terça-feira, 8 de março de 2011

oito de março.

Talvez se esse dia se chamasse "dia da consciência feminina" as pessoas parassem de confundi-lo com um dia de comemoração. Mas seria um nome mais feio.

Já falei sobre o assunto antes, mas cheguei à conclusão que talvez o melhor que eu poderia fazer é falar sobre o homem. Mas, pra isso, chamo o Laerte:






Sobre a mulher, não tenho nada melhor a oferecer que um texto do ano retrasado, de outra pessoa. Não tenho nada melhor mesmo: até este momento, é o meu texto preferido sobre este dia,  feito por alguém que sabe mais do assunto e escreve bem melhor do que eu. (o conjunto de liks vale a pena também)


Dispenso essa rosa
Marjorie Rodrigues


Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.


Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.


Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.


Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade – da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.


A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.


Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.


Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?


Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso – onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado,apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.


Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.


Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.


Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.


.(Texto tirado daqui.)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Isto é Esparta... de novo


Anos atrás, coloquei no Wilbor a minha gigantesca verborragia a respeito de "300" -- adaptação do gibi do Frank Miller para o cinema, dirigida por Zack Snyder.

Pois: há três semanas, o "anjo do livro" (copyright by Mancha) me fez esbarrar com "Em defesa das causas perdidas", um catatau do Slavoj Zizek.  E não é que, folheando-o, dei de cara com um texto chamado "a verdadeira esquerda de Hollywood"... que, entre vários filmes, discute justamente significados políticos de 300 com apontamentos bem diferentes dos meus.
Basicamente, entre outras provocações ele coloca que alguns filmes com mensagens superficialmente e obviamente vistas como "de esquerda" -- como Red, de Warren Beaty e mesmo uns de James Cameron como "Titanic" -- seriam um embuste para aquilo que um esquerdista tem de ter em vista nos dias de hoje, enquanto um filme como "300", acusado de facismo, guardaria vários valores genuinamente essenciais à "racionalidade revolucionária".
Pra minha sorte, tem o trecho exato de 300 na web, em inglês. Um pedacinho aqui:
The Spartan ruthless military discipline is not simply the external opposite of the Athenian "liberal democracy," it is its inherent condition, it lays the foundation for it: the free subject of Reason can only emerge through a ruthless self-discipline. True freedom is not a freedom of choice made from a safe distance, like choosing between a strawberry cake or a chocolate cake; true freedom overlaps with necessity, one makes a truly free choice when one's choice puts at stake one's very existence - one does it because one simply "cannot do it otherwise." 

 Vale a pena ir lá e ler tudo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Christ, what an asshole

Decobri essa no blog do McCloud: um certo cara teorizou que todas as tiras do The New Yorker poderiam ser terminadas com a frase "Chirst, what an asshole" sem prejuízo de suas qualidades cômicas. E fez alguns testes...

A experiência inteira está aqui. Vale a pena. (me lembrou um pouco o tipo de experiência feita em "Garfield minus Garfield" )

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Santo revanchismo, Batman!

Este assunto já foi discutido recentemente em vários lugares; mas como é absurdo, rasteiro, sem vergonha e envolve duas áreas de interesses do Wilbor (política e quadrinhos) tinha que ser repercutido aqui, ainda que à tardinha.

Acontece que um tradutor (não colocarei o nome aqui), na revista nº 98 do Batman, deu de traduzir o adjetivo "nasty" (asqueroso, safado, canalha, malévolo, etc.) por... "petralha".


 (Se você nunca ouviu o termo, não sou eu que vou lhe esclarecer. Google aí.)

Pois é. Teve bafafá e etc, obviamente. Um monte de gente estranhou, um monte de gente xingou, muitos nem entenderam, alguns não se importaram e outros apoiaram. A coisa foi repercutida até lá fora. O editor da Panini se desculpou. Teve até uma  turma do "deixa-pra-lá" porque, afinal, o cara foi até "corajoso", assumiu a responsabilidade pelo tradutor e pediu desculpas.

(O mesmo tradutor, diga-se de passagem, já tinha dado uma outra gafe profissional, dessa vez envolvendo a tradicionalíssima revista italiana de faroeste-machão Tex. Nela, o personagem título aparece xingando de "macaco" um negro que o atacava -- tradução sem nada a ver com a fala original.)


Bem, era até pra deixar pra lá mesmo, mas... olhem só um trecho da "desculpa" :

Não houve por parte de ninguém da redação a intenção de atacar partido A ou B. O termo foi usado totalmente desvinculado de qualquer teor político, já que há muito ele deixou de ser apenas uma associação a um partido. O que me parece é que algumas pessoas desejam apenas ver sangue, ou seja, que alguém da redação seja mandado embora apenas para satisfazer seu ego cruel.


[...]Nosso erro foi pressupor que uma gíria que já perdeu o seu caráter político em alguns lugares, não o tenha perdido em todos. Não estávamos querendo tecer nenhuma crítica a partido algum. Acho que já deixei isso bastante claro. Só não entende quem não quiser"

Arrã. ("Vocês é que são uns frescos, rancorosos e desatualizados, mas eu peço desculpas, viu?").

E o Diretor de Marketing da empresa?

