segunda-feira, 1 de novembro de 2010

José Serra é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno!

Que José Serra é mau-caráter, não é novidade pra ninguém.  Conta o meu pai, contemporâneo dessa figura em sua época de DCE que, Serra já se utilizava de expedientes escusos para conseguir o que queria: quando havia a necessidade de votações nas quais a posição de Serra era minoritária, a estratégia era discursar longamente, até que o quórum diminuísse e a votação estivesse garantida.

Que José Serra trouxe o nível da campanha presidencial ao chão, já não se discute.  Aliou-se com os setores mais conservadores da sociedade, da TFP, Opus Dei ao que resta da ARENA nesse país.  A simulação da bolinha de papel  e a tentativa de enganar o povo ao misturar o modelo de concessões do pré-sal com o modelo do petróleo anterior são preciosidades da coleção de baixarias da campanha tucana.  Sobre isso já escrevi neste espaço.

Só que eu eu jamais, jamais imaginei que Serra pudesse tomar uma atitude tão antidemocrática quanto a que assumiu em seu “discurso de ‘aceitação’ da derrota”.

Dilma Rousseff foi declarada vencedora do pleito às 20:14, pouco mais de uma hora depois do término da votação (lembrando que o Acre tem duas horas de atraso).  Se a minha memória não estiver extremamente comprometida, é de praxe que o telefonema de congratulações seja feito logo depois desse anúncio do TSE.  Não se falou nisso.  Em eleições presidenciais, normalmente o candidato derrotado faz o discurso oficial de admissão de derrota e cumprimentos ao vencedor de seu QG eleitoral, sempre ANTES do discurso do candidato eleito...é mais que uma simples regrinha de etiqueta, faz parte do respeito à democracia.

Dilma esperou, esperou, esperou…quase duas horas depois do anúncio oficial, e nada do Serra!  Dilma inicia seu primeiro discurso à nação, como presidente eleita, precisamente as 22 horas, sem que houvesse qualquer declaração do candidato derrotado.  O discurso de Dilma se encerrou as 22:25.

Serra inicia sua fala quinze minutos depois de encerrado o discurso de Dilma, às 22:39.  Pronunciou exatas 720 palavras durante 10 minutos e 7 segundos; dessas, dedicou 36 palavras e 26 segundos para reconhecer sua derrota e cumprimentar Dilma Rousseff.  

Disse o Zé:

“No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humilde a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país.”
Depois disso, cumprimentou seus eleitores, agradeceu seus companheiros de campanha (sem mencionar Aécio ou Índio da Costa), e disse coisas bonitas, a respeito de uma guerra:

“Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.”

O discurso doSerra tá aqui:


Ninguém quer um país sem oposição.  Mas naquele momento, ao término de um processo em que Serra dividiu o país, conclamando os setores conservadores da sociedade, o momento era de apoiar a presidente-eleita  e trazer de volta a paz a uma população cansada de debate sujo.

José Serra saiu menor da campanha.  Depois de tudo isso, e desse discurso de encerramento, creio que Serra esteja acabado para o cenário federal...seu nome agora, é Zé Pequeno.



Só pra lembrar do que se trata o respeito democrático, John McCain fez um belíssimo discurso quando perdeu as eleições para Obama.  Infelizmente não encontrei legendado, mas conto pra vocês como foi.  McCain falou por cerca de 10 minutos.  Agradeceu os votos que teve e abriu dizendo que "o povo falou, e falou com clareza".  Disse que ligou para Obama, controlou por diversas vezes as vaias de seus correligionários, e passou a falar sobre o adversário.  Elogiou a capacidade de Obama de transmitir e instilar nos americanos uma mensagem de esperança.  Falou longamente sobre o fato histórico de terem eleito um descendente de negros.  Falou do passado escravista do país.  Ofereceu sua ajuda a Obama.  O video tá aqui...quem não viu e entende inglês, vale a pena.


É assim que se faz.  McCain foi muito grande nesse discurso.  Serra, muito pequeno.  Infinitamente pequeno pra quem deseja ser presidente de um país diverso como o nosso.

Não acredito que o PSDB volte a patrocinar Zé Pequeno em 2014, quando Aécio estará no meio de um mandato de 8 anos no senado.  Não acredito que Serra se candidate em 2018, quando terá 76 anos.  Não acredito que se candidate ao governo de São Paulo, uma vez que a prioridade será a reeleição de Alckmin.  Restará a Zé Pequeno a prefeitura de São Paulo ou a disputa pelo senado, na qual enfrentaria Suplicy, que ocupa a vaga desde 1991.

P.S. Não se falou muito sobre a demora de Zé Pequeno em discursar ou sobre o teor de suas palavras, exceto por um professor de história desavisado que comentava na Globonews naquele momento.  Fiquei pensando no que poderia ter atrasado tanto o Zé, e descobri que ele mora em casa não declarada ao TSE, localizada à rua Antônio de Gouveia Giudice, 775, em Alto de Pinheiros.  O QG tucano fica no edifício Joelma (tinha que ser!).  Esse trajeto, segundo o Google Maps, levaria cerca de 20 minutos.  Domingo à noite certamente não passaria muito disso.

2 comentários:

Marilia Kerr do disse...

A casa está no nome da Veronica A. Serra. Ela a comprou justamente na ocasião em que houve aquela quebra gigantesca de sigilo bancário.
Adorei vc citar o McCain!! Ele se comportou como um verdadeiro herói - ainda que de uma guerra besta como a do Vietnan.
Espero que esta campanha signifique a última pedra no caminho do Zezinho...

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Oi Marilia,

O McCain é o republicano mais sensato dos últimos tempos. Citei pra evidenciar que numa situação de política polarizada de fato, como a norte-americana, o respeito pela democracia e pelas instituições republicanas fala mais alto que as picuinhas pessoais. Além, é claro, do desejo legitimo de que o país avance. Esse discurso dele é ótimo.

beijos!