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domingo, 8 de abril de 2018

Mascuplicando o mansplaining

Um dos conceitos mais interessantes que surgiram na última década, do ponto de vista de artilharia retórica, é o de "mansplaining". É um produto do feminismo moderno importantíssimo, porque extrapola as fronteiras do sexismo clássico (opressão homem sobre mulher), informando a qualquer ser humano a sensação de estar oprimindo ou a de ser oprimido, no plano retórico.

Mansplaining é uma definição recente para um problema antigo, e eu sinto que deveria ser mais difundido por estas bandas, ou pela adoção do termo original, ou através da criação de um neologismo similar. Sugiro "mascuplicação" - se não for acatado, dou de presente pra medicina - talvez sirva pra descrever um procedimento cirúrgico muito específico para homens que ninguém sabe direito o que é:

- Amanhã serei submetido a uma mascuplicação...
- Pra quê?
- Não é da sua conta.

Também serviriam "homexplicação" ou, se quisermos o estrangeirismo, "mansplicação".

Como eu sei que a maioria dos brasileiros ainda (isso vai pegar) não sabe o que mansplaining significa, vou mascuplicar aqui (vamos fazer pegar!). Mansplaining consiste em explicar alguma coisa pra alguém assumindo, num tom condescendente, que o interlocutor sabe muito menos que você sem que existam motivos para tanto. Normalmente ocorre no sentido homens ➨ mulheres, embora possa ocorrer entre mulheres, de mulheres para homens ou entre homens - eu tenho várias histórias de gente mascuplicando coisas pra mim (uuuhh....).

Acusar alguém de mansplaining geralmente é um golpe forte de retórica: expõe a postura arrogante do mascuplicador, a obviedade do objeto, e a ignorância daquele em não percebê-la - trata-se, portanto, de uma arma muito útil no arsenal retórico. Agora: como dizia o poeta, "com grande poder vem uma grande responsabilidade" (Parker, Ben - 2002). É muito fácil acusar alguém falsamente de mascuplicação.

Neste artigo recente a jornalista Giuliana Vallone (secretária-assistente de redação do jornal) explica bem o conceito de mansplaining, e logo depois ilustra-o incorretamente com a sessão do STF que negou o Habeas Corpus pleiteado pela defesa de Lula. A autora acusa os ministros Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski de mascuplicar para a ministra os efeitos da decisão dela.

Eu assisti a sessão inteira. Confesso que nos exemplos citados, eu não vi a condescendência que a jornalista da Folha enxergou. Para a autora, depois de diversos exemplos claros de mansplaining, o pior momento foi a acusação de Marco Aurélio de que o voto de Rosa Weber não estava claro. Reproduzo aqui o trecho destacado na reportagem:



“Rosa, Vossa Excelência me permite um aparte?”, disse Marco Aurélio. “Pois não, ministro Marco Aurélio, com muito gosto”, respondeu Rosa, com expressão de quem já sabe o que vem pela frente.

“Se a apreciação dos pedidos formulados nas [ações] declaratórias de constitucionalidade fosse hoje, haveria maioria para deferir a liminar, ante a evolução do ministro Gilmar Mendes”, afirmou ele.

Antes de conseguir respondê-lo adequadamente, a ministra também precisou se explicar a Lewandowski, que irritado, defendeu que considerando a posição de Rosa, “a corte não pode evoluir jamais”.

Cármen Lúcia, presidente do STF, saiu em defesa da colega. “Ministro, a ministra Rosa Weber justificou muito bem, exatamente dentro da opinião dela, então acho que há de se respeitar.” Foi, entretanto, também interrompida por Lewandowski, que argumentou que, no colegiado do Supremo, a troca de ideias é cabível.

“Com muito prazer. Mas tem um detalhe: eu estabeleci premissas teóricas”, disse Rosa, antes de ser interrompida novamente (a essa altura, pela terceira vez).

E então, veio a cereja do bolo. “No início, eu confesso que não sabia a natureza de seu voto. E eu tenho alguma experiência no colegiado”, afirmou Marco Aurélio.

“Quem me acompanha nesses 42 anos de magistratura não poderia ter a menor dúvida com relação ao meu voto, porque eu tenho critérios e procuro manter a coerência das minhas decisões”, respondeu a ministra, que, ao retomar seu voto, já nem conseguia mais lembrar onde havia parado.



A afirmação final de Marco Aurélio "E eu tenho alguma experiência no colegiado" é de fato arrogante. Mas o resto da discussão me parece estar dentro dos parâmetros normais. Como eu tenho alguma experiência em assistir esses caras em sessões desde muito antes de virar modinha (problema meu), a coisa toda me parece natural para a escrota vaidade do Marco Aurélio, descrita em detalhes nesses dois artigos da piauí parte 1 e parte 2 (recomendo).

De resto, a ministra se saiu muito bem. Há inúmeros relatos na mídia de pessoas que não conseguiam adivinhar em que direção o voto de Rosa Weber caminhava, mas esse é um outro problema: os ministros são prolixos, vaidosos e GOSTAM de tirar os coelhos de suas cartolas no finalzinho, postura besta, do ponto de vista da objetividade. Já o debate duro, a crítica irritada e pesada do Lewandowski, tudo isso é perfeitamente normal na dinâmica do STF.

O que nos faz pensar, todavia, é a segunda parte da matéria, que também transcrevo aqui:




"Mas Cármen e Rosa, duas das únicas três mulheres a ocuparem uma cadeira no Supremo em toda a história da corte (Ellen Gracie, aposentada em 2011, foi ministra por 11 anos) já são pós-graduadas em 'mansplaining'.



No ano passado, a presidente do STF interrompeu uma sessão para falar sobre o desequilíbrio nas relações de gênero no tribunal. Ela citou estudo feito por Tonja Jacobi e Dylan Scheweers, dois pesquisadores da Escola de Direito da Northwestern University, nos EUA. 


Eles analisaram transcrições de sustentações orais na Suprema Corte americana ao longo de anos e concluíram que integrantes do sexo masculino interrompem mulheres três vezes mais do que homens. 

O levantamento mostra que, apesar de as ministras falarem menos e usarem menos palavras do que os ministros, são interrompidas durante a fase de sustentação oral de forma significativamente maior. 

Em 2015, quando havia três mulheres entre os magistrados da corte suprema dos EUA, 65% das interrupções foram dirigidas a elas. 

Diante dos dados, Cármen concluiu: 'E a ministra Sotomayor [da Suprema Corte americana] me perguntou: como é lá [no Brasil]? Lá, em geral, eu e a ministra Rosa, não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas'."



Tá aqui o vídeo:



Perfeito o pito público da Carmen Lúcia, especialmente porque essas coisas são gravadas e ficam para a posteridade. Todavia, o que resta demonstrado tanto na análise da jornalista quanto no exemplo da sessão de ontem, não é o conceito de mansplaining, mas uma outra modalidade de machismo parecida, que também afirma superioridade intelectual através do exercício constante de interrupções no sentido homens ➨ mulheres, o que sugere, no mínimo, falta de respeito. Isso também tem nome moderno específico: "manterrupting" (man + interrupting), termo muito menos utilizado. O que me deixa com uma pulga atrás da orelha é a possibilidade de que  a acusação de mansplaining neste caso sirva para angariar as simpatias dos movimentos identitários no sentido de uma defesa do voto de Rosa Weber. Não sei se a autora forçou a barra porque queria apresentar o conceito, se é erro mesmo, ou se há um objetivo oculto no artigo.

Enfim, de qualquer forma queria aproveitar a oportunidade de promover o conceito de mansplaining. e introduzir, no vocabulário nacional, um termo pra chamar de nosso.

Mascuplicação!



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terça-feira, 30 de agosto de 2016

das interpretações do golpe (ou não?)

Noam Chomsky falando sobre a situação do Brasil. Simples, conciso, direto:


"É uma espécie de 'golpe branco'. A elite detestava o Partido dos Trabalhadores e está usando esta oportunidade para se livrar do partido que ganhou as eleições. Não vão esperar pelas eleições, que provavelmente voltariam a perder, mas querem se livrar dele (PT), explorando uma recessão econômica, que é grave,  e a maciça corrupção que foi exposta. Mas como até mesmo o New York Times apontou, Dilma Rousseff talvez seja a única liderança política que não roubou para se beneficiar. Ela está sendo acusada de manipulações no orçamento que são comuns em muitos países, tirando de um bolso e colocando em outro, o que talvez seja um malfeito de algum tipo, mas que certamente não justifica um impeachment. Temos a única líder que não roubou para enriquecer sendo impedida por uma gangue de ladrões que o fizeram. Isso de fato conta como um 'golpe soft'."

