(Aconteceu há alguns meses; mas, por ocasião da recente morte de Oscar Niemeyer e de nosso novo "dia do arquiteto", acho que vale a pena relembrar...)
Numa discussão coletiva sobre Evolução x "Intelligent Design" no meu facebook (totalmente involuntária de minha parte, ressalto), tive que presenciar um arquiteto (defensor do I.D.) dizer a outro a seguinte frase:
"Um arquiteto ateu é sempre um constrangimento extra: se não consegue ler o melhor Projeto de todos, estampado não apenas até onde o olho alcança, mas sendo o próprio olho uma parte integrante dele, como ele pode querer projetar algo que preste?"
Achei interessante destacar tal frase porque nela se vê uma amostra perfeita de como funciona a retórica mistificadora de certos polemistas que têm abundado cada vez mais na imprensa e, especialmente, na internet.Trata-se de uma frase de efeito bem colocada, que irrita e ofende seu interlocutor indiretamente (ou seja, sem xingá-lo de incompetente de forma literal), e que é aparentemente coerente e lógica... Mas que não resiste ao mais reles exame empírico de evidências.
A "evidência Niemeyer" sendo, é claro, a primeira que vem à mente.
É sempre chata a onda acrítica de canonização de alguém já absurda e excessivamente consagrado em vida. Mas ainda que haja exagero, ninguém se torna um baluarte sem algum mérito pessoal e histórico acumulado...
Oscar Niemeyer fez muitas obras bem questionáveis, especialmente no fim da vida; mas produziu obras boas, e algumas cuja excelência beira a unanimidade. Não era, enfim, alguém "incapaz" de projetar "algo que prestasse" -- embora um ateu publicamente declarado há décadas.
O mais importante, porém, é isto: se fosse "incapaz" de fazer um bom projeto, certamente não o seria por desacreditar da idéia de uma persona divina. Afinal, os que vêem uma intenção análoga à humana nos movimentos no universo não têm o monopólio da contemplação de sua beleza e complexidade; e, se pensam -- ou dizem -- que têm, é por estarem por demais enredados em seu próprio narcisismo.
O Obama discursando na entrega do Prêmio Pritzker ao Português Eduardo Souto de Moura.
Obama diz que já teria sonhado em ser arquiteto... bem, não seria o primeiro. Que coisa, esses políticos.
Achei aqui.
... como continuação do post anterior, segue a (para mim) chocante cena da semi-implosão do magnífico edifício abandonado do Moinho Central, em São Paulo.
Interessante: é o primeiro edifício em que já entrei que vejo ser implodido.
Em 2001, minha turma de graduação em Arquitetura e Urbanismo fez um exercício envolvendo a área desse edifício, e a reutilização dele mesmo. O meu projeto, particularmente, ficou uma droga. Mas ainda assim, esse edifício ficou na minha imaginação continuamente (principalmente por fazer parte de meu objeto de mestrado, como citado no post anterior). Como o conheci antes de ser ocupado completamente ele permanece na minha memória como gigantesco, cadavérico, estranho. Embora ilhado entre duas linhas de ferro, dominava completamente a paisagem, muito maior do que as edificações circundantes...
(Dá pra ver no vídeo como o danado é tão sólido que, na implosão, certas partes só "desceram" um andar, sem nem se abalar... qualquer um que tiver falado em "risco de desabamento" para justificar sua demolição deveria se sentir meio desconfortável... no mínimo)
Junto com a densa favela gerada em seu interior e exterior, esse edifício era uma tremenda pedra no sapato do processo de revalorização financeira que está em implantação na região. Agora convenientemente incendiado ("combustão espontânea"?) e, mais que muito rapidamente, tendo sua demolição declarada e iniciada -- junto com a também conveniente remoção da favela em sua volta, cujos moradores receberão da prefeitura um mais que conveniente "auxílio" de 300 paus (mensagem implícita: "vão entulhar alguma periferia já entulhada e sem importância ($) e deixem o filé pra nós, por favor").
Na precariedade do mundo de gatos elétricos de uma favela, não dá pra acusar ninguém; todavia, certas conveniências são impossíveis de notar.
Como a recente lentidão apresentada por este blog pode atestar, este tem sido um ano muito louco para mim e para o Marcelo. Um exemplo é este post mesmo: se refere na verdade a fatos que, ainda que caracterizando-se como "Wilbor material" e de suma importância na minha vida, são de mais de um mês atrás e só tive disposição de relatar agora. (Essa lentidão também atesta o quanto plataformas como o facebook e o google+ tem substituído completamente blogs no que se refere a simples links e comentários cotidianos, mas isso é outro assunto).
De minha parte, posso dizer que 2011 provavelmente foi o ano mais ocupado de minha vida até agora, principalmente no primeiro semestre. (O Marcelo pode contar as histórias dele depois, se o interessar :) )
Aquilo que talvez mais tenha me enlouquecido neste ano não foi, como geralmente pensam, fazer o doutorado sem um afastamento de meu trabalho; foi fazer essas duas coisas juntamente com a revisão, produção e finalização de meu primeiro livro (acadêmico), que teve seu primeiro lançamento no começo de outubro (na Livraria da Vila, em São Paulo) e seu segundo em novembro (na Livraria Blooks, Rio de Janeiro).
"Territórios Estéticos: a experiência do Projeto Arte/Cidade em São Paulo", publicado pela editora Annablume, é o fruto de minha dissertação de mestrado feita na USP em 2006, sobre o Projeto Arte/Cidade. Boa parte do texto -- e aí precisamente está a origem dos cabelos brancos que ganhei a mais no primeiro semestre deste ano -- foi praticamente reescrita para um conjunto mais enxuto e adequado ao formato público de livro. (Se funcionou, os leitores que julguem.)
Hoje eu penso: esse livro, esse estudo e esse assunto como um todo tomou tanto tempo da minha vida... e, ainda assim, nunca foi discutido aqui no blog. Acho que isso se deve, em primeiro lugar, à restrição natural ao próprio assunto, que é muito "para iniciados". Por outro lado... "acessibilidade" de conteúdo raramente orientou a pauta deste blog, como podem atestar as (literalmente) centenas de posts obscuros que já colocamos aqui. Assim, concluo que a questão se refere mais à "seriedade" pronunciada do assunto e do tom com o qual o tratei... e, em especial, um pouco da minha necessidade, nos anos após o término de meu mestrado, de me afastar, "exorcizar" aquele tema e assunto da minha vida.
