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terça-feira, 19 de abril de 2016

Contradições de Chico


Depois de mais de um ano esperando uma resposta do Vaticano, a França desiste da indicação de seu embaixador para o país.  O motivo: descobriu-se que Laurent Stefanini é gay.



Pelo que me consta, a função do embaixador é de ordem estritamente diplomática, e não de tentar se casar com algum cardeal - para frustração de alguns destes.

A postura do Vaticano é aparentemente contraditória com as declarações do papa sobre o acolhimento "destas pessoas" pela igreja. 

"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?"

Repito o que venho dizendo há algum tempo: nenhuma das posições aparentemente progressistas do papa se converteu em declaração oficial, da espécie considerada  intrinsecamente verdadeira em função da tal infalibilidade papal. Isso só ocorre quando o papa fala "ex cathedra": numa encíclica, por exemplo. Talvez seja necessário papel especial e uma caneta com tinta do Espírito Santo, vai saber.
De qualquer forma, a postura do Vaticano frente ao diplomata gay vai de encontro com o posicionamento do então cardeal Mário Sérgio Bergoglio, que em 2010 escreveu o seguinte sobre o projeto de casamento gay na Argentina:

"O povo argentino deverá confrontar, nas próximas semanas, uma situação cujo resultado poderá ferir gravemente a família. Trata-se do projeto de lei sobre o matrimônio de pessoas do mesmo sexo.
Estão em jogo aqui a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Está em jogo a vida de tantas crianças que serão discriminadas de antecipadamente, privando-se do amadurecimento humano que Deus quis que fosse com um pai e uma mãe. Está em jogo a rejeição direta à lei de Deus, gravada, ademais, nos nossos corações.

Recordo uma frase de Santa Teresinha quando fala sobre sua enfermidade de infância. Disse que a inveja do Demônio quis cobrar em sua família a entrada de sua irmã maior ao convento de Carmelo. Aqui também está a inveja do Demônio, através da qual entrou o pecado no mundo, que de modo arteiro pretende destruir a imagem de Deus: homem e mulher receber o mandato de crescer, multiplicar-se e dominar a terra. Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. É a pretensão destrutiva ao plano de Deus. Não se trata de um mero projeto legislativo (este é meramente o instrumento), mas de uma 'movida' do pai da mentira que pretende confundir e enganar os filhos de Deus."

A carta original está aqui, em espanhol.
O que é mais provável, pergunto: que entre 2010 e 2013 o papa tenha tido uma epifania e finalmente, revertido sua posição ou que o Vaticano tenha uma preocupação com sua imagem e perda de fiéis?
Nada mudou. Papa e Vaticano continuam contra o casamento gay, o uso de preservativos e sem tomar uma atitude concreta e de escala compatível com os escândalos de pedofilia que atingem sua igreja.
Pra ser justo, algo mudou: o departamento de relações públicas.

Por fim: pra quem é católico e acredita em Deus tal qual colocado pela Igreja Católica, a minha "exigência" de que o papa fale utilizando seus poderes de infalibilidade não pode ser resolvida por vontade do papa Chico, uma vez que depende de vontade divina.  Neste caso, sinto dizer...a única forma de manter a coerência entre a doutrina católica e qualquer posicionamento progressista é acreditar que de fato Deus seja contra o casamento gay e assumir o pecado de concordar com uma posição herege do papa, já que homossexualidade é crime (bem como sexo com qualquer finalidade que não a reprodutiva ou fora do casamento).

quinta-feira, 6 de março de 2014

Homofobia

Tomei conhecimento, através de um lindo texto do deputado Jean Wyllys, de mais um crime bárbaro motivado pela homofobia.  Um garoto de 8 anos foi espancado, até a morte, pelo próprio pai, um homem violento e com histórico de homofobia.  Alex chegou morto ao posto de saúde, morreu de hemorragia interna, por ter tido seu fígado dilacerado pelas surras que recebia de seu pai. A notícia está aqui.

Não vou entrar nos detalhes da notícia, estão suficientemente descritos na reportagem acima.  Só posso dizer que o homem que cometeu este assassinato é, de fato, um monstro, uma pessoa que não pode conviver livremente em sociedade e que este é, sem sombra de dúvidas, caso de cadeia (é pra isso que serve, aliás).  O assassinato de uma criança de 8 anos por conta da suspeita de sua orientação sexual é a coisa mais chocante que vi em muito tempo – e estamos em um período bastante absurdo.

A preocupação que tenho toda vez que ocorrem crimes dessa natureza, é muito profunda.  Vivemos em uma sociedade que apresenta um nível de homofobia muito alto, e é desse “preconceito médio elevado” que surgem os malucos que praticarão estes atos bárbaros.

Richard Dawkins, em “Deus, um delírio”, traça um paralelo meio óbvio entre as religiões e uma série de mal-feitos.  No texto, dá como exemplo específico os atentados de 11 de setembro de 2001.  Os homens que cometeram os atentados eram, sem dúvida, fanáticos.  Apesar disso, levavam vidas “normais”: não se comportavam como fundamentalistas, eram pessoas bem vistas em seus círculos sociais e tidos como cidadãos de bem.  A conclusão do autor é que não é necessário um ambiente temperado pelo fundamentalismo religioso para que ocorram essas barbaridades: mesmo em ambientes religiosos moderados, surgirão alguns malucos dispostos a explodir as vidas de milhares de outras pessoas.

O argumento de Dawkins é muito mais complexo e convincente, e essa curta menção não faz justiça e abre espaço para alguns questionamentos, mas deixo a discussão pra outra oportunidade, já que pretendo utilizar o exemplo somete para fazer uma analogia: uma sociedade homofóbica, ou com um “nível médio de homofobia” elevado, gerará, com alguma frequência, homofóbicos violentos – provavelmente com maior frequência do que em sociedades menos intolerantes.

Não é difícil comprovar o fato de que a sociedade brasileira ainda apresenta um nível elevado de homofobia.  Eu poderia citar casos específicos, mas pra fugir da evidência anedótica, prefiro citar o fato de que o Brasil é o país que concentra o maior número de assassinatos motivados por homofobia no mundo.  E não é pouca coisa: 44% dos casos do mundo ocorrem por aqui.

Minha memória deste fato está relacionada à polêmica gerada com a publicação do estudo: Danilo Gentili, o “comediante” favorito da galera do bem, soltou a seguinte piada:

“1 gay é morto a cada 26 hs? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu cu hj? Só por segurança.”

