segunda-feira, 14 de março de 2016

Sobre vaias e ovações

A respeito das micaretas manifestações anti-corrupção (na verdade, anti-PT) de ontem (13/03), vi diversas pessoas fazerem uma leitura preocupada do movimento duplo representado pela (relativamente) inesperada hostilização de Alckmin e de Aécio em São Paulo e pela ovação a Jair Boçalnato em Brasília. Na visão destes, isso seria indício de que o grande vitorioso dessas manifestações não seria o PSDB, mas sim a direita mais extrema.


É mesmo uma sobreposição pungente, convenhamos.

Isso é possível, sim; mas é um ponto de vista que, se não pode ser descartado, tem que ser matizado.
Para mim, antes de tudo, essa dupla ocorrência me parece indício da grande heterogeneidade dessas manifestações, onde poderia-se encontrar desde gente que nem sequer acha que deveria haver impítima mesmo (conheço pelo menos uma pessoa!) até defensores declarados de golpe militar e execução sumária de "comunistas". A heterogeneidade de pauta, obviamente, não se refletia em heterogeneidade social (é mais fácil achar gente que não era a favor do impítima do que achar um negro lá no meio); é antes um signo de quão politicamente vaga (e nula) é  pauta "contra a corrupção". Vagueza, obviamente, que é muito interessante para a mídia, que pode dar a cara que quiser às manifestações.

(por essa eu não esperava)

Podem me chamar de Pollyanna (ou de Mc Bin Laden), mas acho potencialmente salutar que, ao invés de simplesmente saudarem Aécio, muitas pessoas se tenham se ressentido de seu esforço malandro de surfar a onda e se promover politicamente, se apresentando como pretenso "convocador" ou "herói" das manifestações. Porra, seria melhor se estivessem todos lá babando por ele e Alckmin?
Porque uma parte dos verdeamarelos certamente estava, já que houve aplausos a eles em parte da manifestação. Os tucanos talvez tenham tido o azar de pousar momentaneamente no "spot" errado.

Isso se converte em demonização de toda a política? Talvez, mas  não necessariamente mais do que ela já é demonizada cotidianamente. Não vi ainda indícios de que aqueles que vaiaram Alckmin sejam pessoas que antes votavam nele e agora passarão a votar  em Boçalnato para presidento ou em ultraconservadores em geral. Aliás, nem mesmo estou certo ainda de que os apoiadores do Boçalnato estejam realmente crescendo tanto; podem estar apenas saindo de suas tocas. E eles, como seu guru, tendem a fazer um barulho desproporcional a seu tamanho.

"Mas Gabriel, quer dizer  então que só porque vaiaram os tucanos tá tudo  tranquilo, tá favorável?"
Não. Tá tenso, tá deplorável. O crescimento do império geral da boçalidade raivosa é um fato e uma ameaça geral. A água parada da desesperança política é sempre criadouro do mosquito do fascismo (perdão pela analogia tosca, não resisti). Mas ficar gritando "lobo" a todo tempo não é necessariamente estar atento e forte.

Vamos ver como as coisas se desdobram. Até porque, no que depender de nossa gorda mídia, o impítima e a invalidação de Lula continuam como pauta principal; e os tucanos continuarão sendo mostrados implícita e explicitamente como a única esperança -- senão "ilibada", ao menos "viável".

sábado, 12 de março de 2016

Temporada de caça

Alguns comentários sobre o estado atual do galinheiro midiojurídico no caso do pedido de "prisão preventiva" de Lula:


1.Hegel-Engels -- "Dialética" da malandragem



O comentário de Renato Janine Ribeiro resumiu bem a questão das citações pseudo-eruditas no pedido de prisão preventiva de Lula feito por promotores do Ministério Público de São Paulo. O erro -- que, mais que citar autores errado, é o erro de querer pagar de culto sem saber do que está falando -- serve sobretudo de indício da (des)qualificação profissional e intelectual dos envolvidos no MP paulista.
E também serve de indício que um dos efeitos simbólicos da "condução coercitiva" de Moro será a abertura de temporada de caça (ou pesca?) a Lula, com qualquer imbecil com autoridade sentindo-se no direto de ter sua vez sob os holofotes por meio da imolação do molusco barbado.


2. Negação e amadorismo

Contudo, a insistência na quantidade de piadas a respeito de Hegel nas redes sociais já começou a me incomodar. Porque não é tão engraçado.
E porque, sinceramente, pessoal da esquerda: é denial de nossa parte.

Digo isso porque esse erro grosseiro da MP paulista infelizmente empalidece diante da ratada-mor da Deputada Jandira Feghali que, logo após a liberação da "condução coercitiva" de Lula,  compartilhou vídeo de si mesma falando enquanto Lula está ao fundo brandando alto e claro que "eles" (sem especificação) "iriam enfiar o processo no cu".




Só uma porcentagem MUITO pequena da população do Brasil seria capaz de entender a diferença entre Hegel e Engels; e só uma parcela um pouco menor dessa mesma fração está se incomodando e desqualificando o pedido com isso (pois há os que acham que qualquer coisa vale desde que prenda-se o Lula).

Mas praticamente 100% dos brasileiros seria capaz de se chocar com o "enfiar no cu" de Lula -- e de perceber que o que Feghali fez ao compartilhar afobadamente seu vídeo antes de checar seu resultado foi uma besteira colossal, um descuido tremendo. Perto da "pateticidade" evidente disso, como minha amiga Marina Vianna comentou, a onda de gozações com Hegel/Engels que tomou meu feed do facebook e o de outros soa meramente intelectualóide, reclamações pernósticas de uma elite intelectual empedernida.

O rompante flagrado de Lula, por sua vez, tornou-se justamente um "embasamento" do pedido de prisão preventiva, que o acusava de pretender contrariar a justiça e inflamar o país. Conclusão não surpreendente: na atual temporada de caça, tudo que Lula parecer fazer pode e será usado contra ele. E ao que parece, mais do que só de seus inimigos, Lula precisa também resguardar-se da incompetência de seus aliados...

Detalhe curioso e procupante: diversos amigos meus que já estavam a reclamar da tosqueira do pedido de prisão e da confusão Hegel-Engels nem sequer sabiam desse vídeo de Feghali. Isso é um sintoma do quanto a "faxina ideológica" que muitos têm feito no facebook em prol de sua saúde emocional tende a colocá-los em estado de isolamento discursivo e ideológico, tendo como fonte de dados apenas aqueles com quem já concordamos.


3. O que me preocupa de verdade

Mas aqui vem o que, para mim, é o real absurdo do tal pedido.
Não há nada visivelmente "conspiratório" na fala de Lula. Nem se tratava de um pronunciamento público, de uma calúnia ou injúria proferida abertamente, mas de um rompante emocional estritamente privativo diante de pouquíssimas pessoas.

Assim sendo... percebem o que significaria o fato de uma pessoa poder ser criminalizada por meramente falar inflamadamente e insultar **em âmbito privado** um aparato institucional?
Uma realidade em que o ato de, na privacidade de sua própria casa ou escritório, "mandar" algum magistrado tomar no reto, ou de "mandar" uma autoridade ir ter com sua hipotética parturiente prostituinte...  pode render um pedido de prisão preventiva?

Há muita coisa misturada aqui: o oportunismo tosco dos promotores, o delírio anticomunista e renitente ódio de classe, bem como a quase infinita empáfia tão arraigada no judiciário brasileiro.
No contexto de acirramento e afobamento político e emocional, a mistura explosiva desses venenos está arruinando ainda mais nossa já precário, parcial e casuístico "Estado de direito".

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Meu primeiro Eco

E eis que Umberto Eco foi-se do mundo.
Estou triste, pois foi um autor importante para mim. Não seria certo me dizer um fã ardoroso, e nem que sentiria falta dos livros que ele poderia vir a escrever: afinal, li muito pouco de sua obra teórica, e apenas dois de seus vários romances. Ainda assim, afirmo sem titubear que o contato precoce e comedido com a literatura do intelectual italiano -- que se iniciou em 1996, vinte anos atrás -- teve vital impacto em minha formação.

