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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Morte e vida Severina

O motivo deste texto é recomendar a leitura de "Morte e vida Severina" e relatar a minha emoção em ver a versão animada, linkada adiante, mas no fundo é pura digressão.

Li a obra prima de João Cabral de Melo Neto na escola, por vontade própria - ou, como tudo, um pouco provocada. Salvo engano foi em 1992, oitava série. A minha turma foi a penúltima a ter aulas de "Organização Social e Política do Brasil" (OSPB). Pra quem nunca ouviu falar nisso, OSPB era uma disciplina que reunia conteúdos de Ciências Sociais e explicava o funcionamento do sistema político, administração pública, um tiquinho de Direito Constitucional.  Mesmo manco, o conteúdo me interessava muito, até porque eu não tinha noção nenhuma do que me faltava de fato, os conteúdos de Filosofia e Sociologia, amputados pelos governos militares.

Eu estudei numa escola particular católica da primeira série ao terceiro colegial, o Colégio Marista de Maringá. Era considerada uma ótima escola, na qual a elite maringaense educava os seus filhos. A maioria dos alunos era composta por filhos de políticos, empresários, grandes fazendeiros e profissionais liberais bem sucedidos. Tinha garoto do primeiro colegial que andava de moto, crianças cujos pais eram donos de aviões teco-teco e um bom número de alunos que praticavam hipismo...só pra ilustrar os "problemas de gente rica" que faziam parte do cotidiano do Marista, teve uma menina que ficou famosa por ter tido o nariz arrancado por uma mordida de cavalo. Eu era um dos poucos filhos de professores. Junto com os filhos de bancários e funcionários públicos, fazia parte de uma  pequena "segunda classe" na escola. Lembro de um negro nos meus 11 anos naquele colégio. 

Naquele tempo não me parecia que os pais do Marista se incomodassem com "doutrinação comunista". Meus professores de história, geografia e OSPB eram, provavelmente, pessoas de esquerda. Lembro de professores que promoveram debates em sala de aula sobre as eleições de 1989  (5a. série). Lembro de uma aluna criticando o comunismo, num desses debates, com um argumento infalível: "então o Roberto Freire devia dar metade das suas coisas pra uma família pobre". O Roberto Freire era o candidato pelo PCB, as pessoas achavam que ele era comunista - era o candidato do então reitor da Universidade Estadual de Maringá, então meu vizinho, que o trouxe pra falar num evento de colação de grau no ginásio esportivo da cidade.

Tive, portanto, algumas dessas professoras de história que praticavam a "doutrinação marxista" através do péssimo hábito de evidenciar as coisas feias do país tropical e explorar as suas raízes. Preciso dizer que essas professoras foi mal sucedidas, em grande parte: até onde tenho notícias, nenhum dos meus colegas se tornou um comunista. É possível e provável que hoje alguns deles pensem o contrário, que "O Marcelo virou comunista, um a mais do que o limite do aceitável".

Voltando ao motivo do texto, eu já entendia, em abstrato, o que significava a seca no Nordeste.  Primeiro porque o semiárido nordestino, a seca, a fome, faziam parte da paisagem cultural brasileira. As gretas de contração (procurem e aprendam), o gado magro ou morto, os retirantes, as crianças magras ocupavam, com uma  triste frequência, parte importante dos noticiários na TV - sinto informar, mas quem nasceu para a política no período pós-Bolsa-família não tem noção da gravidade do problema.

Lembro-me de uma série de livros adotados na disciplina de OSPB chamada "Viagem pela Geografia". Os livros dessa série eram parcerias entre um autor ficcionista e um professor universitário do ramo. Eram pequenos romances que buscavam ilustrar aspectos relevantes do conteúdo didático. Lemos dois desses: "Cuba em perspectiva", de Fernando Portela (jornalista) e José Herculano da Silva e "A seca no Nordeste", parceria de Fernando Portela com o geógrafo Joaquim Correia de Andrade. Imaginem quais seriam as reações dessa elite emebêelizada dos dias de hoje? Enfim, o livro sobre a seca explicava conceitos que eu não conhecia, foi a primeira vez que tive contato com o conceito de "indústria da seca". Certamente uma das primeiras vezes em que eu entendi o funcionamento grosseiro da política como instrumento de perversão. A ideia de que as secas no nordeste eram exploradas por coronéis e políticos para a manutenção de seus "currais eleitorais" me fez compreender, pela primeira vez, que certos políticos preferiam e agiam ativamente para não educar o povo. Preferiam manter a população na ignorância impedindo-a de enxergar suas reais motivações ou não investir em saúde, fazendo do tratamento das enfermidades uma graça concedida  através da devoção às suas figuras, concretizada eleitoralmente.

