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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Fabricando imagens: prompt-crafting no Midjourney

Vou começar a falar de “AI generated art” fora de ordem. Há um outro post no qual estou trabalhando que deveria aparecer antes e que trata de questões mais elementares e interessantes, mas acabei terminando este aqui antes.


Há muita discussão a respeito do status destas ferramentas como sendo arte ou não. Isso fica para um outro momento e acho que ainda vou amadurecer o que penso sobre o tema, possivelmente a partir de uma conversa que pretendo ter com o meu co-blogger em breve. Mas quero pontuar um aspecto aqui: gerar imagens bonitas nessas ferramentas é fácil. Gerar o que se pretende gerar, é muito difícil. Dá trabalho e ninguém sabe muito bem ainda qual é a melhor forma de explicar, para um robô treinado para compreender linguagem natural, o que nós queremos dizer. Aí entra a “arte” do prompt-crafting. É mais um trabalho de direção artística e evolução memética do que qualquer outra coisa. Vamos para um  exemplo prático:

Ontem comecei a tentar criar versões humanas de personagens de anime. Comecei por alguns de Demon Slayer, cheguei em resultados muito bonitos, mas que não remetem muito aos personagens - parecem mais releituras de figurinos de ópera, tipo, esse cara 'simboliza' o Inosuke".

 



Resolvi tentar algo mais simples, algum personagem com visual mais limpo e de fácil descrição: passei a tentar um Inu Yasha. É um garoto com orelhas de lobo, cabelos muito compridos, vestimentas de sacerdotisas Miko e kimono vermelho, olhos amarelos.




Fazer com que o Midjouney (MJ) produza imagens de personagens conhecidos é relativamente fácil. Eu consegui, rapidamente, produzir uma série de Dilmas como Wonder Woman, bonequinhos em miniatura do Lula:

 



Bom, fui para o início óbvio: tentar fazer com que o MJ gerasse um retrato do Ina Yasha tilizando parâmetros de outros trabalhos meus e pronto. Comecei descrevendo assim:

"Portrait of Inu Yasha, very intricate costume, hyper detailed, serious stare, lifelike, Atmospheric, 600mm lens, Sony Alpha α7, epic, dramatic, cinematic lighting, ray tracing, high contrast, 8k, photo realistic, character design".

Como eu brinquei de fotografia por bastante tempo, sei que lentes de 600mm não utilizadas para retratos, mas são residuais de uma outra série de imagens que fiz, de close-up portraits. Prompt-crafting funciona assim, a gente vai mantendo o que deu certo. Cheguei nesta imagem aqui:




 Achei o resultado legal, mas não se parece em nada com o que eu pretendia. Mudei o prompt para algo que descrevesse melhor o personagem, já que o MJ claramente não sabia o que era um Inu Yasha:

“Portrait of a young boy with yellow eyes, very long white hair and white wolf ears, dressed as japanese miko priestress, Inu Yasha, hyperrealist, hyper detailed, serious stare, lifelike, Atmospheric, 600mm lens, Sony Alpha α7, epic, dramatic, cinematic lighting, ray tracing, high contrast, 8k, photo realistic, character design"

Notem que, ao invés de mencionar o personagem, eu o descrevi fisicamente e retirei a complexidade do figurino, já que o personagem não é assim. Mencionei o nome, como referência adicional porque “vai que”. Um dos segredos da coisa é enfatizar aspectos que se queira forçar na imagem. Também deixei claro que se trata de um garoto, não de uma menina. Resultado:

 



 

O figurino ficou aceitável, as orelhas estão lá, cabelos e tudo, mas ainda é uma menina. Mudei o prompt para "young man" ao invés de "young boy" e rodei o MJ algumas vezes, cheguei em alguns resultados, uns melhores e outros melhores.

 

 


Uma das questões, imagino, é que rostos de personagens masculinos de mangá são muito femininos. Mudei pra "Man" e cheguei num resultado razoável, mas agora muito butch.

 



Decidi retornar ao "young man", o MJ haveria de, eventualmente, me devolver um resultado melhor. Passei a reforçar que queria um Inu Yasha passando a citá-lo também a partir de uma imagem de referência (coisa que não é possível no modo "testp"). Antes de me acusarem de trapaça, saibam que o máximo que dá pra fazer, a partir de uma referência, é dar a ela peso equivalente a todo o resto do prompt, de maneira que a descrição e refinamento descritico continuam sendo fundamentais.Decidi abandonar o test mode recomendado para fotorrealismo, (testp) e passei a receber os resultados em grades de quatro. Não demorou muito pra conseguir a resultados com os quais eu achei que dava pra trabalhar:

 



A partir daí, gerei versões e fiz o upscaling de algumas delas:



 


Essa última tá bem legal, né? Faltam as orelhas. Fui gerando variações e upscales e e cheguei na que considereio a mais bonita do conjnto todo - embora não o mais próximo do resultado pretendido:



O garoto tá lindíssimo, as orelhas parecem muito naturais, as roupas, quase lá. Já havia me dado por satisfeito quando tentei um último movimento: o botão "remaster". Esse é um gamble, póde melhorar ou piorar  imagem. Funciona assim: a IA joga a imagem gerada e o prompt como seeds para um novo upscale, só qe  no modo "creative". Esse modo em princípio só funciona dentro do "testp". E aí eu dei "sorte":

 



Dá pra melhorar? Dá. Um photoshop e alguma ferramenta de pós-processamento resolvem facilmente a orelha humana que tá sobranado e alguma coisa que tá meio off nos olhos. Mas vou deixar isso pra mais tarde, o que interessa, agora, é o que o MJ gerou, que é a imagem acima. O prompt final foi o seguinte:

<https://s.mj.run/EEj6DQLp114> portrait of a young man with yellow eyes, very long white hair and white wolf ears, dressed in a japanese red kimono, Inu Yasha, hyperrealist, hyper detailed, serious stare, lifelike, Atmospheric, 600mm lens, Sony Alpha α7, epic, dramatic, cinematic lighting, ray tracing, high contrast, 8k, photo realistic, character design, --ar 9:16 --iw 1 --test --creative –upbeta

E aqui está a imagem final, após o photoshop e tratamento:





Sintam-se à vontade para pegar, alterar e melhorar, é assim que funciona. Há uma comunidade enorme de gente aprendendo e, ao mesmo tempo, ensinando o MJ a refinar os resultados. Eu levei 36 iterações de cabo a rabo pra chegar no resultado. As que eu mostrei aqui são as fndamentais.

