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sexta-feira, 22 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Censura
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Não há mais limites para a surreal oposição brasileira. O último movimento consiste em tentar impedir que a Dilma fale na ONU. Aloysio Nunes, o candidato à vice-presidência na chapa de Aécio, declarou o seguinte:
Ora...quem foi que transformou o Congresso num circo em que palhaços corruptos comandados por um gangster julgaram uma presidente sem qualquer acusação diante dos olhos do mundo inteiro?
Quem é que está levando às últimas consequências um pedido de impeachment que a imprensa internacional reconhece como ilegítimo pela ausência de crime?
Quem é que está viajando aos EUA a mando de um vice-presidente conspirador, flagrado com um inédito sorriso de orelha a orelha ao assistir a palhaçada que hipnotizou o país no último 17 de abril, para convencer o mundo de que "o golpe não é golpe"?
Um vice-presidente sorri ao assistir o resultado da conspiração que o levou à quase-presidente
Essa foto certamente entrará para a galeria das imagens mais escrotas da história do Brasil.
Essa foto certamente entrará para a galeria das imagens mais escrotas da história do Brasil.
Esse receio em relação à própria imagem (porque, como vimos na câmara, esse povo tá cagando pra imagem do país) é equivalente a um marido que, após espancar a mulher, fica com medo que ela relate o acontecido à imprensa, porque pega mal ficar conhecido como "aquele cara que bate na mulher".
Temer, é LÓGICO que pega suuuuper mal a imagem de golpista, de um vice que conspira contra a presidente. Deixo a dica: evita-se esse tipo de coisa respeitando o estado Democrático de Direito, é simples.
Agora, como eu já disse antes, a estratégia de impedir a presidente de viajar à Nova York e denunciar, na ONU, aquilo que toda a imprensa internacional já entendeu é enfiar as patas traseiras pelas dianteiras. Pra quem não quer parecer golpista, censurar a fala da presidente no órgão máximo da política internacional é o ápice da burrice.
É só.
segunda-feira, 21 de março de 2016
É golpe (ou a arte de produzir efeito sem causa)
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
subtítulo roubado do Mutarelli
Você mora em Bom Jesus do Galego e comprou uma arma. Gosta de atirar e aos fins de semana vai até sua chácara em Santa Maria do Suaçuí, derrubar umas latinhas.
Fulano de Tal é um desafeto antigo, que você não vê há sete anos. Trata-se de um ex-colega de trabalho que, ao disseminar boatos a seu respeito, acabou provocando sua demissão e divórcio. Você nunca mais ouviu falar no sujeito até que, numa bela manhã, a polícia bate à sua porta e o conduz até a delegacia, para prestar esclarecimentos.
Você ouve todo tipo de perguntas, a respeito de uma arma, do seu relacionamento pregresso com o tal Fulano de Tal, se sabia da morte do filho dele, se havia ido à Santa Maria do Suaçuí no fim de semana em que, tragicamente, Ciclano de Tal - filho de Fulano - havia sido morto por um disparo de uma arma igua à sua.
Na saída da delegacia, um repórter da TV Leste, afiliada da Rede Globo, faz perguntas acerca do motivo do crime: você tem filhos? Como se sentiria caso matassem um deles? Tem alguma coisa a dizer para a família Tal? A sua indignação e confusão geram uma resposta meio desinteressada, algo fria. À noite, o Brasil fica sabendo do crime bárbaro: Ciclano de Tal, 7, morto com um tiro entre os olhos.
Grupos de pessoas fazem vigília na frente da sua casa, sua mulher é agredida na padaria. A população brasileira conhece o seu ódio por Fulano de Tal e se comove com as lágrimas do pai, que "só quer justiça".
Não há qualquer prova material contra você, além de uma história segundo a qual você teria motivos banais para matar uma criança, vingança desproporcional para uma briga de trabalho, convenhamos...mas você esteve na cidade do crime, na data do crime. Pessoas de Bom Jesus do Galego confirmam a viagem, há um pagamento registrado no seu cartão de crédito em um posto de gasolina na entrada de Santa Maria do Suaçuí. A bala que matou Ciclano de Tal é compatível com as balas da sua arma que foi, aliás, disparada naquele dia.
Há uma história compatível com a de alguém que tenha assassinado o pequeno Ciclano de Tal, mas...é também uma história compatível com a de alguém que não tenha matado o menino. A história é convincente, a opinião pública foi formada - Fulano de Tal chorou no Fantástico.
O promotor é novo, inexperiente, mas o clamor popular acaba te condenando no tribunal do júri, que não é exatamente um julgamento técnico, formal...o apelo emocional tem um grande peso aqui. Você é condenado a 17 anos de prisão.
Você sai do fórum berrando aos microfones que "não posso ser preso, não praticou homicídio". Não importa.
Agora, imagine o seguinte: ao ouvir sua estribuchação (estribuchagem? estribuchamento?), o promotor, com um sorriso maroto diz - para que as câmeras registrem:
"Pode sim. Não há injustiça alguma sendo cometida aqui, pois homicídio é crime e está previsto em lei."
Alguém levaria esse argumento a sério?
E se o William Bonner desse a notícia, em tom frio: "Assassino de Ciclano de Tal acusa justiça de praticar ato ilegal".
Na mesma noite, Merval Pereira conversa com dois respeitados juristas, que se põem a esclarecer que homicídio é crime, sim. Um deles abre o Código Penal e faz a leitura do Artigo 121, em voz alta, para assegurar à população de que matar alguém é, de fato, ação passível de pena. O outro doutor inicia uma explicação no sentido de que:
- Mas o que está em jogo não é se o crime de homicídio existe ou não, mas..."
- Mas existe?
Fulano de Tal é um desafeto antigo, que você não vê há sete anos. Trata-se de um ex-colega de trabalho que, ao disseminar boatos a seu respeito, acabou provocando sua demissão e divórcio. Você nunca mais ouviu falar no sujeito até que, numa bela manhã, a polícia bate à sua porta e o conduz até a delegacia, para prestar esclarecimentos.
