SPOILERS!!...
Ano passado vi Melancolia, e adorei.
Difícil mesmo chamar de "sutil" e "delicado" um filme:
A) do Lars Von Trier;
B) em que o planeta Terra é destruído e todo mundo morre.
Mas é o que achei: delicado. E, a níver de Trier, otimista até. Não causa aquela indignação profunda de "Dogville", "Manderlay", "Dançando no escuro", nem o completo desconforto de "Os idiotas". Eu considerava Trier um sádico inteligente, mas depois desse filme passei a achar que ele verdadeiramente sensível.
Não vou fazer um resumo organizado do filme -- assista, se quiser saber os tintins da história -- mas apontar algumas coisas que me chamaram atenção, especialmente no quesito escala.
Antes de ver o filme, eu tinha lido uma sinopse que dizia que um outro planeta batia na terra e pau: todo mundo morria. Eu fui ao cinema com expectativa de ver um planetóide ou algo assim batendo na terra.
Aí, logo no comecinho, veio o detalhe que me impressionou: não é que algo simplesmente bate na Terra, a Terra é ENGOLIDA por um mundo imensamente maior que ela -- planeta que, por acaso, chama-se "Melancholia"...
Por estranho que pareça, pra mim isso fez muita diferença. Por causa desse detalhe foi que interpretei o filme como uma obra sobre a depressão -- ou melhor ainda, sobre a natureza universal da tristeza -- da parte de um autor que reconhecidamente sofre desse mal (Lars Von Trier). "Depressão" justamente fez mais sentido pra mim dessa maneira: não como algo que vem e "bate", mas como algo que "engole" tudo, toda a pessoa, tudo que ela conhece; o mundo torna-se inteiro envolvido por esse fundamental vazio.
O filme é dividido em duas metades e centrado em duas irmãs, as duas bem problemáticas à sua própria maneira. A primeira metade do filme mostra Justine, a irmã depressiva, imersa no mundo "normal" de Claire, a irmã obsessiva: cambaleante, oprimida, incapaz e, pior ainda, sem que ninguém consiga nem ao mesmo atingir ou compreender o que diabos a aflige. Sua incapacidade de ficar feliz em seu próprio casamento -- no momento em que todos se esforçaram para que fosse feliz e, portanto, exigiam que ela o fosse --é quase condenada como uma falha moral. Como se ela não se esforçasse o suficiente para ser normal, para ser feliz -- como se afundasse em autopiedade.
No fim dessa parte, Melancolia (o planeta) torna-se visível a olho nu no céu.
A segunda metade do filme, Melancolia se aproxima da Terra e confirma-se, enfim, que com ela colidirá. Não por acaso, o que se mostra é Claire, a irmã "normal" sendo lentamente imersa no mundo da irmã depressiva. Imersa simbolica e literalmente, já que a "Melancolia" está vindo pra engolir o mundo inteiro. E aí mostra-se sua total inadequação à nova situação, seu desespero e a artificialidade de seu apego a uma "normalidade" (p.ex: querer morrer tomando vinho ao ar livre, num clima bucólico). Sua incapacidade, enfim -- mais evidenciada diante da serenidade de Justine -- de encarar o vazio fundamental inerente a uma existência sob o signo da morte. Já Justine não se choca, não se desespera, porque ela já vive nesse mundo.
Entendam, Trier poderia ter apenas retratado um meteoro gigante, um pedregulho qualquer que batesse na gente e crau! nóis já era. O fim do mundo já estaria colocado. Mas ele criou um planeta -- algo da mesma categoria da Terra, e belo e reluzente e complexo e muito maior que o nosso planeta (nós é que estamos mais pra "meteoro"?). Tal atenção estética não visa só retratar uma tragédia, mas construir uma alegoria: o vazio da existência está lá; ele nos antecede, e é maior do que nós, e não é por que finjamos que não existe que ele não está lá.
Pessoas mais "positivas" podem achar que é um exagero de autopiedade de um diretor depressivo (à semelhança da reação das pessoas à tristeza de Justine); but he's got a point, na minha opinião. Usando a velha metáfora do copo pela metade, pode-se dizer que a moral dominante de nossa sociedade atual é a de dizer que "um copo pela metade pode ser visto como meio cheio e meio vazio, dependendo de como se queira ver". Ou seja, você escolhe como ver. Pra quem vê as coisas desse jeito, Trier pareceria estar escolhendo ver o copo como meio vazio-- seria um pessimista. Mas o que ele afirma na minha opinião é um tanto mais inquietante: um copo "meio cheio" está sempre "meio vazio", é um copo meio vazio. O vazio está lá. Há as pessoas que vivem quase exclusivamente nele, é certo; mas não as menospreze, porque o vazio é real. Está lá.
Pulando direto pro fim, dá pra dizer que Melancolia é um filme com "final feliz": há uma pequenina redenção, e é da fantasia de uma criança -- ou melhor, a necessidade do adulto de proteger e confortar uma criança -- que vem uma mínima e precária redenção possível.
Em um certo aspecto, esse final soa quase uma alegoria religiosa. É também disso que, até certo ponto, toda religião trata: uma ficção reconciliadora para se articular a insignificância humana diante do universo, diante do vazio da existência regida pela morte. O interessante aqui é notar que, justamente naquela frágil "fantasia" -- na "cabana mágica" que menino, mãe e tia fazem -- eles de certo modo estão protegidos. Não da morte, não do fim, mas do desespero.
Eu disse final feliz? É, soa exagero; mas não dá pra falar de um final exatamente triste, ou trágico; é um final... melancólico.
Epílogo: ao ver o filme, fiquei achando que o amor adulto-criança seria algo sagrado para Lars von Trier, algo que, em sua sanha destruidora, ele mantesse intacto; assim parecera em "Dançando no Escuro" e "Dogville"... Mas aí assisti "O Anticristo" (que ele fez exatamente antes de Melancolia) e vi que não; NADA é "sagrado" para von Trier.
Mas ao que parece ele acredita na existência de amor, pelo menos; ainda que destinado à tragédia, ele existe. E, diante do fim do mundo, talvez já fosse todo otimismo necessário.
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domingo, 1 de julho de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
O Monstro Souza, Ano 1: balanço da recepção e um causo
Postado por
Gabriel G;
No último mês me novembro completou-se um ano de lançamento de "O Monstro Souza", o livro insano feito em parceria de Bruno Azevêdo comigo e mais outros.
Tive um ano particularmente cheio, de forma que parece até que esse acontecimento foi há mais tempo... muita água jpa rolou: eu fazendo um doutorado e finalizando outro livro, Bruno com filha, mestrado e um monte de projetos. Mas faz pouco tempo, realmente.
A título de arquivo, então, fiz neste post uma compilação de links das principais resenhas, reportagens e comentários sobre o livro dos quais fiquei sabendo. (é mais ou menos algo que você poderia fazer sozinho no google se tivesse disposição, tempo livre e soubesse o que procurar e escolher...)
Vamos lá:
- O Monstro Souza no Programa "Banca de Quadrinhos".
- Eu e o Bruno entrevistados a esmo na Rio ComiCon 2010:
- A reportagem sobre o livro no jornal regional da rede Mirante (retransmissora da Globo em São Luís). Esse não deu pra colocar no blog, mas o vídeo está disponível ainda no site).
- A resenha de Celso Borges no jornal O Imparcial (concorrente d'O Estado do Maranhão, o qual também é conhecido como "Sarney News"):
- O Monstro Souza no Correio Brasiliense.
- Resenha do livro no blog Meia Palavra.
- A "Resenha Monstruosa" de Carlos Tosh.
- Resenha do'O Monstro no Overmundo.
- A resenha "A Saga do Monstro Souza", de Flávio Reis.
- Resumo da entrevista maluca minha e do Bruno no Overmundo.
- Entrevista de Bruno no blog "O Diário de André".
- Entrevista de Bruno com Zema Ribeiro.
- Reportagem na Revista da Cultura, (publicação da célebre Livraria Cultura) na qual O Monstro Souza é citado como fazendo parte de uma "geração" que faz experimentos e inovações com o "velho suporte" do livro impresso. (só constando: ser citado num ensaio sobre esse assunto, mesmo que numa "revista de livraria", me dá muita satisfação!)
Para fechar o post, um causo inédito sobre o livro.
Quem já frequentou Cidade Universitária da USP sabe das feiras de livro que ocorrem na FFLCH durante o fim de semestre: episódios nos quais é possível comprar livros a preços muito sedutores.
Pois bem: lá pros idos de 2003 ou 2004, eu estava lá na feira. Esbarrei com um livro interessantíssimo na banquinha da Editora Altana: "10 Presídios de Bolso", de Ronaldo Bressane. Antes de tomar contato com a prosa indecente, habilidosa e interessantíssima do escritor, o design do livro me chamou atenção. A diagramação, tipografia e etc, tudo formatava e dialogava com o "conteúdo" literário. E, embora não constasse na capa, realmente o designer Eduardo Kerges estava lá, no finalzinho do livro, apresentado em pé de igualdade com Bressane. Eu estava então cada vez mais interessado em design de livros (perguntem qual o tema do meu doutorado agora...), e esse livro me trouxe muitas idéias e vontades.

Revelo: acho que foi daí que eu tive a idéia de fazer algo parecido com O Mostro Souza de Bruno, do qual eu era um participante já fazia tempo: tentar aprofundar o design do livro de maneira a influir na experiência e construção de seu "conteúdo" (eu sempre vou usar essa palavra com aspas, ok?) e, no final, aparecer creditado como co-autor. No final, podemos dizer que deu certo... mais ainda do que com o Kerges no "10 Presídios", se pensarmos que meu nome foi pra capa!... hehehehe :))
Mas voltando: a questão é comprei o livro num ano; no ano seguinte (2004 ou 2005), fui até a feira novamente para comprar um exemplar de "10 Presídios" para dar de presente ao Bruno. Nessa ocasião, o editor do livro, Xico Santos, estava lá, na banquinha da Altana. Pensando que um editor era justamente o que o Monstro precisaria -- conversei com ele e falei que estava envolvido num projeto de livro muito louco que também se buscaria usar criativamente a visualidade da mídia, e que achava que tinha a ver com o material de humor negro que a Altana dele estava produzindo (não mencionei que o livro seria sobre um cachorro-quente prostituto e assassino). Ele pareceu educadamente interessado, me deu seu cartão.