Entre aqueles humanos com quem tomei contato apenas pela leitura, Eco foi talvez o maior responsável por inocular em mim, ainda tão cedo, o pernicioso vírus do gosto pela erudição. Não exatamente o "ser" erudito, que é uma coisa para qual não basta talento ou gosto, é preciso de cultivo e disciplina dos quais não disponho; mas aquela benignamente perversa diversão intelectual que se consegue ter com idéias puras, com ficções da mente, com jogos de palavras. Aquele prazer em se adquirir, reconectar e embaralhar referências, de cultivar e ampliar seu próprio repertório de conhecimento, não apenas como quem lida com um material de grande importância -- a Verdade, o Conhecimento, o Mito, a Cultura -- mas também, e sobretudo, como uma criança que amorosamente manipula seus próprios brinquedos e histórias e personagens; coisas que outros construíram antes para ela, mas das quais ela se apropria, e torna seu, e torna sonho.

Esse foi o resultado de me empenhar tanto em ler "O Pêndulo de Foucault" tão cedo, ainda aos inocentes 16 anos (quando ainda morava em São Luís e estudava no segundo colegial).  Segundo romance de Eco (e provavelmente o mais difícil de ler, me corrija quem leu todos), esse foi um dos livros em que me descobri como um ser inapelavelmente pertencente à área "das humanidades" (se é que restava alguma dúvida àquela altura).


O livro me caiu como uma bomba nuclear de informação cultural de altíssima densidade, despertando menos compreensão -- ainda que esta também tenha-se feito -- do que fascínio. Mesmo com meu repertório limitado para tal leitura, eu percebi que acompanhava com genuíno interesse e diversão o desfile de referências científicas, místicas e filosóficas, quase sempre nas conversas chulamente informais, exacerbadamente especulativas e altamente cifradas dos personagens Belbo, Diotallevi e Casaubon.
Esse, aliás, é um ponto interessante:  praticamente todo mundo tem repertório limitado diante da amplitude insana desse livro específico, e talvez isso é que seja o atrativo em Eco: você não precisa realmente dominar tudo do que ele está falando para se entreter, e ser tocado, e pensar. O que, por outro lado, também poderia resultar num perigosíssimo convite aos cantos de sereia da picaretagem intelectual, não? Hoje, passados vinte anos e muitas milhares de páginas de leitura posterior, tenho curiosidade de saber o que acharia desse livro hoje.

De todo modo, nunca me esqueci desde então -- vinte anos! -- da piada da Universidade de Patafísica, suas disciplinas de Urbanística Cigana e Hípica Asteca e seu Departamento de Tetrapictolomia (a ciência de repartir cada cabelo em quatro). Há um ano e pouco, tornei-me pai; e, em minha paternidade, ainda pensei e penso esporadicamente no tratamento místico-amoroso que o Casaubon de Eco dava a seu próprio recém-nascido:"meu rébis".

Mas guardei particularmente comigo a ácida divisão das pessoas entre as categorias de "cretinos", "imbecis", "estúpidos" e "loucos", que Umberto Eco incluiu no primeiro e memorável diálogo entre Belbo e Casaubon.  Para quem tiver a paciência, reproduzo na íntegra, neste final de post, essa conversa que, em sua pseudo-taxonomia intelectual, é também uma aula informal de raciocínio lógico e uma interminável mas saborosa ostentação de referências eruditas.

