segunda-feira, 9 de novembro de 2009

De volta ao passado - e põe passado nisso!!!

Eu tenho evitado escrever aqui sobre assuntos que já são discutidos à exaustão no meio digital, ainda que na internet se discuta absolutamente tudo. De qualquer forma, optei por me abster de diversas polêmicas recentes, como o caso dos Nardoni, no ano passado, dentre outras coisas.

De qualquer forma, acho importante falar rapidamente sobre o caso da Geisy Arruda, a menina do vestido curtinho da Uniban.

Aqui vão algumas considerações:

1) No dia em que vi o vídeo (que estava entre os mais vistos no youtube), fiquei chocado, ainda que não se trate de um comportamento absurdo, em se tratando de um país machista como o nosso. É impensável que, nos tempos atuais, uma menina possa causar tamanha reação em uma UNIVERSIDADE (ainda que das mais furrebas). Segundo o que li, chegou-se ao ponto em que alguns alunos pulavam para alcançar uma janela de onde se conseguia ver a menina dentro da sala de aula. Pouco tempo depois, ALGUNS alunos tentavam posicionar os celulares debaixo das pernas da aluna na tentativa de conseguir alguma foto.

2) A reação natural, pelo menos o que eu estava esperando, era a expulsão de vários alunos, já que havia pelo menos uns 200 hostilizando Geisy, e vários foram filmados e, além disso, a polícia foi buscar a menina, isso tendo ocorrido no meio da balbúrdia toda. Os policiais falharam em não levar os mais exaltados para a delegacia.

O que ocorreu, ao invés disso, foi a suspensão de 7 alunos (!!!!!).

3) Fiquei imaginando que a Universidade precisaria tomar alguma medida para proteger seu modesto nome, visando evitar uma perda de alunos, uma baixa nas inscrições de seu disputadíssimo vestibular. Tomaram uma atitude sim: a expulsão de Geisy. Alegaram, dentre uma lista enorme de absurdos que:

a) Geisy cometeu um ato de "desrespeito à dignidade acadêmica e à moralidade";
b) A aluna vestia "trajes inadequados";
c) A aluna "provocou" os colegas, por ser "insinuante" e ter percorrido um trajeto "maior que o habitual;
d) Isso tudo "resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar".

Ah, claro.

Primeiro, desde quando é crime ser "insinuante"? As "provocações" a que se referem são simplesmente coisas que a gente está mais do que acostumado a ver, pelo menos desde o0 advento da minissaia, diga-se de passagem uma conquista das mulheres. Olhando por outro lado, boyzinhos de camisas coladas não são "insinuantes"? De onde eu vim, decotes e saias curtas são coisas bonitas e desejáveis. Impressionante a hipocrisia dessas pessoas, que de tão morais que são levaram toda a indústria do marketing a adotar uma estratégia de vendas que para vender qualquer produto, de cerveja a pirulitos, coloca em outdoors uma mulher semi-nua - penso que semi-vestida talvez seja mais adequado, uma vez que a gente está sempre semi-nu.

Mais impressionante ainda é pensar no que possa ter levado tantos alunos a apresentar esse tipo de comportamento de expor seus paus na frente de todo mundo. Eu tenho pinto e não costumo esfregá-lo em mulheres que andam despreocupadas na rua - ou mesmo naquelas que QUEREM ser notadas. Aliás, ninguém que eu tenha conhecido na vida faz isso.

Muitos "especialistas" acham que é o mesmo fenômeno do anonimato da coletividade que ocorre entre as torcidas de futebol.

A Uniban, ao expulsar a menina enfiou, literalmente, as patas traseiras pelas dianteira - importante ressaltar que a decisão foi tomada pelo conselho universitário. Fico imaginando como um grupo de PROFESSORES pode ter imaginado que essa pudesse ser a melhor solução. Tem algum aluciinógeno nos ares da Uniban, não é possível...

Geisy foi duplamente violentada: pelos alunos e pela universidade.

Hoje, o reitor revogou a expulsão de Geisy. Não acredito, que nessa altura do campeonato, faça qualquer diferença. Espero que Geisy processe a universidade e ganhe uma indenização milionária.

Por fim: na minha opinião, a discussão sobre a adequação ou não das vestimentas da Geisy simplesmente não cabe - especialmente se tratando de um ambiente universitário.


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4 comentários:

Gabriel disse...

Bom você ter escrito, Marcelo. Concordo integralmente.

Eu também fiquei impressionado com essa história e andei conversando com um monte de gente a respeito... mas achava que não ia encontrar tempo para comentar aqui.

Em tempo: outra coisa que me impressionou foram os comentários que vi na repercussão. Não vou nem falar do povo que dizia que a menina "mereceu", mas nas pessoas que condenavam o acontecido... com argumentos machistas.

Recomendo a todos este texto sobre o assunto: http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/10/29/pensamentos-soltos-sobre-a-humilhacao/
Aqui, a autora reflete sobre a natureza da humilhação pública do "outro", e sobre a situação atual da mulher.

Gabriel disse...

Acrescentando uma coisa: há muitos que se indignaram falando que a Uniban seria uma faculdade de merda, como se a alta presença de "manos" lá fosse auto-explicativa.

Bem, eu presenciei coisas parecidas (em grau menor, mas da mesma "natureza") na USP, num campos do interior (São Carlos). Anos atrás, quando estava na graduação, havia um rapaz que estudava química que estava se transformando numa moça, estava num processo transsexual.

Já o vi algumas vezes entrar no Refeitório e ser recebido com a seguinte "gentileza": os lá presentes começavam a bater em suas bandejas de metal com os talheres, em uníssono, em velocidade crescente, o que produzia uma barulheira infernal.
Não havia ameaça nem menção a violência corporal -- em comparação com o caso da Uniban, era algo "sutil"(põe aspas nisso) -- mas quando vi a história da moça, não pude deixar de lembrar desse "bullyng" coletivo, machista e assustador.
Que, é bom repetir, se deu naquela considerada "a melhor universidade do país".

Gabriel disse...

..."de volta para o Futuro"...

Gabriel disse...

Bão, este assunto já está "velho" no blog e pouca gente se disporia a retomá-lo.

A coisa porém, pode não terminado;qualquer possível exposição pública da moça vitimada pode trazer o assunto à tona. E já ouvi mais do que uma pessoa comentar que a Geissy provavelmente ia alguma hora "aparecer na Playboy".

Pois bem; para esse tipo de desdobramento, a Marjorie --de novo -- ofereceu um texto que pra mim, até agora, foi a cereja no sunday desse assunto: http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/11/29/conclusoe/

Recomendo com veemência tanto pela conclusão de que mulheres aqui ainda são cidadãos de segunda classe, quanto por sua explicação de o que significa ser um "cidadão de segunda classe".