Em algum momento nessa discussão, não sei se no livro ou no debate de sala de aula, foi citado o poema de João Cabral de Melo Neto. O poema "Morte e vida Severina" foi, para mim, ao mesmo tempo um choque de realidade e abstração. A compreensão do tema me deu uma sede de desvendar as sutilezas da escrita do autor que, no fundo, é direto pacas. Foi capaz de colocar imagens na minha cabeça que me fizeram chorar. Foi arte que transformou, para mim, o flagelo da seca em realidade concreta.

Meu segundo contato com a obra foi também na escola. Novamente numa aula de história, novamente com uma fracassada doutrinadora do comunismo. O filme "Morte e vida Severina", de 1981, apresenta a versão musicada de Chico Buarque, só porque na vida da gente tem desses momentos em que a genialidade pura se manifesta e, se tem algo de que este país não padece, é da falta das artes.


O trecho mais conhecido do poema, talvez por conta da versão do Chico, é quando Severino "Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério":



Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida


É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio



Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida



É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo



É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo



É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada não se abre a boca



É a conta menor que tiraste em vida


É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)



Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca



Descobri agora uma animação do poema, já não tão recente, que merece muito ser vista. É bonita em todos os sentidos: fora a poesia, o desenho é lindo, apresenta uma estética de quadrinhos e uma sensibilidade para retratar a crueza da realidade de "Morte e Vida" que me pôs a escrever.


Morte e Vida Severina é uma obra que deveria fazer parte do repertório de todo brasileiro. Rever esse poema me faz pensar no quão artificial e cruel é a manutenção da pobreza das populações mais frágeis do país. Ou em como um partido como o PMDB - agora sem "pê" - serve não apenas aos interesses do mercado mas, como um partido que funciona como uma confederação de coronéis e caciques regionais, lhe interessa, sistemicamente, o retorno dessa condição que parecia superada: a exploração da fome como instrumento de domínio e controle social.

Aziz Ab´Saber escreveu, em 1999, um texto chamado "Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida", que considero um dos textos mais geográficos, de fato, já produzidos no Brasil. Pra quem se interessar, o link está aqui. Eu recomendo a leitura integral, mas como sei que a primeira parte do texto, que trata da geografia física requer uma certa familiaridade com o jargão da Geomorfologia, sugiro que comecem a leitura pela segunda parte do texto "A última grande seca do século".

Há seis anos, o Nordeste encara mais uma grande seca. Dessa vez, não vimos as imagens das ondas de retirantes chegando aos grandes centros urbanos, do gado morrendo, do drama da fome. Isso se deve, incontestavelmente, aos programas de segurança alimentar, em especial, ao Bolsa-família. Os retrocessos promovidos por Michel Temer e seu governo, em nome da entidade "O Mercado", representado no Planalto pelo PSDB, e dos interesses dos caciques regionais de seu partido, o PMDB, de latifundiários, senhores de engenho do século XXI.

Enfim, a produção artística de um país é certamente um instrumento civilizatório. Artistas são especialistas em ilustrar, comunicando-se com as nossas sensibilidades, a condição humana. Morte e Vida Severina é uma dessas obras que, em minha experiência pessoal, serviu como gatilho para conectar um conhecimento formal, que já existia em mim, com a importância de tê-lo e, mais importante, de sensibilizar-me para com a realidade descrita.


"a realidade é tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta."

"Uma faca só lâmina", João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 30 de agosto de 2016

das interpretações do golpe (ou não?)

Noam Chomsky falando sobre a situação do Brasil. Simples, conciso, direto:


"É uma espécie de 'golpe branco'. A elite detestava o Partido dos Trabalhadores e está usando esta oportunidade para se livrar do partido que ganhou as eleições. Não vão esperar pelas eleições, que provavelmente voltariam a perder, mas querem se livrar dele (PT), explorando uma recessão econômica, que é grave,  e a maciça corrupção que foi exposta. Mas como até mesmo o New York Times apontou, Dilma Rousseff talvez seja a única liderança política que não roubou para se beneficiar. Ela está sendo acusada de manipulações no orçamento que são comuns em muitos países, tirando de um bolso e colocando em outro, o que talvez seja um malfeito de algum tipo, mas que certamente não justifica um impeachment. Temos a única líder que não roubou para enriquecer sendo impedida por uma gangue de ladrões que o fizeram. Isso de fato conta como um 'golpe soft'."