Não deveria, mas sinto que é necessário explicar a diferença entre uma coisa e outra: 1 homossexual é morto a cada 26 horas por causa de sua orientação sexual. 140 brasileiros são mortos por dia – esse número é o total de homicídios por dia: inclui homens e mulheres heterossexuais e também homossexuais, bissexuais e transgêneros que tenham sido mortos por qualquer motivo – incluindo sua orientação sexual. 

Recentemente tive uma das discussões mais bizarras de minha vida: no meio de um chope, um conhecido questionou as razões do meu ateísmo.  Conhecendo o cara e querendo evitar um debate muito longo e infrutífero, resolvi dar a resposta curta: “não vejo motivos para acreditar em deus”.  Pra arrematar, emendei com o (sincero) discurso da tolerância: “mas respeito as opções pessoais de cada um”...e, sentindo que precisava completar alguma coisa ainda, finalizei com “desde que as religiões não tentem ditar, praqueles que não as seguem, como viver suas vidas”.  Razoável, não?  Meu interlocutor não achou.

Passei a ouvir um longo discurso sobre a imoralidade da “opção sexual” dos gays, sobre como não deveríamos ser obrigados a tolerar esse tipo de comportamento, sobre como vivemos numa ditadura gay, sobre como vamos explicar isso pras meus crianças.  Fui respondendo a tudo isso com a maior calma de que fui capaz, estávamos em público, ele falava alto e as mesas vizinhas já tinham reparado no teor da conversa.  Acabados os argumentos do meu interlocutor, só lhe restou dizer que pertencia à outra geração, que o pai era conservador e que, mesmo com todos os meus “ótimos argumentos”, ele continuava “não gostando de gays, mas não pretendia bater em nenhum”.

Apenas contei essa história, preservando a identidade da pessoa e detalhes pessoais, porque me interessava chegar nesta última declaração.  Não foi a primeira vez que ouvi isso, ou variações disso: não praticar atos violentos contra homossexuais é visto, por um grande grupo de pessoas, como uma concessão, como se fosse um ato digno de aplausos e sinal de civilidade.

Aqui vale explicar, mais uma vez, o que deveria ser óbvio: esse discurso normalmente sai da cabeça de gente que acha que a homossexualidade não deveria ser tolerada “em público”, mas que, pessoalmente, não enxerga, na violência, a solução para o “problema”.  Pessoal, a única solução, sinto lhes dizer, é a tolerância.

É necessário que vocês compreendam que não há um “plano secreto gay” de converter o resto da sociedade – e se você acha que corre esse risco, desde que insistam muito, concedo-lhes o tempo para pensar direitinho no significado disso.

1...............2...............3...............4...............5...............ok?

Ainda assim, tem gente que argumenta que há uma questão cultural subjacente a isso tudo, e citarão civilizações antigas, como Grécia e Roma, para ilustrar.

Esse é um argumento que considero importante derrubar, porque além disso, sobra muito pouco para justificar o ódio contra os gays.

Exatamente qual seria o problema se mais gente resolvesse transar com pessoas do mesmo sexo? Até onde sei, a única diferença entre hetero e homosseuxuais são aquilo que fazem dentro de quatro paredes, em seus momentos de intimidade ou em ambientes privados.  Nelson Rodrigues já dizia que "Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava".  Porque se incomodar com o que os outros fazem dentro dos quartos?  Os detalhes da vida sexual das pessoas é de cunho privado, penso.  A não ser que as pessoas façam questão de contar o que fazem na cama, não é considerado de bom tom perguntar ao amigo se ele anda comendo muito o cuzinho da senhora sua esposa.  Né?

Já ouvi uma outra tentativa de argumento contra isso: se pessoas do mesmo sexo começarem a se relacionar e casar umas com as outras, a população deverá diminuir gradativamente, porque não há a possibilidade de reprodução.

Hum.  Então o argumento é econômico-demográfico?  Tá bom, em primeiro lugar, vamos ser sérios...será que é com isso mesmo que tais pessoas se preocupam?  Digamos, pelo bem do argumento, que sim.  Vamos lá: as medidas de controle populacionais nunca foram bem-vistas pelas sociedades democráticas ocidentais porque, de alguma forma, interferem na “liberdade” das pessoas de produzir uma dezena de filhos – a igreja católica, aliás, é especialmente aguerrida na militância contra os métodos contraceptivos.  A questão demográfica não parece ser um problema pra esse grupo de gente legal quando se trata de evitar que miseráveis tenham que sustentar uma família gigante.

Como não há razões “iluministas” para justificar as restrições aos relacionamentos homoafetivos, acho que sobram mesmo as razões religiosas.  É comum ver, em manifestações cristãs nos EUA, cartazes com os dizeres “God hates faggots”.  Isso começa a aparecer por aqui também.  Não me parece muito cristão.

Todas as pessoas conhecidas que vi reproduzindo estes argumentos são bastante religiosas.  Nenhuma evangélica, só pra deixar claro.  São todas católicas, oriundas da classe média, com nível superior, alguns com pós-graduação.  Acreditam que homossexualismo é pecado: de alguma forma, acham que o deus delas se importa, de fato, com as vidas sexuais de seus fieis, e que este tipo de comportamento é fundamentalmente mau e merece ser punido, possivelmente com uma eternidade de fogo, dor e sofrimento.  Duas coisas que penso sobre isso: 1) se isso for verdade, é problema de deus, não seu e; 2) se você acredita num deus assim, seu deus é uma bosta.

Claro, há muitos religiosos que não tem nenhum problema com o tema, e acreditam num deus que ama a todos os seus filhos e não liga para o seu comportamento sexual.  Esse deus é bem melhor, embora igualmente muito improvável.  Não era o caso do papa-super-pop Francisco, que, quando cardeal declarou que “o casamento gay era um movimento do diabo para destruir o plano de deus”.  Talvez tenha mudado de ideia, talvez estivesse sendo obediente ao papa anterior, talvez seja um hipócrita...não sei.

Conheço uma quantidade considerável de homossexuais: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades.  Tenho amigos que assumiram bastante cedo, outros que foram casados por muitos anos e até quem tenha assumido já com idade mais avançada.  Admiro a todos pela coragem que tiveram de buscar uma vida feliz mesmo com todas as dificuldades que a sociedade impõe.

Também conheço alguns homofóbicos: alguns na família, outros tantos nos círculos de amizades, que estou eliminando aos poucos.  Não tenho o que fazer em relação aos homofóbicos da família, no sentido de que idiotice não desfaz parentesco...mas posso evitar as amizades com essas pessoas.