Moral da história: não sei se AI Art é arte ou não. Como disse no começo do texto, gerar algo bonito e/ou interessante com AI é extremamente fácil. Conseguir um resultado específico demanda paciência, identificar o que o robô acha que você está dizendo, dirigir um processo de evolução artificial a partir de referências de outros trabalhos, descobrir como descrever o que se pretende atingir, aprender os parâmetros de funções e comandos possíveis, testar, testar e testar.

 

Enjoy!

 

 


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Morte e vida Severina

O motivo deste texto é recomendar a leitura de "Morte e vida Severina" e relatar a minha emoção em ver a versão animada, linkada adiante, mas no fundo é pura digressão.

Li a obra prima de João Cabral de Melo Neto na escola, por vontade própria - ou, como tudo, um pouco provocada. Salvo engano foi em 1992, oitava série. A minha turma foi a penúltima a ter aulas de "Organização Social e Política do Brasil" (OSPB). Pra quem nunca ouviu falar nisso, OSPB era uma disciplina que reunia conteúdos de Ciências Sociais e explicava o funcionamento do sistema político, administração pública, um tiquinho de Direito Constitucional.  Mesmo manco, o conteúdo me interessava muito, até porque eu não tinha noção nenhuma do que me faltava de fato, os conteúdos de Filosofia e Sociologia, amputados pelos governos militares.

Eu estudei numa escola particular católica da primeira série ao terceiro colegial, o Colégio Marista de Maringá. Era considerada uma ótima escola, na qual a elite maringaense educava os seus filhos. A maioria dos alunos era composta por filhos de políticos, empresários, grandes fazendeiros e profissionais liberais bem sucedidos. Tinha garoto do primeiro colegial que andava de moto, crianças cujos pais eram donos de aviões teco-teco e um bom número de alunos que praticavam hipismo...só pra ilustrar os "problemas de gente rica" que faziam parte do cotidiano do Marista, teve uma menina que ficou famosa por ter tido o nariz arrancado por uma mordida de cavalo. Eu era um dos poucos filhos de professores. Junto com os filhos de bancários e funcionários públicos, fazia parte de uma  pequena "segunda classe" na escola. Lembro de um negro nos meus 11 anos naquele colégio. 

Naquele tempo não me parecia que os pais do Marista se incomodassem com "doutrinação comunista". Meus professores de história, geografia e OSPB eram, provavelmente, pessoas de esquerda. Lembro de professores que promoveram debates em sala de aula sobre as eleições de 1989  (5a. série). Lembro de uma aluna criticando o comunismo, num desses debates, com um argumento infalível: "então o Roberto Freire devia dar metade das suas coisas pra uma família pobre". O Roberto Freire era o candidato pelo PCB, as pessoas achavam que ele era comunista - era o candidato do então reitor da Universidade Estadual de Maringá, então meu vizinho, que o trouxe pra falar num evento de colação de grau no ginásio esportivo da cidade.

Tive, portanto, algumas dessas professoras de história que praticavam a "doutrinação marxista" através do péssimo hábito de evidenciar as coisas feias do país tropical e explorar as suas raízes. Preciso dizer que essas professoras foi mal sucedidas, em grande parte: até onde tenho notícias, nenhum dos meus colegas se tornou um comunista. É possível e provável que hoje alguns deles pensem o contrário, que "O Marcelo virou comunista, um a mais do que o limite do aceitável".

Voltando ao motivo do texto, eu já entendia, em abstrato, o que significava a seca no Nordeste.  Primeiro porque o semiárido nordestino, a seca, a fome, faziam parte da paisagem cultural brasileira. As gretas de contração (procurem e aprendam), o gado magro ou morto, os retirantes, as crianças magras ocupavam, com uma  triste frequência, parte importante dos noticiários na TV - sinto informar, mas quem nasceu para a política no período pós-Bolsa-família não tem noção da gravidade do problema.

Lembro-me de uma série de livros adotados na disciplina de OSPB chamada "Viagem pela Geografia". Os livros dessa série eram parcerias entre um autor ficcionista e um professor universitário do ramo. Eram pequenos romances que buscavam ilustrar aspectos relevantes do conteúdo didático. Lemos dois desses: "Cuba em perspectiva", de Fernando Portela (jornalista) e José Herculano da Silva e "A seca no Nordeste", parceria de Fernando Portela com o geógrafo Joaquim Correia de Andrade. Imaginem quais seriam as reações dessa elite emebêelizada dos dias de hoje? Enfim, o livro sobre a seca explicava conceitos que eu não conhecia, foi a primeira vez que tive contato com o conceito de "indústria da seca". Certamente uma das primeiras vezes em que eu entendi o funcionamento grosseiro da política como instrumento de perversão. A ideia de que as secas no nordeste eram exploradas por coronéis e políticos para a manutenção de seus "currais eleitorais" me fez compreender, pela primeira vez, que certos políticos preferiam e agiam ativamente para não educar o povo. Preferiam manter a população na ignorância impedindo-a de enxergar suas reais motivações ou não investir em saúde, fazendo do tratamento das enfermidades uma graça concedida  através da devoção às suas figuras, concretizada eleitoralmente.