"A Panini considera o termo “petralha” como uma gíria que vem se popularizando no Brasil, e independente da origem do termo, não é mais utilizado no linguajar popular apenas com conotação política, mas como sinônimos para asqueroso, nojento, etc. "

Bom, pra mim nada que insulte tão desavergonhadamente a inteligência alheia deveria ficar sem comentário. O melhor comentário que vi até agora (gostaria que fosse o meu) foi o do cara do Liberal, Lertário, Libertino:


"Afinal, sério, eu chamo as pessoas de vaca piranha aleatoriamente, sabe? Pode ser homem, pode ser mulher: pra mim é tudo "vaca piranha". Ah, e meu amigo japa, o Inosuke, eu chamo ele de "crioulo" o tempo todo. Poxa, esse termo já perdeu qualquer associação com raça, oxe!"


Ofereço humildemente quatro opções de interpretação para o caso da polêmica tradução.

1. A ingenuidade:
O tradutor é só um simples panaca que convive com um ciclo social paulistano muito fechado, composto quase exclusivamente de leitores, amigos e filhos de leitores da Veja e afins que não dão tanta atenção para política, limitando-se a achar que "tudo o que está aí uma pouca vergonha e se privatizasse ficava bem melhor" e tendo como modelo máximo de politização alguns leitores de Mainardi e Reinaldo Azevedo. Para estes  o termo "petralha" simplesmente virou "natural", sem ter conotação de ofender pessoas específicas  --afinal, não ofende ninguém que eles conheçam, só "aqueles fulanos ladrões lá".
Santo isolamento social, Batman!

2. O mau perdedor: 
o tradutor é anti-petista convicto e apaixonado e, ainda puto da vida com o resultado das eleições, não conseguiu conter sua indignação sagrada e pôs em ação uma micro-vingança contra esse governo corrupto (ou até mesmo contra os "petistas" que ele conhecia pessoalmente). Santo revanchismo, Batman!

2. A ditadura
Acreditando estar num regime de censura que colocou uma ex(?)-terrorista no poder, o tradutor quis  fazer seu dever cívico de denúncia e de exercício da livre-expressão, ameaçada pela ditadura gramsciana do "politicamente correto", num ato que jamais poderia vir à tona nessa mídia controlada! (todo mundo que lê Veja, Estadão e Reinaldo Azevedo sabe que o Brasil com seu governo petralha é campeão de conteúdos censurados no google!!!!)  Mas... como fazê-lo? Ora, através de uma guerrilha semântica num meio menos vigiado, aparentemente inofensivo... o gibi!! (Tchaaannnnnn!!!). Seria caso parecido na tradução de "macaco" na Revista do Tex...o sagrado dever de se desafiar o politicamente correto!
Mas, infelizmente para ela, revelou-se que nada está abaixo do radar da petralhada. Santa ditadura, Batman!

4. "O segredo do sucesso"):
Tanto no caso Batman quanto no caso Tex, o tradutor simplesmente quis aparecer. Saberia que um monte de pessoas espumariam e gritariam aos quatro ventos,  ao mesmo tempo em que  várias outras apareceriam  defendendo sua "ousadia" e "liberdade de expressão" e o alçariam a micro-herói contra a "patrulha ideológica" ( não importando quão despropositada, grosseira ou pura e simplesmente inadequada a sua tradução fosse no fim das contas).


Agora, sabe o que é mais legal? Nenhuma das opções exclui completamente as outras.


...
Pra ser justo: tem quem ache que a mudança pode ter sido feita pelo editor, o que isentaria o tradutor de culpa. As teorias, contudo, seguiriam valendo, com exceção da primeira. Afinal, porque mais alguém mais de cima na hierarquia da Panini iria querer interferir  no gibi de maneira tão grosseira? Ora, certamente que não por causa dos contratos sem licitação que a editora tem com o governo paulista. São só 27 milhões, afinal.
Integridade não tem preço.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Foco no aluno" ou "tucanando o cassetete?"

Vi essa no Observatório da Imprensa. Grifos meus.
"[...] esse governo [federal] foi extremamente generoso nas concessões e omisso nas cobranças. Instituiu um piso nacional de salário para o magistério, atualmente em 1.024,00 reais. O salário médio do professor brasileiro subiu de 994 reais em 2003 para 1.527,00 reais em 2008 [...].
[preciso comentar alguma coisa ou os grifos são suficientemente irônicos?...]
"Sindicatos mais poderosos pressionam para que o grosso da verba de educação seja gasto em aumentos salariais e diminuição do número de alunos em sala de aula, duas variáveis que não têm relação com a qualidade de ensino."
[...uau...]
"Em termos de regime de trabalho, ao contrário dos desejos dos sindicatos, a maioria das pesquisas mostra que não faz diferença, para o aprendizado do aluno, quantos empregos o professor tem, se trabalha em uma escola ou mais" (Veja, 19/01/2011).
 Eu tenho amigos e parentes que lêem VEJA. Desculpem, mas depois dessa eu vou ter que dizer sem gentilezas: acreditar em tudo o que a VEJA publica fatalmente fará de você alguém pior -- e mais burro. E principalmente, ler esse senhor Ioschpe. Juro. É por preocupação que o digo.
Uma análise mais detalhada das falácias desse senhor estão neste blog.