Naquela ora, achei que esse editor ele também era o cara que havia escrito a orelha do livro. Uma orelha engraçada, inteligente e sem-vergonha, que senti que tinha muito a ver com o tipo de humor seco e sacana que Bruno estava desenvolvendo. Só que não, a orelha do livro tinha sido escrita por um cara com o nome levemente diferente: Xico Sá.
Anos depois, Bruno entraria em contato com Xico Sá, mas a respeito de Breganejo Blues -- o livro independente que começou depois e terminou antes de O Monstro Souza. Confirmando que minha intuição estava certa, Sá gostou bastante do Breganejo, e um contato foi estabelecido. E, neste último ano, Xico Sá acabou sendo o mais célebre entusiasta de O Monstro Souza, o que deixou a mim e ao Bruno muito felizes.
Quão entusiasta? No nível de, quando perguntado sobre quem seria "o maior escritor brasileiro da atualidade" por ocasião da Feira de Livros de Parati, ele tascar: Bruno Azevêdo!
(Ele disse mais ou menos isso no twitter também, e isso causou uma alavancada considerável das vendas do livro em São Paulo...).
Citando algo que Sá disse a respeito de Breganejo, mas que vale perfeitamente para o Monstro: “é disso que a porra dessa literatura brasileira precisa: desrespeito com ela”.
Noves fora a picaretagem de se elogiar algo no qual se está incluído: é realmente preciso atitude e culhão pra lançar um livro tão louco e completamente independente, sem a ancoragem em nenhuma das várias centenas de editoras existentes no país. E isso Bruno teve e tem, para nossa sorte.
Conheço pouco da cena literária brasileira, mas confio que essa atitude -- de mais culhão e menos "respeito" -- lhe seria benéfica.
Longa vida ao Monstro.
Obs. 1: O Monstro Souza pode ser comprado na Estante Virtual e na Livraria Cultura (a Livraria da Travessa tem exemplares, mas nunca colocou em seu site. Pfff.).
Obs. 2: Fiquei sabendo que, com o estado atual de leis e fiscalização, novos exemplares de nossa edição provavelmente não poderão mais ser vendido às livrarias... porque a nota fiscal dos livros tem de ser emitida obrigatoriamente a partir de uma CNPJ. Que bacana, não?
Obs. 3: Eu tenho uns exemplares comigo ainda, e Bruno deve ter bem ainda do que eu... interessados podem nos escrever, o preço continua camarada!...
Tive um ano particularmente cheio, de forma que parece até que esse acontecimento foi há mais tempo... muita água jpa rolou: eu fazendo um doutorado e finalizando outro livro, Bruno com filha, mestrado e um monte de projetos. Mas faz pouco tempo, realmente.
A título de arquivo, então, fiz neste post uma compilação de links das principais resenhas, reportagens e comentários sobre o livro dos quais fiquei sabendo. (é mais ou menos algo que você poderia fazer sozinho no google se tivesse disposição, tempo livre e soubesse o que procurar e escolher...)
Vamos lá:
- O Monstro Souza no Programa "Banca de Quadrinhos".
- Eu e o Bruno entrevistados a esmo na Rio ComiCon 2010:
- A reportagem sobre o livro no jornal regional da rede Mirante (retransmissora da Globo em São Luís). Esse não deu pra colocar no blog, mas o vídeo está disponível ainda no site).
- A resenha de Celso Borges no jornal O Imparcial (concorrente d'O Estado do Maranhão, o qual também é conhecido como "Sarney News"):
(clica que aumenta!)
- O Monstro Souza no Correio Brasiliense.
- Resenha do livro no blog Meia Palavra.
- A "Resenha Monstruosa" de Carlos Tosh.
- Resenha do'O Monstro no Overmundo.
- A resenha "A Saga do Monstro Souza", de Flávio Reis.
- Resumo da entrevista maluca minha e do Bruno no Overmundo.
- Entrevista de Bruno no blog "O Diário de André".
- Entrevista de Bruno com Zema Ribeiro.
- Reportagem na Revista da Cultura, (publicação da célebre Livraria Cultura) na qual O Monstro Souza é citado como fazendo parte de uma "geração" que faz experimentos e inovações com o "velho suporte" do livro impresso. (só constando: ser citado num ensaio sobre esse assunto, mesmo que numa "revista de livraria", me dá muita satisfação!)
Para fechar o post, um causo inédito sobre o livro.
Quem já frequentou Cidade Universitária da USP sabe das feiras de livro que ocorrem na FFLCH durante o fim de semestre: episódios nos quais é possível comprar livros a preços muito sedutores.
Pois bem: lá pros idos de 2003 ou 2004, eu estava lá na feira. Esbarrei com um livro interessantíssimo na banquinha da Editora Altana: "10 Presídios de Bolso", de Ronaldo Bressane. Antes de tomar contato com a prosa indecente, habilidosa e interessantíssima do escritor, o design do livro me chamou atenção. A diagramação, tipografia e etc, tudo formatava e dialogava com o "conteúdo" literário. E, embora não constasse na capa, realmente o designer Eduardo Kerges estava lá, no finalzinho do livro, apresentado em pé de igualdade com Bressane. Eu estava então cada vez mais interessado em design de livros (perguntem qual o tema do meu doutorado agora...), e esse livro me trouxe muitas idéias e vontades.
Revelo: acho que foi daí que eu tive a idéia de fazer algo parecido com O Mostro Souza de Bruno, do qual eu era um participante já fazia tempo: tentar aprofundar o design do livro de maneira a influir na experiência e construção de seu "conteúdo" (eu sempre vou usar essa palavra com aspas, ok?) e, no final, aparecer creditado como co-autor. No final, podemos dizer que deu certo... mais ainda do que com o Kerges no "10 Presídios", se pensarmos que meu nome foi pra capa!... hehehehe :))
Mas voltando: a questão é comprei o livro num ano; no ano seguinte (2004 ou 2005), fui até a feira novamente para comprar um exemplar de "10 Presídios" para dar de presente ao Bruno. Nessa ocasião, o editor do livro, Xico Santos, estava lá, na banquinha da Altana. Pensando que um editor era justamente o que o Monstro precisaria -- conversei com ele e falei que estava envolvido num projeto de livro muito louco que também se buscaria usar criativamente a visualidade da mídia, e que achava que tinha a ver com o material de humor negro que a Altana dele estava produzindo (não mencionei que o livro seria sobre um cachorro-quente prostituto e assassino). Ele pareceu educadamente interessado, me deu seu cartão.
Naquela ora, achei que esse editor ele também era o cara que havia escrito a orelha do livro. Uma orelha engraçada, inteligente e sem-vergonha, que senti que tinha muito a ver com o tipo de humor seco e sacana que Bruno estava desenvolvendo. Só que não, a orelha do livro tinha sido escrita por um cara com o nome levemente diferente: Xico Sá.
Anos depois, Bruno entraria em contato com Xico Sá, mas a respeito de Breganejo Blues -- o livro independente que começou depois e terminou antes de O Monstro Souza. Confirmando que minha intuição estava certa, Sá gostou bastante do Breganejo, e um contato foi estabelecido. E, neste último ano, Xico Sá acabou sendo o mais célebre entusiasta de O Monstro Souza, o que deixou a mim e ao Bruno muito felizes.
Quão entusiasta? No nível de, quando perguntado sobre quem seria "o maior escritor brasileiro da atualidade" por ocasião da Feira de Livros de Parati, ele tascar: Bruno Azevêdo!
(Ele disse mais ou menos isso no twitter também, e isso causou uma alavancada considerável das vendas do livro em São Paulo...).
Citando algo que Sá disse a respeito de Breganejo, mas que vale perfeitamente para o Monstro: “é disso que a porra dessa literatura brasileira precisa: desrespeito com ela”.
Noves fora a picaretagem de se elogiar algo no qual se está incluído: é realmente preciso atitude e culhão pra lançar um livro tão louco e completamente independente, sem a ancoragem em nenhuma das várias centenas de editoras existentes no país. E isso Bruno teve e tem, para nossa sorte.
Conheço pouco da cena literária brasileira, mas confio que essa atitude -- de mais culhão e menos "respeito" -- lhe seria benéfica.
Longa vida ao Monstro.
Obs. 1: O Monstro Souza pode ser comprado na Estante Virtual e na Livraria Cultura (a Livraria da Travessa tem exemplares, mas nunca colocou em seu site. Pfff.).
Obs. 2: Fiquei sabendo que, com o estado atual de leis e fiscalização, novos exemplares de nossa edição provavelmente não poderão mais ser vendido às livrarias... porque a nota fiscal dos livros tem de ser emitida obrigatoriamente a partir de uma CNPJ. Que bacana, não?
Obs. 3: Eu tenho uns exemplares comigo ainda, e Bruno deve ter bem ainda do que eu... interessados podem nos escrever, o preço continua camarada!...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O entendido
Postado por
Gabriel G;
Fui na Rio ComicCon 2011 no último sábado. Muitas coisas a comentar, mas vou me ater apenas a um episódio.
Fui sozinho. Encontrei alguns conhecidos, conversei aqui e ali, mas fiquei na minha, só olhando, durante a imensa maior parte das 6 horas em que perambulei pela Estação Leopoldina, onde o evento ocorreu.
Havia uma exposição especial homenageando o superlativo Will Eisner. Foi uma das últimas coisas que entrei pra ver. Por muito acaso, justamente quando eu estava pra sair da exposição, fui abordado por um repórter que me perguntou se eu gostava muito de Will Eisner.
Sim, bastante.
Poderia dar uma aulinha pra gente?
(no fundo da minha cabeça havia uma risada de filme de terror canastrão)
Enfim, ele ligou a cãmera e soltei o verbo.
Mas esqueci depois de perguntar pro cara de qual canal era!! Fiquei sem saber, achando que se bobear era coisa da internet mesmo.
Não era. Saiu um trechinho no SBT Manhã. De qualquer jeito, posso dizer que nessa reportagem ao menos eu fui O cara entendido de Will Eisner... hehehe.
Para ir direto à parte de Eisner e à minha (minúscula) fala, é só ir direto ao minuto 2:25.
Fui sozinho. Encontrei alguns conhecidos, conversei aqui e ali, mas fiquei na minha, só olhando, durante a imensa maior parte das 6 horas em que perambulei pela Estação Leopoldina, onde o evento ocorreu.
Havia uma exposição especial homenageando o superlativo Will Eisner. Foi uma das últimas coisas que entrei pra ver. Por muito acaso, justamente quando eu estava pra sair da exposição, fui abordado por um repórter que me perguntou se eu gostava muito de Will Eisner.
Sim, bastante.
Poderia dar uma aulinha pra gente?
