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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

De repente, mijão



Agorinha mesmo eu tava lendo esse artigo da piauí: De repente, Bolsonaro, que trata de páginas do facebook que mudam de nome e levam consigo, para uma causa qualquer, todas os fãs da causa anterior.

Com melhor da minha fé na humanidade, comecei a imaginar que talvez alguns dos meus amigos que curtem páginas absurdas o fazem por acidente: tenho dois amigos que curtem a página "orgulho de ser hetero". Investigando as informações da página percebi que houve sim uima mudança de nome: até junho de 2015 chamava-se "Orgulho de ser macho". Era meio grosseiro e idiota, então trocaram.

De repente me ocorreu: e eu?

Entrei no meu próprio perfil e me pus a pesquisar todas as curtidas, desde os primórdios da rede - e olha que eu sou early adopter...todo mundo acha que tá no face há muito tempo...eu tô há mais tempo. Quando cheguei, eram só mato e estrangeiros.

Explorar as curtidas antigas é um processo arqueológico: eu sou a única pessoa da minha rede que curte a página "Unofficial: Nigel Mansell" - sempre achei mais legal que o Senna; também cruzei com preciosidades como "Raptor Jesus!" - última publicação em 2012; e o "Club de Fans de Cecilia : La restauradora del Cristo de Borja".

Não achei nenhuma página que eu tenha curtido que tenha virado "reaças unidos" ou "Bolsonaro meu macho"...ufa!

Só encontrei uma página estranha, "Xixi na cama tem solução". Mesmo processo: fui em "Informações e anúncios > Informações da página e... voilà!!! houve sim uma mudança de nome.

A página se chamava, originalmente, "Clínica psicológica".

Descurti. Eu não sou seguro a ponto de permitir que as pessoas pensem que eu sou seguro a ponto de curtir uma página confessando micção noturna em público, ora porra!

Minutos depois, olhando pro site, eu descobri que se trata da página de uma conhecida minha, que se formou em psicologia e, provavelmente, se especializou nisso. Eu curti a página dela pra dar aquele apoio inicial.

Fiquei com vontade de curtir de novo: "Que reação boba, Marcelo. Quem vai achar que você faz xixi na cama?" e confessar nas redes sociais?

Daí achei que se eu escrevesse um textão bem humorado - ei-lo - eu estaria autorizado a fazê-lo...pra continuar dando aquela força. O problema é que agora aparecerá como curtida recente. Meio como se agora, beirando os 40 anos, eu tivesse ligado o foda-se, decidido que eu posso passar a andar vestido de veludo (referência pra poucos) e assumir que eu tenho um problema, que não teria porque esconder do mundo que de vez em quando eu acordo molhado.

Entre o sentimentalismo bobo e o meu orgulho próprio (não confundir com orgulho de ser macho, não sinto nenhum), fiquei com o segundo.

Eu não faço xixi na cama! Não mais.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Morte e vida Severina

O motivo deste texto é recomendar a leitura de "Morte e vida Severina" e relatar a minha emoção em ver a versão animada, linkada adiante, mas no fundo é pura digressão.

Li a obra prima de João Cabral de Melo Neto na escola, por vontade própria - ou, como tudo, um pouco provocada. Salvo engano foi em 1992, oitava série. A minha turma foi a penúltima a ter aulas de "Organização Social e Política do Brasil" (OSPB). Pra quem nunca ouviu falar nisso, OSPB era uma disciplina que reunia conteúdos de Ciências Sociais e explicava o funcionamento do sistema político, administração pública, um tiquinho de Direito Constitucional.  Mesmo manco, o conteúdo me interessava muito, até porque eu não tinha noção nenhuma do que me faltava de fato, os conteúdos de Filosofia e Sociologia, amputados pelos governos militares.

Eu estudei numa escola particular católica da primeira série ao terceiro colegial, o Colégio Marista de Maringá. Era considerada uma ótima escola, na qual a elite maringaense educava os seus filhos. A maioria dos alunos era composta por filhos de políticos, empresários, grandes fazendeiros e profissionais liberais bem sucedidos. Tinha garoto do primeiro colegial que andava de moto, crianças cujos pais eram donos de aviões teco-teco e um bom número de alunos que praticavam hipismo...só pra ilustrar os "problemas de gente rica" que faziam parte do cotidiano do Marista, teve uma menina que ficou famosa por ter tido o nariz arrancado por uma mordida de cavalo. Eu era um dos poucos filhos de professores. Junto com os filhos de bancários e funcionários públicos, fazia parte de uma  pequena "segunda classe" na escola. Lembro de um negro nos meus 11 anos naquele colégio. 

Naquele tempo não me parecia que os pais do Marista se incomodassem com "doutrinação comunista". Meus professores de história, geografia e OSPB eram, provavelmente, pessoas de esquerda. Lembro de professores que promoveram debates em sala de aula sobre as eleições de 1989  (5a. série). Lembro de uma aluna criticando o comunismo, num desses debates, com um argumento infalível: "então o Roberto Freire devia dar metade das suas coisas pra uma família pobre". O Roberto Freire era o candidato pelo PCB, as pessoas achavam que ele era comunista - era o candidato do então reitor da Universidade Estadual de Maringá, então meu vizinho, que o trouxe pra falar num evento de colação de grau no ginásio esportivo da cidade.

Tive, portanto, algumas dessas professoras de história que praticavam a "doutrinação marxista" através do péssimo hábito de evidenciar as coisas feias do país tropical e explorar as suas raízes. Preciso dizer que essas professoras foi mal sucedidas, em grande parte: até onde tenho notícias, nenhum dos meus colegas se tornou um comunista. É possível e provável que hoje alguns deles pensem o contrário, que "O Marcelo virou comunista, um a mais do que o limite do aceitável".