O texto a seguir não é exatamente sobre essa fala de Chomsky, mas sobre o discurso de uma ala de intelectuais na esquerda do nosso espectro político, incapazes de propor qualquer coisa que passe um da pura demonstração de erudição a serviço de porra nenhuma.

Lembro aqui que eu posso estar equivocado sobre as minhas conclusões. Tenho uma formação de origem naturalista, tendo migrado, posteriormente, para o terreno movediço das humanidades, portanto, meio diferente da maioria dos acadêmicos de formação puramente humanística. Sou um determinista. Pois bem, penso que "golpe soft" ou "golpe branco", utilizados por Chomsky, são os termos que melhor descrevem o movimento político que está em curso no Brasil.

Parte da esquerda tem rebolado junto com a direita, embora de forma mais elegante e prolixa, para explicar que o que acontece aqui não é um golpe.

Idelber Avelar compartilhou há pouco um texto de Marcus Fabiano Gonçalves, professor de direito na UFF, no qual o último explica que golpes de Estado, na definição de muitos autores clássicos, requerem uma tomada violenta do poder, ou, minimamente repentina. Aviso, o texto é bastante extenso, demanda muita disposição.


Para o autor, o fato de que Dilma vem se enterrando lenta e longamente numa situação política insustentável faz do termo "golpe" muito mais uma questão de retórica política, o que desqualificaria o fenômeno da definição clássica de golpe de Estado:

"A palavra 'golpe' nos chega pelo latim vulgar colpus, anteriormente grafada colaphus, 'bofetada, soco, murro', originando-se, por sua vez, do grego kálaphos (κάλαφος), 'tapa na cara, pancada na face'. Ou seja: a partir da analogia que se procura nesse gesto, compreende-se o 'golpe' como uma medida enérgica e repentina desferida contra certa ordem estabelecida. E ninguém precisa ser um grande cientista político para constatar que Dilma Rousseff não sofreu nenhum solapamento súbito. Muito antes pelo contrário: a sua sustentação popular e parlamentar veio paulatinamente erodindo-se até o limite da ingovernabilidade desde as manifestações de junho de 2013, coisa perceptível em estrondosas vaias (como as da Copa do Mundo), sonoros panelaços e múltiplas defecções de sua base aliada, outrora fidelizada à custa do Mensalão que produziu as condenações da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal."

Para usar a expressão de Sokal & Bricmont, "fashionable nonsense". O texto começa bem, o autor demonstra seus traços de erudição através de um vocabulário rico - que se mantém até o final do texto, ao contrário da qualidade da argumentação.

Gene Sharp e Noam Chomsky, explicam essa modalidade relativamente moderna do golpe, o chamado "golpe branco", no qual os agentes golpistas se utilizam do aparato legal e formalidades jurídicas para atingir o poder. O caso paraguaio é citado no texto justamente para expor as diferenças do que aconteceu por lá com a nossa versão da coisa:

"Corretamente chamado de 'golpe relâmpago', tal episódio não pode, em hipótese alguma, ser posto em paralelo ou suscitado como algum precedente razoável para a situação brasileira do afastamento constitucional de Dilma Rousseff, mesmo porque ele tampouco envolve um caso gravíssimo de corrupção como o que atinge o partido e os auxiliares mais diretos da Presidente do Brasil. Não bastasse isso, as diversas e longas oportunidades de defesa aproveitadas pelas representações de Dilma Rousseff chegaram ao limite do constrangimento e da ruptura do decoro parlamentar quando, na própria Câmara dos Deputados, o Advogado Geral da União chamou, sem pejos, os mandatários lá reunidos de 'golpistas', coisa que, em qualquer país de sólida tradição democrática, ensejaria as mais contundentes exigências de desagravo."

Para Gonçalves (e Avelar, por adesão) o processo brasileiro não só não pode ser chamado de golpe no sentido clássico, mas não pode ser comparado a um golpe sob qualquer circunstância. A diferença do caso paraguaio para o nosso é o fato de que por lá os prazos para defesa foram extremamente exíguos e a motivação não teria sido um escândalo de corrupção, mas um pretexto moral (as crias de Lugo). Cabe ressaltar que os tais "golpes brancos" não são vinculados a um prazo específico ou à extensão e complexidade do processo. Pelo contrário, quanto maior a impressão de que os procedimentos foram seguidos à risca, melhor caracterizada fica a coisa. Neste sentido, penso que é justamente o golpe paraguaio que se situa na condição limítrofe dessa modalidade de ruptura democrática, é quase um golpe clássico. A coisa aqui foi cozida em fogo baixo, nossos rabos devidamente lubrificados, o discurso da mídia martelado à exaustão. Fomos vencidos, afinal, pelo cansaço, alienação e bundamolice, conforme ilustrou Laerte, de forma brilhante:



Gonçalves, ao contrário, utiliza o fato de que o procedimento foi conduzido lenta e cautelosamente para justificar sua adesão à tese de que "se o STF respalda o procedimento e existe previsão constitucional para impeachment não é golpe":

"Contudo, desde uma perspectiva constitucional, o processamento do impeachment – cujo rito vem sendo estritamente fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com toda clareza e publicidade em sessões até transmitidas pela televisão –, não há nunca de ser chamado de 'golpe' e, muito menos, de “golpe de Estado”. Golpe de Estado é, isso sim, um atentado à ordem instituída caracterizado por um procedimento de tomada do poder rápido, vigoroso e perpetrado ao arrepio da lei e da Constituição, via de regra mercê do emprego da força militar coativa. Assim, é próprio à dinâmica do golpe de Estado um tipo de agilidade que, impondo surpresa aos seus adversários, cuida de se precaver contra eventuais resistências."

Puta merda, então precisa do elemento-surpresa. Novidade pra mim e pro Brasil, país no qual o último golpe reconhecido por todos foi arquitetado por 10 anos, coincidentemente gestado através de muita propaganda, apoio da mídia e  setores conservadores da sociedade nacional. Sei lá, talvez só o finalzinho conte nessa regra, quando os militares pulam por detrás da cadeira do Jango e gritam "surpresa!".

Dilma, em uma de suas muitas respostas no senado, afirmou que em lugar nenhum na literatura política é dito que golpe de Estado = golpe militar. Não é verdade, há autores que dizem isso...trata-se, porém, de uma leitura anacrônica da realidade política: ou a conjuntura brasileira não comporta um novo golpe militar, ou (o que penso ser o mais provável), simplesmente os interessados optam pelo menor esforço, o golpe parlamentar.

Goste-se ou não de Dilma, é fato que as acusações contra ela não passam de um pretexto para devolver o poder no Brasil aos seus "donos" de fato.


O texto traz alguns elementos interessantes, que podem ser utilizados como justificativa para o raciocínio que pretende conduzir: o marketing político certamente busca o exagero em suas declarações. Não significa, em absoluto, que o processo atual se trate de uma construção de marquetagem...mas pra arrematar o argumento, o autor nos dá a origem da utilização do termo golpe no caso nacional: Paulo Henrique Amorim.


"O rumor do 'golpismo' provém da expressão 'Partido da Imprensa Golpista' (PIG), um vitupério cunhado em 2008 para se denegrir as grandes redes de mídia, das quais foram demitidos alguns jornalistas, desde então, e repentinamente, empenhados em interpretar seus afastamentos como autênticas perseguições ideológicas."

Certo...foi porque PHA criou este vitupério (quer dizer insulto, eu olhei) à grande mídia brasileira, que os néscios da esquerda toda - incluindo Chomsky e Zizek, unidos num só coração - chamam a coisa de golpe. Honestamente, no momento atual não tenho um pingo de paciência pra essa intelectualidade cínica e vaidosa de setores da intelligentsia da esquerda. Serve pra bosta nenhuma.Quem se dispuser a ler o texto me diga depois em qual tipo de discurso reside a exclusividade da retórica política. Enquanto se discute se é permitido chamar a coisa de golpe ou não (como se qualquer coisa dependesse de suas iluminadas cabeças), o golpe é consumado.

Parabéns pelo vocabulário e pela inutilidade.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Brazil, 2016*

Beati futuri, futura possibilia,
(futuro feliz, futuro possível)

Regozijai-vos, povo da Vera Cruz, pois tempos auspiciosos se anunciam!