Você ouve todo tipo de perguntas, a respeito de uma arma, do seu relacionamento pregresso com o tal Fulano de Tal, se sabia da morte do filho dele, se havia ido à Santa Maria do Suaçuí no fim de semana em que, tragicamente, Ciclano de Tal - filho de Fulano - havia sido morto por um disparo de uma arma igua à sua.
Na saída da delegacia, um repórter da TV Leste, afiliada da Rede Globo, faz perguntas acerca do motivo do crime: você tem filhos? Como se sentiria caso matassem um deles? Tem alguma coisa a dizer para a família Tal? A sua indignação e confusão geram uma resposta meio desinteressada, algo fria. À noite, o Brasil fica sabendo do crime bárbaro: Ciclano de Tal, 7, morto com um tiro entre os olhos.
Grupos de pessoas fazem vigília na frente da sua casa, sua mulher é agredida na padaria. A população brasileira conhece o seu ódio por Fulano de Tal e se comove com as lágrimas do pai, que "só quer justiça".
Não há qualquer prova material contra você, além de uma história segundo a qual você teria motivos banais para matar uma criança, vingança desproporcional para uma briga de trabalho, convenhamos...mas você esteve na cidade do crime, na data do crime. Pessoas de Bom Jesus do Galego confirmam a viagem, há um pagamento registrado no seu cartão de crédito em um posto de gasolina na entrada de Santa Maria do Suaçuí. A bala que matou Ciclano de Tal é compatível com as balas da sua arma que foi, aliás, disparada naquele dia.
Há uma história compatível com a de alguém que tenha assassinado o pequeno Ciclano de Tal, mas...é também uma história compatível com a de alguém que não tenha matado o menino. A história é convincente, a opinião pública foi formada - Fulano de Tal chorou no Fantástico.
O promotor é novo, inexperiente, mas o clamor popular acaba te condenando no tribunal do júri, que não é exatamente um julgamento técnico, formal...o apelo emocional tem um grande peso aqui. Você é condenado a 17 anos de prisão.
Você sai do fórum berrando aos microfones que "não posso ser preso, não praticou homicídio". Não importa.
Agora, imagine o seguinte: ao ouvir sua estribuchação (estribuchagem? estribuchamento?), o promotor, com um sorriso maroto diz - para que as câmeras registrem:
"Pode sim. Não há injustiça alguma sendo cometida aqui, pois homicídio é crime e está previsto em lei."
Alguém levaria esse argumento a sério?
E se o William Bonner desse a notícia, em tom frio: "Assassino de Ciclano de Tal acusa justiça de praticar ato ilegal".
Na mesma noite, Merval Pereira conversa com dois respeitados juristas, que se põem a esclarecer que homicídio é crime, sim. Um deles abre o Código Penal e faz a leitura do Artigo 121, em voz alta, para assegurar à população de que matar alguém é, de fato, ação passível de pena. O outro doutor inicia uma explicação no sentido de que:
- Mas o que está em jogo não é se o crime de homicídio existe ou não, mas..."
- Mas existe?
- Sim.
- Então Fulano de Tal pode ser condenado por homicídio. Muito obrigado doutor, voltamos depois dos comerciais.
Não perderei muito tempo explicando a triste fábula acima. Enfatizo apenas que, perdi a conta do número de vezes que revirei os olhos, mentalmente (acho, alguns amigos me dizem que só na minha imaginação as caras que eu faço são apenas mentais), ao ouvir que:
Impeachment não é golpe. Está previsto na constituição.
Pois é, amigos. Homicídio também, assim como estupro, rixa, incêndio e sedução*. Mas pra condenar alguém por estes crimes, é muito importante preencher quatro requisitos:
Ação - Resultado - Nexo Causal - Tipificação
Você atirou - Ciclano de Tal morreu - A bala que o matou tem que ter saído DA SUA ARMA - isso tem que estar descrito como crime na lei.
Daí decorre que o Impeachment está sim, descrito na lei. Mas para alcançar o resultado é necessário provar que CRIME DE RESPONSABILIDADE TENHA SIDO COMETIDO PELA(O) PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Até o presente momento, "pedalada fiscal" não é crime - e não há razão alguma para que passe a ser considerado como tal.
- Então Fulano de Tal pode ser condenado por homicídio. Muito obrigado doutor, voltamos depois dos comerciais.
Não perderei muito tempo explicando a triste fábula acima. Enfatizo apenas que, perdi a conta do número de vezes que revirei os olhos, mentalmente (acho, alguns amigos me dizem que só na minha imaginação as caras que eu faço são apenas mentais), ao ouvir que:
Impeachment não é golpe. Está previsto na constituição.
Pois é, amigos. Homicídio também, assim como estupro, rixa, incêndio e sedução*. Mas pra condenar alguém por estes crimes, é muito importante preencher quatro requisitos:
Ação - Resultado - Nexo Causal - Tipificação
Você atirou - Ciclano de Tal morreu - A bala que o matou tem que ter saído DA SUA ARMA - isso tem que estar descrito como crime na lei.
Daí decorre que o Impeachment está sim, descrito na lei. Mas para alcançar o resultado é necessário provar que CRIME DE RESPONSABILIDADE TENHA SIDO COMETIDO PELA(O) PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Até o presente momento, "pedalada fiscal" não é crime - e não há razão alguma para que passe a ser considerado como tal.
A Constituição Federal, essa lei que vem sendo esquecida por alguns agentes nos últimos tempos tem um artigo - o quinto - que é o primeiro de uma seção sem maior importância, denominada
"Dos Direitos e Garantias Fundamentais"
É um artigo bastante longo, trata dessas bobagens do tipo "homens e mulheres são iguais" e "Liberdade de expressão", dentre outros disparates. Lá pelas tantas, no inciso XXXIX, diz o seguinte:
"não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal"
O mesmo dispositivo se repete no artigo 1º do Código Penal, deve ser importante. Dá-se a isso o nome de "princípio da legalidade". É o que garante que você não será preso por uma lei inventada, a posteriori, que estabeleça que é crime chupar pirulito usando meias e chinelo de dedo só pra te ferrar depois da publicação de um selfie no sofá.
