domingo, 19 de fevereiro de 2012

das polêmicas seletivas


(Este é um post motivado pela memória seletiva alheia e por um episódio virtual que, ainda que minúsculo e já antigo, permanece significativo.)


Interessante.

Em 2009 Danilo Gentili, repórter-comediante do CQC, fez a seguinte piada:
“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”

A vogue também curtiu a analogia, mas com jogadores de basquete.

Houve um rebú, obviamente. Entidades de luta contra o racismo repudiaram e entraram com processo contra o comediante; a imprensa -- como sempre -- deitou e rolou afogueando a "polêmica", com reportagens e re-re-reportagens a fio de réplicas, tréplicas e opiniões, pessoas aproveitaram-se para falar grosso contra a ignomínia, e outras para parecerem mais inteligentes e cívicas traçando diatribes contra o "politicamente correto", a favor da liberdade de expressão e até -- talvez ainda na rebarba da onda Ali Kamel -- que racistas eram esses os outros que queriam ficar aí falando de "raças" e querendo cotas. A internet retroalimentou e remoeu o caso um tempão.

Minha opinião geral sobre o episódio é mais ou menos a mesma que a de Hélio de la Peña: a piada foi meio fraca e, por depender de preconceitos dos anais do anedotário nacional, era quase impossível de ser engraçada para qualquer homem negro; processá-lo por isso, todavia, era muito exagero.
(Devo frisar por questões de rigor histórico que essa piada seria provavelmente considerada engraçada num pátio de escola quando eu era adolescente, e provavelmente em muitos colégios (principalmente particulares) a molecada (branca) continuaria se divertindo maldosamente com ela)

Gentili mesmo, depois de querelar via twitter, respondeu longa e "bravamente" às críticas, dizendo que podia fazer piada do que quisesse e com quem quisesse, e que racista era quem criticava ele quem advogava um estatuto diferenciado para um eterminado grupo e quem era incapaz de ver a leve graça de uma piada simples.
É preciso dizer que Gentili chegou a dizer que nem tinha falado que o personagem da piada era negro, ora, então racistas eram os que apontavam isso... afinal, ora, raças não existem.

“Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?
Arrã.
(Opinião minha a respeito: mesmo tendo problemas com coisas como cotas, acho que pra se dizer ISSO é preciso ser muito sonsinho ou fiadaputamente cara-de-pau. Gentili já fez coisas engraçadas e bacanas como humorista, mas essa foi pra perder todo o respeito mesmo.)

Gentili depois disse que pediria perdão a pessoas que se sentissem ofendidas pelas piadas que fazia, mas que não apagaria-as do twitter ou de onde quer que fosse.

Desde então, o comediante aproveitou as agruras e o poder de impulso da "polêmica" para tentar catapultar-se um pouco mais à fama: publicou um livro intitulado "Politicamente Incorreto"...


Em 2011, Gentili se meteu em situação parecida, mas em uma piada sobre judeus -- desta vez, ao contrário da anterior, motivada por um evento particular.
Moradores de Higienópolis, bairro de São Paulo, protestaram contra a estação de metrô que planejava-se fazer lá. O bairro é conhecido por abrigar a elite paulistana e, dentro desta, muitos indivíduos judeus (um amigo paulistano, aliás, refere-se ao bairro -- não sem leve maldade -- como Hijudeunópolis). Embora uma boa parte -- alguns dizem maioria -- dos moradores de higienópolis se dissessem a favor do metrô lá,  os influentes incomodados conseguiram impedi-lo; seus motivos foram imortalizados na frase infeliz de uma senhora a respeito de como ele abalaria a harmonia do bairro trazendo "uma gente diferenciada". A reação à frase, entre ondas de protestos na internet e imprensa, gerou também um dos acontecimentos mais batutas de 2011, o Churrasco da Gente Diferenciada.

Gentili, inspirado pelo absurdo da situação, aproveitou também para ironizar e deixar sua marca. Escreveu no facebook:
"Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz"
[ Minha opinião: a piada  é mais engraçada e criativa que a anterior, ainda que também pesada.  Se apóia menos em estereótipos maldosos de judeus (p. ex: como avaros e etc), sendo que suas "ofensas", ao que parece, são fazer menção simples ao Holocausto numa piada (o que muitos considerariam inaceitável por si só) e apontar abertamente um estereótipo popularmente falado -- que higienópolis É um bairro cheio de judeus.]

Houve um rebú também nesse caso, mas aparentemente muito mais discreto -- porque mais rápido e eficiente: a comunidade judaica repudiou, a Bandeirantes repudiou, o twitter repudiou; sem mais "bravas palavras", Gentili rapidinho apagou a piada de seu facebook e se desculpou perante a comunidade judaica. Não houve nenhuma resposta "espertinha" e "cívica" contra discriminação desta vez.

Agora, "falhar no objetivo com a piada" era algo que merecia desculpas imediatas. Ora, porque com preto pode e judeu não pode?...A que devemos essa mudança?
Ao cansaço e "escaldamento" do comediante devido à polêmica anterior, talvez?
Porque o Twitter, ainda mais forte que em 2009, inundou-o inclementemente de reclamações ao invés de elogios?
Às conexões sociais e políticas "mais influentes" e advogados mais poderosos das associações judaicas?... (obviamente, tem gente que me chamaria de nazista só por colocar essa opção aqui!)

Seja qual for o motivo da diferença, não foi a reação de Gentili que me fez falar a respeito desse assunto. Que o cara continue evoluindo em sua carreira, e eu provavelmente continuarei não dando muita atenção à ela.

O que motivou este longo post foi simplesmente o seguinte: recentemente, o Facebook -- ou pior, o MEU facebook mesmo, não sei o porquê -- foi tomado de pessoas "compartilhando" a antiga resposta de Gentili aos seus críticos por ocasião da "piada de king-kong". Essa resposta é geralmente compartilhada como protótipo de resposta de alguém "inteligente" contra a "burrice" politicamente correta alheia.