As lutas pelos direitos das minorias têm todo o meu respeito e apoio. Não pedem muita coisa, somente que sejam tratadas como iguais.  Recentemente vi uma declaração do Ricky Gervais que resume bem a coisa:

“Same sex marriage isn't gay privilege, it's equal rights. Privilege would be something like gay people not paying taxes. Like churches don't.”

Ainda espero viver em uma sociedade na qual as pessoas não sejam discriminadas pela cor de sua pele, orientação sexual ou falta de religião, dentre outras coisas.

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quinta-feira, 14 de março de 2013

Chico & Bento






Vou dizer já qual é o problema: esse negócio de conclave tá todo errado.  Primeiro, se o Espírito Santo inspirasse alguém, nem precisava de conclave.  Os cardeais se reuniriam em praça pública, e quando o mais velho contasse até três, todos diriam o mesmo nome, ao mesmo tempo, em voz alta.  Deviam tentar, seria divertido:

“É um...é dois...é três...e...já!”
“Ailehrgonbçdjkgjadlçfjbnaokjdfr!!!!”
“Habemus papam!  Cardeal John Olorunfemi Onaiyekan!

Mas já que a coisa do Espírito Santo certamente não vai rolar, proponho o seguinte: libera logo o uso da internet no conclave.  Se os cardeais pudessem consultar a internet, talvez evitassem esses constrangimentos.  Pra não perder a seriedade, podem bloquear os sites de pornografia e redes sociais...essas coisas distraem muito.

Cardeal pensando, enquanto descobre as maravilhas do Google Search:

“Deixa ver quem é esse tal de Bergoglio...acusado de sequestro, cooperação com uma ditadura sul-americana.  Hum...melhor escolher o outro cara”.

Ok, Ratzinger era muito conhecido no colégio cardinalício, chefe da Inquisição, e diz que não curtia seus tempos de jovem nazista...não sou cético quanto a isso (apesar da cara dele), muita gente melhora ao longo da vida.  Será que naquele conclave, alguém não chegou e disse: “Joseph...você foi eleito, mas...assim..esse negócio de acobertamento de pedófilos e tal...fica meio difícil, né?

Mas acompanhando as biografias dos outros papabili, fiquei impressionado com a quantidade deles que já se meteu na vida política, normalmente pelo lado errado.  Um outro lá era fascista, o Odilo, por exemplo, pôs em prática seu autoritarismo há poucos meses, ao empossar na reitoria da PUC-SP a candidata que ficou em 3º lugar na eleição (à exemplo do que Serra fez ao nomear Rodas, o segundo colocado nas eleições uspianas  para o cargo de reitor...será que nenhum deles foi bom a vida toda?  Não dava pra eleger um desses?

Claro que não.  Bergoglio, segundo os analistas e especialistas em papa e Vaticano – incrível como tem gente especializada nisso – representa  uma tentativa da igreja de conter a perda de fiéis na Europa e nas Américas, reformar a Cúria Romana, e muito, muito mais.  Guess what?  Os europeus não estão deixando de ser católicos porque o papa é ruim...estão deixando a igreja porque a ideia é ruim.  Duvido que isso tenha retorno.  A igreja sobreviverá por muito tempo abaixo do Equador, por razões óbvias.

Sinceramente, Bentinho vai deixar saudades...esse foi o papa que tornou possível que todo mundo fizesse piada com a figura do papa...porque João Paulo II era muito carismático, as pessoas ficavam realmente bravas com quem tivesse ressalvas a ele.  Com Ratzinger a coisa virou uma Esbórnia...aliás, quem foi que disse pra ele que podia sair?  Mas tenho a impressão de que esse papa aí não ficará pra trás.  Só não sei se fica muito tempo.  O cara tem 76 anos e um pulmão a menos (sério!).

Pra deixar vocês com uma mensagem do novo papa, escolho um a declaração dele a respeito do projeto de lei que legalizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina:

“É uma agitação do Pai da Mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Ou seja: coisa do diabo.


P.S. Esse papa curte muito futebol.  Se eu fosse ele, tascava uma encíclica declarando que Maradona e Messi são melhores que o Pelé.  Só pra sacanear.
P.S.2. A Globonews deu o tom: "o novo papa já conquistou a todos".  Isso porque ele fez uma piada com a Argentina (o fim do mundo) e pediu que rezassem por ele...já fomos mais exigentes.
P.S.3. Chico anda de transporte público e cozinha suas próprias refeições.  Posso ser papa também?  Onde cabem dois, cabem três.
 P.S.4. Bentinho nos escreveu contando que o principal motivo de sua renúncia foi a “leitura e reflexão profunda acerca dos ensinamentos de Wilbor”. Pediu para colaborar com o blog.  Quer assumir a editoria de Religião e Gnomologia.  Estamos considerando.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dia do arquiteto: a "evidência Niemeyer"

(Aconteceu há alguns meses; mas, por ocasião da recente morte de Oscar Niemeyer e de nosso novo "dia do arquiteto", acho que vale a pena relembrar...)

Numa  discussão coletiva sobre Evolução x "Intelligent Design" no meu facebook (totalmente involuntária de minha parte, ressalto), tive que presenciar um arquiteto (defensor do I.D.) dizer a outro a seguinte frase:
"Um arquiteto ateu é sempre um constrangimento extra: se não consegue ler o melhor Projeto de todos, estampado não apenas até onde o olho alcança, mas sendo o próprio olho uma parte integrante dele, como ele pode querer projetar algo que preste?"
Achei interessante destacar tal frase porque nela se vê uma amostra perfeita de como funciona a retórica mistificadora de certos polemistas que têm abundado cada vez mais na imprensa e, especialmente, na internet.Trata-se de uma frase de efeito bem colocada, que irrita e ofende seu interlocutor indiretamente (ou seja, sem xingá-lo de incompetente  de forma literal), e que é aparentemente coerente e lógica... Mas que não resiste ao mais reles exame empírico de evidências.

A "evidência Niemeyer" sendo, é claro, a primeira que vem à mente.




É sempre chata a onda acrítica de canonização de alguém já absurda e excessivamente consagrado em vida. Mas ainda que haja exagero, ninguém se torna um baluarte sem algum mérito pessoal e histórico acumulado...
Oscar Niemeyer fez muitas obras bem questionáveis, especialmente no fim da vida; mas produziu obras boas, e algumas cuja excelência beira a unanimidade. Não era, enfim, alguém "incapaz" de projetar "algo que prestasse" -- embora um ateu publicamente declarado há décadas.