Pedalada Fiscal nunca foi interpretada como crime de responsabilidade - não há, inclusive, sanções previstas. A única razão de ser das tais pedaladas é satisfazer o mercado financeiro e evitar o atraso nos pagamentos de programas de governo. Nada foi desviado, nada. Nada saiu dos cofres públicos.
Enfim, impeachment está previsto em lei, sim. Impeachment sem base legal, bem...é golpe.
* Parece propaganda de novel. Mas olhei agora e sedução não é mais crime**, cuidado! Manterei a redação porque "incêndio e sedução" soa bem.
** Na verdade, não sei se não é crime ou se a ação é descrita em outro tipo...mas dizer que "sedução não é mais crime" me soou bem***.
*** Pronto.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Não deixem Cantanhêde só!
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Edição especial de WSR: escolha a nova morena da Folha
Houve uma época em que a Folha de São Paulo fazia a festa do leitor de jornal brasileiro, com sua fabulosa dupla de meninas: Eliane Cantanhêde, a loira, e Renata Lo Prete, a morena. A última abandonou o barco e migrou para a Globonews, deixando sua alva e elegante companheira em vôo solo...desde a saída de Lo Prete, nenhuma outra morena se firmou em posição que pudesse fazer aquela agradável tabelinha com Cantanhêde.
Eliane é uma mulher sofisticada, bonita, inteligente. Lo Prete é tudo isso, só que um pouco menos charmosa...em compensação, deu um dos furos mais importantes do jornalismo nacional ao entrevistar o confiável deputado Roberto Jefferson quando ele revelou uma história que depois foi adaptada para se transformar naquilo que conhecemos como mensalão.
As candidatas foram cuidadosamente selecionadas para essa pesquisa pelo Oráculo do Milênio, de forma que são inquestionáveis - ainda assim, abrimos espaço para outras opiniões, igualzinho à Folha. O critério para definir quem é morena é aquele correto: pessoa de cabelos negros ou castanhos - gente clara de cabelos castanhos claros são morenos claros, e é simples assim. Mulatas são mulatas e negras são negras, não "moreninhas", já que somos contra o uso do termo "moreno" como eufemismo pra negro. Dessa forma, Sheherazade é morena, convivam com este fato.
Rachel Sheherazade é uma espécie de Cantanhêde de canal ruim de TV, só que com menos brilho, elegância e charme. Tá, talvez não seja uma espécie de Cantanhêde, pra não ser injusto, mas são definitivamente da mesma espécie - a nossa. Ou talvez seja um tipo de "She-Datena". É, é isso. Palmirinha entra como um convite à diversidade na página de opinião da Folha, jornal tão eclético e imparcial, com espaço pra todo mundo e todo tipo de opinião, até aquelas que não têm nada a ver. E a Mulher Samambaia tá aí pra quem acha que beleza é fundamental e nem acha que a Cantanhêde precise de uma parceira tão convencional, no sentido jornalístico da coisa. Cristiana Lobo é a escolha do leitor tradicional, e seria também uma chance da Folha se vingar das organizações Globo, levando uma de suas morenas mais destacadas. Sem mais delongas, eis a enquete que elegerá a próxima morena da Folha!
A disputa será acirrada. Qual dessas será a nova morena da Folha? Votem!!
Pra quem não está a par da função da loira da Folha: trata-se de uma das colunistas mais importantes do jornal, publica na segunda página (opinião) às terças, quintas, sextas e domingos. Ou seja: fica na frente, liderando a coreografia do jornal. A morena teria função similar: ficaria na frente do jornal exibindo suas exuberantes opiniões, refletindo a alma do conjunto. Cumprindo seu papel de jornalista indignada, escreveu revoltosas 10 colunas desde o dia 20 de julho de 2014, data na qual a Folha publicou o escândalo da construção do aeroporto nas terras do tio-avô de Aécio. Abordou o tema em quase uma delas - a Folha não pode ser acusada de parcialidade. Pra entender o papel da jornalista-estrela da Folha e votar em sua morena de forma consciente, aqui vão links de todas as 10 são do naofo.de, acompanhadas de um pequeno (médio ou longo) comentário, cliquem à vontade, sem dar audiência ou usar a generosa cota de 10 reportagens que a Folha te dá todos os meses. Aviso que nenhuma vale tanto a pena assim, e estão aí mais pra provar que eu não tô mentindo nas análises e sinopses - já que todo mundo mente, de vez em quando.
Pra quem não está a par da função da loira da Folha: trata-se de uma das colunistas mais importantes do jornal, publica na segunda página (opinião) às terças, quintas, sextas e domingos. Ou seja: fica na frente, liderando a coreografia do jornal. A morena teria função similar: ficaria na frente do jornal exibindo suas exuberantes opiniões, refletindo a alma do conjunto. Cumprindo seu papel de jornalista indignada, escreveu revoltosas 10 colunas desde o dia 20 de julho de 2014, data na qual a Folha publicou o escândalo da construção do aeroporto nas terras do tio-avô de Aécio. Abordou o tema em quase uma delas - a Folha não pode ser acusada de parcialidade. Pra entender o papel da jornalista-estrela da Folha e votar em sua morena de forma consciente, aqui vão links de todas as 10 são do naofo.de, acompanhadas de um pequeno (médio ou longo) comentário, cliquem à vontade, sem dar audiência ou usar a generosa cota de 10 reportagens que a Folha te dá todos os meses. Aviso que nenhuma vale tanto a pena assim, e estão aí mais pra provar que eu não tô mentindo nas análises e sinopses - já que todo mundo mente, de vez em quando.
20/07/2014: Gastando cartuchos
Cantanhêde destaca a rejeição de Dilma como o dado mais importante aferido na última pesquisa Datafolha, o que talvez a impedisse de vencer no segundo turno (o instituto aponta a vitória no primeiro turno).
22/07/2014: Pega ladrão!