(no fundo da minha cabeça havia uma risada de filme de terror canastrão)
Enfim, ele ligou a cãmera e soltei o verbo.
Mas esqueci depois de perguntar pro cara de qual canal era!! Fiquei sem saber, achando que se bobear era coisa da internet mesmo.
Não era. Saiu um trechinho no SBT Manhã. De qualquer jeito, posso dizer que nessa reportagem ao menos eu fui O cara entendido de Will Eisner... hehehe.
Para ir direto à parte de Eisner e à minha (minúscula) fala, é só ir direto ao minuto 2:25.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
o duelo mais covarde do século
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
O Brasil não é uma potência científica, e nunca foi. Apesar da recente e discreta melhora das condições de trabalho, do aumento do número de bolsas e as tentativas de repatriar pesquisadores que atuam fora do país e também atrair pesquisadores estrangeiros com incentivos que chegam à vultuosa soma de R$5 mil, ainda somos um país no qual uma única universidade concentra 10% dos doutores e 25% da produção científica nacional.
Essa constatação serve para dizer que Miguel Nicolelis não é produto da academia brasileira - ou melhor, é uma exceção; da mesma forma que um Gustavo Kuerten não surgiu aqui porque com tantos jovens jogando tênis seria inevitável que algum se tornasse o melhor do mundo.
Nicolelis, pra quem não conhece, é um neurocientista paulistano, formado em medicina pela USP, onde obteve também seu doutorado em fisiologia. O que esse cara tem de diferente, é o fato de que foi considerado, pela revista Scientific American, um dos 20 cientistas mais influentes da atualidade, além de ter sido o primeiro brasileiro a ter seu estudo publicado na capa da revista Science e ser o brasileiro mais cotado para receber um prêmio nobel desde Cesar Lattes¹.
Pois bem...o Brasil não só produz pouco, como divulga pouco a ciência. Os mais conhecidos autores de divulgação científica brasileiro nos últimos anos são o físico Marcelo Gleiser e o médico Dráuzio Varella. Coincidentemente ambos com várias participações em programas da Globo (Fantástico) e colunistas da Folha. Dráuzio me agrada mais: adota um estilo curto e grosso e não faz concessões à pseudo-ciência, enquanto o Gleiser parece ter tanto medo da rejeição que acaba fazendo um estilo conciliador, que às vezes, acaba por comprometer o argumento. Não é por chatice, mas a obra moderna fundamental da divulgação científica (opinião minha, mas compartilhada por muitos entusiastas do tema), é "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan², e explica direitinho o porque as pseudociências são tão perigosas, e mostra ainda como a ciência preenche de forma mais adequada - e bela - o papel de explicar o universo.
Com Nicolelis, parece que temos, finalmente, um divulgador científico de primeira magnitude:
1: Trata-se, inquestionavelmente, de um grande cientista.
2: É um visionário. à exemplo de Sagan, Nicolelis vê na ciência, uma arma poderosa de transformação social. Ano passado lançou o Manifesto da Ciência Tropical : um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil - vale muito a pena ler.
3: Não faz concessões aos bobocas das pseudociências - mas sem perder a ternura: trata-se de um sujeito extremamente simpático e gentil. Uma das frases preferidas dele nesse sentido é a seguinte: "Se a palavra 'milagre' não tivesse sido adotada por outro ramo de negócio, deveria ser alocada na neurociência, porque fazemos umas coisinhas melhores"
Bem, mês passado foi lançado "Muito além do nosso eu: a nova neurociência que une cérebro e máquinas - e como ela pode mudar nossas vidas". Nesse livro, o cientista fala do novo paradigma da neurociência - pelo qual é o principal responsável. Lembram dos esquemas que mostravam um cérebro setorizado? Em tal lugar fica o centro da fala, ali os sentimentos, aqui as memórias, acolá a língua pátria...pois é, aparentemente tudo isso é bobagem. Eu desconfiava de uma coisa que vejo há muito tempo: os cursos "desenhando com o lado esquerdo do cérebro" - o Gabriel certamente conhece bem essa história. Esse paradigma é conhecido, na neurociência como "localizacionista".
Nicolelis é um "distribucionista": demonstrou que o cérebro não é setorizado. As memórias ou qualquer comportamento não se alocam numa parte específica do cérebro, mas em todo o órgão, e são resultado de uma interação entre "populações de neurônios". Nesse ponto a gente costuma lembrar daquelas imagens com partes diferentes do cérebro acendendo e apagando em resposta a determinados estímulos. Ocorre que essas imagens detectam a atividade máxima dos neurônios, e os neurônios não precisam "falar tão alto" para serem ouvidos no processo maior. Os processos neuronais ocorrem em infinitos circuitos paralelos, e um conjunto de neurônios falando baixinho influenciam, de forma determinante, para o resultado dos processos neurais. Enfim, ainda estou lendo o livro - acreditem, o tema é interessantíssimo e a abordagem do Nicolelis é fantástica, leiam. Voltarei a escrever quando terminar a leitura.
O importante é o seguinte: esses estudos resultaram em aplicações que permitem que o cérebro "se liberte" do corpo. Esses princípios possibilitaram a uma macaca controlar um braço mecânico para apanhar comida e levar à boca apenas com o pensamento, e que uma outra macaca na Carolina do Norte fizesse com que um robô andasse no Japão. Teve ainda um bônus, só porque o cara é muito foda: acidentalmente Nicolelis acabou descobrindo uma terapia de eletroestimulação para o mal de Parkinson.
Com essas descobertas, Nicolelis pretende desenvolver próteses mecânicas controladas pela mente, como braços, pernas e até exoesqueletos para tetraplégicos. Num futuro mais remoto, acredita que essa tecnologia poderá possibilitar que nossos cérebros comandem avatares e se conectem à internet, ou como ele chama essa nova rede, a "brainet".
Tudo isso pra chegar no que me motivou a escrever esse post. Nicolelis foi convidado a participar de um debate na Flip. Interessante, pensei. Funcionaria assim: Nicolelis expõe mais ou menos o que está no livro, fala de seu centro de pesquisa em Natal e da escola de educação científica, e algum outro cientista ou jornalista comenta e faz perguntas, com a participação da platéia. Mas não foi bem assim. Resolveram chamar um intelectual para debater e questionar moralmente o trabalho. O escolhido foi o "filósofo"³, professor de teologia e articulista da Folha, Luiz Felipe Pondé.
Não consegui assistir o debate, mas tenho encontrado fragmentos de vídeos e reportagens que mostram o seguinte: Nicolelis tinha uma expectativa muito boa. Lá pelas tantas, estava com a voz embargada ao comentar seu sonho de fazer com que, na abertura da Copa de 2014, uma criança tetraplégica brasileira entre com a seleção, caminhe até o centro do campo e dê o pontapé inicial da Copa. O tal exoesqueleto é uma realidade muito próxima, e além de ser comandado pelo cérebro, devolve estímulos, de forma que a pessoa sente coisas com a prótese e ainda exercita os músculos. Quem poderia ser contra tal coisa?
Pondé.
O video completo não está disponível em lugar nenhum (espero que alguém coloque, nesse caso eu atualizo aqui). Pois bem, Pondé abriu sua fala dizendo-se muito preocupado, pois as aplicações propostas não passavam de mais um passo em direção à eugenia. Adotou uma postura niilista, no sentido dostoievskiano mesmo (se Deus não existe, tudo é permitido). Coloca que a ciência não dá sentido à vida, critica a "filosofia pobre" dos cientistas, etc...segundo o que li, foi prontamente rebatido. Nessa entrevista, feita após a mesa, percebe-se a perplexidade de Nicolelis diante do que foi dito por seu "oponente" - o trecho a que me refiro começa em 2min e 15s:
Pondé enquanto colunista da Folha foi um cara que me chamou a atenção por um tempo, mas foi ficando claro que se trata de um polemista fraco. Coincidentemente essa semana eu recebi uma edição da veja, acho que brinde da editora abril, e a entrevista das páginas amarelas é dele. Pondé critica longamente os "jantares intelectuais", nos quais os comensais expõem seus esforços para melhorar o mundo andando de bicicleta ou reciclando o lixo - sobre o que deve-se conversar em jantares? Fala ainda sobre a auto-santificação da esquerda (verdade) e da superioridade da filosofia cristã sobre tal posição, uma vez que os santos reconheciam que eram pecadores, enquanto esquerdistas são incapazes de admitir falhas morais em sua doutrina.
Trecho da entrevista da veja:
O senhor acredita em Deus?
Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou em si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilismo, e sou muitas vezes acusado de niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.
Por que o senhor deixou de ser ateu?
Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese do Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama moral muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.
Essa entrevista é absurda em tantos níveis, que eu não posso deixar de comentar algumas coisas:
1: O cara é um filósofo que "foi ateu por muito tempo", mas deixou de sê-lo porque acha o ateísmo "aborrecido do ponto de vista filosófico". Eu não sou filósofo, mas "aborrecimento" não parece ser um argumento válido para definir uma posição a respeito do tema. Mas Pondé parece precisar da fantasia e achar ciência uma coisa chata. Só posso deduzir duas coisas disso: Pondé não entende muito de ciência e nunca foi um ateu fundamentado. Declarar-se ex-ateu para um filósofo é um tiroteio no pé.
2: Pondé considera a religião como a nossa fonte de hábitos morais. O Dawkins cuida bem dessa questão...parece claro que a nossa ética tem raízes iluministas, e não bíblicas - para nossa sorte.
3: Deus é a hipótese mais elegante para explicar a origem do universo? Onde está a riqueza filosófica nisso? O que há de elegância num estalar de dedos ou no trabalho de sete dias descrito no gênesis? Elegante é a física, a evolução, o cosmos.
4: Acreditar na história, na ciência ou em si mesmo é bobagem? Pondé é contra a realidade.
É incrível que um cara desses seja levado tão a sério. Aliás, é frequentemente convidado para debater toda sorte de coisa na Globonews e tem uma coluna semanal na Folha. Mais incrível ainda que esse tenha sido o intelectual selecionado para debater com Nicolelis, sem dúvida uma mente brilhante. Eu estudei em colégio católico e não consigo imaginar nenhum dos irmãos maristas falando tanta bobagem em nome da teologia. Achar que reabilitar um tetraplégico é um projeto de eugenia é foda.
Me parece que o Brasil, além de divulgação científica, carece também de polemistas de qualidade...na linha sucessória do Manhattan Connection, que sempre conta com um polemista no time, tivemos Paulo Francis, Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi. Agora, o rei disso no Brasil, a nossa jóia da coroa é, certamente, Olavo de Carvalho. Em comum, o fato de que todos esses tem um claro viés de direita, ou pelo menos anti-esquerda.
