segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CQC (apud Arnaldo Branco e Marjorie Rodrigues)



É um alívio quando alguém expressa bem algo que nos incomoda e que não conseguimos ainda articular suficientemente bem.
Eu e muitos outros temos sentido há tempos um buraco no humor brasileiro, a falta de uma verve política interessante. Bem, no meio disso o tal do CQC do Marcelo Taz, franchise de um programa argentino homônimo, começou a dar o que falar.
Fui assistir e, sinceramente, não fiquei impressionado. Aí comecei a ler opiniões de outros bloggers que também não ficaram (como a Marjorie).
(Aliás: embora eu tenha dedicado esta tira meio hermética ao Ali Kamel, foi um texto pseudo-inteligente do Danilo Gentilli, do CQC, que medeu ganas de finalmente fazê-la... texto bem criticado aqui.)

A melhor crítica ao programa que vi foi feita num longo texto da Marjorie Rodrigues.
Mas a formulação definitiva, o punchline, eu vi no texto "O mito do humor inteligente", do Arnaldo Branco:


"Às voltas com acusações de hermetismo de gente que nunca viu um filme dele, Woody Allen sempre responde quando perguntam porque costuma ser confundido com um intelectual: “É que eu uso óculos”. Aqui acontece algo parecido: nós confundimos humor raso com inteligente por causa do adereço, é por isso que os caras do CQC usam terno. Do contrário, todo mundo perceberia que aquilo é um programa ordinário de pegadinha que sacaneia político em vez de empregada doméstica."


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8 comentários:

Marcílio - o gêmeo malvado disse...

Excelente:

"um programa ordinário de pegadinha que sacaneia político em vez de empregada doméstica".

Ainda que sacanear domésticas seja infinitamente pior, e que expor certas figuras do nosso congresso como os ignorantes que são tenha um sabor interessante.

Gabriel disse...

Concordo.

Maria Luiza de disse...

No começo do Programa era até engraçado... parecia tudo novidade, um humor mais inteligente do que o do Pânico... mas algum tempo depois começou a cair no mesmo... humor raso do concorrente.
Aqui na Argentina, os argentinos parecem gostar desse tipo de humor raso... só resta uma questão: é isso que queremos como humor?
Para responder, eu não gostaria de uma cópia de algum programa de humor norteamericano como "Saturday Night Live" ou algum stand up qualquer... queria algo brasileiro... nada de "zorra total" (humor xulo e sem graça) ou panico... algo inovador como os brasileiros são.

Marcel disse...

Concordo quase que integralmente com os outros comentários, só que pontuo duas coisas:

1 - em se tratando de políticos é sempre interessante ver eles tomando uma “carcada”, mesmo que seja uma pegadinha abestalhada.

2 - não acho que necessariamente a proposta do programa seja um humor inteligente, é a mesma historinha: “a malicia está em quem escuta...” Quero dizer, com certeza, a analise da indumentária com terno sugere algo, digamos, mais sofisticado, mas pode ser que não. Ora, pode ser uma proposta de "escrachamento" generalizado, vez que na verdade, os ternos sempre estão desalinhados e são de corte ruim, poderiam sugerir algo do tipo um jornalismo desmazelado.

Isto posto, o que me indigna no programa ora em questão, é o tal do quadro "proteste já", onde basicamente se vai a um rincão qualquer do Brasil, por uma reclamação qualquer, onde rola um pressão por parte do CQC encima de um suposto responsável por determinada obra pública. Ocorre, que quem sgeralmente toma a bucha é um sujeito que possui um cargo subalterno que mais está preocupado em manter o emprego do que a dignidade. Além de que, é a mais pura hipocrisia cobrar uma explicação para muito dos casos, visto que não é culpa dos achincalhados pelo programa e sim de toda a sistemática estatal que, em verdade, não observa o princípio da efetividade da administração pública, seja por excessos burocráticos, ou descaminhos administrativos. Assim, quem muitas vezes são assediadas pobres diabos ou até pessoas bem intencionadas que não tem o poder decisório para resolver. Ainda, dificilmente se verá um governador ou um prefeito de grande cidade sendo posto contra a parede neste quadro. Em resumo, pura baboseira.