Mas falava de meu primeiro encontro com Belbo. Conhecíamo-nos de vista, umas trocas de frases no Pílades, mas não sabia muito sobre ele, salvo que trabalhava na Garamond, e na universidade acontecia caírem-me nas mãos alguns livros dessa editora. Uma pequena editora, porém séria. O jovem que esteja terminando sua tese sente-se sempre atraído por alguém que trabalhe para uma editora cultural. 
"E o amigo o que faz?" perguntou-me uma tarde quando estávamos ambos apoiados no ângulo extremo do balcão de zinco, espremidos por um grupo enorme das grandes ocasiões. Era a época em que todos se tratavam por tu, os estudantes aos professores e os professores aos alunos. Não falemos da fauna do Pílades: "Paga um trago aí para mim", dizia o estudante de dólmã verde-oliva ao redator-chefe de um grande periódico. Parecia São Petersburgo nos tempos do jovem Sklovski. Tudo Maiakovski e nenhum Jivago. Belbo não se furtava ao tu generalizado, mas era evidente que o cominava por desprezo. Empregava o tu para mostrar que respondia à vulgaridade com a vulgaridade, mas que existia um abismo entre forçar intimidade e em ser íntimo. Vi-o empregar o tu com afeto, ou com paixão, só poucas vezes e com poucas pessoas, Diotallevi, algumas mulheres. A quem estimava, sem conhecer há muito, empregava o amigo. Assim fez comigo durante todo o tempo que trabalhamos juntos, e eu apreciei o privilégio. 
"E o amigo o que faz?" me havia perguntado, agora o sei, com simpatia. 
"Na vida ou no teatro?" disse, acenando para o palco do Pílades. 
"Na vida." 
"Estudo." 
"Frequenta a universidade ou estuda?" 
"Não lhe parecerá verdade mas as duas coisas não se contradizem. Estou terminando uma tese sobre os Templários." 
"Que coisa horrível", disse. "Isso não é coisa de doidos?" 
"Estou estudando os autênticos. Os documentos do processo. Mas que sabe sobre eles?"
"Trabalho numa editora e numa editora aparecem sábios e loucos. É função do redator reconhecem os loucos num golpe de vista. Quando alguém aparece com essa dos Templários é quase sempre um louco." 
"Não me diga. Seu nome é legião. Mas nem todos os loucos falarão dos Templários. E os outros, como é que os conhece?" 
"Tarimba. Já lhe explico, ao amigo que é jovem. A propósito, como é seu nome?" 
"Casaubon." 
"Não era um personagem da Middlemarch?" 
"Não sei. Em todo caso era também um filólogo da Renascença, se não me engano. Mas não somos parentes." 
"Fica para a próxima. O amigo toma outra? Pílades, mais duas aqui, por favor. Pois vejamos. No mundo existem os cretinos, os imbecis, os estúpidos e os loucos." 
"Sobra alguém?" 
"Sim, nós dois, por exemplo. Ou pelo menos, sem querer ofender, eu. Mas em suma, todos, a bem dizer, participam de uma destas categorias. Cada um de nós vez por outra é cretino, imbecil, estúpido ou maluco. Digamos que a pessoa normal é aquela que mistura em proporções racionais todos esses componentes, estes tipos ideais." 
"Idealtypen."
"Muito bem. Também sabe alemão?" 
"Arranho, dá para as bibliografias." 
"No meu tempo quem sabia alemão não precisava diploma. Passava a vida sabendo alemão. Creio que hoje isso acontece com o chinês". 
"Como não sei alemão bastante, me formo. Mas, voltando à sua tipologia, que é o gênio, Einstein, digamos?" 
"O gênio é aquele que faz uma componente atuar de maneira vertiginosa, alimentando-a com as outras." Bebe. Diz: "Boa noite beleza. Já tentou o suicídio?" 
"Não", responde a passante, "agora estou numa comunidade." 
"Ótimo", lhe diz Belbo. Retornando a mim: "Pode-se praticar até mesmo suicídio coletivo, não acha?" 
"Mas e os loucos?" 
"Espero que não tenha tomado a minha teoria muito ao pé da letra. Não estou pondo o universo no lugar. Estou dizendo o que é um louco para uma casa editora. A teoria é ad hoc, está bem?" 
"Está. Agora é a minha vez." 
"Concordo Pílades, por favor menos gelo. Se não entra logo no circuito. Então. O cretino não fala sequer, baba, é espástico. Atocha o sorvete na testa, por falta de coordenação. Entra na porta giratória pelo lado contrário." 
"Como consegue?" 
"Ele consegue. Por isso é cretino. Não nos interessa, a gente e reconhece de estalo, e não é do tipo que aparece na editora. Deixemo-lo à parte." 
"Pois deixemos." 
"Sem imbecil é mais complexo. É um comportamento social. O imbecil é aquele que fala sempre fora do copo." 
"Em que sentido?" 
"Assim." Ergueu o indicador, apontando-o em direção ao copo, mas veio batê-lo fora, contra o balcão. "O imbecil quer falam daquilo que está no copo, mas vai e volta, acaba falando do que está fora. Se preferir, em termos vulgares, é o mesmo que a gafe do sujeito que pergunta como está sua senhora ao indivíduo que acaba de ser abandonado pela mulher. Dei-lhe a idéia?" 
"Deu-me. Conheço muitos." 
"O imbecil é muito solicitado, em especial nos eventos mundanos. Põe todos embaraçados, mas depois oferece ocasião de comentário. Em sua forma positiva, torna-se diplomata. Faia fora do copo quando outros cometem a gafe, sabe como desviar o assunto. Mas não nos interessa, não é nada criativo, trabalha de repórter, logo não vem oferecer manuscritos às casas editoras. O imbecil não diz que o gato ladra, fala do gato quando os demais falam do cão. Confunde as regras da conversação e quando o faz bem é sublime. Creio que se trata de uma raça em via de extinção, um portador de virtudes eminentemente burguesas. Vidrado em salão Verdurin, até mesmo em casa Guermantes. Os estudantes ainda lêem essas coisas?" 
"Eu leio." 
"O imbecil é Joachim Murat, que passa em revista seus oficiais e vê, cheio de condecorações, um da Martinica. "Vous êtes nêgre?", pergunta-lhe. E este: "Oui mon général!" E Murat: "Bravo, bravo, continuez!" E assim por diante. Está me seguindo? Desculpe, mas esta noite estou comemorando uma decisão histórica da minha vida. Deixei de beber. Quer mais outro? Não responda, me faz sentir culpado. Pílades!" 
"E o estúpido?" 
"Ah. O estúpido não se engana de comportamento. Engana-se no raciocínio. É aquele que diz que todos os cães são animais domésticos e que todos os cães latem, mas que também os gatos são animais domésticos e que portanto latem. Ou antes, que todos os atenienses são mortais, todos os habitantes do Pireu são mortais, logo todos os habitantes do Pireu são atenienses." 
"O que é verdade." 
"Sim, mas por acaso. O estúpido pode mesmo dizer uma coisa certa, mas por motivos errados." 
"Pode-se dizer coisas erradas, basta que as razões sejam justas." 
"Por Deus. Para que então esforçar-se tanto para se ser animais racionais?" 
"Todos os grandes símios antropomorfos descendem de formas de vida inferiores, os homens descendem de formas de vida inferiores, logo todos os homens são grandes símios antropomorfos." 
"Essa é bem boa. Já estamos naquele limiar em que a gente suspeita de que algo não se encaixa, mas que nos requer certo trabalho para demonstrarmos o que é e por quê. O estúpido é insidiosíssimo. O imbecil a gente reconhece de súbito (para não falar do cretino), enquanto o estúpido raciocina quase como tu, salvo um desvio infinitesimal. E um mestre dos paralogismos. Não há salvação para o redator editorial, tem que esperdiçar uma eternidade. Publicam-se muitos livros de estúpidos porque à primeira vista nos convencem. O redator editorial não é obrigado a reconhecer o estúpido. Se a  academia de ciências não o faz, por que deveria fazê-lo o editor?" 
"A filosofia não o faz. O argumento ontológico de santo Anselmo é estúpido. Deus deve existir porque posso pensá-lo como um ser que encerra todas as perfeições, inclusive a existência. Confunde existência na mente com a existência no real." 
"Sim, mas também é estúpida a refutação de Gaunilone. Posso pensar numa ilha no mar mesmo se tal ilha não existe. Confundo o pensamento do contingente com o pensamento do necessário." 
"Uma luta entre estúpidos." 
"Certo, e Deus se diverte como um louco. Quis a si mesmo impensável só para demonstrar que Anselmo e Gaunilone eram estúpidos. Que escopo sublime para a criação, que digo, para o próprio ato em virtude do qual Deus se quer. Finalizando tudo na denúncia da estupidez cósmica." 
"Estamos cercados de estúpidos." 
"Não se escapa. Todos são estúpidos, exceto o amigo e eu. De novo, sem querer ofender, exceto o amigo." 
"Mas sabe que se aplica a prova de Gódel?" 
"Não sei, sou cretino. Pílades!" 
"A vez é minha." 
"Depois dividimos. Epimênides de Cnosso diz que todos os cretenses são mentirosos. Se ele, que é cretense, assim o diz, e os conhece bem, então é verdade." 
"Isto é estúpido." 
"São Paulo. Epístola a Tito. Ora esta: todos aqueles que pensam que Epimênides seja mentiroso não podem senão confiar nos cretenses. mas os cretenses não confiam nos cretenses, portanto nenhum cretense pensa que Epimênides seja mentiroso." 
"Isto é estúpido ou não?" 
"Veja. Disse-lhe que é difícil individualizar o estúpido. Um estúpido pode até ganhar o prêmio Nobel." 
"Deixe-me pensar... Alguns daqueles que não crêem que Deus haja criado o mundo em sete dias não são fundamentalistas, mas alguns fundamentalistas pensam que Deus haja criado o mundo em sete dias, portanto ninguém que não creia que Deus haja criado o mundo em sete dias é fundamentalista. É estúpido ou não?" 
"Meu Deus -- é o caso de dizer... Não saberia. O que me diz?" 
"É em todos os casos, mesmo se fosse verdade. Viola uma das leis do silogismo. Não se pode extrair conclusões universais de duas particularidades." 
"E se o estúpido fosse o senhor?" 
"Estaria em boa e secular companhia." 
"Isto mesmo. a estupidez nos rodeia. E talvez por um sistema lógico diverso do nosso. a nossa estupidez é a sabedoria deles. Toda a história da lógica consiste em definir uma noção aceitável de estupidez. Grande demais. Todo grande pensador é o estúpido de um outro." 
"O pensamento como forma coerente da estupidez." 
"Não. A estupidez do pensamento é a incoerência de um outro pensamento." 
"Profundo. Já são duas horas, daqui a pouco Pílades fecha e não teremos chegado aos loucos." 
"Já chegamos. O louco é reconhecível de cara. Um estúpido que não conhece os truques. O estúpido procura demonstrar sua tese, tem uma lógica cambeta, mas tem. O louco ao contrário não se preocupa em ter uma lógica, procede por curtos-circuitos. Tudo para ele demonstra tudo. O louco tem uma idéia fixa, e tudo o que encontra lhe serve para confirmá-la. Reconhece-se o louco pela liberdade com que toma nos confrontos os deveres de prova, na disposição de encontrar iluminações. E lhe parecerá estranho, mas o louco mais cedo ou mais tarde acaba vindo com essa dos Templários. 
"Sempre?" 
"Há também loucos sem Templários, mas os de Templários são mais insidiosos. No princípio não o reconhece. parece que falam de modo normal, depois, de súbito..." Fez um sinal de pedir outro uísque, mas voltou atrás e pediu a conta. 
"Mas a propósito dos Templários. Um dia desses um indivíduo me deixou um original datilografado sobre o assunto. Estou quase apostando que seja um louco, mas de aspecto humano. O original começa de maneira pacata. Quer dar-lhe uma olhada?" 
"Com muito prazer. Pode ser até que nele encontre alguma coisa que me sirva." 
"Não creio muito. Mas se tem uma horinha livre dê um pulo na editora. Via Sincero Renato número 1. Será de mais proveito para mim do que para o amigo. Poderá me dizer desde logo se lhe parece um trabalho fidedigno."
"Por que confiar em mim?"
 
"Quem lhe disse que confio? Mas se vier confio. Confio na curiosidade." 
Entrou um estudante, de fisionomia alterada: "Companheiros, os fascistas estão ao longo do canal, com correntes!" 
"Vou esmagá-los", disse o de bigodes à tártara que me havia ameaçado a propósito de Lenin. "Vamos companheiros!" Saíram todos. 
"Que fazemos? Vamos embora?" perguntei, culpabilizado. "Não", disse Belbo. 
"São falsos alarmas que Pílades manda espalhar para desobstruir o local. Por ser a primeira noite que deixo de beber, sinto-me alterado. Deve ser a crise de abstinência. Tudo o que lhe disse, até este instante inclusive, é falso. Boa noite, Casaubon."

Resquiat in Peace

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

ANO X (parte 2): Quando eu cheguei na internet era tudo mato

(este post é uma continuação ou apêndice do anterior. O post original já estava já longo demais, e os assuntos aqui colocados estavam por demais desconexos para se encaixarem na discussão que visei fazer lá).