Eu, de minha parte, comecei com esse texto feito pra pai-de-classe-média-alta-pra-quem-professor-é-mero-empregado, pra chegar num que em verdade li antes, no Blog no Alon: "Sem espírito de patota". Um  texto cujo ponto (aparentemente) principal dele é a defesa do "foco absoluto no aluno" como  estratégia política necessária para uma "revolução" na educação pública. 


Até aí ok. O problema é o resto, que de maneira branda aproxima-o do texto inacreditável de Ioschpe. O texto de Alon me pareceu superficial e cheio de "atalhos" argumentativos pra um assunto absolutamente sério, mas o que me entristeceu foi o fato dele vir de alguém que se anuncia de esquerda. 


"Seria injusto concluir que o PT se preocupa de menos com a qualidade do ensino público fundamental e médio, esse nó górdio à espera de ser decepado. Mais provável é que o petismo ainda não tenha reunido as necessárias condições políticas para o upgrade.
E por uma razão simples. A revolução educacional brasileira pede foco absoluto no aluno e no aprendizado deste, que deve subordinar as demais variáveis. Inclusive as sindicais."
Bom, eu concordaria totalmente com "foco absoluto no aluno" se eu vivesse num país onde professores do ensino básico já fossem minimamente bem pagos, bem treinados, bem avaliados e bem vistos. Concordaria em gênero, número e grau se  "foco absoluto no aluno" não tivesse sido colocado de saída como em conflito às reivindicações de professores; se me garantissem que não teria absolutamente nada a ver com "arrocho salarial" e nada a ver com ignorar as reivindicações docentes.
Mas, o que se vê no texto é que, mais uma vez, o professor e o sindicatos acabam sendo reduzidos a vilõezinhos da história. Não que a política dos sindicatos não tenha suas várias picaretagens e ações questionáveis. Mas é fato que certas exigências têm motivos. E é fato simples e claro que a profissão docente continua precária e precisa ser reestruturada e revalorizada-- assim como o próprio ensino, diga-se de passagem. Especialmente porque não há uma coisa sem a outra  -- embora alguns preferiram ignorar essa conclusão simples.


Eu adoraria concordar com "foco no aluno" se este não estivesse embalado em uma retórica de vigilância e cobrança. Sintomático que no texto do Alon não haja nenhuma palavra sobre, pra início de conversa, deixar a profissão de professor do ensino básico mais digna, bem-treinada, estimulante e, principalmente, universalmente mais bem-remunerada (o que, diga-se de passagem, automaticamente atrairia o melhor material humano à profissão). Não, há até mais ênfase é na "vigília" dos pais do que nessa questão. É muito irônico ver essa ênfase em alguém que diz "de esquerda". Até porque alguém de esquerda deve saber muito bem que as bandeiras pela melhoria de condições dos professores não se tornou repetitiva e arrastada já há muitos e muitos anos só por ser "trololó", mas principalmente porque tem sido sistematicamente ignorada ou ouvida muito a contragosto.

Não que a avaliação profissional seja algo menor; muito pelo contrário, acho que o professor deve ser constantemente cobrado pela qualidade de seu trabalho, e é VITAL que se desenvolva uma avaliação eficiente. Mas comigo não tem negociação: primeiro garanta-se a universalização de salários e condições de trabalho minimamente decentes ao professores. Depois disso podemos até discutir "remuneração variável" e afins como estímulo à qualidade (ou mesmo pequenas bizarrias como "pais assistirem as aulas dos filhos via internet"). Mas o Brasil tem um triste histórico de querer "instaurar" meritocracia sem nem se dar ao trabalho de garantir direitos mínimos.
Óbvio ululante: não há como reestruturar e valorizar o ensino sem valorizar aquele que FAZ o ensino. É da mesma maneira na saúde: qualquer declaração sobre a "importância da saúde" que venha acompanhada de crítica a greves de profissionais médicos que ficaram meses sem receber salário é hipocrisia ou estupidez.
Mas a lógica atual -- inundando a Veja mas transparecendo até no texto do Alon -- parece ser tratar o professor como um "operário de fábrica" diante dos patrões... alguém de quem se cobra produção de peças que lhe são estranhas e que (na visão dos patrões) só reclama porque "é malandro" e "quer trabalhar o mínimo possível".
Eu disse "operário"? Maldito eufemismo. Não, se tomarmos a Veja e Ioschpe veremos que já se foi mais longe:  gratuita e mal-disfarçadamente, equipara-se professor a bandido:
"É curioso: nossos governantes criaram coragem para invadir o Morro do Alemão, mas as universidades públicas continuam sendo consideradas território perigoso demais para a ação saneadora do estado. Esculachar bandido armado de metralhadora é mais fácil do que peitar os doutores da academia, que permanecem livres para perpetrar seus delitos intelectuais" (Veja, 22/12/2010).

Não é lindo?

Todo mundo já teve professores preguiçosos, incompetentes ou imbecis enrolando aulas ou arrotando autoridade pra encobrir sua deficiência. Fácil encontrar por aí um sentimento comum e vago de revolta (principalmente pensando quão ruim anda o ensino). Assim como todo mundo já foi mal recebido por algum funcionário público, ou tem algum conhecido ou conhecido de um amigo que é funcionário público e que adora se gabar de como ganha bem trabalhando pouco e como tem esquemas para fugir e evitar serviço... aí é até fácil, pelas bordas, mobilizar e canalizar esse ressentimento coletivo comum como força política (como bem o soube o Collor).