Julgo que deve ser o tipo de compartilhamento de fãs do CQC, daqueles que julgam o programa uma epítome da consciência política. Ao que parece, devem ser também pessoas revoltadas com o "politicamente correto", com os caminhos da questão racial no Brasil neste momento (cotas, processos, leis, etc) ; e também pessoas que, se me permitem apostar um tostão a respeito, eu chutaria serem todas brancas.

Esse compartilhamento da resposta de Gentili por muitos Blogs afora já havia ocorrido na época, é fato antigo. O curioso é sua recuperação no facebook justamente agora: afinal, ao heroicizar Gentili novamente, ninguém compartilhando essa resposta antiga se lembrou do assunto tão mais recente de higienópiolis.
Ninguém pareceu se incomodar ou preocupar tanto com o "direito" de Gentili de fazer piada com judeu.

Nem ele mesmo.


Interessante.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

a difícil tarefa de não ler veja

Editora Abril é foda.

Tenho, há alguns anos, as assinaturas das revistas Placar e Piauí.  A Placar eu assinei porque rolava uma promoção em que quem assinasse por um ano ganhava uma camisa oficial do São Paulo.  Como a camisa do São Paulo custava bem mais que isso, acabei assinando.  O raciocínio era: uma camisa do SPFC que vinha com uma revista merda de brinde.

Acontece que a assinatura era debitada automaticamente no meu cartão de crédito, e a Abril, marotamente, foi renovando a assinatura automaticamente.  Renovou em 2010 e novamente em 2011...ou seja: essa maldita assinatura, que começou em fevereiro de 2009 só terminou esse mês: 3 anos!

Aqui o e-mail de confirmação de assinatura (endereço apagado, por razões óbvias):



Quando me dei conta de que isso venha acontecendo, liguei para a Abril e cancelei o serviço de renovação automática.  Não, claro, sem antes ouvir uma série de argumentos sobre as dificuldades que enfrentaria, etc, etc, etc...o melhor deles foi o seguinte: só existe a possibilidade de cancelar o serviço como um todo, não apenas de uma ou outra revista.  Isso significava, no final da contas, que eu perderia a renovação automática da piauí...por fim, ponderando as coisas, resolvi cancelar mesmo o serviço e renovar "manualmente" a piauí, o que demandou um telefonema em janeiro deste ano.  Mesmo sem ver os pés da atendente, a fiz jurar com eles junto que nessa renovação da piauí eu não consentia com renovação automática de qualquer revista, e recusei outras assinaturas promocionais, com descontos imperdíveis várias vezes.  ok, resolvido.

Ano passado, após o meu cancelamento com o "Renova Fácil", recebi vários brindes da Abril: edições da revista VIP, da Alfa e...seis semanas de veja!  Primeiro fiquei de cara com a imagem que a Abril faz de mim...eu assino a piauí, caralho!  Pra que diabos vou querer Alfa e VIP???  Bom, com esses generosos brindes, eu acabei lendo uma coisa ou outra da veja, o que só reforçou o nojo que eu tenho desse panfleto imbecil.

Motivo do post: hoje, junto com o meu jornal, fui surpreendido com mais um exemplar de veja.  Fiquei puto, porque receber a veja sempre me dá trabalho: eu acabo lendo alguma merda e depois tenho muito trabalho para fazer o descarte adequado da revista: não posso colocar junto com os jornais por pedido do zelador...os jornais ele usa para forrar o conteiner de lixo.  As pessoas normalmente deixam as revistas no hall de entrada, para que os porteiros e visitantes tenham o que ler enquanto esperam.  Esse é o destino da Placar e das revistas da Folha de São Paulo.  Com a veja eu já não consigo fazer isso, porque me sinto na obrigação moral de evitar que essa porra seja lida...ou seja: para evitar que pessoas inocentes a leiam, eu só descarto a veja no lixo comum, entre cascas de banana e embalagens - aqui não tem coleta seletiva.

Há muito tempo eu penso que um dos maiores problemas do Brasil é a semi-educação: aquele estágio em que as pessoas são capazes de ler, mas não de discernir entre as coisas que lê.  Se o fato está numa revista de grande circulação, deve ser verdade.  E esse é o perigo da veja.

Eu penso que esse fenômeno explica a maior desconfiança dos eleitorados das regiões sul/sudeste.  Os indicadores mais favoráveis em educação são parte da explicação...mas a maior quantidade de gente semi-educada deve explicar o grosso da população: o eleitorado lê, mas lê veja.  É uma situação complicada, porque no caminho para um país de fato educado, muita gente precisa passar pelo estágio da semi-educação.

Por fim, uma surpresa: ao entrar no site do serviço de assinantes abril, para conferir quando minha assinatura placar de fato acabaria, acabei descobrindo isso:


Essa merda de revista que chegou não é um brinde.  É o primeiro exemplar de uma assinatura não autorizada, aliás, recusada muitas e muitas vezes.  Não fui avisado por telefone, e-mail ou carta.

O atendimento da Abril não funciona sábado, o que significa que eu preciso esperar até segunda-feira para ter uma conversa desagradável com um representante abril, na qual certamente serei passado de setor para setor e terei que esperar bastante.  Pagando ligação local.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Manifesto da Turfa Tropical


Você sabia que os solos orgânicos ocupam cerca de 3.500km² no mundo todo?

Isso significa 0,002% da superfície das terras emersas do planeta, ou 0,0006% da superfície terrestre.  A maior parte dessa categoria de solos, a qual pertencem as turfas, estão localizadas nas regiões boreais, árticas e sub-árticas da Terra.

Você sabia que não há nenhum brasileiro na diretoria da IPS - International Peat Society (Sociedade Internacional da Turfa)?  Países com economias menores, populações menores e importância reduzida na comunidade internacional estão representados na cúpula da turfa mundial, como podemos ver no site da IPS:






O Brasil é um dos 173 países do mundo que nem mesmo possuem um comitê nacional da IPS .  Esse dado, acreditamos, é suficiente para demonstrar que a atual gestão, conduzida pelo sr. Donal Clarke, não foi capaz de unir o mundo em torno da importante questão da utilização responsável das turfas.  Clarke lidera uma instituição exclusivista, nórdica, machista e racista.  Observem que não há mulheres ocupando altos cargos na cúpula da IPS.  Tampouco há negros, orientais ou indígenas.  Por sorte, o reinado de tirania de Clarke se encerra este ano.