Mas bem, é ora de fazer um pouco de justiça e dedicar um espacinho ao assunto. Pra começar, segue a orelha do livro:
Na última década do século XX, observou-se a retomada do interesse pelas atividades de intervenção artística em espaço urbano e sua crescente legitimação junto à mídia e instituições. O Projeto Arte/Cidade é o exemplo por excelência desse momento no Brasil, marcando época pela proposta de novos formatos de mega-evento e grandes equipes multidisciplinares, constituindo ponto exemplar de confluência entre tendências da arte e do urbanismo. Tendo em vista a particularidade e influência dessa experiência, o livro de Gabriel Girnos procura abarcar a complexidade de Arte/Cidade, presente não apenas na variedade de locais e formas de seus eventos, mas também nas mutáveis circunstâncias em que se deram. Seguindo as 4 edições do projeto em São Paulo, o livro enfoca propostas, conquistas e impasses por ele inaugurados, transitando assim por dimensões como o discurso curatorial, as motivações artísticas contemporâneas, os meandros organizacionais da produção cultural e os interesses materiais em torno do espaço da capital paulista. Considerando o contexto de protagonismo dos grandes centros urbanos na globalização e a crescente instrumentalização mercadológica da cidade e da cultura no fim do século, o estudo toma o Projeto Arte/Cidade para pensar possibilidades e limites das práticas artísticas recentes como forma de reflexão sobre a cidade.
Para uma idéia mais precisa do que faço no livro, segue um recorte da introdução.
O estudo que deu origem a este livro surgiu de um duplo sentimento de fascínio e inquietação. Fascínio pela especificidade da metrópole contemporânea e as percepções que se constituem nela e pelas relações entre estética e política nas artes e linguagens; inquietação pelo lugar que esses fatores ocupariam na virada deste milênio — um momento histórico em que a cidade e a cultura teriam se tornado protagonistas de uma primazia crescente de lógicas de mercado e consumo sobre as atividades humanas. Esse sentimento duplo, por sua vez, convergia para um questionamento sobre as possibilidades da linguagem tanto de desvendar e criticar quanto de confundir e reificar a cidade. Na busca por explorar esta questão, direcionou-se o olhar para um caso que oferecia uma sobreposição rara de aspectos e aporias envolvendo cultura, política e cidade na contemporaneidade: os eventos do Projeto Arte/Cidade na cidade de São Paulo.
Iniciativa cultural coordenada pelo curador e filósofo Nelson Brissac Peixoto desde 1993, Arte/Cidade permanece até hoje a mais ampla e ambiciosa experiência de intervenção artística em espaço urbano realizado no Brasil. Com quatro grandesexposições na capital paulista entre 1994 e 2002 — CidadesemJanelas (1994),A Cidade e seusFluxos (1994), A Cidade e suasHistórias (1997) e Arte/Cidade Zona Leste (2002) — o projeto caracterizou-se em geral pela ocupação de espaços abandonados, degradados ouproblemáticos com intervenções temporárias de artistas de múltiplas áreas e linguagens. Também incluiu sempre um amplo conjunto de atividades relacionadas a essas mostras (workshops, ciclos de debates, exposições secundárias, publicações e documentários), mobilizou a colaboração de diferentesprofissionais (filósofos, cientistassociais, historiadores, jornalistas, engenheiros, músicos, fotógrafos, videomakers, arquitetos e artistasplásticos) e recebeu grandeatenção por parte da imprensa cultural e do meiointelectual.
O interesse e relevância de Arte/Cidade já seriam visíveis em sua amplitude e multiplicidade, condensando e entrecruzando discussões nacionais e internacionais de campos como as artes visuais, a filosofia e o urbanismo. Mais que trazer obras ao espaço urbano, afinal, as edições do projeto em São Paulo se caracterizaram como eventos tanto na cidade quanto sobre a cidade, recortando-a como objeto de percepção e assunto a ser discutido e elaborado — inserindo-se diretamente, portanto, no campo dos discursos e reflexões sobre o espaço urbano. Além disso, porém, há uma ambivalência que faz do projeto umobjetoparticularmenteinstigantepara se pensarrelaçõesentreestética, política e cidade: como uma iniciativa de curadores — idealizada a partir do uma perspectiva organizacional e institucional — a história de Arte/Cidade em São Paulo inclui necessariamente dimensõestanto de experiênciaartísticaquanto de política cultural. Por um lado, uma multiplicidade de comentários e elaborações estéticas e intelectuais sobre o espaço urbano; por outro, um megaevento artístico que precisou construir-se e viabilizar-se num contexto particular de políticas urbanas e culturais.
(...) Conforme o estudo se desenrolou, tornou-se cadavezmais evidente tanto a complexidade do conjuntoArte/Cidade quanto a especificidade de cada um de seus eventos. Tornou-se especialmente clara a ocorrência de mudanças substantivas na sucessão de suas edições — de abordagem, de práticas e de discurso — que precisavam ser compreendidas. Maisquesimplesmentetrocar de local, tema e participantes, cadaevento superou o anteriorem escala de intervenção e amplitude de questões tratadas; embora tenha surgido em uma instituição governamental — a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo — as últimas e maioresedições de Arte/Cidade foram organizadas por uma associação independente, o Grupo de IntervençãoUrbana; e, emborainiciadocomoumevento orientado essencialmente para questões artísticas, ele rumou aos poucosparadiscussões de urbanismo e política urbana. Tal percurso, por sua vez, implicou em mudanças tanto organizacionais como de horizonte a respeito da cidade e da arte, tornando a história do projeto aindamais interessante do ponto de vista das relaçõesentreestética, política e cidade.
(...)
