as eleições, continuam por mais um tempo e depois se acalmam.  Não fosse assim Lula não teria atingido seus 83% de popularidade - aqui é muito importante lembrar que apenas 3% consideram o governo ruim ou péssimo. 

Talvez essa raiva toda dure um pouco mais, já que a campanha foi pesadíssima (beleza, Serra!).  Mas passa.

De qualquer forma, é importante lembrar que dizer que o Serra ganhou no PR.  Ganhou, mas a Dilma venceu em mais municípios (212 a 187), com larga vantagem nos municípios mais pobres - pra deixar claro que bolsa-família não é exclusividade nordestina.  Os paranaenses podem, então, se revoltar contra as populações de Foz do Iguaçu, Guarapuava e uma infinidade de cidadezinhas.

Aqui vão alguns gráficos que mostram a situação do eleitorado paranaense.  Optei por dividir os municípios em 6 categorias, de acordo com o número de eleitores em cada um deles:
A divisão deixa as categorias com mais ou menos o mesmo tamanho, exceto aquela dos municípios com mais de 100.000 eleitores, que sozinha é responsável por 36% do eleitorado (o que pesou a favor de Serra).

Agora, a situação da votação dos candidatos em cada uma dessas categorias:

Notamos aqui que Dilma tem ligeira vantagem nos municípios de até 10.000 eleitores.  Serra ganha por pouco nos municípios entre 10.000 e 100.000 eleitores e dispara nos municípios com mais de 100.000 eleitores.  Tirando os "grandes municípios, a vitória de Serra teria sido muito mais apertada (51,6% a 48,4%).  Esses municípios são, por ordem de grandeza, Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, Foz do Iguaçu, São José dos Pinhais e Colombo.  Desses, Dilma venceu em 2: Foz do Iguaçu e Colombo.  Em São José dos Pinhais e Cascavel, a eleição foi apertada em favor de Serra.  A grande vitória tucana ocorreu nas quatro maiores cidades do estado: 61% em Curitiba, 63% em Maringá, 68% em ponta Grossa e 75% em Londrina - esta última, a maior votação dele em todo o estado.

Agora, como bom geógrafo, não poderia deixar de espacializar esses resultados, comparar com um mapa temático que talvez explique algo e propor uma síntese, incluindo alguns outros dados da geografia paranaense:




Os mapinhas acima, feitos às pressas.  No da esquerda, o resultado do segundo turno das eleições.  Tudo em vermelho/rosa são municípios onde Dilma venceu.

1) a mancha rosa no noroeste coincide com a mancha do arenito Caiuá, região "periférica" da agricultura, uma vez que os solos não são tão férteis como no resto do terceiro planalto (que equivale, mais ou menos, à tudo da metade do estado para oeste).  Esse pedacinho do noroeste concentra pequenos produtores rurais, ao contrário da região de Maringá, com suas superprodutivas terras-roxas e concenctração de grandes produtores de soja.

2) a mancha do sul do estado e a mancha acima de Curitiba (vale do Ribeira) correspondem às áreas mais pobres do estado.  Quem já foi ao miolo do Paraná sabe, por comparação, que não se parece com o Paraná bonitinho que vemos em Maringá ou Curitiba.  O vale do Ribeira é uma das regiões mais pobres do país, tanto do lado paulista quanto do paranaense...inclusive, foi uma das regiões escolhidas para piloto do fome-zero.

Aí vale a pena a comparação com o mapa da direita, que indica a renda per capita municipal do ano de 2000.  A escolha do ano de 2000 tem dois motivos: são os dados georreferenciados que eu tinha em mãos no momento e; de 2000 pra cá essa população pôde sentir o impacto das políticas sociais do atual governo.  E olha que a pobreza paranaense não é a mesma que se sente no sertão nordestino.

