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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Morte e vida Severina

O motivo deste texto é recomendar a leitura de "Morte e vida Severina" e relatar a minha emoção em ver a versão animada, linkada adiante, mas no fundo é pura digressão.

Li a obra prima de João Cabral de Melo Neto na escola, por vontade própria - ou, como tudo, um pouco provocada. Salvo engano foi em 1992, oitava série. A minha turma foi a penúltima a ter aulas de "Organização Social e Política do Brasil" (OSPB). Pra quem nunca ouviu falar nisso, OSPB era uma disciplina que reunia conteúdos de Ciências Sociais e explicava o funcionamento do sistema político, administração pública, um tiquinho de Direito Constitucional.  Mesmo manco, o conteúdo me interessava muito, até porque eu não tinha noção nenhuma do que me faltava de fato, os conteúdos de Filosofia e Sociologia, amputados pelos governos militares.

Eu estudei numa escola particular católica da primeira série ao terceiro colegial, o Colégio Marista de Maringá. Era considerada uma ótima escola, na qual a elite maringaense educava os seus filhos. A maioria dos alunos era composta por filhos de políticos, empresários, grandes fazendeiros e profissionais liberais bem sucedidos. Tinha garoto do primeiro colegial que andava de moto, crianças cujos pais eram donos de aviões teco-teco e um bom número de alunos que praticavam hipismo...só pra ilustrar os "problemas de gente rica" que faziam parte do cotidiano do Marista, teve uma menina que ficou famosa por ter tido o nariz arrancado por uma mordida de cavalo. Eu era um dos poucos filhos de professores. Junto com os filhos de bancários e funcionários públicos, fazia parte de uma  pequena "segunda classe" na escola. Lembro de um negro nos meus 11 anos naquele colégio. 

Naquele tempo não me parecia que os pais do Marista se incomodassem com "doutrinação comunista". Meus professores de história, geografia e OSPB eram, provavelmente, pessoas de esquerda. Lembro de professores que promoveram debates em sala de aula sobre as eleições de 1989  (5a. série). Lembro de uma aluna criticando o comunismo, num desses debates, com um argumento infalível: "então o Roberto Freire devia dar metade das suas coisas pra uma família pobre". O Roberto Freire era o candidato pelo PCB, as pessoas achavam que ele era comunista - era o candidato do então reitor da Universidade Estadual de Maringá, então meu vizinho, que o trouxe pra falar num evento de colação de grau no ginásio esportivo da cidade.

Tive, portanto, algumas dessas professoras de história que praticavam a "doutrinação marxista" através do péssimo hábito de evidenciar as coisas feias do país tropical e explorar as suas raízes. Preciso dizer que essas professoras foi mal sucedidas, em grande parte: até onde tenho notícias, nenhum dos meus colegas se tornou um comunista. É possível e provável que hoje alguns deles pensem o contrário, que "O Marcelo virou comunista, um a mais do que o limite do aceitável".

Voltando ao motivo do texto, eu já entendia, em abstrato, o que significava a seca no Nordeste.  Primeiro porque o semiárido nordestino, a seca, a fome, faziam parte da paisagem cultural brasileira. As gretas de contração (procurem e aprendam), o gado magro ou morto, os retirantes, as crianças magras ocupavam, com uma  triste frequência, parte importante dos noticiários na TV - sinto informar, mas quem nasceu para a política no período pós-Bolsa-família não tem noção da gravidade do problema.