... E, assim, sem mais nem menos, meio de repente, meio sem ninguém notar, o Wilbor fez dez anos. Urra!

Vale a pena pensar um pouco no antes/depois envolvido nesse tempo,  no quanto rolou nesse meio tempo. Não quero ficar fazendo panorama histórico de verdade -- é trabalhoso, é enfadonho e não é da minha competência. Farei, portanto, uma curta e aleatório seleção de mudanças significativas que me ocorrem neste momento.

Há dez ano eu era solteiro, não tinha emprego, morava em São Carlos (SP) e estava terminando o mestrado. Eu não tinha banda larga em casa, acessava a internet na faculdade. Nunca tinha saído do continente sul-americano.
Minha situação hoje não é lá tão diferente daquela de quando Wilbor fez 5 anos, mas vamos: sou casado e pai de um filho, professor há 9 anos, concursado duas vezes (eu brinco: meu primeiro emprego foi como "colega" do meu pai -- professor universitário estadual no Paraná -- e meu segundo emprego foi como "colega" de minha mãe -- professor universítário federal) e, afinal, um "doutô" de verdade.
A idéia de não ter banda larga é para mim mais inconcebível que a de não ter um fogão em casa. Tive a sorte de poder viajar fora da América do Sul seis vezes.

Há dez anos a internet era MUITO diferente de hoje.
Dava pra baixar qualquer coisa do youtube, sem ter que apelar pra sites especiais.
Não havia "memes". Ou, ao menos, não como uma categoria própria de humor e comunicação, como uma palavra ou idéia de operação conhecida e repetida e propagada por milhões. (Ou seja: memes não eram um meme)
Não havia essa explosão exuberante do gif animado como humor e arte.
Não havia essa rica diversidade de quadrinhistas se estabelecendo pela internet, no Brasil e no mundo.
O Laerte era homem -- e não dava sinal algum de que pensava em deixar de sê-lo -- e era célebre quase exclusivamente por seus quadrinhos, e não como ícone da causa trans ou como uma figura de esquerda.
Não havia podcast pra tudo que é lado.
Não havia selfies -- ou melhor, ninguém no Brasil chamava auto-retrato de "selfie".
Mais ainda: a idéia de se ir para um museu e ficar lá só basicamente tirando fotos de si mesmo era um tanto mais estranha do que é hoje.
Não havia Justin Bieber. Nem Lady Gaga. Nem Anita. Nem Wesley Safadão. Nem Michel Teló.
Ninguém pensava que um negro em breve seria presidente dos Estados Unidos.
Não havia drones assassinos matando pessoas a esmo do alto do céu, repentinos e invisíveis como um Tupã gringo.
Não havia Instagram, nem Twitter, nem Facebook.
Ninguém diria que o Orkut seria extinto só alguns anos depois.
Pouca gente conhecia o termo smartphone, e menos gente ainda tinha algo que pudesse ser confundido com um.


*  *  *


Um curto adendo político.
Quando o blog começou, o governo Lula estava passando pela crise do "mensalão", e uma parte do que motivou a criação do blog era a insatisfação com o comentarismo "mainstream" sobre a política, por um lado, e a complementar ascensão e multiplicação de coisas sombrias no lado direito da internet (i.e. seguidores estridentes e combativos de Olavo de Carvalho e coisas do tipo).
Pois bem: a julgar pelo tom da mídia então, era ÓBVIO que o governo ia cair, que a eleição seria uma lavada. E veio a reeleição do Lula, e a mídia descobriu que seu poder de pautar a efetiva "opinião pública" era muito mais frágil do que ela mesma achava. Solução? arregaçar as mangas e partir para o combate, e que se fodesse de vez o próprio jornalismo no processo. Temos assistido hoje os resultados de mais de uma década desse processo acelerado de forçação progressiva de barra.
Curiosidade: a comemoração dos cinco anos de existência do Wilbor bateu com o que foi talvez o momento mais exitoso e otimista do governo do PT. Nosso decênio, por sua vez, coincidiu com o fundo de poço mais fundo já visto até agora... incluindo uma reedição da marcha com deus com a família em forma de micareta e o congresso mais asqueroso de uma história recente cheia de congressos asquerosos.


*  *  *


Como colocado acima, uma das principais vítimas destes últimos 10 anos foi o jornalismo.
Quando começamos o blog, a esfera pública migrava de vez para a web; hoje, ela migrou para as redes sociais. Hoje, TODO MUNDO sabe coisas via redes sociais -- o que acabou por favorecer também o florescimento e explosão de uma indústria da boataria nunca dantes vista em sua amplitude, complexidade, diversificação e exuberância.

um mundo conectado é um mundo fofoqueiro. 

(Eu já cunhara para mim mesmo essa máxima antes mesmo de montarmos o Wilbor; mas, cara, os últimos anos deixaram isso claro para mim em níveis aterradores.)

Ninguém passou incólume dessa dinâmica dominante, especialmente o pobre jornalismo. Achávamos o jornalismo mainstream ruim na época -- e ele era -- mas não tínhamos idéia de quão fundo a coisa podia descer.
Não basta dizer que ele está morto; seu cadáver é a todo tempo desenterrado, profanado sexualmente e novamente posto na tumba. Ou ainda: vivemos o apocalipse zumbi do jornalismo tradicional. Além de feder e perambular por aí morto, ele é contagioso e tem particular preferência em consumir miolos.


*  *  *


Pra finalizar esse mimimi rancoroso com alguma luminosidade: com tudo que tem de sombrio nos tempos atuais, há dez anos eu não teria imaginado ocorrer algo politicamente  tão bonito quanto as ocupações de escolas por parte de alunos neste último ano, que se iniciou no Estado de São Paulo contra a "reestruturação" sacana e impositiva proposta pela gestão Alckmin.

Para um professor -- e arquiteto de formação -- não tem preço ver alunos transcendendo a institucionalidade apática da escola pública sucateada e efetivamente habitando coletivamente o espaço físico e simbólico de conhecimento que lhes pertence.
Com tudo que possa aparecer de erro prático, político ou moral nesse processo.
Com tudo que possa haver de incerto ou enganoso.
Exigência de perfeição é o escudo dos covardes (falo por experiência própria)

É, seu Belchior: parece que, apesar de tudo, "o novo sempre vem".
Resta ver se (com perdão da pieguice) dará "flores e frutos".


domingo, 24 de janeiro de 2016

ANO X (parte 1): Facebook killed the blog star

Nós, humanos, somos primatas bípedes de cérebro altamente desenvolvido. Tendo as mãos livres (ao menos mais livres que as patas dos quadrúpedes) e alta capacidade de abstração, acabamos por usar essas mãos para contar. Nisso, montamos uma matemática baseada na quantidade de dedos que essas duas mãos livres nos forneciam: um sistema decimal.

Por esse acaso evolutivo, o DEZ acabou adquirindo importância simbólica quase inevitável. Sobretudo na marcação da passagem do tempo.

Pode-se comemorar os 7 ou os 14 anos de existência de uma empresa, de um site ou qualquer outra empreitada; mas tais celebrações não têm no número de anos uma importância especial.
Os primeiros Dez anos de algo, por outro lado, são especialmente comemorados pelo número em si.

Os primeiros cinco anos também, é claro: completa-se neles uma mão inteira de anos (quem não comemoraria isso?). Dez anos, contudo, é o tempo de uma DÉCADA: esse estranho recorte temporal do qual nos acostumamos a esperar (ou impor)  uma miragem de "identidade" histórica -- "OS anos 60", "OS anos 80" e etc, como se alguma síntese possível pudesse recobrir um vagalhão de eventos heterogêneos apenas vagamente correlacionados ou mesmo  meramente simultâneos.
Se em cinco anos de nossa época recente se vê muita coisa ocorrendo, em dez anos o mundo geralmente muda pra caralho. Enquanto recorte de tempo, portanto, os dez anos já adquirem uma aspiração levemente mais "histórica".

Pois bem: tudo isso pra dizer que, afinal,
Wilbor se Revolta já completou uma década.

