sexta-feira, 17 de abril de 2009

Prelúdio

Quando eu tinha uns nove, dez anos, estava na casa de meus avós com meu pai e, numa manhã ou tarde, peguei algumas das revistas de história em quadrinho dele pra olhar.

Eu fuçava as revistas de meu pai sempre que podia ou achava interessante. Meu contato com as “revistas” adultas foi assim. (Lembro até hoje de folhear o número 1 de Ronin dentro do Oggi de meu pai, e de ler Lobo Solitário pela primeira vez também na casa de meu avô). Muitas das coisas que eu lia eu não entendia, ou me deixavam chocado, ou constrangido — nesse caso, especificamente quando se referiam a sexo — mas nem por isso deixavam de me fascinar.

Então peguei uma revista que meu pai tinha comprado recentemente (talvez nem tivesse lido ainda). Essa HQ era uma das impressionantes. A capa era o close-up de um relógio coberto de sangue. Algumas das páginas mostravam centenas de mortos ensangüentados, uma criatura gigantesca e bizarra, uma mulher chorando e um homem azul cujo balão de fala era azul também. Então eu a li. Não li de cabo a rabo, li como fazia muito então e como faço até hoje: passando os olhos e parando onde parece interessante, pulando as partes lentas (isso parei de fazer). Acho que vem muito de coisas assim a minha habilidade atual de compreender e adivinhar “todos” a partir de fragmentos — gibis lidos ou séries de HQ vistas pela metade pela falta dos números completos.

Bem, o que vi na minha leitura: o cara que é o vilão era um cara que achavam ser bom, e que na verdade até que é bom mesmo (ou assim entendi) pois ele meio que salvou o mundo — só que matou metade de Nova York pra isso. Esse cara também agarrou em pleno ar uma bala que uma mulher (a que estava chorando) atirou nele.

No final um dos personagens, que sem máscara era um cara ruivo e muito feio e com lágrimas amarelas, é morto pelo homem azul — vira uma mancha de sangue na neve (fiquei bem impressionado com isso). Entendi que o homem azul era muuuuito poderoso, embora não soubesse exatamente o que ele podia fazer. Mas suspeitei que fosse “qualquer coisa”. Nessa mesma revista, lá pro meio, esse homem azul era desintegrado (outra cena chocante!) e depois reaparecia, gigantesco. Em nenhum momento me ocorreu chamá-lo de “super-herói”.

As falas da mulher, traumatizada com os milhões de mortos para um hesitante (e meio barrigudo) herói fantasiado ainda me impressionam:
“Aquelas pessoas não vão nunca mais brigar, amar ou gritar umas com as outras. Oh, é tão doce estar viva... tão horrivelmente doce.”
“Queiro que você me ame. Queiro que você me ame porque não estamos mortos. Quero tocar você, cheirar você, porque eu posso.”

E a conversa final do homem azul para o homem-loiro-vilão-bonzinho ficaram na minha cabeça:
- No final, estava correto, não? Tudo terminou bem, não?
- “No final”? Nada termina, Adrian. Nunca termina.


Vou parar por aqui. Quem já tiver lido a revista, já a reconheceu; para todos os outros, informo que esse é o último episódio de Watchmen.



Pois é, eu comecei pelo último. Vi as maiores revelações logo de cara. (posso dizer que Watchmen nunca teve mistérios pra mim). Obviamente, não entendi um monte de coisas, seja porque não tinha lido a imensa história que vinha antes, seja porque eu era criança. Mas eu soube que estava diante de algo denso e marcante.

E acho isso até hoje.

Eu sempre hesitei em falar sobre Watchmen. Primeiro, porque há MUITA coisa que se pode falar sobre essa HQ; segundo, porque é difícil de falar; terceiro, porque pouca gente que eu conhecia tinha lido.
Agora, com o filme, um MONTE de gente vai conhecer algo da história.
(Engraçado e triste precisar sair um filme pra eu finalmente falar algo a respeito. Acho que a “maçonaria” das HQs sente-se um tanto incomodada quando os não-iniciados têm acesso “indireto” ao seus ídolos...)

E, em uma série de textos a vir em um futuro próximo (espero), pretendo opor filme e HQ. Como já fiz em Sin City e em V de Vingança, o objetivo é, principalmente, discutir o que se perdeu na transposição e por quê.

Eu escrevi este texto (longuinho) de agora pra esclarecer uma coisa. Eu já li , pensei e analisei muitas vezes e coisas de Watchmen como adulto e amante de HQs; mas minha ligação com essa HQ é muito maior: ela faz parte de meu repertório básico, faz parte das coisas que li entrando na adolescência ainda. Para muitos watchmen abalou o mundo dos superheróis e da forma de se ver HQ, mas a mim ela foi uma das HQs que moldaram minha própria forma de ver essa mídia e suas possibilidades. Tenho uma relação completamente emocional, e conheço e me deleito de cabo a rabo com essa obra. E é a partir desse amor que escreverei, assim que tiver algum tempo.


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Um comentário:

Gargamel Ostrogodo disse...

Adendo:

uma das conseqüências de amar uma obra é ser muito suscetível às merdas que por ventura venham falar sobre essa obra.

Digo isso porque acabei de ler num blog uma pancada de bobagens a respeito, e tive que me controlar para não ir bater boca com gente que nem conheço e que nem me chamou pra conversar.

(não é pra desencorajar as pessoas a falarem a respeito aqui não, mas é só para que elas não estranhem se meu tom ficar meio exasperado de vez em quando)