Marcel disse...

Concordo quase que integralmente com os outros comentários, só que pontuo duas coisas:

1 - em se tratando de políticos é sempre interessante ver eles tomando uma “carcada”, mesmo que seja uma pegadinha abestalhada.

2 - não acho que necessariamente a proposta do programa seja um humor inteligente, é a mesma historinha: “a malicia está em quem escuta...” Quero dizer, com certeza, a analise da indumentária com terno sugere algo, digamos, mais sofisticado, mas pode ser que não. Ora, pode ser uma proposta de "escrachamento" generalizado, vez que na verdade, os ternos sempre estão desalinhados e são de corte ruim, poderiam sugerir algo do tipo um jornalismo desmazelado.

Isto posto, o que me indigna no programa ora em questão, é o tal do quadro "proteste já", onde basicamente se vai a um rincão qualquer do Brasil, por uma reclamação qualquer, onde rola um pressão por parte do CQC encima de um suposto responsável por determinada obra pública. Ocorre, que quem sgeralmente toma a bucha é um sujeito que possui um cargo subalterno que mais está preocupado em manter o emprego do que a dignidade. Além de que, é a mais pura hipocrisia cobrar uma explicação para muito dos casos, visto que não é culpa dos achincalhados pelo programa e sim de toda a sistemática estatal que, em verdade, não observa o princípio da efetividade da administração pública, seja por excessos burocráticos, ou descaminhos administrativos. Assim, quem muitas vezes são assediadas pobres diabos ou até pessoas bem intencionadas que não tem o poder decisório para resolver. Ainda, dificilmente se verá um governador ou um prefeito de grande cidade sendo posto contra a parede neste quadro. Em resumo, pura baboseira.

Gabriel disse...

Marcel, foi bom você ter tocado nesse ponto. Lembro de que uma das poucas vezes que assisti CQC vi justamente um desses quadros em que o subalterno-que-não-apita-nada acaba pagando o pato. Fiquei com um mal-estar de ver isso.

Não é que a revolta das pessoas contra a ineficiência pública e a cara-de-pau dos políticos seja indevida, muito pelo contrário; mas fico com a impressão que esse tipo de pegadinha se ancora em sentimentos baixos e rancorosos do público, que quer ter algum judas para malhar.

Outra coisa que me incomoda que se apóia num tipo de chauvinismo generalizante (tipo: ódio por funcionários públicos ou "político é tudo corrupto") que se passa por "consciência política" e que, na minha opinião, é um dos sentimentos mais danosos ao desenvolvimento de uma política melhor neste país. Eu vejo essa atitude de monte aqui no Rio de Janeiro.
(chamo isso também de "espírito do panelaço", mas ainda quero escrever um post longo a respeito...)

Marcel disse...

Também senti um desconforto ao assistir este quadro que citei anteriormente.
Realmente Gabriel, as pessoas têm a tal da indignação generalizada, mas que realmente, são as mesmas pessoas que quando vislumbram uma modificação mínima na vida política ficam com medo de tudo, com medo de perder o status quo, mesmo que ele esteja bem mais ou menos.
Faço uma analogia besta, mas sincera, qual seja, a que, p. ex., no trânsito todo mundo critica que o próximo dirige pessimamente, mas quase todos falam isso. Então, concluimos que são os marcianos que fazem nosso trânsito, já que ninguém olha para o próprio umbigo.
É o mesmo que acontece no "proteste já", todo mundo reclama, mas tem medo de mudança na hora do voto.
...Não acho que tenha me expressado direito neste comentário, mas vá lá, quebra o galho!...

Gabriel disse...

hehehe deu pra entender bem sim, Marcel.

O Caco galhardo fez uma HQ que saiu na Piauí que ilustra um pouco nosso ponto, uma hora coloco ela aqui.