Nosso país, como sexta economia do mundo, não pode deixar de participar diretamente nas decisões que definem os rumos do uso sustentável das turfas no mundo.

Por essas razões, apoiamos e lançamos, através do "Manifesto da Turfa Tropical", a candidatura do sr. Otávio Cardona para a presidência da IPS, para o período de 2012-2014.

Queremos uma IPS  aberta, multicultural e multirracial, capaz de incluir os povos de todo o mundo nos debates turfísticos que afligem a todos nós.  Uma IPS que consiga vencer as barreiras da desterritorialização, unindo forças com povos de todas as partes.

Como primeira medida, propomos aumentar a participação brasileira nas turfas mundiais.  Em seguida, é fundamental que seja retomada a discussão acerca da validade da classificação de Von Post.  Sem essas ações, a participação de países fora do eixo turfeiro nas decisões mais importantes se torna inviável.

No discurso de lançamento de sua candidatura, Cardona afirmou que a tendência à refragmentação do mundo pós-moderno conduz à superação dos limites deterministas e incorpora o paradigma dialógico da redefinição do jogo de forças que configura o território como reflexo e condição das novas formas de acumulação.



Otávio Cardona. Chegou a vez da turfa tropical.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Fatos

1. O fim de 2010 viu o lançamento exultoso do romance de Bruno Azevêdo em parceria comigo, O Monstro Souza.




2. Em fevereiro de 2011, a banda Radiohead lançou seu álbum The King of limbs.




3. A capa, do artista Stanley Donwood, é OBVIAMENTE baseada no Monstro.




4. Nosso advogados já foram chamados.




5. Tom Yorke ficará com um olho ainda menor do que o outro.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Just for the record

O Obama discursando na entrega do Prêmio Pritzker ao Português Eduardo Souto de Moura.
Obama diz que já teria sonhado em ser arquiteto... bem, não seria o primeiro. Que coisa, esses políticos.
Achei aqui.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

UFC, a Rinha Humana. É da Globo, claro!

Aconteceu em dezembro.

Num sábado qualquer, resolvi sair com um casal de amigos.  Após rodar por uns 40 minutos pela lotada Vila Madalena, finalmente encontramos um boteco pra sentar...chegamos muito tarde, quase meia noite, e os bares que seriam as primeiras opções naturais estavam lotados.  Acabamos no tal "Boteco Santa Laura".

O preço a pagar por sentar em um lugar aleatório pode ser qualquer um.  No nosso caso, em pouco tempo percebemos que iria rolar um pagode.  Antes disso, porém, teve outra coisa: era dia de UFC.  O áudio da TV estava num volume ensurdecedor, muito mais alto que o do grupo de pagode, que tocava entre mas lutas.  Durante as lutas, urros, socos nas mesas, e muita gente falando sobre o assunto.  Honestamente, eu nem sabia do que se tratava.

Resumindo, a noite foi um lixo: quando não estava rolando o maldito pagode, era a ensurdecedora transmissão da Globo e gente gritando.

O episódio relatado acima foi o que deixou claro pra mim que o UFC está, de fato, se tornando uma coisa muito popular no Brasil.  A receita é a seguinte: a Globo transmite, o Brasil tem um bom número de lutadores de ponta e o "esporte" é simples o suficiente para que todos entendam.

O fato de que a Globo resolveu dar destaque ao UFC provavelmente fará do Brasil o maior mercado do UFC...no exterior, essas lutas são transmitidas no sistema pay-per-view, o que as torna um pouco mais restritas.  Já temos lutadores alçados aos postos de ídolos nacionais, e Galvão Bueno na narração certamente acrescenta o ingrediente que talvez ainda faltasse na mistura: o ufanismo desmedido e desvairado.  Agora, vemos pessoas discutindo UFC nos ônibus, na padaria, nos bares, como acontece com futebol e novelas - aliás, os principais produtos da Globo...só pra dar uma idéia, o futebol dá tanta grana pra Globo que ela paga, só para Corinthians, Flamengo e São Paulo, 280 milhões de reais por ano!  E o UFC tem tido quase tanto destaque da emissora quanto o futebol...o que isso quer dizer?

Ainda não reuni todas as razões, não pensei tanto sobre o tema, mas esse fenômeno UFC me desagrada.  Algumas das razões:

1) Esporte?

Imaginem a seguinte cena: Mike Tyson nocauteia um adversário com um direto no queixo.  Assistimos a isso muitas vezes, certo?  Agora, imaginem isso: Tyson acerta um direto no queixo de um coitado.  Esse cara cai, pronto para ficar no chão, desacordado ou com dificuldades para se levantar.  Quando se dá conta, Tyson está caindo em cima dele, e acerta mais quatro socos contra sua cabeça desprotegida.

Não sei se posso afirmar que o MMA não é um esporte, mas acho que, pelo menos do ponto de vista "olímpico", não é.  Artes marciais fazem parte da cultura humana, e eu não tenho nenhum problema com a existência delas ou do próprio MMA (mixed martial arts).  Quem quiser apanhar, que apanhe.  Agora, penso que quando se pretende popularizar uma prática que frequentemente se assemelha mais a um espancamento, e permitir que crianças assistam, é preciso ter condutas mais "humanas".  No UFC o espetáculo certamente é muito mais importante que o bem-estar dos lutadores.  Isso fica claro em várias lutas em que o juiz permite que um lutador continue aplicando golpes contra a cabeça de um adversário já no chão, nocauteado por uma porrada muito forte.  Eventualmente eles interrompem a pancadaria, mas 4 socos com muita força contra uma cabeça desprotegida podem causar muito dano.  Talvez se não fosse permitido nocautear no chão, sei lá...o fato é que as regras do UFC - ou a falta delas - são feitas em função do gosto do freguês, que está ali para assistir a uma verdadeira rinha humana.

