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domingo, 4 de março de 2012

Humor é... (1)

Um dos conceitos mais importantes do chamado neodarwinismo ortodoxo,  é a caracterização da Evolução como uma luta pela sobrevivência, porém, não uma batalha travada pelos indivíduos, mas por seus genes.  Um tatu-bola nada mais é que uma máquina extremamente complexa que tem, por objetivo final, a manutenção  e reprodução de um gene específico, ou de um conjunto deles.  Quando um tatu-bola se reproduz, gera uma prole que carrega exatamente 50% de seu DNA.  Como um tatu-bola macho qualquer compartilha quase todo o seu DNA com uma tatu-bola fêmea, o tatuzinho-bola compartilhará com o pai praticamente 100% de seu código genético.  Trata-se de um processo de transmissão de genes muito eficiente.

Seguindo essa linha de pensamento, chega-se à conclusão óbvia de que nós, humanos, também somos veículos de transmissão de genes.  Por acaso, veículos bastante espertos.  Certamente mais espertos que tatus-bola.  Foram genes que construíram uma carapaça e deram aos tatus-bola a capacidade de se enrolar para se proteger de predadores.  Esses genes permaneceram no DNA dos tatus porque os indivíduos que não tinham esses genes tinham suas vísceras facilmente mastigadas por carnívoros, e animais que têm suas vísceras mastigadas por carnívoros tem mais dificuldade em se reproduzir.  Dessa forma, um ancestral qualquer do tatu que tivesse um pedacinho pequeno de carapaça já teria alguma vantagem em relação ao seu irmão que não tivesse.  O cérebro humano é também uma criação dos genes, possivelmente, a criação mais complexa e extraordinária desse grupo de moléculas.  O cérebro humano se desenvolveu porque ser um pouco mais inteligente que o macaco vizinho provou ser uma grande vantagem evolutiva.  Como está claro que a inteligência humana é uma manifestação do cérebro, pode-se afirmar que a inteligência é um atributo fenotípico, e deve ter evoluído junto com os cérebros.

Discutir o que é inteligência é uma coisa muito distante do meu campo específico de conhecimento, mas vamos ficar com as duas primeiras definições do Aurélio e com a Wikipedia:

inteligência

[Do lat. intelligentia.]
Substantivo feminino.

1.Faculdade de aprender, apreender ou compreender; percepção, apreensão, intelecto, intelectualidade.
2.Qualidade ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração, agudeza, perspicácia.

Inteligência pode ser definida como a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender.

Por mais que ainda existam pessoas que não reconheçam qualquer inteligência nos "animais irracionais", a inteligência humana teve que evoluir a partir de uma inteligência menor, e essa, de uma inteligência ainda menor, até o ponto em que teremos uma inteligência muito primitiva evoluindo a partir de alguma outra coisa que não era inteligente.  A primeira inteligência provavelmente foi, como todo o resto, um golpe de sorte: uma mutação que levou a uma vantagem evolutiva.

Não é difícil reconhecer alguma inteligência em animais.  Quem teve cães, gatos e outros bichos sabe que há cães mais e menos espertos.  Todos sabemos que cães são muito mais espertos que galinhas... Já as galinhas são mesmo animais muito estúpidos: eu pretendia continuar o raciocínio afirmando que galinhas são muito mais espertas que as minhocas que devoram, mas tenho minhas dúvidas.  Há quem diga que tudo que um cão faz, faz por "instinto" - normalmente gente que acha que a inteligência vem da alma e que alma é atributo exclusivo dos humanos normalmente têm dificuldades em reconhecer inteligência em animais, ainda que achem que seus bebês estejam se comportando como verdadeiros acadêmicos ao encaixar um cubo em um orifício quadrado, coisa que chimpanzés fazem com facilidade.

Bom, essa longa introdução serve somente para estabelecer que a inteligência é um fenômeno produzido pelos cérebros; existe porque genes capazes de gerar cérebros eficazes em  produzir mais inteligência foram recompensados com a sobrevivência.

Muitas das condições que levaram à evolução do cérebro humano não existem mais - o cara que não sacou que podia jogar sua lança na fera que vinha correndo, urrando e babando em sua direção não sobreviveu - mas o cérebro é um órgão altamente sofisticado e adaptável, e logo pôs-se a produzir outros fenômenos interessantes, sendo um deles o humor.

Humor é uma coisa muito difícil de definir.  Recorrendo novamente ao Aurélio:

humor

(ô) [Do lat. humor, oris.]
Substantivo masculino.

6.Capacidade de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido.