Voltando ao motivo do texto, eu já entendia, em abstrato, o que significava a seca no Nordeste.  Primeiro porque o semiárido nordestino, a seca, a fome, faziam parte da paisagem cultural brasileira. As gretas de contração (procurem e aprendam), o gado magro ou morto, os retirantes, as crianças magras ocupavam, com uma  triste frequência, parte importante dos noticiários na TV - sinto informar, mas quem nasceu para a política no período pós-Bolsa-família não tem noção da gravidade do problema.

Lembro-me de uma série de livros adotados na disciplina de OSPB chamada "Viagem pela Geografia". Os livros dessa série eram parcerias entre um autor ficcionista e um professor universitário do ramo. Eram pequenos romances que buscavam ilustrar aspectos relevantes do conteúdo didático. Lemos dois desses: "Cuba em perspectiva", de Fernando Portela (jornalista) e José Herculano da Silva e "A seca no Nordeste", parceria de Fernando Portela com o geógrafo Joaquim Correia de Andrade. Imaginem quais seriam as reações dessa elite emebêelizada dos dias de hoje? Enfim, o livro sobre a seca explicava conceitos que eu não conhecia, foi a primeira vez que tive contato com o conceito de "indústria da seca". Certamente uma das primeiras vezes em que eu entendi o funcionamento grosseiro da política como instrumento de perversão. A ideia de que as secas no nordeste eram exploradas por coronéis e políticos para a manutenção de seus "currais eleitorais" me fez compreender, pela primeira vez, que certos políticos preferiam e agiam ativamente para não educar o povo. Preferiam manter a população na ignorância impedindo-a de enxergar suas reais motivações ou não investir em saúde, fazendo do tratamento das enfermidades uma graça concedida  através da devoção às suas figuras, concretizada eleitoralmente.

Em algum momento nessa discussão, não sei se no livro ou no debate de sala de aula, foi citado o poema de João Cabral de Melo Neto. O poema "Morte e vida Severina" foi, para mim, ao mesmo tempo um choque de realidade e abstração. A compreensão do tema me deu uma sede de desvendar as sutilezas da escrita do autor que, no fundo, é direto pacas. Foi capaz de colocar imagens na minha cabeça que me fizeram chorar. Foi arte que transformou, para mim, o flagelo da seca em realidade concreta.

Meu segundo contato com a obra foi também na escola. Novamente numa aula de história, novamente com uma fracassada doutrinadora do comunismo. O filme "Morte e vida Severina", de 1981, apresenta a versão musicada de Chico Buarque, só porque na vida da gente tem desses momentos em que a genialidade pura se manifesta e, se tem algo de que este país não padece, é da falta das artes.


O trecho mais conhecido do poema, talvez por conta da versão do Chico, é quando Severino "Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério":



Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida


É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio



Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida



É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo



É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo



É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada não se abre a boca



É a conta menor que tiraste em vida


É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)



Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca



Descobri agora uma animação do poema, já não tão recente, que merece muito ser vista. É bonita em todos os sentidos: fora a poesia, o desenho é lindo, apresenta uma estética de quadrinhos e uma sensibilidade para retratar a crueza da realidade de "Morte e Vida" que me pôs a escrever.


Morte e Vida Severina é uma obra que deveria fazer parte do repertório de todo brasileiro. Rever esse poema me faz pensar no quão artificial e cruel é a manutenção da pobreza das populações mais frágeis do país. Ou em como um partido como o PMDB - agora sem "pê" - serve não apenas aos interesses do mercado mas, como um partido que funciona como uma confederação de coronéis e caciques regionais, lhe interessa, sistemicamente, o retorno dessa condição que parecia superada: a exploração da fome como instrumento de domínio e controle social.

Aziz Ab´Saber escreveu, em 1999, um texto chamado "Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida", que considero um dos textos mais geográficos, de fato, já produzidos no Brasil. Pra quem se interessar, o link está aqui. Eu recomendo a leitura integral, mas como sei que a primeira parte do texto, que trata da geografia física requer uma certa familiaridade com o jargão da Geomorfologia, sugiro que comecem a leitura pela segunda parte do texto "A última grande seca do século".

Há seis anos, o Nordeste encara mais uma grande seca. Dessa vez, não vimos as imagens das ondas de retirantes chegando aos grandes centros urbanos, do gado morrendo, do drama da fome. Isso se deve, incontestavelmente, aos programas de segurança alimentar, em especial, ao Bolsa-família. Os retrocessos promovidos por Michel Temer e seu governo, em nome da entidade "O Mercado", representado no Planalto pelo PSDB, e dos interesses dos caciques regionais de seu partido, o PMDB, de latifundiários, senhores de engenho do século XXI.

Enfim, a produção artística de um país é certamente um instrumento civilizatório. Artistas são especialistas em ilustrar, comunicando-se com as nossas sensibilidades, a condição humana. Morte e Vida Severina é uma dessas obras que, em minha experiência pessoal, serviu como gatilho para conectar um conhecimento formal, que já existia em mim, com a importância de tê-lo e, mais importante, de sensibilizar-me para com a realidade descrita.


"a realidade é tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta."