Situação hipotética: aparece um professor e/ou funcionário público conhecido de alguém, indignado: "porra, eu dô um duro do caralho e ganho pouco. Não mereço ser tratado assim, não mereço ser chamado de malandro, nem vagabundo, nem defasado ou incompetente!"

Resposta possível do amigo querelante "Ah, mas não quero me referi a você. Não quero dizer que são todos assim! A questão é que sem dúvida há um monte deles por aí, e é preciso se livrar deles! Ou você vai negar que não conhece um monte de safados, mamando nas tetas e regalias públicas?"

Realmente, há um monte de picaretas por aí. Como identificá-los?

Pra Veja & Cia é fácil. É só se juntar coletivamente, fazer algum protesto, alguma passeata: são automaticamente tudo vagabundo.

Ou seja, bandido.

Cacete neles.

11022011

...Sim, o dia de hoje é uma data palíndromo. A primeira que notei sozinho antes que alguém me avisasse.

Dã.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Racismo e Eleições

Vamos começar por uma "máxima". É velha na minha cabeça, e eu a guardava para ocasião talvez melhor; mas não tem como mantê-la guardado neste post.

É o seguinte: no Brasil, alguém que acredita que criminalidade não tem nada nada a ver com pobreza é necessariamente um racista.

Simples assim. Se a frase não for auto-explicativa, dedique um tempo a pensar nela. Dica: pense nela enquanto olha a cor predominante dentro dos presídios, ou entre os traficantes maltrapilhos em fuga no recente Tropa de Elite 3 ao vivo. Dica 2: pense no que implica achar que essa predominância não tem nada a ver com pobreza.

Passemos ao resto do post.

*  *  *

Se eu lesse, ficaria tentado a achar que se tratava de uma caricatura, de um exagero desonesto. Infelimente, sobrou pra você esse papel, leitor.
Começou num encontro de família, meses atrás, antes do segundo turno. Uma senhora de mais de 70 anos -- que, aliás, eu não conhecia, embora saiba que parentes dela me viram com uns 4 anos-- sentada a uma mesa, eu por coincidência em frente.

Ela começou: "não é que eu seja racista"...

... eu pensei logo: lá vem. E veio. Fui previdentemente informado que, num futuro próximo, não seria possível para um branco como nós andar em um metrô sem que os pretos se juntem à nossa volta e nos assaltem e matem.

Não os bandidos, os criminosos, os marginais, veja bem: OS PRETOS.

Quem me conhece sabe que tenho olhos muito pequenos, então devia fazer pouca diferença o fato deles estarem incredulamente arregalados. Me lembrei de como vivo num ambiente relativamente protegido, onde esse tipo de opinião soa tão tosca que parece mentira ou apenas ironia. É bom ser trazido à realidade. Quer dizer, bom não; é necessário.

Falei para essa senhora algo previsível: como a questão desses marginais hipotéticos não era serem negros, mas de serem criminosos crescidos na pobreza e na marginalidade. Disse a ela que aquela declaração era racista.

"mas não, eu não sou racista"

Me vi explicando -- como quem fala para uma criança -- que a posição que ela havia adotado era POR DEFINIÇÃO racista, pois colocava na RAÇA a conta dos problemas sociais.
Ela pareceu levemente sacudida com minha resposta; me pareceu que "fiz sentido" aos seus ouvidos (ou talvez tenha sido pelo abruto tom professoral que adotei, sei lá). O fato é que a conversa foi indo para aquela senda tristemente previsível (tristemente porque tem que ser repetida N vezes apesar de óbvia) da escravidão ser muito recente, da questão da pobreza e etc.

"Ah, mas um monte de gente progrediu e saiu da pobreza. Porque eles não progrediram?"

Aí fui pra questão da formação e educação, eu tentando explicar que o marginalidade era uma cadeia de pobreza e ausência de formação passando de geração a geração. Ela comenta que eles não educam os filhos, deixam aí tudo largado, e viram esses bandidos.

E eu: "E a senhora acha que 'eles' não educam seus próprios filhos por quê?"

"Não adianta, eles não fazem. Não é do instinto deles".

...Instinto.

(e isso dito com um tom, se não me engano, quase condescendente.)


E não: ela realmente NÃO se achava racista.

Ora, mas uma velhinha senil e carola -- que na mesma ocasião também disse coisas como "Michel Temer adora o diabo" e "Dilma é assassina, é lá das FARC" (sic) -- não precisa ser o exemplo necessário, é caricato demais. O casal de netos (acho) dessa senhora, um tanto mais "modernos" e de idade próxima à minha, se limitaram a dizer, em tom jocoso, mais ou menos que "só sei que hoje, pra ser favorecido no Brasil tem que ser preto, favelado ou bandido".

Hm. Não diga.



*  *  *

Agora, um depoimento indireto. Minha irmã me contou do comentário de uma pessoa que conheço: de família rica (ou talvez ex-rica seja mais preciso), tradicionalista e paulistana; curso superior, mais ou menos a minha idade, honesto (até onde sei), inteligente. Uma pessoa que eu já respeitei mais.