Em algum momento nessa discussão, não sei se no livro ou no debate de sala de aula, foi citado o poema de João Cabral de Melo Neto. O poema "Morte e vida Severina" foi, para mim, ao mesmo tempo um choque de realidade e abstração. A compreensão do tema me deu uma sede de desvendar as sutilezas da escrita do autor que, no fundo, é direto pacas. Foi capaz de colocar imagens na minha cabeça que me fizeram chorar. Foi arte que transformou, para mim, o flagelo da seca em realidade concreta.

Meu segundo contato com a obra foi também na escola. Novamente numa aula de história, novamente com uma fracassada doutrinadora do comunismo. O filme "Morte e vida Severina", de 1981, apresenta a versão musicada de Chico Buarque, só porque na vida da gente tem desses momentos em que a genialidade pura se manifesta e, se tem algo de que este país não padece, é da falta das artes.


O trecho mais conhecido do poema, talvez por conta da versão do Chico, é quando Severino "Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério":



Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida


É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio



Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida



É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo



É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo



É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada não se abre a boca



É a conta menor que tiraste em vida


É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)



Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada não se abre a boca



Descobri agora uma animação do poema, já não tão recente, que merece muito ser vista. É bonita em todos os sentidos: fora a poesia, o desenho é lindo, apresenta uma estética de quadrinhos e uma sensibilidade para retratar a crueza da realidade de "Morte e Vida" que me pôs a escrever.


Morte e Vida Severina é uma obra que deveria fazer parte do repertório de todo brasileiro. Rever esse poema me faz pensar no quão artificial e cruel é a manutenção da pobreza das populações mais frágeis do país. Ou em como um partido como o PMDB - agora sem "pê" - serve não apenas aos interesses do mercado mas, como um partido que funciona como uma confederação de coronéis e caciques regionais, lhe interessa, sistemicamente, o retorno dessa condição que parecia superada: a exploração da fome como instrumento de domínio e controle social.

Aziz Ab´Saber escreveu, em 1999, um texto chamado "Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida", que considero um dos textos mais geográficos, de fato, já produzidos no Brasil. Pra quem se interessar, o link está aqui. Eu recomendo a leitura integral, mas como sei que a primeira parte do texto, que trata da geografia física requer uma certa familiaridade com o jargão da Geomorfologia, sugiro que comecem a leitura pela segunda parte do texto "A última grande seca do século".

Há seis anos, o Nordeste encara mais uma grande seca. Dessa vez, não vimos as imagens das ondas de retirantes chegando aos grandes centros urbanos, do gado morrendo, do drama da fome. Isso se deve, incontestavelmente, aos programas de segurança alimentar, em especial, ao Bolsa-família. Os retrocessos promovidos por Michel Temer e seu governo, em nome da entidade "O Mercado", representado no Planalto pelo PSDB, e dos interesses dos caciques regionais de seu partido, o PMDB, de latifundiários, senhores de engenho do século XXI.

Enfim, a produção artística de um país é certamente um instrumento civilizatório. Artistas são especialistas em ilustrar, comunicando-se com as nossas sensibilidades, a condição humana. Morte e Vida Severina é uma dessas obras que, em minha experiência pessoal, serviu como gatilho para conectar um conhecimento formal, que já existia em mim, com a importância de tê-lo e, mais importante, de sensibilizar-me para com a realidade descrita.


"a realidade é tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta."

"Uma faca só lâmina", João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Não deixem Cantanhêde só!

Edição especial de WSR: escolha a nova morena da Folha

Houve uma época em que a Folha de São Paulo fazia a festa do leitor de jornal brasileiro, com sua fabulosa dupla de meninas: Eliane Cantanhêde, a loira, e Renata Lo Prete, a morena.  A última abandonou o barco e migrou para a Globonews, deixando sua alva e elegante companheira em vôo solo...desde a saída de Lo Prete, nenhuma outra morena se firmou em posição que pudesse fazer aquela agradável tabelinha com Cantanhêde.

Eliane é uma mulher sofisticada, bonita, inteligente.  Lo Prete é tudo isso, só que um pouco menos charmosa...em compensação, deu um dos furos mais importantes do jornalismo nacional ao entrevistar o confiável deputado Roberto Jefferson quando ele revelou uma história que depois foi adaptada para se transformar naquilo que conhecemos como mensalão.

As candidatas foram cuidadosamente selecionadas para essa pesquisa pelo Oráculo do Milênio, de forma que são inquestionáveis - ainda assim, abrimos espaço para outras opiniões, igualzinho à Folha.  O critério para definir quem é morena é aquele correto: pessoa de cabelos negros ou castanhos - gente clara de cabelos castanhos claros são morenos claros, e é simples assim.  Mulatas são mulatas e negras são negras, não "moreninhas", já que somos contra o uso do termo "moreno" como eufemismo pra negro.  Dessa forma, Sheherazade é morena, convivam com este fato.

Rachel Sheherazade é uma espécie de Cantanhêde de canal ruim de TV, só que com menos brilho, elegância e charme.  Tá, talvez não seja uma espécie de Cantanhêde, pra não ser injusto, mas são definitivamente da mesma espécie - a nossa.  Ou talvez seja um tipo de "She-Datena".  É, é isso.  Palmirinha entra como um convite à diversidade na página de opinião da Folha, jornal tão eclético e imparcial, com espaço pra todo mundo e todo tipo de opinião, até aquelas que não têm nada a ver.  E a Mulher Samambaia tá aí pra quem acha que beleza é fundamental e nem acha que a Cantanhêde precise de uma parceira tão convencional, no sentido jornalístico da coisa.  Cristiana Lobo é a escolha do leitor tradicional, e seria também uma chance da Folha se vingar das organizações Globo, levando uma de suas morenas mais destacadas.  Sem mais delongas, eis a enquete que elegerá a próxima morena da Folha!


A disputa será acirrada.  Qual dessas será a nova morena da Folha?  Votem!!

