sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Retrospectiva literária 2007 -- 2

PAGE, Martin. Como me tornei estúpido. Rio de janeiro: Rocco, 2005


Um livro superfrancês e superdivertido para os que fazem parte ou aspiram à “intelectuália” sem perder aquela que, segundo Voltaire (era ele mesmo?), era o antídoto para a vaidade: a capacidade de rir de si mesmo. Não vou falar muito do livro de Martin Page, mas apenas vou me limitar a colar dois trechos longos que adorei ler nesse livrinho tão curto.

O primeiro trecho transcrito abaixo me chamou atenção pela imensa afinidade que me fez sentir em relação ao delicado protagonista do romance. (em outras palavras: parece eu, só que mais francês e mais “mariquinhas”.


Sobre Antoine:

Tinha poucos amigos, porque padecia dessa espécie de anti-sociabilidade que resulta da demasiada tolerância e compreensão. Os seus gostos não-exclusivos, disparatados, baniam-no dos grupos que se constituíam a partir de desgostos comuns. Se ele desconfiava da anatomia odiosa das multidões, era sobretudo a sua curiosidade e paixão desprezadoras de todas as fronteiras e clãs que faziam dele um apátrida no seu próprio país. Em um mundo em que a opinião pública está confinada nas pesquisas às possibilidades sim, não e sem opinião, Antoine não queria preencher nenhum quadradinho. Ser a favor ou contra era para ele uma insuportável limitação às questões complexas. Além disso, possuía uma delicada timidez à qual se aferrava como a uma reminiscência infantil. Parecia-lhe que um ser humano era tão vasto e tão rico que não poderia haver maior vaidade neste mundo que estar demasiado seguro de si com respeito aos outros, com respeito ao desconhecido e às incertezas que cada um representava. Por um momento teve medo de perder a sua singela timidez e juntar-se ao bando dos que nos desprezam se não os dominamos; mas, graças a uma vontade obstinada, soube conservá-la como um oásis da sua personalidade. Apesar de ter recebido numerosos e profundos ferimentos, isso nada lhe tinha enrijecido o caráter; ele guardava intacta a sua extrema sensibilidade, que, como uma fênix, renascia mais pura que nunca cada vez que era maltratada e morta. Enfim, se acreditava razoavelmente em si mesmo, esforçava-se por não acreditar demasiadamente, por não concordar facilmente com o que ele próprio pensava, pois sabia como as palavras do nosso espírito gostam de nos prestar serviço e nos reconfortar logrando-nos.
(p. 14)

Aqui abaixo, o final do texto de Antoine dedicado a introduzir e explicar a seus amigos a razão de querer se tornar estúpido.
“Evidentemente, os intelectuais não são os únicos a quem compete a inteligência. Em geral, quando alguém começa a dizer ‘não é para ser demagíogico, mas... ‘ é efetivamente para ser demagógico. Por isso, eu não sei dizer muito bem o que poderia ser interpretado como condescendência. Estou convencido de que a inteligência é uma virtude compartilhada pelo conjunto da população, sem distinção social: há igual porcentagem de pessoas inteligentes entre os professores de história e os marinheiros-pescadores bretões, entre os escritores e os datilógrafos... Isso o sei pela minha própria experiência, à força de me aproximar de brain-builders, pensadores e professores, intelectuais idiotas e, ao mesmo tempo, de pessoas normais, inteligentes sem certificado de inteligência, sem a aura institucional. Eu não posso dizer outra coisa. É tão contestável quão impossível é um estudo científico. Encontrar alguém inteligente e sensato não é função do diploma; não há teste de Q.I. para revelar o que se poderia chamar bom senso. Eu ´penso e repenso no que dizia Michael Herr, roteirista de Nascido para Matar, no seu magnífico livro sobre Kubrick: ‘a estupidez das pessoas não deriva da sua falta de inteligência, mas da sua falta de coragem’.”
“Uma coisa que se pode admitir é que, freqüentar grandes obras, servir-se do seu próprio espírito, ler livros de gênios não asseguram a ninguém inteligência, mas tornam isso provável. Naturalmente, há pessoas que terão lido Freud, Platão que saberão fazer trocadilhos com os quarks e ver a diferença entre os falcões-peregrinos e um peneireiro, e que, todavia, serão renomados imbecis. Não obstante, potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando o seu espírito freqüentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente da mesma maneira que uma doença. Pois a inteligência é uma doença.”
(p.63-65)
Comment je suis devenu stupide
( ...detalhe: enquanto pesquisava imagens para este post, descobri que já existe peça de teatro feita para esse livro – com aquela adorável moça, a Paula Picarelli -- e blog dedicado a ela.
...É duro ser desinformado!)


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Um comentário:

Marcelo. disse...

Bacana! Vais me emprestar este livro jusnto com as 20 outras promessas.

abração!