"Uma faca só lâmina", João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Brasil, país jiujiteiro



Um amigo achou essa imagem sei lá onde. Meus pensamentos*:

1. quem acha que o braço do Bolsonaro é assim nunca viu os vídeos dele fazendo flexão com batalhões da PM por aí;

2. sou partidário de abrigar o Bolsonaro numa jaula temática do Aquário de São Paulo, com esse cenário aí: umas ruínas em chamas, bandeira do Brasil e o bicho segurando o fuzil;

3. tenho uma sensação muito nítida de que o eleitorado do Bolsonaro é maior entre o público do UFC - tirando por algumas pessoas no meu face que fui encontrando nas comunidades de apoio à candidatura dele...vamos chamar de amostra qualitativa;

     3.1. a opção da Globo por promover o UFC como esporte nacional e, antes disso, o próprio sucesso do Jiu-Jitsu brasileiro aliado à carência nacional de ser foda em alguma coisa, talvez tenha criado essa nova imagem do machão brasileiro: os caras que querem quebrar tudo e acham que a solução do Brasil é ter um presidente que vai resolver tudo na porrada (ignorando o fato de que no fundo o cara é um corrupto E um fracote).

Viva a capoeira!



*ruminações livres de qualquer rigor acadêmico.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

das interpretações do golpe (ou não?)

Noam Chomsky falando sobre a situação do Brasil. Simples, conciso, direto:


"É uma espécie de 'golpe branco'. A elite detestava o Partido dos Trabalhadores e está usando esta oportunidade para se livrar do partido que ganhou as eleições. Não vão esperar pelas eleições, que provavelmente voltariam a perder, mas querem se livrar dele (PT), explorando uma recessão econômica, que é grave,  e a maciça corrupção que foi exposta. Mas como até mesmo o New York Times apontou, Dilma Rousseff talvez seja a única liderança política que não roubou para se beneficiar. Ela está sendo acusada de manipulações no orçamento que são comuns em muitos países, tirando de um bolso e colocando em outro, o que talvez seja um malfeito de algum tipo, mas que certamente não justifica um impeachment. Temos a única líder que não roubou para enriquecer sendo impedida por uma gangue de ladrões que o fizeram. Isso de fato conta como um 'golpe soft'."

O texto a seguir não é exatamente sobre essa fala de Chomsky, mas sobre o discurso de uma ala de intelectuais na esquerda do nosso espectro político, incapazes de propor qualquer coisa que passe um da pura demonstração de erudição a serviço de porra nenhuma.

Lembro aqui que eu posso estar equivocado sobre as minhas conclusões. Tenho uma formação de origem naturalista, tendo migrado, posteriormente, para o terreno movediço das humanidades, portanto, meio diferente da maioria dos acadêmicos de formação puramente humanística. Sou um determinista. Pois bem, penso que "golpe soft" ou "golpe branco", utilizados por Chomsky, são os termos que melhor descrevem o movimento político que está em curso no Brasil.

Parte da esquerda tem rebolado junto com a direita, embora de forma mais elegante e prolixa, para explicar que o que acontece aqui não é um golpe.

Idelber Avelar compartilhou há pouco um texto de Marcus Fabiano Gonçalves, professor de direito na UFF, no qual o último explica que golpes de Estado, na definição de muitos autores clássicos, requerem uma tomada violenta do poder, ou, minimamente repentina. Aviso, o texto é bastante extenso, demanda muita disposição.


Para o autor, o fato de que Dilma vem se enterrando lenta e longamente numa situação política insustentável faz do termo "golpe" muito mais uma questão de retórica política, o que desqualificaria o fenômeno da definição clássica de golpe de Estado:

"A palavra 'golpe' nos chega pelo latim vulgar colpus, anteriormente grafada colaphus, 'bofetada, soco, murro', originando-se, por sua vez, do grego kálaphos (κάλαφος), 'tapa na cara, pancada na face'. Ou seja: a partir da analogia que se procura nesse gesto, compreende-se o 'golpe' como uma medida enérgica e repentina desferida contra certa ordem estabelecida. E ninguém precisa ser um grande cientista político para constatar que Dilma Rousseff não sofreu nenhum solapamento súbito. Muito antes pelo contrário: a sua sustentação popular e parlamentar veio paulatinamente erodindo-se até o limite da ingovernabilidade desde as manifestações de junho de 2013, coisa perceptível em estrondosas vaias (como as da Copa do Mundo), sonoros panelaços e múltiplas defecções de sua base aliada, outrora fidelizada à custa do Mensalão que produziu as condenações da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal."

Para usar a expressão de Sokal & Bricmont, "fashionable nonsense". O texto começa bem, o autor demonstra seus traços de erudição através de um vocabulário rico - que se mantém até o final do texto, ao contrário da qualidade da argumentação.

Gene Sharp e Noam Chomsky, explicam essa modalidade relativamente moderna do golpe, o chamado "golpe branco", no qual os agentes golpistas se utilizam do aparato legal e formalidades jurídicas para atingir o poder. O caso paraguaio é citado no texto justamente para expor as diferenças do que aconteceu por lá com a nossa versão da coisa:

"Corretamente chamado de 'golpe relâmpago', tal episódio não pode, em hipótese alguma, ser posto em paralelo ou suscitado como algum precedente razoável para a situação brasileira do afastamento constitucional de Dilma Rousseff, mesmo porque ele tampouco envolve um caso gravíssimo de corrupção como o que atinge o partido e os auxiliares mais diretos da Presidente do Brasil. Não bastasse isso, as diversas e longas oportunidades de defesa aproveitadas pelas representações de Dilma Rousseff chegaram ao limite do constrangimento e da ruptura do decoro parlamentar quando, na própria Câmara dos Deputados, o Advogado Geral da União chamou, sem pejos, os mandatários lá reunidos de 'golpistas', coisa que, em qualquer país de sólida tradição democrática, ensejaria as mais contundentes exigências de desagravo."