O texto a seguir não é exatamente sobre essa fala de Chomsky, mas sobre o discurso de uma ala de intelectuais na esquerda do nosso espectro político, incapazes de propor qualquer coisa que passe um da pura demonstração de erudição a serviço de porra nenhuma.

Lembro aqui que eu posso estar equivocado sobre as minhas conclusões. Tenho uma formação de origem naturalista, tendo migrado, posteriormente, para o terreno movediço das humanidades, portanto, meio diferente da maioria dos acadêmicos de formação puramente humanística. Sou um determinista. Pois bem, penso que "golpe soft" ou "golpe branco", utilizados por Chomsky, são os termos que melhor descrevem o movimento político que está em curso no Brasil.

Parte da esquerda tem rebolado junto com a direita, embora de forma mais elegante e prolixa, para explicar que o que acontece aqui não é um golpe.

Idelber Avelar compartilhou há pouco um texto de Marcus Fabiano Gonçalves, professor de direito na UFF, no qual o último explica que golpes de Estado, na definição de muitos autores clássicos, requerem uma tomada violenta do poder, ou, minimamente repentina. Aviso, o texto é bastante extenso, demanda muita disposição.


Para o autor, o fato de que Dilma vem se enterrando lenta e longamente numa situação política insustentável faz do termo "golpe" muito mais uma questão de retórica política, o que desqualificaria o fenômeno da definição clássica de golpe de Estado:

"A palavra 'golpe' nos chega pelo latim vulgar colpus, anteriormente grafada colaphus, 'bofetada, soco, murro', originando-se, por sua vez, do grego kálaphos (κάλαφος), 'tapa na cara, pancada na face'. Ou seja: a partir da analogia que se procura nesse gesto, compreende-se o 'golpe' como uma medida enérgica e repentina desferida contra certa ordem estabelecida. E ninguém precisa ser um grande cientista político para constatar que Dilma Rousseff não sofreu nenhum solapamento súbito. Muito antes pelo contrário: a sua sustentação popular e parlamentar veio paulatinamente erodindo-se até o limite da ingovernabilidade desde as manifestações de junho de 2013, coisa perceptível em estrondosas vaias (como as da Copa do Mundo), sonoros panelaços e múltiplas defecções de sua base aliada, outrora fidelizada à custa do Mensalão que produziu as condenações da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal."

Para usar a expressão de Sokal & Bricmont, "fashionable nonsense". O texto começa bem, o autor demonstra seus traços de erudição através de um vocabulário rico - que se mantém até o final do texto, ao contrário da qualidade da argumentação.

Gene Sharp e Noam Chomsky, explicam essa modalidade relativamente moderna do golpe, o chamado "golpe branco", no qual os agentes golpistas se utilizam do aparato legal e formalidades jurídicas para atingir o poder. O caso paraguaio é citado no texto justamente para expor as diferenças do que aconteceu por lá com a nossa versão da coisa:

"Corretamente chamado de 'golpe relâmpago', tal episódio não pode, em hipótese alguma, ser posto em paralelo ou suscitado como algum precedente razoável para a situação brasileira do afastamento constitucional de Dilma Rousseff, mesmo porque ele tampouco envolve um caso gravíssimo de corrupção como o que atinge o partido e os auxiliares mais diretos da Presidente do Brasil. Não bastasse isso, as diversas e longas oportunidades de defesa aproveitadas pelas representações de Dilma Rousseff chegaram ao limite do constrangimento e da ruptura do decoro parlamentar quando, na própria Câmara dos Deputados, o Advogado Geral da União chamou, sem pejos, os mandatários lá reunidos de 'golpistas', coisa que, em qualquer país de sólida tradição democrática, ensejaria as mais contundentes exigências de desagravo."

Para Gonçalves (e Avelar, por adesão) o processo brasileiro não só não pode ser chamado de golpe no sentido clássico, mas não pode ser comparado a um golpe sob qualquer circunstância. A diferença do caso paraguaio para o nosso é o fato de que por lá os prazos para defesa foram extremamente exíguos e a motivação não teria sido um escândalo de corrupção, mas um pretexto moral (as crias de Lugo). Cabe ressaltar que os tais "golpes brancos" não são vinculados a um prazo específico ou à extensão e complexidade do processo. Pelo contrário, quanto maior a impressão de que os procedimentos foram seguidos à risca, melhor caracterizada fica a coisa. Neste sentido, penso que é justamente o golpe paraguaio que se situa na condição limítrofe dessa modalidade de ruptura democrática, é quase um golpe clássico. A coisa aqui foi cozida em fogo baixo, nossos rabos devidamente lubrificados, o discurso da mídia martelado à exaustão. Fomos vencidos, afinal, pelo cansaço, alienação e bundamolice, conforme ilustrou Laerte, de forma brilhante:



Gonçalves, ao contrário, utiliza o fato de que o procedimento foi conduzido lenta e cautelosamente para justificar sua adesão à tese de que "se o STF respalda o procedimento e existe previsão constitucional para impeachment não é golpe":

"Contudo, desde uma perspectiva constitucional, o processamento do impeachment – cujo rito vem sendo estritamente fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com toda clareza e publicidade em sessões até transmitidas pela televisão –, não há nunca de ser chamado de 'golpe' e, muito menos, de “golpe de Estado”. Golpe de Estado é, isso sim, um atentado à ordem instituída caracterizado por um procedimento de tomada do poder rápido, vigoroso e perpetrado ao arrepio da lei e da Constituição, via de regra mercê do emprego da força militar coativa. Assim, é próprio à dinâmica do golpe de Estado um tipo de agilidade que, impondo surpresa aos seus adversários, cuida de se precaver contra eventuais resistências."

Puta merda, então precisa do elemento-surpresa. Novidade pra mim e pro Brasil, país no qual o último golpe reconhecido por todos foi arquitetado por 10 anos, coincidentemente gestado através de muita propaganda, apoio da mídia e  setores conservadores da sociedade nacional. Sei lá, talvez só o finalzinho conte nessa regra, quando os militares pulam por detrás da cadeira do Jango e gritam "surpresa!".

Dilma, em uma de suas muitas respostas no senado, afirmou que em lugar nenhum na literatura política é dito que golpe de Estado = golpe militar. Não é verdade, há autores que dizem isso...trata-se, porém, de uma leitura anacrônica da realidade política: ou a conjuntura brasileira não comporta um novo golpe militar, ou (o que penso ser o mais provável), simplesmente os interessados optam pelo menor esforço, o golpe parlamentar.

Goste-se ou não de Dilma, é fato que as acusações contra ela não passam de um pretexto para devolver o poder no Brasil aos seus "donos" de fato.


O texto traz alguns elementos interessantes, que podem ser utilizados como justificativa para o raciocínio que pretende conduzir: o marketing político certamente busca o exagero em suas declarações. Não significa, em absoluto, que o processo atual se trate de uma construção de marquetagem...mas pra arrematar o argumento, o autor nos dá a origem da utilização do termo golpe no caso nacional: Paulo Henrique Amorim.


"O rumor do 'golpismo' provém da expressão 'Partido da Imprensa Golpista' (PIG), um vitupério cunhado em 2008 para se denegrir as grandes redes de mídia, das quais foram demitidos alguns jornalistas, desde então, e repentinamente, empenhados em interpretar seus afastamentos como autênticas perseguições ideológicas."

Certo...foi porque PHA criou este vitupério (quer dizer insulto, eu olhei) à grande mídia brasileira, que os néscios da esquerda toda - incluindo Chomsky e Zizek, unidos num só coração - chamam a coisa de golpe. Honestamente, no momento atual não tenho um pingo de paciência pra essa intelectualidade cínica e vaidosa de setores da intelligentsia da esquerda. Serve pra bosta nenhuma.Quem se dispuser a ler o texto me diga depois em qual tipo de discurso reside a exclusividade da retórica política. Enquanto se discute se é permitido chamar a coisa de golpe ou não (como se qualquer coisa dependesse de suas iluminadas cabeças), o golpe é consumado.

Parabéns pelo vocabulário e pela inutilidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O palhaço triste

Hoje tem palhaçada?
Tem sim senhor!
Hoje tem marmelada?
Tem sim senhor!
E o Tiririca o que é que é?

É um pobre coitado que, ao perceber que o "sim" ganharia, resolveu inverter o seu voto momentos depois de garantir apoio ao governo.  Um sujeito tão sem noção que aparentemente acredita que seus milhões de votos são oriundos de um eleitorado que acompanha e se preocupa com as suas posições, e não votos de protesto. Um deputado que apesar de ter conquistado uma votação altíssima, caiu de 1.348.295 de votos em 2010 para 1.016.796 em 2014, e que tendo mudado de posição não terá a confiança de nenhum dos lados do espectro político.  Um deputado que, a despeito de ter chegado ao Congresso como piada, amealhou algum respeito por sua atividade parlamentar: assiduidade de 100% e apresentação de diversos projetos de lei relacionados à cultura e à atividade circense; em quem, portanto, os profissionais do circo depositavam alguma esperança de representação.  Estes profissionais reagiram ao voto do deputado, o que os levou a apresentar o seguinte manifesto:

"Ao Excelentíssimo Senhor Tiririca Deputado Federal

Senhor Deputado,

Nós, palhaças e palhaços profissionais, brasileiros e estrangeiros engajados na defesa da democracia do Brasil, manifestamos nossa mais completa insatisfação e repúdio em relação à postura e ao voto de V.Exa na votação do processo de impeachment do último domingo, 17 de abril de 2016.