Passada a copa e deglutida a boa organização, Cantanhêde declara que é hora de deixar de oba-oba e voltar a pensar na bosta do país, em todas as suas bostas e de que bostas acusaremos Dilma, Lula e a bosta do PT . É tanta bosta que ela não sabe nem dizer quantos gringos foram vítimas de roubos:
"Não sei quantos latino-americanos ficaram sem dinheiro e documentos para voltar, mais de 12 mil argentinos foram vítimas de roubo/furto no Rio e, segundo levantamento do site G1, os furtos em trens, metrôs e ônibus em aumentaram 379% em São Paulo em relação ao ano passado. Imagine fora deles!"
Bom, aparentemente ela sabia. Mas quantos roubos ocorreram fora dos trens/metrô/ônibus, hein, hein?!? Eu nem imagino. Ela é jornalista, talvez possa apurar.
24/07/2014: O entra e sai na berlinda
Eliane Cantanhêde aborda, en passant, o Aecioporto.
Em sua única coluna sobre o tucano, Dilma é assunto em cinco dos sete parágrafos, Campos em dois deles. Para a colunista, enquanto "o TCU livra a cara de Dilma", Aécio e Campos "resvalam" em questões éticas. Aécio "entrou na berlinda por 'reagir mal' às perguntas inconvenientes".
Fiquei preocupado com o parágrafo final do texto, possivelmente escrito sob abstinência de alguma droga para tratamento de transtornos dissociativos (não tomem essas porras, depois dá nisso):
"E a economia, a mão pesada estatal, o desajuste do setor de energia? Ah! Isso é coisa para a 'elite branca'."
Hein?
25/07/2014: "Anão diplomático"
A jornalista concorda com a posição brasileira, mas não sem antes dar uma coçadinha em sua glândula conservadora, só pra aliviar o comichão.
"Depois de três anos e meio de uma política externa dorminhoca, o Brasil deu um pulo da cama, tomou-se de brios e partiu pra cima de Israel."
27/07/2014: Salve-se quem puder
Sobre a rejeição do mercado à Dilma, Cantanhêde concorda que é uma análise arriscada, embora levada a sério pelas campanhas - é verdade. Explica o processo: se a previsão de crescimento cai, a crença na vitória de Dilma cai e as bolsas sobem.
O terceiro parágrafo faz o serviço de reacender a rejeição das elites à presidente: o PT utiliza esse dado para reforçar, aos pobres, que rico não gosta da Dilma.
No final, lembra o nível de rejeição da presidente no país (35%, meio normal pra quem governa) e de 47% em SP, que vive uma espécie de esquizofrenia no plano local, com altos índices de aprovação a um governador que faz uma gestão, digamos, problemática (PM, escolas, USP, água, corrupção no metrô, etc).
Mas...e o Lula? Mais uma vez a jornalista brilha na frase final:
"Aliás, Lula? Vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?"
29/07/2014: Dividindo os erros
Nham-nham-nham!!! Sabatina da Folha com a Dilma, prato cheio e no dia seguinte é dia de feijoada - que em São Paulo se come também nas quartas.!
Dilma arranja desculpas para a economia. Dilma erra ao dizer que o pessimismo afeta a economia, que é feita de expetactivas, quando na verdade "a economia é calcada, não em impressões e em manifestações de ruia, mas sim em dados concretos feitos por especialistas - do Banco Central e da área econômica, além da indústria e de agências de avaliação."
Aqui, peço licença para me alongar mais e "enseriar" a coisa.
No dia 22 de julho, a Folha publicou a seguinte reportagem: "Humor piora e deixa abaixo de 1% previsões para o PIB"
A previsão do boletim focus, uma pesquisa de mercado feita ou encomendada pelo Banco Central, caíra para 0,97%.
A Folha foi atrás de investigar, lógico. E listou as razões que motivaram os economistas a refazerem suas projeções:
1) Queda na produção industrial.
2) Vendas do comércio (err...essas subiram em maio, mas "só porque foram puxadas por alimentos, móveis e eletrodomésticos". O que tinha que subir, com o perdão da ignorância? Se a venda de adubos, canos de PVC e material de festas infantis tivessem subido valia?
3) menor criação de vagas formais no primeiro semestre desde 2008. Foram criadas 588.671 vagas contra 397.936 naquele ano. Bom, foram criadas mais vagas, certo? Nesse ritmo (o pior de Dilma), seriam geradas, em seu governo, 4.709.368 vagas. Até junho foram geradas 5.052.710 vagas. Isso no meio da crise mundial e levando em consideração que o nível de desemprego continua baixíssimo, com um número de pessoas que nem estão procurando emprego porque optam por estudar, etc, etc, etc. FHC gerou, nos seus oito anos, 5.016.672, numa média semestral de 313.542 vagas/semestre. Imagine como estaria o humor dos economistas se estivéssemos assim?
4) cai a confiança da indústria;
5) cai a confiança do consumidor.
Sou só eu, ou das cinco razões apontadas apenas a primeira é uma razão real negativa, mensurável de fato? 2 e 3 são dados positivos, 4 e 5 são, bem.....expectativas - e com variação pequena. Há ainda dois outros indicadores, que são meros desdobramentos da produção industrial, portanto, mais do argumento 1.
Sobre isso é só.
31/07/2014: Profecias e realidade
Neste dia Cantanhêde nos explicou a realidade. É uma coluna meio sem sal, como deve ser a realidade, apesar dos temperos da jornalista. Deixo só a frase final, pra dar o gostinho:
"O empresário sabe distinguir 'profecia pessimista' de constatação."
Sim, pudemos observar na coluna anterior...o mau humor provocado pelos fatos reais, e não pelas "profecias pessimistas" Ah, o empresariado brasileiro, esses sábios! Aqui um deles, indignado feito um paulistano:
Ou só valem os grandes? Tipo o pai desta criatura:
Sim, eu entendo a falácia do espantalho, mas é só uma aparente: vejam o que eles concluíram dos dados apresentados no quadro da Folha. E você? Olhe aqui. Talvez não seja justo usar esses dois exemplos só porque a esmagadora maioria deles é mais parecida com isso aí do que com um Bill Gates - este, um conhecido petralha maldito.
