terça-feira, 11 de setembro de 2007

Infeliz aniversário



Antes de alguém me acusar de anti-americanismo por ocasião desta piada velha (que eu nunca vi ninguém fazer, mas que certamente alguém já fez), deixem-me explicar o que a motivou.

Me dei conta outro dia de que, na minha cabeça, o último acontecimento da história comparável ao atentado das torres foi o lançamento das duas bombas atômicas em 1945.
Obviamente são acontecimentos completamente diferentes.
Por quê compará-los?

Consegue lembrar de algum outro acontecimento de destruição de grandes proporções que fosse repentino, violento, deliberado, voltado contra pessoas inocentes e – o mais importante -- que tenha, de uma tacada só, reconfigurado certos aspectos da dinâmica política do mundo?
E detalhe: reconfigurado as tensões políticas – em termos de discurso, ao menos -- pela pressão e o medo de coisas guardadas ou escondidas, e não tanto daquilo que está sendo efetivamente empregado...

Hiroshima e Nagasaki marcam o auto-coroamento napoleônico dos EUA como nação mais fodona do planeta. E é claro que não é coincidência a ironia de que seu “evento espelho”, o 11/07, ocorra justamente contra os EUA. Curiosamente, não deixa de ser ação e reação.

Agora, cuidado, vamos explicar melhor: não é porque os EUA “mereciam” umas porradas que terroristas se suicidaram com dois aviões sobre duas torres; mas simplesmente porque, desde 1945, eles são a porra do país mais poderoso e espaçoso do planeta (espaçoso no sentido de ocupar espaço, não de tê-lo, veja bem). Aliás, uma redundância: poder só existe na medida em que é exercido; portanto, ser mais poderoso é ser mais espaçoso...
Ser espaçoso é, entre outras coisas, pisar na grama dos outros, dar palpites na comida da vizinha, acotovelar todo mundo a cada movimento mais brusco. Em suma: é atrair inimigos. Mais espaço (territorial, econômico, cultural) se ocupa, maior a superfície de atriro, mais inimigos se faz.

Outro jeito de colocar a coisa: sem Hiroshima (e sem bomba atômica e sem a consagração dos EUA como superpotência) é muito provável que nunca chegássemos a um mundo em que alguém faria algo tão extremado e exagerado como os atentados do dia 11. Simplesmente porque não haveria alguém grande, poderoso e superlativo o suficiente para merecer essa atenção. (Bem, talvez a Rússia de outrora... mas deixemos pra lá).


Lembro de como estava eu e meus colegas de graduação no dia 11.
No meio de uma aula, o Rafael sai da sala para atender o celular. Ele volta interrompendo o professor e falando: “Ô. Terceira guerra mundial. Tacaram um avião no Pentágono”.

(divertido pensar que, no mesmo instante, o presidente da nação atacada estava numa sala de aula também...)

Não houve mais aulas no resto do dia, todos estupefatos diante de TVs à espera de notícias.

Naquele dia e nos dias imediatamente seguintes: lembro que, diante do acontecimento e do choque geral, fomos tomados de uma vaga euforia, ao mesmo tempo leviana e maníaca. Mais fazíamos piadas do que nos horrorizávamos, embora também estivéssemos horrizados e apreensivos – e talvez menos com o atentado do que com suas prováveis conseqüências.

(Claro, isso pra nós, distantes, seguros e estrangeiros, ainda que colonizados. Imagine a comoção deles. Não seria de surpreender se houvesse uma temporária interrupção coletiva do raciocínio lógico nos EUA...)

Essa reação meio-eufórica não era simples algazarra de adolescente ou “anti-americanismo” universitário (embora incluísse algo de ambos); tratava-se, principalmente, da emoção estranha e cruel de ver a história DE VERDADE acontecendo.

Por que era "História de verdade"?

1. Porque era mortalmente séria, repentina, chocante, de um só golpe e, ao contrário de cataclismas naturais e grandes acidentes, completamente política;

2. Porque era com alguém que, de certa forma, conhecíamos intimamente; Disney, Mathew Broderick, Daryl Hanna, Transformers, Superman, Stallone; nosso big stick, nosso Caramuru; nosso grande irmão lá de cima (com trocadilho)

3. Porque era um fato inteiramente coreografado e formatado especialmente para nós, das gerações nascidas e criadas já sob jugo completo da TV. Em algum recôndito íntimo, talvez nos parecesse que aquele efeito especial real (obra-prima da ficcionalização hiperreal da vida) fosse feito e dedicado apenas a nós -- como, inconscientemente, nos parece o olhar terno ou ardente da atriz através das câmeras. Eis o que permite que nos conectemos tão facilmente a essa ficção: esse buraco, essa incompletude que compartilhamos nós, filhos do tubo catódico, criados côncavos para que a mídia se faça convexa sobre a Terra.



(Nossas piadas na época agora me fazem pensar: muita gente deve ter tirado sarro quando soltaram as bombas nos japoneses...)



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4 comentários:

Marcelo disse...

Belíssimo texto Gabriel!!

O 11 de setembro foi a coisa mais importante que testemunhei, lembro de ter acordado pouco depois do primeiro avião, aquele prédio em chamas em todos os canais, a CNN falando em acidente e cai o avião do pentágono...uma amiga minha,a Cris, me liga e pergunta o que é aquilo, se o mundo estava entrando em guerra.

Lembro de ligar pro pessoal dos EUA, de ouvir liberais querendo matar alguma coisa que não sabiam bem o que era.

Mas foi tudo isso aí que você colocou mesmo.

Ah, e eu nunca tinha parado pra pensar que certamente tiraram sarro das bombas no Japão.

G; disse...

A IMAGEM DESTE POST QUEIMOU O FILME DO BLOG PERANTE A COMUNIDADE INTERNACIONAL

G; disse...

Ninguém comenta este post porque todos têm medo de queimarem o filme perante a comunidade internacional

bruno azevêdo disse...

CARA, ESSE TEXTO É SUPER-FODÃO!
vai rolar no chá das 5 da comunidade internacional em alguns anos.
o grande capiroto domestica qualquer coisa!