2) Mau exemplo para as crianças:

O futebol sempre foi o esporte mais popular do Brasil.  Apesar de termos péssimos exemplos, a  maioria dos jogadores não são violentos.  Nem mesmo a maioria dos torcedores das organizadas são pessoas violentas, o que não impede que episódios terríveis ocorram.  Dificilmente um jogador muito violento se torna ídolo no futebol, e torcedores violentos são vistos com reprovação.  Não me agrada ter, ocupando os postos de ídolos nacionais, lutadores de MMA.  Ter um Galvão Bueno incendiando um público, falando que fulano representa o Brasil, é uma tristeza.  Por mais que esses lutadores tendam a se cumprimentar no fim das lutas e ter uma postura de bons moços, alguém consegue ver algo de positivo em um menino de 6 anos ter o Anderson Silva como grande ídolo?

Achei um vídeo que ilustra o que quero dizer:



Pelo que entendi, os pais desse menino, ou os responsáveis por ele, acham uma gracinha que ele esteja esmurrando o marmanjo sentado em cima do saco de areia.  O menino tem as próprias luvas - bem pequenas - e vai com tudo.  O cara que tá apanhando deve estar acostumado a isso, talvez seja um lutador, sei lá...mas socos no nariz, mesmo de um menino tão pequeno, podem machucar.  O cara vai instruindo a criança a socar de frente, deve ensinar outras coisas...pergunto: esse menino tem discernimento para não socar os coleguinhas na escola?  Ele é mais ou menos propenso a brigar?  Ele tem ou não um potencial maior de machucar de verdade uma outra criança, dessas que brigam puxando cabelos, dando tapas ou soquinhos?  Tá, faz muito tempo que os pais colocam os filhos em aulas de judô e karatê, mas essas modalidades tem regras muito mais rígidas e um controle disciplinar maior.  Judô não envolve pancadas e karatê nunca se notabilizou pelas transmissões em rede aberta, onde lutadores sangravam até serem nocauteados.  Nunca tivemos esse exemplo.

Ainda na questão do exemplo para as crianças: imaginem o pavor dos professores da rede pública em dez anos?  Se hoje já são comuns os relatos de professores sofrendo ameaças e violência dentro de sala de aula, imaginem com uma geração "escolada" em MMA?

3) Mau exemplo para adultos:

Um texto do Ricardo Perrone, jornalista esportivo, me chamou a atenção.  Um novo fenômeno está começando dentro do UFC: lutadores que se relacionam com clubes de futebol.  Os caras ganham as lutas e ostentam bandeiras de times, camisas, fazem declarações para provocar torcidas adversárias, etc...

O tal do Anderson Silva, corintiano doente (como todos), depois de nocautear um outro fulano no Rio, recebeu vaias, justamente por representar o Corinthians.  Num momento de brilhantismo, resolveu que a coisa certa a fazer seria uma provocação aos flamenguistas.

A frase síntese do texto do Perrone é a seguinte:

"Se com o Kléber dando um drible no Alessandro corintianos e palmeirenses já acham motivo pra se matar, imagine com um alvinegro espancando um palmeirense no ringue."

A última coisa da qual precisávamos era essa: que num país já tão desmiolado quanto o nosso, onde se acha ok beber e dirigir, onde se bate muito nas mulheres, onde brigas de trânsito terminam em morte, tenhamos um monte de gente acompanhando os combates em bares, enquanto enchem a cara de álcool.

Ainda vai acontecer de um sujeito sair de um bar e espancar um flanelinha com golpes de Muay-Thai; bater o carro, nocautear o outro motorista, chegar em casa, ouvir um monte da mulher e destroncar o braço da coitada "Muié chata, sô!"

Enfim, não sou contra a existência dos eventos de MMA, embora não os aprecie e não considere um esporte, mas apenas um espetáculo de violência gratuita.  Mas gostaria de ver essa febre passar.  Se a Globo permitir.



**Atualizado em 07 de novembro de 2013, só pra adicionar este link:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2487527/Inside-world-child-cage-fighting-Boys-trained-attack-MMA-arenas.html

Bárbaro, não?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Diários de dispersão 2011 (2): Figuras & momentos

Finalizando... outros desenhos "distraídos" do ano passado.

(esta primeira é "reality-based": uma colega de trabalho durante reunião.)






irmãos (designer e performer)

"Aula particular"

domingo, 8 de janeiro de 2012

Diários de dispersão 2011: Expressões

Nesta série de posts, serão colocados alguns desenhos feitos no ano passado... a maioria, como os de outros posts, feitos durante reuniões pedagógicas (:)). A questão aqui é tentar manter um diário mínimo de desenhos que continuo a fazer. (espero conseguir não postar os de 2012  só em 2013).

Esta primeira série são pequenas diversões envolvendo expressões.


Boquiabertas.

                                                      Tipos.



Ira.


Fin.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ano novo...

... como continuação do post anterior, segue a (para mim) chocante cena da semi-implosão do magnífico edifício abandonado do Moinho Central, em São Paulo.



Interessante: é o primeiro edifício em que já entrei que vejo ser implodido.
Em 2001, minha turma de graduação em Arquitetura e Urbanismo fez um exercício envolvendo a área desse edifício, e a reutilização dele mesmo. O meu projeto, particularmente, ficou uma droga. Mas ainda assim, esse edifício ficou na minha imaginação continuamente (principalmente por fazer parte de meu objeto de mestrado, como citado no post anterior). Como o conheci antes de ser ocupado completamente ele permanece na minha memória como gigantesco, cadavérico, estranho. Embora ilhado entre duas linhas de ferro, dominava completamente a paisagem, muito maior do que as edificações circundantes...