Como o senhor bem sabe, nossa profissão se baseia, acima de tudo, na verdade e na honra com a qual o artista se dirige a seu público.

O que certamente nos diferencia do senhor, na atual situação de nosso país, é a coragem ética com a qual nós, ao contrário de V.Exa, lutamos pela consolidação da, ainda frágil, democracia brasileira.
Sabemos perfeitamente que, em nosso sistema constitucional, não se pode derrubar um governo simplesmente porque não se concorda com sua política. É preciso que se prove a existência de crime de responsabilidade. E tal noção de crime, forjada do dia para noite, em uma Câmara cujo presidente é investigado na operação Lava Jato, arranha consideravelmente a legitimidade de um processo que se pretende honesto. 

V.Exa não quer, ou não tem interesse em observar esses fatos com isenção, honra e justiça. Daí nossa brutal e essencial diferença.

Portanto, deputado Tiririca, trocando em miúdos: no último domingo, lamentavelmente, o senhor não representou os palhaços e palhaças profissionais, envergonhando aqueles que buscam honrar o seu ofício de levar alegria ao povo brasileiro."

Segue a assinatura de um grande número de profissionais circenses, conforme pode-se ver na carta original.



É um pouco demais a esquerda responsabilizar Tiririca por sua desgraça.  O palhaço não é causa, mas efeito de um sistema político em ponto de ruptura e do analfabetismo político da população.  Não me sinto confortável em tripudiar sobre uma pessoa tão simples quanto este deputado.  Mas é importante lembrar que não é necessário qualquer nível de educação formal para saber que não se quebra palavra acordada, goste-se ou não de Lula ou de Dilma.  Aqueles que convenceram Tiririca a mudar de voto e celebraram o voto do palhaço certamente não têm por ele um pingo de respeito.  Aliás, só quem poderia dedicar algum respeito a um homem sem instrução, suspeito de analfabetismo após sua primeira eleição, de origem humilde e palhaço profissional seriam justamente aqueles que Tiririca traiu ao mudar seu voto em função da ocasião: a população humilde, palhaços e profissionais do circo.  Uma pena.


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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Folha de S. Paulo: contraeditorial (21/04/2016)

Lamentável o editorial de hoje da Folha de São Paulo, "Golpe na ONU".

Há algum tempo o conselho editorial do diário paulista vem adotando uma linha ameaçadora à Dilma em seus editoriais: "se não fizer isso", "se não fizer aquilo".  Em linha com a contraofensiva lançada por Michel Temer para evitar danos à sua imagem junto à comunidade internacional, que discuti aqui, o artigo dá mais um ultimato à Dilma:

"Se não voltar atrás em mais uma atitude mal concebida na solidão do Planalto, a presidente Dilma Rousseff (PT) embarcará para Nova York com uma péssima ideia na bagagem: denunciar na ONU o suposto golpe de Estado representado pelo processo de impeachment"

Colocada na complicada situação de justificar o injustificável, a Folha classifica como "esdrúxula" a convicção de que a imprensa internacional estaria alinhada à ideia de golpe, alegando que "há de tudo entre os comentários publicados sobre o impedimento." É uma meia verdade.  Se é correta a alegação de que muitos veículos da imprensa internacional não chama o processo de "golpe" per se, é inescapável a percepção de que descrevem o impeachment pelo que é: um processo antidemocrático, no qual uma presidente sem acusações de crime é julgada por um circo comandado por um bandido, aliado a um vice-presidente conspirador que visa levar ao poder um grupamento político incapaz, há quatro eleições, de derrotar o petismo nas urnas.  Essa percepção, aliás, é o que justifica a preocupação de Temer e sua turma de conspiradores. Ademais, boa parte do que saiu publicado na imprensa internacional como artigos de opinião é redigido por brasileiros, muitas vezes, membros da mídia corporativa nacional.