Bem, disse ele que realmente acreditava que no fundo os homens negros seriam em geral intelectualmente inferiores por natureza aos brancos.


A bem da veracidade, devo alertar que como não o vi dizer isso pessoalmente, não vi as entonações possíveis da declaração. No relato, minha irmã pareceu imitá-lo com um ar reflexivo, de quem realmente acreditava no que dizia. A bem das especulações, sou capaz de imaginá-lo falando a frase com um certo ar de "dura verdade que precisa ser dita e que os de coração mole, hipócritas e 'politicamente corretos' têm que encarar".

Continuando com a especulação: não seria absurdo imaginar que, quando questionado do porque achar isso, ele  responderia que as "evidências" estariam aí. Afinal, porque os negros não progrediram e continuam pobres depois desse tempo todo? Ora, vamos! Porque vemos tantos que insistiriam na preguiça, no vício, no crime, limitados a trabalhos subalternos?..."porque são menos capazes!"

E a velha senhora de antes concordaria. E não se sentiria racista ao fazê-lo: afinal, ela compreenderia que "não está no instinto deles"...




Não, senhor Ali Kamel, não somos racistas. Eu é que sou sensível demais!



*  *  *

Agora, o que isso tem a ver com as eleições?
Acontece que os personagens todos têm em comum serem brancos, paulistas e votarem em... preciso dizer?

É CLARO que ser tucano não é ser racista, nem conservador, nem carola, pelo amor de deus. Mas se você tem dúvida de em quem os racistas de ambos os tipos descritos acima votaram... ou se não souber em quem votaram os carolas espalhadores de panfleto mentirosos, ou os anti-nordestino, ou os senhores distintos apoiadores e -- porque não também? -- os participantes de nossa ditabranda militar... bem, ou você é muito ideologicamente comprometido ou muito, muito obtuso.

Ao meu ver, deixar todo esse pessoal puto da vida, se mordendo e contorcendo de desgosto, já seria per se um motivo pra se votar na Dilma. Não o único, e certamente não o melhor; um motivo com aspectos até mesquinhos, meio sádicos e levianos. Mas foi um motivo relevante pra mim.


E votei.
*  *  *

A todos vocês, senhores que despertam meu asco e que certamente não me lerão aqui, eu digo: vão tomar nos vossos cus. Em particular ao senhor, senhor Ali "não somos racistas" Kamel: no seu também.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

E eu fiquei feliz por ter achado isso engraçado

Pois é, o Wilbor é reconhecidamente um espaço de exercício do humor obscuro. Muito da obscuridade de certas piadas vêm de fazerem sentido apenas a uma determinada categoria envolvida. Pois é aí que chega este post.
Através do blog de S. McCloud, cheguei num texto que me fez rolar de rir. Eu ainda não tinha tido contato com isso: humor voltado especificamente para designers gráficos! E fiquei feliz porque, mesmo não sendo um designer gráfico, não só entendi como genuionamente ri às gargalhadas.
Sobretudo porque eu sou um dos alvos do texto.

***

Eu ODEIO comic sans. Juro. Já há mais de uns 8 anos -- desde antes de começar a estudar e a me preocupar com escolha de fontes -- eu a acho uma letra feinha, fuleira, pouco fluida e infantilizada. De vez em quando vejo pessoas que gosto comentando como acham ela legal; volta e meia um(a) aluno(a) tem a infeliz idéia de usá-la num trabalho. Já pensei em escrever a respeito no blog, mas o assunto me pareceu irrelevante demais.

Aí, via McCloud, cheguei à seção "pequenos monólogos imaginados" (short imagined monologues) do blog da revista McSweeney's, e descobri que não estou sozinho em meu ódio.
E é pra nós, os desprezadores, que Mike Lacher escreve a hipotética resposta indignada da própria fonte: "I'M COMIC SANS, ASSHOLE". Traduzo livremente aqui o primeiro parágrafo:


SOU COMIC SANS, SEU BOSTA
Escuta aqui. Eu sei da merda que você tem falado aí pelas minhas costas. Você acha que sou estúpida. Acha que sou imatura. Acha que sou um malformado e patético rascunho de fonte. Bom, pense de novo, nerd de merda, porque eu sou Comic Sans e sou a melhor coisa que aconteceu à tipografia desde o porra do Johannes Gutenberg. 

Agora, vá lá no original e leia o resto, que é muito bom e estou sem tempo e muito menos disposição de traduzir tudo.

Outro monólogo obscuro, nerd e engraçadíssimo é este: O cara que escreveu o texto flutuante no início de O Império Contra-ataca critica o texto flutuante de O Retorno de Jedi usando uma série de slides animados de powerpoint que envolvem um número de fotos comprometedoras de George Lucas.

