sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Espírito de porco

Mês passado eu comprei e li "Retalhos", de Craig Thompson (Blankets, no original).
É belo, é eficiente, e é invejável.

Não vou resumir a história do livro, mas quero falar sobre a linguagem dele.


O domínio de comunicação, expressão e composição visual de Thompson são impecáveis. Contudo, apesar de contar com várias experiências formais, todas elas estão dedicadas à envolver o leitor, a criar empatia e imersão no interior da história.

Thompson consegue desenvolver uma formidável empatia com o leitor com sua narrativa e seu desenho. Isso, na verdade, é um item necessário para o sucesso da história, que é de cabo a rabo uma exploração de sua intimidade e sua formação emocional na infância e na adolescência. Infância e adolescências que não foram trágicas, mas foram certamente infelizes e agustiadas, marcadas por uma solidão e por um sentimento de culpa tão intangíveis quanto absolutamente onipresentes. Sentimentos contra as quais o desenho era a principal forma de fuga, redenção e liberdade.


Aqui está a imensa maestria de Thompson: ao usar o desenho para contar sua vida, ele consegue fazer com que a própria história seja uma ilustração e exemplo de sua própria relação com o ato de desenhar. Ao tranformar o sofrimento e o enlevo abstratos da juventude e infância em formas palpáveis, o livro de Thompson, de certa maneira, ENCARNA justamente a função "salvadora" do desenho como auto-expressão.

(De certa maneira, podemos até pensar que ser desenhista foi a opção que Thompson, crescido numa família cristã fanática daquelas bem americanas, preferiu a se "entregar a Jesus". Mas isso é assunto pra outro post)


Há uma fantástica gama de formas comunicativas que Thompson emprega; o desenho vai de um realismo "simplificado" até a linguagem mais cartunesca, viaja pelo simbólico e pelo expressionista.

Mas acredito que essa mudança de formas não quer apenas mostrar o virtuosismo do artista, e nem se trata de artifício para "temperar" a empatia com o leitor na representação. Por exemplo: tenho comigo que Thompson é daqueles que compreendem que há horas em que as pessoas -- especialmente as crianças -- FALAM e se comportam de maneira cartunesca, no sentido de que os personagens "cartuns" SÃO referências de seu comportamento. E, por outro lado, compreende que há delicadezas de sentimento que só podem ser sugeridas de maneira sinestésica, à lá expressionismo ou simbolismo.

Na verdade, dá pra fazer um artigo inteiro simplesmente com uma "leitura semiótica" das diferentes formas de representação empregadas. (Hm. Talvez eu mesmo faça isso, quando tiver mais cara-de-pau... afinal, é possível fazer "leitura semiótica" de qualquer coisa. Mas esta seria uma daquelas que valem mesmo a pena.)

Tenho certeza que Thompson teve um trabalhão dos diabos pra fazer o livro todo. Fora o tamanho absurdo (tem umas 500 páginas!!) , é certo que existe uma reflexão enorme por trás de cada página e cada desenho, para conseguir um sistema de representações ao mesmo tempo variadas, coerentes , envolventes e eficientes.

No entando, não é isso que parece: o desenho parece tão fluido, tão espontâneo, tão natural, que dá raiva.
(E, ainda por cima, foi tudo feito com pincel -- um instrumento que eu nunca aprendi a usar. É ofensivo!)


Mas bem: e porque o título desse post é "espírito de porco"?

Ora, porque um invejoso como eu não podia deixar de apointar defeitinhos mesquinhos em meio às maiores qualidades do artista.

Olhe a bela página abaixo, na qual o artista-narrador, adolescente, admira sua namorada adormecida.


A moça amada, neste desenho tão meigo e belo, tem dois pés esquerdos.

Olhe lá com atenção: o pé está trocado, está ao contrário. O dedão devia estar à direita, o mindinho à esquerda.


Foi um erro tão crasso que me chamou atenção imediatamente. Mas a competência do artista era tanta que olhei os desenhos do livro mais vezes, pra ver se o pé aparecia trocado acontecia mais vezes. Se fosse o caso, talvez pudéssemos entender se tratar de alguma metáfora visual, uma simbolização que me passou despercebida.

Não era. Era um erro mesmo. E, não só foi feito errado, como tudo contribui pra chamar a atenção pro erro: ele é um pé grande; é a única parte da namorada que sai do do quadro; é o último elemento visual que vemos na composição inteira, antes de virar a página.... de maneira que eu, pelo menos, não consigo deixar de notar que ele está errado.
(vou perguntar pra minha irmã psicológa o que isso pode significar em termos de "ato falho"... hehehe)


Pois bem, essa foi minha contribuição de hoje para os invejosos do mundo.
Agora, por favor, vão lá comprar o livro e ler.


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5 comentários:

Amósis Calazans disse...

Pelo texto na página ("She is perfect") parece mais que foi intencional que um erro. Se for uma metáfora, não precisa aparecer outras vezes na história (apareceria mais vezes se fosse um defeito físico).

Por essa página, parece mais uma antítese onde ele mostra o que ele achava dela (ela é perfeita) enquanto ignora algo óbvio, que mostra que ela não é perfeita.

Mas só posso julgar pela página em questão, uma vez que não li o gibi todo.

bruno azevêdo disse...

}ô. belo texto!
cara, o lance da forma como conteúdo. o expressar pelo desenho não ser só o desenho parece muito com o que o mutarelli fez nos primeiros livros dele e na caixa de areia.
tem um trecho na caixa de areia no qual ele chama um cara pra fotografar as cenas pra provar que a fotografia seria capaz de captar mais coisas.
o que tô falando é que o desenho funciona não só como forma de captação do mundo, mas como forma de relação com o mundo e isso não existe muito fácil não.
intrigante agora pensar como o mutarelli mudou ao escrever livros, que excluiram exatamente o elemento desenho da equação.
tenho que ler o retalhos

Gabriel disse...

Olá Amózis, obrigado por comentar!

O detalhe para o qual você chamou atenção é sim muito relevante, e me fez olhar de novo algumas coisas...

Deixe-me antes explicar uma coisa.Quando falei da "repetição" para constituir um símbolo me referi ao seguinte: TODOS os símbolos visuais de Thompson nessa HQ são usados várias vezes, são constantemente retomados. Se você ler o álbum, isso vai ficar evidente.

Mas eis que, reavaliando a obra a partir do que você falou, vi que a "charada" pode estar resolvida justamente em uma das páginas que escolhi colocar no meu post!
(eu escrevi o começo deste post há mais de um mês, e fui escolher as imagens de exemplo só no dia em que postei...)

Olhando agora, o símbolo do "pé errado" JÁ esteve presente no desenho da "mulher nua" (pág. 209)...

Agora estou com pressa, mas assim que der vou re-olhar o livro. Se for mesmo um símbolo, vou atualizar o post desdizendo a minha "crítica" e propondo a consagração de thompson como um filhodumégua genial.

Amósis Calazans disse...

Valeu aí pelo comentário, Gabriel! =)

Gabriel disse...

Só voltando:

Re-olhei o Retalhos e concluí que Thompson tem um pequeno problema com o desenho de pés mesmo :)
Os pés errados se repetem algumas outras vezes, de maneira quase imperceptível, e não só com a Raina...
O pé errado não chega a configurar um "símbolo thompsoniano" não.