Já a Inglaterra, por outro lado, alem de produzir cientistas relevantes em bom número, produz ainda bons divulgadores científicos, humoristas e polemistas. Um exemplo de polemista de altíssimo nível é o jornalista e professor de literatura Christopher Hitchens. Em comum com os brasileiros citados, o fato de que é anti-esquerda. É ex-marxista e apoiou Bush nas políticas intervencionistas americanas, embora tenha apoiado Obama contra McCain.
Um exemplo do Hitchens em ação:
Bill Maher é um comediante americano, um dos queridinhos da esquerda americana desinformada e péssimo representante dos ateus americanos "wannabe". É dele o filme religulous...bobinho pra cacete. Hitchens acusa, nesse vídeo, que Maher já havia feito umas 5 piadas sobre o QI de Bush, e que aquele era o tipo de piada da qual as pessoas burras agora dão risada, aquelas pessoas que vaiam na platéia porque se sentem mais espertas que o presidente...o olhar de Maher é impagável - foi abandonado por um de seus heróis.
Agora, Hitchens, ao contrário dos companheiros brasileiros, é tido como um dos mais respeitados intelectuais britânicos, justamente porque faz o que faz pela razão, não por necessidade orgânica de chamar a atenção e aparecer.
Uma polêmica levantada por Hitchens, muito bem fundamentada está no livro "The missionary position: mother Teresa in theory and practice". Aqui Hitchens coloca em xeque a bondade da freira. Fez uma extensa pesquisa e demonstra que a maior parte do dinheiro arrecadado para ajudar os pobres da Índia (muitas vezes arrecadado com ditadores de países miséráveis, como Jean-Claude Duvalier), foi aplicado na construção de conventos e não nos poucos muquifos que ela chamava de hospitais.
Esses fatos são tidos hoje como inquestionáveis, exceto, é claro, para a igreja católica. Agora, imaginem que o cara é tão respeitado, que foi ele o convidado pelo Vaticano a advogar contra Madre Teresa em seu processo de beatificação. Enfim, o cara joga em outro nível.
Voltando ao começo do post, deixo aqui o vídeo do Nicolelis no Roda Viva, onde ele explica o projeto de Natal e pincela aquilo que viria a se transformar no tal Manifesto do qual falei lá em cima.
Enfim, acho que esse é um caso em que vale a torcida pelo Nobel desse cara. O Brasil precisa de uma celebridade desse calibre na ciência, acho que faria muito bem ao país.
1) César Lattes não ganhou o Nobel de física de 1950 por um erro (ou não). Ele liderou a equipe que descobriu o "méson pi", e por algum motivo estranho, quem foi laureado foi o americano que redigiu o estudo - assinado por Lattes. Segundo consta na Wikipedia, "No museu de Niels Bohr, em Copenhague, Dinamarca, há uma carta em que está escrito o seguinte: 'Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - abrir 50 anos depois da minha morte'. Como Bohr morreu em 1962, somente em 2012 saberemos a resposta do enigma."
2) A grande obra de Sagan, na verdade é "Cosmos". Mas "O mundo assombrado pelos demônios" me parece mais relevante do ponto de vista filosófico.
3) O que precisa fazer pra ser filósofo? Basta o diploma?
4) Nicolelis é palmeirense fanático, a ponto de ter proferido seu seminário na academia sueca (como indicado ao prêmio Nobel), vestindo a camisa do Palmeiras, com patrocinadores e tudo, só porque o dia em questão era a "onda verde", um dia em que os palmeirenses saem de casa vestindo as cores do clube.
5) Desse post acho que ainda vale escrever algo específico sobre Hitchens, além de um outro sobre o livro do Nicolelis. Veremos.
domingo, 5 de junho de 2011
FHC, um presidente muito louco!
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Vamos embasar a discussão com cinco teses:
- A guerra contra as drogas foi perdida. O uso de drogas ocorre desde os primórdios da humanidade, e até mesmo entre animais um exemplo curioso disso pode ser visto aqui;
- O uso de drogas é problema de saúde pública, não de polícia. O abuso dessas substâncias pode levar a problemas de saúde - físicos e psiquiátricos. Esses usuários devem ser tratados, não presos;
- A proibição das drogas só beneficia os traficantes. A proibição faz de seu comércio um crime e do traficante um empresári com domínio total sobre uma indústria que movimenta bilhões de dólares e leva a outros crimes. Além disso, coloca o usuário em contato com criminosos.
- A proibição das drogas não inibe o seu consumo. Meio óbvio, uma vez que as pessoas usam drogas;
- Campanhas publicitárias e políticas públicas direcionadas podem reduzir o consumo de drogas. O melhor exemplo disso é a diminuição do consumo de tabaco - droga lícita.
Pois bem. FHC agora diz tudo isso em mais um pouco no documentário "Quebrando o tabu", do meio-irmão do Luciano Huck:
Bem, nada contra, aliás, acho ótimo que uma pessoa da relevância do nosso intelectual ex-presidente participe desse debate. Agora, não é estranho que FHC assuma essa postura agora?
Eu não cobraria dele que tivesse feito alguma coisa durante o seu mandato, uma vez que no Brasil os fins eleitorais aliados à covardia da nossa classe política impeçam mudanças desse tipo...o exemplo mais recente é o atraso na discussão do aborto provocado pela campanha de José Serra, mas isso são outros quinhentos...agora, voltemos a analisar a posição de FHC:
O ex-presidente diz que faz parte do grupo de "fumou, mas não tragou". E que a única droga que experimentou foi lança.
Sinceramente, eu acredito nele.
Agora, ao ser questionado sobre o porque de sua inação sobre o tema em sua presidência, a resposta me parece menos honesta: afirma que na época não tinha a mesma consciência sobre o tema - justificativa que aparece no trailer - aliás, não é estranho que Clinton e Dreifuss apareçam falando sobre o problema e FHC se justificando?
Ora, presidente...
É possível acreditar que FHC, o intelectual de Sorbonne tivesse opiniões formadas sobre tudo à época de seu governo mas não sobre a gravidade do problema do uso de drogas, especialmente tendo sido presidente durante a implantação do Plano Colômbia? Pergunto pelo seguinte: as cinco premissas apresentadas no início desse post não são novidade alguma. Desde quando se defende a legalização da maconha? Desde quando a Holanda permite o uso em Coffe Shops? Desde quando existem alunos de ciências humanas?
Finalmente: FHC não é um intelectual qualquer. É um intelectual uspiano. E não um uspiano qualquer: é um uspiano da FFLCH, o habitat natural do bicho-grilo.
Como foi colocado anteriormente, acredito que FHC nunca tenha experimentado maconha...nem todo mundo o fez. Agora, na condição de sociólogo, estudante e depois professor da USP, na FFLCH, creio ser impossível que ele não tenha tido contato com usuários de maconha e com a discussão da legalização. Logo...
Não pode ser verdade que durante sua presidência FHC não tivesse consciência das posições que adota agora.
Isso nos leva a uma questão: se FHC está assumindo uma postura corajosa, ao defender a descriminalização e regulamentação das drogas, porque não escolher uma resposta do seguinte tipo:
"No período de minha presidência, havia uma pressão muito forte do EUA pela repressão contra as drogas, culminando no plano Colômbia. O Brasil não estava em condições de se colocar contra essa política."
Vejo duas possibilidades:
1) Não cairia bem para FHC, afirmar que o Brasil não poderia bater de frente com os EUA nos fóruns internacionais num debate global sobre a política de repressão às drogas.
- na minha opinião, essa possibilidade é meio boba: de fato o Brasil não costumava peitar os EUA, mas ninguém jamais se envergonhou disso...o problema talvez seja a comparação com o governo de seu sucessor não-intelectual, seu sucesso junto à opinião pública e esquecimento dos avanços de seu governo.
2) FHC faz parte de um grupo chamado "The Elders", algo como "Os Anciãos". Trata-se de um grupo de lideranças globais, todos membros da inteligentsia global - coisa certamente inalcançável para Lula, logo, porto-seguro para FHC. Entre os Anciãos (são apenas 11!!), estão Nelson Mandela, Jimmy Carter, Desdmond Tutu e Kofi Annan. O grupo tem uma clara inclinação liberal, e vários deles aparecem no documentário do filho do Mário de Andrade. Talvez ficasse mal se postar contra um posicionamento liberal do grupo...mas certamente não foi isso: melhor que agir passivamente, não se postando contra, que tal liderar os anciãos numa cruzada pró-maconha? Isso garantiria a FHC novamente o status de liderança global em um tema de grande relevância.
Bom, é isso. Certamente assistirei o documentário recordista de captação de recursos da Lei Rouanet, provavelmente concordarei com a discussão e tudo mais...mas é meio esquisito. Mas legal, valeu Fernandos!
sexta-feira, 20 de maio de 2011
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
José Serra é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno!
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Que José Serra é mau-caráter, não é novidade pra ninguém. Conta o meu pai, contemporâneo dessa figura em sua época de DCE que, Serra já se utilizava de expedientes escusos para conseguir o que queria: quando havia a necessidade de votações nas quais a posição de Serra era minoritária, a estratégia era discursar longamente, até que o quórum diminuísse e a votação estivesse garantida.
Que José Serra trouxe o nível da campanha presidencial ao chão, já não se discute. Aliou-se com os setores mais conservadores da sociedade, da TFP, Opus Dei ao que resta da ARENA nesse país. A simulação da bolinha de papel e a tentativa de enganar o povo ao misturar o modelo de concessões do pré-sal com o modelo do petróleo anterior são preciosidades da coleção de baixarias da campanha tucana. Sobre isso já escrevi neste espaço.
Só que eu eu jamais, jamais imaginei que Serra pudesse tomar uma atitude tão antidemocrática quanto a que assumiu em seu “discurso de ‘aceitação’ da derrota”.
Dilma Rousseff foi declarada vencedora do pleito às 20:14, pouco mais de uma hora depois do término da votação (lembrando que o Acre tem duas horas de atraso). Se a minha memória não estiver extremamente comprometida, é de praxe que o telefonema de congratulações seja feito logo depois desse anúncio do TSE. Não se falou nisso. Em eleições presidenciais, normalmente o candidato derrotado faz o discurso oficial de admissão de derrota e cumprimentos ao vencedor de seu QG eleitoral, sempre ANTES do discurso do candidato eleito...é mais que uma simples regrinha de etiqueta, faz parte do respeito à democracia.
Dilma esperou, esperou, esperou…quase duas horas depois do anúncio oficial, e nada do Serra! Dilma inicia seu primeiro discurso à nação, como presidente eleita, precisamente as 22 horas, sem que houvesse qualquer declaração do candidato derrotado. O discurso de Dilma se encerrou as 22:25.
Serra inicia sua fala quinze minutos depois de encerrado o discurso de Dilma, às 22:39. Pronunciou exatas 720 palavras durante 10 minutos e 7 segundos; dessas, dedicou 36 palavras e 26 segundos para reconhecer sua derrota e cumprimentar Dilma Rousseff.
“No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humilde a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país.”
Depois disso, cumprimentou seus eleitores, agradeceu seus companheiros de campanha (sem mencionar Aécio ou Índio da Costa), e disse coisas bonitas, a respeito de uma guerra:
“Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.”
O discurso doSerra tá aqui:
Ninguém quer um país sem oposição. Mas naquele momento, ao término de um processo em que Serra dividiu o país, conclamando os setores conservadores da sociedade, o momento era de apoiar a presidente-eleita e trazer de volta a paz a uma população cansada de debate sujo.
José Serra saiu menor da campanha. Depois de tudo isso, e desse discurso de encerramento, creio que Serra esteja acabado para o cenário federal...seu nome agora, é Zé Pequeno.
Só pra lembrar do que se trata o respeito democrático, John McCain fez um belíssimo discurso quando perdeu as eleições para Obama. Infelizmente não encontrei legendado, mas conto pra vocês como foi. McCain falou por cerca de 10 minutos. Agradeceu os votos que teve e abriu dizendo que "o povo falou, e falou com clareza". Disse que ligou para Obama, controlou por diversas vezes as vaias de seus correligionários, e passou a falar sobre o adversário. Elogiou a capacidade de Obama de transmitir e instilar nos americanos uma mensagem de esperança. Falou longamente sobre o fato histórico de terem eleito um descendente de negros. Falou do passado escravista do país. Ofereceu sua ajuda a Obama. O video tá aqui...quem não viu e entende inglês, vale a pena.
É assim que se faz. McCain foi muito grande nesse discurso. Serra, muito pequeno. Infinitamente pequeno pra quem deseja ser presidente de um país diverso como o nosso.
Não acredito que o PSDB volte a patrocinar Zé Pequeno em 2014, quando Aécio estará no meio de um mandato de 8 anos no senado. Não acredito que Serra se candidate em 2018, quando terá 76 anos. Não acredito que se candidate ao governo de São Paulo, uma vez que a prioridade será a reeleição de Alckmin. Restará a Zé Pequeno a prefeitura de São Paulo ou a disputa pelo senado, na qual enfrentaria Suplicy, que ocupa a vaga desde 1991.
P.S. Não se falou muito sobre a demora de Zé Pequeno em discursar ou sobre o teor de suas palavras, exceto por um professor de história desavisado que comentava na Globonews naquele momento. Fiquei pensando no que poderia ter atrasado tanto o Zé, e descobri que ele mora em casa não declarada ao TSE, localizada à rua Antônio de Gouveia Giudice, 775, em Alto de Pinheiros. O QG tucano fica no edifício Joelma (tinha que ser!). Esse trajeto, segundo o Google Maps, levaria cerca de 20 minutos. Domingo à noite certamente não passaria muito disso.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
bolsa-família e a hipocrisia do discurso da elite
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Das previsões políticas que a gente faz:
Eu achava, desde o princípio da discussão da candidatura do governo, que essa seria uma campanha vencedora, à despeito das primeiras pesquisas que mostravam Dilma muito atrás de Serra. Tinha plena consciência de que uma vez iniciada a campanha, o Lula seria capaz de transferir um grande contingente de eleitores, o que de fato aconteceu.
Eu achava, desde o princípio da discussão da candidatura do governo, que essa seria uma campanha vencedora, à despeito das primeiras pesquisas que mostravam Dilma muito atrás de Serra. Tinha plena consciência de que uma vez iniciada a campanha, o Lula seria capaz de transferir um grande contingente de eleitores, o que de fato aconteceu.
Mas uma outra previsão minha se mostrou errada: o que eu conhecia de Dilma, de sua postura firme, impossibilitava ataques baixos como aqueles que o Lula costumava sofrer em suas campanhas. Não seria possível acusar Dilma de ser analfabeta, de falar errado, de desconhecer os números do país, de propor mudanças malucas na economia. Mas não considerei a capacidade de José Serra de derrubar ao chão o nível da campanha e dos debates. O jogo sujo e as campanhas controladas na rédea curta pelos marqueteiros impossibilitaram que Dilma se mostrasse como uma mulher que entende muito da realidade do nosso país. Pra quem nunca viu a Dilma falando com calma, e sem os freios impostos pela publicidade eleitoral, sugiro que vejam essa entrevista (só incluí aqui a primeira parte de seis):
O que aconteceu, todo mundo viu: a campanha tucana começou com os ataques à quebra de sigilo de pessoas ligadas ao Serra - que depois de verificou ser fruto de disputa interna do PSDB.
Seguiu com a utilização do tema aborto, na minha opinião, o maior desserviço da campanha tucana nessa campanha, porque obrigou a Dilma a assumir compromissos com os setores mais conservadores da sociedade brasileira. O tema só saiu de pauta depois da acusação de ex-alunas de Mônica Serra, que relataram que esta teria confessado ter feito um aborto nos EUA.
Na última semana, um tema voltou à tona: a vagabundagem daqueles que recebem o bolsa-família.
O caso relatado por Maria Rita Kehl, no artigo que resultou em sua demissão do Estado de São Paulo, não é novidade pra mim. A jornalista relata o seguinte:
Coincidência ou não, eu ouvi o mesmo caso em Fortaleza. Contado por duas pessoas diferentes, que alegam ter passado pela experiência desagradável de ter suas generosas ofertas de trabalho recusadas por trabalhadores, que abriam mão dos melhores salários para continuar a receber o benefício do bolsa-família. Em uma das histórias, a pessoa recusou a oferta de cara (porque teria ido procurar emprego então)?. No outro caso, a pessoa só recusou depois de saber que o empregador pretendia registrá-la.
Isso, pra mim, simplesmente não tem a menor lógica. Fui me informar direito sobre o funcionamento do bolsa-família, e os fatos são os seguintes:
Famílias com renda de até R$70,00/pessoa, podem receber valores que variam entre R$68,00 a R$200,00 - o valor máximo só é pago para famílias com pelo menos 5 filhos - 3 na faixa etária de até 15 anos e 2 entre 16 e 17 anos. No caso dessas famílias, com renda per capita inferior a R$70,00, o benefício é pago mesmo que não tenham filhos nessas faixas etárias.
Para famílias com renda entre R$70,00 e R$140,00, não existe a possibilidade de receber o benefício sem crianças em idade escolar, e os valores pagos variam entre R$22,00 (1 filho de até 15 anos na escola) a R$132,00 (5 filhos).
As tabelas com os valores pagos e condições impostas, podem ser encontradas aqui.
Vamos raciocinar um pouco: se a pessoa sai de casa para procurar emprego, supõe-se que ela queira trabalhar. Digamos que essa pessoa faça parte de uma família cuja renda não supere os R$70,00/pessoa, e que o benefício recebido seja o máximo: pai, mãe, três filhos entre 0 e 15 anos dois entre 16 e 17. São 7 pessoas com renda inferior a R$490,00 - menos que 1 salário mínimo - R$510,00.
É legítimo que uma pessoa numa situação dessas recuse um emprego que pague R$510,00 para uma jornada de 44 horas/semana. Não há dignidade e, de fato, é melhor que essa pessoa fique em casa cuidando de seus filhos. Mas digamos que o salário oferecido seja maior que esse. Nos dois casos que me foram relatados, ofereciam R$700,00 e R$900,00.
Com R$900,00, a renda per capita da família passa a ser de R$128,57/pessoa, o que ainda qualifica a família a receber um benefício de R$132,00. Faz sentido alguém abrir mão de uma renda familiar de R$1.032,00 para continuar recebendo R$200,00 do governo???
Todas as vezes que questionei meus interlocutores a respeito da falta de lógica dessa situação, recebi respostas do tipo "é que esse povo fica acomodado com isso" ou "são burros, não fazem esse raciocínio". São, invariavelmente argumentos preconceituosos, pronunciados em tom de extremo desdém e denotam, na minha opinião, um profundo desrespeito à familias humildes que passam fome.
Penso, honestamente, que pra quem já fazia parte da classe média antes de Lula, o valor que o governo gastou no bolsa-família não faz a menor diferença. Foram destinados ao bolsa-família, entre 2003 e 2010, R$60,2 bilhões de reais, ou R$7,5 bilhões/ano, o que equivale a 0,23% do PIB de 2009 (R$3.143 bilhões). Esse "pequeno investimento", significou um acréscimo de 47% na renda das cerca de 50 milhões de pessoas atendidas em todos os municípios brasileiros, cerca de 26% de toda a população. As informações estão aqui.
O bolsa-família é um programa de carácter emergencial, e na minha avaliação, tem dois objetivos: evitar que milhões passem fome (coisa muito abstrata para as elites, muito concreta para quem vive assim), e colocar a opção de manter as crianças na escola como escolha melhor que mandar os filhos para a rua, vender balas. Esse programa não é, de forma alguma, responsável pela elevação dos milhões de brasileiros que ascenderam à classe média. Isso é fruto da política de reajustes constantes no salário mínimo e do crescimento econômico que gerou 15 milhões de emprego nos últimos 8 anos.
Falar contra o bolsa-família é perverso. Acusar os famintos deste país - colocados nessa condição por conta de 500 anos de dominio das elites brasileiras e ausência de políticas sociais - de vagabundagem é maldade, falta de sensibilidade. E alegar "que a burrice do povão" os leva a recusar melhores condições de vida, especialmente daqueles que estão procurando emprego, é um insulto à inteligência de qualquer cidadão - estamos falando de pessoas, e mesmo ratos são capazes de apertar os botões que lhes retribuam com a melhor recompensa.
De qualquer forma, esse dicurso não me impressiona. A mesma estratégia foi adotada na ocasião em que derrubaram a CPMF. As mesmas elites que falam contra o bolsa-família, foram responsáveis pelo entendimento, de grande parte da classe média do Brasil, de que os 0,38% pagos sobre as movimentações financeiras representavam alguma coisa relevante nos bolsos da população. Uma pessoa que movimentasse R$5 mil/mês (quantas pessoas movimentam isso no Brasil?), pagaria R$17,00/mês. Em nome do fim desse "abuso", a saúde do país perdeu R$40 bilhões/ano - ou 5,5 vezes mais o que se investe no bolsa-família.