Sim, isso é o título.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Eu nunca quis ser jovem

Um dos blogs de arquitetura que visito ocasionalmente é A Barriga de um Arquiteto (cujo nome, salvo engano, vem do filme The Belly of an Architect, de Peter Greenaway). Seu mantenedor, o lusitano Daniel Carrapa, é também um arquiteto-professor-blogueiro e, além de escrever muito bem, tem um campo de interesses e reflexões com vários pontos de tangência aos meus (academicamente, inclusive). O post de Carrapa que reproduzo mais abaixo -- e que não é sobre arquitetura -- me pareceu particularmente relevante. 
 Lina, tempo e espaço.
A citação inicial de Lina Bo Bardi me chama atenção não só pela pessoa citada-- arquiteta que admiro não só pela arquitetura em si, mas pela rara e preciosa imbricação "modernista" entre elaboração arquitetônica e visão política/estética do mundo; mas porque eu, ainda que sempre um tanto moleque e acostumado a ser  "o mais novo" várias vezes em diversos contextos, nunca fui exatamente encantado com a minha própria juventude. (Devia ter postado isto quando fiz trinta anos, em abril...)
Meu interesse no texto está também no fato de que, embora um pouco mais novo, eu me veja forçosamente incluído na "geração" que Carrapa define como sua.


Eu nunca quis ser jovem
Daniel Carrapa
Eu nunca quis ser jovem. O que queria era ter história. Estas palavras de Lina Bo Bardi são hoje tão contra-corrente que merecem reflexão. O modo como encaramos o acto de envelhecer muda durante o percurso de uma vida inteira. Todos sabemos, em abstracto, que vamos morrer um dia. Mas, enquanto jovens, a abstracção esmaga-lhe o significado. É bom ser imortal.

Recordo-me do tempo em que envelhecer tinha um sentido de desfasamento das coisas. Ficar velho é perder o fio da contemporaneidade, é o caminho para a incompreensão do presente, na linguagem, na música, na moda. Ah, quanta arrogância.

Há um momento na vida em que a morte, por uma conjugação de factos, se torna real. Percebemos que a morte está lá, algures na nossa frente, inevitável. Para alguns a consciência trará temor, angústia. Para todos, talvez, um enorme sentido de perda das coisas, de toda a experiência, todo o saber que se vai perdendo em nossa volta, até que nós próprios nos extingamos, um dia, no vazio do esquecimento dos outros.

Presumo que não seja fácil ser jovem, hoje. Mergulhados num mundo que os envolve em subtilezas, adquirindo comportamentos, costumes, códigos invisíveis. Curioso que a sociedade da televisão produza uma imagem eternamente rebelde dessas criaturas mitológicas, para citar João Lopes, estereotipada à exaustão em mil e uma novelas “para jovens”. Uma estética desalinhada, no penteado, nas calças descaídas, no estilo informal, simulação perfeita de uma irreverência toda ela ficcionada. Quem leia o conteúdo pela superfície tomará essa imagem como digna dos novos hippies, de tão ostensivamente anti-sistema. E no entanto, nos mais pequenos pormenores, se denuncia o afinco de um produto de consumo desenhado em laboratórios de marketing social, fabricando pequenos seres para quem a vida não faz sentido sem os seus iphones e ipods.

Não, não é fácil ser jovem, hoje. Não é fácil resistir aos estrategas dos targets que barricaram o seu trajecto, implacáveis. Não é fácil compreender que nem sempre o que somos e o que pensamos nasceu na nossa cabeça. Que as convicções, os gostos, os desejos, até a formatação dos afectos, nos é incutida por uma profusão de veículos externos afinados para nos seduzir como esponjas. 

Sei que estou a ficar velho. Pertenço a uma geração sem causas. A minha geração não tem nada que a defina para além de uns programas de televisão e umas gasosas que deixaram de existir. Não, nós não fizemos nenhuma revolução, não protagonizámos nenhum conflito de gerações, não vislumbrámos nenhum sentido, não erguemos nenhum símbolo, não alvitrámos doutrina em que valesse a pena erguer uma sociedade. Na melhor das hipóteses, mostrámos o rabo a um qualquer ministro por causas fúteis há muito esquecidas de todos.

Somos uns rebeldes na nossa cabeça. Uma coisa apenas nos define. Não gostamos muito uns dos outros. Mal educados para a vida em comunidade, somos complacentes com os nossos defeitos que intoleramos, passe a palavra, em todos os outros. Desengane-se quem tome tal por desatenção ou charme latino. É, tão só, uma tragédia.
Sim. Eu sei que estou a ficar velho.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Dia do Arquiteto II: Pensando Grande

Continuando as festividades arquitetônicas... aqui vão dois vídeos do BIG (Bjarke Ingels Group), grupo dinamarquês super jovem (o chefe-título tem 35 anos), que considero um "descendente" do O.M.A. de Rem Koolhaas.

O primeiro vídeo é uma fala de Bjarke para o TED. É de certa forma um apanhado de seu  livro instigante, pop e malandrão Yes is More -- sobre o qual ainda falarei no futuro.




O segundo vídeo é uma apresentação de seu Pavilhão Dinamarquês na China já construído... a partir de uma abordagem um tanto inusual: com o próprio arquiteto andando de bicicleta pelo edifício.



Seguindo a linha da fala em TED, deste outro vídeo aqui e de seu livro, Bjarke insiste sempre em ser personagem e protagonista de suas criações e explicações.

Mas esses caras certamente se divertem com o que fazem.

Dia do Arquiteto & Arquiteto do dia: Rem Koolhaas

Pra não deixar passar em branco o dia, uma vez que estou de volta à arquitetura.