O mais importante, porém, é isto: se fosse "incapaz" de fazer um bom projeto, certamente não o seria por desacreditar da idéia de uma persona divina. Afinal, os que vêem uma intenção análoga à humana nos movimentos no universo não têm o monopólio da contemplação de sua beleza e complexidade; e, se pensam -- ou dizem -- que têm, é por estarem por demais enredados em seu próprio narcisismo.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Em Estado Laico, não.


O preâmbulo da nossa Constituição Federal diz o seguinte:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.

A mesma carta diz, um pouco adiante, o seguinte:



Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.


Acabo de ter acesso a uma reportagem que relata a retirada compulsória de um cidadão do plenário da Câmara de Vereadores do município de Piracicaba – SP, motivada por sua recusa a se levantar para a leitura de um trecho da Bíblia (para ler a reportagem, clique aqui).


Juro que o fato não me surpreendeu, embora eu sempre fique com raiva dessas coisas.  Vivemos em um Estado laico, mas no qual o laicismo, talvez pra combinar com uma porção de outras coisas, é capenga.

O texto constitucional é relativamente simples, até muito simples se comparado ao inútil e ornamental juridiquês, ao qual tantos brasileiros tiveram acesso durante o pré-julgamento do mensalão.  Neste ponto, releiam o que diz o Artigo 19 e seus incisos.  Ok?  Vamos lá: alguém mais ficou com a impressão de que a declaração de laicismo não é tão clara assim?  Que perto da declaração do preâmbulo, que deixa tão claro que os parlamentares constituintes promulgaram a CF “sob a proteção de Deus”, o disposto é meio nebuloso?  Penso que a declaração podia ser muito mais clara.  A redação do inciso I poderia ser lida da seguinte forma:

“União, Estados, Distrito Federal e Municípios não podem:
- fundar igrejas e cultos;
- ajudar, de qualquer forma, as igrejas e cultos existentes;
- atrapalhar o funcionamento destas igrejas e cultos;
- manter relações de dependência ou aliança com as tais igrejas e cultos EXCETO QUANDO HÁ INTERESSE PÚBLICO.

Creio não ter feito qualquer malabarismo desonesto com as palavras aqui.

A Liberdade de culto já está garantida no Art. 5º, VI, VII e VIII.  O art. 19, citado em vários lugares da internet como o cantinho da CF que defende o laicismo estatal me parece muito mais assegurar que o Estado não vai inteferir nos assuntos das igrejas do que garantir a isenção do Estado.  E deixa ainda uma brecha (grande) para que o Estado se alie às igrejas e cultos, desde que haja “colaboração de interesse público”.  O que isso quer dizer?  Quem determina o que é de interesse público?  Não sei.

De qualquer forma, o texto é assim provavelmente por conta da covardia dos deputados constituintes, àquela época praticamente todos católicos e com muito medo de comprar briga com a igreja.  O fato é que todos entendemos que o Brasil é um Estado laico.   Este princípio tem uma série de implicações, mas que dizer, fundamentalmente que, enquanto Estado, e por força de Lei, somos adeptos do secularismo.

Por conta desse pequeno detalhe, não deveriam ser permitidas as seguintes coisas:

- Crucifixos (ou qualquer outro símbolo religioso) em fóruns, tribunais, repartições públicas;
    Até no STF tem...e não é só uma cruz vazia, tem um Jesuizinho pendurado lá...

- A inscrição “Deus seja louvado” nas cédulas de Real;
- Ensino religioso confessional nas escolas públicas - pessoalmente sou contra qualquer forma de ensino religioso nas escolas públicas, penso que história das religiões é o único tema relevante e que este pode ser trabalhado dentro da disciplina de História;
- Orações e leituras de textos religiosos antes, durante ou depois de solenidades públicas, aulas em instituições de ensino públicas (lembram desse caso?);
- Exceções especiais para faltar dias de trabalho, provas ou atividades profissionais/estudantis por conta de crença pessoal – acho que a liberdade de crença não se sobrepõe às regras impostas à toda coletividade.  Não é o Estado laico que deve se adaptar às exigências especiais de cada crença existente no país.  Não pode trabalhar nas manhãs de terça?  Não se candidate a um emprego público.

O Estado laico não pode fazer apologia à qualquer crença ou mesmo ao ateísmo, porém, o ateísmo é a única postura possível e compatível com uma democracia.  O Estado deve se comportar como se não existisse nenhum Deus, como se nenhuma crença fosse melhor que a outra.

Voltando ao ocorrido em Piracicaba: a violência da postura do presidente da Câmara e mais, a justificativa do diretor jurídico são atitudes absurdas.   Tratam-se de reações preconceituosas relativamente comuns no cotidiano (infelizmente), porém inaceitáveis no contexto da vida pública em um Estado laico.

É sobre esse tipo de coisa que Daniel Dennett fala quando diz não ser possível o diálogo com as religiões (instituições, não pessoas).  O simples ato de permanecer em silêncio ou sentado, indicando que o sujeito não compartilha da crença dominante na Câmara Municipal foi visto como ato ofensivo pelo presidente da casa.

Dennett conta que quando estava escrevendo seu livro "Quebrando o Encanto", submeteu os manuscritos para diversas pessoas e pediu a elas que apontassem qualquer coisa que pudesse soar minimamente ofensiva, na tentativa de compor uma obra de filosofia o mais livre possível de ruídos que pudessem interferir na leitura fria dos argumentos.  Pra quem leu "Deus, um delírio", o livro de Dennett é realmente de morno pra frio, e olha que o Dawkins nesse livro faz um esforço genuíno para tentar convencer as pessoas a pelo menos refletir profundamente sobre o ateísmo.  Enfim, apesar do esforço Dennett não atingiu seu objetivo: pouco tempo após a publicação do livro, passou a receber um grande volume de correspondência ofensiva.

Pra quem é muito religioso, a simples declaração alheia de discordância é ofensiva, e eu entendo o porquê.  Digamos que alguém te conte que acredita em um deus muito peculiar: trata-se de um grande periquito roxo, chamado Amijubi(*), que é responsável por todos os fenômenos do universo e que de vez em quando te ajuda, desde que você faça orações regulares todas as terças, pela manhã, enquanto faz uma dança na qual bate os braços e faz gestos que lembram uma galinha ciscando o solo.