Lembro-me de uma série de livros adotados na disciplina de OSPB chamada "Viagem pela Geografia". Os livros dessa série eram parcerias entre um autor ficcionista e um professor universitário do ramo. Eram pequenos romances que buscavam ilustrar aspectos relevantes do conteúdo didático. Lemos dois desses: "Cuba em perspectiva", de Fernando Portela (jornalista) e José Herculano da Silva e "A seca no Nordeste", parceria de Fernando Portela com o geógrafo Joaquim Correia de Andrade. Imaginem quais seriam as reações dessa elite emebêelizada dos dias de hoje? Enfim, o livro sobre a seca explicava conceitos que eu não conhecia, foi a primeira vez que tive contato com o conceito de "indústria da seca". Certamente uma das primeiras vezes em que eu entendi o funcionamento grosseiro da política como instrumento de perversão. A ideia de que as secas no nordeste eram exploradas por coronéis e políticos para a manutenção de seus "currais eleitorais" me fez compreender, pela primeira vez, que certos políticos preferiam e agiam ativamente para não educar o povo. Preferiam manter a população na ignorância impedindo-a de enxergar suas reais motivações ou não investir em saúde, fazendo do tratamento das enfermidades uma graça concedida  através da devoção às suas figuras, concretizada eleitoralmente.

Em algum momento nessa discussão, não sei se no livro ou no debate de sala de aula, foi citado o poema de João Cabral de Melo Neto. O poema "Morte e vida Severina" foi, para mim, ao mesmo tempo um choque de realidade e abstração. A compreensão do tema me deu uma sede de desvendar as sutilezas da escrita do autor que, no fundo, é direto pacas. Foi capaz de colocar imagens na minha cabeça que me fizeram chorar. Foi arte que transformou, para mim, o flagelo da seca em realidade concreta.

Meu segundo contato com a obra foi também na escola. Novamente numa aula de história, novamente com uma fracassada doutrinadora do comunismo. O filme "Morte e vida Severina", de 1981, apresenta a versão musicada de Chico Buarque, só porque na vida da gente tem desses momentos em que a genialidade pura se manifesta e, se tem algo de que este país não padece, é da falta das artes.


O trecho mais conhecido do poema, talvez por conta da versão do Chico, é quando Severino "Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério":



Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida


É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio



Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida



É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo



É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo



É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada não se abre a boca



É a conta menor que tiraste em vida


É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)



Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca



Descobri agora uma animação do poema, já não tão recente, que merece muito ser vista. É bonita em todos os sentidos: fora a poesia, o desenho é lindo, apresenta uma estética de quadrinhos e uma sensibilidade para retratar a crueza da realidade de "Morte e Vida" que me pôs a escrever.


Morte e Vida Severina é uma obra que deveria fazer parte do repertório de todo brasileiro. Rever esse poema me faz pensar no quão artificial e cruel é a manutenção da pobreza das populações mais frágeis do país. Ou em como um partido como o PMDB - agora sem "pê" - serve não apenas aos interesses do mercado mas, como um partido que funciona como uma confederação de coronéis e caciques regionais, lhe interessa, sistemicamente, o retorno dessa condição que parecia superada: a exploração da fome como instrumento de domínio e controle social.

Aziz Ab´Saber escreveu, em 1999, um texto chamado "Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida", que considero um dos textos mais geográficos, de fato, já produzidos no Brasil. Pra quem se interessar, o link está aqui. Eu recomendo a leitura integral, mas como sei que a primeira parte do texto, que trata da geografia física requer uma certa familiaridade com o jargão da Geomorfologia, sugiro que comecem a leitura pela segunda parte do texto "A última grande seca do século".

Há seis anos, o Nordeste encara mais uma grande seca. Dessa vez, não vimos as imagens das ondas de retirantes chegando aos grandes centros urbanos, do gado morrendo, do drama da fome. Isso se deve, incontestavelmente, aos programas de segurança alimentar, em especial, ao Bolsa-família. Os retrocessos promovidos por Michel Temer e seu governo, em nome da entidade "O Mercado", representado no Planalto pelo PSDB, e dos interesses dos caciques regionais de seu partido, o PMDB, de latifundiários, senhores de engenho do século XXI.

Enfim, a produção artística de um país é certamente um instrumento civilizatório. Artistas são especialistas em ilustrar, comunicando-se com as nossas sensibilidades, a condição humana. Morte e Vida Severina é uma dessas obras que, em minha experiência pessoal, serviu como gatilho para conectar um conhecimento formal, que já existia em mim, com a importância de tê-lo e, mais importante, de sensibilizar-me para com a realidade descrita.