(Dá pra ver no vídeo como o danado é tão sólido que, na implosão, certas partes só "desceram" um andar, sem nem se abalar... qualquer um que tiver falado em "risco de desabamento" para justificar sua demolição deveria se sentir meio desconfortável... no mínimo)

Junto com a densa favela gerada em seu interior e exterior, esse edifício era uma tremenda pedra no sapato do processo de revalorização financeira que está em implantação na região. Agora convenientemente incendiado ("combustão espontânea"?) e, mais que muito rapidamente, tendo sua demolição declarada e iniciada -- junto com a também conveniente remoção da favela em sua volta, cujos moradores receberão da prefeitura um mais que conveniente "auxílio" de 300 paus (mensagem implícita: "vão entulhar alguma periferia já entulhada e sem importância ($) e deixem o filé pra nós, por favor").

Na precariedade do mundo de gatos elétricos de uma favela, não dá pra acusar ninguém; todavia, certas conveniências são impossíveis de notar.

Aguardemos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Territórios Estéticos"

Como a recente lentidão apresentada por este blog pode atestar, este tem sido um ano muito louco para mim e para o Marcelo. Um exemplo é este post mesmo: se refere na verdade a fatos que, ainda que caracterizando-se como "Wilbor material" e de suma importância na minha vida, são de mais de um mês atrás e só tive disposição de relatar agora. (Essa lentidão também atesta o quanto plataformas como o facebook e o google+ tem substituído completamente blogs no que se refere a simples links e comentários cotidianos, mas isso é outro assunto).

De minha parte, posso dizer que 2011 provavelmente foi o ano mais ocupado de minha vida até agora, principalmente no primeiro semestre. (O Marcelo pode contar as histórias dele depois, se o interessar :) )
Aquilo que talvez mais tenha me enlouquecido neste ano não foi, como geralmente pensam, fazer o doutorado sem um afastamento de meu trabalho; foi fazer essas duas coisas juntamente com a revisão,  produção e finalização de meu primeiro livro (acadêmico), que teve seu primeiro lançamento no começo de outubro (na Livraria da Vila, em São Paulo) e seu segundo em novembro (na Livraria Blooks, Rio de Janeiro). 

(a capa é minha mesmo, a partir da foto original de Eduardo Londres Pinha)

"Territórios Estéticos: a experiência do Projeto Arte/Cidade em São Paulo", publicado pela editora Annablume,  é o fruto de minha dissertação de mestrado feita na USP em 2006, sobre o Projeto Arte/Cidade. Boa parte do texto -- e aí precisamente está a origem dos cabelos brancos que ganhei a mais no primeiro semestre deste ano -- foi praticamente reescrita para um conjunto mais enxuto e adequado ao formato público de livro. (Se funcionou, os leitores que julguem.)

Hoje eu penso: esse livro, esse estudo e esse assunto como um todo tomou tanto tempo da minha vida... e, ainda assim, nunca foi discutido aqui no blog. Acho que isso se deve, em primeiro lugar, à restrição natural ao próprio assunto, que é muito "para iniciados". Por outro lado... "acessibilidade" de conteúdo raramente orientou a pauta deste blog, como podem atestar as (literalmente) centenas de posts obscuros que já colocamos aqui. Assim, concluo que a questão se refere mais à "seriedade" pronunciada do assunto e do tom com o qual o tratei... e, em especial, um pouco  da minha necessidade, nos anos após o término de meu mestrado, de me afastar, "exorcizar" aquele tema e assunto da minha vida.

Mas bem, é ora de fazer um pouco de justiça e dedicar um espacinho ao assunto. Pra começar, segue a orelha do livro:
Na última década do século XX, observou-se a retomada do interesse pelas atividades de intervenção artística em espaço urbano e sua crescente legitimação junto à mídia e instituições. O Projeto Arte/Cidade é o exemplo por excelência desse momento no Brasil, marcando época pela proposta de novos formatos de mega-evento e grandes equipes multidisciplinares, constituindo ponto exemplar de confluência entre tendências da arte e do urbanismo. Tendo em vista a particularidade e influência dessa experiência, o livro de Gabriel Girnos procura abarcar a complexidade de Arte/Cidade, presente não apenas na variedade de locais e formas de seus eventos, mas também nas mutáveis circunstâncias em que se deram. Seguindo as 4 edições do projeto em São Paulo, o livro enfoca propostas, conquistas e impasses por ele inaugurados, transitando assim por dimensões como o discurso curatorial, as motivações artísticas contemporâneas, os meandros organizacionais da produção cultural e os interesses materiais em torno do espaço da capital paulista. Considerando o contexto de protagonismo dos grandes centros urbanos na globalização e a crescente instrumentalização mercadológica da cidade e da cultura no fim do século, o estudo toma o Projeto Arte/Cidade para pensar possibilidades e limites das práticas artísticas recentes como forma de reflexão sobre a cidade.

Para uma idéia mais precisa do que faço no livro, segue um recorte da introdução.
O estudo que deu origem a este livro surgiu de um duplo sentimento de fascínio e inquietação. Fascínio pela especificidade da metrópole contemporânea e as percepções que se constituem nela e pelas relações entre estética e política nas artes e linguagens; inquietação pelo lugar que esses fatores ocupariam na virada deste milênio — um momento histórico em que a cidade e a cultura teriam se tornado protagonistas de uma primazia crescente de lógicas de mercado e consumo sobre as atividades humanas. Esse sentimento duplo, por sua vez, convergia para um questionamento sobre as possibilidades da linguagem tanto de desvendar e criticar quanto de confundir e reificar a cidade. Na busca por explorar esta questão, direcionou-se o olhar para um caso que oferecia uma sobreposição rara de aspectos e aporias envolvendo cultura, política e cidade na contemporaneidade: os eventos do Projeto Arte/Cidade na cidade de São Paulo.
Iniciativa cultural coordenada pelo curador e filósofo Nelson Brissac Peixoto desde 1993, Arte/Cidade permanece até hoje a mais ampla e ambiciosa experiência de intervenção artística em espaço urbano realizado no Brasil. Com quatro grandes exposições na capital paulista entre 1994 e 2002 — Cidade sem Janelas (1994), A Cidade e seus Fluxos (1994), A Cidade e suas Histórias (1997) e Arte/Cidade Zona Leste (2002) — o projeto caracterizou-se em geral pela ocupação de espaços abandonados, degradados ou problemáticos com intervenções temporárias de artistas de múltiplas áreas e linguagens. Também incluiu sempre um amplo conjunto de atividades relacionadas a essas mostras (workshops, ciclos de debates, exposições secundárias, publicações e documentários), mobilizou a colaboração de diferentes profissionais (filósofos, cientistas sociais, historiadores, jornalistas, engenheiros, músicos, fotógrafos, videomakers, arquitetos e artistas plásticos) e recebeu grande atenção por parte da imprensa cultural e do meio intelectual.
O interesse e relevância de Arte/Cidade já seriam visíveis em sua amplitude e multiplicidade, condensando e entrecruzando discussões nacionais e internacionais de campos como as artes visuais, a filosofia e o urbanismo. Mais que trazer obras ao espaço urbano, afinal, as edições do projeto em São Paulo se caracterizaram como eventos tanto na cidade quanto sobre a cidade, recortando-a como objeto de percepção e assunto a ser discutido e elaborado — inserindo-se diretamente, portanto, no campo dos discursos e reflexões sobre o espaço urbano. Além disso, porém, há uma ambivalência que faz do projeto um objeto particularmente instigante para se pensar relações entre estética, política e cidade: como uma iniciativa de curadores — idealizada a partir do uma perspectiva organizacional e institucional — a história de Arte/Cidade em São Paulo inclui necessariamente dimensões tanto de experiência artística quanto de política cultural. Por um lado, uma multiplicidade de comentários e elaborações estéticas e intelectuais sobre o espaço urbano; por outro, um megaevento artístico que precisou construir-se e viabilizar-se num contexto particular de políticas urbanas e culturais.
(...)
Conforme o estudo se desenrolou, tornou-se cada vez mais evidente tanto a complexidade do conjunto Arte/Cidade quanto a especificidade de cada um de seus eventos. Tornou-se especialmente clara a ocorrência de mudanças substantivas na sucessão de suas edições — de abordagem, de práticas e de discurso — que precisavam ser compreendidas. Mais que simplesmente trocar de local, tema e participantes, cada evento superou o anterior em escala de intervenção e amplitude de questões tratadas; embora tenha surgido em uma instituição governamental — a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo — as últimas e maiores edições de Arte/Cidade foram organizadas por uma associação independente, o Grupo de Intervenção Urbana; e, embora iniciado como um evento orientado essencialmente para questões artísticas, ele rumou aos poucos para discussões de urbanismo e política urbana. Tal percurso, por sua vez, implicou em mudanças tanto organizacionais como de horizonte a respeito da cidade e da arte, tornando a história do projeto ainda mais interessante do ponto de vista das relações entre estética, política e cidade.
(...)
O desenvolvimento do Projeto Arte/Cidade é examinado aqui, enfim, principalmente em sua face de intervenção discursiva na cidade e sobre a cidade num determinado contexto de debates e ações em torno da cultura e do espaço urbano. Ele é interrogado politicamente como um grande evento que ocasionou uma série de enunciados urbanos, de recodificações temporárias de espaços metropolitanos e de intervenções numa esfera de debate e visibilidade pública. A escolha por uma ênfase política, por sua vez, implica em procurar ter em vista sempre as condições conceituais, pragmáticas e ideológicas em relação às quais sua experiência se constituiu; e também significa privilegiar a identificação e discussão de aspectos por vezes ambíguos, contraditórios ou dissonantes contidos na mesma.

Distribuição dos locais ocupados pelos eventos em São Paulo. (É, foi beeem grande.)

Acho que qualquer pessoa não familiarizada com esse tipo de assunto iria perguntar, pelo menos: "Ok, mas o que quer dizer 'intervenções artísticas em espaço urbano'? Que tipo de ´intervenções´ seriam essas, afinal?"
Pra dar uma leve idéia: obras como os lambe-lambes de Arnaldo Antunes,  Periscópio de Guto lacaz (no que hoje é o edifício do Shopping Light, no Vale do Anhangabaú), o Detetor de Ausências de Rubens Mano (no Viaduto do Chá, no mesmo Vale), as torres acobertadas de vermelho no abandonado prédio do Moinho Central, os vagões suspensos de Zé Resende (junto à Radial Leste), ou o espaço de convivência para moradores de rua, sugerido pelo americano Vito Acconci... entre uma imensa variedade de outras.
Lambe-Lambe (Quero)
Periscópio
Detetor de ausências

Equipamento para moradores de rua.
Vagões


Pra concluir, acho importante lembrar que os anos que me embrenhei em estudar tudo isso marcaram um afastamento em relação à arquitetura propriamente dita; mas, por outro lado, também marcou uma aproximação em relação ao pensamento sobre a cidade e, mais especificamente, a metrópole.
É interessante ter isso em perspectiva, vendo-se minha reaproximação recente à arquitetura e as coisas que farei e estudarei daqui para frente... (sobre isso, falaremos mais no futuro)


P.S.:
Acho importante frisar dois locais-alvos antigos dos eventos de Arte/Cidade que bem recentemente encontraram (ou talvez encontrem) seu fim: o Edifício São Vito, demolido em 2010; e o terreno do abandonado Moinho Central, no qual se estabeleceu a Favela do Moinho, que -- muito convenientemente para alguns, deve-se acrescentar -- ardeu em chamas na semana passada.

Moinho Central, já com sua favela, em 2001...
São Vito em 2002... ainda o famoso cortição "Treme-treme".

P.S.2: Para quem se interessar mesmo em saber mais do assunto, recomendo consultar o site do projeto, e coloco aqui os vídeos que encontrei disponíveis na internet.

- As 4 partes do documentário da Rede 21 sobre o terceiro Arte/Cidade, em 1997:













- O Vídeo de Renata Marquez sobre o quarto Arte/Cidade, de 2002.