01/08/2014: E o Lula, hein?
Pois é, e o Lula, hein? Essa coluna demonstra a capacidade de leitura de Cantanhêde: dias antes ela perguntou "e o Lula". Não tardou para que o assunto aparecesse na mídia.
Como diz o Gabriel, Lula é responsável, entre outras coisas, pelos empregos desses colunistas - ou pelo menos pelo aumento na repercussão destes. Antes do Lula ninguém lia gente como Azevedo, Constantino...até Olavo de Carvalho, cujo conhecimento era ostentado apenas pelos reaças mais ávidos e debochado por um pequeno setor da esquerda (eu já conhecia - rá!) publicou um livro com direito a estardalhaço e gente neo-politizada compartilhando nas redes sociais.
Como ninguém respondeu a pergunta feita no dia 27 (op. cit.), Cantanhêde se responde: Lula inventou Dilma e Haddad. Se a aprovação dos dois está em baixa, não seria natural que Lula fosse atingido?
Ela não sabe: "Será?"
03/08/2014: A indústria dá o troco
Cantanhêde (e toda a mídia) ficaram espantados ao descobrir que pessoas se preparam e combinam respostas em CPIs. Pior: há uma orientação política nisso. Pior: parlamentares "amigos" pegam leve com gente que, caso pegassem pesado, poderiam comprometer.
Desenho do Gabriel, feito originalmente para
este post. Tem alguma relação com isso aqui.
Jânio de Freitas, em coluna publicada neste mesmo dia "responde":
"Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras –dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.
De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.
O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.
Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral."
Depois vem esse Lula descolando um emprego pra Nora no Sesi!! O Sesi, segundo a Wikipedia é "uma rede de instituições privadas brasileiras". Pelo nome parece ter algo com a indústria...a ousadia do presitralha (*)!! Como pode , onde já se viu? E esses industriais, que além disso doaram até dinheiro pras campanhas todas?
Sabe onde é foda, mas foda mesmo arrumar emprego pra parente? No âmbito público. E sabem que grupos/partidos são craques nisso aí?
Bão, dos nossos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores), 280 vêm de famílias de políticos - tem tudo nesse infográfico. O ranking por partido, em % dos membros que vêm de "clãs" políticos:
DEM: 67%
PMDB: 66%
PP: 63%
PTB: 58%
PSC: 50%
PSDB: 49%
PSB: 48%
PR: 44%
PDT: 37%
PPS: 36%
PV: 31%
PCdoB:24%
PT: 22%
Imaginem a quantidade de assessores e gente empregada através do nepotismo cruzado? Há ainda uma diferença qualitativa. Marta e Eduardo Suplicy entram na conta porque foram casados. Acontece que ambos construíram carreiras políticas independentes...Marta não se elegeu senadora porque foi "esposa do Suplicy". O mesmo ocorre com Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. É meio diferente de um certo senador mineiro, candidato à presidência da república, filho de deputado, neto de ex-presidente (o outro avô foi secretário estadual de JK) e primo de senador de outro estado. Diferente, né?
Imaginem se a imprensa verificasse essas coisas com a mesma intensidade pros dois lados? Imagina na Copa?
*Curtiram, amiguinhos do bem? É "presidente + petralha", mas pode ser entendido como "presidente dos petralhas" ou "presidente-tralha". Usem isso aí.
05/08/2014: Tudo embolado
O empresariado nacional - mais especificamente os industriais - se vingam da presidente cortando doações. Sem citações aqui, coluna meio óbvia: tudo vai mal, obrigado.
Agora...e a veja, hein?
Tem que ter lido pra entender, certo?
Nota 1: ao menos parte da equipe de redação de Wilbor se Revolta entende que a pesquisa pode ser interpretada como machista ou de mal gosto. Consideramos, porém, que da mesma forma que Constantino e Pondé podem ser alvo de comentários em função de sua busca por um macho que os satisfaça (em função disso e disso), a brincadeira é pertinente - e as duas fazem dupla na Globonews - canal da Rede Globo, essa sim, com um quadro de mau-gosto chamado "as meninas do Jô", como se fosse muito exótico mulher comentar política. Nossas sinceras desculpas à Palmirinha, um doce de velhinha que faz doces e à Mulher-Samambaia, sobre a qual não sabemos absolutamente nada.
Nota 2: Pouca gente vai acreditar, mas eu não sabia quem era a Mulher Samambaia. Eu pensei no nome, achei conveniente, e fiquei torcendo pra que fosse morena, antes de consultar o Oráculo do Milênio.
quinta-feira, 6 de março de 2014
The Lewandowski extrapolation
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Deu no Oráculo do milênio: O Ministro Ricardo Lewandowski propõe a criação de um aparelho que permitiria capturar, no espaço, energia das emissões infravermelhas da Terra.
Barbosa afirmou que se trata de uma "chicana" visando desviar as atenções da AP470: "emissões infravermelhas me causam espécie".
Gilmar Mendes também criticou duramente a iniciativa: "Não passa de uma tentativa de suavizar a transição para a ditadura comunista para a qual caminhamos. Não podemos esquecer que radiação infravermelha é aquela logo abaixo da vermelha".
Olavo de Carvalho concorda e vai mais longe:
"tomando o espectro eletromagnético e considerando que, num gráfico cujo sentido do positivo aumenta, por convenção, da esquerda pra direita, só podemos concluir que o vermelho se situa na extrema-esquerda. E o infravermelho vai além disso. Lewandowski não passa de um rato - coisa que se confirma em seu signo chinês."
Rodrigo Constantino limitou-se a caminhar até sua sacada, tirar a camisa e bater os punhos cerrados contra o peitoral. Apenas berrava: "Imagina na Copa?"
#imaginanacopa
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Barbosa afirmou que se trata de uma "chicana" visando desviar as atenções da AP470: "emissões infravermelhas me causam espécie".