Triste.
"Uma dessas correntes (de e-mail) chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família."
Coincidência ou não, eu ouvi o mesmo caso em Fortaleza. Contado por duas pessoas diferentes, que alegam ter passado pela experiência desagradável de ter suas generosas ofertas de trabalho recusadas por trabalhadores, que abriam mão dos melhores salários para continuar a receber o benefício do bolsa-família. Em uma das histórias, a pessoa recusou a oferta de cara (porque teria ido procurar emprego então)?. No outro caso, a pessoa só recusou depois de saber que o empregador pretendia registrá-la.
Isso, pra mim, simplesmente não tem a menor lógica. Fui me informar direito sobre o funcionamento do bolsa-família, e os fatos são os seguintes:
Famílias com renda de até R$70,00/pessoa, podem receber valores que variam entre R$68,00 a R$200,00 - o valor máximo só é pago para famílias com pelo menos 5 filhos - 3 na faixa etária de até 15 anos e 2 entre 16 e 17 anos. No caso dessas famílias, com renda per capita inferior a R$70,00, o benefício é pago mesmo que não tenham filhos nessas faixas etárias.
Para famílias com renda entre R$70,00 e R$140,00, não existe a possibilidade de receber o benefício sem crianças em idade escolar, e os valores pagos variam entre R$22,00 (1 filho de até 15 anos na escola) a R$132,00 (5 filhos).
As tabelas com os valores pagos e condições impostas, podem ser encontradas aqui.
Vamos raciocinar um pouco: se a pessoa sai de casa para procurar emprego, supõe-se que ela queira trabalhar. Digamos que essa pessoa faça parte de uma família cuja renda não supere os R$70,00/pessoa, e que o benefício recebido seja o máximo: pai, mãe, três filhos entre 0 e 15 anos dois entre 16 e 17. São 7 pessoas com renda inferior a R$490,00 - menos que 1 salário mínimo - R$510,00.
É legítimo que uma pessoa numa situação dessas recuse um emprego que pague R$510,00 para uma jornada de 44 horas/semana. Não há dignidade e, de fato, é melhor que essa pessoa fique em casa cuidando de seus filhos. Mas digamos que o salário oferecido seja maior que esse. Nos dois casos que me foram relatados, ofereciam R$700,00 e R$900,00.
Com R$900,00, a renda per capita da família passa a ser de R$128,57/pessoa, o que ainda qualifica a família a receber um benefício de R$132,00. Faz sentido alguém abrir mão de uma renda familiar de R$1.032,00 para continuar recebendo R$200,00 do governo???
Todas as vezes que questionei meus interlocutores a respeito da falta de lógica dessa situação, recebi respostas do tipo "é que esse povo fica acomodado com isso" ou "são burros, não fazem esse raciocínio". São, invariavelmente argumentos preconceituosos, pronunciados em tom de extremo desdém e denotam, na minha opinião, um profundo desrespeito à familias humildes que passam fome.
Penso, honestamente, que pra quem já fazia parte da classe média antes de Lula, o valor que o governo gastou no bolsa-família não faz a menor diferença. Foram destinados ao bolsa-família, entre 2003 e 2010, R$60,2 bilhões de reais, ou R$7,5 bilhões/ano, o que equivale a 0,23% do PIB de 2009 (R$3.143 bilhões). Esse "pequeno investimento", significou um acréscimo de 47% na renda das cerca de 50 milhões de pessoas atendidas em todos os municípios brasileiros, cerca de 26% de toda a população. As informações estão aqui.
O bolsa-família é um programa de carácter emergencial, e na minha avaliação, tem dois objetivos: evitar que milhões passem fome (coisa muito abstrata para as elites, muito concreta para quem vive assim), e colocar a opção de manter as crianças na escola como escolha melhor que mandar os filhos para a rua, vender balas. Esse programa não é, de forma alguma, responsável pela elevação dos milhões de brasileiros que ascenderam à classe média. Isso é fruto da política de reajustes constantes no salário mínimo e do crescimento econômico que gerou 15 milhões de emprego nos últimos 8 anos.
Falar contra o bolsa-família é perverso. Acusar os famintos deste país - colocados nessa condição por conta de 500 anos de dominio das elites brasileiras e ausência de políticas sociais - de vagabundagem é maldade, falta de sensibilidade. E alegar "que a burrice do povão" os leva a recusar melhores condições de vida, especialmente daqueles que estão procurando emprego, é um insulto à inteligência de qualquer cidadão - estamos falando de pessoas, e mesmo ratos são capazes de apertar os botões que lhes retribuam com a melhor recompensa.
De qualquer forma, esse dicurso não me impressiona. A mesma estratégia foi adotada na ocasião em que derrubaram a CPMF. As mesmas elites que falam contra o bolsa-família, foram responsáveis pelo entendimento, de grande parte da classe média do Brasil, de que os 0,38% pagos sobre as movimentações financeiras representavam alguma coisa relevante nos bolsos da população. Uma pessoa que movimentasse R$5 mil/mês (quantas pessoas movimentam isso no Brasil?), pagaria R$17,00/mês. Em nome do fim desse "abuso", a saúde do país perdeu R$40 bilhões/ano - ou 5,5 vezes mais o que se investe no bolsa-família.
Triste.
domingo, 24 de outubro de 2010
Cool guys don't look at explosions
Postado por
Gabriel G;
Em tempos estressados de eleição: pra descontrair...
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Momento materialista e dialético (5): Tragédia e farsa
Postado por
Gabriel G;
Infelizmente, apreciar esse vídeo exige que a pessoa entenda bem inglês, pois não há legendas. Se esse for o seu caso, digo: é absolutamente genial. Os desenhos são ótimos, a fala de Slavoj Zizek para a RSA (Royal Society for the encouragement of Arts) é ótima, a comunicabilidade e clareza conseguida pela sobreposição das duas coisas nessa "semi-animação" é fantástica.
http://www.youtube.com/watch?v=hpAMbpQ8J7g&feature=player_embedded
Imagino que pessoas que também sintam um cheiro de cinismo na atual onipresença duma ideologia "ecologicamente correta" vão exultar...
O mais legal: a RSA produz na verdade uma série dessas "animações" em cima de palestras, a RSA Animated. Tem outras bem legais.
http://www.youtube.com/watch?v=hpAMbpQ8J7g&feature=player_embedded
Imagino que pessoas que também sintam um cheiro de cinismo na atual onipresença duma ideologia "ecologicamente correta" vão exultar...
O mais legal: a RSA produz na verdade uma série dessas "animações" em cima de palestras, a RSA Animated. Tem outras bem legais.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Plantão médico - homeopatia
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Mais uma comédia britânica, essa descoberta através de uma dica da Grace.
Pra quem não sabe como a homeopatia funciona, ou melhor, como a homeopatia pensa a medicina, vale a pena assistir essa palestra de pouco mais de 17 minutos de James Randi, o mágico debunker que oferece o prêmio de 1 milhão de dólares para qualquer pessoa que provar um fenômeno paranormal - ninguém jamais levou, claro. Esse vídeo é um TED, tem legenda em português, é só clicar no botão "view subtitles" e escolher o idioma.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
O homem mais lindo do mundo
Postado por
Gabriel G;
Eu quis encontrar em português ou em inglês (que é o original). Só rolou espanhol mesmo.
Se você nunca assistiu The Marvelous Misadventures of Flapjack, eu recomendo.
ATUALIZAÇÃO -- 07/03/2011
O vídeo aí de cima dançou. Felizmente, o augustoldesser me passou o link do desenho inteiro em português, e ele segue incorporado abaixo. Pra ver a parte referida aqui, pule pra 7:50. Mas recomendo assistir tudo.
Se você nunca assistiu The Marvelous Misadventures of Flapjack, eu recomendo.
ATUALIZAÇÃO -- 07/03/2011
O vídeo aí de cima dançou. Felizmente, o augustoldesser me passou o link do desenho inteiro em português, e ele segue incorporado abaixo. Pra ver a parte referida aqui, pule pra 7:50. Mas recomendo assistir tudo.
domingo, 4 de julho de 2010
ofensa gratuita
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Para que a minha afirmação de que a nata do jornalismo nacional se concentra nas redações esportivas não ficasse sem respaldo, a Globo, através do canal Sportv colocou no ar uma das matérias mais absurdas de que se tem notícia.
A reportagem fala sobre a participação paraguai na Copa, muito digna, diga-se de passagem. A princípio, as piadas com o Paraguai comçaram com a promessa da modelo Larissa Riquelme de fazer um strip-tease em mcaso de classiicação para as semifinais do mundial - o que, ao contrário da promessa de Maradona, certamente aumentou o contigente de torcedores do selecionado guarani.
Larissa Riquelme, à esquerda, torcendo por sua seleção em Assunção
Bom, até aí vá lá...a promessa da modelo obviamente chama a atenção, seria natural que a imprensa veiculasse e explorasse a situação.
O problema, é que, durante a reportagem, segue um festival de ironias e piadas que ridicularizam a cultura paraguaia: paisagens, cidades, gastronomia, moeda nacional, música...coisa de muito mal gosto mesmo, lamentável. O vídeo tá aqui embaixo:
Exceção talvez feita aos programas humorísticos, pra mim é realmente difícil entender que um repórter viaje a um país para fazer uma matéria dessas...não que seja proibido, mas o cara pegou pesado e nem é engraçado - aliás, o jornalismo esportivo está numa fase em que há muitos repórteres engraçadinhos. Mais difícil ainda é lembrar que certamente existe alguém na Globo responsável por verificar se tal coisa poderia ou não ir ao ar. Os gênios responsáveis por tal estupidez certamente acreditam que se tratava de uma piadinha inocente, incapaz de ferir o orgulho de um povo justamente em um período em que os "orgulhos nacionais" estão tão em alta, depois da melhor campanha da história do Paraguai.
Hoje, o principal jornal do país publicou nota em repúdio à reportagem da Sportv, que deveria, no mínimo, pedir desculpas públicas. Pra quem quiser ler a nota do La Nación, o link está aqui.
E pra quem ficou triste com a desclassificação paraguaia antes das semis, Larissa prometeu que fará o Strip mesmo assim, como "consolo" aos jogadores que de fato foram muito esforçados.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Infomania
Postado por
Gabriel G;
Este é um programa americano que assisti na semana passada e que achei muito, muito engraçado. Ele basicamente comenta a mídia, o que aparece na mídia, mas com um humor bem afiado e interessante.
