sexta-feira, 2 de abril de 2010

histórias únicas e histórias muitas

(por Gabriel)

Muito bonita essa fala da escritora Nigeriana Chimamanda Adichie. Tem 18 minutos, e para mim valeu o tempo gasto. É um pouquinho "we are the world"; mas, no fundo, é muito sobre a raiz narrativa do preconceito, que vem de se conhecer apenas uma única história a respeito de uma dada coisa (povo, nação, pessoa, etc.)



Afora a beleza presente na retórica, na voz e na própria figura da escritora, me tocou a identificação de infância no início da fala: o quanto minhas histórias não eram minhas histórias, e como as histórias que eu produzia eram cunhadas em histórias externas a minha realidade do dia-a-dia; e também a forma como a pobreza da nossa "realidade social" aparecia na vida da infância de uma criança de classe média filha de professores. Já sobre ouvir os preconceitos mais bizarros sobre sua terra de origem, bem, o Marcelo pode falar bem mais a respeito, tendo morado nos States um tempo.

Mais indiretamente, me lembrei também de outra coisa que ouvi, aqui no Brasil: o caso de uma escola de periferia no sudeste em que 90% das crianças eram negras, e entre os personagens de HQ que elas desenhavam nas paredes para decorar o ambiente não havia um único negro. Que coisa, heim, Maurício de Souza? Jeremias nenhum se sustenta sozinho. Mas, enfim, o assunto não é tanto racismo, mas sim as narrativas que moldam nossa visão sobre as coisas.

Não consegui não me identificar com a questão, não pensar no Brasil. Claro, alguém dirá, o Brasil não é a África; mas o ponto aqui é que a África não é a "África" -- não existe qualquer coisa unívoca que atenda por esse nome de "África" com o qual vestimos nossa ignorância sobre um continente gigantesco.

Minha questão: o Brasil não é o "Brasil". Nós produzimos, exportamos e compramos preconceitos e mistificações desde sempre. Muitos outros termos também são freqüente caso do achatamento conceitual que chamamos de "estereótipo": "mulheres", "árabes", "usuários de drogas", "terrorismo","populismo" e pos aí vai.
All Violence is an Illustration of a Pathetic Stereotype, 1991
(Obra de Barbara Kruger)

Pulando (muito) pro assunto da política: faz tempo que eu penso mesmo essa onda de popularidade do Brasil e de Lula no exterior entra nisso: na verdade, não sabem quem é o Lula, para além de uma narrativa estreita, única. Ninguém precisa fazer uma idéia real do que é o Brasil -- da multiplicidade de Brasis -- pra gostar dele; de certo modo, basta ele estar em alta na mídia. E no momento está, na mídia lá de fora. Aqui dentro, é outra história, mais complicada e sacana; mas digamos é impossível separa a popularidade lá fora com o fato de medirem o Brasil que vêem agora em contraposição às imagens e histórias estreitas que tinham dele antes. Lula, o cinema e o não-naufrágio do país na crise trouxeram "outras histórias" do país lá pra fora.

Temos mais que tirar proveito disso, claro!  E o Lula e a diplomacia brasileira vêm tirando. Propaganda é a alma do negócio nesse esquemão. Mas penso: se pautar pela popularidade ou impopularidade do país -- ou de qualquer coisa -- nunca é suficiente. Como disse a escritora, o problema de estereótipos não é o fato de serem mentirosos, mas de serem incompletos. We're not bananas anymore -- mas ainda podemos voltar a ser, então todo cuidado é pouco.

Não quero dar uma de pós-moderno de butique e dizer que "não existe 'verdade'". As coisas acontecem e existem para além de nossas histórias a respeito delas. Mas uma vez que só podemos ver coisas complexas como sociedade e história a partir de narrativas parciais, onde estaria "a verdade"?
Talvez em algum espaço no campo de batalha das histórias conflitantes?