Gilmar Mendes também criticou duramente a iniciativa: "Não passa de uma tentativa de suavizar a transição para a ditadura comunista para a qual caminhamos. Não podemos esquecer que radiação infravermelha é aquela logo abaixo da vermelha".
Olavo de Carvalho concorda e vai mais longe:
"tomando o espectro eletromagnético e considerando que, num gráfico cujo sentido do positivo aumenta, por convenção, da esquerda pra direita, só podemos concluir que o vermelho se situa na extrema-esquerda. E o infravermelho vai além disso. Lewandowski não passa de um rato - coisa que se confirma em seu signo chinês."
Rodrigo Constantino limitou-se a caminhar até sua sacada, tirar a camisa e bater os punhos cerrados contra o peitoral. Apenas berrava: "Imagina na Copa?"
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domingo, 4 de março de 2012
Humor é... (1)
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Um dos conceitos mais importantes do chamado
neodarwinismo ortodoxo, é a caracterização da Evolução como uma luta pela sobrevivência, porém, não uma batalha travada pelos
indivíduos, mas por seus genes. Um
tatu-bola nada mais é que uma máquina extremamente complexa que tem, por
objetivo final, a manutenção e
reprodução de um gene específico, ou de um conjunto deles. Quando um tatu-bola se reproduz, gera uma
prole que carrega exatamente 50% de seu DNA.
Como um tatu-bola macho qualquer compartilha quase todo o seu DNA com
uma tatu-bola fêmea, o tatuzinho-bola compartilhará com o pai praticamente 100%
de seu código genético. Trata-se de um processo de transmissão de genes muito eficiente.
Seguindo essa linha de pensamento, chega-se à
conclusão óbvia de que nós, humanos, também somos veículos de transmissão de
genes. Por acaso, veículos bastante
espertos. Certamente mais espertos que
tatus-bola. Foram genes que
construíram uma carapaça e deram aos tatus-bola a capacidade de se enrolar para
se proteger de predadores. Esses genes
permaneceram no DNA dos tatus porque os indivíduos que não tinham esses genes
tinham suas vísceras facilmente mastigadas por carnívoros, e animais que têm
suas vísceras mastigadas por carnívoros tem mais dificuldade em se reproduzir. Dessa forma, um ancestral qualquer do tatu
que tivesse um pedacinho pequeno de carapaça já teria alguma vantagem em
relação ao seu irmão que não tivesse. O
cérebro humano é também uma criação dos genes, possivelmente, a criação mais complexa
e extraordinária desse grupo de moléculas.
O cérebro humano se desenvolveu porque ser um pouco mais inteligente que
o macaco vizinho provou ser uma grande vantagem evolutiva. Como está claro que a inteligência humana é uma
manifestação do cérebro, pode-se afirmar que a inteligência é um atributo fenotípico,
e deve ter evoluído junto com os cérebros.
Discutir o que é inteligência é uma coisa muito
distante do meu campo específico de conhecimento, mas vamos ficar com as duas
primeiras definições do Aurélio e com a Wikipedia:
inteligência
[Do lat. intelligentia.]
Substantivo
feminino.
1.Faculdade
de aprender, apreender ou compreender; percepção, apreensão, intelecto,
intelectualidade.
2.Qualidade
ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração,
agudeza, perspicácia.
Inteligência pode ser
definida como a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas,
abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender.
Por mais que ainda existam pessoas que não
reconheçam qualquer inteligência nos "animais irracionais", a
inteligência humana teve que evoluir a partir de uma inteligência menor, e essa, de uma inteligência ainda menor, até
o ponto em que teremos uma inteligência muito primitiva evoluindo a partir de
alguma outra coisa que não era inteligente.
A primeira inteligência provavelmente foi, como todo o resto, um golpe
de sorte: uma mutação que levou a uma vantagem evolutiva.
Não é difícil reconhecer alguma inteligência em
animais. Quem teve cães, gatos e outros
bichos sabe que há cães mais e menos espertos.
Todos sabemos que cães são muito mais espertos que galinhas... Já as
galinhas são mesmo animais muito estúpidos: eu pretendia continuar o raciocínio
afirmando que galinhas são muito mais espertas que as minhocas que devoram, mas
tenho minhas dúvidas. Há quem diga que
tudo que um cão faz, faz por "instinto" - normalmente gente que acha que a
inteligência vem da alma e que alma é atributo exclusivo dos humanos
normalmente têm dificuldades em reconhecer inteligência em animais, ainda que
achem que seus bebês estejam se comportando como verdadeiros acadêmicos ao
encaixar um cubo em um orifício quadrado, coisa que chimpanzés fazem com
facilidade.
Bom, essa longa introdução serve somente para
estabelecer que a inteligência é um fenômeno produzido pelos cérebros; existe
porque genes capazes de gerar cérebros eficazes em produzir mais inteligência foram
recompensados com a sobrevivência.
Muitas das condições que levaram à evolução do
cérebro humano não existem mais - o cara que não sacou que podia jogar sua lança
na fera que vinha correndo, urrando e babando em sua direção não sobreviveu - mas o cérebro é um órgão
altamente sofisticado e adaptável, e logo pôs-se a produzir outros fenômenos interessantes,
sendo um deles o humor.
Humor é uma coisa muito difícil de definir. Recorrendo novamente ao Aurélio:
humor
(ô) [Do
lat. humor, oris.]
Substantivo
masculino.
6.Capacidade
de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido.
A Wikipedia deixa clara a dificuldade da definição
do termo; em algum ponto, citando São Tomás de Aquino, o artigo diz que o humor
pode ser visto como algo fundamental à existência humana. Pode ser, pode ser...aparentemente rir faz
bem, libera endorfinas e várias substâncias ligadas ao prazer. Parece ser também um momento de alívio
mental, e esse lado é explorado em um ótimo texto do Hélio Schwartsman, de 2001
(segundo texto nessa página). Citando
Arthur Koestler diz que o humor ocorre quando percebemos o choque entre dois
contextos ou códigos de regras diferentes, coerentes, porém excludentes entre
si:
Ou seja: quando observamos uma ação qualquer em
curso (ou um raciocínio qualquer), temos uma certa expectativa de resolução;
quando acontece alguma coisa e o
resultado não é aquele que esperaríamos, mas o resultado de uma outra ação
qualquer, inesperada, nós nos surpreendemos. Quando há alguma tensão ou expectativa sobre
o que deveria acontecer, a resolução de
uma piada é um momento de alívio de tensão.