O desenvolvimento do Projeto Arte/Cidade é examinado aqui, enfim, principalmente em sua face de intervenção discursiva na cidade e sobre a cidade num determinado contexto de debates e ações em torno da cultura e do espaço urbano. Ele é interrogado politicamente como um grande evento que ocasionou uma série de enunciados urbanos, de recodificações temporárias de espaços metropolitanos e de intervenções numa esfera de debate e visibilidade pública. A escolhapor uma ênfase política, porsuavez, implica emprocurarteremvistasempre as condições conceituais, pragmáticas e ideológicas em relação às quais sua experiência se constituiu; e também significa privilegiar a identificação e discussão de aspectos por vezes ambíguos, contraditórios ou dissonantes contidos na mesma.
Distribuição dos locais ocupados pelos eventos em São Paulo. (É, foi beeem grande.)
Acho que qualquer pessoa não familiarizada com esse tipo de assunto iria perguntar, pelo menos: "Ok, mas o que quer dizer 'intervenções artísticas em espaço urbano'? Que tipo de ´intervenções´ seriam essas, afinal?"
Pra dar uma leve idéia: obras como os lambe-lambes de Arnaldo Antunes, Periscópio de Guto lacaz (no que hoje é o edifício do Shopping Light, no Vale do Anhangabaú), o Detetor de Ausências de Rubens Mano (no Viaduto do Chá, no mesmo Vale), as torres acobertadas de vermelho no abandonado prédio do Moinho Central, os vagões suspensos de Zé Resende (junto à Radial Leste), ou o espaço de convivência para moradores de rua, sugerido pelo americano Vito Acconci... entre uma imensa variedade de outras.
Lambe-Lambe (Quero)
Periscópio
Detetor de ausências
Equipamento para moradores de rua.
Vagões
Pra concluir, acho importante lembrar que os anos que me embrenhei em estudar tudo isso marcaram um afastamento em relação à arquitetura propriamente dita; mas, por outro lado, também marcou uma aproximação em relação ao pensamento sobre a cidade e, mais especificamente, a metrópole.
É interessante ter isso em perspectiva, vendo-se minha reaproximação recente à arquitetura e as coisas que farei e estudarei daqui para frente... (sobre isso, falaremos mais no futuro)
P.S.:
Acho importante frisar dois locais-alvos antigos dos eventos de Arte/Cidade que bem recentemente encontraram (ou talvez encontrem) seu fim: o Edifício São Vito, demolido em 2010; e o terreno do abandonado Moinho Central, no qual se estabeleceu a Favela do Moinho, que -- muito convenientemente para alguns, deve-se acrescentar -- ardeu em chamas na semana passada.
Moinho Central, já com sua favela, em 2001...
São Vito em 2002... ainda o famoso cortição "Treme-treme".
P.S.2: Para quem se interessar mesmo em saber mais do assunto, recomendo consultar o site do projeto, e coloco aqui os vídeos que encontrei disponíveis na internet.
- As 4 partes do documentário da Rede 21 sobre o terceiro Arte/Cidade, em 1997:
- O Vídeo de Renata Marquez sobre o quarto Arte/Cidade, de 2002.
Bão. Mais um ano, mais uma homenagem a nóis, os arquiteto. Um importante passo foi dado no sentido da evolução política da profissão no Brasil com a declaração de nossa independência do CREA e a criação do CAU este ano... mas não é disso, obviamente, que vim falar. Nem sequer tenho algo eu mesmo para falar para prestigiar a profissão -- ao menos, não agora.
Este post é para dar espaço àquele que é certamente um dos textos mais engraçados que já tive o prazer de ler sobre a arquitetura: a "carta aberta" da escritora Annie Choi aos arquitetos -- publicada em 2007 na Pidgin Magazine e encontrada por mim num blog arquitetônico ótimo, o "Notes on becoming a famous architect".
Tivesse eu mais tempo, traduziria o texto inteiro. Claro que eu não tenho, então vai em inglês mesmo.
(coincidentemente, este texto também faz referência ao Holandês Rem Koolhaas -- o mesmo arquiteto citado aqui no Wilbor no Dia do Arquiteto de 2010)
Segue:
Dear Architects, I Am Sick of Your Shit.
Once, a long time ago in the days of yore, I had a friend who was studying architecture to become, presumably, an architect.
This friend introduced me to other friends, who were also studying architecture. Then these friends had other friends who were architects - real architects doing real architecture like designing luxury condos that look a lot like glass dildos. And these real architects knew other real architects and now the only people I know are architects. And they all design glass dildos that I will never work or live in and serve only to obstruct my view of New Jersey.Do not get me wrong, architects. I like you as a person. I think you are nice, smell good most of the time, and I like your glasses. You have crazy hair, and if you are lucky, most of it is on your head. But I do not care about architecture. It is true. This is what I do care about:
* burritos
* hedgehogs
* coffee
As you can see, architecture is not on the list. I believe that architecture falls somewhere between toenail fungus and invasive colonoscopy in the list of things that interest me.
Perhaps if you didn't talk about it so much, I would be more interested. When you point to a glass cylinder and say proudly, hey my office designed that, I giggle and say it looks like a bong. You turn your head in disgust and shame. You think, obviously she does not understand. What does she know? She is just a writer. She is no architect. She respects vowels, not glass cocks. And then you say now I am designing a lifestyle center, and I ask what is that, and you say it is a place that offers goods and services and retail opportunities and I say you mean like a mall and you say no. It is a lifestyle center. I say it sounds like a mall. I am from the Valley, bitch. I know malls.
Architects, I will not lie, you confuse me. You work sixty, eighty hours a week and yet you are always poor. Why aren't you buying me a drink? Where is your bounty of riches? Maybe you spent it on Merlot. Maybe you spent it on hookers and blow. I cannot be sure. It is a mystery. I will leave that to the scientists to figure out.
Architects love to discuss how much sleep they have gotten. One will say how he was at the studio until five in the morning, only to return again two hours later. Then another will say, oh that is nothing. I haven't slept in a week. And then another will say, guess what, I have never slept ever. My dear architects, the measure of how hard you've worked and how much you've accomplished is not related to the number of hours you have not slept. Have you heard of Rem Koolhaas? He is a famous architect. I know this because you tell me he is a famous architect. I hear that Rem Koolhaas is always sleeping. He is, I presume, sleeping right now. And I hear he gets shit done. And I also hear that in a stunning move, he is making a building that looks not like a glass cock, but like a concrete vagina. When you sleep more, you get vagina. You can all take a lesson from Rem Koolhaas.