Trata-se de uma ideia bastante extravagante, que você provavelmente refutará sem pensar muito.  Dizer para a pessoa que compartilha dessa crença que você não acredita pode ser entendido por ela como uma ação potencialmente ofensiva, porque se você resolver explicar as razões pelas quais não comprou a história do grande Amijubi (provavelmente porque a história toda é meio boba), fatalmente estará deixando implícito que acha a tal crença um tanto ridícula e, possivelmente que os crentes do Periquito Roxo talvez não batam muito bem da cabeça.  É bom lembrar nesse ponto que a existência dessa entidade é possível, no sentido de que não pode ser desprovada.

Em uma avaliação honesta, é muito provável que qualquer crente encare as crenças alternativas da mesma forma que encaramos o grande Periquito Roxo.  A ideia de que milhões de seguidores do hinduísmo veneram a imagem de uma divindade-elefante (Ganesh) provavelmente é engraçada ou ridícula para a maioria dos católicos...mas 900 milhões de pessoas discordam e levam o deus-elefante muito a sério.

Acreditem: é só por uma questão de imersão cultural que cristãos não acham exótica a crença em um deus tripartite que era muito severo, que vê sua criação fugir de seu controle, apesar de ser onisciente, onividente e onipotente e que depois resolve mandar o próprio filho (que é Ele mesmo) para morrer pelos pecados dos homens e que ama a todos – mas te manda prum lugar horrível por toda a eternidade caso você não aceite o sacrifício do filho Dele (de novo, Ele próprio) como sua salvação e devote sua vida à sua adoração e louvor...e nem vou mencionar o Espiritismo.

Enfim...eu entendo que o senhor presidente da Câmara dos Vereadores de Piracicaba se sinta ofendido pela simples presença de alguém que não compartilha de sua fé e se recusa a prestar reverência a uma ideia que talvez julgue ser ridícula – ainda que de forma educada.  Mas como aponta Dennett, não existe forma educada de dizer pra alguém que pensamos que sua crença não tem fundamento, que se trata de uma ilusão.  A ira desse senhor, em sua intimidade, é justificável...já a materialização dessa raiva em forma de atitude obtusa, preconceituosa e violenta é que não se justifica de jeito nenhum.  Em Estado laico, não.




 (*) estou apostando que este será um dos nomes derrotados na escolha do nome do mascote da Copa – mas me pareceu um bom nome para deus esdrúxulo genérico.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"passivo-agressivo"

Quem acompanha o Wilbor de vez em quando pode ter percebido que geralmente é o Marcelo que coloca a questões de religião e ciência aqui. Tendo vivido num meio mais crente que eu (e sendo mais combativo), essa questão se tornou um ponto sensível para ele. Meu ateísmo geralmente é mais calmo; mas há momentos em que eu entendo bem a revolta do Marcelo. Vou narrar três "gentilezas" que presenciei.

1. Em espaço urbano
Já vi outras vezes, porque esta andou virando lema por aí.
A primeira vez que vi foi na estrada entre Maringá e Cianorte, na traseira de num carro:

"Deus sem você é DEUS.
Você sem Deus é NADA."

...Uau. Logo assim, do nada. Que gentileza. Valeu.
Descobri que há versões de estadia fixa, como esta placa que encontrei na web:


(bem, me pergunto em que diabo de terreno essa placa estava?)

2. Virtual
O e-mail a seguir eu já recebi umas três vezes. Mais do que uma questão de crença, o problema  é sobretudo o insulto à minha inteligência.


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VOCÊ FICARIA DE PÉ?



Havia um professor de filosofia que era um ateu convicto.



Sempre sua meta principal era tomar um semestre inteiro para provar que

DEUS não existe.

Os estudantes sempre tinham medo de argüi-lo por causa da sua lógica
impecável.
Por 20 anos ensinou e mostrou que jamais haveria alguém que ousasse
contrariá-lo, embora, às vezes surgisse alguém que o tentasse, nunca o
venciam.

No final de todo semestre, no último dia, fazia a mesma pergunta à sua
classe de 300 alunos:
- Se há alguém aqui que ainda acredita em Jesus, que fique de pé!

Em 20 anos ninguém ousou levantar-se.

Sabiam o que o professor faria em seguida....Diria : - Porque qualquer
um que acredita em Deus é um tolo! Se Deus existe impediria que este giz
caísse ao chão e se quebrasse.
Esta simples questão provaria que Ele existe, mas, não pode fazer isso!
E todos os anos soltava o giz, que caia ao chão partindo-se em pedaços.
E todos os estudantes apenas ficavam quietos,
vendo a DEMONSTRAÇÃO.

A maioria dos alunos pensavam que Deus poderia não existir. Certamente,
havia alguns cristãos mas, todos tiveram muito medo de ficar de pé.

Bem.... há alguns anos chegou a vez de um jovem cristão que tinha ouvido
sobre a fama daquele professor. O jovem estava com medo, mas, por 3
meses daquele semestre orou todas as manhãs, pedindo que tivesse coragem
de se levantar, não importando o que o professor dissesse ou o que a
classe pensasse. Nada do que dissessem abalaria sua fé...
ao menos era seu desejo.

Finalmente o dia chegou. O professor disse:

- Se há alguém aqui que ainda acredita em Jesus, que fique de pé!
O professor e os 300 alunos viram, atônitos, o rapaz levantar-se no
fundo da sala.

O professor gritou:
- Você é um TOLO!!! Se Deus existe impedirá que este giz caia ao chão e
se quebre!
E começou a erguer o braço, quando o giz escorregou entre seus dedos,
deslizou pela camisa, por uma das pernas da calça, correu sobre o sapato
e ao tocar no chão simplesmente rolou, sem se quebrar.

O queixo do professor caiu enquanto seu olhar, assustado, seguia o giz.
Quando o giz parou de rolar levantou a cabeça... encarou o jovem e...
saiu apressadamente da sala.
O rapaz caminhou firmemente para a frente de seus colegas e, por meia
hora, compartilhou sua fé em Jesus. Os 300 estudantes ouviram,
silenciosamente, sobre o amor de Deus por todos e sobre seu poder
através de Jesus.
Muitas vezes passamos por situações em que acreditamos que "nosso giz"
vai quebrar, mas Deus, com sua infinita sabedoria e poder faz o
contrário, por isso, você tem duas opções:

1 - Apagar esta mensagem e esquecer a história ou,

 2 - Passar a seus amigos, cristãos e não cristãos, dando-lhes a coragem
que precisamos todos os dias ao nos levantarmos.

