domingo, 7 de dezembro de 2008

Tropicalista Lenta Luta

O feio e brilhante e esquisito e perturbador e baiano Tom Zé foi uma dessas coisas que entraram fulminantes e de uma só vez na minha vida, através de um show no Centro Acadêmico da USP de São Carlos. Saí do show, comprei dois cds. Não sabia nada ainda.

Ano passado ganhei um livro dele (pedido) e baixei a discografia quase inteira. Fiquei surpreso com a coerência, a invenção, a compreensão de estruturas tácitas e não-questionadas de nossa audição.
Tom Zé, ao que me parece, também já teve seu auge. O que fez nos últimos tempos acrescenta muito pouco à inventividade do que fez nos anos 70 -- mas ainda assim não é nada desprezível.

Falo por aí: "o cara é muito bom". Ouço de vez em quando em resposta um não contrariante mas reticente "... ele é louco..."

Tom Zé não é louco. (porra). Não vou defender que ele seja normal ou equilibrado. Mas ele não é um Arthur Bispo do Rosário, e ler um texto dele deixa isso claro.

Me pareceu que o fundamental é que ele pensa torto. A tortuosidade de seu pensamento, sua língua e sua música, porém, são pensadas, são planejadas desde o início de sua carreira. A música , de 72, diz bem:

Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair

Tô dividindo prá poder sobrar

Desperdiçando prá poder faltar

Devagarinho prá poder caber

Bem de leve prá não perdoar

Tô estudando prá saber ignorar

Eu tô aqui comendo para vomitar

Eu tô te explicando

Prá te confundir

Eu tô te confundindo

Prá te esclarecer
Tô iluminado

Prá poder cegar

Tô ficando cego

Prá poder guiar


Suavemente prá poder rasgar

Olho fechado prá te ver melhor

Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência

Carinhoso prá poder ferir

Lentamente prá não atrasar

Atrás da vida prá poder morrer

Eu tô me despedindo prá poder voltar


Em 73, em plena ditadura militar em seus momentos mais desagradáveis, Tom Zé fez um disco com uma capa um tanto... inovadora:


http://www.sabadabada.com/IMG_3920.JPG


Pra quem não entendeu: aí em cima temos uma bola de gude sobre um ânus. Originalmente ampliado pro tamanho de um bolachão vinil, claro...
(o exemplo mais próximo de algo assim que eu conheço foi feito pelo Pink Floyd na capa do álbum "Meddle"... mas ainda assim era muuuuuito distante em atrevimento)

Bem, nesse disco, entre outras músicas muito esquisitas, ele pôs esta seguinte pérola (ou bola de gude) em muito sobre a pressão "heróica" do "artista de esquerda" brasileiro... (Enfim, deve ter desagradado quase todo mundo.)

Complexo de Épico

Todo compositor brasileiro é um complexado.
Por que então esta mania danada, esta preocupação
de falar tão sério, de parecer tão sério
de ser tão sério
de sorrir tão sério
de chorar tão sério
de brincar tão sério
de amar tão sério?

Ai, meu Deus do céu, vai ser sério assim no inferno!

Por que então esta metáfora-coringa chamada "válida",
que não lhe sai da boca, como se algum pesadelo estivesse ameaçando
os nossos compassos com cadeiras de roda, roda, roda, roda?

E por que então esta vontade de parecer herói ou professor universitário
(aquela tal classe que, ou passa a aprender com os alunos
- quer dizer, com a rua -
ou não vai sobreviver)?

Porque a cobra já começou a comer a si mesma pela cauda,
sendo ao mesmo tempo a fome e a comida.



(tá admito: eu plagiei -- ou melhor, me inspirei -- nesta música para um post que fiz uns tempos atrás.)



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Um comentário:

Gabriovaldo Erasmo disse...

Só pra constar: este post começou a ser escrito bem antes da recente querela mediática do Caetano com o Tom Zé. Assim sendo, não tem nada a ver com ela e não faz referência a ela...