"a realidade é tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta."

"Uma faca só lâmina", João Cabral de Melo Neto

domingo, 7 de novembro de 2010

Tea Party, xenofobia sul/sudestina e a divisão brasileira entre azuis e vermelhos

Comecei esse post pensando em falar apenas do Tea Party e traçar um paralelo com a situação que vemos hoje no Brasil, com as reações anti-nordestinas que se iniciaram com a vitória de Dilma.  Acabei misturando com um outro post que estava preparando, mas acho que as coisas acabam se encaixando.  Aconselho que cliquem nas imagens para ampliá-las.

Pra quem ainda não entendeu o que é o "Tea Party" norte-americano, eis uma bela entrevista de Frank Rich, jornalista político no New York Times.  Frank faz uma belíssima análise do atual momento político econômico dos EUA.



Interessante pensar que o Tea Party tem início com uma reação nervosa contra a eleição de Obama, coisa que infelizmente me lembra o que está rolando por aqui, com a ascenção pós-eleitoral de grupos separatistas e xenofóbicos.

Não é a primeira vez que vejo isso acontecer: a reação que tivemos após a derrota de Geraldo Alckmin, em 2006, me mostrou que as idéias separatistas não eram coisa só do Sul.

Em Maringá sempre senti que havia um nível de preconceito contra nordestinos - baixo, mas havia - cheguei a sentir isso na pele no colégio Marista, onde estudei, por ser filho de mãe maranhense.  Sempre tive a impressão de que uma grande parcela da população seria a favor de uma separação da região sul.  OÓbvio, jamais foi uma posição declarada, talvez porque seja senso comum que tal coisa seria muito desgastante, etc, etc, etc...agora, se simplesmente acontecesse, estaria ótimo.

Em 2006, acompanhei, com muito desgosto, uma aproximação dos paulistas a esse movimento.  As mesmas declarações que causaram tanto frisson agora, já estavam lá...só faltava o twitter, já que blog a gente sabe que pouquíssima gente lê.

Para nosso bem, esse pessoal só fala de política faltando dois meses para as eleições, continuam por mais um tempo e depois se acalmam.  Não fosse assim Lula não teria atingido seus 83% de popularidade - aqui é muito importante lembrar que apenas 3% consideram o governo ruim ou péssimo. 

Talvez essa raiva toda dure um pouco mais, já que a campanha foi pesadíssima (beleza, Serra!).  Mas passa.

De qualquer forma, é importante lembrar que dizer que o Serra ganhou no PR.  Ganhou, mas a Dilma venceu em mais municípios (212 a 187), com larga vantagem nos municípios mais pobres - pra deixar claro que bolsa-família não é exclusividade nordestina.  Os paranaenses podem, então, se revoltar contra as populações de Foz do Iguaçu, Guarapuava e uma infinidade de cidadezinhas.

Aqui vão alguns gráficos que mostram a situação do eleitorado paranaense.  Optei por dividir os municípios em 6 categorias, de acordo com o número de eleitores em cada um deles:
A divisão deixa as categorias com mais ou menos o mesmo tamanho, exceto aquela dos municípios com mais de 100.000 eleitores, que sozinha é responsável por 36% do eleitorado (o que pesou a favor de Serra).

Agora, a situação da votação dos candidatos em cada uma dessas categorias:

Notamos aqui que Dilma tem ligeira vantagem nos municípios de até 10.000 eleitores.  Serra ganha por pouco nos municípios entre 10.000 e 100.000 eleitores e dispara nos municípios com mais de 100.000 eleitores.  Tirando os "grandes municípios, a vitória de Serra teria sido muito mais apertada (51,6% a 48,4%).  Esses municípios são, por ordem de grandeza, Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, Foz do Iguaçu, São José dos Pinhais e Colombo.  Desses, Dilma venceu em 2: Foz do Iguaçu e Colombo.  Em São José dos Pinhais e Cascavel, a eleição foi apertada em favor de Serra.  A grande vitória tucana ocorreu nas quatro maiores cidades do estado: 61% em Curitiba, 63% em Maringá, 68% em ponta Grossa e 75% em Londrina - esta última, a maior votação dele em todo o estado.