Para a Folha, por outro lado, "não há reparos a fazer ao processo de impeachment, até aqui, do ponto de vista institucional".  Trata-se de colher o resultado argumentativo de uma verdade que a própria imprensa brasileira tentou plantar: a de que o processo é legítimo porque a figura do impeachment está na constituição.  Há alguns meses convivemos com uma enxurrada de textos e entrevistas que buscam dar suporte a esse argumento.  A pergunta, feita à exaustão era: "impeachment é inconstitucional?".  Tratei do assunto aqui.

Outro argumento compatível com a narrativa criada pela mídia nacional é a declaração do ministro Celso de Mello de que "é um grande equívoco reduzir-se o procedimento constitucional de impeachment à figura do golpe de Estado.". É sempre conveniente encontrar um posicionamento do STF que não seja de Gilmar Mendes.

Ainda na questão da legalidade, a Folha dá o veredito:

"Pode-se questionar, como fez esta Folha, se as chamadas pedaladas fiscais constituem motivo suficiente para o impeachment. Não se pode negar, entretanto, que a prática figura entre os crimes de responsabilidade descritos em lei, nem que os deputados detêm autorização constitucional para emitir juízo sobre o assunto. "

Reproduzo a perplexa resposta de Marco Aurélio Mello a Augusto Nunes, no Roda Viva: "Ora, pra que processo então?".  Não cabe à imprensa determinar o que é ou não é crime.  O mérito do processo ainda não foi julgado e, pessoalmente acredito que seja muito difícil, caso o STF decida julgar o mérito da questão, que se considere que as "pedaladas fiscais" constituem crime de responsabilidade.  Deixando isso de lado, trata-se de absoluta dissimulação do jornal afirmar que "a prática figura entre os crimes de responsabilidade descritos em lei", uma vez que a interpretação jamais foi neste sentido.  Quanto a autorização constitucional para emitir juízo, sim eles a tem.  Mas emitir juízo sobre o assunto foi a única coisa que não fizeram no domingo passado.

Vencida a argumentação legal, resta ao jornal apenas duas atitudes: desqualificar as posições das autoridades que se declararam contra o golpe, como "as manifestações impensadas dos secretários-gerais da OEA, Luis Almagro, e da Unasul, Ernesto Samper" e o apelo à imagem do Brasil.  Denunciar o golpe, "mesmo se estivesse certa, ainda seria um ato irresponsável", pois "toca a quem a ocupa zelar por seu bom conceito aqui e alhures, e não solapá-lo", equivale, como argumentei ontem, a dizer: "olha, mesmo que a gente tenha feito merda, não saia por aí contando porque pega mal".  Vou repetir sumariamente, porque já me referi a isso, mas o que pega mal mesmo, na comunidade internacional é o baixo nível do nosso congresso, uma conspiração armada por um vice-presidente, um corrupto comandando um processo que, pra dizer o mínimo, é antidemocrático.  Atacar a democracia pega mal.

No final do editorial a Folha parece estar tentando bater algum tipo de recorde de dissimulação.  Primeiro por adiantar que "espernear não vai resolver nada", porque eles já sabem o que vai acontecer: "decerto tomarão como insólita (se não oportunista) a tática de instrumentalizar uma reunião sobre mudança do clima para fazer propaganda dirigida ao público brasileiro e, pior, em causa própria, não no interesse nacional". Mas por último, e mais grave: a Folha apela a FHC e a Lula:

"Com o mau passo, Dilma Rousseff apenas abalará mais um pouco, em seu desleixo diplomático, a imagem do Brasil como democracia funcional e estável, reconstruída a duras penas por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)."

É de lascar, né? Resumo da ópera: desde que a Folha decidiu escrever exclusivamente para o público conservador, passou a se comportar de forma vil.  Apela não para o bom senso, mas para a burrice do leitor.  Neste editorial dá uma lição do que o jornalismo não deve fazer: desinforma, pratica o proselitismo, ameaça e vaticina. Ameaçar e declarar que aqueles que se sentem injustiçados não devem procurar apoio onde julgam poder encontrar bom senso não pode ser descrito em outros termos que não terrorismo jornalístico.


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Um novo tempo



Coxinhas, vocês tinham razão!!

O país tá bem melhor. Na manhã seguinte ao impítiman, o Ibirapuera estava assim. Obrigado pela lucidez, agora a gente tira o Temer, o Cunha, o Renan, os 16 governadores e milhares de prefeitos que pedalaram, os 300 e tantos parlamentares com pendências jurídicas e consegue um pedido de desculpas do Bolsonaro, né?