Life is hard for me, please understand. Architects are an important part of my existence. They call me at eleven at night and say they just got off work, am I hungry? Listen, it is practically midnight. I ate hours ago. So long ago that, in fact, I am hungry again. So yes, I will go. Then I will go and there will be other architects talking about AutoCAD shortcuts and something about electric panels and can you believe that is all I did today, what a drag. I look around the table at the poor, tired, and hungry, and think to myself, I have but only one bullet left in the gun. Who will I choose?
I have a friend who is a doctor. He gives me drugs. I enjoy them. I have a friend who is a lawyer. He helped me sue my landlord. My architect friends have given me nothing. No drugs, no medical advice, and they don't know how to spell subpoena. One architect friend figured out that my apartment was one hundred and eighty seven square feet. That was nice. Thanks for that.
I suppose one could ask what someone like me brings to architects like yourselves. I bring cheer. I yell at architects when they start talking about architecture. I force them to discuss far more interesting topics, like turkey eggs. Why do we eat chicken eggs, but not turkey eggs? They are bigger. And people really like turkey. See? I am not afraid to ask the tough questions.
So, dear architects, I will stick around, for only a little while. I hope that one day some of you will become doctors and lawyers or will figure out my taxes. And we will laugh at the days when you spent the entire evening talking about some European you've never met who designed a building you will never see because you are too busy working on something that will never get built. But even if that day doesn't arrive, give me a call anyway, I am free.
E eis que fui semanas atrás numa palestra do Bjarke Ingels na PUC Rio. É ele mesmo, o cara que fez a primeira publicação monográfica de Arquitetura em forma de história em quadrinhos (Yes is More), que já apareceu no Wilbor antes.
A palestra era significativamente intitulada de "hedonistic sustainability". O tema já era explicado em seu Yes is More, e o mais novo projeto deles a ilustrar o "pincípio" pode ser visto nestes slides aqui. (não, esta foto aqui não foi na PUC. Meramente ilustrativa.)
Lendo seu livro e acessando seu site, dá pra ver que Bjarke é um cara que entende e explora como ninguém neste momento o potencial da mídia para a propaganda e divulgação da arquitetura. Eu há tempos tinha intuições de que uma característica forte deste seria fato de usar as mídias de maneira "popularizável", voltada a um público "middle-brow" e não um super-intelectualizado e especializado. Em uma palavra: um discurso voltado em muito para leigos interessados, alunos de arquitetura e jovens arquitetos.
A quantidade de alunos se acotovelando afoitos num auditório lotado me reforçou essa intuição. Não deixe que a cara de ator de Malhação engane: ele é muito inteligente e astuto.Com 36 anos, um escritório construindo coisas no mundo todo, uma história em quadrinhos arquitetônica cada vez mais popular e um trendy look entre o bem-vestido e o calculadamente desarrumado, Ingels me parece ter potencial para ser o mais jovem arquitetopop-star já visto.
Além da PUC, nesta visita ao Brasil ele foi entrevistado pela GNT e pela revista AU.
Aqui a entrevista da AU:
(O mais gozado é ouvir ele falar que, quando começou o curso de arquitetura, queria na verdade ser quadrinhista. Pra mim faz todo sentido)
E aqui a entrevista do programa "Nos Trinques", da GNT. É um programa para super-descolados (curiosidade: o entrevistador, Guto, foi meu bixo lá em São Carlos). Percebam que o tom da entrevista já é já é mais panorâmica, rasante e um tanto fashion; uma introdução a "leigos interessados".
Algumas considerações:
1) Deve ser um saco ficar repetindo as mesmas explicações o tempo todo. No livro, na palestra, nas duas entrevistas, e em outras apresentações, vi várias coisas serem distas de novo e de novo.
Nisso, BIG se torna um escritório de slogans e punchlines; e sabe fazer isso muito bem.
2) Como vários escritórios internacionais, BIG deve estar com sérios planos de invasão aqui da Brasiléia, e parece que estamos a corroborar seus planos (ao menos em publicidade). Na palestra ele começou falando sobre Brasil, mostrou foto de suas visitas à favelas (ficou hospedado em uma anos atrás), falou destas como potencialidades arquitetônicas e que têm a melhor vista do Rio e por aí vai. Se ele conseguir aportar seus trabalhos por aqui, há riscos de que arquitetura fique mais pop do que nunca no país... ou não. Vamos ver.
3) Você assiste à apresentação dele admirado (ainda mais se, como eu, você estudar apresentações), e alguns edifícios parecem realmente empolgantes e bem-bolados. Porém, ao mesmo tempo, me gera muita desconfiaça o fato de suas explicações fazerem tudo parecer simples demais.
O ponto principal de desconfiança: basicamente, as principais argumentações de BIG se dão na forma se sínteses de oposições. Um exemplo é o mote básico do grupo:
"Historically the field of architecture has been dominated by two opposing extremes. On one side an avant-garde full of crazy ideas. Originating from philosophy,mysticism or a fascination of the formal potential of computer visualizations they are often so detached from reality that they fail to become something other than eccentric curiosities. On the other side there are well organized corporate consultants that build predictable and boring boxes of high standard. Architecture seems to be entrenched in two equally unfertile fronts: either naively utopian or petrifyingly pragmatic. We believe that there is a third way wedged in the nomansland between the diametrical opposites. Or in the small but very fertile overlap between the two. A pragmatic utopian architecture that takes on the creation of socially, economically and environmentally perfect places as a practical objective"
Assim, grande parte das contradições que em tese guiariam a sociedade -- utópico versus pragmático, público versus privado, sustentabilidade versus conforto, ecologia versus economia, etc-- seriam, no fundo, resolvíveis pelo bom projeto... ou seja: no fundo, seriam "falsas contradições".