Para Gonçalves (e Avelar, por adesão) o processo brasileiro não só não pode ser chamado de golpe no sentido clássico, mas não pode ser comparado a um golpe sob qualquer circunstância. A diferença do caso paraguaio para o nosso é o fato de que por lá os prazos para defesa foram extremamente exíguos e a motivação não teria sido um escândalo de corrupção, mas um pretexto moral (as crias de Lugo). Cabe ressaltar que os tais "golpes brancos" não são vinculados a um prazo específico ou à extensão e complexidade do processo. Pelo contrário, quanto maior a impressão de que os procedimentos foram seguidos à risca, melhor caracterizada fica a coisa. Neste sentido, penso que é justamente o golpe paraguaio que se situa na condição limítrofe dessa modalidade de ruptura democrática, é quase um golpe clássico. A coisa aqui foi cozida em fogo baixo, nossos rabos devidamente lubrificados, o discurso da mídia martelado à exaustão. Fomos vencidos, afinal, pelo cansaço, alienação e bundamolice, conforme ilustrou Laerte, de forma brilhante:



Gonçalves, ao contrário, utiliza o fato de que o procedimento foi conduzido lenta e cautelosamente para justificar sua adesão à tese de que "se o STF respalda o procedimento e existe previsão constitucional para impeachment não é golpe":

"Contudo, desde uma perspectiva constitucional, o processamento do impeachment – cujo rito vem sendo estritamente fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com toda clareza e publicidade em sessões até transmitidas pela televisão –, não há nunca de ser chamado de 'golpe' e, muito menos, de “golpe de Estado”. Golpe de Estado é, isso sim, um atentado à ordem instituída caracterizado por um procedimento de tomada do poder rápido, vigoroso e perpetrado ao arrepio da lei e da Constituição, via de regra mercê do emprego da força militar coativa. Assim, é próprio à dinâmica do golpe de Estado um tipo de agilidade que, impondo surpresa aos seus adversários, cuida de se precaver contra eventuais resistências."

Puta merda, então precisa do elemento-surpresa. Novidade pra mim e pro Brasil, país no qual o último golpe reconhecido por todos foi arquitetado por 10 anos, coincidentemente gestado através de muita propaganda, apoio da mídia e  setores conservadores da sociedade nacional. Sei lá, talvez só o finalzinho conte nessa regra, quando os militares pulam por detrás da cadeira do Jango e gritam "surpresa!".

Dilma, em uma de suas muitas respostas no senado, afirmou que em lugar nenhum na literatura política é dito que golpe de Estado = golpe militar. Não é verdade, há autores que dizem isso...trata-se, porém, de uma leitura anacrônica da realidade política: ou a conjuntura brasileira não comporta um novo golpe militar, ou (o que penso ser o mais provável), simplesmente os interessados optam pelo menor esforço, o golpe parlamentar.

Goste-se ou não de Dilma, é fato que as acusações contra ela não passam de um pretexto para devolver o poder no Brasil aos seus "donos" de fato.


O texto traz alguns elementos interessantes, que podem ser utilizados como justificativa para o raciocínio que pretende conduzir: o marketing político certamente busca o exagero em suas declarações. Não significa, em absoluto, que o processo atual se trate de uma construção de marquetagem...mas pra arrematar o argumento, o autor nos dá a origem da utilização do termo golpe no caso nacional: Paulo Henrique Amorim.


"O rumor do 'golpismo' provém da expressão 'Partido da Imprensa Golpista' (PIG), um vitupério cunhado em 2008 para se denegrir as grandes redes de mídia, das quais foram demitidos alguns jornalistas, desde então, e repentinamente, empenhados em interpretar seus afastamentos como autênticas perseguições ideológicas."

Certo...foi porque PHA criou este vitupério (quer dizer insulto, eu olhei) à grande mídia brasileira, que os néscios da esquerda toda - incluindo Chomsky e Zizek, unidos num só coração - chamam a coisa de golpe. Honestamente, no momento atual não tenho um pingo de paciência pra essa intelectualidade cínica e vaidosa de setores da intelligentsia da esquerda. Serve pra bosta nenhuma.Quem se dispuser a ler o texto me diga depois em qual tipo de discurso reside a exclusividade da retórica política. Enquanto se discute se é permitido chamar a coisa de golpe ou não (como se qualquer coisa dependesse de suas iluminadas cabeças), o golpe é consumado.

Parabéns pelo vocabulário e pela inutilidade.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Brazil, 2016*

Beati futuri, futura possibilia,
(futuro feliz, futuro possível)

Regozijai-vos, povo da Vera Cruz, pois tempos auspiciosos se anunciam!

Com a derrocada do perverso regime comunista que ameaçava os bons costumes em nossa pátria amada, podemos dormir tranquilos sabendo que o futuro será deveras alvissareiro.  As primícias são animadoras: estamos a excisar tudo aquilo que é supérfluo, frívolo e dispensável no nosso novo governo.  Começamos por eliminar um tal Ministério da Cultura, que dentre outras cousas, ocupava-se de regar, com os parcos recursos públicos, abonados artistas.  Ora, nos bons tempos de outrora a pouquidade de normas que incentivavam a execução das artes jamais impediu o surgimento de baluartes culturais: cito Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.  Todos homens do povo, e com vantagens: do melhor que existe do povo. Não precisamos de samba nos morros, mas de gente nos campos e fábricas, construindo e alimentando o nosso povo. A retomada do progresso (sempre de forma ordeira, conforme preconiza o lábaro pátrio) não permite adornos e excessos.