Me avisem quando.

domingo, 17 de abril de 2016

São Paulo, 17 de abril de 2016



Caros amigos,


Logo mais eu e muita gente iremos às ruas. Bicho racionalista/determinista que sou, não sei se com algum efeito prático, mas mesmo sem saber se nossa presença nas ruas pode ter algum efeito absolutamente positivo, acredito que pode haver um efeito relativo: o de que ruas vazias, por parte da esquerda possa, implicitamente, autorizar deputados que ainda não decidiram (ou não quiseram decidir) a votar a favor do golpe que se tenta neste momento.

A responsabilidade sobre a presença nas ruas é da esquerda.  A massa CBFista que certamente dividirá os espaços públicos conosco não se move naturalmente.  Por mais que não se sintam assim, essas pessoas estarão nas ruas como resultado da ininterrupta incitação e manipulação da grande mídia corporativa nacional, nas mãos de cinco famílias que na verdade são uma só.  Da mesma forma que a imprensa colocou Collor no Planalto para depois derrubá-lo, é provável que a multidão revoltosa seja apenas utilizada como cenário legitimador – até porque a partir daquele processo, é dever daqueles que pensam o país com responsabilidade histórica ao menos considerar que houve traços de ilegitimidade em 1992.  A diferença é que, ao contrário do que acontece agora. absolutamente ninguém se dispunha a defender o presidente “d´aquilo roxo”. Eis a dimensão política de um processo de impeachment.

Em 2010 Lula deixa o governo com 87% de aprovação.  Me pergunto: quantos dos que agora enxergam no PT uma filial do inferno estavam entre os 4% que, ao final daquele período consideravam o governo de Lula ruim ou péssimo?  Ali estava a semente do ódio que, adubada por parte da elite nacional com altas doses de chorume midiático floresceu nesta sufocante e opressiva massa verde-amarela.

Outro sentimento me move no dia de hoje: o medo grande de que, caso se confirme essa marcha da insensatez, venhamos a mergulhar num longo período negro da nossa história.  Alguns falam em 20 anos para voltar à normalidade.  Não há como saber: o governo golpista pode até ser transitório e cair em 2018, mas certamente quem luta de forma tão ardilosa para chegar ao poder não tem intenção de deixá-lo tão cedo.  Até porque a força motriz do golpe é a preservação de uma classe política que se vê ameaçada por seu próprio remédio: a lava jato começou a respingar em quem não devia.  É cedo para saber se haverá violência de fato: isso dependerá exclusivamente da capacidade de resistência dos democratas, já que sabemos o tom da resposta das polícias aos já marginalizados movimentos sociais no país.  Caindo o governo Dilma, estejam certos de que a criminalização da esquerda continuará com força total.  Eu penso que os donos (de fato) do poder avaliam que pegaram leve com Lula em 2002.  Não repetirão o erro.

O golpe que está em curso é mais sofisticado que aquele que vivemos em 1964: o Paraguai foi o laboratório desta nova modalidade na América do Sul.  No país vizinho, Fernando Lugo caiu em um processo que durou 48 horas; por essas paragens, o processo teve início em dezembro, mas vem sendo gestado há muito tempo, desde a derrota não admitida por Aécio, pra sermos específicos. De forma mais difusa, porém, desde que os setores interessados perceberam que poderiam aproveitar os protestos de 2013 para canalizar um sentimento contido de ódio de classe que eclode pelo menos 11 anos atrás, durante a campanha vencedora de Lula em 2002.  Há, até o presente momento, um esforço hercúleo em dar contornos de legalidade ao golpe.  Isso continuará. 

Por fim, um outro fator me fará deixar de acompanhar o circo de hoje de casa, com conforto, comida e cerveja, fazendo comentários nas redes sociais e montando planilhas: não conseguiria ficar em paz estando em casa.  De alguma forma me sinto moralmente obrigado a fazer volume no Anhangabaú.  Quero deixar claro que não imputo reprovação alguma àqueles que não poderão ou não querem ir...cada qual tem suas razões e não cabe a mim questioná-las.  Mas penso que se a votação de hoje estiver de fato perdida, será das ruas, os grandes palcos da democracia brasileira, que sairão os primeiros gritos de resistência.

Boa sorte a todos nós, forte abraço.



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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Redução da maioridade penal: o brilhante armamento retórico conservador

Em mais um capítulo do processo da ascensão do conservadorismo e "absurdização" da discussão política nacional, a CCJ da Câmara dos Deputados resolveu há pouco, por 43 votos contra 21, que a proposta da PEC que reduz a maioridade penal no país para 16 anos não é inconstitucional.