Agora, como bom geógrafo, não poderia deixar de espacializar esses resultados, comparar com um mapa temático que talvez explique algo e propor uma síntese, incluindo alguns outros dados da geografia paranaense:




Os mapinhas acima, feitos às pressas.  No da esquerda, o resultado do segundo turno das eleições.  Tudo em vermelho/rosa são municípios onde Dilma venceu.

1) a mancha rosa no noroeste coincide com a mancha do arenito Caiuá, região "periférica" da agricultura, uma vez que os solos não são tão férteis como no resto do terceiro planalto (que equivale, mais ou menos, à tudo da metade do estado para oeste).  Esse pedacinho do noroeste concentra pequenos produtores rurais, ao contrário da região de Maringá, com suas superprodutivas terras-roxas e concenctração de grandes produtores de soja.

2) a mancha do sul do estado e a mancha acima de Curitiba (vale do Ribeira) correspondem às áreas mais pobres do estado.  Quem já foi ao miolo do Paraná sabe, por comparação, que não se parece com o Paraná bonitinho que vemos em Maringá ou Curitiba.  O vale do Ribeira é uma das regiões mais pobres do país, tanto do lado paulista quanto do paranaense...inclusive, foi uma das regiões escolhidas para piloto do fome-zero.

Aí vale a pena a comparação com o mapa da direita, que indica a renda per capita municipal do ano de 2000.  A escolha do ano de 2000 tem dois motivos: são os dados georreferenciados que eu tinha em mãos no momento e; de 2000 pra cá essa população pôde sentir o impacto das políticas sociais do atual governo.  E olha que a pobreza paranaense não é a mesma que se sente no sertão nordestino.

Bom, é isso aí...com os fatos, fica difícil chamar o Paraná de "estado azul" - e olha que foi a segunda melhor votação de Serra.  O voto em Dilma se explica pela sensação de melhora dos mais pobres, além do fato óbvio de que o país melhorou em diversos setores. Serra, por outro lado, atraiu o voto dos conservadores e sua zona de influência.

Pra finalizar, o mapa vermelho/azul da Folha:

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Em caso de guerra

Ontem levei muita sorte: o apagão de ontem à noite não afetou Maringá. Na hora do problema, eu estaa em sala de aula, e houve oscilações na luz. Desliguei o notebook correndo, pensando ser um problema localizado.

Ao chegar em casa, encontrei meu desktop funcionando direitinho, comecei a trabalhar sem olhar para qualquer notícia até que fui avisado, pela Milk do apagão geral.

Descobri que o problema atingiu, aparntemente, a estação de distribuição de Ivaiporã (depois de Maringá, que aparentemente não faz parte do sistema Itaipu, apesar da proximidade.

18 estados foram atingidos, entre eles Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas...provvelmente o Gabriel ficou sem luz, e o céu de São Paulo deve ter ficado mais bonito...

Agora, em caso de guerra...ITAIPU SE MOSTROU UM EXCELENTE ALVO!

Que coisa ter uma usina tão grande.






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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Fazenda Maringá

No primeiro plano, a cerca...

no segundo, o pasto...

e lá embaixo, as residências dos donos.



De noite então...tudo iluminado, uma boniteza que só vendo!!

- É bonito à noite, mas não vem muito tarde que todo mundo trabalha de manhã e dorme cedo;
- Quer comer fora, vai pra outro lugar, meu amigo. Aqui a gente como em casa, como qualquer família de respeito.


Calma, patrícios, é brincadeira! Quem disse foi o Oráculo do Milênio.




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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O Brasil e o descaso ao patrimônio intelectual.

A quem possa interessar...o tema é ciência, evolução do pensamento e respeito àqueles que foram diretamente responsáveis pelo avanço do saber deste país. Os representantes: a ciência geográfica e o professor Aziz Nacib Ab´Saber


Neste ano ganhou força uma tese, segundo a qual com o aquecimento global a Amazônia sofreria um processo de savanização. Essa hipótese é tida como a coisa mais próxima da verdade por 90% dos meteorologistas, e é baseada em modelos computacionais de previsão de tempo, simulações de 100, 150 anos.

Ouvi de alguns geógrafos de algum renome que a tendência é essa, Carlos Nobre, pesquisador do INPE defendeu a hipótese esse ano, no IPCC. Contra tudo isso, apenas uma voz se levantou: a do professor Aziz Nacib Ab´Saber. O professor, que estava na plenáriateve um debate ríspido com Carlos Nobre, afirmando que os estudos paleoclimáticos indicam que tanto a Floresta Amazônica quanto a Mata Atlântica expandiram seus domínios justamente em épocas de aquecimento.

Segundo Francisco Mendonça, outra vedete do mundo geográfico dos tempos atuais, Carlos Nobre não atacou Ab´Saber porque não pega bem contrariar um velhinho de 80 e tantos anos...

Bom...

Matéria publicada hoje, na Folha de São Paulo mostra que esse ano, após uma das maiores estiagens dos últimos tempos, a floresta ficou mais verde.

Os garotos dos modelos computacionais se apressaram em dizer que é o resultado de apenas um ano, que não sabem o que acontecerá se isso se repetir em intervalos cada vez mais curtos...

Ab´Saber 1 x 0 tecnólogos.

Explico: o clima não depende apenas dos fatores climáticos. A vegetação muito menos. Um geossistema será tão complexo quanto a quantidade de variáveis introduzidas pelo pesquisador. Obviamente, computadores são muito ágeis para calcular coisas, mas quem introduz dados nos modelos são os homens. Computadores não interpretam dados. Podem até tentar, mas indicarão sempre o resultado lógico baseado num modelo matemático que estará sempre incompleto, daí a diferença da interpretação feita peloo cara que talvez mais conheça a geografia do Brasil em todos os tempos. Um geógrafo do campo, um intelectual, um cara completo.


Fazendo um paralelo com a questão dos solos: a Amazônia é auto-sustentável nesse quesito...a matéria orgânica que mantém a pujança daquela mata é aquela fornecida pela própria floresta - biociclagem. Esse ano, em Morada Nova-CE observei um campo enorme de terra desnuda, apenas pedras sobre a terra. Após uma estiagem de quase 100 dias, havia umidade debaixo dessas pedras. E debaixo da floresta? Esses modelos consideram essas pequenas variáveis? Haverá lá plantas desconhecidas, que retém água e carbono sob a superfície? Sim. Haverá um animal esquisito que influecia numa cadeia de eventos ainda desconhecidos? Com certeza. Uma coisa é acreditarque o cerrado avance sobre áreas desmatadas, outra é pensar que o cerrado invadirá a floresta. Acho que essa geração de hoje joga demais com a certeza do que se conhece, ignorando fatores novos e antigos.

As vezes penso que por isso a ciência no Brasil vai tão mal das pernas...quando as coisas chegam ao ponto em que alguém se nega a debater com um professor para não ofender os mais velhos...quem tem cu tem medo, meus amigos.

Perguntem se alguém achava Newton, Eisntein ou Darwin uns bobos no final de suas vidas? Nos países desenvolvidos, esses caras são tidos como patrimônios intelectuais, a opinião deles SEMPRE deve ser levada em conta, no mínimo para ser debatida e descartada.

Para a infelicidade de Carlos Nobre, muita gente lá fora sabe quem é (e não quem foi) Ab´Saber. O que ele disse será levado em conta, ainda que daqui a 100 anos provem que ele estava errado. Como estava "errado" Isaac Newton...ciência é um processo cumulativo.

Enfim, que fique bem claro: sou fã do Ab´Saber. Vi esses dias uma entrevista do cara: enxergando mal, mas com a mesma clareza de pensamento de sempre. Certamente um dos grandes pensadores da história do Brasil, e ponto final.



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Me engana que eu gosto

Combustível ecológico.


São Carlos do Ivaí-PR. 21 de setembro de 2007.