Universidade é outro luxo no qual não devemos mais desperdiçar nossos mui-custosos recursos - até porque estes deverão ser sumariamente privatizados, passando às mãos de probos e valorosos homens de negócios, que saberão explorá-los de forma mais cosentânea, abatendo as sobras indesejáveis de nosso Estado.  A academia foi uma idéia (com acento, como é o certo) deveras interessante.  Bom enquanto durou, mas certamente é uma história de fracasso.  Aqueles que educamos para liderar os rumos da terra-mãe infelizmente sucumbiram, ufanosos e iludidos, aos desvarios marxistas.  Pergunto: que vantagens nos trouxe a tal academia?  Apenas conflitos, nossa gente partida ao meio em dúvidas que lhes foram imputadas por esse povaréu que não entendeu muito bem o que é certo.

Não negamos que o conhecimento oportunize o florescimento de uma nação melhor, mas deixemos isso para aqueles que entendem do assunto: os estadunidenses e cidadãos do velho continente fizeram suas universidades com perícia. Aqueles que quiserem poderão - e serão incentivados - a estudar no estrangeiro, pagando com seus próprios recursos, por óbvio. E não me digam que isso restringirá a educação aos filhos dos abastados.  A riqueza é o prêmio de quem trabalha, vivemos, doravante, o regime do mérito.  Eu mesmo conheço dois rapazotes crioulos, que após adotados por adoráveis amigos foram capazes de atingir empregos admiráveis: médico e administrador no hospital dos pais. Bonito de se ver.



Devemos desfazer confusão que vem sendo propalada por aqueles que buscam a reconstrução do regime rubro: não é verdade, em absoluto, que a mulher não é valorizada em nosso novo Brazil. Pelo contrário, não acreditamos, por um instante sequer, que homens e mulheres sejam iguais. Não é possível, senhores, que caiamos nesse discurso fácil de lésbicas e feministas mal-amadas de que não existem diferenças de gênero - pelo contrário, existem e exigem que tratemos os diferentes, de forma diferente. Está muito claro que nos últimos tempos, muitas damas tem estado aflitas, preocupadas. A razão disso, amigos, é a inadequação do nosso contra-gênero para absorver de forma adequada, os enigmas das conversas políticas.

Mulheres laborando fora do lar foi outra experiência bem intencionada que fracassou.  A tentativa foi pertinente, curiosa, mas não podemos mais arcar com as consequências. Conforme explanamos, a intelectualidade não apraz às mulheres.  É importante que as famílias as eduquem, desde pequeninas, para agradar aos seus maridos - não sem serem recompensadas pelos cônjuges varões: flores e chocolates são sempre excelentes presentes. E às que não se casarem, há sempre a serventia necessária para tratar de seus idosos.  Não queremos dizer que as atividades profissionais estão fora de alcance, de forma alguma, apenas que há atividades adequadas para mulheres de uma sociedade digna: professora de piano é, há séculos, profissão digna que pode muito bem ser exercida por nossas amáveis mulheres, ao menos para aqueles alunos sem maiores pretensões na música.  Lembrem-se também  que uma bela mulher ao piano anima qualquer festejo.

Haverão querelas, estamos certos, mas também sabemos que Ciência e Filosofia são efêmeras nas mentes preguiçosas. Pouco tempo de afazeres domésticos, novelas e revistas femininas deverão dar cabo de eliminar as preocupações tão comuns nos dias de hoje. Há ainda mais motivo para júbilo: com os modernos aparelhos inventados pelos homens, as tarefas do lar estão cada vez mais fáceis, de forma que haverá muito tempo livre para se dedicar a atividades como o tricô, bordado ou conversar com as amigas através do muro ou mesmo por video-chamadas! Beati futuri!

Povo da Santa Cruz, verde-louros, súditos do grande pato! Alegrai-vos, pois o futuro é premente! Construiremos uma nova nação, em nome dos pais e das mães, dos filhos e das filhas, da tradição e da propriedade, em nome de Deus.

Tempos auspiciosos se anunciam!


M.



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*com agradecimentos às amigas Grace e Juliana, pela inspiração.

domingo, 1 de maio de 2016

Serra no Itamaraty

José Serra (cliquem aqui para biografia ilustrada, vale a pena) é o nome mais cotado para exercer o cargo de ministro das relações internacionais. Acho estranho, afinal, o ex-governador de São Paulo é considerado um economista medíocre, o que não lhe confere nenhuma qualificação para atuação na área da diplomacia per se.

       Serra reagindo à luz.

Fico aqui pensando no significado político dessa nomeação: o objetivo é acomodar o PSDB, além de uma série de outros partidos que deram sustentação ao golpe da dupla Temer/Cunha.  Abrir mão de um diplomata de carreira para alojar um político também revela que ou Temer não está muito preocupado com os rumos das relações internacionais do país, ou que a função de negociação com o exterior cabe mesmo a um representante do mercado, e não a alguém que represente, de fato, o Estado brasileiro.  Serra cabe bem no último papel.  A renegociação da partilha do pré-sal evidencia o que Serra já disse antes, em telegrama revelado pelo Wikileaks:

"Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta"

É sabido que o modelo que obriga a Petrobrás se mostrou complicado para a empresa, uma vez que a mesma não tinha capacidade de investimento para explorar em todas as áreas - o golpe fatal sendo a queda do preço do petróleo, que agora se encontra abaixo do custo de exploração do pré-sal.  O valor da empresa caiu de US$380 bilhões em 2010 para 149 bilhões no dia 26/04/2016. No entanto, é importante lembrar que em 2002 a empresa se encontrava estagnada, com valor de mercado de US$15,8 bilhões (9,4 vezes menor que o nível atual).  Enfim, vamos ver qual será o efeito Serra.