Arte/Cidade Zona Leste from Renata Marquez on Vimeo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Monstro Souza, Ano 1: balanço da recepção e um causo

No último mês me novembro completou-se um ano de lançamento de "O Monstro Souza", o livro insano feito em parceria de Bruno Azevêdo comigo e mais outros.
Tive um ano particularmente cheio, de forma que parece até que esse acontecimento foi há mais tempo... muita água jpa rolou: eu fazendo um doutorado e finalizando outro livro, Bruno com filha, mestrado e um monte de projetos. Mas faz pouco tempo, realmente.
A título de arquivo, então, fiz  neste post uma compilação de links das principais resenhas, reportagens e comentários sobre o livro dos quais fiquei sabendo. (é mais ou menos algo que você poderia fazer sozinho no google se tivesse disposição, tempo livre e soubesse o que procurar e escolher...)

Vamos lá:

- O Monstro Souza no Programa "Banca de Quadrinhos".


- Eu e o Bruno entrevistados a esmo na Rio ComiCon 2010:


- A reportagem sobre o livro no jornal regional da rede Mirante  (retransmissora da Globo em São Luís). Esse não deu pra colocar no blog,  mas o vídeo está disponível ainda no site).


- A resenha de Celso Borges no jornal O Imparcial (concorrente d'O Estado do Maranhão, o qual também é conhecido como "Sarney News"):
(clica que aumenta!)


- O Monstro Souza no Correio Brasiliense.


- Resenha do livro no blog Meia Palavra.


- A "Resenha Monstruosa" de Carlos Tosh.


- Resenha do'O Monstro no Overmundo.


- A resenha "A Saga do Monstro Souza", de Flávio Reis.


- Resumo da entrevista maluca minha e do Bruno no Overmundo.


- Entrevista de Bruno no blog "O Diário de André".


- Entrevista de Bruno com Zema Ribeiro.

- Reportagem na Revista da Cultura, (publicação da célebre Livraria Cultura) na qual O Monstro Souza é citado como fazendo parte de uma "geração" que faz experimentos e inovações com o "velho suporte" do livro impresso. (só constando: ser citado num ensaio sobre esse assunto, mesmo que numa "revista de livraria", me dá muita satisfação!)


Para fechar o post, um causo inédito sobre o livro.

Quem já frequentou Cidade Universitária da USP sabe das feiras de livro que ocorrem na FFLCH durante o fim de semestre: episódios nos quais é possível comprar livros a preços muito sedutores.

Pois bem: lá pros idos de 2003 ou 2004, eu estava lá na feira. Esbarrei com um livro interessantíssimo na banquinha da Editora Altana:  "10 Presídios de Bolso", de Ronaldo Bressane. Antes de tomar contato com a prosa indecente, habilidosa e interessantíssima do escritor, o design do livro me chamou atenção. A diagramação, tipografia e etc, tudo formatava e dialogava com o "conteúdo" literário. E, embora não constasse na capa, realmente o designer Eduardo Kerges estava lá, no finalzinho do livro, apresentado em pé de igualdade com Bressane.  Eu estava então cada vez mais interessado em design de livros (perguntem qual o tema do meu doutorado agora...), e esse livro me trouxe muitas idéias e vontades.


Revelo: acho que foi daí que eu tive a idéia de fazer algo parecido com O Mostro Souza de Bruno, do qual eu era um participante já fazia tempo: tentar aprofundar o design do livro de maneira a influir na experiência e construção de seu "conteúdo" (eu sempre vou usar essa palavra com aspas, ok?) e, no final, aparecer creditado como co-autor. No final, podemos dizer que deu certo... mais ainda do que com o Kerges no "10 Presídios", se pensarmos que meu nome foi pra capa!... hehehehe :))

Mas voltando: a questão é comprei o livro num ano; no ano seguinte (2004 ou 2005), fui até a feira novamente para comprar um exemplar de "10 Presídios" para dar de presente ao Bruno. Nessa ocasião, o editor do livro, Xico Santos, estava lá, na banquinha da Altana. Pensando que um editor era justamente o que o Monstro precisaria -- conversei com ele e falei que estava envolvido num projeto de livro muito louco que também se buscaria usar criativamente a visualidade da mídia, e que achava que tinha a ver com o material de humor negro que a Altana dele estava produzindo (não mencionei que o livro seria sobre um cachorro-quente prostituto e assassino). Ele pareceu educadamente interessado, me deu seu cartão.
Naquela ora, achei que esse editor ele também era o cara que havia escrito a orelha do livro. Uma orelha engraçada, inteligente e sem-vergonha, que senti que tinha muito a ver com o tipo de humor seco e sacana que Bruno estava desenvolvendo.  Só que não, a orelha do livro tinha sido escrita por um cara com o nome levemente diferente: Xico Sá.


Anos depois, Bruno entraria em contato com Xico Sá, mas a respeito de Breganejo Blues  -- o livro independente que começou depois e terminou antes de O Monstro Souza. Confirmando que minha intuição estava certa, Sá gostou bastante do Breganejo, e um contato foi estabelecido. E, neste último ano, Xico Sá acabou sendo o mais célebre entusiasta de O Monstro Souza, o que deixou a mim e ao Bruno muito felizes.
Quão entusiasta? No nível de, quando perguntado sobre quem seria "o maior escritor brasileiro da atualidade" por ocasião da Feira de Livros de Parati, ele tascar: Bruno Azevêdo!
(Ele disse mais ou menos isso no twitter também, e isso causou uma alavancada considerável das vendas do livro em São Paulo...).

Citando algo que Sá disse a respeito de Breganejo, mas que vale perfeitamente para o Monstro: “é disso que a porra dessa literatura brasileira precisa: desrespeito com ela”.

 Noves fora a picaretagem de se elogiar algo no qual se está incluído: é realmente preciso atitude e culhão pra lançar um livro tão louco e completamente independente, sem a ancoragem em  nenhuma das várias centenas de editoras existentes no país. E isso Bruno teve e tem, para nossa sorte.
Conheço pouco da cena literária brasileira, mas confio que essa atitude -- de mais culhão e menos "respeito" -- lhe seria benéfica.