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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Brasil!!! Brasil!!!

14.210.480.006.034.800%

(Quatorze quatrilhões duzentos e dez trilhões quatrocentos e oitenta bilhões seis milhões trinta e quatro mil e oitocentos porcento)

Essa é a nossa inflação acumulada de 1961 a 2006. Campeões mundiais absolutos, sem a menor chance pra ninguém mais.

Ranking Mundial:

1) Brasil: 14.210.480.006.034.800%
2) Argentina: 256.376.764.519.163%
3) Peru: 216.144.603.134%
4) Uriguai: 2.001.304.983%
5) Turquia: 98.325.454%
6) Chile: 81.234.245%

Interessante notar que a inflação da Argentina, que "ainda" está na casa dos trilhões, e não dos quatrilhões é 55 vezes menor que a nossa.


E as menores inflações no mesmo período:

1) Noruega: 916%
2) Suécia: 922%
3) Austrália: 1.018%
4) Dinamarca: 1.018%

A inflação da Noruega foi 15.513.624.460.736 de vezes menor que a nossa...umas 15,5 trilhões de vezes menor.

Brincadeira, né?


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quarta-feira, 18 de abril de 2007

acerca da classe média brasileira

"Viver é tudo aquilo que a gente faz além de sobreviver."


No seguinte sentido: no Brasil, a grande classe conhecida por classe média não vai muito bem das pernas. Provavelmente a classe média com a qual tenho contato está melhor que a classe média geral.

Enquanto a classe média burguesa e a classe média do funcionalismo público conseguem algum lazer na vida, creio que o grosso da classe média não faz muita coisa mesmo - não pode viajar, não pode comer em restaurantes...enfim, só pode sobreviver, fazer um churrasquinho e alugar DVDs mesmo. Nada de errado com isso, as pessoas são felizes e tudo mais...só que há um certo comodismo desse pessoal, uma certa falta de perspectiva de que as coisas possam melhorar, de que um dia eles possam viajar pra longe, sei lá.

A grande maioria da classe média vive um pouquinho acima dos pobres. Talvez a gente possa subdividir a classe média contando quantas vezes essas famílias podem se fuder na vida sem que se tornem de fato pobres. Por exemplo: um membro da família internado em UTI por um longo período sem plano de saúde + 1 carro roubado + 1 membro da família tem a perna direita amputada e precisa de uma prótese cara + 1 tentativa de abrir um negócio mal sucedida + 1 incêndio que destrói 1/3 da casa...enfim, provavelmente poucas famílias aguentem uma sequência tão grande de merda acontecendo. Mas muitas famílias podem se lascar com uma ou duas desgraças acontecendo. Ou seja, a base da classe média anda na corda bamba mesmo - e sem sombrinha.

P.S. tudo isso saiu de uma discussão com o Alécio



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O brasileiro e o respeito à vida

Numa recente pesquisa Datafolha:

- a eutanásia é reprovada por 57% dos brasileiros

- 63% entre os mais pobres - até 2 salários mínimos, 38% entre que ganham mais que 10 salários mínimos;
- 60% entre os menos instruídos, 40% entre os mais instruídos.

- a pena de morte tem o apoio de 55% dos brasileiros (maior índice da história da pesquisa, realizada anualmente desde 1991).

- 64% entre que ganham mais que 10 salários mínimos, 52% entre os mais pobres - até 2 salários mínimos.

- Por região: o Sul tem o maior índice pró-adoção da pena: 66% são favoráveis, contra 57% no Norte e Centro-Oeste, 54% no Sudeste e 48% no Nordeste.



Isso, combinado ao resultado do apoio à ampliação da lei do aborto nos dá um retrato interessante do Brasil. Cada um por si.


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terça-feira, 10 de abril de 2007

O Vaticano e a verdade

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1004200721.htm

"O Vaticano divulgará nesta semana estimativa segundo a qual 84,5% da população brasileira era composta de católicos em 2005 -o que representa 155,6 milhões de pessoas.
A estimativa, antecipada pela BBC Brasil, contraria dados do IBGE. Segundo o censo demográfico de 2000, mais recente estatística oficial, 73,8% dos brasileiros eram católicos naquele ano."