Voltando à diplomacia, algumas curiosidades: sabem qual foi a última vez que o chanceler brasileiro não era um diplomata de carreira?

Celso Lafer, no governo FHC, que ocupou o cargo por 702 dias, entre 29/01/2001 a 01/014/2003.

Aliás, da redemocratização até o fim do governo FHC, tivemos 7 ministros (sem contar dois interinos, que somados, ocuparam o cargo por 78 dias), . Sabem quantos desses eram diplomatas?

Dois: Luiz Felipe Lampreia (FHC) e Celso Amorim (Itamar).

De 15/03/1985 a 20/5/1993 não passou um único diplomata pela chefia do Itamaraty, ou seja, todo o período Sarney e Collor, embora tenhamos tido até banqueiro (Olavo Setúbal).

Itamar ocupou a presidência por 821 dias na presidência, dos quais em 591 (71,9%) tivemos um diplomata como chanceler.

O governo FHC começa com um diplomata de carreira no Itamaraty, Luiz Felipe Lampreia, que ocupou o cargo por 2.203 dias, seguido por um interino, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, também diplomata, o que totaliza 75,9% dos 2.922 dias de FHC no poder.

Pra finalizar: sabem qual foi a última vez que o chanceler brasileiro foi um político de carreira?

Fernando Henrique Cardoso, no governo Itamar.

Será que Serra pensou nisso?


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Folha de S. Paulo: contraeditorial (21/04/2016)

Lamentável o editorial de hoje da Folha de São Paulo, "Golpe na ONU".

Há algum tempo o conselho editorial do diário paulista vem adotando uma linha ameaçadora à Dilma em seus editoriais: "se não fizer isso", "se não fizer aquilo".  Em linha com a contraofensiva lançada por Michel Temer para evitar danos à sua imagem junto à comunidade internacional, que discuti aqui, o artigo dá mais um ultimato à Dilma:

"Se não voltar atrás em mais uma atitude mal concebida na solidão do Planalto, a presidente Dilma Rousseff (PT) embarcará para Nova York com uma péssima ideia na bagagem: denunciar na ONU o suposto golpe de Estado representado pelo processo de impeachment"

Colocada na complicada situação de justificar o injustificável, a Folha classifica como "esdrúxula" a convicção de que a imprensa internacional estaria alinhada à ideia de golpe, alegando que "há de tudo entre os comentários publicados sobre o impedimento." É uma meia verdade.  Se é correta a alegação de que muitos veículos da imprensa internacional não chama o processo de "golpe" per se, é inescapável a percepção de que descrevem o impeachment pelo que é: um processo antidemocrático, no qual uma presidente sem acusações de crime é julgada por um circo comandado por um bandido, aliado a um vice-presidente conspirador que visa levar ao poder um grupamento político incapaz, há quatro eleições, de derrotar o petismo nas urnas.  Essa percepção, aliás, é o que justifica a preocupação de Temer e sua turma de conspiradores. Ademais, boa parte do que saiu publicado na imprensa internacional como artigos de opinião é redigido por brasileiros, muitas vezes, membros da mídia corporativa nacional.

Para a Folha, por outro lado, "não há reparos a fazer ao processo de impeachment, até aqui, do ponto de vista institucional".  Trata-se de colher o resultado argumentativo de uma verdade que a própria imprensa brasileira tentou plantar: a de que o processo é legítimo porque a figura do impeachment está na constituição.  Há alguns meses convivemos com uma enxurrada de textos e entrevistas que buscam dar suporte a esse argumento.  A pergunta, feita à exaustão era: "impeachment é inconstitucional?".  Tratei do assunto aqui.

Outro argumento compatível com a narrativa criada pela mídia nacional é a declaração do ministro Celso de Mello de que "é um grande equívoco reduzir-se o procedimento constitucional de impeachment à figura do golpe de Estado.". É sempre conveniente encontrar um posicionamento do STF que não seja de Gilmar Mendes.

Ainda na questão da legalidade, a Folha dá o veredito:

"Pode-se questionar, como fez esta Folha, se as chamadas pedaladas fiscais constituem motivo suficiente para o impeachment. Não se pode negar, entretanto, que a prática figura entre os crimes de responsabilidade descritos em lei, nem que os deputados detêm autorização constitucional para emitir juízo sobre o assunto. "

Reproduzo a perplexa resposta de Marco Aurélio Mello a Augusto Nunes, no Roda Viva: "Ora, pra que processo então?".  Não cabe à imprensa determinar o que é ou não é crime.  O mérito do processo ainda não foi julgado e, pessoalmente acredito que seja muito difícil, caso o STF decida julgar o mérito da questão, que se considere que as "pedaladas fiscais" constituem crime de responsabilidade.  Deixando isso de lado, trata-se de absoluta dissimulação do jornal afirmar que "a prática figura entre os crimes de responsabilidade descritos em lei", uma vez que a interpretação jamais foi neste sentido.  Quanto a autorização constitucional para emitir juízo, sim eles a tem.  Mas emitir juízo sobre o assunto foi a única coisa que não fizeram no domingo passado.