Pra quem não está a par da função da loira da Folha: trata-se de uma das colunistas mais importantes do jornal, publica na segunda página (opinião) às terças, quintas, sextas e domingos.  Ou seja: fica na frente, liderando a coreografia do jornal.  A morena teria função similar: ficaria na frente do jornal exibindo suas exuberantes opiniões, refletindo a alma do conjunto.  Cumprindo seu papel de jornalista indignada, escreveu revoltosas 10 colunas desde o dia 20 de julho de 2014, data na qual a Folha publicou o escândalo da construção do aeroporto nas terras do tio-avô de Aécio.  Abordou o tema em quase uma delas - a Folha não pode ser acusada de parcialidade.  Pra entender o papel da jornalista-estrela da Folha e votar em sua morena de forma consciente, aqui vão links de todas as 10 são do naofo.de, acompanhadas de um pequeno (médio ou longo) comentário, cliquem à vontade, sem dar audiência ou usar a generosa cota de 10 reportagens que a Folha te dá todos os meses.  Aviso que nenhuma vale tanto a pena assim, e estão aí mais pra provar que eu não tô mentindo nas análises e sinopses - já que todo mundo mente, de vez em quando.


20/07/2014: Gastando cartuchos

Cantanhêde destaca a rejeição de Dilma como o dado mais importante aferido na última pesquisa Datafolha, o que talvez a impedisse de vencer no segundo turno (o instituto aponta a vitória no primeiro turno).

22/07/2014: Pega ladrão!

Passada a copa e deglutida a boa organização, Cantanhêde declara que é hora de deixar de oba-oba e voltar a pensar na bosta do país, em todas as suas bostas e de que bostas acusaremos Dilma, Lula e a bosta do PT . É tanta bosta que ela não sabe nem dizer quantos gringos foram vítimas de roubos:

"Não sei quantos latino-americanos ficaram sem dinheiro e documentos para voltar, mais de 12 mil argentinos foram vítimas de roubo/furto no Rio e, segundo levantamento do site G1, os furtos em trens, metrôs e ônibus em aumentaram 379% em São Paulo em relação ao ano passado.  Imagine fora deles!"

Bom, aparentemente ela sabia.  Mas quantos roubos ocorreram fora dos trens/metrô/ônibus, hein, hein?!? Eu nem imagino.  Ela é jornalista, talvez possa apurar.


Eliane Cantanhêde aborda, en passant, o Aecioporto.

Em sua única coluna sobre o tucano, Dilma é assunto em cinco dos sete parágrafos, Campos em dois deles.  Para a colunista, enquanto "o TCU livra a cara de Dilma", Aécio e Campos "resvalam" em questões éticas.  Aécio "entrou na berlinda por 'reagir mal' às perguntas inconvenientes".

Fiquei preocupado com o parágrafo final do texto, possivelmente escrito sob abstinência de alguma droga para tratamento de transtornos dissociativos (não tomem essas porras, depois dá nisso):

"E a economia, a mão pesada estatal, o desajuste do setor de energia? Ah! Isso é coisa para a 'elite branca'."

Hein?

25/07/2014: "Anão diplomático"

A jornalista concorda com a posição brasileira, mas não sem antes dar uma coçadinha em sua glândula conservadora, só pra aliviar o comichão.

"Depois de três anos e meio de uma política externa dorminhoca, o Brasil deu um pulo da cama, tomou-se de brios e partiu pra cima de Israel."

27/07/2014: Salve-se quem puder

Sobre a rejeição do mercado à Dilma, Cantanhêde concorda que é uma análise arriscada, embora levada a sério pelas campanhas - é verdade.  Explica o processo: se a previsão de crescimento cai, a crença na vitória de Dilma cai e as bolsas sobem.

O terceiro parágrafo faz o serviço de reacender a rejeição das elites à presidente: o PT utiliza esse dado para reforçar, aos pobres, que rico não gosta da Dilma.

No final, lembra o nível de rejeição da presidente no país (35%, meio normal pra quem governa) e de 47% em SP, que vive uma espécie de esquizofrenia no plano local, com altos índices de aprovação a um governador que faz uma gestão, digamos, problemática (PM, escolas, USP, água, corrupção no metrô, etc).

Mas...e o Lula?  Mais uma vez a jornalista brilha na frase final:

"Aliás, Lula? Vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?" 

29/07/2014: Dividindo os erros

Nham-nham-nham!!! Sabatina da Folha com a Dilma, prato cheio e no dia seguinte é dia de feijoada - que em São Paulo se come também nas quartas.!

Dilma arranja desculpas para a economia.  Dilma erra ao dizer que o pessimismo afeta a economia, que é feita de expetactivas, quando na verdade "a economia é calcada, não em impressões e em manifestações de ruia, mas sim em dados concretos feitos por especialistas - do Banco Central e da área econômica, além da indústria e de agências de avaliação."

Aqui, peço licença para me alongar mais e "enseriar" a coisa.

No dia 22 de julho, a Folha publicou a seguinte reportagem: "Humor piora e deixa abaixo de 1% previsões para o PIB"

A previsão do boletim focus, uma pesquisa de mercado feita ou encomendada pelo Banco Central, caíra para 0,97%.

A Folha foi atrás de investigar, lógico.  E listou as razões que motivaram os economistas a refazerem suas projeções:

1) Queda na produção industrial.

2) Vendas do comércio (err...essas subiram em maio, mas "só porque foram puxadas por alimentos, móveis e eletrodomésticos".  O que tinha que subir, com o perdão da ignorância? Se a venda de adubos, canos de PVC e material de festas infantis tivessem subido valia?

3) menor criação de vagas formais no primeiro semestre desde 2008.  Foram criadas 588.671 vagas contra 397.936 naquele ano.  Bom, foram criadas mais vagas, certo?  Nesse ritmo (o pior de Dilma), seriam geradas, em seu governo, 4.709.368 vagas.  Até junho foram geradas 5.052.710 vagas.  Isso no meio da crise mundial e levando em consideração que o nível de desemprego continua baixíssimo, com um número de pessoas que nem estão procurando emprego porque optam por estudar, etc, etc, etc.  FHC gerou, nos seus oito anos, 5.016.672, numa média semestral de 313.542 vagas/semestre.  Imagine como estaria o humor dos economistas se estivéssemos assim?