Com a derrocada do perverso regime comunista que ameaçava os bons costumes em nossa pátria amada, podemos dormir tranquilos sabendo que o futuro será deveras alvissareiro.  As primícias são animadoras: estamos a excisar tudo aquilo que é supérfluo, frívolo e dispensável no nosso novo governo.  Começamos por eliminar um tal Ministério da Cultura, que dentre outras cousas, ocupava-se de regar, com os parcos recursos públicos, abonados artistas.  Ora, nos bons tempos de outrora a pouquidade de normas que incentivavam a execução das artes jamais impediu o surgimento de baluartes culturais: cito Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.  Todos homens do povo, e com vantagens: do melhor que existe do povo. Não precisamos de samba nos morros, mas de gente nos campos e fábricas, construindo e alimentando o nosso povo. A retomada do progresso (sempre de forma ordeira, conforme preconiza o lábaro pátrio) não permite adornos e excessos.

Universidade é outro luxo no qual não devemos mais desperdiçar nossos mui-custosos recursos - até porque estes deverão ser sumariamente privatizados, passando às mãos de probos e valorosos homens de negócios, que saberão explorá-los de forma mais cosentânea, abatendo as sobras indesejáveis de nosso Estado.  A academia foi uma idéia (com acento, como é o certo) deveras interessante.  Bom enquanto durou, mas certamente é uma história de fracasso.  Aqueles que educamos para liderar os rumos da terra-mãe infelizmente sucumbiram, ufanosos e iludidos, aos desvarios marxistas.  Pergunto: que vantagens nos trouxe a tal academia?  Apenas conflitos, nossa gente partida ao meio em dúvidas que lhes foram imputadas por esse povaréu que não entendeu muito bem o que é certo.

Não negamos que o conhecimento oportunize o florescimento de uma nação melhor, mas deixemos isso para aqueles que entendem do assunto: os estadunidenses e cidadãos do velho continente fizeram suas universidades com perícia. Aqueles que quiserem poderão - e serão incentivados - a estudar no estrangeiro, pagando com seus próprios recursos, por óbvio. E não me digam que isso restringirá a educação aos filhos dos abastados.  A riqueza é o prêmio de quem trabalha, vivemos, doravante, o regime do mérito.  Eu mesmo conheço dois rapazotes crioulos, que após adotados por adoráveis amigos foram capazes de atingir empregos admiráveis: médico e administrador no hospital dos pais. Bonito de se ver.



Devemos desfazer confusão que vem sendo propalada por aqueles que buscam a reconstrução do regime rubro: não é verdade, em absoluto, que a mulher não é valorizada em nosso novo Brazil. Pelo contrário, não acreditamos, por um instante sequer, que homens e mulheres sejam iguais. Não é possível, senhores, que caiamos nesse discurso fácil de lésbicas e feministas mal-amadas de que não existem diferenças de gênero - pelo contrário, existem e exigem que tratemos os diferentes, de forma diferente. Está muito claro que nos últimos tempos, muitas damas tem estado aflitas, preocupadas. A razão disso, amigos, é a inadequação do nosso contra-gênero para absorver de forma adequada, os enigmas das conversas políticas.

Mulheres laborando fora do lar foi outra experiência bem intencionada que fracassou.  A tentativa foi pertinente, curiosa, mas não podemos mais arcar com as consequências. Conforme explanamos, a intelectualidade não apraz às mulheres.  É importante que as famílias as eduquem, desde pequeninas, para agradar aos seus maridos - não sem serem recompensadas pelos cônjuges varões: flores e chocolates são sempre excelentes presentes. E às que não se casarem, há sempre a serventia necessária para tratar de seus idosos.  Não queremos dizer que as atividades profissionais estão fora de alcance, de forma alguma, apenas que há atividades adequadas para mulheres de uma sociedade digna: professora de piano é, há séculos, profissão digna que pode muito bem ser exercida por nossas amáveis mulheres, ao menos para aqueles alunos sem maiores pretensões na música.  Lembrem-se também  que uma bela mulher ao piano anima qualquer festejo.

Haverão querelas, estamos certos, mas também sabemos que Ciência e Filosofia são efêmeras nas mentes preguiçosas. Pouco tempo de afazeres domésticos, novelas e revistas femininas deverão dar cabo de eliminar as preocupações tão comuns nos dias de hoje. Há ainda mais motivo para júbilo: com os modernos aparelhos inventados pelos homens, as tarefas do lar estão cada vez mais fáceis, de forma que haverá muito tempo livre para se dedicar a atividades como o tricô, bordado ou conversar com as amigas através do muro ou mesmo por video-chamadas! Beati futuri!

Povo da Santa Cruz, verde-louros, súditos do grande pato! Alegrai-vos, pois o futuro é premente! Construiremos uma nova nação, em nome dos pais e das mães, dos filhos e das filhas, da tradição e da propriedade, em nome de Deus.

Tempos auspiciosos se anunciam!


M.



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*com agradecimentos às amigas Grace e Juliana, pela inspiração.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Redução da maioridade penal: o brilhante armamento retórico conservador

Em mais um capítulo do processo da ascensão do conservadorismo e "absurdização" da discussão política nacional, a CCJ da Câmara dos Deputados resolveu há pouco, por 43 votos contra 21, que a proposta da PEC que reduz a maioridade penal no país para 16 anos não é inconstitucional.

Apesar de se tratar de uma proposta ridícula, a discussão é legítima...como é legítimo discutir se cavalos devem usar fraldas no país.  Mas os argumentos apresentados pelos que defendem a proposta, divulgados pelos grandes órgãos da mídia nacional são, até agora, uma coleção de não-argumentos.

Um dos artigos mais lamentáveis que vi até o momento foi essa matéria da UOL. Um verdadeiro show de má-argumentação:

1) A mudança do artigo 228 da Constituição de 1988 não seria inconstitucional. O artigo 60 da Constituição, no seu inciso 4º, estabelece que as PECs não podem extinguir direitos e garantias individuais. Defensores da PEC 171 afirmam que ela não acaba com direitos, apenas impõe novas regras;

2) A impunidade gera mais violência. Os jovens "de hoje" têm consciência de que não podem ser presos e punidos como adultos. Por isso continuam a cometer crimes;

Sim, é como se a possibilidade de ir pras "Fundações Casa" da vida fosse algum tipo de incentivo. E como se os "jovens de hoje" com menos de 16 anos não pudessem seguir a mesma lógica. E como se jogar mais gente no escola do crime sistema prisional brasileiro fosse gerar cidadãos melhores ao fim de suas penas.

3) A redução da maioridade penal iria proteger os jovens do aliciamento feito pelo crime organizado, que tem recrutado menores de 18 anos para atividades, sobretudo, relacionadas ao tráfico de drogas;

Claro...porque os bandidos que aliciam jovens de 16 e 17 anos têm muito escrúpulo e jamais irão pensar em compensar a perda destes com crianças de 12 a 15 anos de idade. A entrada no mundo do crime através deste tipo de prática será adiantada em dois anos.

4) O Brasil precisa alinhar a sua legislação à de países desenvolvidos com os Estados Unidos, onde, na maioria dos Estados, adolescentes acima de 12 anos de idade podem ser submetidos a processos judiciais da mesma forma que adultos;

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"O Brasil precisa alinhar a sua legislação à dos EUA"

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Que tipo de argumento é esse? Nenhum dos países "desenvolvidos como os Estados Unidos" apresentam taxas de criminalidade e homicídios tão altas quanto às daquele país, nem uma população carcerária tão grande.  Ainda em relação aos EUA, vale a pena lembrar a correlação positiva entre pena de morte e número de homicídios: estados que aplicam a pena capital apresentam taxas maiores de homicídio.  Porque não argumentar que Brasil e EUA precisam alinhar suas legislações àquelas de países desenvolvidos como Suécia, Noruega, França...ou de Espanha e Alemanha, que voltaram atrás na redução da maioridade penal, após verificar que, como em TODOS OS PAÍSES QUE SEGUIRAM O MESMO CAMINHO NÃO HOUVE DIMINUIÇÃO DA CRIMINALIDADE.

5) A maioria da população brasileira é a favor da redução da maioridade penal. Em 2013, pesquisa realizada pelo instituto CNT/MDA indicou que 92,7% dos brasileiros são a favor da medida. No mesmo ano, pesquisa do instituto Datafolha indicou que 93% dos paulistanos são a favor da redução.

A maioria da população brasileira jamais foi exposta a um debate profundo sobre este tema, que não tem nada de trivial. O advento do Direito é consequência da evolução, através dos milênios - das Ciências e da Filosofia...resultado de muto debate realizado por gente que gastou muito neurônio pra pensar no assunto. A reação imediata de qualquer vítima de crime pode ser o sentimento de vingança...mas se pudéssemos agir sobre este desejo toda vez que acontece algo, a civilização teria uma cara muito diferente - e menos civilizada. Há uma razão prática para termos abandonado as Lei de Talião ("Olho por olho, dente por dente"). A ideia é simples e atraente, especialmente por parte de quem não pensou muito sobre o tema (a imensa maioria desses 93%).