A gente ri de nervoso.
Schwartsman segue lembrando que nós rimos de coisas
diferentes em idades diferentes: bebês e crianças riem de caretas,
pré-adolescentes gostam de piadas escatológicas e adolescentes gostam de piadas
sexuais. A estrutura é sempre a mesma:
algo inesperado acontece e leva ao resultado riso. O comercial "itaú sem papel" é um
bom exemplo:
O bebê rola de rir quando o pai rasga um papel na
sua frente. O que será que se passa na
cabeça da criança? "esse negócio é
grande, quando meu pai mexe nele, ele se movimenta". De repente, o pai
rasga um pedaço - movimentos devem gerar movimentos, não transformar um objeto
grande em algo menos, fazendo um barulho estranho. É uma relação não-óbvia.
Enfim, conforme envelhecemos, vamos percebendo
relações não óbvias no plano abstrato.
Algumas pessoa são melhores que outras nisso. A formação cultural tem algum peso na capacidade
humorística das pessoas, mas não é determinante. Claro que além de fornecer um certo
vocabulário e repertório, a imersão cultural é intelectualizante. Piadas só funcionam se as pessoas
compartilham dos elementos necessários para a compreensão. Ainda assim, há pessoas que são boas em
perceber o humor, outras que além de perceber, se divertem produzindo
humor. Essas duas habilidades
aparentemente estão relacionadas a algum tipo de inteligência.
Um indivíduo faz uma piada porque:
1. Percebeu
uma situação que julgou engraçada e teve vontade de compartilhar.
É o humor situacional: um comentário no metrô,
chamar a atenção de alguém com o olhar para uma situação qualquer, lembrar de
uma história ou piada que tenha a ver com um determinado contexto;
2. Demonstração
de habilidade intelectual.
Já li por aí que a produção humorística é uma
característica mais comum em homens que em mulheres. Embora a capacidade de entender piadas seja
igual entre os dois sexos, contar piadas seria uma forma dos homens demonstrarem
às mulheres a sua inteligência e habilidades sociais. A enorme superioridade numérica dos homens
entre os humoristas parece indicar que essa é uma hipótese razoável.
Um indivíduo não acha graça em uma piada porque:
1. Não foi
capaz de abstrair os elementos que geram a situação contraditória. Schwartsman traz dois bons exemplos:
"O
masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma
uma ducha quente".
"O
sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista"
A compreensão do humor nessas frases requer um
pensamento relativamente complexo, que vai além da simples compreensão do que é
ser masoquista ou sádico:
- o masoquista é alguém que sente prazer no
sofrimento;
- o masoquista da piada sente prazer em tomar
banhos frios pela manhã;
- o masoquista toma um banho quente para não ter o prazer do banho frio, sofre, e
assim ter prazer.
No final fica assim: o masoquista gosta de não
fazer aquilo que gosta de fazer. A
segunda frase segue uma lógica semelhante.
2. Não
entendeu porque não partilha de um certo contexto.
Situação de piadas que só podem ser compreendidas
por pessoas que tenham um conhecimento prévio qualquer: o apelido de alguém,
gírias ou termos restritos a determinados grupos, idioma ou cultura de locais
diferentes (Family Guy é um bom exemplo de humor muito autorreferente à cultura
televisiva norte-americana).
3. Entendeu,
mas não vê graça porque a piada é óbvia demais.
Conforme as pessoas vão envelhecendo, ganhando
cultura e convivendo com humor, certas coisas deixam de ter graça porque a
contradição envolvida já foi vista muitas vezes. Acontece, por exemplo, quando ouvimos anedotas
infantis (do tipo "a piada do pintinho caipira é 'pir'"). É um caso de diferença de elaboração
intelectual.
4. Entendeu,
mas não acha graça porque considera a piada "imoral".
Caso de quem, por motivos culturais (postura
conservadora), fica chocado com o simples exercício hipotético de situações
ofensivas. É também o caso dos
neuróticos do politicamente correto: não pode piada com nada, só de pintinho
caipira mesmo.
O humor não lida, necessariamente, com
preconceitos, ainda que utilize muito o preconceito como arma. Talvez isso ocorra porque quando se faz uma
piada, pressupõe-se uma certa "imunidade diplomática": percebe-se uma
situação que só seria engraçada caso preconceito "x" seja
invocado. O humor do tipo "piadas
de salão", dessas que comediantes como Ary Toledo costumam contar, são baseadas, quase que
exclusivamente em preconceitos: português, puta, preto, japonês, brasileiro
(safado ou esperto), nordestino, padre, freira, judeu, muçulmano, turco,
médico, enfermeira, advogado, corintiano.
Outras figuras comuns são o papagaio, que às vezes entra como esperto,
às vezes aparece como sidekick de algum espertalhão; o "Joãozinho",
garoto travesso.
"O Manoel,
viajando pelo Brasil, vê um papagaio falando, fica impressionado com o bicho e
resolve comprar um. O vendedor, um
brasileiro meio safado, resolve tirar proveito do gajo e o vende uma coruja,
dizendo ser um papagaio. O Manoel não
nota a diferença e leva a ave para Portugal.
Anos depois, volta ao Brasil e o vendedor pergunta: - e aí Manoel, o
louro já aprendeu a falar? E o portuga
tasca: - aprender, não aprendeu...mas presta uma atenção!"