Bom, é isso aí...com os fatos, fica difícil chamar o Paraná de "estado azul" - e olha que foi a segunda melhor votação de Serra.  O voto em Dilma se explica pela sensação de melhora dos mais pobres, além do fato óbvio de que o país melhorou em diversos setores. Serra, por outro lado, atraiu o voto dos conservadores e sua zona de influência.

Pra finalizar, o mapa vermelho/azul da Folha:

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O MONSTRO SOUZA

Agora é pra valer. 


Após intermináveis adiamentos, revisões e canos de editoras, eu e Bruno Azevêdo, do O PUTAQUEPARIU!, estamos lançando nosso velho, velho projeto O Monstro Souza.



Após vários estudos, opções e dores de cabeça, esta é a capa definitiva. Seguindo o histórico multicolaborativo e coletivo desse livro, convidamos o renomado Marcatti, grande autor do quadrinho underground brasileiro, para fazer o desenho original... e ele topou! Taí o resultado.

Já falamos uma ou outra vez aqui no Wilbor sobre esse projeto, citando o prêmio de literatura maranhense que ele ganhou (antes mesmo de ser lançado...) e até dando um "spoiler" de uma das HQs, desenhada por mim.

Pra quem quer saber o que diabos é o livro:
Conteúdo: em termos gerais, trata-se de uma paródia/pastiche dos absurdos da capital e da cultura maranhenses em meio à cultura de massa contemporânea, tudo a partir da história de um cachorro-quente de 1,80m de altura que trabalha como “loverbói” no centro histórico de São Luís e é um assassino serial. 
Forma: o romance é uma narrativa grotesca de humor negro, que sobrepõe ao texto uma miríade de informações e referências culturais de outras mídias: histórias em quadrinhos, ilustrações, recortes e informações jornalísticas impressas e transcrições locuções de rádio. Enfim, um conjunto "transmidiático" que mistura fatos fictícios, fatos reais e fatos reais-mas-que-parecem-fictícios, como a história de Hidramix Hinfinito.


O lançamento do livro já começou a ser anunciado, inicialmente pelo Bigorna, e agora também pelo Ambrosia. Há uma entrevista bacana do Bruno neste blog aqui., e um comentário muito legal do excelente desenhista Odyr em seu blog. Mais à frente, deverei atualizar os novos links que aparecerem e dar notícias do andamento...

Como citei antes, o Monstro Souza foi uma construção de uma pancada de colaboradores. Já está no ar o blog do livro, que pretende juntar material inédito e desenhos de todos aqueles que participaram em algum momento da criação do livro, bem como de todos aqueles que, por qualquer motivo inescrutável, quiserem desenhar o Monstro e mandar o resultado pra mim ou para o Bruno.

O  livro terá seu primeiro "grande" lançamento no Rio de Janeiro agora no dia 12 de novembro, em meio a Rio Comic Con 2010. Planeja-se lançamentos nas próximas semanas em São Paulo, Curitiba, Brasília e, é claro, São Luís. Assim que tiver as datas certinhas, postá-las-ei aqui.

José Serra é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno!

Que José Serra é mau-caráter, não é novidade pra ninguém.  Conta o meu pai, contemporâneo dessa figura em sua época de DCE que, Serra já se utilizava de expedientes escusos para conseguir o que queria: quando havia a necessidade de votações nas quais a posição de Serra era minoritária, a estratégia era discursar longamente, até que o quórum diminuísse e a votação estivesse garantida.

Que José Serra trouxe o nível da campanha presidencial ao chão, já não se discute.  Aliou-se com os setores mais conservadores da sociedade, da TFP, Opus Dei ao que resta da ARENA nesse país.  A simulação da bolinha de papel  e a tentativa de enganar o povo ao misturar o modelo de concessões do pré-sal com o modelo do petróleo anterior são preciosidades da coleção de baixarias da campanha tucana.  Sobre isso já escrevi neste espaço.