4) cai a confiança da indústria;

5) cai a confiança do consumidor.

Sou só eu, ou das cinco razões apontadas apenas a primeira é uma razão real negativa, mensurável de fato?  2 e 3 são dados positivos, 4 e 5 são, bem.....expectativas - e com variação pequena.  Há ainda dois outros indicadores, que são meros desdobramentos da produção industrial, portanto, mais do argumento 1.

Sobre isso é só.

31/07/2014: Profecias e realidade

Neste dia Cantanhêde nos explicou a realidade.  É uma coluna meio sem sal, como deve ser a realidade, apesar dos temperos da jornalista.  Deixo só a  frase final, pra dar o gostinho:

"O empresário sabe distinguir 'profecia pessimista' de constatação."

Sim, pudemos observar na coluna anterior...o mau humor provocado pelos fatos reais, e não pelas "profecias pessimistas"  Ah, o empresariado brasileiro, esses sábios!  Aqui um deles, indignado feito um paulistano:


Ou só valem os grandes?  Tipo o pai desta criatura:

Sim, eu entendo a falácia do espantalho, mas é só uma aparente: vejam o que eles concluíram dos dados apresentados no quadro da Folha.  E você?  Olhe aqui.  Talvez não seja justo usar esses dois exemplos só porque a esmagadora maioria deles é mais parecida com isso aí do que com um Bill Gates - este, um conhecido petralha maldito.

01/08/2014: E o Lula, hein?

Pois é, e o Lula, hein?  Essa coluna demonstra a capacidade de leitura de Cantanhêde: dias antes ela perguntou "e o Lula".  Não tardou para que o assunto aparecesse na mídia.

Como diz o Gabriel, Lula é responsável, entre outras coisas, pelos empregos desses colunistas - ou pelo menos pelo aumento na repercussão destes.  Antes do Lula ninguém lia gente como Azevedo, Constantino...até Olavo de Carvalho, cujo conhecimento era ostentado apenas pelos reaças mais ávidos e debochado por um pequeno setor da esquerda (eu já conhecia - rá!) publicou um livro com direito a estardalhaço e gente neo-politizada compartilhando nas redes sociais.

Como ninguém respondeu a pergunta feita no dia 27  (op. cit.), Cantanhêde se responde: Lula inventou Dilma e Haddad.  Se a aprovação dos dois está em baixa, não seria natural que Lula fosse atingido?

Ela não sabe: "Será?"




Cantanhêde (e toda a mídia) ficaram espantados ao descobrir que pessoas se preparam e combinam respostas em CPIs.  Pior: há uma orientação política nisso.  Pior: parlamentares "amigos" pegam leve com gente que, caso pegassem pesado, poderiam comprometer.

Desenho do Gabriel, feito originalmente para
este postTem alguma relação com isso aqui.

Jânio de Freitas, em coluna publicada neste mesmo dia "responde":

"Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras –dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.

De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.

O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.

Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral."

Depois vem esse Lula descolando um emprego pra Nora no Sesi!!  O Sesi, segundo a Wikipedia é "uma rede de instituições privadas brasileiras".  Pelo nome parece ter algo com a indústria...a ousadia do presitralha (*)!!  Como pode , onde já se viu?  E esses industriais, que além disso doaram até dinheiro pras campanhas todas?

Sabe onde é foda, mas foda mesmo arrumar emprego pra parente?  No âmbito público.  E sabem que grupos/partidos são craques nisso aí?

Bão, dos nossos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores), 280 vêm de famílias de políticos - tem tudo nesse infográfico.  O ranking por partido, em % dos membros que vêm de "clãs" políticos:

DEM: 67%
PMDB: 66%
PP: 63%
PTB: 58%
PSC: 50%
PSDB: 49%
PSB: 48%
PR: 44%
PDT: 37%
PPS: 36%
PV: 31%
PCdoB:24% 
PT: 22%

Imaginem a quantidade de assessores e gente empregada através do nepotismo cruzado?  Há ainda uma diferença qualitativa.  Marta e Eduardo Suplicy entram na conta porque foram casados.  Acontece que ambos construíram carreiras políticas independentes...Marta não se elegeu senadora porque foi "esposa do Suplicy".  O mesmo ocorre com Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo.  É meio diferente de um certo senador mineiro, candidato à presidência da república, filho de deputado, neto de ex-presidente (o outro avô foi secretário estadual de JK) e primo de senador de outro estado.  Diferente, né?

Imaginem se a imprensa verificasse essas coisas com a mesma intensidade pros dois lados?  Imagina na Copa?

*Curtiram, amiguinhos do bem?  É "presidente + petralha", mas pode ser entendido como "presidente dos petralhas" ou "presidente-tralha".  Usem isso aí.

05/08/2014: Tudo embolado

O empresariado nacional - mais especificamente os industriais - se vingam da presidente cortando doações.  Sem citações aqui, coluna meio óbvia: tudo vai mal, obrigado.

Agora...e a veja, hein?



Tem que ter lido pra entender, certo?


Nota 1: ao menos parte da equipe de redação de Wilbor se Revolta entende que a pesquisa pode ser interpretada como machista ou de mal gosto.  Consideramos, porém, que da mesma forma que Constantino e Pondé podem ser alvo de comentários em função de sua busca por um macho que os satisfaça (em função disso e disso), a brincadeira é pertinente -  e as duas fazem dupla na Globonews - canal da Rede Globo, essa sim, com um quadro de mau-gosto chamado "as meninas do Jô", como se fosse muito exótico mulher comentar política.  Nossas sinceras desculpas à Palmirinha, um doce de velhinha que faz doces e à Mulher-Samambaia, sobre a qual não sabemos absolutamente nada.