Devem estar certos...quem diabos o IBGE pensa que é?


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quinta-feira, 5 de abril de 2007

Sobre as descobertas imperiais...

O fim das descobertas imperiais”, é um dos mais belos textos do gajo Boaventura de Sousa Santos, no qual se discute, basicamente, conceitos de dualidade. Assim não existem governantes sem governados, como não existe o conceito de certo sem o errado, é também impossível falar nos descobridores sem falar nos descobertos. Desta maneira, é justamente sobre os conceitos atribuídos às descobertas e aos descobertos que se calca a imagem do descobridor. Ao fazer as descobertas, o descobridor descobre a si próprio, ou pelo menos passa a viver sob a luz de um conceito que só funciona sob a luz do contraste entre dominadores e dominados.

Falando especificamente sobre as tais "descobertas imperiais", ou seja, as descobertas do império do Ocidente, o autor destaca três descobertas fundamentais, que levam à uma compreensão aprofundada sobre aspectos do próprio Ocidente, até mais que dos descobertos, que no caso em questão são os orientais e o Oriente; o selvagem, sob a forma de povos indígenas das Américas; e por fim, a descoberta da própria natureza, e como a exploração desta, agora transformada em "recurso natural" revela aspectos fundamentais da cultura ocidental.



O Oriente


A primeira grande descoberta imperial é a descoberta do Oriente. É justamente a dualidade imposta por essa descoberta que leva à compreensão de que havia um Ocidente. De fato, o Oriente representa uma civilização alternativa à ocidental, caso diferente dos indígenas americanos. O imperialismo vive de subjugar seus dominados, diminuindo sua cultura, costumes, língua, religião. Nada mais conveniente para o Império Ocidental fazer a comparação com o Oriente nos dias de hoje, uma vez que o mundo vive a era da globalização, claramente ocidental.


O Oriente representa assim um contraponto à civilização ocidental moderna. Boaventura dos Santos afirma claramente essa tese ao afirmar que: “Para o Ocidente, o Oriente é sempre uma ameaça, enquanto o Sul é apenas um recurso. A superioridade do Ocidente reside em ele ser simultaneamente o Ocidente e o Norte.”
Feita a "descoberta imperial", é necessário reafirmá-la constantemente, para deixar sempre evidente a supremacia ocidental. Por isso, o imperialismo ocidental lança mão de discursos maniqueístas, da demonização do Oriente - vide o papo do W. Bush. Fica mais evidente perceber o quanto somos "democráticos, modernos, racionais e dinâmicos", quando observamos nos telejornais imagens de barbárie ocorrendo no oriente. Cenas de atentados terroristas, fanatismo religioso, malucos barbados orando de bundas pra cima, voltados para Meca enquanto outros clamam pela morte dos infiéis (categoria que inclui a nós todos). É como olhar para marcianos atrasados.

Por outro lado, é necessário lembrar que o mundo árabe tem uma concepção igualmente negativa do mundo ocidental, de um mundo “bárbaro, arrogante, intolerante, pouco honrado nos compromissos”. O fanatismo religioso e o fundamentalismo estão presentes também na nossa história. Basta lembrar das barbáries cometidas pela igreja católica, da Santa Inquisição, da prática da simonia, das próprias cruzadas e recentemente dos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte. Barbárie e desbunde não são exclusividade oriental.

Um ponto interessantíssimo levantado pelo autor é o que analisa que o Ocidente, não satisfeito em combater o Oriente em “território inimigo”, cria os seus próprios Orientes em território ocidental, transformando os kosovares, por exemplo, em apenas minorias étnicas, mas não islâmicos. Muito sagaz.


O Selvagem


Problemas diferentes, soluções diferentes. O Oriente é o contraponto do Ocidente enquanto civilização. A História oficial fez com que fosse assim, e as atitudes e ações adotadas em relação ao Oriente são no sentido de ridicularizar e diminuir os valores que fazem deles uma civilização, para que o Ocidente possa se sair vitorioso numa comparação.