Só que eu eu jamais, jamais imaginei que Serra pudesse tomar uma atitude tão antidemocrática quanto a que assumiu em seu “discurso de ‘aceitação’ da derrota”.

Dilma Rousseff foi declarada vencedora do pleito às 20:14, pouco mais de uma hora depois do término da votação (lembrando que o Acre tem duas horas de atraso).  Se a minha memória não estiver extremamente comprometida, é de praxe que o telefonema de congratulações seja feito logo depois desse anúncio do TSE.  Não se falou nisso.  Em eleições presidenciais, normalmente o candidato derrotado faz o discurso oficial de admissão de derrota e cumprimentos ao vencedor de seu QG eleitoral, sempre ANTES do discurso do candidato eleito...é mais que uma simples regrinha de etiqueta, faz parte do respeito à democracia.

Dilma esperou, esperou, esperou…quase duas horas depois do anúncio oficial, e nada do Serra!  Dilma inicia seu primeiro discurso à nação, como presidente eleita, precisamente as 22 horas, sem que houvesse qualquer declaração do candidato derrotado.  O discurso de Dilma se encerrou as 22:25.

Serra inicia sua fala quinze minutos depois de encerrado o discurso de Dilma, às 22:39.  Pronunciou exatas 720 palavras durante 10 minutos e 7 segundos; dessas, dedicou 36 palavras e 26 segundos para reconhecer sua derrota e cumprimentar Dilma Rousseff.  

Disse o Zé:

“No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humilde a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país.”
Depois disso, cumprimentou seus eleitores, agradeceu seus companheiros de campanha (sem mencionar Aécio ou Índio da Costa), e disse coisas bonitas, a respeito de uma guerra:

“Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.”

O discurso doSerra tá aqui:


Ninguém quer um país sem oposição.  Mas naquele momento, ao término de um processo em que Serra dividiu o país, conclamando os setores conservadores da sociedade, o momento era de apoiar a presidente-eleita  e trazer de volta a paz a uma população cansada de debate sujo.

José Serra saiu menor da campanha.  Depois de tudo isso, e desse discurso de encerramento, creio que Serra esteja acabado para o cenário federal...seu nome agora, é Zé Pequeno.



Só pra lembrar do que se trata o respeito democrático, John McCain fez um belíssimo discurso quando perdeu as eleições para Obama.  Infelizmente não encontrei legendado, mas conto pra vocês como foi.  McCain falou por cerca de 10 minutos.  Agradeceu os votos que teve e abriu dizendo que "o povo falou, e falou com clareza".  Disse que ligou para Obama, controlou por diversas vezes as vaias de seus correligionários, e passou a falar sobre o adversário.  Elogiou a capacidade de Obama de transmitir e instilar nos americanos uma mensagem de esperança.  Falou longamente sobre o fato histórico de terem eleito um descendente de negros.  Falou do passado escravista do país.  Ofereceu sua ajuda a Obama.  O video tá aqui...quem não viu e entende inglês, vale a pena.


É assim que se faz.  McCain foi muito grande nesse discurso.  Serra, muito pequeno.  Infinitamente pequeno pra quem deseja ser presidente de um país diverso como o nosso.

Não acredito que o PSDB volte a patrocinar Zé Pequeno em 2014, quando Aécio estará no meio de um mandato de 8 anos no senado.  Não acredito que Serra se candidate em 2018, quando terá 76 anos.  Não acredito que se candidate ao governo de São Paulo, uma vez que a prioridade será a reeleição de Alckmin.  Restará a Zé Pequeno a prefeitura de São Paulo ou a disputa pelo senado, na qual enfrentaria Suplicy, que ocupa a vaga desde 1991.