Vencida a argumentação legal, resta ao jornal apenas duas atitudes: desqualificar as posições das autoridades que se declararam contra o golpe, como "as manifestações impensadas dos secretários-gerais da OEA, Luis Almagro, e da Unasul, Ernesto Samper" e o apelo à imagem do Brasil.  Denunciar o golpe, "mesmo se estivesse certa, ainda seria um ato irresponsável", pois "toca a quem a ocupa zelar por seu bom conceito aqui e alhures, e não solapá-lo", equivale, como argumentei ontem, a dizer: "olha, mesmo que a gente tenha feito merda, não saia por aí contando porque pega mal".  Vou repetir sumariamente, porque já me referi a isso, mas o que pega mal mesmo, na comunidade internacional é o baixo nível do nosso congresso, uma conspiração armada por um vice-presidente, um corrupto comandando um processo que, pra dizer o mínimo, é antidemocrático.  Atacar a democracia pega mal.

No final do editorial a Folha parece estar tentando bater algum tipo de recorde de dissimulação.  Primeiro por adiantar que "espernear não vai resolver nada", porque eles já sabem o que vai acontecer: "decerto tomarão como insólita (se não oportunista) a tática de instrumentalizar uma reunião sobre mudança do clima para fazer propaganda dirigida ao público brasileiro e, pior, em causa própria, não no interesse nacional". Mas por último, e mais grave: a Folha apela a FHC e a Lula:

"Com o mau passo, Dilma Rousseff apenas abalará mais um pouco, em seu desleixo diplomático, a imagem do Brasil como democracia funcional e estável, reconstruída a duras penas por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)."

É de lascar, né? Resumo da ópera: desde que a Folha decidiu escrever exclusivamente para o público conservador, passou a se comportar de forma vil.  Apela não para o bom senso, mas para a burrice do leitor.  Neste editorial dá uma lição do que o jornalismo não deve fazer: desinforma, pratica o proselitismo, ameaça e vaticina. Ameaçar e declarar que aqueles que se sentem injustiçados não devem procurar apoio onde julgam poder encontrar bom senso não pode ser descrito em outros termos que não terrorismo jornalístico.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Censura

Não há mais limites para a surreal oposição brasileira. O último movimento consiste em tentar impedir que a Dilma fale na ONU. Aloysio Nunes, o candidato à vice-presidência na chapa de Aécio, declarou o seguinte:


Ora...quem foi que transformou o Congresso num circo em que palhaços corruptos comandados por um gangster julgaram uma presidente sem qualquer acusação diante dos olhos do mundo inteiro?

Quem é que está levando às últimas consequências um pedido de impeachment que a imprensa internacional reconhece como ilegítimo pela ausência de crime?

Quem é que está viajando aos EUA a mando de um vice-presidente conspirador, flagrado com um inédito sorriso de orelha a orelha ao assistir a palhaçada que hipnotizou o país no último 17 de abril, para convencer o mundo de que "o golpe não é golpe"?

Um vice-presidente sorri ao assistir o resultado da conspiração que o levou à quase-presidente
 Essa foto certamente entrará para a galeria das imagens mais escrotas da história do Brasil.



Esse receio em relação à própria imagem (porque, como vimos na câmara, esse povo tá cagando pra imagem do país) é equivalente a um marido que, após espancar a mulher, fica com medo que ela relate o acontecido à imprensa, porque pega mal ficar conhecido como "aquele cara que bate na mulher". 

Temer, é LÓGICO que pega suuuuper mal a imagem de golpista, de um vice que conspira contra a presidente.  Deixo a dica: evita-se esse tipo de coisa respeitando o estado Democrático de Direito, é simples.

Agora, como eu já disse antes, a estratégia de impedir a presidente de viajar à Nova York e denunciar, na ONU, aquilo que toda a imprensa internacional já entendeu é enfiar as patas traseiras pelas dianteiras.  Pra quem não quer parecer golpista, censurar a fala da presidente no órgão máximo da política internacional é o ápice da burrice.





É só.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Contradições de Chico


Depois de mais de um ano esperando uma resposta do Vaticano, a França desiste da indicação de seu embaixador para o país.  O motivo: descobriu-se que Laurent Stefanini é gay.



Pelo que me consta, a função do embaixador é de ordem estritamente diplomática, e não de tentar se casar com algum cardeal - para frustração de alguns destes.

A postura do Vaticano é aparentemente contraditória com as declarações do papa sobre o acolhimento "destas pessoas" pela igreja

"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"

Repito o que venho dizendo há algum tempo: nenhuma das posições aparentemente progressistas do papa se converteu em declaração oficial, da espécie considerada  intrinsecamente verdadeira em função da tal infalibilidade papal. Isso só ocorre quando o papa fala "ex cathedra": numa encíclica, por exemplo. Talvez seja necessário papel especial e uma caneta com tinta do Espírito Santo, vai saber.
De qualquer forma, a postura do Vaticano frente ao diplomata gay vai de encontro com o posicionamento do então cardeal Mário Sérgio Bergoglio, que em 2010 escreveu o seguinte sobre o projeto de casamento gay na Argentina:

"O povo argentino deverá confrontar, nas próximas semanas, uma situação cujo resultado poderá ferir gravemente a família. Trata-se do projeto de lei sobre o matrimônio de pessoas do mesmo sexo.
Estão em jogo aqui a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Está em jogo a vida de tantas crianças que serão discriminadas de antecipadamente, privando-se do amadurecimento humano que Deus quis que fosse com um pai e uma mãe. Está em jogo a rejeição direta à lei de Deus, gravada, ademais, nos nossos corações.

Recordo uma frase de Santa Teresinha quando fala sobre sua enfermidade de infância. Disse que a inveja do Demônio quis cobrar em sua família a entrada de sua irmã maior ao convento de Carmelo. Aqui também está a inveja do Demônio, através da qual entrou o pecado no mundo, que de modo arteiro pretende destruir a imagem de Deus: homem e mulher receber o mandato de crescer, multiplicar-se e dominar a terra. Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. É a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é meramente o instrumento), mas de uma 'movida' do pai da mentira que pretende confundir e enganar os filhos de Deus."

A carta original está aqui, em espanhol.
O que é mais provável, pergunto: que entre 2010 e 2013 o papa tenha tido uma epifania e finalmente, revertido sua posição ou que o Vaticano tenha uma preocupação com sua imagem e perda de fiéis?
Nada mudou. Papa e Vaticano continuam contra o casamento gay, o uso de preservativos e sem tomar uma atitude concreta e de escala compatível com os escândalos de pedofilia que atingem sua igreja.
Pra ser justo, algo mudou: o departamento de relações públicas.

Por fim: pra quem é católico e acredita em Deus tal qual colocado pela Igreja Católica, a minha "exigência" de que o papa fale utilizando seus poderes de infalibilidade não pode ser resolvida por vontade do papa Chico, uma vez que depende de vontade divina.  Neste caso, sinto dizer...a única forma de manter a coerência entre a doutrina católica e qualquer posicionamento progressista é acreditar que de fato Deus seja contra o casamento gay e assumir o pecado de concordar com uma posição herege do papa, já que homossexualidade é crime (bem como sexo com qualquer finalidade que não a reprodutiva ou fora do casamento).

domingo, 17 de abril de 2016

São Paulo, 17 de abril de 2016



Caros amigos,


Logo mais eu e muita gente iremos às ruas. Bicho racionalista/determinista que sou, não sei se com algum efeito prático, mas mesmo sem saber se nossa presença nas ruas pode ter algum efeito absolutamente positivo, acredito que pode haver um efeito relativo: o de que ruas vazias, por parte da esquerda possa, implicitamente, autorizar deputados que ainda não decidiram (ou não quiseram decidir) a votar a favor do golpe que se tenta neste momento.

A responsabilidade sobre a presença nas ruas é da esquerda.  A massa CBFista que certamente dividirá os espaços públicos conosco não se move naturalmente.  Por mais que não se sintam assim, essas pessoas estarão nas ruas como resultado da ininterrupta incitação e manipulação da grande mídia corporativa nacional, nas mãos de cinco famílias que na verdade são uma só.  Da mesma forma que a imprensa colocou Collor no Planalto para depois derrubá-lo, é provável que a multidão revoltosa seja apenas utilizada como cenário legitimador – até porque a partir daquele processo, é dever daqueles que pensam o país com responsabilidade histórica ao menos considerar que houve traços de ilegitimidade em 1992.  A diferença é que, ao contrário do que acontece agora. absolutamente ninguém se dispunha a defender o presidente “d´aquilo roxo”. Eis a dimensão política de um processo de impeachment.

Em 2010 Lula deixa o governo com 87% de aprovação.  Me pergunto: quantos dos que agora enxergam no PT uma filial do inferno estavam entre os 4% que, ao final daquele período consideravam o governo de Lula ruim ou péssimo?  Ali estava a semente do ódio que, adubada por parte da elite nacional com altas doses de chorume midiático floresceu nesta sufocante e opressiva massa verde-amarela.

Outro sentimento me move no dia de hoje: o medo grande de que, caso se confirme essa marcha da insensatez, venhamos a mergulhar num longo período negro da nossa história.  Alguns falam em 20 anos para voltar à normalidade.  Não há como saber: o governo golpista pode até ser transitório e cair em 2018, mas certamente quem luta de forma tão ardilosa para chegar ao poder não tem intenção de deixá-lo tão cedo.  Até porque a força motriz do golpe é a preservação de uma classe política que se vê ameaçada por seu próprio remédio: a lava jato começou a respingar em quem não devia.  É cedo para saber se haverá violência de fato: isso dependerá exclusivamente da capacidade de resistência dos democratas, já que sabemos o tom da resposta das polícias aos já marginalizados movimentos sociais no país.  Caindo o governo Dilma, estejam certos de que a criminalização da esquerda continuará com força total.  Eu penso que os donos (de fato) do poder avaliam que pegaram leve com Lula em 2002.  Não repetirão o erro.

O golpe que está em curso é mais sofisticado que aquele que vivemos em 1964: o Paraguai foi o laboratório desta nova modalidade na América do Sul.  No país vizinho, Fernando Lugo caiu em um processo que durou 48 horas; por essas paragens, o processo teve início em dezembro, mas vem sendo gestado há muito tempo, desde a derrota não admitida por Aécio, pra sermos específicos. De forma mais difusa, porém, desde que os setores interessados perceberam que poderiam aproveitar os protestos de 2013 para canalizar um sentimento contido de ódio de classe que eclode pelo menos 11 anos atrás, durante a campanha vencedora de Lula em 2002.  Há, até o presente momento, um esforço hercúleo em dar contornos de legalidade ao golpe.  Isso continuará. 

Por fim, um outro fator me fará deixar de acompanhar o circo de hoje de casa, com conforto, comida e cerveja, fazendo comentários nas redes sociais e montando planilhas: não conseguiria ficar em paz estando em casa.  De alguma forma me sinto moralmente obrigado a fazer volume no Anhangabaú.  Quero deixar claro que não imputo reprovação alguma àqueles que não poderão ou não querem ir...cada qual tem suas razões e não cabe a mim questioná-las.  Mas penso que se a votação de hoje estiver de fato perdida, será das ruas, os grandes palcos da democracia brasileira, que sairão os primeiros gritos de resistência.

Boa sorte a todos nós, forte abraço.



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