Logo nos primeiros anos do Wilbor, em nossas mitológicas reuniões de pauta, eu e Marcelo já tínhamos especulado sobre como seria ter um blog por dez, vinte anos. O quão relevante seu acúmulo de conteúdo poderia chegar a ser, fosse como esforço intelectual, fosse como registro do desenvolvimento de nosso pensamento, fosse como testemunho documental do passar do tempo. Galhofeiramente, especulávamos  se Wilbor seria bibliografia de alguém em algum dia.

Tendo isso em vista, é muio interessante para nós poder olhar para aquilo que já fizemos desde então. É merecido destacar, comemorar e observar o ato de se completar o primeiro decênio.

Contudo, um dado tão ou mais significativo que o aniversário do blog é o fato dele já ter ocorrido há meses atrás (16 de setembro, pra ser exato) e ter passado completamente em branco aqui.

Nenhuma efeméride, nenhuma comemoração, nem sequer uma mudança do template do blog. Nós, que brincávamos de mudar e alterar o blog por qualquer coisinha, deixamos passar a data mais marcante de sua existência até então.

Por um lado, esse fato se relaciona indiscutivelmente à grande correria das vidas destes blogueiros no ano que se passou: Marcelo se empenhando na qualificação de seu doutorado, eu tendo acabado de defender uma tese e estando recém-convertido em pai de família. Para além desses fatores, essa falta também é indicativa do estado de ânimo que nos deixou este último ano de merda que foi 2015 no âmbito político/econômico nacional; um ano aziago para além de nosso pesadelos, no qual as flores mais perversas plantadas na confusão de 2013 pareceram desabrochar e feder. Como já me falou o Marcelo: "çaporra me quebrou, mano!"

Contudo, nossa ausência e descuido a respeito de anunciar e pensar o fechamento da primeira década de Wilbor de Revolta é, infelizmente, significativo da relativa perda de relevância que o próprio formato "blog" sofreu desde nossa última comemoração, há cinco anos.


* * *


Outro dia eu tive que GOOGLAR o endereço deste blog. Sério.
Eu não conseguia lembrar de imediato. Ou melhor, googlar era mais rápido e fácil do que me lembrar do endereço do blog que tenho e edito há dez anos.Tudo bem que era seis da manhã, eu tinha acabado de acordar, e minha cabeça nunca mais foi a mesma depois do desgaste do doutorado (atenção, Marcelo!!!). Mas não deixa de ser um indício forte da exígua atenção que tem restado ao blog.
Uma desatenção, por sua vez, não surgiu de repente; foi gradual e progressiva.
Em 2010, ano do quinto aniversário do blog, fizemos 115 postagens.
Em 2012, fizemos 48.
Em 2013 --  o ano-furacão -- 11.
Em 2014, 15.
Em 2015, afinal, estagnamos no número raquítico de 7 postagens.


* * *

Mais que só uma questão pessoal de falta de tempo para finalizar textos a contento, essa falta de uso do blog também se conecta ao estágio atual de desenvolvimento da internet. Longe se ser caso isolado, esse relativo abandono de nosso blog é parte de um fenômeno bem mais geral: a maneira como as redes sociais usurparam  nossa atenção e nossa produção.
Ou, mais especificamente, como o Facebook o fez.

Para mim, a articulação da dupla Timeline/Feed de notícias do Face formou o mecanismos de visibilidade e propagação informacional (tô evitando a palavra "mídia") mais impactante das últimas décadas, socialmente e culturalmente. Realiza-se em software a convergência de funções que já vinha acontecendo nos hardwares: funde-se nele a imediaticidade e amplitude de propagação de plataformas como twitter e instagram com a disponibilidade para textos mais amplos e caixas de comentários intermináveis já existentes nos blogs, nos grupos de discussão de plataformas e redes sociais (como o falecido Orkut) e de variadas páginas.

Logo de início, toda a trivia de comentários e compartilhamento de coisas bacanas que costumávamos fazer pelo Wilbor passou rapidamente para o Face. E com razão: ele se presta ao compartilhamento coletivo de forma incomparavelmente mais eficiente. Ninguém precisa vir ao nosso cafofo buscar nossas sugestões de link, elas são oferecidas pelo feed.
Os posts do blog ficaram definitivamente reservados para colocações mais autorais e assuntos mais longos e desenvolvidos -- aquilo que hoje se chama de "textão". Ou seja: coisas para as quais, coincidentemente, tanto eu quanto Marcelo passamos a ter cada vez menos tempo, ambos embrenhados em nossas respectivas carreiras e vidas pessoais.

Porém, se falamos de tempo, o problema não se limita à maior escassez de tempo "fora" da rede. A  verdade é que o espaço ocupado pelas redes também eclipsou nosso próprio tempo de atenção e produção. O face  ocupa-nos com uma miríade de informações, com coisas que pedem nossa resposta e compartilhamento imediato, com belezas e boçalidades além da nossa concepção -- diariamente. A verdade é que perdemos muito mais tempo com comentários rápidos e compartilhamentos hoje em dia do que quando fazíamos isso pelo blog.

Porém, a absorção e a sedução das redes vai mais longe: mais que um espaço de coisas mais rápidas, o Facebook é um espaço de contato público que o blog nunca pôde ser. É um meio muito mais eficiente em "espalhar a palavra".  Nossas reflexões nunca foram tão lidas quando ficávamos só no Wilbor. Como consequência, o face passou gradualmente a ser nossa plataforma primária de produção. Muitos posts do Wilbor dos últimos tempos foram originados como desenvolvimentos posteriores de posts do face. E, obviamente, tudo o que colocamos no blog é obrigatoriamente anunciado em nossas respectivas timelines.

Esse processo não foi uma exceção isolada: nesse últimos anos, ficou visível que cada vez mais blogueiros montaram no Face sua base de operações, lateralizando (ou mesmo quase abandonando) seus blogs. E porque não? O tipo de visibilidade imediata e velocidade de resposta que ele garante é impressionante.

O problema, porém, é que um "blog" é nosso de uma maneira que nossa timeline do Facebook nunca foi ou será.


* * *

Eu já percebia esse minguamento geral entre os blogs "amadores"; em geral, apenas os "grandes" blogs, os blogs profissionalizados -- em especial os ligados a aluma revista ou portal -- se mantiveram profícuos.
Mas a ficha caiu pra mim sobretudo ao ver este vídeo abaixo, da jovem blogueira Marjorie Rodrigues (cujo blog, anos atrás, praticamente me introduziu em um MONTE de questões do movimento feminista).



Resumindo o ponto principal, o Facebook está se tornando A INTERNET EM SI.

Não nos enganemos: quando fazemos qualquer coisa no facebook, não estamos no "espaço público" da internet, mas no "quintal do tio Mark". Diante de todos os brinquedos e comodidades que ele nos proporciona, abrimos mão de certo grau de nossa autonomia com alegre animação.

O primeiro problema disso, já discutido por muitos, é a falsa pluralidade. Como se sabe, há logaritmos calculando o que nos mostrar ou não no face (assim como no google, aliás) e eles tendem a nos bombardear com aquilo que JÁ nos interessa ou com aquilo que é mais popular, reforçando o entrincheiramento de nossa convivência virtual em guetos ou reforçando a visibilidade daquilo que já é muito visível. Um texto bem interessante a respeito desse fenômeno geral -- em especial, sobre os perigos para a web que a mistura entre busca incessante por "popularidade"e logaritmos secretos de visibilidade em redes sociais pode acarretar  -- pode ser lido neste endereço aqui.

O segundo problema, bem incômodo, é o da memória. É difícil até encontrar nossas próprias informações e postagens na timeline, pois o Face funciona de maneira a "esconder" o velho. Não há como fazer uma simples procura no face, coisa básica que fazemos no Wilbor a todo tempo. O que coloca-se no face é muito menos "nosso", esse é o ponto. Quer dizer, nada que colocamos na internet está sob nosso controle no mesmo grau que um bem/documento material pode estar; mas há graus variados de autonomia e controle possível. Titio Mark nos fornece, pra citar o Vilém Flusser, um rascunho de "totalitarismo satisfatório": um playground fechado tão amplo em suas possibilidades que frequentemente esquecemos de seus limites.  Um processo, aliás, perigoso -- pois, imersos nesse sistema, tendemos inconscientemente a  formatar a nós mesmos para funcionar nesses limites.

Como uma Coletividade Borg, o Face continuadamente se expande e assimila heterogeneidade a si mesmo, mas ao mesmo tempo converte tudo à sua própria imagem e semelhança.

