segunda-feira, 1 de setembro de 2008

pecado

(...) são poucos no Brasil que, poucas vezes, usam o termo “estadunidense”, e eu entendo: é feia essa palavra: o sumiço do plural de “estados” me causa desconforto, para só dizer o mínimo; e na verdade “americano” quer, no mais das vezes, dizer “relativo aos Estados Unidos da América”, que, indo mais longe do que no caso da África do Sul, é o único país cujos colonizadores não sentiram necessidade de nomear, tomando o nome do continente para si, como se dissessem: “América é onde chegamos, o resto é nada” - e é a partir disso que se comporta a língua ao redor desse conceito; acho natural e saudável que tentemos reagir a isso, mas “estadunidense” não é uma boa solução - nem “estados unidos” é propriamente um nome: o nome é América, “estados unidos” equivale a “república federativa” ou a qualquer outra designação genérica - e, de fato, o México é Estados Unidos do México e o Brasil foi, até pouco tempo, Estados Unidos do Brasil; quando aceitamos o equívoco termo “americano” como significando “dos Estados Unidos”, ou mesmo “norte-americano” (já que este se aplicaria igualmente ao México e ao Canadá), estamos apenas usando uma palavra pelo que ela mais freqüentemente significa: resistirmos a isso não mostra mais nossas forças do que nossas fraquezas) (...)




Peço perdão, mas aqui tive que mostrar um momento de pagação de pau minha para com Caetano Veloso.


O belo e rocambolístico texto completo, sobre Caymmi (mostly), está aqui.

2 comentários:

Marcel disse...

Eu geralmente falo norte-americanos, quando me refiro ao povo dos E.U.A, mas nunca pensei em algo tão ressentido, apesar de estar ciente da impropriedade do termo, falo por uma questão de divisão mesmo, não havia pensado nessa verdadeira "autoanálise" que você dissecou aqui Gabriel, e diga-se de passagem, com grande dose de verdade...
Também acho estéril tal suposta 'revolução pessoal" quando o sujeito diz: "Oh, nós todos somos americanos, o certo é estadounidenses (talvez sonhando lutar contra uma ditadura)..."
Por outro lado, acredito que dizer "América Latina" ou "América do Sul", já é um divisor de águas, esse sim deveria ser dito por nós com mais orgulho e talvez um pouquinho de ufanismo (mas só um pouquinho, afinal não vivemos em casernas).
Claro, que da mesma forma que mencionar estadosunidenses mostra nossa fraqueza, também demonstra o preconceito diretamente proporcional, pelo menos, ao que me parece, quero dizer, que quanto um americano quer se referis a si como a grande nação do mundo eles se referem a americanos e América Latina ...

Gabriovaldo Erasmo disse...

Tem um post meu, no Wilbor antigo em que eu só digo que nunca vou usar esse termo "estadunidense" porque é feio demais.

Mas aí esse texto do Caetano elaborou melhor a coisa e me lavou a alma. (foi ele que dissecou, não eu hehehe)