6 comentários:

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Em primeiro lugar, parabéns pela "diagramação" do post. Assisti i video depois do seu primeiro parágrafo e antes das suas considerações mais específicas acerca da fala de Chimamanda Adichie.

Antes de continuar, vou deixar um aviso aqui, acho que vale a pena incluir no post: pra quem não entende inglês, tem uma opção, ao lado do botão "play" onde se pode escolher a língua da legenda. Acho que o adequado, para a maioria dos nossos leitores, é escolher o português mesmo.

Bom, a respeito do que disse o Gabriel, concordo com tudo, e tenho a acrescentar algumas considerações e algumas histórias do meu período nos EUA, acho que a maioria dos amigos já ouviram:

O primeiro choque aconteceu quando me perguntaram onde eu tinha nascido. Certo de que São Paulo era relevante o suficiente, respondi a pergunta, e escutei, de um dos melhores alunos da escola o seguinte:

"Ah, São Paulo...é uma cidade grande, não?"

"Sim, a segunda do mundo..."

"Perto de Londres, certo?"

"Sim, fica entre Londres e Tóquio."

"Claro!"

Obviamente também ouvi aquelas "tradicionais", a respeito de índios pelados na rua, existência de TV a cores e canais nacionais e coisas assim...sempre optei pelas respostas sacanas, que se tornavam ainda mais sacanas devido ao fato de que lá pelas tantas eu saquei que podia inventar qualquer bobagm, e que, geralmente, quanto mais absurda fosse a minha resposta, maior era o espanto deles - PORQUE ACREDITAVAM!

De qualquer forma, não demorou muito para perceber o que a autora do video relatou: essas reações eram muito normais, uma vez que as pessoas não tinham qualquer informação sobre o Brasil - e, porque teriam? Da mesma forma, países "menores" ocupam pouco ou nenhum espaço nos nossos noticiários: o que se sabe no Brasil a respeito da Austrália, da Bélgica, da China ou da vizinha Argentina? Não muito. Obviamente, entre aqueles com acesso mais amplo às cultura isso muda um pouco, mas quando pensamos na média - ainda que na média dos estudantes universitários, pra ficar no exemplo da parceira de quarto da escritora nigeriana - percebemos que essa realidade não é tão incomum assim.

No meu caso, em particular, era até menos provável que alguém pudesse dizer algo sobre o Brasil. Mestiços de europeus e japoneses são muito raros nos EUA, e o meu fenótipo incomum levou muita gente a situar o Brasil na Ásia, ainda que a maioria me identificasse como latino.

Aqui está o segundo paralelo: da mesma forma como a autora teve dificuldade em se identificar como "africana", eu jamais me identifiquei como latino americano, e àquela época só conhecia Paraguai e Argentina pelas fronteiras com Foz do Iguaçu. De qualquer forma, não me sinto autorizado a falar pela América Latina, e sinto que o Brasil, em especial, tem uma identificação muito fraca com esse rótulo, muito provavelmente por conta da barreira linguística.

Enfim, no fundo, penso que para ter múltiplas histórias de outros lugares, só conhecendo mesmo - não necessariamente pela presença física, mas também pelo acesso à produção cultural, interlocutores e mídia. As histórias únicas me parecem ser consequência da normalidade vigente no mundo.

Muito bem lembrado pelo Gabriel o fato de que no presente momento O Brasil tem uma segunda história lá fora, devido ao momento político e econômico...isso é um fato muito interessante, porque torna possível para os gringos imaginar uma classe média educada no país.

(continua)

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

E pra terminar, já que toquei na questão da barreira linguística entre nós e os outros chicanos, uma outra história interessante do meu período nos States:

Em quase todas as vezes em que a minha família de lá me apresentava e dizia que eu era brasileiro, a primeira coisa que todos me diziam, até com bastante simpatia era:

"Ah, que pena...não falo muito bem espanhol" (Às vezes diziam isso em castelhano).