Nota 2: Pouca gente vai acreditar, mas eu não sabia quem era a Mulher Samambaia.  Eu pensei no nome, achei conveniente, e fiquei torcendo pra que fosse morena, antes de consultar o Oráculo do Milênio.



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domingo, 4 de março de 2012

Humor é... (1)

Um dos conceitos mais importantes do chamado neodarwinismo ortodoxo,  é a caracterização da Evolução como uma luta pela sobrevivência, porém, não uma batalha travada pelos indivíduos, mas por seus genes.  Um tatu-bola nada mais é que uma máquina extremamente complexa que tem, por objetivo final, a manutenção  e reprodução de um gene específico, ou de um conjunto deles.  Quando um tatu-bola se reproduz, gera uma prole que carrega exatamente 50% de seu DNA.  Como um tatu-bola macho qualquer compartilha quase todo o seu DNA com uma tatu-bola fêmea, o tatuzinho-bola compartilhará com o pai praticamente 100% de seu código genético.  Trata-se de um processo de transmissão de genes muito eficiente.

Seguindo essa linha de pensamento, chega-se à conclusão óbvia de que nós, humanos, também somos veículos de transmissão de genes.  Por acaso, veículos bastante espertos.  Certamente mais espertos que tatus-bola.  Foram genes que construíram uma carapaça e deram aos tatus-bola a capacidade de se enrolar para se proteger de predadores.  Esses genes permaneceram no DNA dos tatus porque os indivíduos que não tinham esses genes tinham suas vísceras facilmente mastigadas por carnívoros, e animais que têm suas vísceras mastigadas por carnívoros tem mais dificuldade em se reproduzir.  Dessa forma, um ancestral qualquer do tatu que tivesse um pedacinho pequeno de carapaça já teria alguma vantagem em relação ao seu irmão que não tivesse.  O cérebro humano é também uma criação dos genes, possivelmente, a criação mais complexa e extraordinária desse grupo de moléculas.  O cérebro humano se desenvolveu porque ser um pouco mais inteligente que o macaco vizinho provou ser uma grande vantagem evolutiva.  Como está claro que a inteligência humana é uma manifestação do cérebro, pode-se afirmar que a inteligência é um atributo fenotípico, e deve ter evoluído junto com os cérebros.

Discutir o que é inteligência é uma coisa muito distante do meu campo específico de conhecimento, mas vamos ficar com as duas primeiras definições do Aurélio e com a Wikipedia:

inteligência

[Do lat. intelligentia.]
Substantivo feminino.

1.Faculdade de aprender, apreender ou compreender; percepção, apreensão, intelecto, intelectualidade.
2.Qualidade ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração, agudeza, perspicácia.

Inteligência pode ser definida como a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender.

Por mais que ainda existam pessoas que não reconheçam qualquer inteligência nos "animais irracionais", a inteligência humana teve que evoluir a partir de uma inteligência menor, e essa, de uma inteligência ainda menor, até o ponto em que teremos uma inteligência muito primitiva evoluindo a partir de alguma outra coisa que não era inteligente.  A primeira inteligência provavelmente foi, como todo o resto, um golpe de sorte: uma mutação que levou a uma vantagem evolutiva.

Não é difícil reconhecer alguma inteligência em animais.  Quem teve cães, gatos e outros bichos sabe que há cães mais e menos espertos.  Todos sabemos que cães são muito mais espertos que galinhas... Já as galinhas são mesmo animais muito estúpidos: eu pretendia continuar o raciocínio afirmando que galinhas são muito mais espertas que as minhocas que devoram, mas tenho minhas dúvidas.  Há quem diga que tudo que um cão faz, faz por "instinto" - normalmente gente que acha que a inteligência vem da alma e que alma é atributo exclusivo dos humanos normalmente têm dificuldades em reconhecer inteligência em animais, ainda que achem que seus bebês estejam se comportando como verdadeiros acadêmicos ao encaixar um cubo em um orifício quadrado, coisa que chimpanzés fazem com facilidade.

Bom, essa longa introdução serve somente para estabelecer que a inteligência é um fenômeno produzido pelos cérebros; existe porque genes capazes de gerar cérebros eficazes em  produzir mais inteligência foram recompensados com a sobrevivência.

Muitas das condições que levaram à evolução do cérebro humano não existem mais - o cara que não sacou que podia jogar sua lança na fera que vinha correndo, urrando e babando em sua direção não sobreviveu - mas o cérebro é um órgão altamente sofisticado e adaptável, e logo pôs-se a produzir outros fenômenos interessantes, sendo um deles o humor.

Humor é uma coisa muito difícil de definir.  Recorrendo novamente ao Aurélio:

humor

(ô) [Do lat. humor, oris.]
Substantivo masculino.

6.Capacidade de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido.

A Wikipedia deixa clara a dificuldade da definição do termo; em algum ponto, citando São Tomás de Aquino, o artigo diz que o humor pode ser visto como algo fundamental à existência humana.  Pode ser, pode ser...aparentemente rir faz bem, libera endorfinas e várias substâncias ligadas ao prazer.  Parece ser também um momento de alívio mental, e esse lado é explorado em um ótimo texto do Hélio Schwartsman, de 2001 (segundo texto nessa página).  Citando Arthur Koestler diz que o humor ocorre quando percebemos o choque entre dois contextos ou códigos de regras diferentes, coerentes, porém excludentes entre si:

Ou seja: quando observamos uma ação qualquer em curso (ou um raciocínio qualquer), temos uma certa expectativa de resolução; quando acontece alguma coisa e  o resultado não é aquele que esperaríamos, mas o resultado de uma outra ação qualquer, inesperada, nós nos surpreendemos.  Quando há alguma tensão ou expectativa sobre o que deveria acontecer, a  resolução de uma piada é um momento de alívio de tensão.  A gente ri de nervoso.