Tomar uma decisão desse porte em função do que a maioria pensa é equivalente a decidir como deve ser feita a distribuição dos recursos da pesquisa científica entre as áreas do conhecimento baseada na opinião do público da Sapucaí; ou decidir o cardápio das merendas escolares baseando-se na preferência das crianças.

Crime é uma doença social. Nenhuma medida punitiva, como já verificado nos países que reduziram a maioridade penal, irá fazer com que caiam as taxas de criminalidade, por um motivo simples: o crime é produto de uma determinada dinâmica social.

Enfim, os agitadores da direita já armaram seus seguidores com argumentos menos risíveis.


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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Não deixem Cantanhêde só!

Edição especial de WSR: escolha a nova morena da Folha

Houve uma época em que a Folha de São Paulo fazia a festa do leitor de jornal brasileiro, com sua fabulosa dupla de meninas: Eliane Cantanhêde, a loira, e Renata Lo Prete, a morena.  A última abandonou o barco e migrou para a Globonews, deixando sua alva e elegante companheira em vôo solo...desde a saída de Lo Prete, nenhuma outra morena se firmou em posição que pudesse fazer aquela agradável tabelinha com Cantanhêde.

Eliane é uma mulher sofisticada, bonita, inteligente.  Lo Prete é tudo isso, só que um pouco menos charmosa...em compensação, deu um dos furos mais importantes do jornalismo nacional ao entrevistar o confiável deputado Roberto Jefferson quando ele revelou uma história que depois foi adaptada para se transformar naquilo que conhecemos como mensalão.

As candidatas foram cuidadosamente selecionadas para essa pesquisa pelo Oráculo do Milênio, de forma que são inquestionáveis - ainda assim, abrimos espaço para outras opiniões, igualzinho à Folha.  O critério para definir quem é morena é aquele correto: pessoa de cabelos negros ou castanhos - gente clara de cabelos castanhos claros são morenos claros, e é simples assim.  Mulatas são mulatas e negras são negras, não "moreninhas", já que somos contra o uso do termo "moreno" como eufemismo pra negro.  Dessa forma, Sheherazade é morena, convivam com este fato.

Rachel Sheherazade é uma espécie de Cantanhêde de canal ruim de TV, só que com menos brilho, elegância e charme.  Tá, talvez não seja uma espécie de Cantanhêde, pra não ser injusto, mas são definitivamente da mesma espécie - a nossa.  Ou talvez seja um tipo de "She-Datena".  É, é isso.  Palmirinha entra como um convite à diversidade na página de opinião da Folha, jornal tão eclético e imparcial, com espaço pra todo mundo e todo tipo de opinião, até aquelas que não têm nada a ver.  E a Mulher Samambaia tá aí pra quem acha que beleza é fundamental e nem acha que a Cantanhêde precise de uma parceira tão convencional, no sentido jornalístico da coisa.  Cristiana Lobo é a escolha do leitor tradicional, e seria também uma chance da Folha se vingar das organizações Globo, levando uma de suas morenas mais destacadas.  Sem mais delongas, eis a enquete que elegerá a próxima morena da Folha!


A disputa será acirrada.  Qual dessas será a nova morena da Folha?  Votem!!

Pra quem não está a par da função da loira da Folha: trata-se de uma das colunistas mais importantes do jornal, publica na segunda página (opinião) às terças, quintas, sextas e domingos.  Ou seja: fica na frente, liderando a coreografia do jornal.  A morena teria função similar: ficaria na frente do jornal exibindo suas exuberantes opiniões, refletindo a alma do conjunto.  Cumprindo seu papel de jornalista indignada, escreveu revoltosas 10 colunas desde o dia 20 de julho de 2014, data na qual a Folha publicou o escândalo da construção do aeroporto nas terras do tio-avô de Aécio.  Abordou o tema em quase uma delas - a Folha não pode ser acusada de parcialidade.  Pra entender o papel da jornalista-estrela da Folha e votar em sua morena de forma consciente, aqui vão links de todas as 10 são do naofo.de, acompanhadas de um pequeno (médio ou longo) comentário, cliquem à vontade, sem dar audiência ou usar a generosa cota de 10 reportagens que a Folha te dá todos os meses.  Aviso que nenhuma vale tanto a pena assim, e estão aí mais pra provar que eu não tô mentindo nas análises e sinopses - já que todo mundo mente, de vez em quando.


20/07/2014: Gastando cartuchos

Cantanhêde destaca a rejeição de Dilma como o dado mais importante aferido na última pesquisa Datafolha, o que talvez a impedisse de vencer no segundo turno (o instituto aponta a vitória no primeiro turno).

22/07/2014: Pega ladrão!

Passada a copa e deglutida a boa organização, Cantanhêde declara que é hora de deixar de oba-oba e voltar a pensar na bosta do país, em todas as suas bostas e de que bostas acusaremos Dilma, Lula e a bosta do PT . É tanta bosta que ela não sabe nem dizer quantos gringos foram vítimas de roubos:

"Não sei quantos latino-americanos ficaram sem dinheiro e documentos para voltar, mais de 12 mil argentinos foram vítimas de roubo/furto no Rio e, segundo levantamento do site G1, os furtos em trens, metrôs e ônibus em aumentaram 379% em São Paulo em relação ao ano passado.  Imagine fora deles!"

Bom, aparentemente ela sabia.  Mas quantos roubos ocorreram fora dos trens/metrô/ônibus, hein, hein?!? Eu nem imagino.  Ela é jornalista, talvez possa apurar.


Eliane Cantanhêde aborda, en passant, o Aecioporto.

Em sua única coluna sobre o tucano, Dilma é assunto em cinco dos sete parágrafos, Campos em dois deles.  Para a colunista, enquanto "o TCU livra a cara de Dilma", Aécio e Campos "resvalam" em questões éticas.  Aécio "entrou na berlinda por 'reagir mal' às perguntas inconvenientes".

Fiquei preocupado com o parágrafo final do texto, possivelmente escrito sob abstinência de alguma droga para tratamento de transtornos dissociativos (não tomem essas porras, depois dá nisso):

"E a economia, a mão pesada estatal, o desajuste do setor de energia? Ah! Isso é coisa para a 'elite branca'."

Hein?

25/07/2014: "Anão diplomático"

A jornalista concorda com a posição brasileira, mas não sem antes dar uma coçadinha em sua glândula conservadora, só pra aliviar o comichão.

"Depois de três anos e meio de uma política externa dorminhoca, o Brasil deu um pulo da cama, tomou-se de brios e partiu pra cima de Israel."

27/07/2014: Salve-se quem puder

Sobre a rejeição do mercado à Dilma, Cantanhêde concorda que é uma análise arriscada, embora levada a sério pelas campanhas - é verdade.  Explica o processo: se a previsão de crescimento cai, a crença na vitória de Dilma cai e as bolsas sobem.

O terceiro parágrafo faz o serviço de reacender a rejeição das elites à presidente: o PT utiliza esse dado para reforçar, aos pobres, que rico não gosta da Dilma.

No final, lembra o nível de rejeição da presidente no país (35%, meio normal pra quem governa) e de 47% em SP, que vive uma espécie de esquizofrenia no plano local, com altos índices de aprovação a um governador que faz uma gestão, digamos, problemática (PM, escolas, USP, água, corrupção no metrô, etc).

Mas...e o Lula?  Mais uma vez a jornalista brilha na frase final:

"Aliás, Lula? Vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?" 

29/07/2014: Dividindo os erros

Nham-nham-nham!!! Sabatina da Folha com a Dilma, prato cheio e no dia seguinte é dia de feijoada - que em São Paulo se come também nas quartas.!

Dilma arranja desculpas para a economia.  Dilma erra ao dizer que o pessimismo afeta a economia, que é feita de expetactivas, quando na verdade "a economia é calcada, não em impressões e em manifestações de ruia, mas sim em dados concretos feitos por especialistas - do Banco Central e da área econômica, além da indústria e de agências de avaliação."

Aqui, peço licença para me alongar mais e "enseriar" a coisa.

No dia 22 de julho, a Folha publicou a seguinte reportagem: "Humor piora e deixa abaixo de 1% previsões para o PIB"

A previsão do boletim focus, uma pesquisa de mercado feita ou encomendada pelo Banco Central, caíra para 0,97%.

A Folha foi atrás de investigar, lógico.  E listou as razões que motivaram os economistas a refazerem suas projeções:

1) Queda na produção industrial.

2) Vendas do comércio (err...essas subiram em maio, mas "só porque foram puxadas por alimentos, móveis e eletrodomésticos".  O que tinha que subir, com o perdão da ignorância? Se a venda de adubos, canos de PVC e material de festas infantis tivessem subido valia?