Este texto a seguir é a transcrição/tradução para o português lusitano (que peguei do site Cosmopista) do discurso que o Arquiteto Holandês Rem Koolhaas (já citado antes aqui) pronunciou em 29 de maio de 2000, por ocasião do recebimento do Prêmio Prizker -- o "Prêmio Nobel" da arquitetura.
Feito há dez anos atrás, o discurso continua bonito, interessante e completamente pertinente.
(Tradução de Lucas Girard e Gabriel Kogan. Grifos e links são meus...)

Rem Koolhaas - Discurso do Prêmio Pritzker.

"Eu preparei um pequeno discurso. E talvez eu deva começa-lo com uma anedota. Pode ser uma anedota estranha, mas vir da Holanda e ter nascido em 1944 significa paradoxalmente que eu fui ignorante na questão do Judaísmo até os 21 anos. Na minha juventude, no meu país, era completamente incomum apontar as origens religiosas ou raciais de alguém, era um assunto que nunca falávamos. Isso mudou drasticamente quando eu fui pela primeira vez à Nova Iorque, e fui recebido, no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos, liderado pelo arquiteto Peter Eisenman, que a meu ver merece o Prêmio Pritzker ainda mais que eu.

A primeira vez que estive lá, Peter Eisenman me pegou pelo casaco, assim, de uma maneira bem agressiva, e disse: “Você sabe por que você está aqui, Koolhaas?” E eu disse, “Não”. “Você está aqui para representar o elemento Gótico”. Então isso me pôs em meu lugar e provavelmente explica alguns dos meus sentimentos aqui. De qualquer forma, eu quero começar pelos meus agradecimentos. Eu agradeço Cindy Pritzker e a família Pritzker e a sua fundação por sua excepcional identificação com arquitetura. Eu agradeço ao júri pela tão inspirada decisão este ano. Eu agradeço aos meus parceiros em meu escritório O.M.A. Todos e cada um dos quinhentos e cinqüenta deles fizeram contribuições que agora se mostram cruciais. Eu agradeço ao Harvard Design School por apoiar minha dupla vida como futurista. Eu agradeço aos meus clientes que engatilharam nosso trabalho encarregando-nos de suas necessidades.

Depois de meus agradecimentos eu escrevi três pequenas anedotas, ou três pequenos episódios que para mim indicam tanto o passado recente da arquitetura quanto a atual situação da arquitetura e o, talvez provável, futuro da arquitetura. E eu quero discutir algumas das potenciais evoluções que eu – se não for cuidadoso, afastarei da possível evolução num futuro iminente. 


Eu quero começar em 1950 – cinqüenta anos atrás. Cinqüenta anos atrás, a cena arquitetônica não apoiava-se num indivíduo singular, o gênio, apoiava-se no grupo, no movimento. Não havia cena. Havia um mundo arquitetônico. A arquitetura não lidava com a maior diferença possível, mas sim com as sutilezas que poderiam ser desenvolvidas dentro de um estreito campo de semelhanças dentro da generalidade. Arquitetura era um continuum que terminava com o urbanismo. Uma casa era vista como uma pequena cidade. A cidade vista como uma imensa casa. Esse tipo de arquitetura enxergava-se como ideológica. Sua política abrangia todo o caminho entre o socialismo e o comunismo e todos os pontos intermediários. Grandes temas foram adotados para além da arquitetura, não a partir da imaginação individual da cabeça dos arquitetos. Os arquitetos estavam seguros em seu alinhamento com o que então se chamava sociedade, algo imaginado e que podia ser fabricado. 


Agora estamos em 2000, cinqüenta anos depois da idílica caricatura que eu descrevi a vocês. Nós temos Pritzkers, temos uma quantidade razoável deles sentados aqui na primeira fila – portanto nós temos identidades únicas, singulares, assinaturas até. Nos respeitamos um ao outro, mas não formamos uma comunidade. Não temos projetos juntos. Nosso cliente não mais é o estado ou suas derivações, mas indivíduos privados frequentemente envolvidos em ambições arriscadas e trajetórias dispendiosas, que nós arquitetos apoiamos sinceramente.

O sistema é final. A economia de mercado. Nós trabalhamos numa era pós-ideológica e por falta de apoio nós abandonamos a cidade ou quaisquer outras questões gerais. Os temas que inventamos e sustentamos são nossas mitologias privadas, nossas especializações. Nós não temos discurso sobre organização territorial, nenhum discurso sobre povoamento ou co-existência humana. No máximo nosso trabalho brilhantemente investiga e explora uma série de condições singulares. O fato de que essa aparência de sítio arqueológico é enfatizada acima de sua responsabilidade política mostra que a inocência política é uma importante parte do equipamento do arquiteto contemporâneo.

Fico grato que o texto do júri para o prêmio 2000 me descreva como definidor de novos tipos de relações, tanto teóricas quanto práticas, entre arquitetura e a situação cultural. Isso é de fato um sentido do que estou tentando fazer. Apesar de prever muito mal o futuro, muito preocupado com o presente, deixe-nos especular por um momento sobre o próximo intervalo de cinqüenta anos – a arquitetura como vai ser praticada em 2050 ou, se tivermos sorte, um pouco antes.