P.S. Não se falou muito sobre a demora de Zé Pequeno em discursar ou sobre o teor de suas palavras, exceto por um professor de história desavisado que comentava na Globonews naquele momento.  Fiquei pensando no que poderia ter atrasado tanto o Zé, e descobri que ele mora em casa não declarada ao TSE, localizada à rua Antônio de Gouveia Giudice, 775, em Alto de Pinheiros.  O QG tucano fica no edifício Joelma (tinha que ser!).  Esse trajeto, segundo o Google Maps, levaria cerca de 20 minutos.  Domingo à noite certamente não passaria muito disso.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

bolsa-família e a hipocrisia do discurso da elite

Das previsões políticas que a gente faz:

Eu achava, desde o princípio da discussão da candidatura do governo, que essa seria uma campanha vencedora, à despeito das primeiras pesquisas que mostravam Dilma muito atrás de Serra.  Tinha plena consciência de que uma vez iniciada a campanha, o Lula seria capaz de transferir um grande contingente de eleitores, o que de fato aconteceu.

Mas uma outra previsão minha se mostrou errada: o que eu conhecia de Dilma, de sua postura firme, impossibilitava ataques baixos como aqueles que o Lula costumava sofrer em suas campanhas.  Não seria possível acusar Dilma de ser analfabeta, de falar errado, de desconhecer os números do país, de propor mudanças malucas na economia.  Mas não considerei a capacidade de José Serra de derrubar ao chão o nível da campanha e dos debates.  O jogo sujo e as campanhas controladas na rédea curta pelos marqueteiros impossibilitaram que Dilma se mostrasse como uma mulher que entende muito da realidade do nosso país.  Pra quem nunca viu a Dilma falando com calma, e sem os freios impostos pela publicidade eleitoral, sugiro que vejam essa entrevista (só incluí aqui a primeira parte de seis):


O que aconteceu, todo mundo viu: a campanha tucana começou com os ataques à quebra de sigilo de pessoas ligadas ao Serra - que depois de verificou ser fruto de disputa interna do PSDB.

Seguiu com a utilização do tema aborto, na minha opinião, o maior desserviço da campanha tucana nessa campanha, porque obrigou a Dilma a assumir compromissos com os setores mais conservadores da sociedade brasileira.  O tema só saiu de pauta depois da acusação de ex-alunas de Mônica Serra, que relataram que esta teria confessado ter feito um aborto nos EUA.

Na última semana, um tema voltou à tona: a vagabundagem daqueles que recebem o bolsa-família.

O caso relatado por Maria Rita Kehl, no artigo que resultou em sua demissão do Estado de São Paulo, não é novidade pra mim.  A jornalista relata o seguinte:

"Uma dessas correntes (de e-mail) chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família."

Coincidência ou não, eu ouvi o mesmo caso em Fortaleza.  Contado por duas pessoas diferentes, que alegam ter passado pela experiência desagradável de ter suas generosas ofertas de trabalho recusadas por trabalhadores, que abriam mão dos melhores salários para continuar a receber o benefício do bolsa-família.  Em uma das histórias, a pessoa recusou a oferta de cara (porque teria ido procurar emprego então)?.  No outro caso, a pessoa só recusou depois de saber que o empregador pretendia registrá-la.

Isso, pra mim, simplesmente não tem a menor lógica.  Fui me informar direito sobre o funcionamento do bolsa-família, e os fatos são os seguintes:

Famílias com renda de até R$70,00/pessoa, podem receber valores que variam entre R$68,00 a R$200,00 - o valor máximo só é pago para famílias com pelo menos 5 filhos - 3 na faixa etária de até 15 anos e 2 entre 16 e 17 anos.  No caso dessas famílias, com renda per capita inferior a R$70,00, o benefício é pago mesmo que não tenham filhos nessas faixas etárias.

Para famílias com renda entre R$70,00 e R$140,00, não existe a possibilidade de receber o benefício sem crianças em idade escolar, e os valores pagos variam entre R$22,00 (1 filho de até 15 anos na escola) a R$132,00 (5 filhos).

As tabelas com os valores pagos e condições impostas, podem ser encontradas aqui.