Longa vida ao Monstro.



Obs. 1: O Monstro Souza pode ser comprado na  Estante Virtual e na Livraria Cultura (a Livraria da Travessa tem exemplares, mas nunca colocou em seu site. Pfff.).
Obs. 2: Fiquei sabendo que, com o estado atual de leis e fiscalização, novos exemplares de nossa edição provavelmente não poderão mais ser vendido às livrarias... porque a nota fiscal dos livros tem de ser emitida obrigatoriamente a partir de uma CNPJ. Que bacana, não?
Obs. 3: Eu tenho uns exemplares comigo ainda, e Bruno deve ter bem ainda do que eu... interessados podem nos escrever, o preço continua camarada!...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Pechincha



Obs: O Show foi cancelado pelo estado de saúde do astro.
(... e é mesmo raro uma gripe e e uma hérnia de disco ajudarem alguém a economizar mais de 8 mil reais.)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Dia do Arquiteto III

Bão. Mais um ano, mais uma homenagem a nóis, os arquiteto. Um importante passo foi dado no sentido da evolução política da profissão no Brasil com a declaração de nossa independência do CREA e a criação do CAU este ano... mas não é disso, obviamente, que vim falar. Nem sequer tenho algo eu mesmo para falar para prestigiar a profissão -- ao menos, não agora.

Este post é para dar espaço àquele que é certamente um dos textos mais engraçados que já tive o prazer de ler sobre a arquitetura: a "carta aberta" da escritora Annie Choi aos arquitetos -- publicada em 2007 na Pidgin Magazine e encontrada por mim num blog arquitetônico ótimo, o "Notes on becoming a famous architect".

Tivesse eu mais tempo, traduziria o texto inteiro. Claro que eu não tenho, então vai em inglês mesmo.
(coincidentemente, este texto também faz referência ao Holandês Rem Koolhaas -- o mesmo arquiteto citado aqui no Wilbor no Dia do Arquiteto de 2010)

Segue:





Dear Architects,
I Am Sick of Your Shit.



Once, a long time ago in the days of yore, I had a friend who was studying architecture to become, presumably, an architect.

This friend introduced me to other friends, who were also studying architecture. Then these friends had other friends who were architects - real architects doing real architecture like designing luxury condos that look a lot like glass dildos. And these real architects knew other real architects and now the only people I know are architects. And they all design glass dildos that I will never work or live in and serve only to obstruct my view of New Jersey.Do not get me wrong, architects. I like you as a person. I think you are nice, smell good most of the time, and I like your glasses. You have crazy hair, and if you are lucky, most of it is on your head. But I do not care about architecture. It is true. This is what I do care about:

* burritos
* hedgehogs
* coffee

As you can see, architecture is not on the list. I believe that architecture falls somewhere between toenail fungus and invasive colonoscopy in the list of things that interest me.

Perhaps if you didn't talk about it so much, I would be more interested. When you point to a glass cylinder and say proudly, hey my office designed that, I giggle and say it looks like a bong. You turn your head in disgust and shame. You think, obviously she does not understand. What does she know? She is just a writer. She is no architect. She respects vowels, not glass cocks. And then you say now I am designing a lifestyle center, and I ask what is that, and you say it is a place that offers goods and services and retail opportunities and I say you mean like a mall and you say no. It is a lifestyle center. I say it sounds like a mall. I am from the Valley, bitch. I know malls.

Architects, I will not lie, you confuse me. You work sixty, eighty hours a week and yet you are always poor. Why aren't you buying me a drink? Where is your bounty of riches? Maybe you spent it on Merlot. Maybe you spent it on hookers and blow. I cannot be sure. It is a mystery. I will leave that to the scientists to figure out.

Architects love to discuss how much sleep they have gotten. One will say how he was at the studio until five in the morning, only to return again two hours later. Then another will say, oh that is nothing. I haven't slept in a week. And then another will say, guess what, I have never slept ever. My dear architects, the measure of how hard you've worked and how much you've accomplished is not related to the number of hours you have not slept. Have you heard of Rem Koolhaas? He is a famous architect. I know this because you tell me he is a famous architect. I hear that Rem Koolhaas is always sleeping. He is, I presume, sleeping right now. And I hear he gets shit done. And I also hear that in a stunning move, he is making a building that looks not like a glass cock, but like a concrete vagina. When you sleep more, you get vagina. You can all take a lesson from Rem Koolhaas.

Life is hard for me, please understand. Architects are an important part of my existence. They call me at eleven at night and say they just got off work, am I hungry? Listen, it is practically midnight. I ate hours ago. So long ago that, in fact, I am hungry again. So yes, I will go. Then I will go and there will be other architects talking about AutoCAD shortcuts and something about electric panels and can you believe that is all I did today, what a drag. I look around the table at the poor, tired, and hungry, and think to myself, I have but only one bullet left in the gun. Who will I choose?

I have a friend who is a doctor. He gives me drugs. I enjoy them. I have a friend who is a lawyer. He helped me sue my landlord. My architect friends have given me nothing. No drugs, no medical advice, and they don't know how to spell subpoena. One architect friend figured out that my apartment was one hundred and eighty seven square feet. That was nice. Thanks for that.

I suppose one could ask what someone like me brings to architects like yourselves. I bring cheer. I yell at architects when they start talking about architecture. I force them to discuss far more interesting topics, like turkey eggs. Why do we eat chicken eggs, but not turkey eggs? They are bigger. And people really like turkey. See? I am not afraid to ask the tough questions.

So, dear architects, I will stick around, for only a little while. I hope that one day some of you will become doctors and lawyers or will figure out my taxes. And we will laugh at the days when you spent the entire evening talking about some European you've never met who designed a building you will never see because you are too busy working on something that will never get built. But even if that day doesn't arrive, give me a call anyway, I am free.


Yours truly,

Annie Choi




(Scan do texto publicado)



(Rem Koolhaas dormindo)