3) menor criação de vagas formais no primeiro semestre desde 2008.  Foram criadas 588.671 vagas contra 397.936 naquele ano.  Bom, foram criadas mais vagas, certo?  Nesse ritmo (o pior de Dilma), seriam geradas, em seu governo, 4.709.368 vagas.  Até junho foram geradas 5.052.710 vagas.  Isso no meio da crise mundial e levando em consideração que o nível de desemprego continua baixíssimo, com um número de pessoas que nem estão procurando emprego porque optam por estudar, etc, etc, etc.  FHC gerou, nos seus oito anos, 5.016.672, numa média semestral de 313.542 vagas/semestre.  Imagine como estaria o humor dos economistas se estivéssemos assim?

4) cai a confiança da indústria;

5) cai a confiança do consumidor.

Sou só eu, ou das cinco razões apontadas apenas a primeira é uma razão real negativa, mensurável de fato?  2 e 3 são dados positivos, 4 e 5 são, bem.....expectativas - e com variação pequena.  Há ainda dois outros indicadores, que são meros desdobramentos da produção industrial, portanto, mais do argumento 1.

Sobre isso é só.

31/07/2014: Profecias e realidade

Neste dia Cantanhêde nos explicou a realidade.  É uma coluna meio sem sal, como deve ser a realidade, apesar dos temperos da jornalista.  Deixo só a  frase final, pra dar o gostinho:

"O empresário sabe distinguir 'profecia pessimista' de constatação."

Sim, pudemos observar na coluna anterior...o mau humor provocado pelos fatos reais, e não pelas "profecias pessimistas"  Ah, o empresariado brasileiro, esses sábios!  Aqui um deles, indignado feito um paulistano:


Ou só valem os grandes?  Tipo o pai desta criatura:

Sim, eu entendo a falácia do espantalho, mas é só uma aparente: vejam o que eles concluíram dos dados apresentados no quadro da Folha.  E você?  Olhe aqui.  Talvez não seja justo usar esses dois exemplos só porque a esmagadora maioria deles é mais parecida com isso aí do que com um Bill Gates - este, um conhecido petralha maldito.

01/08/2014: E o Lula, hein?

Pois é, e o Lula, hein?  Essa coluna demonstra a capacidade de leitura de Cantanhêde: dias antes ela perguntou "e o Lula".  Não tardou para que o assunto aparecesse na mídia.

Como diz o Gabriel, Lula é responsável, entre outras coisas, pelos empregos desses colunistas - ou pelo menos pelo aumento na repercussão destes.  Antes do Lula ninguém lia gente como Azevedo, Constantino...até Olavo de Carvalho, cujo conhecimento era ostentado apenas pelos reaças mais ávidos e debochado por um pequeno setor da esquerda (eu já conhecia - rá!) publicou um livro com direito a estardalhaço e gente neo-politizada compartilhando nas redes sociais.

Como ninguém respondeu a pergunta feita no dia 27  (op. cit.), Cantanhêde se responde: Lula inventou Dilma e Haddad.  Se a aprovação dos dois está em baixa, não seria natural que Lula fosse atingido?

Ela não sabe: "Será?"




Cantanhêde (e toda a mídia) ficaram espantados ao descobrir que pessoas se preparam e combinam respostas em CPIs.  Pior: há uma orientação política nisso.  Pior: parlamentares "amigos" pegam leve com gente que, caso pegassem pesado, poderiam comprometer.

Desenho do Gabriel, feito originalmente para
este postTem alguma relação com isso aqui.

Jânio de Freitas, em coluna publicada neste mesmo dia "responde":

"Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras –dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.

De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.

O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.

Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral."

Depois vem esse Lula descolando um emprego pra Nora no Sesi!!  O Sesi, segundo a Wikipedia é "uma rede de instituições privadas brasileiras".  Pelo nome parece ter algo com a indústria...a ousadia do presitralha (*)!!  Como pode , onde já se viu?  E esses industriais, que além disso doaram até dinheiro pras campanhas todas?

Sabe onde é foda, mas foda mesmo arrumar emprego pra parente?  No âmbito público.  E sabem que grupos/partidos são craques nisso aí?

Bão, dos nossos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores), 280 vêm de famílias de políticos - tem tudo nesse infográfico.  O ranking por partido, em % dos membros que vêm de "clãs" políticos:

DEM: 67%
PMDB: 66%
PP: 63%
PTB: 58%
PSC: 50%
PSDB: 49%
PSB: 48%
PR: 44%
PDT: 37%
PPS: 36%
PV: 31%
PCdoB:24% 
PT: 22%

Imaginem a quantidade de assessores e gente empregada através do nepotismo cruzado?  Há ainda uma diferença qualitativa.  Marta e Eduardo Suplicy entram na conta porque foram casados.  Acontece que ambos construíram carreiras políticas independentes...Marta não se elegeu senadora porque foi "esposa do Suplicy".  O mesmo ocorre com Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo.  É meio diferente de um certo senador mineiro, candidato à presidência da república, filho de deputado, neto de ex-presidente (o outro avô foi secretário estadual de JK) e primo de senador de outro estado.  Diferente, né?

Imaginem se a imprensa verificasse essas coisas com a mesma intensidade pros dois lados?  Imagina na Copa?

*Curtiram, amiguinhos do bem?  É "presidente + petralha", mas pode ser entendido como "presidente dos petralhas" ou "presidente-tralha".  Usem isso aí.

05/08/2014: Tudo embolado

O empresariado nacional - mais especificamente os industriais - se vingam da presidente cortando doações.  Sem citações aqui, coluna meio óbvia: tudo vai mal, obrigado.

Agora...e a veja, hein?



Tem que ter lido pra entender, certo?


Nota 1: ao menos parte da equipe de redação de Wilbor se Revolta entende que a pesquisa pode ser interpretada como machista ou de mal gosto.  Consideramos, porém, que da mesma forma que Constantino e Pondé podem ser alvo de comentários em função de sua busca por um macho que os satisfaça (em função disso e disso), a brincadeira é pertinente -  e as duas fazem dupla na Globonews - canal da Rede Globo, essa sim, com um quadro de mau-gosto chamado "as meninas do Jô", como se fosse muito exótico mulher comentar política.  Nossas sinceras desculpas à Palmirinha, um doce de velhinha que faz doces e à Mulher-Samambaia, sobre a qual não sabemos absolutamente nada.

Nota 2: Pouca gente vai acreditar, mas eu não sabia quem era a Mulher Samambaia.  Eu pensei no nome, achei conveniente, e fiquei torcendo pra que fosse morena, antes de consultar o Oráculo do Milênio.



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quinta-feira, 6 de março de 2014

Homofobia

Tomei conhecimento, através de um lindo texto do deputado Jean Wyllys, de mais um crime bárbaro motivado pela homofobia.  Um garoto de 8 anos foi espancado, até a morte, pelo próprio pai, um homem violento e com histórico de homofobia.  Alex chegou morto ao posto de saúde, morreu de hemorragia interna, por ter tido seu fígado dilacerado pelas surras que recebia de seu pai. A notícia está aqui.

Não vou entrar nos detalhes da notícia, estão suficientemente descritos na reportagem acima.  Só posso dizer que o homem que cometeu este assassinato é, de fato, um monstro, uma pessoa que não pode conviver livremente em sociedade e que este é, sem sombra de dúvidas, caso de cadeia (é pra isso que serve, aliás).  O assassinato de uma criança de 8 anos por conta da suspeita de sua orientação sexual é a coisa mais chocante que vi em muito tempo – e estamos em um período bastante absurdo.

A preocupação que tenho toda vez que ocorrem crimes dessa natureza, é muito profunda.  Vivemos em uma sociedade que apresenta um nível de homofobia muito alto, e é desse “preconceito médio elevado” que surgem os malucos que praticarão estes atos bárbaros.

Richard Dawkins, em “Deus, um delírio”, traça um paralelo meio óbvio entre as religiões e uma série de mal-feitos.  No texto, dá como exemplo específico os atentados de 11 de setembro de 2001.  Os homens que cometeram os atentados eram, sem dúvida, fanáticos.  Apesar disso, levavam vidas “normais”: não se comportavam como fundamentalistas, eram pessoas bem vistas em seus círculos sociais e tidos como cidadãos de bem.  A conclusão do autor é que não é necessário um ambiente temperado pelo fundamentalismo religioso para que ocorram essas barbaridades: mesmo em ambientes religiosos moderados, surgirão alguns malucos dispostos a explodir as vidas de milhares de outras pessoas.