EU ESTOU DE PÉ!!!!!!!
E VOCÊ ME ACOMPANHA????????

Abraços.

_____________________________________________________________________


Obviamente, continuei sentado.

Porque esse texto é um insulto?
Porque sua única "qualidade" é ser... temente a Deus. Todo o resto -- lógica, honestidade argumentativa -- é pure crap. Se você inverter a historinha -- colocando o professor como crente e o menino como ateu -- ela funcionaria. Ela tem locais pré-determinados de "bom" e "mal": o mal é estúpido e impositivo, o bem é resistente e digno... argh.
(Se inventar estorinha vale, posso inventar outra em que o giz cai e se parte... e o resultado? O minininho fica temporariamente calado e envergonhado; mas no final, continua achando que "é Deus testando sua fé". Fim. Êêêêê.)

3. Institucional
A chave de ouro foi este vídeo aqui, parecidíssimo com a historinha do e-mail que acabei de veicular.



Eu o chamei de "chave de ouro" porque não se trata de um simples e-mail de pessoas crentes, mas de um vídeo de propaganda institucional. E um vídeo institucional do Ministério da Educação e Ciência da Macedônia.


Alôu. Devo repetir?


Um vídeo institucional do Ministério da Educação e Ciência de um país fazendo uso mentiroso e sem-vergonha de uma figura de autoridade científica (Albert Einstein) -- pra proferir uma argumentação que, na verdade, é de Santo Agostinho!!
Ou seja, critica-se a "arrogância atéia" por meio do uso falacioso de um sofisma -- sofisma porque fundado na analogia. Atenção, meus caros: analogia nunca é "prova" de coisa alguma, mas apenas recurso retórico (ver uma crítica aqui). Presta-se a um só tempo um desserviço ao pensamento lógico e às histórias da ciência e da teologia.


E isso pra defender.... a volta da religião à escola. 


Tenho medo de pensar no que raios essa "volta" significa.
a) proibir professores ateus de achincalharem seus alunos? ( imagino que deva ser suuuper comum lá na macedônia!)
b) proibir professores ateus manifestarem suas opiniões a respeito?
c) proibir professores ateus at all?
d) tornar obrigatórias disciplinas de religião na escola?
e) tornar obrigatórias rezas diárias na escola?
f)  ou... tornar obrigatório o ensino de criacionismo em aulas de biologia como "uma outra teoria científica"?




Religion is science?
- MY ASS.


A não ser que a Macedônia seja um país hipercientífico onde pobres crianças cristãs sejam discriminadas com freqüencia (hahahaha), esse vídeo é puro veneno.
Prestem atenção: o professor ateu é mostrado como  imbecil (até eu teria vontade de dar um tapa na orelha dele, de tão tosca a sua argumentação) e cruel com as pobres crianças -- as quais, obviamente, já nasceram crentes. A fé delas é sempre algo "natural", que vem "de dentro"... nunca algo que lhes foi ensinado por pais ou padres. Ou seja, ao invés da questão ser representada como realmente é -- uma guerra entre "professores" -- o que se apresenta é a Guerra da desonestidade atéia contra a boa e natural inclinação, inerente às crianças, de acreditar em Deus...Minha nossa, é pra vomitar. E não por causa de quem está certo ou não; a minha questão nem precisa chegar a ser essa. O que há de doente nessa história é sua lógica enviesada: a própria forma como o outro é apresentado. Porque "outro"? Porque, obviamente, trata-se de obras de crentes para outros crentes: e o outro -- no caso, o ateu -- é apresentado como inerentemente agressivo, autoritário. (Eu pergunto: qual a força política da Igreja na Macedônia? ...)


Mas isso, obviamente, não me surpreende. E não é pela desonestidade que permeia a propaganda (embora ela seja desonesta, como já indiquei). Não, o buraco é mais embaixo: para os crentes hardcore, a existência de um não-crente por si só é agressiva. Você não precisa sequer ser um polemizador ou alguém realmente agressivo, não precisa entrar em conflito: sua escolha, sua inclinação, é por si só um insulto. 
Se você não sabe disso, é porque você não é ateu nem nunca externou esse conhecimento a pessoas muito religiosas. Nem haveria como ser de outro jeito: se seu modo de vida é a condição última e irretorquível para a decência e a salvação da alma, é simplesmente inaceitável estar fora desse modo de vida. Conclusão previsível: não há diálogo possível com alguém incapaz de suspender ou relativizar minimamente sua própria posição (a não ser, é claro, o "diálogo" da conversão -- ou melhor, da submissão).


A mesma discussão vale para a reação a homossexuais, a feministas, etc: eles é que são os agressivos, sempre. Eles é que ficam por aí incomodando, exigindo que você os aceite, que que você seja como eles; eles é que querem dominar, impor sobre os pobres "normais" e "decentes" o "matriarcado" ou a "ditadura gay"...
(Laerte, como sempre)


Nessas horas, a fala do Dawkins comparando o movimento gay com os ateus me parece especilmente relevante. O lema realmente é importável: "we're here, we're queer, get used to it."

Estamos aqui; somos diferentes*; se acostumem.


* Além de "homossexual", "queer" tem originalmente vários significados: "estranho", "distorcido",  "desalinhado", etc.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

o duelo mais covarde do século

O Brasil não é uma potência científica, e nunca foi.  Apesar da recente e discreta melhora das condições de trabalho, do aumento do número de bolsas e as tentativas de repatriar pesquisadores que atuam fora do país e também atrair pesquisadores estrangeiros com incentivos que chegam à vultuosa soma de R$5 mil, ainda somos um país no qual uma única universidade concentra 10% dos doutores e 25% da produção científica nacional.

Essa constatação serve para dizer que Miguel Nicolelis não é produto da academia brasileira - ou melhor, é uma exceção; da mesma forma que um Gustavo Kuerten não surgiu aqui porque com tantos jovens jogando tênis seria inevitável que algum se tornasse o melhor do mundo.

Nicolelis, pra quem não conhece, é um neurocientista paulistano, formado em medicina pela USP, onde obteve também seu doutorado em fisiologia.  O que esse cara tem de diferente, é o fato de que foi considerado, pela revista Scientific American, um dos 20 cientistas mais influentes da atualidade, além de ter sido o primeiro brasileiro a ter seu estudo publicado na capa da revista Science e ser o brasileiro mais cotado para receber um prêmio nobel desde Cesar Lattes¹.