A Wikipedia deixa clara a dificuldade da definição do termo; em algum ponto, citando São Tomás de Aquino, o artigo diz que o humor pode ser visto como algo fundamental à existência humana.  Pode ser, pode ser...aparentemente rir faz bem, libera endorfinas e várias substâncias ligadas ao prazer.  Parece ser também um momento de alívio mental, e esse lado é explorado em um ótimo texto do Hélio Schwartsman, de 2001 (segundo texto nessa página).  Citando Arthur Koestler diz que o humor ocorre quando percebemos o choque entre dois contextos ou códigos de regras diferentes, coerentes, porém excludentes entre si:

Ou seja: quando observamos uma ação qualquer em curso (ou um raciocínio qualquer), temos uma certa expectativa de resolução; quando acontece alguma coisa e  o resultado não é aquele que esperaríamos, mas o resultado de uma outra ação qualquer, inesperada, nós nos surpreendemos.  Quando há alguma tensão ou expectativa sobre o que deveria acontecer, a  resolução de uma piada é um momento de alívio de tensão.  A gente ri de nervoso.

Schwartsman segue lembrando que nós rimos de coisas diferentes em idades diferentes: bebês e crianças riem de caretas, pré-adolescentes gostam de piadas escatológicas e adolescentes gostam de piadas sexuais.  A estrutura é sempre a mesma: algo inesperado acontece e leva ao resultado riso.  O comercial "itaú sem papel" é um bom exemplo:


O bebê rola de rir quando o pai rasga um papel na sua frente.  O que será que se passa na cabeça da criança?  "esse negócio é grande, quando meu pai mexe nele, ele se movimenta". De repente, o pai rasga um pedaço - movimentos devem gerar movimentos, não transformar um objeto grande em algo menos, fazendo um barulho estranho.  É uma relação não-óbvia.

Enfim, conforme envelhecemos, vamos percebendo relações não óbvias no plano abstrato.  Algumas pessoa são melhores que outras nisso.  A formação cultural tem algum peso na capacidade humorística das pessoas, mas não é determinante.  Claro que além de fornecer um certo vocabulário e repertório, a imersão cultural é intelectualizante.  Piadas só funcionam se as pessoas compartilham dos elementos necessários para a compreensão.  Ainda assim, há pessoas que são boas em perceber o humor, outras que além de perceber, se divertem produzindo humor.  Essas duas habilidades aparentemente estão relacionadas a algum tipo de inteligência.

Um indivíduo faz uma piada porque:

1. Percebeu uma situação que julgou engraçada e teve vontade de compartilhar.
É o humor situacional: um comentário no metrô, chamar a atenção de alguém com o olhar para uma situação qualquer, lembrar de uma história ou piada que tenha a ver com um determinado contexto;

2. Demonstração de habilidade intelectual.
Já li por aí que a produção humorística é uma característica mais comum em homens que em mulheres.  Embora a capacidade de entender piadas seja igual entre os dois sexos, contar piadas seria uma forma dos homens demonstrarem às mulheres a sua inteligência e habilidades sociais.  A enorme superioridade numérica dos homens entre os humoristas parece indicar que essa é uma hipótese razoável.

Um indivíduo não acha graça em uma piada porque:

1. Não foi capaz de abstrair os elementos que geram a situação contraditória.  Schwartsman traz dois bons exemplos:

"O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente". 

"O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista"

A compreensão do humor nessas frases requer um pensamento relativamente complexo, que vai além da simples compreensão do que é ser masoquista ou sádico:

- o masoquista é alguém que sente prazer no sofrimento;
- o masoquista da piada sente prazer em tomar banhos frios pela manhã;
- o masoquista toma um banho quente para  não ter o prazer do banho frio, sofre, e assim ter prazer.

No final fica assim: o masoquista gosta de não fazer aquilo que gosta de fazer.  A segunda frase segue uma lógica semelhante.

2. Não entendeu porque não partilha de um certo contexto.
Situação de piadas que só podem ser compreendidas por pessoas que tenham um conhecimento prévio qualquer: o apelido de alguém, gírias ou termos restritos a determinados grupos, idioma ou cultura de locais diferentes (Family Guy é um bom exemplo de humor muito autorreferente à cultura televisiva norte-americana).

3. Entendeu, mas não vê graça porque a piada é óbvia demais.
Conforme as pessoas vão envelhecendo, ganhando cultura e convivendo com humor, certas coisas deixam de ter graça porque a contradição envolvida já foi vista muitas vezes.  Acontece, por exemplo, quando ouvimos anedotas infantis (do tipo "a piada do pintinho caipira é 'pir'").  É um caso de diferença de elaboração intelectual.

4. Entendeu, mas não acha graça porque considera a piada "imoral".
Caso de quem, por motivos culturais (postura conservadora), fica chocado com o simples exercício hipotético de situações ofensivas.  É também o caso dos neuróticos do politicamente correto: não pode piada com nada, só de pintinho caipira mesmo.

O humor não lida, necessariamente, com preconceitos, ainda que utilize muito o preconceito como arma.  Talvez isso ocorra porque quando se faz uma piada, pressupõe-se uma certa "imunidade diplomática": percebe-se uma situação que só seria engraçada caso preconceito "x" seja invocado.  O humor do tipo "piadas de salão", dessas que comediantes como Ary Toledo costumam contar, são baseadas, quase que exclusivamente em preconceitos: português, puta, preto, japonês, brasileiro (safado ou esperto), nordestino, padre, freira, judeu, muçulmano, turco, médico, enfermeira, advogado, corintiano.  Outras figuras comuns são o papagaio, que às vezes entra como esperto, às vezes aparece como sidekick de algum espertalhão; o "Joãozinho", garoto travesso.

"O Manoel, viajando pelo Brasil, vê um papagaio falando, fica impressionado com o bicho e resolve comprar um.  O vendedor, um brasileiro meio safado, resolve tirar proveito do gajo e o vende uma coruja, dizendo ser um papagaio.  O Manoel não nota a diferença e leva a ave para Portugal.  Anos depois, volta ao Brasil e o vendedor pergunta: - e aí Manoel, o louro já aprendeu a falar?  E o portuga tasca: - aprender, não aprendeu...mas presta uma atenção!"

Em recente entrevista ao Roda Viva, Angeli perguntou ao Laerte se seria possível fazer humor com gay sem ser preconceituoso.  A pergunta e a resposta estão nos 3 primeiros minutos deste vídeo:


Concordo com o Laerte.  Quando se faz humor com gays (ou qualquer outro grupo), lida-se com o preconceito, porém, há uma tolerância.  Um reflexo disso é a chatice do humor televisivo brasileiro, extremamente limitado pelo que se pode ou não dizer.  Nesse sentido, o humor americano se beneficia do fato de que o país leva muito a sério as tais da Democracia e da Liberdade de Expressão, ainda que o país não se importe muito com democracia em outros países.  No Brasil não há nada na televisão tão ácido e engraçado como Family Guy - aliás, o Laerte citou, em texto recente no seu blog que mesmo a tradução do título do desenho e do tema de abertura foram "babaquizados" para o mercado brasileiro.  Nos EUA pode-se dizer tudo.

Seguindo com a idéia, preconceito é uma estratégia muito utilizada, porém, não a única.  É possível fazer piada sem apelar para preconceitos e, no Brasil, o Laerte é mestre nisso.


Vejam, a graça dessa tirinha vem do desfecho inesperado, completamente independente da sequência dos dois primeiros quadrinhos.  É o non-sense.

Esse é mais elaborado que o humor anedótico, porque requer que o receptor detecte uma mensagem sutil de um contexto no qual a punchline é non-sequitur.  O humor televisivo inglês (e derivados) se apoiou largamente nessa possibilidade humorística, e o fazem muito bem há muito tempo.  Não sei se Monty Python inaugurou o estilo na TV, com o Flying Circus, mas certamente o grupo fez escola.  Pra quem não conhece, aqui vai um quadro clássico da trupe britânica:


Na mesma linha temos "Big Train" e "That Mitchell and Webb look", ambos ingleses, e o canadense "The kids in the Hall", produzido por Lorne Michaels, do Saturday Night Live.

Mas nem por isso o humor inglês abdicou do preconceito como arma humorística.  Recentemente o Gabriel me indicou um seriado inglês, chamado "Life´s too short".  A tradução literal seria "A vida é muito curta", sendo que o short em inglês pode se referir tanto a curto quanto a baixo em estatura.  O programa é dirigido por Ricky Gervais, o criador e diretor do "The Office".  Gervais é brilhante, e se consagrou, sobretudo, por um tipo de humor awckward, ou seja, constrangedor.

O programa é estrelado por um anão relativamente famoso, Warwick Davis, que participou de vários filmes (Harry Potter, StarWars - neste último, como ewok). No programa, feito em formato documentário-falso, ele interpreta a si próprio, e tem uma agência que aluga anões para participações em filmes, TV e eventos de toda sorte, a "dwarves for rental".

As coisas que acontecem com ele são as mais chocantes possíveis, uma vez que o cara tem um ego gigante.  Gervais explora desde humilhações a quedas - e Warwick cai muitas vezes.  Uma cena do terceiro episódio se desenrola da seguinte forma:

Warwick inaugura seu website, que é um fracasso de acessos.  Lá pelas tantas, ele começa a receber mensagens humilhantes.  Descobre que se trata de um estudante de uma escola próxima e vai lá tirar satisfação.  Entra na sala e começa a ler, para a sala de aula e o professor, uma mensagem que recebeu:

"Seu trolzinho feioso, eu quero te amarrar e te espancar."
a turma ri, o professor pede silêncio e ele começa a comentar:
"agora, não entendo o porque de tanta fascinação comigo...claramente deve ter um fetiche por anões.
a turma volta a rir, ele gosta de estar sendo divertido e continua:
"quer me amarrar, não?  Me parece meio gay..."
(risadas)
"talvez esteja apaixonado por mim...um fetiche gay por anões.  Seu nome é Justin Palmer."
a turma silencia, claramente constrangida.  O professor chama o tal Justin Palmer.  Nesse momento, escuta-se um barulho de motor, a câmera foca o rosto do anão, que fica consternado.  O garoto indo em direção a ele é um tetraplégico.  O professor interroga o menino:
Justin, isso é verdade?  Você escreveu isso?  Você fez cyber-bullying com este homem?
Sim.
Nesse ponto, o professor obriga o menino a se desculpar.  O anão diz que não é necessário, mas o professor prossegue, o menino se desculpa e começa a voltar pro seu lugar.  Quando está no meio do caminho, alguém joga um papel nele e grita "gay".  A turma ri.  A câmera filma o anão várias vezes, que ocasionalmente olha para a lente, o que transporta o espectador para o constrangimento da cena.  Depois, a câmera filma rapidamente o menino tetraplégico, que tem uma lágrima escorrendo.

É o tipo de coisa que normalmente revolta as pessoas, especialmente quando se transcreve a situação, como fiz aqui.  Cenas como essa despertam o moralismo em muitas pessoas, antes de qualquer possibilidade de compreensão humorística.  Mas quem já viu "The office" sabe como Gervais trabalha, e há uma graça nisso.  O humor nessa cena consiste em alívio...é engraçado porque é muito errado.  E sabemos que é uma encenação, que isso não poderia acontecer.

Infelizmente não achei nenhum vídeo com legenda dessa série, mas deixo aqui uma cena em que Liam Neeson conversa com Gervais a respeito de fazer algum trabalho humorístico.  É o tipo de coisa que jamais poderia ser feito por aqui (e tem muita gente pensando "ainda bem, não queremos essa droga").


No making of, os atores que participam da série falam sobre o programa.  O depoimento mais interessante é o de uma anã, que explica que sim, estão mexendo com preconceitos...mas para atingir uma idéia de humor muito mais profunda do que se imagina numa olhada rápida.

Enquanto isso, no Brasil estamos processando comediantes por conta de piadas.  O post abaixo, do Gabriel, traz bons exemplos de como bobagens foram transformadas em celeumas nacionais.  Além das confusões do Gentili, teve o processo do rafa Bastos.

O humor deve ser entendido como arte.  Um cara como david Letterman, capaz de fazer piadas  todos os dias, um Gervais, capaz de nos fazer rir das situações mais fdps, entre outros, são artistas geniais.  Da mesma forma que não se cogitou censurar os quadros de assassinatos de Lula, FHC e outros na última Bienal, que não se cogita proibir estátuas nuas, fotografias da desgraça humana ou comprometedoras, deve-se respeitar a liberdade humorística - aliás, a liberdade de expressão de forma geral.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Laerte - nova fase

Sem maiores delongas: o espaço que o Laerte ocupa aos sábados, que rendeu "Muchacha" e "Laertevisão" agora está sendo utilizado para uma experiência meio rara na produção do Laerte: Charges e quadros com temas políticos.  As últimas 10 são assim, com exceção (talvez) da segunda na sequência que coloquei aqui:


Várias dessas se referem à discussão do casamento gay, sendo que na 9a. ele resolveu desenhar o Bolsonaro mesmo.  Aliás, Bolsonaro foi o que aconteceu antes da primeira tirinha dessa série, que já havíamos postado aqui, como resposta àquela estupidez racista/homofóbica que ele disse à Preta Gil.

A quarta aparentemente trata do uso da norma culta na língua portuguesa (a discussão sobre o livro que relativiza os erros de português).

As outras são mais claras, e resolvi postá-las aqui depois de ver a última - talvez uma referência à entrevista do Palocci.

Divirtam-se!


Inserido posteriormente: ok, não tinha nada a ver com o Palocci, mea culpa....eu não tinha a menor noção da existência de um "Brilhante Ustra", ache com cara de barbudinho do PT).

sábado, 30 de abril de 2011

Lavando a alma ou "Laerte strikes again"

Duas das tiras me chamaram (politicamente) a atenção nos últimos meses...

A primeira é uma resposta ao pseudodesmistificador (raça em franca proliferação) que escreveu o livro "Guia politicamente incorreto da história  do Brasil" -- que pra mim foi a reconfirmação de que, infelizmente, o "politicamente incorreto" se tornou uma bandeira de direita no Brasil, defendida principalmente pelos conservadores mudérninhos. (o próprio Laerte já o sabia, claro).
(Saudade do tempo em que "politicamente incorreto eram os Simpsons. Ainda bem que temos o Family Guy pra nos redimir de vez em quando).

A outra, bem... precisa comentar?

(Qualquer um que souber das posições "religiosas" do blog sabe que ninguém aqui acha burcas algo minimamente aceitável. Mas... tem coisa mais "politicamente correta" que o discurso furado de liberalização  do Sarkozy? 
"Ocidente: há quinhentos anos libertando pessoas. Mesmo que elas esperneiem".)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Aconteceu há 5 anos

Só como exercício de memória, 2 reportagens do dia do nascimento deste blog.  O fato político mais importante era o escândalo do mensalão.  A igreja católica já era absurda, Paulinho Maluf estava preso e o Larte mandando muito bem:


Juiz nega liminar para soltar Maluf e Flávio
LILIAN CHRISTOFOLETTI
DA REPORTAGEM LOCAL

O juiz federal Luciano Godoy negou ontem o pedido de liminar em habeas corpus para o ex-prefeito Paulo Maluf e o filho dele Flávio. Os dois dividem uma cela na Polícia Federal de São Paulo desde o último sábado.
Com a decisão de Godoy de rejeitar o pedido de liminar (antecipação de uma decisão final) e de manter a decisão da juíza Sílvia Maria Rocha, de primeira instância, o habeas corpus de Maluf e de Flávio poderá levar cerca de 30 dias para ser julgado novamente.
Godoy está substituindo a desembargadora da primeira turma do TRF (Tribunal Regional Federal), Vesna Kolmar, que está de férias. Os advogados dos Maluf deverão recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), em Brasília, contra a prisão preventiva.
Em sua decisão, o juiz federal afirmou que os fatos apresentados pelos advogados dos Maluf não preponderam em favor dos acusados. "Pelo contrário, demonstram, em princípio, a personalidade voltada para a prática delitiva e a manifesta possibilidade de perseverança no comportamento delituoso, circunstâncias que autorizam a sua manutenção em cárcere, para a garantia da ordem pública."
O juiz sustentou que, nos autos, há prova da existência de crime e indícios de autoria, indicando a movimentação internacional de montante expressivo de dinheiro.
Quanto ao pedido feito pela defesa de Maluf de que, como ex-prefeito, ele tem o direito de ser processado em instância superior, Godoy discordou. "O foro privilegiado para ex-autoridades agride a idéia da igualdade entre os cidadãos."
No final de sua decisão, Godoy recomendou "cautela e sensatez" aos agentes públicos, para que não tratem o ex-prefeito e o filho "nem melhor nem pior" do que qualquer outro preso.
"A manutenção da prisão preventiva (...) não significa que cidadãos brasileiros possam sofrer quaisquer tipos de humilhações. Mas, por outro lado, a notoriedade e a situação econômica privilegiada dos pacientes também não lhes pode gerar benefícios ou regalias na prisão. Há que receberem tratamento igual àquele destinado aos demais encarcerados", afirmou o juiz.
Para Godoy, em liberdade, Maluf e o filho poderiam atrapalhar o andamento do processo que é movido contra eles por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. A soma das penas mínimas é de oito anos de reclusão.