Faceborg.

Resistence is futile.


* * *


Bem, o que concluir disto? Eu concluo que é importante não desistir do formato, não abandonar a idéia de um blog mesmo que não se possa investir muito mais nela. Que viva. nem que seja mais como memória e arquivo organizado de informações públicas do que como fonte de novidade.

Não temos garantia nenhuma de que poder melhorar a frequência deste blog. Até porque 
1. não é como se o mundo estivesse pedindo
2. a idéia sempre foi permitir-se uma frequência baixa, não encarar isto como obrigação.
Mas é preciso investir ativamente aqui, mesmo que só de vez em quando. E isso temos como garantir: que Wilbor continue existindo. 
Um mocó mais nosso, apesar de tudo.

Aclamados pela autocrítica, continuaremos sem parte com o tinhoso, fazendo certas coisas com alguma frequência, sempre fazendo mais ou menos para fazer de vez em quando.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pater imperator mundi

( reflexões esparsas e pouco embasadas em cinco partes )


I.
Posto que uma gigantesca parte das pessoas do mundo é, em diferentes graus, basicamente estúpida e/ou brutal, o machismo é um estado de coisas em que:

a) homens tendem a ser tratados com mais permissividade diante de suas atitudes estúpidas e brutais, ou são mesmo ativamente incitados a serem brutais.

b) Mulheres são também ativa ou tacitamente incitadas a serem  estúpidas e brutais, de forma ligeiramente diferente. São incentivadas a serem estúpidas ao lidar com os homens -- pois mostrar demasiada inteligência ou independência é perigoso, tona-as "menos atraentes" ou "desagradáveis"; são incentivadas a serem brutais no tratamento de outras mulheres, que devem ser vistas fundamentalmente como rivais/inimigas interesseiras numa eternizada e essencializada procura por homens.

O patriarcado tem feito sucesso porque, entre outras coisas, justamente apóia-se na reafirmação da ruindade mediana do ser humano -- como já disse, a estupidez e brutalidade da maioria das pessoas.

II.
Até antes mesmo de ser um estado de homem > mulher, o "patriarcado" é, essencialmente, um estado em que "mais forte/agressivo = melhor". O tal "patriarcado", assim compreendido, impõe um estado de naturalização e essencialização da agressividade e da força como "ordem natural" tácita do universo. Nessa ordem, homens também são o tempo todo brutalizados, em especial na infância; brutalizados como incentivo a serem brutais; e, particularmente, brutalizados se não o conseguirem sê-lo.

III.
No Estado civilizado, a "força" inicialmente física e pessoal é transposta, sublimada e transfigurada para o comportamento e para a centralidade da norma como "grande dominância". Estar na norma = estar alinhado/submisso ao forte. Ou você é forte por si, ou você é ativamente submisso e se adapta em reafirmar a força do forte. Se for visivelmente fraco, ou visivelmente não-alinhado, vai sofrer.

IV. A regra, a moral patricarcal implícita: saiu da norma = tem que se foder.
E não estou falando aqui de crime ou algo que faça mal aos outros, falo simplesmente do fato de alguém não se enquadrar nas regras expressas ou tácitas de como se deve ser. Ou seja: você pode até não fazer realmente mal a ninguém, mas ainda assim será agredido só por não ser forte ou igual o suficiente.
Não fazer parte do coro do poder fará com que aqueles dentro do coro -- especialmente aqueles  mais fracos, mais ávidos e/ou mais inseguros de sua posição -- visem você como alvo/vítima para, pelo exercício do poder (violência) se reafirmarem como parte do coro.
É por isso que o que os americanos chamam de "bullying" é tão comum -- e é por isso que geralmente envolve torcidinhas ou platéias de gente assistindo e se regozijando com a humilhação e o desconforto de outro.
Todos reafirmam a segurança de sua posição na maldita hierarquia tácita pisando naqueles que estão abaixo ou fora dela.

V. Nem só de obediência vive o patriarcado, muito pelo contrário: "Romper as regras" é a suprema demonstração de "força". Seja o engravatado e audaciosos negociante inovador que "muda o jogo" e dirige seu carrão, seja o marginal com arma na mão e correntes de ouro: todos são signos de um PINTO GRANDE, o falo que rompe e irrompe. Mas, é claro, trata-se de um rompimento fingido, encenado -- um rompimento que se dá basicamente dentro das mesmas categorias de agressividade e afirmação pela agressividade.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Admirável fascio novo

Quem considera que "fascismo" seja apenas a união sob um líder carismático e um estado enorme e visivelmente tirânico não entendeu nada, não entende nada e provavelmente continuará sem entender nada.

O novo fascismo tentará sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem, ou que nem mesmo existiu); e nesse esforço continuamente acobertará os muitos que padecem e morrem hoje.

O novo facismo não será multidões em marcha em parada pública, com suas botas em uníssono, seu sizo e um grande führer.

Não será fascismo Orwell-84, fascismo-Stalin de ascetismo e frugalidade; mum pouco mais facismo Huxley (admirável novo fascio), fascismo de proveta, automatizado, de abundância programada: tem-se o que quer que desejar, pois é o próprio desejo que tornou-se politicamente inofensivo.

o novo fascismo será espargido, infrasubjetivo, privado, capitalizado.

o novo fascismo será terceirizado.

o novo fascismo será proativo, do-it-yourself. Será opensource, produzido em rede. wikifascio.

o novo fascismo será conectado. Será LOL, WTF, mind-blowing. Será facismo "com uma face humana". Fascismo miguxo.

O novo fascismo será a estetização da política como sempre, mas não qualquer uma: será chinelagem kitsch-zueira, ou será de afetação gourmetizada, ou será simples fofura ostensiva. Fascismo boçal, facismo troll, fascismo huehuebrbrbr. Fascismo Romeiro Brito.

O novo fascismo será de ruas cheias de gente midiática: gente colorida, classe-média (alta), se divertindo e se sentindo cívica só de aparecer. Levando babá e empregada para o movimento. Fascismo-selfie.
Fascismo-micareta.

Será fascismo "libertarian" (neoliberal), fascismo-com-cara-de-liberdade.
Fascismo-Free lights: cada um na sua, mas com alguma coisa em comum.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Dois pesos, duas medidas



Segunda-feira, 02/11/2015:


"Haddad tem sua pior avaliação"


Manchete em cinco colunas, gráficos no cabeçalho e uma chamada de duas colunas.

A avaliação negativa do prefeito chegou em 49%.  Apesar disso, as políticas públicas da prefeitura são aprovadas pela população, ou pelo menos divide as opiniões:

Fechamento da Av. Paulista para carros: 47% a favor x 43% contra

Redução da velocidade nas principais vias: 47% a favor x 47% contra

Implantação das Ciclovias: 56% a favor x 39% contra



Quarta-feira, 04/11/2015:

"Paulistano reprova gestão da crise da água por Alckmin"


Um quadradinho no canto inferior direito da página, uma coluna de largura, com direito a um gráfico acanhado.

48% dos paulistanos consideram a atuação do governador na gestão do0s efeitos da seca como ruim/péssima.

84% (!!!) consideram que o governo "só fornece dados que interessam a ele próprio".

35% dos paulistanos relataram ter ficado sem água em cinco ou mais dias no último mês (aqui no prédio foram 4 dias).

O racionamento, que segundo o governador não existe, atinge mais os mais pobres.  A tendência é curiosa e lindamente linear.  A porcentagem daqueles que citam a interrupção de água em 5 dias ou mais, dividida por estratos de renda fica assim:

até 2 salários mínimos: 42%
de 2 a 5 salários mínimos: 36%
de 5 a 10 salários mínimos: 26%
mais de 10 salários mínimos: 19%

Esse conjunto de dados não mereceu maior atenção do jornal dito imparcial.  Há alguma diferença de tratamento?

Vejamos:

O jornal tenta produzir uma relação entre a desaprovação de  minoria à avaliação negativa da gestão de Fernando Haddad, embora a avaliação dos efeitos de tais políticas seja positiva - políticas públicas de mobilidade urbana e uso do espaço público pelo público, mas especialmente a redução nos acidentes de trânsito relacionados à redução das velocidades máximas.