Vamos raciocinar um pouco: se a pessoa sai de casa para procurar emprego, supõe-se que ela queira trabalhar.  Digamos que essa pessoa faça parte de uma família cuja renda não supere os R$70,00/pessoa, e que o benefício recebido seja o máximo: pai, mãe, três filhos entre 0 e 15 anos  dois entre 16 e 17.  São 7 pessoas com renda inferior a R$490,00 - menos que 1 salário mínimo - R$510,00.

É legítimo que uma pessoa numa situação dessas recuse um emprego que pague R$510,00 para uma jornada de 44 horas/semana.  Não há dignidade e, de fato, é melhor que essa pessoa fique em casa cuidando de seus filhos.  Mas digamos que o salário oferecido seja maior que esse.  Nos dois casos que me foram relatados, ofereciam R$700,00 e R$900,00.

Com R$900,00, a renda per capita da família passa a ser de R$128,57/pessoa, o que ainda qualifica a família a receber um benefício de R$132,00.  Faz sentido alguém abrir mão de uma renda familiar de R$1.032,00 para continuar recebendo R$200,00 do governo???

Todas as vezes que questionei meus interlocutores a respeito da falta de lógica dessa situação, recebi respostas do tipo "é que esse povo fica acomodado com isso" ou "são burros, não fazem esse raciocínio".  São, invariavelmente argumentos preconceituosos, pronunciados em tom de extremo desdém e denotam, na minha opinião, um profundo desrespeito à familias humildes que passam fome.

Penso, honestamente, que pra quem já fazia parte da classe média antes de Lula, o valor que o governo gastou no bolsa-família não faz a menor diferença.  Foram destinados ao bolsa-família, entre 2003 e 2010, R$60,2 bilhões de reais, ou R$7,5 bilhões/ano, o que equivale a 0,23% do PIB de 2009 (R$3.143 bilhões).  Esse "pequeno investimento", significou um acréscimo de 47% na renda das cerca de 50 milhões de pessoas atendidas em todos os municípios brasileiros, cerca de 26% de toda a população.  As informações estão aqui.

O bolsa-família é um programa de carácter emergencial, e na minha avaliação, tem dois objetivos: evitar que milhões passem fome (coisa muito abstrata para as elites, muito concreta para quem vive assim), e colocar a opção de manter as crianças na escola como escolha melhor que mandar os filhos para a rua, vender balas.  Esse programa não é, de forma alguma, responsável pela elevação dos milhões de brasileiros que ascenderam à classe média.  Isso é fruto da política de reajustes constantes no salário mínimo e do crescimento econômico que gerou 15 milhões de emprego nos últimos 8 anos.

Falar contra o bolsa-família é perverso.  Acusar os famintos deste país - colocados nessa condição por conta de 500 anos de dominio das elites brasileiras e ausência de políticas sociais - de vagabundagem é maldade, falta de sensibilidade.  E alegar "que a burrice do povão" os leva a recusar melhores condições de vida, especialmente daqueles que estão procurando emprego, é um insulto à inteligência de qualquer cidadão - estamos falando de pessoas, e mesmo ratos são capazes de apertar os botões que lhes retribuam com a melhor recompensa.

De qualquer forma, esse dicurso não me impressiona.  A mesma estratégia foi adotada na ocasião em que derrubaram a CPMF.  As mesmas elites que falam contra o bolsa-família, foram responsáveis pelo entendimento, de grande parte da classe média do Brasil, de que os 0,38% pagos sobre as movimentações financeiras representavam alguma coisa relevante nos bolsos da população.  Uma pessoa que movimentasse R$5 mil/mês (quantas pessoas movimentam isso no Brasil?), pagaria R$17,00/mês.  Em nome do fim desse "abuso", a saúde do país perdeu R$40 bilhões/ano - ou 5,5 vezes mais o que se investe no bolsa-família.

Triste.