Schwartsman segue lembrando que nós rimos de coisas diferentes em idades diferentes: bebês e crianças riem de caretas, pré-adolescentes gostam de piadas escatológicas e adolescentes gostam de piadas sexuais.  A estrutura é sempre a mesma: algo inesperado acontece e leva ao resultado riso.  O comercial "itaú sem papel" é um bom exemplo:


O bebê rola de rir quando o pai rasga um papel na sua frente.  O que será que se passa na cabeça da criança?  "esse negócio é grande, quando meu pai mexe nele, ele se movimenta". De repente, o pai rasga um pedaço - movimentos devem gerar movimentos, não transformar um objeto grande em algo menos, fazendo um barulho estranho.  É uma relação não-óbvia.

Enfim, conforme envelhecemos, vamos percebendo relações não óbvias no plano abstrato.  Algumas pessoa são melhores que outras nisso.  A formação cultural tem algum peso na capacidade humorística das pessoas, mas não é determinante.  Claro que além de fornecer um certo vocabulário e repertório, a imersão cultural é intelectualizante.  Piadas só funcionam se as pessoas compartilham dos elementos necessários para a compreensão.  Ainda assim, há pessoas que são boas em perceber o humor, outras que além de perceber, se divertem produzindo humor.  Essas duas habilidades aparentemente estão relacionadas a algum tipo de inteligência.

Um indivíduo faz uma piada porque:

1. Percebeu uma situação que julgou engraçada e teve vontade de compartilhar.
É o humor situacional: um comentário no metrô, chamar a atenção de alguém com o olhar para uma situação qualquer, lembrar de uma história ou piada que tenha a ver com um determinado contexto;

2. Demonstração de habilidade intelectual.
Já li por aí que a produção humorística é uma característica mais comum em homens que em mulheres.  Embora a capacidade de entender piadas seja igual entre os dois sexos, contar piadas seria uma forma dos homens demonstrarem às mulheres a sua inteligência e habilidades sociais.  A enorme superioridade numérica dos homens entre os humoristas parece indicar que essa é uma hipótese razoável.

Um indivíduo não acha graça em uma piada porque:

1. Não foi capaz de abstrair os elementos que geram a situação contraditória.  Schwartsman traz dois bons exemplos:

"O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente". 

"O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista"

A compreensão do humor nessas frases requer um pensamento relativamente complexo, que vai além da simples compreensão do que é ser masoquista ou sádico:

- o masoquista é alguém que sente prazer no sofrimento;
- o masoquista da piada sente prazer em tomar banhos frios pela manhã;
- o masoquista toma um banho quente para  não ter o prazer do banho frio, sofre, e assim ter prazer.

No final fica assim: o masoquista gosta de não fazer aquilo que gosta de fazer.  A segunda frase segue uma lógica semelhante.

2. Não entendeu porque não partilha de um certo contexto.
Situação de piadas que só podem ser compreendidas por pessoas que tenham um conhecimento prévio qualquer: o apelido de alguém, gírias ou termos restritos a determinados grupos, idioma ou cultura de locais diferentes (Family Guy é um bom exemplo de humor muito autorreferente à cultura televisiva norte-americana).

3. Entendeu, mas não vê graça porque a piada é óbvia demais.
Conforme as pessoas vão envelhecendo, ganhando cultura e convivendo com humor, certas coisas deixam de ter graça porque a contradição envolvida já foi vista muitas vezes.  Acontece, por exemplo, quando ouvimos anedotas infantis (do tipo "a piada do pintinho caipira é 'pir'").  É um caso de diferença de elaboração intelectual.

4. Entendeu, mas não acha graça porque considera a piada "imoral".
Caso de quem, por motivos culturais (postura conservadora), fica chocado com o simples exercício hipotético de situações ofensivas.  É também o caso dos neuróticos do politicamente correto: não pode piada com nada, só de pintinho caipira mesmo.

O humor não lida, necessariamente, com preconceitos, ainda que utilize muito o preconceito como arma.  Talvez isso ocorra porque quando se faz uma piada, pressupõe-se uma certa "imunidade diplomática": percebe-se uma situação que só seria engraçada caso preconceito "x" seja invocado.  O humor do tipo "piadas de salão", dessas que comediantes como Ary Toledo costumam contar, são baseadas, quase que exclusivamente em preconceitos: português, puta, preto, japonês, brasileiro (safado ou esperto), nordestino, padre, freira, judeu, muçulmano, turco, médico, enfermeira, advogado, corintiano.  Outras figuras comuns são o papagaio, que às vezes entra como esperto, às vezes aparece como sidekick de algum espertalhão; o "Joãozinho", garoto travesso.

"O Manoel, viajando pelo Brasil, vê um papagaio falando, fica impressionado com o bicho e resolve comprar um.  O vendedor, um brasileiro meio safado, resolve tirar proveito do gajo e o vende uma coruja, dizendo ser um papagaio.  O Manoel não nota a diferença e leva a ave para Portugal.  Anos depois, volta ao Brasil e o vendedor pergunta: - e aí Manoel, o louro já aprendeu a falar?  E o portuga tasca: - aprender, não aprendeu...mas presta uma atenção!"

Em recente entrevista ao Roda Viva, Angeli perguntou ao Laerte se seria possível fazer humor com gay sem ser preconceituoso.  A pergunta e a resposta estão nos 3 primeiros minutos deste vídeo:


Concordo com o Laerte.  Quando se faz humor com gays (ou qualquer outro grupo), lida-se com o preconceito, porém, há uma tolerância.  Um reflexo disso é a chatice do humor televisivo brasileiro, extremamente limitado pelo que se pode ou não dizer.  Nesse sentido, o humor americano se beneficia do fato de que o país leva muito a sério as tais da Democracia e da Liberdade de Expressão, ainda que o país não se importe muito com democracia em outros países.  No Brasil não há nada na televisão tão ácido e engraçado como Family Guy - aliás, o Laerte citou, em texto recente no seu blog que mesmo a tradução do título do desenho e do tema de abertura foram "babaquizados" para o mercado brasileiro.  Nos EUA pode-se dizer tudo.