Ao mesmo tempo, a reprovação do desempenho de Alckmin (48%), essa relacionada ao fato de que mais de um terço da população ficou sem água pelo menos 5 dias no mês, sendo a maioria pobre mais atingida, é tratada no interior do jornal (cada vez mais fino), sem qualquer destaque na primeira página.

Depois o pessoal do SAC não entende por que eu não volto a assinar esse panfleto.



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quarta-feira, 1 de julho de 2015

O que é um casamento?

Há na vida posicionamentos que defendemos com diferentes graus de convicção.
Existem causas e posições complexas, multifacetadas; ações que envolvem múltiplas ramificações e consequências, boas ou ruins. Há coisas que defendemos sem, contudo, deixar de entender porque outras pessoas desconfiam ou desacreditam delas; sem deixar de compreender que há aspectos negativos que podem e devem ser levados em conta.

Posso, por exemplo, entender argumentos -- ou ao menos o princípio ou em ideais -- defendendo diminuição irrestrita do estado, liberalização econômica e etc.
Embora seja indubitavelmente "de esquerda", há muitos vícios de atitude e posicionamento esquerdistas que por vezes me incomodam; alguns desses vícios são constantemente apontados por aqueles de "direita", em diferentes graus.
(aliás, exercício de paciência: mesmo nos oponentes mais falaciosos, raivosos  ou ignorantes pode-se eventualmente encontrar algum grão de crítica válida com a qual melhorar a nós mesmos)

Há, enfim, posicionamentos políticos difíceis que necessitam constante revisão e revisitação.

O apoio ao "casamento gay" não é um deles.

Na verdade, é particulamente fácil aderir à "causa" neste caso: trata-se de uma medida pequena, clara e específica. Não é à toa que viu-se uma chuva de arco-íris nas redes sociais.

O que é um casamento, essencialmente, hoje?

É tomar uma pessoa de fora de sua própria família -- de seus próprios "laços de sangue" -- e declará-la mutuamente e de comum acordo como, a partir de então, sua nova família. Aquela pessoa passa, a partir de então, a ser tão ou mais importante LEGALMENTE falando que as demais pessoas com quem você divide consanguinidade efetiva.
Um casamento é, nesse sentido, semelhante a uma adoção  (em que você toma uma criança sem parentesco de sangue e faz dela seu filho); mas com um status completamente igualitário de deveres e direitos entre as partes
(pelo menos desde que as mulheres deixaram, graças a zeus, de serem oficialmente tratadas como mesinha de centro.)

Duas pessoas, no meio de todo o mundo, resolvem declarar legalmente ao resto do mundo que são mutuamente mais importantes um para o outro do que o resto do mundo.
Não há porque negar isso a pessoas homossexuais.

A posição contrária ao casamento igualitário é, para mim, límpida e claramente indefensável, por qualquer ângulo lógico. Não há, de nenhum ponto que eu tenha podido vislumbrar, alguma objeção à união homoafetiva que não seja fruto de ignorância, preconceito, estupidez ou mera hipocrisia.

Ignorância a respeito do que está em jogo nesse casamento, ou do que faz uma pessoa ser homossexual; preconceito a respeito  dos homossexuais como seres deficientes (na melhor das hipóteses) ou perversos e corrompidos (na pior delas); estupidez e hipocrisia pela incapacidade de ver neles o espelho de sua própria condição humana e achar -- vejam só! -- que seu próprio casamento está sendo desvalorizado ou ameaçado por eles.

(Na falta de motivos reais e racionais, a ignorância, o preconceito, a estupidez e a hipocrisia se travestem com frequência, desde a aurora dos tempos, de mero "respeito à tradição" ou de "fé".)

Conheço (e gosto) de muitas pessoas que provavelmente devem estar se opondo ou se horrorizando (silenciosamente ou não) ao casamento igualitário. E, independente de gostar delas em muitos aspectos, tenho a mais límpida e simples convicção que, neste ponto, elas estão moralmente, intelectualmente, humanamente erradas.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Folha de São Paulo: a mudança editorial secreta

No dia 17 de outubro de 2014, cancelei minha assinatura da Folha de São Paulo.  Depois de muito tempo de irritação com a absoluta parcialidade da cobertura política do jornal, veio a gota d´água: a demissão de Xico Sá, resultado de sua declaração de voto em Dilma Rousseff (não publicada pelo jornal).

Eu não teria um problema com isso, não fosse o fato de que a tal regra do manual de redação do jornal não fosse aplicada de forma tão cínica.  Muitos dos colunistas fizeram declaração de voto sim, só que às avessas: a utilização de seu espaço para implicar no desastre que seria  a eleição de um candidato - NO SEGUNDO TURNO - só pode ser entendida como sugestão de voto no outro.  A regra só valeu pro Xico Sá.

Pois bem, estava eu sentado no aconchego do lar, enfrentando uma situação pessoal não muito aconchegante, quando recebo um telefonema da Folha.  A atendente me oferece os vinte dias grátis de jornal, que eu prontamente recuso.  A funcionária não desiste: "mas é de graça..."

Não quero mesmo assim.  Explico que já não consigo engolir um jornal que se faz de imparcial e  comete tantos "deslizes" na direção de um partido - ainda que de vez em nunca escreva uns desaforos ao governador de SP e seu partido - é a "imparcialidade" falando eventualmente em períodos absolutamente irrelevantes do ponto de vista eleitoral.

De repente, chega uma informação interessante: a pessoa do outro lado do telefone me informa que o jornal passou por uma "mudança editorial", de forma que seria interessante que eu avaliasse por vinte dias, pra ver se a cara nova me agrada.  Sem maiores informações e derrotado pela insistência, aceito os 20 dias grátis, enquanto marco no Calendário Google a data limite para cancelamento da futura assinatura.

Mais tarde, fiquei curioso com a tal mudança editorial...quem entrou?  Quem terá saído?  Solução fácil: entrei no chat do atendimento ao assinante e perguntei ao jornal.  Reproduzo aqui o diálogo que tive com a atendente Marina, documentado por fotos e transcrito aqui, já que o chat da Folha não permite o uso de ctrl+c/ctrl+v:

17:14:49

Eu: Hoje me ligaram oferecendo uma gratuidade de 20 dias...depois de muita insistência, eu acabei aceitando voltar a receber o jornal para reavaliar, pois fui informado de uma mudança na linha editorial.

17:15:33

Eu: Gostaria de saber o que mudou. Quem entrou, quem saiu.

17:15:53

Marina: Infelizmente não temos todas essas informações, Sr. Marcelo. O senhor obterá as mesmas realizando a leitura do jornal.

17:20:02

Eu:

Então as pessoas que ligam falando sobre uma mudança editorial não sabem que mudança é essa?

17:21:29

Marina: Tivemos alguns colunistas que saíram e outros que agora fazem parte do nosso corpo editorial, mas como são muitas mudanças, não temos todos os nomes. A melhor forma de avaliar o conteúdo é realizando a leitura do mesmo. Assim, o senhor mesmo saberá se lhe agrada ou não.

17:23:58

Eu: Você poderia citar ao menos uns cinco que entraram e cinco que saíram?

17:25:06

Marina: Um momento, por gentileza.

17:31:51

Eu: Ok.

17:31:58

Marina: Agradeço por ter aguardado, desculpe-me pela demora, Sr. Paulo. Peço por gentileza, que entre em contato com nossa redação através do telefone (11) 3224-3222 ou através do e-mail redacao@grupofolha.com.br para obter essas informações.

17:35:01

Eu: Marina, eu considero essa postura do jornal um tanto estranha. Pra quem trabalha com informação, divulgar uma lista de colunistas novos não deveria ser difícil. escreverei para a redação.

17:38:01

Compreendo suas considerações, Sr. Marcelo, mas infelizmente, não temos essas informações. Entrando em contato com nossa redação, o senhor obterá todas as informações.

17:40:09

Eu: Ok, boa tarde.

17:43:24

Marina: O grupo Folha que agradece o seu contato e lhe deseja uma ótima tarde!

17:44:08


Bizarro, não?  Bom, seguindo a sugestão da reticente Marina (será a Silva?), escrevi um e-mail pra redação do jornal, incluindo essa transcrição aí em cima.  Estou aguardando a resposta, mas na minha espera, já descobri algumas coisas, graças ao site do jornal.