Vaticano procurará por "evidência de homossexualismo" nos EUA DA REDAÇÃO

Segundo informações do jornal norte-americano "New York Times", o Vaticano recrutou clérigos católicos para um trabalho de avaliação dos seminários nos EUA, com o objetivo de procurar por "evidência de homossexualismo" e por professores cujos ensinamentos divirjam das doutrinas da igreja.
De acordo com o jornal, é aguardado um documento do Vaticano deliberando sobre se os clérigos homossexuais devem ou não ser banidos da igreja. Pode-se ter uma idéia do conteúdo dele com base em afirmação do arcebispo Edwin O'Brien, que está encarregado de supervisionar a avaliação dos seminários americanos: "Quem quer que tenha se envolvido em atividades homossexuais ou tenha forte inclinação homossexual" não deveria ser admitido num seminário.
A investigação determinada pelo Vaticano, diz o "New York Times", vem em resposta aos escândalos de abuso sexual por parte de padres americanos que despontaram no ano de 2002 -quando o cardeal Bernard Law, acusado de encobertar a prática de pedofilia por padres em sua diocese, renunciou ao arcebispado de Boston e foi transferido para Roma.
No processo de avaliação, chamado de visita apostólica, membros da Igreja Católica dos EUA irão a 229 seminários, que têm mais de 4.500 alunos.
O jornal conta também que um estudo encomendado pela Igreja Católica no ano passado revelou que 80% das jovens vítimas de abuso por parte dos prelados eram garotos, daí o foco no homossexualismo.
O processo de avaliação consistirá em entrevistas privadas dos delegados da Santa Sé com professores e alunos dos seminários, além de seminaristas formados nos últimos três anos.
Entre as perguntas contidas no questionário, diz o "Times", uma exige que se responda se "há evidência de homossexualismo no seminário" e é acompanhada pela rubrica "a resposta a esta questão é obrigatória".
Também obrigatório será responder se "os seminaristas e funcionários do colégio têm conhecimento da vida moral daqueles que vivem na instituição".
Os avaliadores perguntarão ainda, conta o "Times", se os professores "estão atentos a sinais de amizades especiais".


 Laerte:

domingo, 6 de junho de 2010

Mondo Cane

(por Gabriel)

Acho que fica bem óbvio aqui no Wilbor que eu e o Marcelo somos fãs do Laerte (se houvesse uma carteirinha, teríamos).
Mas só quem nos conhece pessoalmente sabe que somos também fãs de cachorros.

Laerte sempre me pareceu um cara dos gatos, um "cat person". Suas tirinhas d'Os Gatos -- e mesmo o exemplo da Selina -- atestavam algo assim.
Mas uma série relativamente recente de Laerte, "Cães", me deixou muito interessado. Mais do que engraçada, duas de suas "reflexões" a respeito de cães me clarearam algumas questões que estavam presentes mas desarticuladas na minha cabeça.
Primeiro, temos esta:

LAERTE-25-03-10.jpg

Aqui já há uma questão sobre a qual eu já pensei muito: os tipos de relação que estabelecemos com animais, por um lado, e mais especificamente a impossibilidade de uma relação "igualitária" entre os pólos humano-animal na vida doméstica, por no mínimo dois motivos:
1. Por que a própria estrutura de nossa vida familiar e doméstica impõe hierarquia e diferenciação;
2.  Porque cães, particularmente, funcionam num mundo instintivo hierarquizado (gatos são ao mesmo tempo mais simples e mais complicados quanto a isso). Não há, para o cão, nenhuma aspiração ao tipo de "liberdade" da qual nós costumamos falar, nenhuma vontade complexa o suficiente para ser confundida com o que nós, depois de milhares de anos de evolução cultural, chamamos de "autonomia". 

Eu coloco falo aqui especificamente da "desigualdade" da vida doméstica simplesmente porque não tenho dados para opinar sobre a relação humano-animal em outras situações... Por exemplo: a relação entre mendigos e "seus" cães nunca me pareceu nada parecida com o tipo de "posse" que exercemos nas famílias, mas não posso falar muito sem cair no achismo total.

Acho desnecessário falar da "escravização" de cães e outros animais no mundo do trabalho;  animais têm sido nossas ferramentas desde nos tornamos capazes de utilizar-los para tal. Se tem algo que eu poderia qualificar como da "natureza" humana (e vocês só me verão falar de "natureza humana" entre aspas) é isso: instrumentalizar as coisas. Fazemos isso aos cachorros, fazemos com qualquer outro item do universo -- incluindo, obviamente, outros seres humanos.

(Lembram de um episódio do fim da vida -- e da sanidade -- de Nieztsche quando, vendo um cavalo ser chicoteado, ele entra em prantos e abraça o pobre bicho e pede perdão pelos pecados humanos contra a vida? Essa reflexão sempre me traz essa cena de volta à mente.)


A tira seguinte, por sua vez, me trouxe algo muito diferente. Ela se aproxima da anterior no fato de cutucar nossa compreensão de como percebemos e representamos os cães para nós mesmos -- e, por conseguinte, como nós vemos a nós mesmos (p.ex: de companheiros, passamos a escravizadores de cães). Mas a partir daí, a questão desta é bem outra.
LAERTE-24-03-10.jpg


Eu nunca tinha refletido sobre essa questão de representação bicho/gênero; mas, ao vê-la aqui, ela me soou tão verdadeira e natural como se eu mesmo já tivesse pensado nela. Acho que provavelmente os estudiosos e interessados na representação de gêneros (i.e. os "feministas" :) ) poderiam esboçar um sorriso de concordância ao lerem a tira. (Se o blog da Marjorie estivesse em funcionamento, eu mandaria isto para ela pra ver sua opinião)
Eu já tinha pensado bem de leve em como o comportamento dos gatos possui uma série de padrões associados com representações do feminino (charmoso, sedutor, manhoso, caprichoso, imprevisível, interesseiro, traiçoeiro... etc), mas não havia pensado ainda nos cachorros. O interessante é que, nesta tira, não se chega a fazer a contraposição entre "cão" e "gato". ; o texto se limita ao cachorro.
O que temos, então, é apenas um cão pensando e questionando suas próprias representações de gênero...

Quando pensei nisso, de repente me toquei: caramba, é um cão gay.

Laerte não estaria falando só de nosso vício de fazer projeções de nossas qualidades em bichos. Não se trata só de uma mera curiosidade diletante transformada numa "tirinha sem-piada". Ele fala aqui sobre como as pessoas representam a sexualidade para si mesmas. Como o cachorro é que é o sujeito da fala aqui, ele também está discutindo sua própria sexualidade.
Sua frase final, "quanta idiotice", me parece falar não só do fato dessas associações serem tolas, mas dele próprio não se ver refletido nelas -- não ser, portanto, tão "masculino" assim só por ser cão.
Não é só que os cães não se encaixam nesses estereótipos: é idiotice vincular a idéia de macho com qualidades como "leal" e "descomplicado". É idiotice esperar que as pessoas sejam qualquer coisa  só por seu gênero.
(E, no entanto, é isso que as pessoas inconscientemente fazem o tempo todo, até quando simplesmente vestem seus filhos de azul e as filhas de rosa.)

Laerte retorna nesta segunda tira a um assunto recorrente seu -- a representação de gêneros e sua inadequação frente às sutilezas do ser humano. (Ainda vou fazer um post gigantesco sobre a abordagem "laertiana" da homossexualidade. Na verdade, se  eu tiver tempo e saco de levantar e ler uma bibliografia mínima sobre o assunto das representações de gênero, ainda vou escrever um artigo a respeito).

 Laerte instabiliza espaços meio "seguros".Usando um espaço tradicionalmente brando e familiar -- as tirinhas de jornal --  e tomando como objeto algo também familias -- os cães -- ele elabora pequenas charadas para cutucar partes de nosa personalidade que nem sabíamos possuir.
Coisa, com o perdão da palavra, de artista.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tecnologia

A série que Laerte vem escrevendo para o caderno de Informática da Folha está excelente. Quem não gosta do estilo mais "surreal" e reflexivo que ele tem desenvolvido nos últimos anos não tem do que reclamar aqui: o humor é puro Laerte da velha guarda.

Recomendo veementemente a série inteira.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Degolai, degolai!




La Marseillaise

Allons enfants de la Patrie, Avante, filhos da Pátria,
Le jour de gloire est arrivé ! O dia da Glória chegou!
Contre nous de la tyrannie, Contra nós, da tirania
L'étendard sanglant est levé, (bis) O estandarte ensanguentado se ergueu,(repete)
Entendez-vous dans les campagnes Ouvis nos campos
Mugir ces féroces soldats ? Rugirem esses ferozes soldados?
Ils viennent jusque dans nos bras Vêm eles até aos nossos braços
Égorger nos fils, nos compagnes ! Degolar nossos filhos, nossas mulheres.

Aux armes, citoyens, Às armas, cidadãos,
Formez vos bataillons, Formai vossos batalhões,
Marchons, marchons ! Marchemos, marchemos!
Qu'un sang impur Que um sangue impuro
Abreuve nos sillons ! Agüe o nosso arado!