Um desenvolvimento é certo. Nos últimos três anos, brick and mortar (tijolo e argamassa) evoluíram para click and mortar (1). O retail (varejo) virou e-tail e não há como exagerar na importância destas coisas. Comparado ao brilho ocasional da arquitetura agora, o domínio do virtual afirma-se com abandono selvagem e confuso e está se proliferando numa velocidade que podemos apenas sonhar. Pela primeira vez em décadas, e talvez no milênio, nós arquitetos temos uma competição muito forte e fundamental. As comunidades que não podemos imaginar no mundo real vão florescer no espaço virtual. Os territórios e demarcações que mantemos no chão são fundidas e moldadas além do conhecido num domínio muito mais imediato, glamuroso e flexível – o da eletrônica.

Após 4000 anos de fracasso, o Photoshop e o computador criam utopias instantaneamente. Nessa cerimônia neste local, a arquitetura está ainda fundamentalmente comprometida com a argamassa, como se apenas a proximidade com um dos maiores acervos reunidos da história da humanidade nos assegurasse outros 2 mil anos de usufruto de nosso nicho particular, e de nossa futura credibilidade. Mas o resto do mundo já liberou a arquitetura para nós. A arquitetura tornou-se a metáfora dominante, um agente controlador de tudo que necessita de conceito, estrutura, organização, entidade, forma. Apenas nós arquitetos não nos beneficiamos desta redefinição, ilhados em nosso próprio Mar Morto de argamassa.

A menos que quebremos nossa dependência do real e reconheçamos a arquitetura como uma maneira de pensar sobre todos os assuntos, do mais político ao mais prático e liberar-nos da eternidade para especular sobre novas, atraentes e imediatas questões, como a pobreza, o desaparecimento da natureza, a arquitetura talvez não chegue ao ano 2050.

Obrigado.



Rem Koolhaas”



(1) Expressão usada para denominar empresas e instituições que utilizam tanto a internet quanto o espaço não-virtual para realização de atividades (por exemplo, um banco que tem o ‘internet banking’ e também suas agências).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

EUREKA! EUREKA!


Pois é. Falei que ia encontrar. E que ia postar inteirinha aqui quando o fizesse.
Mas não esperava fazê-lo a tempo de constar no nosso aniversário de 5 anos!!
Ei-la: a história em quadrinhos de Fernando Gonsales que inspirou o nome deste Wilbor: "Que rostinho lindo", devidamente digitalizada e adaptada ao formato de visualização de nosso humilde blog. (Hooray!)

Por um fortuito e surpreendente acaso, encontrei a revista perdida de minha coleção em uma feira de livros e revistas usados no Largo do Machado: a Níquel Náusea nº 22, de abril de 1994. É a sincronicidade agindo a serviço de nosso querido Wilbor.

O momento mais preciso que inspira o nome do blog está na quarta página da história (que tem 7).
Antes que o leitor estranhe, já aviso: no original, não é Wilbor quem se revolta. Mas se o  leitor considerar a opção original, creio que há de concordar que, para se nomear um blog, foi uma troca até feliz.
Com vocês, a HQ:

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Som regional é tiroteio

... morando aqui no Rio, eu estava pensando em comentar algo sobre a surrealidade hiperreal desta última semana. Mas aí me mandaram este texto, que de certa forma já diz tudo.
Enquanto não tenho tempo pra elaborar algo especificamente meu pra dizer, segue a porrada do Mate com Angu.


SOM REGIONAL É TIROTEIO

Por matecomangu




Saio do texto. Ouço imagens e vejo sons…

Queremos a democratização e descentralização dos traçantes regionais pros médios e altos. A burguesia folclórica, que curte um tiroteio, tem que ter história pra contar.

É inaceitavel que só as zonas norte e oeste tenham acesso a esse bem cultural.

Dar tiro é arte pra quem ouve e vê. Eu, particularmente,  gosto de bombas e tanques. Fuzis e metralhadoras. Sangue seco escorrendo pelo chão. Uma risada diabólica fazendo o refrão. Foice.

Agora diz pra mim, que cidadão nascido e criado em Ipanema teve o prazer de ter sua alma vomitada por uma rajada de AK-47 no meio de um bloco carnavalesco? Boom! E que criança já teve seu big barraca (mac) arrancado das mãos dos homens de preto?

Silêncio profundo sendo perseguido pelas batidas fortes do coração.

Sacudindo a espinha,  queremos compartilhar essa parada com os desprovidos de informação.

Exijo que o caveirão destrua as caixas de som da Baronneti e jogue gás de pimenta nos mauricinhos que frequentam o Empório. Que as UPPs ocupem o Alto Leblon e que os maconheiros do posto 9 tomem tapa na cara por conta de um baseado. Que o baixo Gávea seja reprimido pelo choque de ordem e que o parque Garota de Ipanema vire reduto dos crackeados.

Que no pedal overdrive, meu fuzil não ganhe flores cor de rosas do último enterro. E que, marcando o ritmo, a Glock 9mm não ecoe longe feito ensaios de segunda à tarde na beira do valão.

Quero ver granada na Vieira Souto e desfile de mortos na Avenida Atlântica.

Queremos igualdade.

E não tem nada melhor do que dividir nossas experiências bebendo água de coco.


Josenstein
o cerol gordinho da baixada.