Eu sempre respondia:

"Eu também não."

- caras de espanto e certo constrangimento -

Essas coisas me divertiram bastante.

Dr. Silvério disse...

Muito legal seu texto, Gabriel. Recebi de várias pessoas esse link e também achei muito legal o depoimento da escritora.

Tem uma coisa interessante que eu gostaria de acrescentar: é sobre a popularidade de escritores "étnicos" na atualidade. Não sei se vocês perceberam, mas desde os anos 90 essa categoria de romance conquistou o gosto do público americano e do resto do mundo. Minha pergunta é: estamos de fato pluralizando a experiência humana ou apenas estamos passando por mais um surto de "exotismo" decorrente do contato com a alteridade das culturas longínquas? Não sei a resposta ainda. Fica para vocês.

Um abraço,

Érico.

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Olá Érico!

Bom te ver (ou ler) por aqui! Concordo contigo, já há algum tempo tenho notado esse boom de escritores étnicos, que talvez venha, no sentido do que diz a escritora, ser uma coisa ainda mais generalizante do que "literatura africana". Ocorre o mesmo com a categoria "world music", que diabos é isso? Sei que lá fora, a nossa música entra na categoria.

Não sei responder a tua pergunta, dá pra passar muitas horas e cervejas sobre o tema, mas não acho que a divulgação dessas coisas "exóticas" realmente contribua para a pluralização do pensamento humano...talvez homogeneize ainda mais tudo que é diferente do padrão ocidental euro-americano.


Abração pros dois!

P.S. Me mudei pra Sampa, aparecendo por aqui dá um alô!

GABRIEL disse...

Hahahahaha!!!! Ótimas as suas histórias, Marcelo. Acho que essas eu não tinha ouvido ainda... esse seu comentário já daria certamente um outro post, bem divertido.

Bom vê-lo por aqui, Érico!
O interessante da questão do exotismo atual é que, quando se vai estudar a cultura metropolitana do século XIX, influenciada por Paris e pelo Império Britânico, o "comércio de exotismo" já era fortíssimo.
O momento "étnico" na ficção/arte/música foi mesmo um fato marcante do fim do século XX. É de certa forma uma reação ao tipo de estereótipo colonialista oitocentista, e ao mesmo tempo é efeito e expansão do "mercado de exotismo". Mas me parece certamente ser um dos aspectos da "ideologia de globalização" atual.
Acho que, nesse processo de "etnicização", ocorreu tanto pluralizações efetivas da experiência quanto processos de achatamento massivo dessas experiências em estereótipos e narrativas pasteurizadas... Como disse o George Clooney no "up in the air", "categorizar é mais fácil". Estereótipos e preconceitos são "formas de navegação" para a vida prática das pessoas... e talvez ainda mais num mundo inundado e pautado pelo excesso informacional desarticulado?

Mas e se considerarmos ainda o fato de que essa "etnicização" convergiu com a progressiva transformação da cultura na grande mercadoria contemporânea (como dizem David Harvey e Fredric Jameson, entre muitos outros)? E se formos mais lonbge e considerarmos, como alguns autores, que no mundo "espetacularizado" nos tornamos cada vez mais incapazes de realmente experienciar as coisas... aí a coisa complica bastante, né? :)

GABRIEL disse...

Vou expandir ainda a pergunta do Érico. Uma questão ainda mais louca -- e provavelmente até mais visceral pra nós, brasileiros -- do que o "exotismo pitoresco" no trato com as culturas longínquas é o "exotismo pitoresco" existente no trato com as culturas próximas.

É quase impossível pensar nossa cultura de hoje sem considerar a absorção / processamento/ comercialização / turistificação dos "outros" da sociedade normativa brasileira (folclore,Rap, funk, periferia e etc etc etc) e todos os jogos complexos de domesticação, espetacularização e distinção social em jogo.

Cultura, afinal, é poder... é difícil liberá-la de sua dimensão de knali. :)