Pois bem...o Brasil não só produz pouco, como divulga pouco a ciência.  Os mais conhecidos autores de divulgação científica brasileiro nos últimos anos são o físico Marcelo Gleiser e o médico Dráuzio Varella.  Coincidentemente ambos com várias participações em programas da Globo (Fantástico) e colunistas da Folha.  Dráuzio me agrada mais: adota um estilo curto e grosso e não faz concessões à pseudo-ciência, enquanto o Gleiser parece ter tanto medo da rejeição que acaba fazendo um estilo conciliador, que às vezes, acaba por comprometer o argumento.  Não é por chatice, mas a obra moderna fundamental da divulgação científica (opinião minha, mas compartilhada por muitos entusiastas do tema), é "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan², e explica direitinho o porque as pseudociências são tão perigosas, e mostra ainda como a ciência preenche de forma mais adequada - e bela - o papel de explicar o universo.

Com Nicolelis, parece que temos, finalmente, um divulgador científico de primeira magnitude:

1: Trata-se, inquestionavelmente, de um grande cientista.

2: É um visionário.  à exemplo de Sagan, Nicolelis vê na ciência, uma arma poderosa de transformação social.  Ano passado lançou o Manifesto da Ciência Tropical : um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil - vale muito a pena ler.

3: Não faz concessões aos bobocas das pseudociências - mas sem perder a ternura: trata-se de um sujeito extremamente simpático e gentil.  Uma das frases preferidas dele nesse sentido é a seguinte: "Se a palavra 'milagre' não tivesse sido adotada por outro ramo de negócio, deveria ser alocada na neurociência, porque fazemos umas coisinhas melhores"

Bem, mês passado foi lançado "Muito além do nosso eu: a nova neurociência que une cérebro e máquinas - e como ela pode mudar nossas vidas".  Nesse livro, o cientista fala do novo paradigma da neurociência - pelo qual é o principal responsável.  Lembram dos esquemas que mostravam um cérebro setorizado?  Em tal lugar fica o centro da fala, ali os sentimentos, aqui as memórias, acolá a língua pátria...pois é, aparentemente tudo isso é bobagem.  Eu desconfiava de uma coisa que vejo há muito tempo: os cursos "desenhando com o lado esquerdo do cérebro" - o Gabriel certamente conhece bem essa história.  Esse paradigma é conhecido, na neurociência como "localizacionista".

Nicolelis é um "distribucionista": demonstrou que o cérebro não é setorizado.  As memórias ou qualquer comportamento não se alocam numa parte específica do cérebro, mas em todo o órgão, e são resultado de uma interação entre "populações de neurônios".  Nesse ponto a gente costuma lembrar daquelas imagens com partes diferentes do cérebro acendendo e apagando em resposta a determinados estímulos.  Ocorre que essas imagens detectam a atividade máxima dos neurônios, e os neurônios não precisam "falar tão alto" para serem ouvidos no processo maior.  Os processos neuronais ocorrem em infinitos circuitos paralelos, e um conjunto de neurônios falando baixinho influenciam, de forma determinante, para o resultado dos processos neurais.  Enfim, ainda estou lendo o livro - acreditem, o tema é interessantíssimo e a abordagem do Nicolelis é fantástica, leiam.  Voltarei a escrever quando terminar a leitura.

O importante é o seguinte: esses estudos resultaram em aplicações que permitem que o cérebro "se liberte" do corpo.  Esses princípios possibilitaram a uma macaca controlar um braço mecânico para apanhar comida e levar à boca apenas com o pensamento, e que uma outra macaca na Carolina do Norte fizesse com que um robô andasse no Japão.  Teve ainda um bônus, só porque o cara é muito foda: acidentalmente Nicolelis acabou descobrindo uma terapia de eletroestimulação para o mal de Parkinson.

Com essas descobertas, Nicolelis pretende desenvolver próteses mecânicas controladas pela mente, como braços, pernas e até exoesqueletos para tetraplégicos.  Num futuro mais remoto, acredita que essa tecnologia poderá possibilitar que nossos cérebros comandem avatares e se conectem à internet, ou como ele chama essa nova rede, a "brainet".

Tudo isso pra chegar no que me motivou a escrever esse post.  Nicolelis foi convidado a participar de um debate na Flip.  Interessante, pensei.  Funcionaria assim: Nicolelis expõe mais ou menos o que está no livro, fala de seu centro de pesquisa em Natal e da escola de educação científica, e algum outro cientista ou jornalista comenta e faz perguntas, com a participação da platéia.  Mas não foi bem assim.  Resolveram chamar um intelectual para debater e questionar moralmente o trabalho.  O escolhido foi o "filósofo"³, professor de teologia e articulista da Folha, Luiz Felipe Pondé.

Não consegui assistir o debate, mas tenho encontrado fragmentos de vídeos e reportagens que mostram o seguinte: Nicolelis tinha uma expectativa muito boa.  Lá pelas tantas, estava com a voz embargada ao comentar seu sonho de fazer com que, na abertura da Copa de 2014, uma criança tetraplégica brasileira entre com a seleção, caminhe até o centro do campo e dê o pontapé inicial da Copa. O tal exoesqueleto é uma realidade muito próxima, e além de ser comandado pelo cérebro, devolve estímulos, de forma que a pessoa sente coisas com a prótese e ainda exercita os músculos.  Quem poderia ser contra tal coisa?

Pondé.


O video completo não está disponível em lugar nenhum (espero que alguém coloque, nesse caso eu atualizo aqui).  Pois bem, Pondé abriu sua fala dizendo-se muito preocupado, pois as aplicações propostas não passavam de mais um passo em direção à eugenia.  Adotou uma postura niilista, no sentido dostoievskiano mesmo (se Deus não existe, tudo é permitido).  Coloca que a ciência não dá sentido à vida, critica a "filosofia pobre" dos cientistas, etc...segundo o que li, foi prontamente rebatido.  Nessa entrevista, feita após a mesa, percebe-se a perplexidade de Nicolelis diante do que foi dito por seu "oponente" - o trecho a que me refiro começa em 2min e 15s:


Pondé enquanto colunista da Folha foi um cara que me chamou a atenção por um tempo, mas foi ficando claro que se trata de um polemista fraco.  Coincidentemente essa semana eu recebi uma edição da veja, acho que brinde da editora abril, e a entrevista das páginas amarelas é dele.  Pondé critica longamente os "jantares intelectuais", nos quais os comensais expõem seus esforços para melhorar o mundo andando de bicicleta ou reciclando o lixo - sobre o que deve-se conversar em jantares?  Fala ainda sobre a auto-santificação da esquerda (verdade) e da superioridade da filosofia cristã sobre tal posição, uma vez que os santos reconheciam que eram pecadores, enquanto esquerdistas são incapazes de admitir falhas morais em sua doutrina.