O argumento de Dawkins é muito mais complexo e convincente, e essa curta menção não faz justiça e abre espaço para alguns questionamentos, mas deixo a discussão pra outra oportunidade, já que pretendo utilizar o exemplo somete para fazer uma analogia: uma sociedade homofóbica, ou com um “nível médio de homofobia” elevado, gerará, com alguma frequência, homofóbicos violentos – provavelmente com maior frequência do que em sociedades menos intolerantes.

Não é difícil comprovar o fato de que a sociedade brasileira ainda apresenta um nível elevado de homofobia.  Eu poderia citar casos específicos, mas pra fugir da evidência anedótica, prefiro citar o fato de que o Brasil é o país que concentra o maior número de assassinatos motivados por homofobia no mundo.  E não é pouca coisa: 44% dos casos do mundo ocorrem por aqui.

Minha memória deste fato está relacionada à polêmica gerada com a publicação do estudo: Danilo Gentili, o “comediante” favorito da galera do bem, soltou a seguinte piada:

“1 gay é morto a cada 26 hs? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu cu hj? Só por segurança.”

Não deveria, mas sinto que é necessário explicar a diferença entre uma coisa e outra: 1 homossexual é morto a cada 26 horas por causa de sua orientação sexual. 140 brasileiros são mortos por dia – esse número é o total de homicídios por dia: inclui homens e mulheres heterossexuais e também homossexuais, bissexuais e transgêneros que tenham sido mortos por qualquer motivo – incluindo sua orientação sexual. 

Recentemente tive uma das discussões mais bizarras de minha vida: no meio de um chope, um conhecido questionou as razões do meu ateísmo.  Conhecendo o cara e querendo evitar um debate muito longo e infrutífero, resolvi dar a resposta curta: “não vejo motivos para acreditar em deus”.  Pra arrematar, emendei com o (sincero) discurso da tolerância: “mas respeito as opções pessoais de cada um”...e, sentindo que precisava completar alguma coisa ainda, finalizei com “desde que as religiões não tentem ditar, praqueles que não as seguem, como viver suas vidas”.  Razoável, não?  Meu interlocutor não achou.

Passei a ouvir um longo discurso sobre a imoralidade da “opção sexual” dos gays, sobre como não deveríamos ser obrigados a tolerar esse tipo de comportamento, sobre como vivemos numa ditadura gay, sobre como vamos explicar isso pras meus crianças.  Fui respondendo a tudo isso com a maior calma de que fui capaz, estávamos em público, ele falava alto e as mesas vizinhas já tinham reparado no teor da conversa.  Acabados os argumentos do meu interlocutor, só lhe restou dizer que pertencia à outra geração, que o pai era conservador e que, mesmo com todos os meus “ótimos argumentos”, ele continuava “não gostando de gays, mas não pretendia bater em nenhum”.

Apenas contei essa história, preservando a identidade da pessoa e detalhes pessoais, porque me interessava chegar nesta última declaração.  Não foi a primeira vez que ouvi isso, ou variações disso: não praticar atos violentos contra homossexuais é visto, por um grande grupo de pessoas, como uma concessão, como se fosse um ato digno de aplausos e sinal de civilidade.

Aqui vale explicar, mais uma vez, o que deveria ser óbvio: esse discurso normalmente sai da cabeça de gente que acha que a homossexualidade não deveria ser tolerada “em público”, mas que, pessoalmente, não enxerga, na violência, a solução para o “problema”.  Pessoal, a única solução, sinto lhes dizer, é a tolerância.

É necessário que vocês compreendam que não há um “plano secreto gay” de converter o resto da sociedade – e se você acha que corre esse risco, desde que insistam muito, concedo-lhes o tempo para pensar direitinho no significado disso.

1...............2...............3...............4...............5...............ok?

Ainda assim, tem gente que argumenta que há uma questão cultural subjacente a isso tudo, e citarão civilizações antigas, como Grécia e Roma, para ilustrar.

Esse é um argumento que considero importante derrubar, porque além disso, sobra muito pouco para justificar o ódio contra os gays.

Exatamente qual seria o problema se mais gente resolvesse transar com pessoas do mesmo sexo? Até onde sei, a única diferença entre hetero e homosseuxuais são aquilo que fazem dentro de quatro paredes, em seus momentos de intimidade ou em ambientes privados.  Nelson Rodrigues já dizia que "Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava".  Porque se incomodar com o que os outros fazem dentro dos quartos?  Os detalhes da vida sexual das pessoas é de cunho privado, penso.  A não ser que as pessoas façam questão de contar o que fazem na cama, não é considerado de bom tom perguntar ao amigo se ele anda comendo muito o cuzinho da senhora sua esposa.  Né?

Já ouvi uma outra tentativa de argumento contra isso: se pessoas do mesmo sexo começarem a se relacionar e casar umas com as outras, a população deverá diminuir gradativamente, porque não há a possibilidade de reprodução.

Hum.  Então o argumento é econômico-demográfico?  Tá bom, em primeiro lugar, vamos ser sérios...será que é com isso mesmo que tais pessoas se preocupam?  Digamos, pelo bem do argumento, que sim.  Vamos lá: as medidas de controle populacionais nunca foram bem-vistas pelas sociedades democráticas ocidentais porque, de alguma forma, interferem na “liberdade” das pessoas de produzir uma dezena de filhos – a igreja católica, aliás, é especialmente aguerrida na militância contra os métodos contraceptivos.  A questão demográfica não parece ser um problema pra esse grupo de gente legal quando se trata de evitar que miseráveis tenham que sustentar uma família gigante.

Como não há razões “iluministas” para justificar as restrições aos relacionamentos homoafetivos, acho que sobram mesmo as razões religiosas.  É comum ver, em manifestações cristãs nos EUA, cartazes com os dizeres “God hates faggots”.  Isso começa a aparecer por aqui também.  Não me parece muito cristão.

Todas as pessoas conhecidas que vi reproduzindo estes argumentos são bastante religiosas.  Nenhuma evangélica, só pra deixar claro.  São todas católicas, oriundas da classe média, com nível superior, alguns com pós-graduação.  Acreditam que homossexualismo é pecado: de alguma forma, acham que o deus delas se importa, de fato, com as vidas sexuais de seus fieis, e que este tipo de comportamento é fundamentalmente mau e merece ser punido, possivelmente com uma eternidade de fogo, dor e sofrimento.  Duas coisas que penso sobre isso: 1) se isso for verdade, é problema de deus, não seu e; 2) se você acredita num deus assim, seu deus é uma bosta.

Claro, há muitos religiosos que não tem nenhum problema com o tema, e acreditam num deus que ama a todos os seus filhos e não liga para o seu comportamento sexual.  Esse deus é bem melhor, embora igualmente muito improvável.  Não era o caso do papa-super-pop Francisco, que, quando cardeal declarou que “o casamento gay era um movimento do diabo para destruir o plano de deus”.  Talvez tenha mudado de ideia, talvez estivesse sendo obediente ao papa anterior, talvez seja um hipócrita...não sei.

Conheço uma quantidade considerável de homossexuais: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades.  Tenho amigos que assumiram bastante cedo, outros que foram casados por muitos anos e até quem tenha assumido já com idade mais avançada.  Admiro a todos pela coragem que tiveram de buscar uma vida feliz mesmo com todas as dificuldades que a sociedade impõe.

Também conheço alguns homofóbicos: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades, que estou eliminando aos poucos.  Não tenho o que fazer em relação aos homofóbicos da família, no sentido de que idiotice não desfaz parentesco...mas posso evitar as amizades com essas pessoas.

As lutas pelos direitos das minorias têm todo o meu respeito e apoio. Não pedem muita coisa, somente que sejam tratadas como iguais.  Recentemente vi uma declaração do Ricky Gervais que resume bem a coisa:

“Same sex marriage isn't gay privilege, it's equal rights. Privilege would be something like gay people not paying taxes. Like churches don't.”

Ainda espero viver em uma sociedade na qual as pessoas não sejam discriminadas pela cor de sua pele, orientação sexual ou falta de religião, dentre outras coisas.

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cubofobia

Ao longo da vida passei por uma série de saias-justas em discussões, pela confusão que muitos fazem entre a acusação de um argumento falacioso com argumentos ad-hominem.  É verdade que, por vezes, estas coisas coincidem: o argumento falacioso pode ser utilizado de má-fé, caso no qual chamar o outro de mentiroso é simples constatação da realidade, mas em nome do raciocínio iremos assumir que na maior parte dos casos, o uso de falácias conhecidas é feito de forma incauta.
Carl Sagan lista uma série dessas falácias em sua grande obra “O mundo Assombrado pelos Demônios”.  Duas das mais comuns são a compreensão errônea da natureza estatística e a estatística dos números pequenos.  São descritas da seguinte forma:

·         estatística dos números pequenos – falácia aparentada com a seleção das observações (por exemplo: ‘Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa. Atenciosamente’). Ou: Tirei três setes seguidos. Hoje à noite não tenho como perder).