Apesar de se tratar de uma proposta ridícula, a discussão é legítima...como é legítimo discutir se cavalos devem usar fraldas no país.  Mas os argumentos apresentados pelos que defendem a proposta, divulgados pelos grandes órgãos da mídia nacional são, até agora, uma coleção de não-argumentos.

Um dos artigos mais lamentáveis que vi até o momento foi essa matéria da UOL. Um verdadeiro show de má-argumentação:

1) A mudança do artigo 228 da Constituição de 1988 não seria inconstitucional. O artigo 60 da Constituição, no seu inciso 4º, estabelece que as PECs não podem extinguir direitos e garantias individuais. Defensores da PEC 171 afirmam que ela não acaba com direitos, apenas impõe novas regras;

2) A impunidade gera mais violência. Os jovens "de hoje" têm consciência de que não podem ser presos e punidos como adultos. Por isso continuam a cometer crimes;

Sim, é como se a possibilidade de ir pras "Fundações Casa" da vida fosse algum tipo de incentivo. E como se os "jovens de hoje" com menos de 16 anos não pudessem seguir a mesma lógica. E como se jogar mais gente no escola do crime sistema prisional brasileiro fosse gerar cidadãos melhores ao fim de suas penas.

3) A redução da maioridade penal iria proteger os jovens do aliciamento feito pelo crime organizado, que tem recrutado menores de 18 anos para atividades, sobretudo, relacionadas ao tráfico de drogas;

Claro...porque os bandidos que aliciam jovens de 16 e 17 anos têm muito escrúpulo e jamais irão pensar em compensar a perda destes com crianças de 12 a 15 anos de idade. A entrada no mundo do crime através deste tipo de prática será adiantada em dois anos.

4) O Brasil precisa alinhar a sua legislação à de países desenvolvidos com os Estados Unidos, onde, na maioria dos Estados, adolescentes acima de 12 anos de idade podem ser submetidos a processos judiciais da mesma forma que adultos;

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"O Brasil precisa alinhar a sua legislação à dos EUA"

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Que tipo de argumento é esse? Nenhum dos países "desenvolvidos como os Estados Unidos" apresentam taxas de criminalidade e homicídios tão altas quanto às daquele país, nem uma população carcerária tão grande.  Ainda em relação aos EUA, vale a pena lembrar a correlação positiva entre pena de morte e número de homicídios: estados que aplicam a pena capital apresentam taxas maiores de homicídio.  Porque não argumentar que Brasil e EUA precisam alinhar suas legislações àquelas de países desenvolvidos como Suécia, Noruega, França...ou de Espanha e Alemanha, que voltaram atrás na redução da maioridade penal, após verificar que, como em TODOS OS PAÍSES QUE SEGUIRAM O MESMO CAMINHO NÃO HOUVE DIMINUIÇÃO DA CRIMINALIDADE.

5) A maioria da população brasileira é a favor da redução da maioridade penal. Em 2013, pesquisa realizada pelo instituto CNT/MDA indicou que 92,7% dos brasileiros são a favor da medida. No mesmo ano, pesquisa do instituto Datafolha indicou que 93% dos paulistanos são a favor da redução.

A maioria da população brasileira jamais foi exposta a um debate profundo sobre este tema, que não tem nada de trivial. O advento do Direito é consequência da evolução, através dos milênios - das Ciências e da Filosofia...resultado de muto debate realizado por gente que gastou muito neurônio pra pensar no assunto. A reação imediata de qualquer vítima de crime pode ser o sentimento de vingança...mas se pudéssemos agir sobre este desejo toda vez que acontece algo, a civilização teria uma cara muito diferente - e menos civilizada. Há uma razão prática para termos abandonado as Lei de Talião ("Olho por olho, dente por dente"). A ideia é simples e atraente, especialmente por parte de quem não pensou muito sobre o tema (a imensa maioria desses 93%).

Tomar uma decisão desse porte em função do que a maioria pensa é equivalente a decidir como deve ser feita a distribuição dos recursos da pesquisa científica entre as áreas do conhecimento baseada na opinião do público da Sapucaí; ou decidir o cardápio das merendas escolares baseando-se na preferência das crianças.

Crime é uma doença social. Nenhuma medida punitiva, como já verificado nos países que reduziram a maioridade penal, irá fazer com que caiam as taxas de criminalidade, por um motivo simples: o crime é produto de uma determinada dinâmica social.

Enfim, os agitadores da direita já armaram seus seguidores com argumentos menos risíveis.


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