sexta-feira, 17 de abril de 2009

Navio negreiro

Uma coisa boa de conscientemente não ser cristão é evitar a pulsão inconsciente de glorificar o martírio. Não me entendam mal: o auto-sacrifício é essencial ao heroísmo verdadeiro, e o melhor professor da vida é o sofrimento. Meu problema aqui é com a vitimização.

O coitadismo é, em qualquer lado e manifestação, um equívoco. Porque ele é a tendência de se perdoar indevidamente faltas daqueles que sofreram faltas. Duas coisas:

1. existe sofrimento inútil;
2. Sofrimento por si só não lava a maldade de ninguém.
(Jesus não morreu pelos nossos pecados. Ele CONTINUA morrendo, sendo eternamente sacrificado e renascido – como toda boa divindade solar – enquanto continuamos ímpios, porque continuamos ímpios. Na condição de ser mitológico, ele continuará na cruz e no sacrifício eternamente, se a sociedade continuar adorando-o e eternamente usando-o para justificar-se. Ou seja: if you love him, let him go...)

Devemos respeitar o sofrimento, e ao mesmo tempo tomar cuidado ao usá-lo como atenuante. Isso vale para a vitimização de qualquer um: negros, mulheres, pobres, judeus, palestinos e por aí vai.

Agora, há duas outras “coisas” que eu acrescentaria aqui:
1. Alguns sofrem mais do que outros.
2. Essa assimetria de sofrimento não é só individual, mas freqüentemente definida por diferenças coletivas. Se os "ímpios os há de todos os lados, sexos, etnias e contas, porque uns grupos sofrem mais que outros?

A MORAL tende a falar de "ressarcimento de dívidas"; (e é nessa moral que se vai a abrigar, por exemplo, parte da retórica dos movimentos negros). POLÍTICA, por outro lado, é perguntar quem sofre mais agora, e, principalmnete, por quê.

Há um tipo peculiar de hipocrisia.Ele é muito visível, por exemplo, em qualquer um dos muitos que gostam de dizer que bandido têm que morrer e pobreza não justifica nada, mas que defendem tudo o que Israel faz sob a base de se fazer justiça ao sofrimento do povo judeu. Ou, voltando a outro assunto em pauta atualmente, é uma hipocrisia visível em quem está mais preocupado com o sofrimento de um feto indesejado fruto de estupro do que com o sofrimento de uma criança violentada. Mas toda vitimização é seletiva: se você está escolhendo entre lados de um conflito, não pode vitimizar os dois.

Mas não é da palestina ou da Igreja que eu vim falar (embora possa parecer). Este texto, fundamentalmente é sobre a mulher, aproveitando a (já não) recente passagem de Seu dia (post atrasado por problemas pessoais, sorry).

Por que? Ora, há uma vitimização. E há mulheres que se aproveitam disso, obviamente, como sempre há quem se aproveite de toda e qualquer oportunidade não importanto esta ser honesta ou não. Ademais, há que se tomar cuidado em vitimizar a mulher, porque:

- ela geralmente é mais inteligente e tenaz que sua contraparte mais peluda;

- a vitimização dá espaço às pessoas aproveitadoras;

- a vitimização é condescendente e ajuda muito pouco, em especial as pessoas "fracas" que em princípio deviam ser "protegidas".

MAS.... a questão a levantar aqui, como os outros dois pontos que já coloquei é que: mesmo depois da conquista de liberdades, mesmo depois de se firmarem, e mesmo sabendo-se que “não são santas” (que frase escrota, aliás), é fato que as mulheres em média sofrem mais que os homens –- e sofrem com os homens e por serem mulheres.

Pessoalmente, tenho a sorte de conviver com pessoas extremamente bem-educadas e civilizadas, e sou feliz de não testemunhar barbaridades em meu cotidiano afora daquelas às quais a mídia me traz. Mas é só bobear um pouco e prestar atenção no que há só um pouco além da minha rodinha -- ou talvez no fundo dela... -- e tomo contato com uma quantidade impressionante de tratamentos vulgares, brincadeiras estúpidas e tratamentos infiéis tidos como “normais”. O que me leva a pensar que o problema é real e está longe de ser resolvido e que esse sofrimento é sim assunto político.

Resolvi fazer aqui uma estranha “homenagem ao sofrimento” (parece contraditório com o início deste texto?), com uma música.

Tom Zé fez um disco inteiro sobre o que a mulher há séculos agüenta por parte do homem. Não é o melhor dele, mas tem momentos muito bonitos e outros muito fortes e interessantes. Um que me impressionou particularmente é esta música.


Mulher Navio Negreiro

Tom Zé

Mulher – Divino Luxo – Navio Negreiro

O macho pela vida
Se valida
A molestar a mulher
Se diverte.

Apavorada,
Ela, que se péla,
Pouco pára de pé,
E padece.

Quando ele pia, pia, pia,
Pra inibir na mulher o animal,
Talvez eu ria, ria, ria,
Vendo ele transar uma boneca de pau,
Com seu incubado,
Calado, colado, pirado pavor
Do segredo sagrado.

Por isto existe no mundo
Um escravo chamado

Mulher – Divino Luxo – Navio Negreiro
Graal – Puro Cristal – Desespero
Rosa-robô – Cachorrinho – Tesouro,
Ninguém suspeita dor neste ideal,
A dor ninguém suspeita imperial.

Eucaristia – Ascensão – Desgraça,
Filé-mignon – Púbis, Traseiro – Alcatra,
Banca de Revista – Açougue Informal – Plena Praça,
Ninguém suspeita dor neste ideal,
A dor ninguém suspeita imperial.

Por isto existe no mundo
Um escravo chamado mulher


Anos atrás, eu tinha lido uma frase forte em Do Inferno, de Alan Moore, a respeito da força dos símbolos ocultos sobre a vida das pessoas aparentemente tão racionais e civilizadas: "...levar metade da humanidade à escravidão".
Me impressionei quando li essa frase porque estava lá, e foi onde vi pela primeira vez, que o "“problema das mulheres" era, MUITO obviamente, o problema da metade da humanidade; e, mais forte, pela primeira vez eu, homem recém-saído da adolescência, vi com clareza inegável aquilo que já era dito há muito: que se tratou historicamente de um problema de escravidão.

É por isso que, pra mim, a metáfora do “navio negreiro” de Tom Zé foi tão marcante.

O sexo é o primeiro e principal corte. A mulher é o “outro” social-coletivo primordial do homem e vice-e-versa. Talvez seja essa a alteridade fundamental --posto que não só são diferentes, mas que NECESSITAM um do outro -- , a diferença fundamental com a qual deve-se conviver e aprender se temos alguma esperança de lidar bem com outras "diferenças".

O fato é: com ou sem vitimização, briga, discussão, rancor, autoafirmação e etc, a mulher continua sendo pensada e tratada como objeto, ou melhor, ser que o é para os outros por homens, outras mulheres e por si mesma. Eu fico sinceramente enojado quando vejo algum anúncio de cerveja ou de pefume que, de diferentes maneiras, reforça isso. Fico enervado e enojado com qualquer clip gigolístico dos atuais hip-hops de butique americanos, que pra mim são a epítome do que há de mais tosco.
Fico sinceramente indignado quando a base de defesa das pessoas para essas coisas é a de "as pessoas são assim mesmo" ou que as mulheres lá "fazem isso porque querem" ou "não machuca ninguém".
E não tenho palavras mais eloqüentes para dizera respeito do que falar que isso é perverso, maldoso, tosco e, infelizmente, humano.

Mas não me confundam com algum "libertarian" ou um conservador sempre pronto a falar de peito cheio da "natureza humana"; quando eu falo do que é humano, não quero nunca dizer que não é superável.


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2 comentários:

Marcel disse...

Gabriel, e o que você acha da inversão disso, a mulher que dificultosamente tenta inverter os papéis a agir igual a seu carrasco peludo??? É o meio para a alforria?
Ou é um meio para o exílio, como acontecia com os negros foragidos nos quilombos??? E assim, de certa forma, a mulher que consegue seu máximo lugar ao sol, sofre de outra forma?
De qualquer forma, acho que por vezes radicalizar em um sistema ou lógica totalmente oposto do que se pensa é uma forma de se encontra o meio termo...

Gargamel Ostrogodo disse...

Ôpa! Fala, Marcel.

Eu tenho um post (que ainda ia demorar muito pra ficar pronto -- sobre a atitude das mulheres e o feminismo...

Abraço.