Eu já conhecia e gostava de um dos blocos dele -- o ótimo "Target: women", onde a comediante Sarah Haskins tira sarro dos estereótipos machistas presentes em propagandas de produtos femininos (conheci através do "falecido" Blog da Marjorie). Com exceção de uns poucos momentos, o programa inteiro vale muito a pena assistir.
Por coincidência, o primeiro e único episódio que assisti até agora foi justamente um feito na época da morte de Michael Jackson. Por isso, resolvi colocá-lo aqui como parte do "memorial" jacksoniando...
(Prestem atenção na parte em que mostram como o pai de Jackson usa o breve momento sob os holofotes ocasionado pela morte do filho para... fazer propaganda de sua gravadora. É constrangedor.)
Eu já conhecia e gostava de um dos blocos dele -- o ótimo "Target: women", onde a comediante Sarah Haskins tira sarro dos estereótipos machistas presentes em propagandas de produtos femininos (conheci através do "falecido" Blog da Marjorie). Com exceção de uns poucos momentos, o programa inteiro vale muito a pena assistir.
Por coincidência, o primeiro e único episódio que assisti até agora foi justamente um feito na época da morte de Michael Jackson. Por isso, resolvi colocá-lo aqui como parte do "memorial" jacksoniando...
(Prestem atenção na parte em que mostram como o pai de Jackson usa o breve momento sob os holofotes ocasionado pela morte do filho para... fazer propaganda de sua gravadora. É constrangedor.)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
"Consumidores de Informação"
Postado por
Gabriel G;
Semanas atrás, fui num sarau aqui no Rio -- um dos sarais promovidos pela comunidade do Luís Nassif.
Foi uma experiência muito interessante, conversei muito algumas pessoas antes desconhecidas -- por acaso, todas muito mais velhas que eu -- e todos eram muito animados e até deslumbrados com as possibilidades de debate e difusão de informações na internet, bem como extremamente críticos da grande imprensa brasileira.
Nassif era, sem exagero, um verdadeiro herói para vários dos presentes lá (o que me deixa um pouco desconfortável às vezes, mas isso é assunto pra outro post).
Consenso Frio e os consumidores de Informação
por Gabriel Girnos
Nassif,
Infelizmente pra mim, acho que esse discurso falacioso tem um alcance muito maior do que o que você dá a entender.
Tem uma coisa que eu ando chamando de "consenso frio".É um consenso mais ou menos inconsciente, que toma aspectos de senso comum e que pode ser mudado facilmente, porque é sobre aquelas questões que as pessoas sabem pouco -- como por exemplo, política externa. Porém, assim como pode ser mudado facilmente, esse consenso frio pode ser mantido facilmente, bastando a repetição da mesma lenga-lenga todo santo dia.
Exite uma classe especialmente suscetível a esse consenso: a classe dos consumidores de informação, aqueles que (para si mesmos) se distinguem do "povão" por ler jornais e estarem "informados", mas que ao mesmo tempo não chegam a ser críticos e analíticos a respeito do que estão lendo. É dessa classe informada, bem mais ampla do que apenas uma extrema direita encarnecida, que surge o grande número de pessoas dispostas a acreditar em tudo de ruim que se fala sobre um "ignorante" como o Lula, ou sobre os "radicais" da Bolívia. É para essa classe que a Veja fala, e infelizmente eu acho que ainda surte bastante efeito.
Digo isto como professor universitário: estou cansado de ver como tudo que aparece na grande imprensa repercute nas falas coloquiais de meus colegas, pessoas que fazem parte das parcelas mais instruídas da população e não se vêem absolutamente como "de direita".
Acho que nunca fui tão lido na minha vida. Fiquei feliz da vida de ver bastante gente concordando, comentando, discutindo. Anunciei no Twitter e etc.
Enjoy:
- Jotavê, eu concordo plenamente com você. Já cansei de ver também preconceitos e falácias repetidas entre pessoas de esquerda às quais me sentiria, a princípio, mais próximo. A questão é mais de atitude que de conteúdo. Digo mais: quando eu falo de "consumidores de informação" eu incluo a todos nós internautas e comentaristas também. Todo "produtor" de informação é também um "consumidor".
Acho que esse um dos pontos principais do problema é o uso do conhecimento como "distinção" -- como instrumento para se sobressair perante outras pessoas. Digo isso porque se trata de um vício ao qual TODAS as pessoas instruídas estão suscetíveis. A "nossa" tentação aqui, por exemplo, seria a de, subrepticiamente, nos julgarmos o máximo perto dos "simples e alienados consumidores de informação", e aí começarmos a incorrer em auto-elogios.
Foi uma experiência muito interessante, conversei muito algumas pessoas antes desconhecidas -- por acaso, todas muito mais velhas que eu -- e todos eram muito animados e até deslumbrados com as possibilidades de debate e difusão de informações na internet, bem como extremamente críticos da grande imprensa brasileira.
Nassif era, sem exagero, um verdadeiro herói para vários dos presentes lá (o que me deixa um pouco desconfortável às vezes, mas isso é assunto pra outro post).
Eu já acompanho há uns anos o blog do Nassif. Nunca tinha me filiado, apenas comentava muito esporadicamente alguns posts. Mas vi a gradativa onda gigantesca de pessoas se somando a ele, tonando-o um espaço de direcionamento cada vez mais coletivo. (e que, por exclusão em relação à grande imprensa, cada vez mais diretamente pró-Lula, o que é assunto para aquele outro post)
Pra quem não sabe, o Nassif publica textos e comentários dos freqüentadores do seu site e dos ligados à sua comunidade, quando estes lhe parecem pertinentes. Eu falei isso pra alguém lá no Sarau e concordaram comigo: Nassif é hoje um editor de jornal virtual. Um jornal que, por sua vez, não é uma empresa, mais uma montagem de livres contribuições e debates coletivos.
Mas bem. Indo ao assunto mais específico. Um ou dois dias depois do Sarau, Nassif escreveu um post sobre a contínua guinada à direita do discurso da grande imprensa e a apelação na discussão de política externa, se valendo da retórica "neo-con" (um assunto antigo do Nassif), e dizendo que era um lento suicídio, que os exageros a que eles chegavam eram algo que só tinha repercussão "na extrema direita e nas viúvas de Sierra Maestra". Eu fiz um comentário ao post; nada muito elaborado ou longo, e não possuía título algum.
Mas bem. Indo ao assunto mais específico. Um ou dois dias depois do Sarau, Nassif escreveu um post sobre a contínua guinada à direita do discurso da grande imprensa e a apelação na discussão de política externa, se valendo da retórica "neo-con" (um assunto antigo do Nassif), e dizendo que era um lento suicídio, que os exageros a que eles chegavam eram algo que só tinha repercussão "na extrema direita e nas viúvas de Sierra Maestra". Eu fiz um comentário ao post; nada muito elaborado ou longo, e não possuía título algum.
E, pra minha surpresa, pela primeira vez um comentário meu foi publicado no blog. (eu só fiquei sabendo pela Marininha, que me scrapou no facebook). O que saiu no Nassif foi mais ou menos isso:
Consenso Frio e os consumidores de Informação
por Gabriel Girnos
Nassif,
Infelizmente pra mim, acho que esse discurso falacioso tem um alcance muito maior do que o que você dá a entender.
Tem uma coisa que eu ando chamando de "consenso frio".É um consenso mais ou menos inconsciente, que toma aspectos de senso comum e que pode ser mudado facilmente, porque é sobre aquelas questões que as pessoas sabem pouco -- como por exemplo, política externa. Porém, assim como pode ser mudado facilmente, esse consenso frio pode ser mantido facilmente, bastando a repetição da mesma lenga-lenga todo santo dia.
Exite uma classe especialmente suscetível a esse consenso: a classe dos consumidores de informação, aqueles que (para si mesmos) se distinguem do "povão" por ler jornais e estarem "informados", mas que ao mesmo tempo não chegam a ser críticos e analíticos a respeito do que estão lendo. É dessa classe informada, bem mais ampla do que apenas uma extrema direita encarnecida, que surge o grande número de pessoas dispostas a acreditar em tudo de ruim que se fala sobre um "ignorante" como o Lula, ou sobre os "radicais" da Bolívia. É para essa classe que a Veja fala, e infelizmente eu acho que ainda surte bastante efeito.
Digo isto como professor universitário: estou cansado de ver como tudo que aparece na grande imprensa repercute nas falas coloquiais de meus colegas, pessoas que fazem parte das parcelas mais instruídas da população e não se vêem absolutamente como "de direita".
Acho que nunca fui tão lido na minha vida. Fiquei feliz da vida de ver bastante gente concordando, comentando, discutindo. Anunciei no Twitter e etc.
Repito: eu não era filiado à comunidade. Pode ser que a minha presença lá no Sarau tenha feito com que achassem que eu era um participante constante (há muitos), e portanto alguém "publicável" lá... talvez. Não sei. Mas coincidência ou não, foi logo após aparecer lá que fui publicado.
(ah, pra esclarecer: todos sabiam o nome de todos lá no Sarau, porque foi pedido que usássemos crachás com os nomes "internéticos". A coisa faz sentido, se você pensar que muitos já se conhecem via web mas nunca se viram pessoalmente)
(ah, pra esclarecer: todos sabiam o nome de todos lá no Sarau, porque foi pedido que usássemos crachás com os nomes "internéticos". A coisa faz sentido, se você pensar que muitos já se conhecem via web mas nunca se viram pessoalmente)
Aí, semana passada o site do Nassif se transferiu para outro endereço, mudou o sistema de idexação.... e adivinhem: o post do meu comentário simplesmente desapareceu. Os links que eu coloquei para o post dão todos n'água.
Não sei se alguma hora ele vai reaparecer; mas resolvi colocar aqui alguns links e provas de que esse post (criador de meus "primeiros 15 minutos de fama" na internet) ao menos existiu. Um está neste blog aqui, de um Roberto que eu não conhecia: http://beto-bob.blogspot.com/2010/05/os-consumidores-de-informacao.html
Outro está numa lista de Tweets: http://topsy.com/colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/05/30/o-consenso-frio-e-os-consumidores-de-informacao/
Na esteira da discussão subseqüente ao post no site de Nassif, apareceram algumas questões e apontamentos interessantes. Roberto (do link que coloquei acima) lembrou de uma propaganda escabrosa da Veja que ilustra bem a idéia de "consumidores de informação"... ou, melhor ainda, aquilo que o Marcelo costuma chamar "população semi-educada" do Brasil.
Enjoy:
Pra finalizar.
Outro comentarista, o "Jotavê", ressaltou algo muito importante: o quanto esse comportamento de "consumidor de informação" não de modo algum é exclusividade da "direita", coisa com a qual eu concordei totalmente. Inclusive, a posição de reprodução de idéias prontas e clichezões de esquerda -- na política, na imprensa, na academia e na militância estudantil -- é algo que me incomoda muito o tempo todo, e que me deixa constrangido (o Marcelo sabe muito bem do que falo). Fiz o seguinte comentário em meio à discussão do post:
Outro comentarista, o "Jotavê", ressaltou algo muito importante: o quanto esse comportamento de "consumidor de informação" não de modo algum é exclusividade da "direita", coisa com a qual eu concordei totalmente. Inclusive, a posição de reprodução de idéias prontas e clichezões de esquerda -- na política, na imprensa, na academia e na militância estudantil -- é algo que me incomoda muito o tempo todo, e que me deixa constrangido (o Marcelo sabe muito bem do que falo). Fiz o seguinte comentário em meio à discussão do post:
- Jotavê, eu concordo plenamente com você. Já cansei de ver também preconceitos e falácias repetidas entre pessoas de esquerda às quais me sentiria, a princípio, mais próximo. A questão é mais de atitude que de conteúdo. Digo mais: quando eu falo de "consumidores de informação" eu incluo a todos nós internautas e comentaristas também. Todo "produtor" de informação é também um "consumidor".
Acho que esse um dos pontos principais do problema é o uso do conhecimento como "distinção" -- como instrumento para se sobressair perante outras pessoas. Digo isso porque se trata de um vício ao qual TODAS as pessoas instruídas estão suscetíveis. A "nossa" tentação aqui, por exemplo, seria a de, subrepticiamente, nos julgarmos o máximo perto dos "simples e alienados consumidores de informação", e aí começarmos a incorrer em auto-elogios.
Temos que nos policiar contra esse sentimento (que é tão humano). Cultura e conhecimento não podem se limitar a um smartass contest.
E foi isso. Seria legal de ser "publicado" de novo numa plataforma tão lida, mas não vou contar muito com essa possibilidade.
E foi isso. Seria legal de ser "publicado" de novo numa plataforma tão lida, mas não vou contar muito com essa possibilidade.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Macaquice
Postado por
Gabriel G;
Teasers de um filme que eu ainda quero ver... My Playground, de Kaspar Astrup Schröder, que acompanha dois grupos de Parkour "interagindo" com a arquitetura e o espaço urbano.
Fiquei sabendo desse filme pelo livro Yes is More, que acabei de ler este fim de semana, e que relata as aventuras do escritório de arquitetura BIG (Bjarke Ingels Group), autor de algumas das obras que aparecem nos vídeos. (ainda vou fazer um post sobre esses caras)
Fantástico pra quem aprecia arquitetura e pra quem gosta de lembrar que nós, primatas, fomos feitos pra usar o mundo tridimensionalmente -- ou seja, pra fazer macaquice.
Fiquei sabendo desse filme pelo livro Yes is More, que acabei de ler este fim de semana, e que relata as aventuras do escritório de arquitetura BIG (Bjarke Ingels Group), autor de algumas das obras que aparecem nos vídeos. (ainda vou fazer um post sobre esses caras)
Fantástico pra quem aprecia arquitetura e pra quem gosta de lembrar que nós, primatas, fomos feitos pra usar o mundo tridimensionalmente -- ou seja, pra fazer macaquice.
sábado, 8 de maio de 2010
MOEBIUS
Postado por
Gabriel G;
(por Gabriel)
Hoje completa 72 anos um dos maiores desenhistas fantásticos das histórias em quadrinhos e do cinema Sci-Fi do Século XX... o quadrinhista francês Jean Henri Gaston Giraud , mais conhecido como Moebius.
Moebius foi um artista de amplitude imaginativa e visual incrível. Acima de tudo um criador de mundos.
Entre os seus mundos mais impressionantes, e entre meus favoritos, estão as grandes metrópoles futuristas de suas ficções científicas. No cinema, podemos ver seu trabalho nas magníficas metrópoles e figurinos de Blade Runner e O Quinto Elemento... assim como nas roupas espaciais de Alien ou na estética computadorizada de Tron. Sua influência pode ser vista no design da cidade-planeta de Coruscant em Star Wars e em muitos outras.





A influência que teve no mundo dos quadrinhos de fantasia durante o seu auge beira o incalculável; me arrisco dizer que, durante um certo período, ele pode ter sido O artista gráfico de ficção científica mais influente do mundo. Sua influência pode ser vista entre as muitas referências do Ronin de Frank Miller (imagem aí à direita); nos espaços e cenários mais fantásticos do erótico italiano Milo Manara; em certas coisas dos japoneses Hayao Myiazaki (Nausicaa, eu penso) e Katshiro Otomo (certas facetas da Neo-Tokyo e das máquinas de Akira); em fases jovens de vários artistas brasileiros da geração 70-80, como Mozart Couto; e muitos, muitos outros artistas do mundo todo.
Eu admirei muito Moebius na adolecência. Fiquei alguns anos afastado, quase sem ler mais e, recentemente, voltei a olhá-lo com admiração e prazer ao descobrir seu já bem antigo Tenente Blueberry. Blueberry, que antecedeu a consagração do artista na ficção científica, foi uma respeitada série de faroeste que eu já conhecia mas nunca tinha lido realmente (não tinha o mínimo interesse em faroeste na adolescência) até este ano, quando comprei um da fase tardia -- e mais bem desenhada -- da série. Me impressionei ao ver uma dimensão bela e desconhecida pra mim de um artista que eu já tinha como conhecido: o estilo muda muito, mas ainda assim ele está lá.
A verdade é que, apesar de seu campo de fama e excelência ser a fantasia, Moebius transitou por praticamente todos os gêneros ficcionais -- humor, terror, western, sci-fi, fantasia, super-heróis, erótico, infantil, policial -- sem preconceito e sempre com sua própria abordagem. Aliás, é possível dizer que uma característica comum sua é a mescla dos campos: histórias de fantasia sci-fi que incluem humor desbragado, erotismo e/ou terror, por exemplo.
Em pequenina homenagem, dois videozinhos (mais fácil que escolher e postar uma porrada de imagens...). Este primeiro é um slideshow de um conjunto de obras suas:
Este segundo, mostra o velho mestre em ação... é fantástico ver alguém tão versado e dominador de dezenas de técnicas clássicas e modernas de ilustração, transitar com tanta desenvoltura e naturalidade pela tela virtual.
Mas acho que quem lembrar do design de Moebius para o filme Tron (lá de 1982!!) não vai estranhar tanto isso.
Mais homenagens ao mestre francês:
http://kafekultura.blogspot.com/2009/01/moebius-vises-do-futuro.html
http://zooart-zooblog.blogspot.com/2008/11/quarta-feira-feliz-023.html
http://lambiek.net/artists/g/giraud.htm
Hoje completa 72 anos um dos maiores desenhistas fantásticos das histórias em quadrinhos e do cinema Sci-Fi do Século XX... o quadrinhista francês Jean Henri Gaston Giraud , mais conhecido como Moebius.
Moebius foi um artista de amplitude imaginativa e visual incrível. Acima de tudo um criador de mundos.
Entre os seus mundos mais impressionantes, e entre meus favoritos, estão as grandes metrópoles futuristas de suas ficções científicas. No cinema, podemos ver seu trabalho nas magníficas metrópoles e figurinos de Blade Runner e O Quinto Elemento... assim como nas roupas espaciais de Alien ou na estética computadorizada de Tron. Sua influência pode ser vista no design da cidade-planeta de Coruscant em Star Wars e em muitos outras.



![]() |
| (Ronin, de Frank Miller) |
A influência que teve no mundo dos quadrinhos de fantasia durante o seu auge beira o incalculável; me arrisco dizer que, durante um certo período, ele pode ter sido O artista gráfico de ficção científica mais influente do mundo. Sua influência pode ser vista entre as muitas referências do Ronin de Frank Miller (imagem aí à direita); nos espaços e cenários mais fantásticos do erótico italiano Milo Manara; em certas coisas dos japoneses Hayao Myiazaki (Nausicaa, eu penso) e Katshiro Otomo (certas facetas da Neo-Tokyo e das máquinas de Akira); em fases jovens de vários artistas brasileiros da geração 70-80, como Mozart Couto; e muitos, muitos outros artistas do mundo todo.
Eu admirei muito Moebius na adolecência. Fiquei alguns anos afastado, quase sem ler mais e, recentemente, voltei a olhá-lo com admiração e prazer ao descobrir seu já bem antigo Tenente Blueberry. Blueberry, que antecedeu a consagração do artista na ficção científica, foi uma respeitada série de faroeste que eu já conhecia mas nunca tinha lido realmente (não tinha o mínimo interesse em faroeste na adolescência) até este ano, quando comprei um da fase tardia -- e mais bem desenhada -- da série. Me impressionei ao ver uma dimensão bela e desconhecida pra mim de um artista que eu já tinha como conhecido: o estilo muda muito, mas ainda assim ele está lá.
A verdade é que, apesar de seu campo de fama e excelência ser a fantasia, Moebius transitou por praticamente todos os gêneros ficcionais -- humor, terror, western, sci-fi, fantasia, super-heróis, erótico, infantil, policial -- sem preconceito e sempre com sua própria abordagem. Aliás, é possível dizer que uma característica comum sua é a mescla dos campos: histórias de fantasia sci-fi que incluem humor desbragado, erotismo e/ou terror, por exemplo.
Em pequenina homenagem, dois videozinhos (mais fácil que escolher e postar uma porrada de imagens...). Este primeiro é um slideshow de um conjunto de obras suas:
Este segundo, mostra o velho mestre em ação... é fantástico ver alguém tão versado e dominador de dezenas de técnicas clássicas e modernas de ilustração, transitar com tanta desenvoltura e naturalidade pela tela virtual.
Mas acho que quem lembrar do design de Moebius para o filme Tron (lá de 1982!!) não vai estranhar tanto isso.
Mais homenagens ao mestre francês:
http://kafekultura.blogspot.com/2009/01/moebius-vises-do-futuro.html
http://zooart-zooblog.blogspot.com/2008/11/quarta-feira-feliz-023.html
http://lambiek.net/artists/g/giraud.htm
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