·         compreensão errônea da natureza estatística (por exemplo: O presidente Dwight Eisenhower expressando espanto e apreensão ao descobrir que metade dos norte-americanos tem inteligência abaixo da média).

Estes dois recursos retóricos se relacionam com uma terceira forma, igualmente conhecida: a evidência anedótica – é o relato de caso.  Trata-se de utilizar a experiência pessoal como evidência capaz de explicar a realidade como um todo.  “Todo mundo no meu facebook odeia a Dilma, portanto, a população deve odiá-la e essas pesquisas de opinião são todas mentirosas”.

As redes sociais, na forma como existem hoje, são um fenômeno ainda relativamente recente.  Na época do Orkut, as discussões ocorriam dentro de fóruns fechados: para acessar os debates era preciso entrar em uma comunidade, entrar em algum dos tópicos e então ler uma sequência de argumentos.  O resultado é que cada comunidade tinha suas tendências e o debate corria de forma mais ou menos esperada, mas não havia qualquer expectativa de que aqueles grupos de pessoas representassem uma amostra representativa da sociedade.

A arquitetura do facebook promove um tipo de interação completamente diferente: as postagens são abertas, não necessariamente vinculadas a um argumento específico. Acontece que as timelines individuais do facebook, ou seja, as opiniões que aparecem no seu monitor quando você entra no site, não é uma amostragem representativa da população brasileira – e  em geral, são só reproduções do que é colocado pela grande imprensa, como podemos ver aqui.  Esse conjunto de material mostra apenas a realidade média do grupo social de cada usuário.  Dessa forma, se no seu grupo de amigos há muitas pessoas identificadas com posicionamento “x”, é provável que seu facebook reflita, majoritariamente, esta posição, o que pode passar a falsa sensação de que o conjunto da sociedade pensa desta forma.

Meu ambiente de trabalho é a academia. Para ser mais específico, o Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.  Trata-se, tradicionalmente, de um reduto esquerdista, de forma que há um número expressivo de opiniões de esquerda veiculadas na minha timeline.  Ao contrário, se eu fosse um empresário do setor agropecuário, provavelmente a orientação política geral do meu facebook seria outra.

Ainda assim, tendo passado boa parte da minha vida em uma cidade rica e agrícola do interior paranaense, estudado em colégio particular e cursado engenharia civil e direito há, no meu grupo de amigos, uma parcela expressiva de pessoas que não só não são de esquerda, mas que ultimamente aderiram à radicalização do discurso contra os governos petistas.  Sei (e tenho verificado) que, para essas pessoas, as minhas publicações são um ponto fora da curva.  E sei também que o debate político promovido por essa neo-direita incidental é muito superficial.  Na maioria das vezes, observo apenas um sentimento de raiva e um aglomerado de piadas (talvez o cinismo, e não o patriotismo seja o último refúgio dos canalhas).  Os que se preocupam em conduzir uma discussão racional, raramente verificam seus fatos antes de postar, de forma que a imensa maioria das críticas são facilmente refutáveis, o que pode reforçar o sentimento, para essas pessoas, de que “esses caras tem desculpa pra tudo”.

Dois exemplos recentes:

·         a celeuma do reajuste do IPTU em São Paulo: o reajuste proposto era menor que o último aprovado por Kassab, e desoneraria boa parte da população de São Paulo, onerando aqueles que vivem em regiões da cidade com boa estrutura de transportes, coleta de lixo diária, iluminação e serviços.  A batalha ideológica foi travada como se todos fossem sofre um reajuste de 20%.

·         o jantar de Dilma em Portugal: posteriormente descobriu-se que Dilma (e sua comitiva) pagou por seus próprios jantares, sem fazer uso dos cartões corporativos.

Se é verdade que uma mentira contada muitas vezes passa a ser compreendida como verdade, um conjunto de pequenos fatos podem se acumular e compor um quadro de que os mal-feitos são rotina.  Ainda que se pudesse se refutar todas as alegações, as pessoas que estão no mindset condenatório, enxergarão apenas um grande volume de acusações.  O contraditório perde sua importância e eficácia.

É neste ambiente que passo a discutir o recente fenômeno da “cubofobia”: o medo de que o Brasil esteja se tornando um país comunista ou vivendo os preparativos de um golpe.  Poderíamos dizer, de forma mais divertida, que “cubofobia” é o medo irracional de um golpe comunista no Brasil que só gente quadrada nas três dimensões espaciais sente.

Dizer que Lula e Dilma apoiam governos autoritários, comunistas e genocidas não é novidade.  Em 2010 havia muita gente expressando o medo de que o Brasil se tornasse uma Venezuela (mesmo sem saber muito bem o que se passa na Venezuela).  O motivo era a falsa expectativa gerada por conta da discussão do PNDH-3, que limitaria as liberdades de imprensa e expressão e nos obrigaria a doar o pé direito de cada sapato prum camarada mais pobre.  A cada foto de Lula ou Dilma com Chavéz, Fidel, Raul ou Morales, um pequeno chilique.  Mas nada mais grave, isso passou e as pessoas nem se lembram do tal PNDH-3.

Em 2013, porém, a coisa começou a ganhar uma nova escala: a implementação do programa “mais médicos” transformou, automaticamente, uma massa de analistas políticos de facebook em especialistas nas questões relacionadas ao país caribenho.  De repente todos sabiam como é, de fato, a realidade em Cuba, e tinham críticas severas a respeito de temas que iam do sistema de saneamento básico de Havana à exploração das negras que enrolam charutos nas coxas “a incidência de câncer de coxa nas mulheres cubanas é 20% acima da média mundial”, diriam alguns.

O último episódio – e razão do texto – é “doação criminosa de recursos públicos” que o governo brasileiro fez para construir um megaporto em Cuba, enquanto os nossos portos sofrem com a falta de investimento e tem gente morrendo de sede no nordeste.  Junto com o episódio, pipocaram – outra vez – fotos de Lula e Dilma com Fidel Castro e as velhas reportagens indicando que Fidel é um dos homens mais ricos do mundo.

Então, compartilhei na minha timeline o seguinte quadro:



As reações, algumas públicas, outras em chat privado vieram mais ou menos no mesmo sentido: o BNDES empresta, mas o faz sem qualquer perspectiva de receber o dinheiro de volta.  Alguém lembrou da nossa complacência com o investimento do banco público na Bolívia (não foi dito exatamente qual, mas suponho que seja o da construção do gasoduto Brasil-Bolívia).  Mas poderíamos citar outras coisas, como por exemplo a postura do governo de não dificultar a nacionalização das refinarias da Petrobrás no país.  São casos diferentes, mas a postura frente a eles pode ser parecida.

O BNDES é um banco público com finalidade específica: promover o desenvolvimento econômico e social do Brasil através de investimentos diretos – sob a forma de financiamentos.  Não está escrito (e não faria sentido que estivesse), que o desenvolvimento não possa ser alcançado através de investimentos que ocorram fora de nossas fronteiras.  O BNDES funciona como qualquer banco, apenas com taxas de juros compatíveis com a realidade econômica – ao contrário do que ocorre com os bancos privados, relativamente livres para operar e cobrar as taxas que bem entenderem, como gostam os liberais.  O BNDES não vai atrás de governos ou empresas oferecendo dinheiro.  Recebe projetos, analisa garantias e capacidade de pagamento e aprova ou não os financiamentos.  Em relação à questão do porto de Mariel, gostaria de analisar a questão em três frentes: primeiro, sob o ponto de vista da motivação do investimento; segundo, sob o ponto de vista das prioridades de investimento do BNDES, por fim, sob a questão da política externa brasileira.

Em relação ao primeiro aspecto, sugiro a leitura dessa reportagem da BBC.  Pra quem não sabe, a BBC é uma empresa pública britânica de rádio e TV.  Obviamente um braço petista na mídia internacional.

Com a reforma do canal do Panamá, que passará a receber navios de maior porte, os chamados “pós-panamax”, a construção do porto passa a ter interesse estratégico para o país – o custo de exportações de grandes volumes para a Ásia seria bastante reduzido.  Cuba não tem capacidade de investimento e exportações, devido ao embargo econômico imposto pelos EUA.  Com a expectativa do fim deste embargo, o Brasil poderia se beneficiar da instalação de indústrias em Cuba, o que facilitaria as exportações para a América do Norte, Central e eventualmente para a Ásia, através do Canal do Panamá.  Cuba manteria as indústrias brasileiras em condição de zona franca (livre de tributação ou com tributação irrisória) e forneceria mão de obra qualificada barata.  Agora, onde já vimos isso antes?  Ah, nas tais multinacionais, pelas quais todos os estados brasileiros se estapeiam para receber.  As questões impostas a esse tipo de investimento, aliás, tradicionalmente vêm da esquerda: geração de empregos no exterior ao invés de local.  Mas é preciso lembrar que os países desenvolvidos abandonaram as indústrias pesadas há muito tempo, e que há a expectativa de geração de empregos por aqui também, na construção de navios e outros produtos.   O porto de Mariel foi construído pela Odebrecht, empresa brazuca, 80% dos insumos foram comprados diretamente do Brasil – ou seja, geração de empregos e dividendos por aqui.