Quanto ao Sul, a relação é outra: somos inferiores, somos selvagens, somos bichos, desalmados correndo pelados pelas selvas tropicais. Isso foi muito difundido, os Jesuítas foram enviados para essas terras de animais para catequizar alguns, preparar essa terra de ninguém para os seus donos naturais – os europeus. Relação parecida com a da África, negros e índios tem tantos privilégios perante Deus quanto os calangos que comiam. O que é o carnaval ou qualquer outra expressão cultural latina para o Império senão uma brincadeira exótica? Certamente nada que vá produzir cultura que preste.
Aí vem a teoria da “escravatura natural” de Aristóteles para explicar tal relação: alguns homens foram feitos para mandar e outros para obedecer. Os últimos, percebendo a sua inferioridade em todos os aspectos ficariam felizes por serem tutelados por seres superiores.

Não há, portanto, na relação Norte-Sul uma história de disputa por modelos de civilização, progresso, prosperidade. A relação é simplesmente de senhores e escravos, de homens e bichos. Por isso não existe qualquer preocupação histórica com o Sul. Simplesmente não somos relevantes do ponto de vista de civilização. Já quanto à exploração dos recursos que possuímos, a história é diferente. Veremos a seguir.


A Natureza


Essa seria a terceira grande descoberta do milênio (passado). A descoberta da natureza enquanto recurso econômico, enquanto insumo, enquanto capital. Os selvagens simplesmente convivem com a natureza por não a visualizarem como bem, como algo a ser explorado. A veem simplesmente como parte da paisagem dos lugares onde vivem.

O Ocidente enxerga na natureza, "o exterior a ser domesticado", e consequentemente, explorado. O próprio selvagem, com seus rudimentares conhecimentos sobre o funcionamento dos sistemas em que se encontram servem de ferramenta para a exploração dos recursos naturais, muitas vezes levando os cientistas dos grandes laboratórios à verdadeiras "minas de ouro biológico".

A natureza, por ser tão capaz de expressar algo coerente quanto seus habitantes selvagens, não pode ser compreendida, pois não tenta se comunicar. Daí a ciência e suas explanações sobre a natureza. Daí a exploração irracional dos recursos naturais. Daí a situação atual, totalmente calamitosa e cruel.


Finalmente


Essa é uma boa idéia a respeito da imagem que a civilização ocidental tem de si. Tal imagem é construída justamente sobre as diferenças com o resto do mundo, daí as comparações com civilizações diferentes, povos inferiores e exploração desordenada dos recursos naturais. Todas essas ações perversas dariam ao ocidente uma margem de superioridade em todos os aspectos.

 Ao fazer a comparação com o Oriente, o Ocidente sente-se tornar avançado, tecnológico, racional. Ao se comparar com negros e índios, o Ocidente sente-se tornar superior fisicamente, espiritualmente e intelectualmente . E por fim, muito disso é devido à essa exploração irracional de recursos que não pertencem aos exploradores.



Vale lembrar que a "história oficial" é escrita pelo Ocidente. Vale lembrar que debaixo dos nossos narizes temos guerras civis no Haiti, na Colômbia, problemas sérios de ideologia política, como Cuba. Até bem pouco tempo atrás tínhamos conflitos religiosos como os da Irlanda do Norte, (lembram do IRA?). Enfim, trata-se apenas uma roupagem ocidental dos mesmos problemas.

Recordemos ainda que não se sabe se esse atraso observado no Oriente médio se deve, ao menos em parte, aos conflitos que não cessam na região. Os governos teocráticos talvez sejam garantia de atraso, mas até que ponto? E até que ponto a população Oriental deseja ser ocidentalizada? Será que a homogeneização cultural é quista por lá? Será que seria se houvesse igualdade social e acesso ao ensino? São todas questões muito complexas, derivadas das questões deixadas pelo autor no final do texto e que só podem ser respondidas com o tempo.
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