Em recente entrevista ao Roda Viva, Angeli
perguntou ao Laerte se seria possível fazer humor com gay sem ser
preconceituoso. A pergunta e a resposta
estão nos 3 primeiros minutos deste vídeo:
Concordo com o Laerte. Quando se faz humor com gays (ou qualquer
outro grupo), lida-se com o preconceito, porém, há uma tolerância. Um reflexo disso é a chatice do humor
televisivo brasileiro, extremamente limitado pelo que se pode ou não
dizer. Nesse sentido, o humor americano
se beneficia do fato de que o país leva muito a sério as tais da Democracia e da Liberdade de Expressão, ainda que o país não se importe muito com democracia em outros
países. No Brasil não há nada na
televisão tão ácido e engraçado como Family Guy - aliás, o Laerte citou, em texto recente no seu blog que mesmo a tradução do título do desenho e do tema de
abertura foram "babaquizados" para o mercado brasileiro. Nos EUA pode-se dizer tudo.
Seguindo com a idéia, preconceito é uma estratégia muito utilizada, porém, não a única. É possível fazer piada sem apelar para preconceitos e, no Brasil, o Laerte é mestre nisso.
Vejam, a graça dessa tirinha vem do desfecho inesperado, completamente independente da sequência dos dois primeiros quadrinhos. É o non-sense.
Esse é mais elaborado que o humor anedótico, porque requer que o receptor detecte uma mensagem sutil de um contexto no qual a punchline é non-sequitur. O humor televisivo inglês (e derivados) se apoiou largamente nessa possibilidade humorística, e o fazem muito bem há muito tempo. Não sei se Monty Python inaugurou o estilo na TV, com o Flying Circus, mas certamente o grupo fez escola. Pra quem não conhece, aqui vai um quadro clássico da trupe britânica:
Na mesma linha temos "Big Train" e "That Mitchell and Webb look", ambos ingleses, e o canadense "The kids in the Hall", produzido por Lorne Michaels, do Saturday Night Live.
Mas nem por isso o humor inglês abdicou do preconceito como arma humorística. Recentemente o Gabriel me indicou um seriado inglês, chamado "Life´s too short". A tradução literal seria "A vida é muito curta", sendo que o short em inglês pode se referir tanto a curto quanto a baixo em estatura. O programa é dirigido por Ricky Gervais, o criador e diretor do "The Office". Gervais é brilhante, e se consagrou, sobretudo, por um tipo de humor awckward, ou seja, constrangedor.
O programa é estrelado por um anão relativamente famoso, Warwick Davis, que participou de vários filmes (Harry Potter, StarWars - neste último, como ewok). No programa, feito em formato documentário-falso, ele interpreta a si próprio, e tem uma agência que aluga anões para participações em filmes, TV e eventos de toda sorte, a "dwarves for rental".
As coisas que acontecem com ele são as mais chocantes possíveis, uma vez que o cara tem um ego gigante. Gervais explora desde humilhações a quedas - e Warwick cai muitas vezes. Uma cena do terceiro episódio se desenrola da seguinte forma:
Warwick inaugura seu website, que é um fracasso de acessos. Lá pelas tantas, ele começa a receber mensagens humilhantes. Descobre que se trata de um estudante de uma escola próxima e vai lá tirar satisfação. Entra na sala e começa a ler, para a sala de aula e o professor, uma mensagem que recebeu:
"Seu trolzinho feioso, eu quero te amarrar e te espancar."
a turma ri, o professor pede silêncio e ele começa a comentar:
"agora, não entendo o porque de tanta fascinação comigo...claramente deve ter um fetiche por anões.
a turma volta a rir, ele gosta de estar sendo divertido e continua:
"quer me amarrar, não? Me parece meio gay..."
(risadas)
"talvez esteja apaixonado por mim...um fetiche gay por anões. Seu nome é Justin Palmer."
a turma silencia, claramente constrangida. O professor chama o tal Justin Palmer. Nesse momento, escuta-se um barulho de motor, a câmera foca o rosto do anão, que fica consternado. O garoto indo em direção a ele é um tetraplégico. O professor interroga o menino:
Justin, isso é verdade? Você escreveu isso? Você fez cyber-bullying com este homem?
Sim.
Nesse ponto, o professor obriga o menino a se desculpar. O anão diz que não é necessário, mas o professor prossegue, o menino se desculpa e começa a voltar pro seu lugar. Quando está no meio do caminho, alguém joga um papel nele e grita "gay". A turma ri. A câmera filma o anão várias vezes, que ocasionalmente olha para a lente, o que transporta o espectador para o constrangimento da cena. Depois, a câmera filma rapidamente o menino tetraplégico, que tem uma lágrima escorrendo.
É o tipo de coisa que normalmente revolta as pessoas, especialmente quando se transcreve a situação, como fiz aqui. Cenas como essa despertam o moralismo em muitas pessoas, antes de qualquer possibilidade de compreensão humorística. Mas quem já viu "The office" sabe como Gervais trabalha, e há uma graça nisso. O humor nessa cena consiste em alívio...é engraçado porque é muito errado. E sabemos que é uma encenação, que isso não poderia acontecer.
Infelizmente não achei nenhum vídeo com legenda dessa série, mas deixo aqui uma cena em que Liam Neeson conversa com Gervais a respeito de fazer algum trabalho humorístico. É o tipo de coisa que jamais poderia ser feito por aqui (e tem muita gente pensando "ainda bem, não queremos essa droga").
No making of, os atores que participam da série falam sobre o programa. O depoimento mais interessante é o de uma anã, que explica que sim, estão mexendo com preconceitos...mas para atingir uma idéia de humor muito mais profunda do que se imagina numa olhada rápida.
Enquanto isso, no Brasil estamos processando comediantes por conta de piadas. O post abaixo, do Gabriel, traz bons exemplos de como bobagens foram transformadas em celeumas nacionais. Além das confusões do Gentili, teve o processo do rafa Bastos.
O humor deve ser entendido como arte. Um cara como david Letterman, capaz de fazer piadas todos os dias, um Gervais, capaz de nos fazer rir das situações mais fdps, entre outros, são artistas geniais. Da mesma forma que não se cogitou censurar os quadros de assassinatos de Lula, FHC e outros na última Bienal, que não se cogita proibir estátuas nuas, fotografias da desgraça humana ou comprometedoras, deve-se respeitar a liberdade humorística - aliás, a liberdade de expressão de forma geral.
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