Trecho da entrevista da veja:

O senhor acredita em Deus?
Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou em si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilismo, e sou muitas vezes acusado de niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.

Por que o senhor deixou de ser ateu?
Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese do Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama moral muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.

Essa entrevista é absurda em tantos níveis, que eu não posso deixar de comentar algumas coisas:

1: O cara é um filósofo que "foi ateu por muito tempo", mas deixou de sê-lo porque acha o ateísmo "aborrecido do ponto de vista filosófico".  Eu não sou filósofo, mas "aborrecimento" não parece ser um argumento válido para definir uma posição a respeito do tema.  Mas Pondé parece precisar da fantasia e achar ciência uma coisa chata.  Só posso deduzir duas coisas disso: Pondé não entende muito de ciência e nunca foi um ateu fundamentado.  Declarar-se ex-ateu para um filósofo é um tiroteio no pé.

2: Pondé considera a religião como a nossa fonte de hábitos morais.  O Dawkins cuida bem dessa questão...parece claro que a nossa ética tem raízes iluministas, e não bíblicas - para nossa sorte.

3: Deus é a hipótese mais elegante para explicar a origem do universo?  Onde está a riqueza filosófica nisso?  O que há de elegância num estalar de dedos ou no trabalho de sete dias descrito no gênesis?  Elegante é a física, a evolução, o cosmos.

4: Acreditar na história, na ciência ou em si mesmo é bobagem?  Pondé é contra a realidade.

É incrível que um cara desses seja levado tão a sério.  Aliás, é frequentemente convidado para debater toda sorte de coisa na Globonews e tem uma coluna semanal na Folha.  Mais incrível ainda que esse tenha sido o intelectual selecionado para debater com Nicolelis, sem dúvida uma mente brilhante.  Eu estudei em colégio católico e não consigo imaginar nenhum dos irmãos maristas falando tanta bobagem em nome da teologia.  Achar que reabilitar um tetraplégico é um projeto de eugenia é foda.

Me parece que o Brasil, além de divulgação científica, carece também de polemistas de qualidade...na linha sucessória do Manhattan Connection, que sempre conta com um polemista no time, tivemos Paulo Francis, Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi.  Agora, o rei disso no Brasil, a nossa jóia da coroa é, certamente, Olavo de Carvalho.  Em comum, o fato de que todos esses tem um claro viés de direita, ou pelo menos anti-esquerda.

Já a Inglaterra, por outro lado, alem de produzir cientistas relevantes em bom número, produz ainda bons divulgadores científicos, humoristas e polemistas.  Um exemplo de polemista de altíssimo nível é o jornalista e professor de literatura Christopher Hitchens.  Em comum com os brasileiros citados, o fato de que é anti-esquerda.  É ex-marxista e apoiou Bush nas políticas intervencionistas americanas, embora tenha apoiado Obama contra McCain.

Um exemplo do Hitchens em ação:


Bill Maher é um comediante americano, um dos queridinhos da esquerda americana desinformada e péssimo representante dos ateus americanos "wannabe".  É dele o filme religulous...bobinho pra cacete.  Hitchens acusa, nesse vídeo, que Maher já havia feito umas 5 piadas sobre o QI de Bush, e que aquele era o tipo de piada da qual as pessoas burras agora dão risada, aquelas pessoas que vaiam na platéia porque se sentem mais espertas que o presidente...o olhar de Maher é impagável - foi abandonado por um de seus heróis.

Agora, Hitchens, ao contrário dos companheiros brasileiros, é tido como um dos mais respeitados intelectuais britânicos, justamente porque faz o que faz pela razão, não por necessidade orgânica de chamar a atenção e aparecer.

Uma polêmica levantada por Hitchens, muito bem fundamentada está no livro "The missionary position: mother Teresa in theory and practice".  Aqui Hitchens coloca em xeque a bondade da freira.  Fez uma extensa pesquisa e demonstra que a maior parte do dinheiro arrecadado para ajudar os pobres da Índia (muitas vezes arrecadado com ditadores de países miséráveis, como Jean-Claude Duvalier), foi aplicado na construção de conventos e não nos poucos muquifos que ela chamava de hospitais.

Esses fatos são tidos hoje como inquestionáveis, exceto, é claro, para a igreja católica.  Agora, imaginem que o cara é tão respeitado, que foi ele o convidado pelo Vaticano a advogar contra Madre Teresa em seu processo de beatificação.  Enfim, o cara joga em outro nível.

Voltando ao começo do post, deixo aqui o vídeo do Nicolelis no Roda Viva, onde ele explica o projeto de Natal e pincela aquilo que viria a se transformar no tal Manifesto do qual falei lá em cima.


Enfim, acho que esse é um caso em que vale a torcida pelo Nobel desse cara.  O Brasil precisa de uma celebridade desse calibre na ciência, acho que faria muito bem ao país.




1) César Lattes não ganhou o Nobel de física de 1950 por um erro (ou não).  Ele liderou a equipe que descobriu o "méson pi", e por algum motivo estranho, quem foi laureado foi o americano que redigiu o estudo - assinado por Lattes.  Segundo consta na Wikipedia, "No museu de Niels Bohr, em Copenhague, Dinamarca, há uma carta em que está escrito o seguinte: 'Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - abrir 50 anos depois da minha morte'. Como Bohr morreu em 1962, somente em 2012 saberemos a resposta do enigma."

2) A grande obra de Sagan, na verdade é "Cosmos".  Mas "O mundo assombrado pelos demônios" me parece mais relevante do ponto de vista filosófico.

3) O que precisa fazer pra ser filósofo?  Basta o diploma?

4) Nicolelis é palmeirense fanático, a ponto de ter proferido seu seminário na academia sueca (como indicado ao prêmio Nobel), vestindo a camisa do Palmeiras, com patrocinadores e tudo, só porque o dia em questão era a "onda verde", um dia em que os palmeirenses saem de casa vestindo as cores do clube.

5) Desse post acho que ainda vale escrever algo específico sobre Hitchens,  além de um outro sobre o livro do Nicolelis.  Veremos.