Seguindo com a idéia, preconceito é uma estratégia muito utilizada, porém, não a única.  É possível fazer piada sem apelar para preconceitos e, no Brasil, o Laerte é mestre nisso.


Vejam, a graça dessa tirinha vem do desfecho inesperado, completamente independente da sequência dos dois primeiros quadrinhos.  É o non-sense.

Esse é mais elaborado que o humor anedótico, porque requer que o receptor detecte uma mensagem sutil de um contexto no qual a punchline é non-sequitur.  O humor televisivo inglês (e derivados) se apoiou largamente nessa possibilidade humorística, e o fazem muito bem há muito tempo.  Não sei se Monty Python inaugurou o estilo na TV, com o Flying Circus, mas certamente o grupo fez escola.  Pra quem não conhece, aqui vai um quadro clássico da trupe britânica:


Na mesma linha temos "Big Train" e "That Mitchell and Webb look", ambos ingleses, e o canadense "The kids in the Hall", produzido por Lorne Michaels, do Saturday Night Live.

Mas nem por isso o humor inglês abdicou do preconceito como arma humorística.  Recentemente o Gabriel me indicou um seriado inglês, chamado "Life´s too short".  A tradução literal seria "A vida é muito curta", sendo que o short em inglês pode se referir tanto a curto quanto a baixo em estatura.  O programa é dirigido por Ricky Gervais, o criador e diretor do "The Office".  Gervais é brilhante, e se consagrou, sobretudo, por um tipo de humor awckward, ou seja, constrangedor.

O programa é estrelado por um anão relativamente famoso, Warwick Davis, que participou de vários filmes (Harry Potter, StarWars - neste último, como ewok). No programa, feito em formato documentário-falso, ele interpreta a si próprio, e tem uma agência que aluga anões para participações em filmes, TV e eventos de toda sorte, a "dwarves for rental".

As coisas que acontecem com ele são as mais chocantes possíveis, uma vez que o cara tem um ego gigante.  Gervais explora desde humilhações a quedas - e Warwick cai muitas vezes.  Uma cena do terceiro episódio se desenrola da seguinte forma:

Warwick inaugura seu website, que é um fracasso de acessos.  Lá pelas tantas, ele começa a receber mensagens humilhantes.  Descobre que se trata de um estudante de uma escola próxima e vai lá tirar satisfação.  Entra na sala e começa a ler, para a sala de aula e o professor, uma mensagem que recebeu:

"Seu trolzinho feioso, eu quero te amarrar e te espancar."
a turma ri, o professor pede silêncio e ele começa a comentar:
"agora, não entendo o porque de tanta fascinação comigo...claramente deve ter um fetiche por anões.
a turma volta a rir, ele gosta de estar sendo divertido e continua:
"quer me amarrar, não?  Me parece meio gay..."
(risadas)
"talvez esteja apaixonado por mim...um fetiche gay por anões.  Seu nome é Justin Palmer."
a turma silencia, claramente constrangida.  O professor chama o tal Justin Palmer.  Nesse momento, escuta-se um barulho de motor, a câmera foca o rosto do anão, que fica consternado.  O garoto indo em direção a ele é um tetraplégico.  O professor interroga o menino:
Justin, isso é verdade?  Você escreveu isso?  Você fez cyber-bullying com este homem?
Sim.
Nesse ponto, o professor obriga o menino a se desculpar.  O anão diz que não é necessário, mas o professor prossegue, o menino se desculpa e começa a voltar pro seu lugar.  Quando está no meio do caminho, alguém joga um papel nele e grita "gay".  A turma ri.  A câmera filma o anão várias vezes, que ocasionalmente olha para a lente, o que transporta o espectador para o constrangimento da cena.  Depois, a câmera filma rapidamente o menino tetraplégico, que tem uma lágrima escorrendo.

É o tipo de coisa que normalmente revolta as pessoas, especialmente quando se transcreve a situação, como fiz aqui.  Cenas como essa despertam o moralismo em muitas pessoas, antes de qualquer possibilidade de compreensão humorística.  Mas quem já viu "The office" sabe como Gervais trabalha, e há uma graça nisso.  O humor nessa cena consiste em alívio...é engraçado porque é muito errado.  E sabemos que é uma encenação, que isso não poderia acontecer.

Infelizmente não achei nenhum vídeo com legenda dessa série, mas deixo aqui uma cena em que Liam Neeson conversa com Gervais a respeito de fazer algum trabalho humorístico.  É o tipo de coisa que jamais poderia ser feito por aqui (e tem muita gente pensando "ainda bem, não queremos essa droga").


No making of, os atores que participam da série falam sobre o programa.  O depoimento mais interessante é o de uma anã, que explica que sim, estão mexendo com preconceitos...mas para atingir uma idéia de humor muito mais profunda do que se imagina numa olhada rápida.

Enquanto isso, no Brasil estamos processando comediantes por conta de piadas.  O post abaixo, do Gabriel, traz bons exemplos de como bobagens foram transformadas em celeumas nacionais.  Além das confusões do Gentili, teve o processo do rafa Bastos.

O humor deve ser entendido como arte.  Um cara como david Letterman, capaz de fazer piadas  todos os dias, um Gervais, capaz de nos fazer rir das situações mais fdps, entre outros, são artistas geniais.  Da mesma forma que não se cogitou censurar os quadros de assassinatos de Lula, FHC e outros na última Bienal, que não se cogita proibir estátuas nuas, fotografias da desgraça humana ou comprometedoras, deve-se respeitar a liberdade humorística - aliás, a liberdade de expressão de forma geral.