Na página que lista os ex-colunistas, é possível ver quem saiu e descobrir a data da última coluna.  Desde o segundo turno das últimas eleições, a Folha perdeu 10 colunistas (no jornal impresso):

Sady Homrich, Ricardo Feltrim, Marcos Caramuru de Paiva (escrevia sobre a China), Marcelo Gleiser (ciência), Fernando Rodrigues, Eliane Cantanhêde, Elena Landau, Eduardo Gianetti e Daniel Pellizari (games).

Entraram para o time outros sete colunistas: Aécio Neves, Jairo Marques, Marcos Sawaga Jank (baseado na Cingapura), Marta Suplicy, Rafael Garcia (ciência), Reinaldo José Lopes (ciência), Roberto de Oliveira (cidadona) e Sandro Macedo (escreve sobre cervejas).


As saídas de Fernando Rodrigues e Eliane Cantanhêde são relevantes, bem como as entradas de Aécio Neves e Marta Suplicy, mas alguém está convencido de que essa pouco mais de meia dúzia de trocas é suficiente para ajustar os rumos da linha editorial do jornal?  Porque essa relutância em divulgar os nomes no atendimento?  Eu diria que o jornal não tem a tal da "grande mudança" pra mostrar, como se observa olhando as entradas e saídas de colunistas, sesundo a atendente Marina "muitas mudanças, não temos todos os nomes".

Como eu não preciso pagar pra ver, vamos ver pelos 20 dias.  Depois eu conto procêis.



quarta-feira, 1 de abril de 2015

Redução da maioridade penal: o brilhante armamento retórico conservador

Em mais um capítulo do processo da ascensão do conservadorismo e "absurdização" da discussão política nacional, a CCJ da Câmara dos Deputados resolveu há pouco, por 43 votos contra 21, que a proposta da PEC que reduz a maioridade penal no país para 16 anos não é inconstitucional.

Apesar de se tratar de uma proposta ridícula, a discussão é legítima...como é legítimo discutir se cavalos devem usar fraldas no país.  Mas os argumentos apresentados pelos que defendem a proposta, divulgados pelos grandes órgãos da mídia nacional são, até agora, uma coleção de não-argumentos.

Um dos artigos mais lamentáveis que vi até o momento foi essa matéria da UOL. Um verdadeiro show de má-argumentação:

1) A mudança do artigo 228 da Constituição de 1988 não seria inconstitucional. O artigo 60 da Constituição, no seu inciso 4º, estabelece que as PECs não podem extinguir direitos e garantias individuais. Defensores da PEC 171 afirmam que ela não acaba com direitos, apenas impõe novas regras;

2) A impunidade gera mais violência. Os jovens "de hoje" têm consciência de que não podem ser presos e punidos como adultos. Por isso continuam a cometer crimes;

Sim, é como se a possibilidade de ir pras "Fundações Casa" da vida fosse algum tipo de incentivo. E como se os "jovens de hoje" com menos de 16 anos não pudessem seguir a mesma lógica. E como se jogar mais gente no escola do crime sistema prisional brasileiro fosse gerar cidadãos melhores ao fim de suas penas.

3) A redução da maioridade penal iria proteger os jovens do aliciamento feito pelo crime organizado, que tem recrutado menores de 18 anos para atividades, sobretudo, relacionadas ao tráfico de drogas;

Claro...porque os bandidos que aliciam jovens de 16 e 17 anos têm muito escrúpulo e jamais irão pensar em compensar a perda destes com crianças de 12 a 15 anos de idade. A entrada no mundo do crime através deste tipo de prática será adiantada em dois anos.

4) O Brasil precisa alinhar a sua legislação à de países desenvolvidos com os Estados Unidos, onde, na maioria dos Estados, adolescentes acima de 12 anos de idade podem ser submetidos a processos judiciais da mesma forma que adultos;

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"O Brasil precisa alinhar a sua legislação à dos EUA"

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Que tipo de argumento é esse? Nenhum dos países "desenvolvidos como os Estados Unidos" apresentam taxas de criminalidade e homicídios tão altas quanto às daquele país, nem uma população carcerária tão grande.  Ainda em relação aos EUA, vale a pena lembrar a correlação positiva entre pena de morte e número de homicídios: estados que aplicam a pena capital apresentam taxas maiores de homicídio.  Porque não argumentar que Brasil e EUA precisam alinhar suas legislações àquelas de países desenvolvidos como Suécia, Noruega, França...ou de Espanha e Alemanha, que voltaram atrás na redução da maioridade penal, após verificar que, como em TODOS OS PAÍSES QUE SEGUIRAM O MESMO CAMINHO NÃO HOUVE DIMINUIÇÃO DA CRIMINALIDADE.

5) A maioria da população brasileira é a favor da redução da maioridade penal. Em 2013, pesquisa realizada pelo instituto CNT/MDA indicou que 92,7% dos brasileiros são a favor da medida. No mesmo ano, pesquisa do instituto Datafolha indicou que 93% dos paulistanos são a favor da redução.

A maioria da população brasileira jamais foi exposta a um debate profundo sobre este tema, que não tem nada de trivial. O advento do Direito é consequência da evolução, através dos milênios - das Ciências e da Filosofia...resultado de muto debate realizado por gente que gastou muito neurônio pra pensar no assunto. A reação imediata de qualquer vítima de crime pode ser o sentimento de vingança...mas se pudéssemos agir sobre este desejo toda vez que acontece algo, a civilização teria uma cara muito diferente - e menos civilizada. Há uma razão prática para termos abandonado as Lei de Talião ("Olho por olho, dente por dente"). A ideia é simples e atraente, especialmente por parte de quem não pensou muito sobre o tema (a imensa maioria desses 93%).

Tomar uma decisão desse porte em função do que a maioria pensa é equivalente a decidir como deve ser feita a distribuição dos recursos da pesquisa científica entre as áreas do conhecimento baseada na opinião do público da Sapucaí; ou decidir o cardápio das merendas escolares baseando-se na preferência das crianças.

Crime é uma doença social. Nenhuma medida punitiva, como já verificado nos países que reduziram a maioridade penal, irá fazer com que caiam as taxas de criminalidade, por um motivo simples: o crime é produto de uma determinada dinâmica social.

Enfim, os agitadores da direita já armaram seus seguidores com argumentos menos risíveis.


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Da existência do mal



Muita gente vai achar estranhíssimo eu colocar a fala de um pastor aqui.
Deixando bem claro, não tenho simpatia pelo figura (Voddie Baucham), e algumas falas dele por aí já me pareceram simplesmente abjetas.

Mas eu gosto de dialéticas, e a questão é que esse vídeo traz uma argumentação interessante, e um contraponto retórico válido a um dos pontos mais recorrentes à argumentação ateísta.
Por mais que seja um humanista laico e "sem deus", a existência da maldade e da desgraça sempre me pareceu que um dos piores argumentos para a inexistência da divindade. Mas ainda é um argumento muito ouvido entre ateus que respeito muito, como Stephen Fry. ("How dare you, God? Six-year-old children with bone cancer?"

É um mal argumento porque, sinceramente, parece um pouco reclamação de criança mimada; faz pensar que temos direito a alguma coisa, ou que entendemos alguma coisa do que realmente ocorre no universo. Seja para ateus ou para religiosos, acho que sempre estamos em apuros quando começamos a ter as coisas como garantidas (to take for granted); a achar que o o universo nos "deve" alguma coisa.

Esse alerta, aliás, vale pra quem estampa "Deus é fiel" no carro. Reversamente, pode-se dizer também que o "milagre" é um argumento péssimo para a existência da divindade.  "Tudo deu miraculosamente certo para alguém, então Deus existe" é só o outro lado irracional de dizer que "alguém está se ferrando injustamente, portanto deus não existe e, se existe, não é bom". NESSE sentido, sim, o argumento de Fry é útil para rebatera crença num paizão que favorece uns e ferra outros -- que é, infelizmente, a crença (infantilizada, na minha opinião) de muitos.

Rejeito a submissão específica que o pastor parece querer pregar, mas compreendo e me solidarizo o sentimento de humildade e pequenez diante do universo que ela evoca.
É triste que esse justo sentimento possa ser instrumentalizado por charlatões de toda espécie.