A questão é: será que não estamos falando aqui de "bonecos de palha"? Será que, astutamente, Bjarke não monta oposições relativamente caricatas para, por um lado, torná-las facilmente digeríveis paro público e, por outro, poder ele mesmo se posicionar e propagandear como grande desmistificador? (Esta, afinal, tem sido uma estratégia até usual ultimamente)
Essa última inquietação me desperta outro grupo de questões, mais sério que este. Não seria BIG, juntamente com muitos escritórios internacionais centrados em sustentabilidade, uma amostra de que estaríamos retomando fortemente uma espécie de "mito do design" característico do período modernista de até meados do século XX? O "design mudando a sociedade", só que agora na linguagem atual -- magnificado pela mobilização de mídias em apresentações impressionantes? Seria esta a forma que os arquitetos -- conscientes ou só subconscientes de praticarem uma profissão fundamentalmente frágil -- têm encontrado de colocar-se como alguma coisa útil e desejável no mundo atual?
Pois é, o Wilbor é reconhecidamente um espaço de exercício do humor obscuro. Muito da obscuridade de certas piadas vêm de fazerem sentido apenas a uma determinada categoria envolvida. Pois é aí que chega este post.
Através do blog de S. McCloud, cheguei num texto que me fez rolar de rir. Eu ainda não tinha tido contato com isso: humor voltado especificamente para designers gráficos! E fiquei feliz porque, mesmo não sendo um designer gráfico, não só entendi como genuionamente ri às gargalhadas.
Sobretudo porque eu sou um dos alvos do texto.
***
Eu ODEIO comic sans. Juro. Já há mais de uns 8 anos -- desde antes de começar a estudar e a me preocupar com escolha de fontes -- eu a acho uma letra feinha, fuleira, pouco fluida e infantilizada. De vez em quando vejo pessoas que gosto comentando como acham ela legal; volta e meia um(a) aluno(a) tem a infeliz idéia de usá-la num trabalho. Já pensei em escrever a respeito no blog, mas o assunto me pareceu irrelevante demais.
Aí, via McCloud, cheguei à seção "pequenos monólogos imaginados" (short imagined monologues) do blog da revista McSweeney's, e descobri que não estou sozinho em meu ódio.
E é pra nós, os desprezadores, que Mike Lacher escreve a hipotética resposta indignada da própria fonte: "I'M COMIC SANS, ASSHOLE". Traduzo livremente aqui o primeiro parágrafo:
SOU COMIC SANS, SEU BOSTA Escuta aqui. Eu sei da merda que você tem falado aí pelas minhas costas. Você acha que sou estúpida. Acha que sou imatura. Acha que sou um malformado e patético rascunho de fonte. Bom, pense de novo, nerd de merda, porque eu sou Comic Sans e sou a melhor coisa que aconteceu à tipografia desde o porra do Johannes Gutenberg.
Um dos blogs de arquitetura que visito ocasionalmente é A Barriga de um Arquiteto (cujo nome, salvo engano, vem do filme The Belly of an Architect, de Peter Greenaway). Seu mantenedor, o lusitano Daniel Carrapa, é também um arquiteto-professor-blogueiro e, além de escrever muito bem, tem um campo de interesses e reflexões com vários pontos de tangência aos meus (academicamente, inclusive). O post de Carrapa que reproduzo mais abaixo -- e que não é sobre arquitetura -- me pareceu particularmente relevante.
Lina, tempo e espaço.
A citação inicial de Lina Bo Bardi me chama atenção não só pela pessoa citada-- arquiteta que admiro não só pela arquitetura em si, mas pela rara e preciosa imbricação "modernista" entre elaboração arquitetônica e visão política/estética do mundo; mas porque eu, ainda que sempre um tanto moleque e acostumado a ser "o mais novo" várias vezes em diversos contextos, nunca fui exatamente encantado com a minha própria juventude. (Devia ter postado isto quando fiz trinta anos, em abril...) Meu interesse no texto está também no fato de que, embora um pouco mais novo, eu me veja forçosamente incluído na "geração" que Carrapa define como sua.
Eu nunca quis ser jovem Daniel Carrapa Eu nunca quis ser jovem. O que queria era ter história.Estas palavras de Lina Bo Bardi são hoje tão contra-corrente que merecem reflexão. O modo como encaramos o acto de envelhecer muda durante o percurso de uma vida inteira. Todos sabemos, em abstracto, que vamos morrer um dia. Mas, enquanto jovens, a abstracção esmaga-lhe o significado. É bom ser imortal. Recordo-me do tempo em que envelhecer tinha um sentido de desfasamento das coisas. Ficar velho é perder o fio da contemporaneidade, é o caminho para a incompreensão do presente, na linguagem, na música, na moda. Ah, quanta arrogância. Há um momento na vida em que a morte, por uma conjugação de factos, se torna real. Percebemos que a morte está lá, algures na nossa frente, inevitável. Para alguns a consciência trará temor, angústia. Para todos, talvez, um enorme sentido de perda das coisas, de toda a experiência, todo o saber que se vai perdendo em nossa volta, até que nós próprios nos extingamos, um dia, no vazio do esquecimento dos outros. Presumo que não seja fácil ser jovem, hoje. Mergulhados num mundo que os envolve em subtilezas, adquirindo comportamentos, costumes, códigos invisíveis. Curioso que a sociedade da televisão produza uma imagem eternamente rebelde dessascriaturas mitológicas, para citar João Lopes, estereotipada à exaustão em mil e uma novelas “para jovens”. Uma estética desalinhada, no penteado, nas calças descaídas, no estilo informal, simulação perfeita de uma irreverência toda ela ficcionada. Quem leia o conteúdo pela superfície tomará essa imagem como digna dos novos hippies, de tão ostensivamente anti-sistema. E no entanto, nos mais pequenos pormenores, se denuncia o afinco de um produto de consumo desenhado em laboratórios de marketing social, fabricando pequenos seres para quem a vida não faz sentido sem os seus iphones e ipods. Não, não é fácil ser jovem, hoje. Não é fácil resistir aos estrategas dostargets que barricaram o seu trajecto, implacáveis. Não é fácil compreender que nem sempre o que somos e o que pensamos nasceu na nossa cabeça. Que as convicções, os gostos, os desejos, até a formatação dos afectos, nos é incutida por uma profusão de veículos externos afinados para nos seduzir como esponjas. Sei que estou a ficar velho. Pertenço a uma geração sem causas. A minha geração não tem nada que a defina para além de uns programas de televisão e umas gasosas que deixaram de existir. Não, nós não fizemos nenhuma revolução, não protagonizámos nenhum conflito de gerações, não vislumbrámos nenhum sentido, não erguemos nenhum símbolo, não alvitrámos doutrina em que valesse a pena erguer uma sociedade. Na melhor das hipóteses, mostrámos o rabo a um qualquer ministro por causas fúteis há muito esquecidas de todos. Somos uns rebeldes na nossa cabeça. Uma coisa apenas nos define. Não gostamos muito uns dos outros. Mal educados para a vida em comunidade, somos complacentes com os nossos defeitos que intoleramos, passe a palavra, em todos os outros. Desengane-se quem tome tal por desatenção ou charme latino. É, tão só, uma tragédia. Sim. Eu sei que estou a ficar velho.
Continuando as festividades arquitetônicas... aqui vão dois vídeos do BIG (Bjarke Ingels Group), grupo dinamarquês super jovem (o chefe-título tem 35 anos), que considero um "descendente" do O.M.A. de Rem Koolhaas.
O primeiro vídeo é uma fala de Bjarke para o TED. É de certa forma um apanhado de seu livro instigante, pop e malandrão Yes is More -- sobre o qual ainda falarei no futuro.
O segundo vídeo é uma apresentação de seu Pavilhão Dinamarquês na China já construído... a partir de uma abordagem um tanto inusual: com o próprio arquiteto andando de bicicleta pelo edifício.
Seguindo a linha da fala em TED, deste outro vídeo aqui e de seu livro, Bjarke insiste sempre em ser personagem e protagonista de suas criações e explicações.
Mas esses caras certamente se divertem com o que fazem.
Pra não deixar passar em branco o dia, uma vez que estou de volta à arquitetura.
Este texto a seguir é a transcrição/tradução para o português lusitano (que peguei do site Cosmopista) do discurso que o Arquiteto Holandês Rem Koolhaas (já citado antes aqui) pronunciou em 29 de maio de 2000, por ocasião do recebimento do Prêmio Prizker -- o "Prêmio Nobel" da arquitetura.
Feito há dez anos atrás, o discurso continua bonito, interessante e completamente pertinente. (Tradução de Lucas Girard e Gabriel Kogan. Grifos e links são meus...)
Rem Koolhaas - Discurso do Prêmio Pritzker.
"Eu preparei um pequeno discurso. E talvez eu deva começa-lo com uma anedota. Pode ser uma anedota estranha, mas vir da Holanda e ter nascido em 1944 significa paradoxalmente que eu fui ignorante na questão do Judaísmo até os 21 anos. Na minha juventude, no meu país, era completamente incomum apontar as origens religiosas ou raciais de alguém, era um assunto que nunca falávamos. Isso mudou drasticamente quando eu fui pela primeira vez à Nova Iorque, e fui recebido, no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos, liderado pelo arquiteto Peter Eisenman, que a meu ver merece o Prêmio Pritzker ainda mais que eu.
A primeira vez que estive lá, Peter Eisenman me pegou pelo casaco, assim, de uma maneira bem agressiva, e disse: “Você sabe por que você está aqui, Koolhaas?” E eu disse, “Não”. “Você está aqui para representar o elemento Gótico”. Então isso me pôs em meu lugar e provavelmente explica alguns dos meus sentimentos aqui. De qualquer forma, eu quero começar pelos meus agradecimentos. Eu agradeço Cindy Pritzker e a família Pritzker e a sua fundação por sua excepcional identificação com arquitetura. Eu agradeço ao júri pela tão inspirada decisão este ano. Eu agradeço aos meus parceiros em meu escritório O.M.A. Todos e cada um dos quinhentos e cinqüenta deles fizeram contribuições que agora se mostram cruciais. Eu agradeço ao Harvard Design School por apoiar minha dupla vida como futurista. Eu agradeço aos meus clientes que engatilharam nosso trabalho encarregando-nos de suas necessidades.
Depois de meus agradecimentos eu escrevi três pequenas anedotas, ou três pequenos episódios que para mim indicam tanto o passado recente da arquitetura quanto a atual situação da arquitetura e o, talvez provável, futuro da arquitetura. E eu quero discutir algumas das potenciais evoluções que eu – se não for cuidadoso, afastarei da possível evolução num futuro iminente.
Eu quero começar em 1950 – cinqüenta anos atrás. Cinqüenta anos atrás, a cena arquitetônica não apoiava-se num indivíduo singular, o gênio, apoiava-se no grupo, no movimento. Não havia cena. Havia um mundo arquitetônico. A arquitetura não lidava com a maior diferença possível, mas sim com as sutilezas que poderiam ser desenvolvidas dentro de um estreito campo de semelhanças dentro da generalidade. Arquitetura era um continuum que terminava com o urbanismo.Uma casa era vista como uma pequena cidade. A cidade vista como uma imensa casa.Esse tipo de arquitetura enxergava-se como ideológica. Sua política abrangia todo o caminho entre o socialismo e o comunismo e todos os pontos intermediários. Grandes temas foram adotados para além da arquitetura, não a partir da imaginação individual da cabeça dos arquitetos. Os arquitetos estavam seguros em seu alinhamento com o que então se chamava sociedade, algo imaginado e que podia ser fabricado.
Agora estamos em 2000, cinqüenta anos depois da idílica caricatura que eu descrevi a vocês. Nós temos Pritzkers, temos uma quantidade razoável deles sentados aqui na primeira fila – portanto nós temos identidades únicas, singulares, assinaturas até. Nos respeitamos um ao outro, mas não formamos uma comunidade. Não temos projetos juntos. Nosso cliente não mais é o estado ou suas derivações, mas indivíduos privados frequentemente envolvidos em ambições arriscadas e trajetórias dispendiosas, que nós arquitetos apoiamos sinceramente.
O sistema é final. A economia de mercado. Nós trabalhamos numa era pós-ideológica e por falta de apoio nós abandonamos a cidade ou quaisquer outras questões gerais. Os temas que inventamos e sustentamos são nossas mitologias privadas, nossas especializações. Nós não temos discurso sobre organização territorial, nenhum discurso sobre povoamento ou co-existência humana.No máximo nosso trabalho brilhantemente investiga e explora uma série de condições singulares. O fato de que essa aparência de sítio arqueológico é enfatizada acima de sua responsabilidade política mostra que a inocência política é uma importante parte do equipamento do arquiteto contemporâneo.
Fico grato que o texto do júri para o prêmio 2000 me descreva como definidor de novos tipos de relações, tanto teóricas quanto práticas, entre arquitetura e a situação cultural. Isso é de fato um sentido do que estou tentando fazer. Apesar de prever muito mal o futuro, muito preocupado com o presente, deixe-nos especular por um momento sobre o próximo intervalo de cinqüenta anos – a arquitetura como vai ser praticada em 2050 ou, se tivermos sorte, um pouco antes.
Um desenvolvimento é certo. Nos últimos três anos, brick and mortar (tijolo e argamassa) evoluíram para click and mortar (1). O retail (varejo) virou e-tail e não há como exagerar na importância destas coisas. Comparado ao brilho ocasional da arquitetura agora, o domínio do virtual afirma-se com abandono selvagem e confuso e está se proliferando numa velocidade que podemos apenas sonhar. Pela primeira vez em décadas, e talvez no milênio, nós arquitetos temos uma competição muito forte e fundamental. As comunidades que não podemos imaginar no mundo real vão florescer no espaço virtual. Os territórios e demarcações que mantemos no chão são fundidas e moldadas além do conhecido num domínio muito mais imediato, glamuroso e flexível – o da eletrônica.
Após 4000 anos de fracasso, o Photoshop e o computador criam utopias instantaneamente. Nessa cerimônia neste local, a arquitetura está ainda fundamentalmente comprometida com a argamassa, como se apenas a proximidade com um dos maiores acervos reunidos da história da humanidade nos assegurasse outros 2 mil anos de usufruto de nosso nicho particular, e de nossa futura credibilidade. Mas o resto do mundo já liberou a arquitetura para nós. A arquitetura tornou-se a metáfora dominante, um agente controlador de tudo que necessita de conceito, estrutura, organização, entidade, forma. Apenas nós arquitetos não nos beneficiamos desta redefinição, ilhados em nosso próprio Mar Morto de argamassa.
A menos que quebremos nossa dependência do real e reconheçamos a arquitetura como uma maneira de pensar sobre todos os assuntos, do mais político ao mais prático e liberar-nos da eternidade para especular sobre novas, atraentes e imediatas questões, como a pobreza, o desaparecimento da natureza, a arquitetura talvez não chegue ao ano 2050.
Obrigado.
Rem Koolhaas”
(1) Expressão usada para denominar empresas e instituições que utilizam tanto a internet quanto o espaço não-virtual para realização de atividades (por exemplo, um banco que tem o ‘internet banking’ e também suas agências).
Brasília nasceu uma obra de arte e uma utopia. Digo "obra de arte" num dos sentidos "tradicionais" modernos (mais ou menos desde o século XVIII) que se costuma compreendê-la: fruto materializado para o mundo de uma idealização individual do "espírito".
Em contraste à "arte", eu poderia dizer que as cidades costumam ser produtos de cultura: uma produção social e coletiva de sentidos e de fazeres e de formas, cunhadas no diálogo e no conflito das práticas sociais "mundanas".
Brasilia, conquanto seja coletiva no sentido estrito em que toda construção civil o é -- pois são muitos os que a constroem -- é também em certa medida a realização idealizada por um número reduzidíssimo de pessoas. Número geralmente resumido, por propósitos práticos de narrativa, a dois: Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Nesse sentido (discutível) que aqui dei à "arte" moderna, há razões para considerar Brasília como sendo talvez a mais vasta e definitiva obra de arte já criada na história recente da humanidade.
Acho essa linha de pensamento instigante porque é também fácil relacionar muitos de seus defeitos de origem às limitações inerentes de uma "obra de arte tradicional" frente à realidade. Limitação que poderíamos resumir em não considerar a cidade e a arte como fruto coletivo. É preciso se perguntar: afinal, como uma cidade inteira se faz do nada sem considerar planos de moradias para as multidões que foram lá arduamente trabalhar na sua construção? Mas é claro que, ao se considerar aqui a velha questão da subordinação dos meios aos fins, é necessário lembrar do quanto a imbricação de processos e meios "atrasados" e espúrios a fins vanguardistas e "inovadores" está no D.N.A. das relações de classe de nossa sociedade de "liberais escravistas e comunistas empresários".
Mas a questão é que Brasilia era utopia, para além das conotações nacionalistas de refundação do "país do futuro", porque uma obra de arte é sempre uma utopia.
Não digo "utopia" no sentido popular de "mundo perfeito e impossível" (embora uma obra de arte, por ser um sistema fechado de regras autoreferentes que fazem sentido entre si seja, como a matemática, o que mais se aproxima do que chamamos de "perfeição"). Digo utopia no sentido mais literal da palavra cunhada por Thomas More: "ou-topos", ou outro lugar.
Brasilia é esse lugar outro do Brasil: tenho para mim que sua primeira característica de nascença, mas do que ser a si mesma, é a de não sernenhuma das outras capitais do Brasil -- não ser Salvador, São Paulo, Recife, e principalmente não ser o Rio de Janeiro. Brasília se inicia, então, como esse lugar negativo, vazio.
democracia sonhada do vazio
Todos os signos arquitetônicos tradicionais do poder costumavam ser centrados nos edifícios. O poder era encarnado e imortalizado neles: os edifícios amedrontavam e impressionavam. Mas a caracterização arquitetônica de brasília, embora monumental, não amedronta; o que assusta e oprime em Brasília não é o poder dos edifícios -- é o espaço vazio.
O espaço vazio também é objeto de poder, claro. No Vaticano, o vazio da Praça de São Pedro é o enquadramento monumental do poder "sublime" da divindade "encarnada" na Basílica-mor da cristandade. EmVersailles, o "vazio" paisagístico é um conjunto supra-desenhado de jardins monumentais que criam perspectivas de amplidão absurda, falando do poder da monarquia francesa em seu ponto culminante. Mas em Brasília, o espaço vazio domina amorfo, não desenhado. Ele não é um coadjuvante desenhado por edificações, mas uma realidade dada, abstrata e infinda, na qual estas se inserem pontualmente. Concedendo-me o precioso luxo da ingenuidade: diria que é naquelas fotos de multidões no eixo, cheias de gente observando ou protestando, que o sentido da amplidão de brasília se concretiza.
Brasília é uma construção simbólica de democracia. E talvez por acaso (e talvez não), a verdadeira democracia, a democracia em sua raiz, é um espaço vazio: pois o objeto da democracia -- o "povo" -- não tem nenhuma substância pré-dada, nenhuma"essência". Não é um dado grupo específico, uma etnia ou uma entidade coesa, não possui identidade real dada nem limites que não possam ser revistos. O "povo" da modernidade é a unidade coletiva da total instabilidade coletiva, onde tudo pode e está para ser criado -- a "democracia é esse espaço público, a res publica. Essa "democracia" vazia é naturalmente assustadora; e também é inabarcável à percepção fenomênica cotidiana do homem.
É esse vazio que Brasília encarna, é essa "insônia" de Clarice Lispector. É possível ver, como muitos, Brasília como esse imenso espaço visual que derrota, oprime o indivíduo; mas a esses pergunto se não é precisamente ISSO que é o indivíduo quando confrontado sem mediações à "face gloriosa" da democracia: minúsculo, insignificante. Só a coletividade ocupa esse espaço.
O significado da minha Brasilia é a desse espaço ocupado por multidões; para além da formação de arquiteto e do encantamento com a forma e a fotografia: foi assim, cheio e revoltoso, que vi o eixo monumental pela primeira vez; e é assim que ela fica até hoje na minha memória.
Brasília pode ser tratada ou ocupada de maneira autoritária, usada como disneylândia burocrática, como o foi e o é há décadas. Mas o vazio está lá; e pra mim ele permanece, promessa ao futuro, à espera que "o povo" (seja o que isso for) o tome para si.
política de quintal e antibrasília
São comuns críticas a Brasilia por ser afastada, por estar fora do alcance -- aliás, estas são particularmente comuns entre cariocas um pouco mais velhos e conservadores.
Compreendo bem os motivos, mas sou desconfiado de tais críticas. Nelas eu tendo a ouvir o eco de uma mal disfarçada saudade de uma política palaciana de favores. Uma política carioca, de Palácio do Catete, onde os políticos não poderiam "fugir da população" que os confrontaria. Acredito que essas críticas dificilmente podem ser consideradas realmente democráticas. Sua concepção de "democracia" às vezes vai pouco além do direito de "reclamar cara a cara com os políticos". Ou seja: uma política que, travestida de "igualdade", na verdade é essencialmente doméstica. Uma política típica do "homem cordial" brasileiro (termo que, ao contrário do mal-uso genealizado, não quer dizer "homem amigável", mas sim homem que se pauta pelas relações pessoais. O homem cordial é tanto aquele que dá tapinha nas costas quanto aquele que pede favores em troca para fazê-lo. E, para mim, também é aquele que vincula a "participação" política a algum ideal de "conhecer" o político e poder encará-lo de perto.)
Morando no Rio, é até difícil falar de Brasília sem falar da antiga "anti-brasília", o Rio de Janeiro. Enquanto a paisagem brasiliana é vazio quase abstrato, a paisagem carioca é total protagonista. Enquanto a população brasiliana ainda está para ter uma "cara própria", o Rio exporta e esbanja sua identidade, contagiante e irritantemente seguro de si. Mas bem: uma capital com um Palácio do Catete seria ótimo para quem pensa e quer o Brasil em escala doméstica; um vício no qual, a despeito dos esforços paulistanos, os cariocas ainda me parecem ser absolutos campeões nacionais. Por motivos até compreensíveis. E é pelo pequeno tempo de convivência que me sinto tentado a dizer: sorry guys, o Brasil é MUITO maior que vocês. As futuras olimpíadas serão mais um desses momentos em que a mídia fará esforço para que se esqueça desse fato, mas eu pelo menos continuarei repetindo: O Rio não é mais distrito federal há 50 anos. Move the fuck on.
Sempre ouvi na minha vida inteira, e acho que sempre vai haver quem use o Rio como epítome do que é o Brasil, do "verdadeiro Brasil": essa natureza exuberante, essa gente criativa e bronzeada e desorganizada. Eu já digo que o não é o Rio que é mais "brasileiro" que o resto; os brasileiros é que são todos, uns mais outros menos, um pouquinho "cariocas". Mas tudo isso permanece pra mim algo doméstico e litorâneo.
Pra mim o Brasil, como a Brasília mítica, é uma vastidão improvável.
Epílogo:
Quem leu este texto estranho até aqui pode ter percebido que falo de uma Brasília muito particular. Como indiquei antes, desobrigado de manter a adequada distância crítica, falo aqui da minha Brasília mítica, a Brasília que vi encantada com olhos de estudante e que vejo nas fotos clássicas, a Brasília que me assombra não em desenho mas na própria idéia de sua existência.
Ao menos no instante congelado das fotos, nos parece que é com certo assombro que os migrantes se apropriaram dos edifícios no dia da inauguração: andavam naquela obra de arte, de ficção científica, de fantasia "paranóico-crítica" modernista.
Aquele foi o último, talvez pleno, momento de "Brasília-obra-de-arte". Brasília, no uso de décadas, agora que gerações nela nasceram e cresceram, é hoje uma obra de cultura. Já é uma construção coletiva. Já existem gerações de verdadeiros "brasilianos".
Mas a cidade permanece na mente de muitos brasileiros -- e, em muitos sentidos, na prática -- como esse "outro lugar".