Que veut cette horde d'esclaves, O que quer essa horda de escravos,
De traîtres, de rois conjurés ? De traidores, de reis conjurados?
Pour qui ces ignobles entraves, Para quem (são) esses ignóbeis entraves,
Ces fers dès longtemps préparés ? (bis) Esses grilhões há muito tempo preparados? (repete)
Français, pour nous, ah ! quel outrage Franceses! A vós, ah! que ultraje
Quels transports il doit exciter ! Que comoção deve suscitar!
C'est nous qu'on ose méditer É a nós que consideram
De rendre à l'antique esclavage ! retornar à antiga escravidão!

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...

Quoi ! des cohortes étrangères O quê! Tais multidões estrangeiras
Feraient la loi dans nos foyers ! Fariam a lei em nossos lares!
Quoi ! ces phalanges mercenaires O quê! Essas falanges mercenárias
Terrasseraient nos fiers guerriers ! (bis) Arrasariam os nossos nobres guerreiros! (repete)
Grand Dieu ! par des mains enchaînées Grande Deus! Por mãos acorrentadas
Nos fronts sous le joug se ploieraient Nossas frontes sob o jugo se curvariam
De vils despotes deviendraient E déspotas vis tornar-se-iam
Les maîtres de nos destinées ! Os mestres dos nossos destinos!

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...

Tremblez, tyrans et vous perfides Tremei, tiranos! e vós pérfidos,
L'opprobre de tous les partis, O opróbrio de todos os partidos,
Tremblez ! vos projets parricides Tremei! vossos projetos parricidas
Vont enfin recevoir leurs prix ! (bis) Vão enfim receber seu preço! (repete)
Tout est soldat pour vous combattre, Somos todos soldados para vos combater.
S'ils tombent, nos jeunes héros, Se tombam os nossos jovens heróis,
La terre en produit de nouveaux, A terra de novo os produz
Contre vous tout prêts à se battre ! Contra vós, todos prontos a vos vencer!

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...

Français, en guerriers magnanimes, Franceses, guerreiros magnânicos,
Portez ou retenez vos coups ! Levai ou retende os vossos tiros!
Épargnez ces tristes victimes, Poupai essas tristes vítimas
À regret s'armant contre nous. (bis) A contragosto armando-se contra nós. (repete)
Mais ces despotes sanguinaires, Mas esses déspotas sanguinários,
Mais ces complices de Bouillé, Mas os cúmplices de Bouillé,
Tous ces tigres qui, sans pitié, Todos os tigres que, sem piedade,
Déchirent le sein de leur mère ! Rasgam o seio de suas mães!

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...

Amour sacré de la Patrie, Amor Sagrado pela Pátria
Conduis, soutiens nos bras vengeurs Conduz, sustém-nos os braços vingativos.
Liberté, Liberté chérie, Liberdade, liberdade querida,
Combats avec tes défenseurs ! (bis) Combate com os teus defensores! (repete)
Sous nos drapeaux que la victoire Sob as nossas bandeiras, que a vitória
Accoure à tes mâles accents, Chegue logo às tuas vozes viris!
Que tes ennemis expirants Que teus inimigos agonizantes
Voient ton triomphe et notre gloire ! Vejam teu triunfo, e nós a nossa glória.

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...

(Couplet des enfants) (Verso das criancas)
Nous entrerons dans la carrière, Entraremos na carreira(militar),
Quand nos aînés n'y seront plus, Quando nossos anciãos não mais lá estiverem.
Nous y trouverons leur poussière Lá encontraremos as suas cinzas
Et la trace de leurs vertus (bis) E o resquício das suas virtudes (repete)
Bien moins jaloux de leur survivre Bem menos desejosos de lhes sobreviver
Que de partager leur cercueil, Que de partilhar o seu esquife,
Nous aurons le sublime orgueil Teremos o sublime orgulho
De les venger ou de les suivre De os vingar ou os seguir.

Aux armes, citoyens... Às armas, cidadãos...


Ok. Taí um hino brabo mesmo! Mas é muito bonito.



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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Da arte (2)


Laerte tem vários trabalhos em que tratam de ou que nos quais surge a questão sobre o que é "arte", qual a natureza da"arte". Já discuti um desses momentos neste post aqui.
Esta outra tira acima também é um desses, e na minha opinião um dos comentários mais inteligentes e bonitos que ele fez a respeito.
Como muitas das coisas do Laerte, esta tira precisa ser lida com atenção: veja como a "arte" aqui não está dentro das pessoas, mas no elemento "lira" que vai passando de mão e mão e transforma cada um de seus portadores num "poeta" momentâneo e inconsciente aos olhos dos outros.

Outro comentário de Laerte sobre arte, curto mas magistral, é este aqui:


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