   Na reportagem da BBC o depoimento mais interessante é o de Arthur Zanetti, diretor de relações internacionais da Fiesp (outro conhecido posto avançado do comunismo brasileiro).  Pra quem não quiser ler, aqui vai uma entrevista de Zanetti para o Jornal da Record:


Zanetti deve ter ouvido muito dos amigos: "pô, aí tu fode a gente, meu!"

Ironias à parte, existem duas coisas que a Fiesp não costuma fazer: apoiar governo petista e passar chances de ganhar dinheiro por conta de disputas políticas.

Em relação ao segundo aspecto, a questão das prioridades de investimento do BNDES: o argumento mais recorrente é o de que o Brasil deveria priorizar os investimentos internos, que é um absurdo investir 1 bilhão fora do país, temos gente morrendo de fome, de sede...bem, fui procurar o montante investido pelo BNDES em 2013...e foram R$514,583 bilhões.  Para este fim específico, achei interessante utilizar a veja como fonte.  Está aqui.  Tendo isso em vista, os R$957 milhões equivalem a 0,18% de tudo que o banco investiu ano passado...mas é claro que esse dinheiro não foi todo liberado em 2013, o que diminui ainda mais o impacto nas contas do ano.  Falar alto que R$1 bilhão é muita grana (é, mas há uma questão e escala), tem como única finalidade induzir as pessoas em erro, ao acreditar que é esse bilhão que está prejudicando os investimentos por aqui.  Trata-se da tal “compreensão errônea da natureza estatística”, uma das falácias mencionadas lá no começo do texto.

Ainda em 2013, o BNDES liberou R$10 bilhões para a Sete Brasil, que vai construir sondas para a exploração do pré-sal.  Ainda no ano passado, o governo liberou mais R$50 bilhões para o setor produtivo, que deverá ficar com R$372 bilhões em 2014.  Entãããããoooo.............não dá pra dizer que é o bilhão do porto de Mariel o responsável pelos não-investimentos em outros projetos no Brasil.

O desenvolvimento de grandes projetos no Brasil é complexo.  A nossa legislação é muito travada, e com o desenvolvimento, ainda incipiente, de uma legislação ambiental (que ameaça voltar pra trás), é difícil conseguir acesso às verbas, uma vez que o BNDES não pode, por lei, liberar valores para projetos que não obtenham todas as licenças necessárias.

Por fim, a questão da política externa: em relação a receber de volta os valores emprestados, o acordo que foi feito com Cuba vai no mesmo sentido da abertura promovida pela China. Será criada uma zona de exceção no país, as empresas brasileiras estarão livres de impostos (ou com taxação reduzida), as operações serão feitas em dólar e não haverá restrições para remessa de capitais.  Mas então, o que Cuba ganha com isso?

Um puta porto, que eles poderão usar sem ter que bancar a construção.
Equivaleria, mais ou menos, a um país querer construir uma base de lançamento de foguetes onde fizemos Alcântara.  É uma posição estratégica da qual se pode tirar vantagem, dada a economia de combustível, caso o governo hospedeiro conceda o direito do uso da terra.  Em caso de maior necessidade, talvez tivéssemos feito o negócio.  A moeda de troca? Ganharíamos alguma tecnologia e eventualmente um satélite lançado “de grátis”.

O pagamento do empréstimo (ou a maior parte dele) é de responsabilidade da Odebrecht, não do governo cubano.  A expectiva das indústrias é que os valores sejam pagos com os lucros do porto.  A questão é se podemos ou não confiar no empresariado nacional, não no governo de Cuba.  O BNDES tem confiado, já que, como vimos, empresta uma caralhada de dinheiro para empresas brasileiras todos os anos...e, como vimos, um calote de R$1 bilhão não parece ser algo que preocupe tanto o BNDES...talvez valha o risco.

Ainda assim, e a questão da Bolívia?  Por que Lula não apertou a Bolívia na questão das refinarias?  Por que havia a expectativa de renegociar o acordo de Itaipu com o Paraguai?  Por que fazemos alguns investimentos para outros países com condições de pagamento questionáveis?  Ora, por duas razões: primeiro, porque perto destes países, o Brasil é um colosso econômico.  Há pouco tempo atrás estávamos todos na mesma situação precária, com endividamento absurdo e sem capacidade de contrair novas dívidas ou investir.  O desenvolvimento regional é importante porque fortalece o comércio e a indústria, tanto a nossa quanto a desses países.  O efeito esperado é parecido com o que ocorreu no Brasil com os programas de redistribuição de renda.  Pobres com dinheiro gastam seus recursos porque precisam de coisas.  Com isso, injetam mais recursos na economia.  É uma conta simples.  Ainda assim, se for o caso de um vizinho ter dificuldades para nos pagar, que atitude devemos tomar?  Embargar economicamente?  Romper acordos de livre comércio? Bloquear importações? Deixar que o país devedor se afunde, levando para a miséria milhões de pessoas?  Tratam-se de dívidas pequenas para o porte do Brasil, e sei que é questão de posicionamento pessoal, mas não acho que essa via seja a mais produtiva ou mesmo a mais humana.

Cuba sofre com as consequências de um embargo econômico que não faz o menor sentido nos dias de hoje.  O que estamos fazendo lá não é caridade, é aproveitar uma oportunidade de investimento – não fosse assim, acreditem, a Fiesp não estaria tão de tesãozinho com o negócio.

Agora concluindo: o problema real não me parece ser o que vem sendo alegado pelo facebook.  O investimento é justificável do ponto de vista econômico, não representa um ralo pelo qual parcela significativa do dinheiro do BNDES esteja escoando para fora do país.  Também não se trata de um investimento em monta que prejudique qualquer coisa que possa ser feita por aqui.  Se os governos locais não conseguem ter acesso a esses recursos, as explicações são de ordem legal, política ou mesmo por incompetência na fase de elaboração de projetos.  A iniciativa privada não tem tido dificuldades com isso.

Só me resta pensar que a reação que assistimos agora é proveniente de uma hipersensibilidade desenvolvida por algumas pessoas só porque se trata de Cuba.  Quem reclama aqui são aqueles que piraram com o “mais médicos”, é quem perde o seu tempo investigando a vida pessoal do Fidel buscando qualquer coisa que justifique o investimento em Cuba como algo imoral.  Nesse sentido, cabem alguns questionamentos: é imoral negociar com a China?  Trata-se de outra ditadura comunista.  Ou vale tudo porque a escala de valores é outra?  Se for o caso, quanto dinheiro compra a honra do investimento oficial?  E com os EUA, que cometem a sua cota de barbaridades mundo afora, inclusive grampeando o celular da nossa presidente?  Alguém pensa em deixar de negociar com a maior economia do mundo?  E com o Japão, que mata tantos golfinhos, meu deus???

Em política externa, é comum que se façam concessões desse tipo.  FHC, o herói tucano, tinha bom relacionamento com Fidel e Chávez, e não me lembro de qualquer birra por conta disso.  Além disso, tinha suas relações questionáveis...como quando condecorou Alberto Fujimori com a Ordem do Cruzeiro do Sul, lembram? E Fujimori tinha uma biografia, digamos, questionabilíssima.  Enfim, ninguém achava que havia um golpe militar em curso, ou uma revolução comunista em andamento por conta destes episódios.

FHC claramente desconfortável na companhias de Chávez e Castro.


A relação Brasil-Cuba é uma relação de política externa, envolve interesses estratégicos econômicos.  Ocorreu sob FHC, sob Lula e continuará acontecendo, porque não há o que justifique um embargo brasileiro à Cuba.  E, sinceramente, eu tenho dificuldades em acreditar que os “cubófobos” estejam preocupados, de fato, com as condições de trabalho e as garantias individuais dos cubanos.  O motivo, e vocês não precisam admitir em público, é raivinha do PT e vontade de colar no governo federal a pecha de apoiador de líderes autoritários.  É o PNDH-3 da vez.




*pra não perder os tópicos relacionados do facebook, já que a discussão tende a rolar por lá mesmo: