sábado, 6 de dezembro de 2014

It's evolution, babe (4)



Ver este lindo desenho me fez lembrar de uma das coisas que achei mais legais -- dentre muitas -- que há no livro A Magia da Realidade de Richard Dawkins: a noção de como a genealogia das línguas humanas é uma das melhores analogias para se explicar a lógica evolutiva por trás da especiação biológica.

Línguas são fenômenos extremamente complexos e, ainda assim, mais ou menos coesos e internamente funcionais. Mas ninguém em sã consciência acha que surgiram um dia do nada, prontinhas, fruto da imaginação e do "projeto" de alguma superinteligência. Ninguém um dia "inventou" o português ou o inglês e os pôs no mundo. Línguas foram sendo construídas em séculos de evolução de interações comunicacionais humanas, adquirindo constantemente novos caracteres e perdendo outros, e por vezes gerando linhas de "descendência" que se diferenciaram a ponto de não conseguirem mais "procriar" -- ou seja, a ponto de seus falantes respectivos não conseguirem se entender.

Vejam bem: mesmo uma coisa que é certamente fruto da mente humana -- a língua -- não tem um "criador", um idealizador: foi desenvolvida coletivamente aos poucos, numa frente ampla de micro-mutações e micro-seleções diferenciadas de acordo com diferenças de "ambiente" e com isolamentos geográficos (locais diferentes, que tinham uma colonização, sotaque ou modo de vida distintos). O que os gramáticos fizeram posteriormente foi meramente tentar observar, registrar e sistematizar o que já existia espontaneamente.
Ou seja: não houve um "momento criador" definido e nem momento em que uma língua "virou" exatamente outra. E todas continuam em transformação -- a não ser que, como o latim e o aramaico, já estejam extintas.

Alguém virá dizer que isso tira a beleza e a riqueza das línguas em alguma medida?

Por que tanta gente tem problemas em entender ou aceitar esse princípio quando se trata dos milhões de anos de vida em nosso planeta?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

da compaixão e seus nêmeses


Estava pensando sobre a relação mesquinha de alguns diante do estupro (e outras coisas).

Alguns ficam literalmente "suavizando" pro lado do estuprador, e isso é foco de crítica feminista há muito tempo. Mas noto que muita gente, na verdade, culpa OS DOIS: o estuprador merece forca, ser castrado, morto (facilita se ele ter a devida  "cara de marginal" ao invés de "bom moço" de classe mádia alta); já a menina... pode ser uma piranha, ou não se deu ao respeito,  ou era boba e não se cuidou e bebeu ou andou só com homens ou ficou até tarde na festa  e etc etc: "queria o quê, né"?
Causo rápido: Uma garota menor de idade foi encontrada desacordada no alojamento aqui da Rural, 24 horas depois de de ter sumido de uma festa. A esse respeito, ouvi uma aluna comentar: "metade da culpa foi dela".

Vale algo parecido para assalto, às vezes: se a pessoa não estava estritamente onde "devia" estar, corre o risco de ouvir um "você também pediu, né?". Ao mesmo tempo, também deseja-se a prisão/espancamento/morte do agressor. Ninguém se salva da reprovação moral.

A questão: o que leva uma pessoa a comentar esse tipo de coisa? Independente de estar certo ou errado, qual o motor desse tipo de comentário moralizador, dessa pulsão automática e extremamente significativa de alguns de distribuir culpa à vítima antes de saber mais detalhes?

Hipótese momentânea: medo.
É a necessidade de reafirmar a si mesmo como superior; seja (obviamente) quanto ao bandido agressor; e seja, também, quanto à vítima. Tal racionalização -- de que, se aconteceu algo, a pessoa DEVE ter agido de alguma maneira a "merecer" ou ao menos atrair isso a si -- ajuda o comentarista a afastar o horror de sua própria fragilidade, de saber que o fato dele fazer "tudo certinho" não lhe garante NADA. De que, não importando o quão justo e correto ele seja, o mundo pode foder com ele (às vezes, literalmente) sem lhe dever explicação alguma.

É, no fim, o medo do vazio; o horror à suspeita subconsciente e inquietante de que, na verdade, o mundo não faça sentido. Um medo que necessariamente tende a bloquear qualquer compaixão: não se quer ver o possível núcleo aleatório e injustificável da desgraça alheia, pois ele é um reflexo perigoso da nossa própria condição indefesa diante da desgraça em geral.

Aliás, me parece o mesmo motivo que leva certas pessoas a se identificarem mais com uma pessoa que se salva miraculosamente de um desastre do que com as outras quarenta pessoas que morreram esmagadas (ou queimadas, ou sufocadas, ou etc.) no mesmo desastre. "É um milagre", repete-se, como se os mortos tivessem morrido só para conferir a miraculosidade àquela singular vida salva.
Bem, para cada salvamento miraculoso há uma morte completamente estúpida, azarada e sem sentido; Um bebê retirado com vida de um poço de 20 metros de profundidade para um bebê afogado no berço com seu próprio vômito.

De minha parte, o que eu penso é que nada é garantido (Fortuna Imperatrix mundi, my friend)Não consigo deixar de achar triste qualquer "moralidade" que se baseie na expectativa tácita de um EFETIVO "pacto" transcendental de causa-e efeito com o universo; triste porque é uma moralidade autocentrada, baseada em recompensa e castigo, e não no reconhecimento compassivo da igualdade do outro.

Ao fim, me lembro de duas cenas de Anete Benning no filme "Beleza Americana": uma no início, quando a neurótica personagem interpretada por ela -- uma corretora de imóveis infeliz e fanática seguidora de auto-ajuda -- se estapeia para segurar o choro de desabafo diante do fracasso profissional; e a cena no final do filme -- na minha opinião, complemento da primeira -- em que ela decide matar seu marido repetindo o mantra de auto-ajuda "eu me recuso a ser uma vítima". O arco descrito aí é uma ótima amostra do ponto onde o impulso de auto-afirmação, a pricípio positivo, converte-se em negação covarde do outro (e, paradoxalmente, de si mesmo).





Não há verdadeira e profunda afirmação de si que não venha com o reconhecimento de sua própria finitude e fragilidade; sem essa, tampouco há real capacidade de reconhecer e afirmar o próximo nessa mesma precária finitude que ele compartilha conosco.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Não deixem Cantanhêde só!

Edição especial de WSR: escolha a nova morena da Folha

Houve uma época em que a Folha de São Paulo fazia a festa do leitor de jornal brasileiro, com sua fabulosa dupla de meninas: Eliane Cantanhêde, a loira, e Renata Lo Prete, a morena.  A última abandonou o barco e migrou para a Globonews, deixando sua alva e elegante companheira em vôo solo...desde a saída de Lo Prete, nenhuma outra morena se firmou em posição que pudesse fazer aquela agradável tabelinha com Cantanhêde.

Eliane é uma mulher sofisticada, bonita, inteligente.  Lo Prete é tudo isso, só que um pouco menos charmosa...em compensação, deu um dos furos mais importantes do jornalismo nacional ao entrevistar o confiável deputado Roberto Jefferson quando ele revelou uma história que depois foi adaptada para se transformar naquilo que conhecemos como mensalão.

As candidatas foram cuidadosamente selecionadas para essa pesquisa pelo Oráculo do Milênio, de forma que são inquestionáveis - ainda assim, abrimos espaço para outras opiniões, igualzinho à Folha.  O critério para definir quem é morena é aquele correto: pessoa de cabelos negros ou castanhos - gente clara de cabelos castanhos claros são morenos claros, e é simples assim.  Mulatas são mulatas e negras são negras, não "moreninhas", já que somos contra o uso do termo "moreno" como eufemismo pra negro.  Dessa forma, Sheherazade é morena, convivam com este fato.

Rachel Sheherazade é uma espécie de Cantanhêde de canal ruim de TV, só que com menos brilho, elegância e charme.  Tá, talvez não seja uma espécie de Cantanhêde, pra não ser injusto, mas são definitivamente da mesma espécie - a nossa.  Ou talvez seja um tipo de "She-Datena".  É, é isso.  Palmirinha entra como um convite à diversidade na página de opinião da Folha, jornal tão eclético e imparcial, com espaço pra todo mundo e todo tipo de opinião, até aquelas que não têm nada a ver.  E a Mulher Samambaia tá aí pra quem acha que beleza é fundamental e nem acha que a Cantanhêde precise de uma parceira tão convencional, no sentido jornalístico da coisa.  Cristiana Lobo é a escolha do leitor tradicional, e seria também uma chance da Folha se vingar das organizações Globo, levando uma de suas morenas mais destacadas.  Sem mais delongas, eis a enquete que elegerá a próxima morena da Folha!


A disputa será acirrada.  Qual dessas será a nova morena da Folha?  Votem!!

Pra quem não está a par da função da loira da Folha: trata-se de uma das colunistas mais importantes do jornal, publica na segunda página (opinião) às terças, quintas, sextas e domingos.  Ou seja: fica na frente, liderando a coreografia do jornal.  A morena teria função similar: ficaria na frente do jornal exibindo suas exuberantes opiniões, refletindo a alma do conjunto.  Cumprindo seu papel de jornalista indignada, escreveu revoltosas 10 colunas desde o dia 20 de julho de 2014, data na qual a Folha publicou o escândalo da construção do aeroporto nas terras do tio-avô de Aécio.  Abordou o tema em quase uma delas - a Folha não pode ser acusada de parcialidade.  Pra entender o papel da jornalista-estrela da Folha e votar em sua morena de forma consciente, aqui vão links de todas as 10 são do naofo.de, acompanhadas de um pequeno (médio ou longo) comentário, cliquem à vontade, sem dar audiência ou usar a generosa cota de 10 reportagens que a Folha te dá todos os meses.  Aviso que nenhuma vale tanto a pena assim, e estão aí mais pra provar que eu não tô mentindo nas análises e sinopses - já que todo mundo mente, de vez em quando.


20/07/2014: Gastando cartuchos

Cantanhêde destaca a rejeição de Dilma como o dado mais importante aferido na última pesquisa Datafolha, o que talvez a impedisse de vencer no segundo turno (o instituto aponta a vitória no primeiro turno).

22/07/2014: Pega ladrão!

Passada a copa e deglutida a boa organização, Cantanhêde declara que é hora de deixar de oba-oba e voltar a pensar na bosta do país, em todas as suas bostas e de que bostas acusaremos Dilma, Lula e a bosta do PT . É tanta bosta que ela não sabe nem dizer quantos gringos foram vítimas de roubos:

"Não sei quantos latino-americanos ficaram sem dinheiro e documentos para voltar, mais de 12 mil argentinos foram vítimas de roubo/furto no Rio e, segundo levantamento do site G1, os furtos em trens, metrôs e ônibus em aumentaram 379% em São Paulo em relação ao ano passado.  Imagine fora deles!"

Bom, aparentemente ela sabia.  Mas quantos roubos ocorreram fora dos trens/metrô/ônibus, hein, hein?!? Eu nem imagino.  Ela é jornalista, talvez possa apurar.


Eliane Cantanhêde aborda, en passant, o Aecioporto.

Em sua única coluna sobre o tucano, Dilma é assunto em cinco dos sete parágrafos, Campos em dois deles.  Para a colunista, enquanto "o TCU livra a cara de Dilma", Aécio e Campos "resvalam" em questões éticas.  Aécio "entrou na berlinda por 'reagir mal' às perguntas inconvenientes".

Fiquei preocupado com o parágrafo final do texto, possivelmente escrito sob abstinência de alguma droga para tratamento de transtornos dissociativos (não tomem essas porras, depois dá nisso):

"E a economia, a mão pesada estatal, o desajuste do setor de energia? Ah! Isso é coisa para a 'elite branca'."

Hein?

25/07/2014: "Anão diplomático"

A jornalista concorda com a posição brasileira, mas não sem antes dar uma coçadinha em sua glândula conservadora, só pra aliviar o comichão.

"Depois de três anos e meio de uma política externa dorminhoca, o Brasil deu um pulo da cama, tomou-se de brios e partiu pra cima de Israel."

27/07/2014: Salve-se quem puder

Sobre a rejeição do mercado à Dilma, Cantanhêde concorda que é uma análise arriscada, embora levada a sério pelas campanhas - é verdade.  Explica o processo: se a previsão de crescimento cai, a crença na vitória de Dilma cai e as bolsas sobem.

O terceiro parágrafo faz o serviço de reacender a rejeição das elites à presidente: o PT utiliza esse dado para reforçar, aos pobres, que rico não gosta da Dilma.

No final, lembra o nível de rejeição da presidente no país (35%, meio normal pra quem governa) e de 47% em SP, que vive uma espécie de esquizofrenia no plano local, com altos índices de aprovação a um governador que faz uma gestão, digamos, problemática (PM, escolas, USP, água, corrupção no metrô, etc).

Mas...e o Lula?  Mais uma vez a jornalista brilha na frase final:

"Aliás, Lula? Vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?" 

29/07/2014: Dividindo os erros

Nham-nham-nham!!! Sabatina da Folha com a Dilma, prato cheio e no dia seguinte é dia de feijoada - que em São Paulo se come também nas quartas.!

Dilma arranja desculpas para a economia.  Dilma erra ao dizer que o pessimismo afeta a economia, que é feita de expetactivas, quando na verdade "a economia é calcada, não em impressões e em manifestações de ruia, mas sim em dados concretos feitos por especialistas - do Banco Central e da área econômica, além da indústria e de agências de avaliação."

Aqui, peço licença para me alongar mais e "enseriar" a coisa.

No dia 22 de julho, a Folha publicou a seguinte reportagem: "Humor piora e deixa abaixo de 1% previsões para o PIB"

A previsão do boletim focus, uma pesquisa de mercado feita ou encomendada pelo Banco Central, caíra para 0,97%.

A Folha foi atrás de investigar, lógico.  E listou as razões que motivaram os economistas a refazerem suas projeções:

1) Queda na produção industrial.

2) Vendas do comércio (err...essas subiram em maio, mas "só porque foram puxadas por alimentos, móveis e eletrodomésticos".  O que tinha que subir, com o perdão da ignorância? Se a venda de adubos, canos de PVC e material de festas infantis tivessem subido valia?

3) menor criação de vagas formais no primeiro semestre desde 2008.  Foram criadas 588.671 vagas contra 397.936 naquele ano.  Bom, foram criadas mais vagas, certo?  Nesse ritmo (o pior de Dilma), seriam geradas, em seu governo, 4.709.368 vagas.  Até junho foram geradas 5.052.710 vagas.  Isso no meio da crise mundial e levando em consideração que o nível de desemprego continua baixíssimo, com um número de pessoas que nem estão procurando emprego porque optam por estudar, etc, etc, etc.  FHC gerou, nos seus oito anos, 5.016.672, numa média semestral de 313.542 vagas/semestre.  Imagine como estaria o humor dos economistas se estivéssemos assim?

4) cai a confiança da indústria;

5) cai a confiança do consumidor.

Sou só eu, ou das cinco razões apontadas apenas a primeira é uma razão real negativa, mensurável de fato?  2 e 3 são dados positivos, 4 e 5 são, bem.....expectativas - e com variação pequena.  Há ainda dois outros indicadores, que são meros desdobramentos da produção industrial, portanto, mais do argumento 1.

Sobre isso é só.

31/07/2014: Profecias e realidade

Neste dia Cantanhêde nos explicou a realidade.  É uma coluna meio sem sal, como deve ser a realidade, apesar dos temperos da jornalista.  Deixo só a  frase final, pra dar o gostinho:

"O empresário sabe distinguir 'profecia pessimista' de constatação."

Sim, pudemos observar na coluna anterior...o mau humor provocado pelos fatos reais, e não pelas "profecias pessimistas"  Ah, o empresariado brasileiro, esses sábios!  Aqui um deles, indignado feito um paulistano:


Ou só valem os grandes?  Tipo o pai desta criatura:

Sim, eu entendo a falácia do espantalho, mas é só uma aparente: vejam o que eles concluíram dos dados apresentados no quadro da Folha.  E você?  Olhe aqui.  Talvez não seja justo usar esses dois exemplos só porque a esmagadora maioria deles é mais parecida com isso aí do que com um Bill Gates - este, um conhecido petralha maldito.

01/08/2014: E o Lula, hein?

Pois é, e o Lula, hein?  Essa coluna demonstra a capacidade de leitura de Cantanhêde: dias antes ela perguntou "e o Lula".  Não tardou para que o assunto aparecesse na mídia.

Como diz o Gabriel, Lula é responsável, entre outras coisas, pelos empregos desses colunistas - ou pelo menos pelo aumento na repercussão destes.  Antes do Lula ninguém lia gente como Azevedo, Constantino...até Olavo de Carvalho, cujo conhecimento era ostentado apenas pelos reaças mais ávidos e debochado por um pequeno setor da esquerda (eu já conhecia - rá!) publicou um livro com direito a estardalhaço e gente neo-politizada compartilhando nas redes sociais.

Como ninguém respondeu a pergunta feita no dia 27  (op. cit.), Cantanhêde se responde: Lula inventou Dilma e Haddad.  Se a aprovação dos dois está em baixa, não seria natural que Lula fosse atingido?

Ela não sabe: "Será?"




Cantanhêde (e toda a mídia) ficaram espantados ao descobrir que pessoas se preparam e combinam respostas em CPIs.  Pior: há uma orientação política nisso.  Pior: parlamentares "amigos" pegam leve com gente que, caso pegassem pesado, poderiam comprometer.

Desenho do Gabriel, feito originalmente para
este postTem alguma relação com isso aqui.

Jânio de Freitas, em coluna publicada neste mesmo dia "responde":

"Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras –dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.

De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.

O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.

Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral."

Depois vem esse Lula descolando um emprego pra Nora no Sesi!!  O Sesi, segundo a Wikipedia é "uma rede de instituições privadas brasileiras".  Pelo nome parece ter algo com a indústria...a ousadia do presitralha (*)!!  Como pode , onde já se viu?  E esses industriais, que além disso doaram até dinheiro pras campanhas todas?

Sabe onde é foda, mas foda mesmo arrumar emprego pra parente?  No âmbito público.  E sabem que grupos/partidos são craques nisso aí?

Bão, dos nossos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores), 280 vêm de famílias de políticos - tem tudo nesse infográfico.  O ranking por partido, em % dos membros que vêm de "clãs" políticos:

DEM: 67%
PMDB: 66%
PP: 63%
PTB: 58%
PSC: 50%
PSDB: 49%
PSB: 48%
PR: 44%
PDT: 37%
PPS: 36%
PV: 31%
PCdoB:24% 
PT: 22%

Imaginem a quantidade de assessores e gente empregada através do nepotismo cruzado?  Há ainda uma diferença qualitativa.  Marta e Eduardo Suplicy entram na conta porque foram casados.  Acontece que ambos construíram carreiras políticas independentes...Marta não se elegeu senadora porque foi "esposa do Suplicy".  O mesmo ocorre com Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo.  É meio diferente de um certo senador mineiro, candidato à presidência da república, filho de deputado, neto de ex-presidente (o outro avô foi secretário estadual de JK) e primo de senador de outro estado.  Diferente, né?

Imaginem se a imprensa verificasse essas coisas com a mesma intensidade pros dois lados?  Imagina na Copa?

*Curtiram, amiguinhos do bem?  É "presidente + petralha", mas pode ser entendido como "presidente dos petralhas" ou "presidente-tralha".  Usem isso aí.

05/08/2014: Tudo embolado

O empresariado nacional - mais especificamente os industriais - se vingam da presidente cortando doações.  Sem citações aqui, coluna meio óbvia: tudo vai mal, obrigado.

Agora...e a veja, hein?



Tem que ter lido pra entender, certo?


Nota 1: ao menos parte da equipe de redação de Wilbor se Revolta entende que a pesquisa pode ser interpretada como machista ou de mal gosto.  Consideramos, porém, que da mesma forma que Constantino e Pondé podem ser alvo de comentários em função de sua busca por um macho que os satisfaça (em função disso e disso), a brincadeira é pertinente -  e as duas fazem dupla na Globonews - canal da Rede Globo, essa sim, com um quadro de mau-gosto chamado "as meninas do Jô", como se fosse muito exótico mulher comentar política.  Nossas sinceras desculpas à Palmirinha, um doce de velhinha que faz doces e à Mulher-Samambaia, sobre a qual não sabemos absolutamente nada.

Nota 2: Pouca gente vai acreditar, mas eu não sabia quem era a Mulher Samambaia.  Eu pensei no nome, achei conveniente, e fiquei torcendo pra que fosse morena, antes de consultar o Oráculo do Milênio.



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Utilidade pública

Seus problemas acabaram!

Ler Reinaldo Azevedo, Olavo, Constantino, Pondé e cia é dose.  Punir os amigos com o compartilhamento desses sujeitos é ainda pior, meio equivalente a dar de presente um saco (de papel) cheio de fraldas sujas, mas em tempos de eleições, às vezes é importante denunciar a manipulação da opinião pública.  Eu não costumo passar adiante textos dessa gente do bem, pra não disseminar desinformação, intolerância, preconceito e também para não dar audiência a esses porras.  Esses caras (ou as empresas que os contratam) vivem de verbas de publicidade, e a medida da visibilidade é dada em pageviews.

Acabei de descobrir - depois de ter visto algumas vezes - o "naofo.de - encurtador higiênico de chorume":

naofo.de

Na home do site, a descrição do serviço:

"O naofo.de é um serviço de compartilhamento/encurtamento de URLs com propósito de denúncia/comentário crítico. Em vez da página original, a URL encurtada direciona para uma cópia (em imagem) do conteúdo, de modo que não se aumentará o tráfego ou o pagerank da página em questão. Além disso, a cópia ficará disponível mesmo que a página original seja tirada do ar."

O resultado é uma página com a imagem do site.

Pra gerar uma página, basta pegar a URL original, como essa coluna da Eliane Cantanhêde - a loira da Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2014/07/1490921-anao-diplomatico.shtml

E passar pelo naofo.de

E voa lá (lá onde, né?):

http://naofo.de/1410

Pros amigos reacinhas, digo, politizados: esbaldem-se fazendo o mesmo com os blogues comunas, tá?  Só não vale fazer isso no Wilbor se Revolta, o blog mais aclamado pela autocrítica do país...afinal, os autores gostariam de viver disso.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Metrô-SP: a gente vê por aqui

TODO MUNDO quer que o metrô funcione por mais tempo na cidade de São Paulo, se possível, que funcione 24 horas por dia.

Eu frequento estádios, pra ser específico, vou ao Morumbi com muita frequência.  Por lá ainda não tem metrô (muito em função do jogo político que tirou a Copa do Morumbi e atrasou a construção de uma linha que atenderia não só os torcedores, mas um bom pedaço da cidade, incluindo aí a comunidade de Paraisópolis, maior favela de São Paulo, onde vivem 43 mil pessoas que trabalham e seriam muito beneficiadas com a chegada de uma linha de transporte público de massa.

Cansei de sair dos jogos cinco, dez minutos mais cedo, uma vez que os jogos das 22 horas acabam perto da meia-noite, horário de encerramento do funcionamento do sistema de transporte público na cidade - incluindo os ônibus.  Já voltei a pé pra casa muitas vezes, caminhada de cerca de uma hora.

O metrô não funciona 24 horas principalmente porque é necessária uma pausa para manutenção do sistema (verificação dos trilhos, sistemas, estações e trens.  Essa manutenção ocorre entre 1:00 e 4:00.  Do jeito que é, já convivemos com um sistema que falha com uma certa frequência, acarretando prejuízos para toda a cidade.

O problema do encerramento das atividades do metrô para os torcedores que frequentam os estádios paulistanos ficou evidenciado após a copa, quando, de repente, "perceberam" que as pessoas não conseguiriam voltar de Itaquera, a última estação da linha vermelha.  Pra quem não sabe onde fica, explico: é longe pra C******.  Daqui de casa, ponta da linha 4, uma hora de metrô.

Fazer com que o metrô funcione até mais tarde é ótimo, mas isso demanda dinheiro, pois é necessário que se contrate mais pessoas para que a manutenção possa ser feita de forma mais ágil.  Pouquíssimas cidades do mundo contam com metrô 24 horas.  Das que eu consigo me lembrar, por ter acompanhado, durante a construção da linha 4, os fóruns sobre metrôs do mundo, só Nova Iorque.  Lá a rede é muito mais extensa e há um sistema de carros que percorrem os trilhos os dias todos, para detectar problemas nas vias.  A limpeza deixa a desejar.

O metrô de São Paulo é limpo, mas como todos sabemos, é um dos sistemas mais caros do mundo.  A construção das novas linhas segue a passos de tartaruga...contamos, atualmente, com 75,5km de trilhos.  O sistema foi inaugurado em 1974, o que dá uma média de 1,88km/ano.  Na gestão PSDB, a média é ainda mais esdrúxula: 1,56km/ano.

Ontem foi anunciado, pelo governo estadual, que em dias de jogos que começam às 22 horas, o metrô funcionará até 00:30.  Essa alteração foi definida visando beneficiar a Rede Globo.  Isso ocorre porque a emissora define os horários dos jogos, e para não ter que alterar o horário da novela das nove (não era das oito antes?), maior audiência da emissora.  Uma alteração na grade do horário nobre da globo tem alto impacto no orçamento da emissora, uma vez que a TV vive de anunciantes.  O horário das novelas não é definido à toa.  Antes da novela, outro campeão de audiência: o Jornal Nacional.

E a população de São Paulo com isso?  Quem paga pela manutenção e implantação do sistema metroviário é a população paulista (com seus impostos) e a paulistana (passagens).  Como o monotrilho (Linha-17) tem aporte de verbas federais, tem dinheiro dos contribuintes do país todo no metrô-SP.

Repito: ninguém é contra o funcionamento do metrô por mais tempo.  Agora, alterar o funcionamento do sistema para evitar o prejuízo da maior emissora de TV brasileira é um absurdo.  Esse jogo de favorecimento entre PSDB/Globo ocorre regularmente, mas em ano eleitoral as coisas ficam ainda mais claras.

Finalmente: ainda que fosse possível o funcionamento do metrô por 24 horas sem custos adicionais, obrigar os torcedores a iniciar sua volta pra casa após a meia-noite, num dia de semana é um absurdo, especialmente numa cidade do tamanho de São Paulo.  No meu caso, se eu entrasse no metrô, na estação Itaquera às 00:30, chegaria em casa quase 2 da madrugada.  Os jogos precisam começar mais cedo, e é um desrespeito que o poder público permita que os interesses financeiros de uma TV se sobreponham ao interesse dos cidadãos.

Bom mesmo é depois ouvir, na mesma TV, discursinhos reclamando do baixo comparecimento da torcida nos estádios.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Memento mundi



Anunciação de Leonardo Da Vinci, 1472 e 1475. Fonte:   Haltadefinizione

Que cidades povoam o fundo dessas imagens?

Qual a substância desse cenário figurante, desse eterno "enquanto isso", diante da anunciação da transcendência, da ponte para a eternidade? Que cotidiano convivia com o anúncio de milagres e martírios?

Memento mundi: lembra-te de que és mundo.

Quem mora nessas cidades?
Que alegoria de humanidade, de "nós", de "qualquer um"?
Que cidade povoa os sonhos adormecidos e acordados dos artesãos de imagens?

Em que cidade invisível sonha-se a rua da misericórdia?




Memento somni: lembra-te de que és sonho.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pelo andar da carruagem

Não vivemos numa ditadura neste momento; mas pelo atual andar da carruagem, já dá pra saber como foi -- e como vai se parecer se ela chegar. Pra muita gente, vai ser algo imperceptível.

Notícias genéricas de jornal sobre os "blackblocs" tem sido um show de falácia e non-sequitur, difamando pessoas sem mostrar evidências, apenas reeditando velhas imagens aleatórias de cenas de violência em manifestação junto a rostos como o de Sininho, na esperança de ficar reforçando um consenso ignorante, preconceituoso e preguiçoso. As gravações mostradas em tom de denúncia são um espetáculo de forçação de barra.

A política midiática do cagaço, bombada pelo ano de eleição.

Não vai funcionar; ao menos, não para esta eleição de presidente. Não somos (ainda) uma nação de Reginas Duarte.

Mas tenho muito medo de ver a que abismo estamos descendo aqui. De um lado, setores interessados em tentar juntar o vândalo-terrorismo (uma invenção da mídia brasileira, sempre contando que nossa eterno frouxidão terminológica) com movimentos de esquerda para inflar a coxinharia brazuca e tentar queimar uns nomes de políticos e intelectuais.

Do outro lado, pareço ver governo e governistas variando entre o medo de serem associados aos "vândalos" e o visível estado de "silêncio sorridente" para com os baderneiros (colocados assim, de maneira generalizada) que, em sua falta de noção ou má-fé, ousaram bagunçar o céu de brigadeiro da reeleição e motivar os coxinhas a saírem para rua e se sentirem "povo".

De repente, um dos eventos mais múltiplos, multifacetados e complexos da história do Brasil passa a ter nome e incitadores "oficiais". Ganha nome, endereço e estado civil. O "junho negro" (nome ridículo, meu deus!!!) está sendo convertido subrepticiamente em algo semelhante a um "atentado terrorista" -- algo montado por células organizadas de gente louca, feia e malvada. Comedores de criancinha, ó céus.

De repente, um telefonema sobre marmitas pra militantes vira evidência de intenção de explodir coisas no final da copa.

Os técnicos da grande mídia conhecem nosso gosto por personagens para reconhecer, de histórias simples e reafirmadoras de nossa própria moral; conhecem como poucos nossa péssima memória; nosso desgosto por dúvidas, nossa necessidade de bodes expiatórios.

No lixo, a presunção de inocência, estado de direito e outras coisitas mínimas como a simples lógica

Falo sério, gente: MUITO MEDO do que está rolando aqui. Muito nojo, também; mas, sobretudo, medo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Trocando em miúdos - talvez eu desenhe

Sobre o caso Zuñioga/Neymar.  O assunto já deu o que tinha que dar, mas não consigo deixar passar a última imagem que vi.  Ante de entrar, especificamente no tema, acho necessário fazer uma pequena digressão.

Em novembro passado, o André Dahmer  postou o seguinte em sua timeline:


No documentário "O riso dos outros", o cartunista explica sua linha de humor, extrememente ácida: 

"O humor sempre namorou com essa questão da truculência, da violência.  O ataque às minorias é uma regra do humor.  Se o humor precisa de uma vítima, façamos a vítima certa...porque tem tanta gente que merece apanhar...porque bater nos negros ou nas mulheres, que já apanharam bastante?"

Concordo.  O sarcasmo é a melhor forma de expor posicionamentos toscos, preconceituosos, ao ridículo.  O documentário é excelente, Pedro Arantes, o diretor contrapõe, de forma muito clara, dois grupos de humoristas e cartunistas: de um lado Laerte, Arnaldo Branco, André Dahmer e Antônio Prata entre outros.  Do outro, Danilo Gentili, Rafinha Bastos e uma tal de Marcela Leal , comediante que me fez ter vontade de comer os próprios olhos e furar os ouvidos.  O problema é que, como todo produto intelectual,  o humor apresenta uma certa linha de corte: certas piadas exigem um grau mais elevado de refinamento.  Não me estenderei mais sobre o tema, que já abordei longamente aqui.

Em função disso, eu tenho um certo receio de recomendar este filme publicamente.  Não consigo deixar de imaginar uma pessoa assistindo ao meu lado e rindo das piadas "erradas".  Mas tá aqui, dane-se.


Bom, volto agora ao caso Zuñiga/Neymar e o linchamento do colombiano nas redes sociais.  Eu já tinha desistido da discussão, mas ainda não tinha visto as imagens das ofensas na foto da filha do cara...sabia que era uma criança pequena, mas não que tinha dois anos e que a foto na qual as ofensas foram postadas era tão bonita.


Primeiro, falando dos comentários: chamaram a menina de puta, expressam o desejo de que o coração da menina não seja como o do pai, desejam a ela morte, "estrupo" e uma lesão na coluna.

Como a proposta aqui é explicar direitinho, ressalto o fato de que o Zuñiga se refere à filha como "monita".  É o equivalente a chamar uma criança, carinhosamente de "macaquinha".  Ok?  Só pra ter certeza...

Bão:

Isso não apareceu na minha timeline - ou melhor, até apareceu, mas como denúncia, mais ou menos como estou colocando.  Via  imagem, em baixa resolução, no final deste artigo publicado do Diário do Centro do Mundo.  Recomendo.

Já abordei o caso ontem, no facebook.  Mas essa história me fez lembrar de um raciocínio que o Dawkins faz em "Deus, um delírio".  O autor escreve um capítulo explicando qual é, em sua opinião, o mal da religião.  Lembra do caso dos atentados de 11 de setembro: os terroristas não eram identificados, em suas comunidades como fanáticos.  Certamente a esmagadora maioria dos muçulmanos, mesmo entre os fundamentalistas, jamais praticaria ato tão radical quanto jogar dois aviões contra as torres do World Trade Center.  Mas o fizeram.

Certamente há questões psicológicas mais profundas.  Mas mesmo em um ambiente religioso moderado, são promovidas ideias que, se levadas a ferro e fogo, podem resultar, através das mãos de loucos, em atitudes extremamente violentas.  Pra cometer um atentado desses é necessário acreditar que: aqueles que vão morrer o merecem, pois são pecadores; sua ação é realizada em nome de Deus; você será recompensado, após a morte, por sua ação.

As redes sociais foram tomadas por ódio e preconceito.  De uns tempos pra cá, alguma barreira foi rompida.  O discurso preconceituoso que antigamente não era colocado publicamente, agora o é.  Mesmo no ambiente "benigno" que tínhamos antes do acirramento do debate na internet surgiam, vez ou outra, aqueles mais exacerbados.  No ambiente atual, onde a retórica virulenta e preconceituosa está tão na vitrine, reações como essas que vemos na foto da filha do Zuñiga parecem ser coisas mais ou menos normais.  Não é, não pode ser, cacete.

O que leva alguém a ver uma foto dessas, em que uma menina de dois anos aparece dizendo "eu te amo" para o pai, a atacá-la, desejar sua morte, estupro, ainda que retoricamente?  Imaginem-se, por favor, no lugar desse cara, dessa menina?  Isso é MUITO doente.  Aqui acho necessário ressaltar um trecho do DCM:

"Como Sheherazades desportivas, Galvão Bueno e Luciano Huck se puseram a promover uma malhação covarde e demagógica de Camilo Zúñiga. Para Galvão, o colombiano praticou um 'atentado', usando de 'maldade pura'.

Sua trupe de convidados, como sempre, foi instada a concordar com ele. Um humorista classificou Zúñiga de 'marginal'. Caio Ribeiro, o comentarista mais anódino do Brasil, o Geraldo Alckmin da crônica, cravou que o inimigo 'não visou a bola'”.

Perfeito.  O papel de Galvão, nesse caso, é exatamente o mesmo dos colunistas raivosos da grande mídia: o de catalisador do sentimento de raiva, ao analisar um lance que já ocorreu algumas no futebol como um "atentado".  Isso provavelmente porque a vítima da vez era o Neymar, o grande ídolo da seleção brasileira, eliminado da copa disputada no país.  É evidente que mesmo sem a acusação da Globo muitos enxergariam a entrada do Zuñiga por esse viés - embora boa parte da imprensa esportiva e mesmo dos atletas e técnicos tenham avaliado a situação como "normal".  Lembrando que já teve perna quebrada nessa copa.

Concluindo: eu tenho certeza absoluta de que a maioria das pessoas ficou chocada com as ofensas postadas na foto dessa menina.  Esse tipo de reação, tão disseminada, talvez só tenha chegado a esse nível porque o ambiente das redes sociais está extremamente contaminado.  Se em ambientes benignos surgirão imbecis desse tipo, o que podemos esperar da comunidade facebookiana?

Por isso, numa boa...parem de repercutir este caso.  Parem de postar ofensas ao Zuñiga.  Parem de assistir à Globo.  Globo fode a tua cabeça, irmão.  Inclusive novela, Fantástico e Malhação.  A copa está passando em um zilhão de canais, com narradores, análises e comentários muito melhores.  E depois da copa (que teve), vale a pena dar uma espiada naqueles outros 100 canais que tem na sua TV - pra quem tem cabo, pelo menos.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

copa comprada

Muito tem se falado a respeito de uma possível manipulação dos resultados dos jogos que visaria favorecer o Brasil.  Esse processo teria, como finalidade, favorecer o Brasil, favorecendo, dessa forma, um clima positivo que seria capaz de levar Dilma Rousseff e seu governo de petralhas à reeleição.  Mas será mesmo?

Como um bom cético, tendo a desconfiar dessas teorias da conspiração.  Mas aí foram aparecendo evidências fortíssimas nesse sentido.  Em primeiro lugar, a intelligentsia facebookiana parece pensar que esse é o caso.  O Brasil foi reiteradamente beneficiado, a começar pelo pênalti contra a Croácia, marcado por um juiz japonês.  Todos sabemos que os japoneses são um povo que não não dá a mínima pra esse negócio de honra.  São desorganizados, indisciplinados e, fundamentalmente sujos.  A petralhada de plantão tratou logo de tentar limpar a imagem nipônica, mas os samurais fora, pegos, diversas vezes, espalhando lixo em nossos belos estádios, construídos com muito dinheiro, através de um mecanismo perverso denominado "financiamento pelo BNDES".  Onde já se viu?




Além disso, teve o árbitro anulando dois gols do México, sem os quais o Brasil teria ficado em...primeiro lugar.  Mas não interessa.

Agora deram uma suspensão absurda pro Luiz Suarez, só porque ele tentou comer um italiano...claramente uma tentativa de favorecer o Brasil, com quem os uruguaios poderiam cruzar se cruzassem com a Colômbia, seleção que vem fazendo uma campanha meio trôpega...só ganhou os 3 jogos.  Além disso, no atual ciclo a Colômbia fez campanha pior que a uruguaia, conforme podemos constatar na classificação final das eliminatórias:



O Rodrigo Constantino, no alto de sua perspicácia e frieza, percebeu que o logo da Copa do Brasil é uma referência clara ao golpe comunista que ocorrerá em outubro (eu vou).  Pela astúcia, o colunista foi homenageado pela imprensa internacional, em texto do Los Angeles Times.



Bom.  São apenas indícios.  Soubemos, porém, que há outras fortes provas de que a copa foi comprada.  Sugiro a leitura atenta deste post, do qual reproduzo a evidência mais chocante:


Agora, só tive a confirmação final ontem.  A copa do mundo não foi comprada pelo Brasil...mas através de uma vaquinha realizada por todos os países americanos - todos classificados para as oitavas de final!!! Tá certo, tem o Equador...mas mesmo assim!  O objetivo, lógico, é transformar as Américas num grande país comunista, sob a liderança de Dilma.  Daí a  importância da conquista da copa, que CERTAMENTE garantirá essas eleições.

Reparem na abertura das transmissões da copa.  Prestem atenção na letra da música:


OEA...OEA...OEA...OEA...OEA!



Isso não é mensagem subliminar.  É superliminar mesmo.  OEA, pra quem não sabe, é a Organização dos Estados Americanos.  Uma instituição comunista, que só não aceita Cuba pra não dar na cara.  A compra da copa é um plano claramente bolivarianista. Com aval dos EUA, que só se incomoda com Cuba pra não dar na cara.  Esse Obama não me engana.

É preciso dizer mais?


no facebook

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Às vezes precisa desenhar

Sempre me perguntei onde estão os arquitetos maranhenses na hora de discutir sua cidade. Afora a má escolha de trilha sonora (que polui a atenção que é necessário dar pra tanta informação, principalmente para pessoas que não estão acostumadas a dados estatísticos e cartográficos) é muito bom ver que finalmente alguém resolveu "desenhar" certas coisas que pareceriam óbvias a qualquer urbanista: no caso, Diogo Pires Ferreira, ludovicence formado em arquitetura com mestrado em Barcelona, onde se ligou ao projeto La Ciudad Idea. Sua tese foi sobre um projeto viário para São Luís.


Resgatando velhos conceitos para o futuro da cidade: caso de estudo São Luís. from Cidade Ideia on Vimeo.

Não comento a proposta, porque para julgá-la seria necessário mais informações e leitura mais cuidadosa; mas a análise me interessou porque nela vi várias coisas que já me chamavam atenção a respeito da cidade.

Quando saí da ilha e comecei a estudar arquitetura na USP de São Carlos (1998-2002), meu olhar sobre São Luís se transformou radicalmente, de forma que pode ser resumida em dois aspectos:

1. A maior conciência do valor, beleza e singularidade do conjunto arquitetônico colonial;

2. O fato de ser o caso mais extremo e acabado de "anti-cidade" que eu já vira: fragmentária e esparsa em um nível além da imaginação; completamente alheia a qualquer qualidade de espaço público para além de alguns pontos concentrados (parques, etc.); ao mesmo tempo cheia de mato e completamente avessa à arborização, com bairros inteiros de muralhas e calçadas universalmente estreitas.

O triste é que esse mesmo exato vídeo poderia ter sido feito em 2005 e ainda assim, com algumas diferenças de dados, todos os diagnósticos se aplicariam. A São Luis atual trata-se de uma catástrofe completamente anunciada e previsível.

Talvez não tenha sido falta de aviso; o poder público brasileiro tem o costume renitente de ignorar solenemente o conhecimento acumulado de décadas sobre as cidades por parte de geógrafos, arquitetos e planejadores; grande parte dos defeitos terríveis das aplicações do programa "Minha casa, minha vida" (os quais, acreditem, ainda virão a explodir em nossas caras) vêm dos grandes descasos e ignorâncias administrativas em nível federal, estadual e -- principal e dolorosamente -- municipal.
São Luís não é nenhum caso isolado; mas é um dos mais gritantes e agressivos.

Acho que, à moda dos estrangeiros, talvez os arquitetos nacionais devam investir cada vez mais em publicizar mais idéias e propostas nos meios de comunicação; mostrar que há alternativas e idéias ocorrendo, tentar provocar debate público. É uma luta desesperada, mas tendo a achar que vale a pena -- nem que seja para construir a relevância pública da própria disciplina da arquitetura e urbanismo.

domingo, 25 de maio de 2014

Comentários

Anotações de momento inspiradas pela atitude aparentemente contraditória dos jornais a respeito da Copa -- primeiro querendo martelar o governo federal, agora tentando "salvar" a copa da indignação desproporcional com os gastos com estádios e etc.

1.
Lembro que, quando li 1984 aos 18 anos, uma das coisas que mais me impressionaram foi o conceito de "duplipensar". Mas não pelo vislumbre da vida de uma sociedade totalitária fictícia, mas sim por notar o quanto o conceito se aplicava perfeitamente à relação que a população dos países democráticos "espetaculares" tem com as mídias.  (desenvolvi mais esse assunto neste post anterior)
Não é necessária a imposição autoritária de um estado para que grande parte das pessoas simplesmente ignorem o visível non-sequitur dos pronunciamentos públicos (sejam os dos políticos ou os das manchetes de jornal e dos colunistas); basta que as coisas estejam em evidência na imprensa e elas "viram verdade" -- graças à simples ausência de disposição de grande parte das pessoas em acompanhar criticamente o que ocorre. "Sentir-se informado" -- e mesmo sentir-se "justamente indignado" é mais prazeiroso do que estar e admitir-se estar com dúvidas.

Hoje penso que é para isso que muita gente compra jornal: em alguns assuntos específicos e mais práticos quer-se dados confiáveis; mas, na imensa maioria dos outros, quer-se simplesmente a SENSAÇÃO de estar informado. E lembrando de Bourdieu, deve levar em conta que essa sensação também é acompanhada de outra refrescante sensação: a de superioridade perante os outros "alienados" ou a "massa ignara" em geral -- especialmente no Brasil, onde para muitos basta ler jornal ou assinar a Veja para que se sinta acima do "populacho analfabeto".

Para pensar o duplipensar de hoje, Orwell precisa ser atualizado com um pouco de Debord: a ordem do mundo do espetáculo é a de que "o que aparece é bom". Se transferirmos para o jornalismo, poder-se-ia dizer: "o que aparece é verdadeiro".

2.
O domínio dessa ordem, contudo, cria seu próprio complemento paranóico do mundo de hoje, as teorias conspiratórias. Cuja forma de funcionamento é mais ou menos esta: "a informação que me distinguir da massa de 'desconhecedores alienados' deve ser verdadeira". E aí também tem-se a terra de ninguém de critérios flutuantes, obscuros, emocionais ou mesmo supersticiosos para se aceitar dados como verdadeiros ou não. Nesse nicho, locupletam-se todos comentaristas picaretas que escrevem coisas feitas sob medida para os ávidos por distinção, por se sentirem portadores de informação privilegiada com a qual podem (ou, ao menos, tem a sensação de poder) esfregar sua "superioridade" intelctomoral na cara de outros.
O problema é que, para chocar e se distinguir, certas criaturas nefastas apelam mesmo a sandices absurdas (estilo "a teoria da gravidade era parte de um plano de Newton para espalhar o ateísmo e a burrice sobre o mundo") e a um rol interminável de falácias lógicas para racionalizá-las.

3.
É bem claro que pensamento crítico não é arsenal de fábrica do ser humano; saindo da esfera da necessidade prática imediata, o ser humano sempre tenderá a preferir o conforto, mesmo que auto-enganoso. Nesse ponto, contudo, que muita gente não entende -- e aí Orwell e o "dia do ódio" de 1984 é genial -- é o quanto o ódio é confortável, o quanto ter alguém para culpar e contra quem se indignar é sempre muito mais sedutor, familiar e confortável do que realmente se esforçar entender o que se passa.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Eros em Thanatos


H. R. Giger foi-se para fora do campo de nossa biologia.

 Biologia com a qual ele sempre se fascinou e a qual potencializou e distorceu em suas próprias  ficções pictóricas, as quais poluíram e avivaram as imaginações de muitos (eu incluso).








Em tributo à admiração que tive durante muitos anos, fica aqui a homenagem ao ilustrador pioneiro de perversões biomecânicas; criador de alienígenas cuja força estava menos na estranheza em relação a nós do que do que em inquietantes semelhanças; e, acima de tudo, pintor de vidas-em-morte e mortes-em-vida, da decomposição e dor erotizada. Eros e Thanatos em total promiscuidade, como lápides, estátuas tumulares e cadáveres que, de repente vivas, se reúnem não para comer miolos, mas para fazer sexo em paisagens de cidades e circuitos vivomortos.

Segue fora da carne e do tempo, sendo, ainda, puro tempo e carne.












quinta-feira, 6 de março de 2014

The Lewandowski extrapolation

Deu no Oráculo do milênio: O Ministro Ricardo Lewandowski propõe a criação de um aparelho que permitiria capturar, no espaço, energia das emissões infravermelhas da Terra.


Barbosa afirmou que se trata de uma "chicana" visando desviar as atenções da AP470: "emissões infravermelhas me causam espécie".

Gilmar Mendes também criticou duramente a iniciativa: "Não passa de uma tentativa de suavizar a transição para a ditadura comunista para a qual caminhamos. Não podemos esquecer que radiação infravermelha é aquela logo abaixo da vermelha".

Olavo de Carvalho concorda e vai mais longe:

"tomando o espectro eletromagnético e considerando que, num gráfico cujo sentido do positivo aumenta, por convenção, da esquerda pra direita, só podemos concluir que o vermelho se situa na extrema-esquerda. E o infravermelho vai além disso. Lewandowski não passa de um rato - coisa que se confirma em seu signo chinês."

Rodrigo Constantino limitou-se a caminhar até sua sacada, tirar a camisa e bater os punhos cerrados contra o peitoral. Apenas berrava: "Imagina na Copa?"

‪#‎imaginanacopa‬

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Homofobia

Tomei conhecimento, através de um lindo texto do deputado Jean Wyllys, de mais um crime bárbaro motivado pela homofobia.  Um garoto de 8 anos foi espancado, até a morte, pelo próprio pai, um homem violento e com histórico de homofobia.  Alex chegou morto ao posto de saúde, morreu de hemorragia interna, por ter tido seu fígado dilacerado pelas surras que recebia de seu pai. A notícia está aqui.

Não vou entrar nos detalhes da notícia, estão suficientemente descritos na reportagem acima.  Só posso dizer que o homem que cometeu este assassinato é, de fato, um monstro, uma pessoa que não pode conviver livremente em sociedade e que este é, sem sombra de dúvidas, caso de cadeia (é pra isso que serve, aliás).  O assassinato de uma criança de 8 anos por conta da suspeita de sua orientação sexual é a coisa mais chocante que vi em muito tempo – e estamos em um período bastante absurdo.

A preocupação que tenho toda vez que ocorrem crimes dessa natureza, é muito profunda.  Vivemos em uma sociedade que apresenta um nível de homofobia muito alto, e é desse “preconceito médio elevado” que surgem os malucos que praticarão estes atos bárbaros.

Richard Dawkins, em “Deus, um delírio”, traça um paralelo meio óbvio entre as religiões e uma série de mal-feitos.  No texto, dá como exemplo específico os atentados de 11 de setembro de 2001.  Os homens que cometeram os atentados eram, sem dúvida, fanáticos.  Apesar disso, levavam vidas “normais”: não se comportavam como fundamentalistas, eram pessoas bem vistas em seus círculos sociais e tidos como cidadãos de bem.  A conclusão do autor é que não é necessário um ambiente temperado pelo fundamentalismo religioso para que ocorram essas barbaridades: mesmo em ambientes religiosos moderados, surgirão alguns malucos dispostos a explodir as vidas de milhares de outras pessoas.

O argumento de Dawkins é muito mais complexo e convincente, e essa curta menção não faz justiça e abre espaço para alguns questionamentos, mas deixo a discussão pra outra oportunidade, já que pretendo utilizar o exemplo somete para fazer uma analogia: uma sociedade homofóbica, ou com um “nível médio de homofobia” elevado, gerará, com alguma frequência, homofóbicos violentos – provavelmente com maior frequência do que em sociedades menos intolerantes.

Não é difícil comprovar o fato de que a sociedade brasileira ainda apresenta um nível elevado de homofobia.  Eu poderia citar casos específicos, mas pra fugir da evidência anedótica, prefiro citar o fato de que o Brasil é o país que concentra o maior número de assassinatos motivados por homofobia no mundo.  E não é pouca coisa: 44% dos casos do mundo ocorrem por aqui.

Minha memória deste fato está relacionada à polêmica gerada com a publicação do estudo: Danilo Gentili, o “comediante” favorito da galera do bem, soltou a seguinte piada:

“1 gay é morto a cada 26 hs? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu cu hj? Só por segurança.”

Não deveria, mas sinto que é necessário explicar a diferença entre uma coisa e outra: 1 homossexual é morto a cada 26 horas por causa de sua orientação sexual. 140 brasileiros são mortos por dia – esse número é o total de homicídios por dia: inclui homens e mulheres heterossexuais e também homossexuais, bissexuais e transgêneros que tenham sido mortos por qualquer motivo – incluindo sua orientação sexual. 

Recentemente tive uma das discussões mais bizarras de minha vida: no meio de um chope, um conhecido questionou as razões do meu ateísmo.  Conhecendo o cara e querendo evitar um debate muito longo e infrutífero, resolvi dar a resposta curta: “não vejo motivos para acreditar em deus”.  Pra arrematar, emendei com o (sincero) discurso da tolerância: “mas respeito as opções pessoais de cada um”...e, sentindo que precisava completar alguma coisa ainda, finalizei com “desde que as religiões não tentem ditar, praqueles que não as seguem, como viver suas vidas”.  Razoável, não?  Meu interlocutor não achou.

Passei a ouvir um longo discurso sobre a imoralidade da “opção sexual” dos gays, sobre como não deveríamos ser obrigados a tolerar esse tipo de comportamento, sobre como vivemos numa ditadura gay, sobre como vamos explicar isso pras meus crianças.  Fui respondendo a tudo isso com a maior calma de que fui capaz, estávamos em público, ele falava alto e as mesas vizinhas já tinham reparado no teor da conversa.  Acabados os argumentos do meu interlocutor, só lhe restou dizer que pertencia à outra geração, que o pai era conservador e que, mesmo com todos os meus “ótimos argumentos”, ele continuava “não gostando de gays, mas não pretendia bater em nenhum”.

Apenas contei essa história, preservando a identidade da pessoa e detalhes pessoais, porque me interessava chegar nesta última declaração.  Não foi a primeira vez que ouvi isso, ou variações disso: não praticar atos violentos contra homossexuais é visto, por um grande grupo de pessoas, como uma concessão, como se fosse um ato digno de aplausos e sinal de civilidade.

Aqui vale explicar, mais uma vez, o que deveria ser óbvio: esse discurso normalmente sai da cabeça de gente que acha que a homossexualidade não deveria ser tolerada “em público”, mas que, pessoalmente, não enxerga, na violência, a solução para o “problema”.  Pessoal, a única solução, sinto lhes dizer, é a tolerância.

É necessário que vocês compreendam que não há um “plano secreto gay” de converter o resto da sociedade – e se você acha que corre esse risco, desde que insistam muito, concedo-lhes o tempo para pensar direitinho no significado disso.

1...............2...............3...............4...............5...............ok?

Ainda assim, tem gente que argumenta que há uma questão cultural subjacente a isso tudo, e citarão civilizações antigas, como Grécia e Roma, para ilustrar.

Esse é um argumento que considero importante derrubar, porque além disso, sobra muito pouco para justificar o ódio contra os gays.

Exatamente qual seria o problema se mais gente resolvesse transar com pessoas do mesmo sexo? Até onde sei, a única diferença entre hetero e homosseuxuais são aquilo que fazem dentro de quatro paredes, em seus momentos de intimidade ou em ambientes privados.  Nelson Rodrigues já dizia que "Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava".  Porque se incomodar com o que os outros fazem dentro dos quartos?  Os detalhes da vida sexual das pessoas é de cunho privado, penso.  A não ser que as pessoas façam questão de contar o que fazem na cama, não é considerado de bom tom perguntar ao amigo se ele anda comendo muito o cuzinho da senhora sua esposa.  Né?

Já ouvi uma outra tentativa de argumento contra isso: se pessoas do mesmo sexo começarem a se relacionar e casar umas com as outras, a população deverá diminuir gradativamente, porque não há a possibilidade de reprodução.

Hum.  Então o argumento é econômico-demográfico?  Tá bom, em primeiro lugar, vamos ser sérios...será que é com isso mesmo que tais pessoas se preocupam?  Digamos, pelo bem do argumento, que sim.  Vamos lá: as medidas de controle populacionais nunca foram bem-vistas pelas sociedades democráticas ocidentais porque, de alguma forma, interferem na “liberdade” das pessoas de produzir uma dezena de filhos – a igreja católica, aliás, é especialmente aguerrida na militância contra os métodos contraceptivos.  A questão demográfica não parece ser um problema pra esse grupo de gente legal quando se trata de evitar que miseráveis tenham que sustentar uma família gigante.

Como não há razões “iluministas” para justificar as restrições aos relacionamentos homoafetivos, acho que sobram mesmo as razões religiosas.  É comum ver, em manifestações cristãs nos EUA, cartazes com os dizeres “God hates faggots”.  Isso começa a aparecer por aqui também.  Não me parece muito cristão.

Todas as pessoas conhecidas que vi reproduzindo estes argumentos são bastante religiosas.  Nenhuma evangélica, só pra deixar claro.  São todas católicas, oriundas da classe média, com nível superior, alguns com pós-graduação.  Acreditam que homossexualismo é pecado: de alguma forma, acham que o deus delas se importa, de fato, com as vidas sexuais de seus fieis, e que este tipo de comportamento é fundamentalmente mau e merece ser punido, possivelmente com uma eternidade de fogo, dor e sofrimento.  Duas coisas que penso sobre isso: 1) se isso for verdade, é problema de deus, não seu e; 2) se você acredita num deus assim, seu deus é uma bosta.

Claro, há muitos religiosos que não tem nenhum problema com o tema, e acreditam num deus que ama a todos os seus filhos e não liga para o seu comportamento sexual.  Esse deus é bem melhor, embora igualmente muito improvável.  Não era o caso do papa-super-pop Francisco, que, quando cardeal declarou que “o casamento gay era um movimento do diabo para destruir o plano de deus”.  Talvez tenha mudado de ideia, talvez estivesse sendo obediente ao papa anterior, talvez seja um hipócrita...não sei.

Conheço uma quantidade considerável de homossexuais: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades.  Tenho amigos que assumiram bastante cedo, outros que foram casados por muitos anos e até quem tenha assumido já com idade mais avançada.  Admiro a todos pela coragem que tiveram de buscar uma vida feliz mesmo com todas as dificuldades que a sociedade impõe.

Também conheço alguns homofóbicos: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades, que estou eliminando aos poucos.  Não tenho o que fazer em relação aos homofóbicos da família, no sentido de que idiotice não desfaz parentesco...mas posso evitar as amizades com essas pessoas.

As lutas pelos direitos das minorias têm todo o meu respeito e apoio. Não pedem muita coisa, somente que sejam tratadas como iguais.  Recentemente vi uma declaração do Ricky Gervais que resume bem a coisa:

“Same sex marriage isn't gay privilege, it's equal rights. Privilege would be something like gay people not paying taxes. Like churches don't.”

Ainda espero viver em uma sociedade na qual as pessoas não sejam discriminadas pela cor de sua pele, orientação sexual ou falta de religião, dentre outras coisas.

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cubofobia

Ao longo da vida passei por uma série de saias-justas em discussões, pela confusão que muitos fazem entre a acusação de um argumento falacioso com argumentos ad-hominem.  É verdade que, por vezes, estas coisas coincidem: o argumento falacioso pode ser utilizado de má-fé, caso no qual chamar o outro de mentiroso é simples constatação da realidade, mas em nome do raciocínio iremos assumir que na maior parte dos casos, o uso de falácias conhecidas é feito de forma incauta.
Carl Sagan lista uma série dessas falácias em sua grande obra “O mundo Assombrado pelos Demônios”.  Duas das mais comuns são a compreensão errônea da natureza estatística e a estatística dos números pequenos.  São descritas da seguinte forma:

·         estatística dos números pequenos – falácia aparentada com a seleção das observações (por exemplo: ‘Dizem que uma dentre cada cinco pessoas é chinesa. Como é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa. Atenciosamente’). Ou: Tirei três setes seguidos. Hoje à noite não tenho como perder).

·         compreensão errônea da natureza estatística (por exemplo: O presidente Dwight Eisenhower expressando espanto e apreensão ao descobrir que metade dos norte-americanos tem inteligência abaixo da média).

Estes dois recursos retóricos se relacionam com uma terceira forma, igualmente conhecida: a evidência anedótica – é o relato de caso.  Trata-se de utilizar a experiência pessoal como evidência capaz de explicar a realidade como um todo.  “Todo mundo no meu facebook odeia a Dilma, portanto, a população deve odiá-la e essas pesquisas de opinião são todas mentirosas”.

As redes sociais, na forma como existem hoje, são um fenômeno ainda relativamente recente.  Na época do Orkut, as discussões ocorriam dentro de fóruns fechados: para acessar os debates era preciso entrar em uma comunidade, entrar em algum dos tópicos e então ler uma sequência de argumentos.  O resultado é que cada comunidade tinha suas tendências e o debate corria de forma mais ou menos esperada, mas não havia qualquer expectativa de que aqueles grupos de pessoas representassem uma amostra representativa da sociedade.

A arquitetura do facebook promove um tipo de interação completamente diferente: as postagens são abertas, não necessariamente vinculadas a um argumento específico. Acontece que as timelines individuais do facebook, ou seja, as opiniões que aparecem no seu monitor quando você entra no site, não é uma amostragem representativa da população brasileira – e  em geral, são só reproduções do que é colocado pela grande imprensa, como podemos ver aqui.  Esse conjunto de material mostra apenas a realidade média do grupo social de cada usuário.  Dessa forma, se no seu grupo de amigos há muitas pessoas identificadas com posicionamento “x”, é provável que seu facebook reflita, majoritariamente, esta posição, o que pode passar a falsa sensação de que o conjunto da sociedade pensa desta forma.

Meu ambiente de trabalho é a academia. Para ser mais específico, o Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.  Trata-se, tradicionalmente, de um reduto esquerdista, de forma que há um número expressivo de opiniões de esquerda veiculadas na minha timeline.  Ao contrário, se eu fosse um empresário do setor agropecuário, provavelmente a orientação política geral do meu facebook seria outra.

Ainda assim, tendo passado boa parte da minha vida em uma cidade rica e agrícola do interior paranaense, estudado em colégio particular e cursado engenharia civil e direito há, no meu grupo de amigos, uma parcela expressiva de pessoas que não só não são de esquerda, mas que ultimamente aderiram à radicalização do discurso contra os governos petistas.  Sei (e tenho verificado) que, para essas pessoas, as minhas publicações são um ponto fora da curva.  E sei também que o debate político promovido por essa neo-direita incidental é muito superficial.  Na maioria das vezes, observo apenas um sentimento de raiva e um aglomerado de piadas (talvez o cinismo, e não o patriotismo seja o último refúgio dos canalhas).  Os que se preocupam em conduzir uma discussão racional, raramente verificam seus fatos antes de postar, de forma que a imensa maioria das críticas são facilmente refutáveis, o que pode reforçar o sentimento, para essas pessoas, de que “esses caras tem desculpa pra tudo”.

Dois exemplos recentes:

·         a celeuma do reajuste do IPTU em São Paulo: o reajuste proposto era menor que o último aprovado por Kassab, e desoneraria boa parte da população de São Paulo, onerando aqueles que vivem em regiões da cidade com boa estrutura de transportes, coleta de lixo diária, iluminação e serviços.  A batalha ideológica foi travada como se todos fossem sofre um reajuste de 20%.

·         o jantar de Dilma em Portugal: posteriormente descobriu-se que Dilma (e sua comitiva) pagou por seus próprios jantares, sem fazer uso dos cartões corporativos.

Se é verdade que uma mentira contada muitas vezes passa a ser compreendida como verdade, um conjunto de pequenos fatos podem se acumular e compor um quadro de que os mal-feitos são rotina.  Ainda que se pudesse se refutar todas as alegações, as pessoas que estão no mindset condenatório, enxergarão apenas um grande volume de acusações.  O contraditório perde sua importância e eficácia.

É neste ambiente que passo a discutir o recente fenômeno da “cubofobia”: o medo de que o Brasil esteja se tornando um país comunista ou vivendo os preparativos de um golpe.  Poderíamos dizer, de forma mais divertida, que “cubofobia” é o medo irracional de um golpe comunista no Brasil que só gente quadrada nas três dimensões espaciais sente.

Dizer que Lula e Dilma apoiam governos autoritários, comunistas e genocidas não é novidade.  Em 2010 havia muita gente expressando o medo de que o Brasil se tornasse uma Venezuela (mesmo sem saber muito bem o que se passa na Venezuela).  O motivo era a falsa expectativa gerada por conta da discussão do PNDH-3, que limitaria as liberdades de imprensa e expressão e nos obrigaria a doar o pé direito de cada sapato prum camarada mais pobre.  A cada foto de Lula ou Dilma com Chavéz, Fidel, Raul ou Morales, um pequeno chilique.  Mas nada mais grave, isso passou e as pessoas nem se lembram do tal PNDH-3.

Em 2013, porém, a coisa começou a ganhar uma nova escala: a implementação do programa “mais médicos” transformou, automaticamente, uma massa de analistas políticos de facebook em especialistas nas questões relacionadas ao país caribenho.  De repente todos sabiam como é, de fato, a realidade em Cuba, e tinham críticas severas a respeito de temas que iam do sistema de saneamento básico de Havana à exploração das negras que enrolam charutos nas coxas “a incidência de câncer de coxa nas mulheres cubanas é 20% acima da média mundial”, diriam alguns.

O último episódio – e razão do texto – é “doação criminosa de recursos públicos” que o governo brasileiro fez para construir um megaporto em Cuba, enquanto os nossos portos sofrem com a falta de investimento e tem gente morrendo de sede no nordeste.  Junto com o episódio, pipocaram – outra vez – fotos de Lula e Dilma com Fidel Castro e as velhas reportagens indicando que Fidel é um dos homens mais ricos do mundo.

Então, compartilhei na minha timeline o seguinte quadro:



As reações, algumas públicas, outras em chat privado vieram mais ou menos no mesmo sentido: o BNDES empresta, mas o faz sem qualquer perspectiva de receber o dinheiro de volta.  Alguém lembrou da nossa complacência com o investimento do banco público na Bolívia (não foi dito exatamente qual, mas suponho que seja o da construção do gasoduto Brasil-Bolívia).  Mas poderíamos citar outras coisas, como por exemplo a postura do governo de não dificultar a nacionalização das refinarias da Petrobrás no país.  São casos diferentes, mas a postura frente a eles pode ser parecida.

O BNDES é um banco público com finalidade específica: promover o desenvolvimento econômico e social do Brasil através de investimentos diretos – sob a forma de financiamentos.  Não está escrito (e não faria sentido que estivesse), que o desenvolvimento não possa ser alcançado através de investimentos que ocorram fora de nossas fronteiras.  O BNDES funciona como qualquer banco, apenas com taxas de juros compatíveis com a realidade econômica – ao contrário do que ocorre com os bancos privados, relativamente livres para operar e cobrar as taxas que bem entenderem, como gostam os liberais.  O BNDES não vai atrás de governos ou empresas oferecendo dinheiro.  Recebe projetos, analisa garantias e capacidade de pagamento e aprova ou não os financiamentos.  Em relação à questão do porto de Mariel, gostaria de analisar a questão em três frentes: primeiro, sob o ponto de vista da motivação do investimento; segundo, sob o ponto de vista das prioridades de investimento do BNDES, por fim, sob a questão da política externa brasileira.

Em relação ao primeiro aspecto, sugiro a leitura dessa reportagem da BBC.  Pra quem não sabe, a BBC é uma empresa pública britânica de rádio e TV.  Obviamente um braço petista na mídia internacional.

Com a reforma do canal do Panamá, que passará a receber navios de maior porte, os chamados “pós-panamax”, a construção do porto passa a ter interesse estratégico para o país – o custo de exportações de grandes volumes para a Ásia seria bastante reduzido.  Cuba não tem capacidade de investimento e exportações, devido ao embargo econômico imposto pelos EUA.  Com a expectativa do fim deste embargo, o Brasil poderia se beneficiar da instalação de indústrias em Cuba, o que facilitaria as exportações para a América do Norte, Central e eventualmente para a Ásia, através do Canal do Panamá.  Cuba manteria as indústrias brasileiras em condição de zona franca (livre de tributação ou com tributação irrisória) e forneceria mão de obra qualificada barata.  Agora, onde já vimos isso antes?  Ah, nas tais multinacionais, pelas quais todos os estados brasileiros se estapeiam para receber.  As questões impostas a esse tipo de investimento, aliás, tradicionalmente vêm da esquerda: geração de empregos no exterior ao invés de local.  Mas é preciso lembrar que os países desenvolvidos abandonaram as indústrias pesadas há muito tempo, e que há a expectativa de geração de empregos por aqui também, na construção de navios e outros produtos.   O porto de Mariel foi construído pela Odebrecht, empresa brazuca, 80% dos insumos foram comprados diretamente do Brasil – ou seja, geração de empregos e dividendos por aqui.

   Na reportagem da BBC o depoimento mais interessante é o de Arthur Zanetti, diretor de relações internacionais da Fiesp (outro conhecido posto avançado do comunismo brasileiro).  Pra quem não quiser ler, aqui vai uma entrevista de Zanetti para o Jornal da Record:


Zanetti deve ter ouvido muito dos amigos: "pô, aí tu fode a gente, meu!"

Ironias à parte, existem duas coisas que a Fiesp não costuma fazer: apoiar governo petista e passar chances de ganhar dinheiro por conta de disputas políticas.

Em relação ao segundo aspecto, a questão das prioridades de investimento do BNDES: o argumento mais recorrente é o de que o Brasil deveria priorizar os investimentos internos, que é um absurdo investir 1 bilhão fora do país, temos gente morrendo de fome, de sede...bem, fui procurar o montante investido pelo BNDES em 2013...e foram R$514,583 bilhões.  Para este fim específico, achei interessante utilizar a veja como fonte.  Está aqui.  Tendo isso em vista, os R$957 milhões equivalem a 0,18% de tudo que o banco investiu ano passado...mas é claro que esse dinheiro não foi todo liberado em 2013, o que diminui ainda mais o impacto nas contas do ano.  Falar alto que R$1 bilhão é muita grana (é, mas há uma questão e escala), tem como única finalidade induzir as pessoas em erro, ao acreditar que é esse bilhão que está prejudicando os investimentos por aqui.  Trata-se da tal “compreensão errônea da natureza estatística”, uma das falácias mencionadas lá no começo do texto.

Ainda em 2013, o BNDES liberou R$10 bilhões para a Sete Brasil, que vai construir sondas para a exploração do pré-sal.  Ainda no ano passado, o governo liberou mais R$50 bilhões para o setor produtivo, que deverá ficar com R$372 bilhões em 2014.  Entãããããoooo.............não dá pra dizer que é o bilhão do porto de Mariel o responsável pelos não-investimentos em outros projetos no Brasil.

O desenvolvimento de grandes projetos no Brasil é complexo.  A nossa legislação é muito travada, e com o desenvolvimento, ainda incipiente, de uma legislação ambiental (que ameaça voltar pra trás), é difícil conseguir acesso às verbas, uma vez que o BNDES não pode, por lei, liberar valores para projetos que não obtenham todas as licenças necessárias.

Por fim, a questão da política externa: em relação a receber de volta os valores emprestados, o acordo que foi feito com Cuba vai no mesmo sentido da abertura promovida pela China. Será criada uma zona de exceção no país, as empresas brasileiras estarão livres de impostos (ou com taxação reduzida), as operações serão feitas em dólar e não haverá restrições para remessa de capitais.  Mas então, o que Cuba ganha com isso?

Um puta porto, que eles poderão usar sem ter que bancar a construção.
Equivaleria, mais ou menos, a um país querer construir uma base de lançamento de foguetes onde fizemos Alcântara.  É uma posição estratégica da qual se pode tirar vantagem, dada a economia de combustível, caso o governo hospedeiro conceda o direito do uso da terra.  Em caso de maior necessidade, talvez tivéssemos feito o negócio.  A moeda de troca? Ganharíamos alguma tecnologia e eventualmente um satélite lançado “de grátis”.

O pagamento do empréstimo (ou a maior parte dele) é de responsabilidade da Odebrecht, não do governo cubano.  A expectiva das indústrias é que os valores sejam pagos com os lucros do porto.  A questão é se podemos ou não confiar no empresariado nacional, não no governo de Cuba.  O BNDES tem confiado, já que, como vimos, empresta uma caralhada de dinheiro para empresas brasileiras todos os anos...e, como vimos, um calote de R$1 bilhão não parece ser algo que preocupe tanto o BNDES...talvez valha o risco.

Ainda assim, e a questão da Bolívia?  Por que Lula não apertou a Bolívia na questão das refinarias?  Por que havia a expectativa de renegociar o acordo de Itaipu com o Paraguai?  Por que fazemos alguns investimentos para outros países com condições de pagamento questionáveis?  Ora, por duas razões: primeiro, porque perto destes países, o Brasil é um colosso econômico.  Há pouco tempo atrás estávamos todos na mesma situação precária, com endividamento absurdo e sem capacidade de contrair novas dívidas ou investir.  O desenvolvimento regional é importante porque fortalece o comércio e a indústria, tanto a nossa quanto a desses países.  O efeito esperado é parecido com o que ocorreu no Brasil com os programas de redistribuição de renda.  Pobres com dinheiro gastam seus recursos porque precisam de coisas.  Com isso, injetam mais recursos na economia.  É uma conta simples.  Ainda assim, se for o caso de um vizinho ter dificuldades para nos pagar, que atitude devemos tomar?  Embargar economicamente?  Romper acordos de livre comércio? Bloquear importações? Deixar que o país devedor se afunde, levando para a miséria milhões de pessoas?  Tratam-se de dívidas pequenas para o porte do Brasil, e sei que é questão de posicionamento pessoal, mas não acho que essa via seja a mais produtiva ou mesmo a mais humana.

Cuba sofre com as consequências de um embargo econômico que não faz o menor sentido nos dias de hoje.  O que estamos fazendo lá não é caridade, é aproveitar uma oportunidade de investimento – não fosse assim, acreditem, a Fiesp não estaria tão de tesãozinho com o negócio.

Agora concluindo: o problema real não me parece ser o que vem sendo alegado pelo facebook.  O investimento é justificável do ponto de vista econômico, não representa um ralo pelo qual parcela significativa do dinheiro do BNDES esteja escoando para fora do país.  Também não se trata de um investimento em monta que prejudique qualquer coisa que possa ser feita por aqui.  Se os governos locais não conseguem ter acesso a esses recursos, as explicações são de ordem legal, política ou mesmo por incompetência na fase de elaboração de projetos.  A iniciativa privada não tem tido dificuldades com isso.

Só me resta pensar que a reação que assistimos agora é proveniente de uma hipersensibilidade desenvolvida por algumas pessoas só porque se trata de Cuba.  Quem reclama aqui são aqueles que piraram com o “mais médicos”, é quem perde o seu tempo investigando a vida pessoal do Fidel buscando qualquer coisa que justifique o investimento em Cuba como algo imoral.  Nesse sentido, cabem alguns questionamentos: é imoral negociar com a China?  Trata-se de outra ditadura comunista.  Ou vale tudo porque a escala de valores é outra?  Se for o caso, quanto dinheiro compra a honra do investimento oficial?  E com os EUA, que cometem a sua cota de barbaridades mundo afora, inclusive grampeando o celular da nossa presidente?  Alguém pensa em deixar de negociar com a maior economia do mundo?  E com o Japão, que mata tantos golfinhos, meu deus???

Em política externa, é comum que se façam concessões desse tipo.  FHC, o herói tucano, tinha bom relacionamento com Fidel e Chávez, e não me lembro de qualquer birra por conta disso.  Além disso, tinha suas relações questionáveis...como quando condecorou Alberto Fujimori com a Ordem do Cruzeiro do Sul, lembram? E Fujimori tinha uma biografia, digamos, questionabilíssima.  Enfim, ninguém achava que havia um golpe militar em curso, ou uma revolução comunista em andamento por conta destes episódios.

FHC claramente desconfortável na companhias de Chávez e Castro.


A relação Brasil-Cuba é uma relação de política externa, envolve interesses estratégicos econômicos.  Ocorreu sob FHC, sob Lula e continuará acontecendo, porque não há o que justifique um embargo brasileiro à Cuba.  E, sinceramente, eu tenho dificuldades em acreditar que os “cubófobos” estejam preocupados, de fato, com as condições de trabalho e as garantias individuais dos cubanos.  O motivo, e vocês não precisam admitir em público, é raivinha do PT e vontade de colar no governo federal a pecha de apoiador de líderes autoritários.  É o PNDH-3 da vez.




*pra não perder os tópicos relacionados do facebook, já que a discussão tende a rolar por lá mesmo: