domingo, 23 de junho de 2013

Super Brasil contra todo o mal!


Pela primeira vez, desde o início da onda de protestos que tomou o país, sinto alguma segurança para expor em público minhas impressões sobre o que vem acontecendo.  Só nos últimos dois ou três dias as coisas começaram a se definir bem, sob o aspecto do significado político.  De qualquer forma, adianto que não é uma posição definitiva; a velocidade com a qual os fatos vêm acontecendo, o surgimento de novos elementos e a perplexidade com a qual venho observando este movimento já me fizeram mudar de posicionamento diversas vezes nos últimos dias.  Penso que essa seja a única forma saudável de construir uma posição: através dos debates e discussões, leitura e observação atenta das diversas narrativas que se colocam, tanto por parte da grande mídia quanto através das posições externadas nas redes sociais.

Posto isso, passo a discutir alguns pontos que considero fundamentais para a compreensão do atual momento histórico: os motivos que deram início aos protestos, o jogo de ressignificação que vem se desenrolando, a captura da pauta de reivindicações por setores conservadores da sociedade, o papel das instituições políticas e por fim, o que penso sobre o futuro deste processo.


1.     O começo de tudo


 Dada a proporção que os protestos atingiram, não se pode negar que havia uma demanda reprimida.  Mesmo com os avanços sociais na história recente do país - e não foi pouca coisa - havia uma insatisfação generalizada na população, especialmente na classe média.  A não-novidade é que essa insatisfação é meio que natural: dificilmente alguma sociedade não tem uma série de críticas a respeito de vários aspectos de seu país: a educação sempre pode melhorar, crime é sempre um incômodo, a vida nas grandes cidades naturalmente traz consigo uma série de problemas, políticos corruptos, etc.

  Quando falo de classe média, não estou me referindo aos pobres recém-promovidos à tal da “classe C”, mas a classe média tradicional, aquela que tem capacidade de bancar ensino e saúde privados, que pode viajar uma vez por ano pro exterior, que janta fora...enfim, o pessoal aspirante a rico.

Agora, contra o que protestam essas pessoas todas?  As manifestações começaram com um objetivo muito claro: a redução das tarifas de ônibus e metrô na cidade de São Paulo.  Mas só os R$0,20?  Em princípio, sim.  O MPL (Movimento Passe Livre) existe desde 2005, e em 2006 fizeram sua primeira manifestação na cidade de São Paulo, quando Kassab (DEM) reajustou as tarifas de ônibus de R$2,00 para R$2,30 (+15%).  Voltaram às ruas em 2010, quando o mesmo Kassab reajustou novamente a tarifa para R$2,70 (+14,81%) e novamente em 2011, quando atingimos o atual valor de R$3,00 (+11,11%).  Em 2011, foram 10 manifestações que se estenderam de janeiro a abril, além de alguns atos na frente da casa de Kassab, sendo que a maior delas reuniu 7 mil pessoas.  Enfim, foram atos contínuos, promovidos por um movimento social pequeno, praticamente uspiano, que no máximo se equivaliam a outras manifestações de médio/grande porte na cidade de São Paulo.

O reajuste proposto por Haddad neste ano, para R$3,20 é o menor da série (+6,67%), o prefeito assumiu há cerca de seis meses, a cidade de São Paulo vive uma situação de pleno emprego...o que mudou?  O que teria levado tanta gente às ruas dessa vez?  Pode-se alegar que ao bater em R$3,20 o valor finalmente chegara a um valor inaceitável, ou que o acúmulo de aumentos em relação à inflação acumulada é que chegou no limite do que se pode conceber.  Acho que não.  Acho que há algum fator superveniente que provocou o inchaço do movimento, e passo a relatar, em ordem cronológica, como fui percebendo os fatos.

Bem, as manifestações do MPL em 2013 vinham ocorrendo da forma esperada.  Eu vi a pintura da maior faixa do movimento, com os dizeres “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar”.  Essa faixa foi confeccionada no prédio da Geografia e História da USP, onde há um grande vão livre e muito espaço para produzir esse tipo de material.  Era dia de colóquio no laboratório, uma quarta-feira, e eu me lembro de ter achado graça da “ameaça" de “parar a cidade”, já tinha visto aquilo antes.  Enfim, conforme o previsto, o número de manifestantes variou de 2 a 6 mil nos três primeiros protestos, dentro da faixa dos anos anteriores e sem despertar maior atenção da mídia, exceto pelos atos de vandalismo que foram acontecendo.  No terceiro protesto, dia 11 de junho, a situação começou a mudar: houve muito vandalismo na Av. Paulista e a reação da PM terminou com o saldo de 30 manifestantes e 8 policiais feridos.  Surge a seguinte imagem:


No dia seguinte, a Folha e o Estadão publicam editoriais contra o MPL, que a Folha (leia aqui) classifica como “um grupelho ciente de sua condição marginal e sectária ”, cuja reivindicação “de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 --abaixo da inflação, é útil assinalar - não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados. (...) É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.”

O governador Geraldo Alckmin, direto de Paris, manda seu recado para a PM, que “promete ser mais dura contra protestos”.

É muito importante frisar que até este ponto toda a imprensa e a imensa maioria da sociedade estava contra as manifestações – inclusive eu e muita gente da esquerda.  O tom parecia ser exagerado para uma reivindicação tão banal, afinal, “eram só 20 centavos, o aumento do Haddad veio bem abaixo da inflação, muito inferior aos de Serra/Kassab...”

Bem, lá se vão os manifestantes para o quarto protesto, no dia 13 de junho, quinta-feira.  Já se esperava que ocorressem novos confrontos, mas o que se viu foi uma reação extremamente desproporcional da PM.  Dessa vez foram detidas mais de 200 pessoas, muitas por portar vinagre, e foram feridos 105 manifestantes, 18 policiais e tcharãn...15 jornalistas.  7 da Folha, incluindo uma repórter que tomou um tiro no olho e um fotógrafo, que também atingido no olho tinha, até a última vez que verifiquei, poucas chances de recuperar a visão.  Se o protesto gerou a imagem do PM acuado, este gerou cenas igualmente marcantes, em uma quantidade incrível:


A PM “errou a mão”...mas tudo bem, havia sido autorizada a usar da força para conter os protestos, pelo governador e também pela mídia.  Os jornais certamente lamentariam o ocorrido.  Veio o editorial da Folha:

“A Polícia Militar do Estado de São Paulo protagonizou, na noite de anteontem, um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir. Cabe à PM impor a ordem, e não contribuir para a desordem. (...) O Movimento Passe Livre preconiza a paralisação de São Paulo em nome da irreal reivindicação de tarifa zero para os transportes públicos (não eram vinte centavos, aquele pretexto?) (...) Nem mesmo o saldo de 13 PMs feridos justifica o emprego de meios excessivos pela polícia. Tampouco foi eficaz a ação da PM, afinal ela acabou contribuindo para paralisar a cidade, mais até do que o próprio protesto.”

A Folha traiu a PM.  Alckmin não haveria de fazer o mesmo, certo?  Parceiro antigo, adepto de soltar seus cães sobre manifestantes - lembram de Pinheirinho??  Não?? Lembrem.  Bom, o governador se limitou a declarar que “temos a melhor polícia do Brasil”.

Aqui termina a primeira parte do post.  A partir deste momento, as coisas começam a tomar outro rumo.


2.       Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve!


Dia 17 de junho de 2013, segunda-feira.  Fomos para a rua, muito mais pela indignação de ver o direito de protestar sendo cerceado do que exatamente pelos vinte centavos.  O governo havia, através da PM, proibido o uso da Avenida Paulista como palco dos protestos, com o pretexto de não atrapalhar o trânsito, conforme pedira a Folha...a polícia acabou parando a via para coibir a manifestação na base da porrada.  No facebook, todos contra a polícia, o alvo principal das críticas era Alckmin, que acusava os atos de ser uma armação política para prejudicar seu governo.

Me encontrei com alguns amigos no cruzamento da Rebouças com a Faria Lima.  Alckmin anunciara que não permitiria o uso de balas de borracha, apesar de achar que a PM agiu bem: “eventuais desvios de conduta serão investigados e punidos”.  O clima foi de festa absoluta: conseguimos, a contragosto do governador, retomar as ruas da cidade (ou teriam eles aberto passagem?) , chegamos à Paulista sob os aplausos dos que assistiam nos prédios...de vez em quando, aplaudiam as pessoas que sacudiam lençóis brancos e bandeiras brasileiras nas janelas e sacadas - fiquei pensando que devia ser mais legal estar lá em cima, sensação de estrela do rock.  Pelo caminho, ouvia-se, principalmente, o “vem pra rua vem, contra o aumento”, além de “que coincidência, não tem polícia, não tem violência”.  Havia algumas pessoas com bandeiras, cartazes de diversos temas e o hino nacional foi cantado algumas vezes.  Alckmin e Haddad foram pouco citados, ouvi apenas uma vez um “Ei, Dilma, vai tomar no cu”.  Tudo normal, pensei...estava impressionado com a quantidade de gente que, na minha cabeça, estava lá para protestar pelo direito de protestar, direito conseguido a duras penas.  Era uma celebração da democracia.

Pelo caminho, telefonei algumas vezes para a casa dos meus pais, para acalmá-los e saber das notícias.  Soube da invasão da Alerj e da tomada da marquise do Congresso...fiquei impressionado, não achava que fosse ver isso na vida “povo muito bundão”, pensava.

Tirei fotos, compartilhei algumas coisas no facebook e a reação foi muito positiva...o grupo que curtiu era muito heterogêneo, segundo o seu espectro político.  Muita gente gostou daquilo, da esquerda à direita.

No dia seguinte, 18 de junho, começaram a aparecer coisas estranhas: a imprensa estava toda a favor dos protestos, “verdadeira festa da democracia”, apenas criticando os isolados atos de vandalismo, pontuais e pouco representativos perto das massas que protestavam pacificamente.  O facebook estava extremamente nacionalista, como está até agora...e já tinha gente com a pulga atrás da orelha, porque haviam observado, já na grande passeata do dia anterior um princípio de hostilização dos partidos e manifestantes identificados com a esquerda.  O Gabriel foi o primeiro a colocar um contraponto, e chegamos a participar de uma conversa no facebook, com o Franklin, a respeito deste texto, na qual eu argumentava que entendia que a irritação das pessoas se devia a não aceitação da liderança de partidos de esquerda, como PSTU, que tinham suas bandeiras na frente da manifestação.  A manifestação do dia 17 foi muito grande, de forma que, dependendo de onde a pessoa estivesse, veria uma passeata diferente...de qualquer forma,

Ainda no dia 18, houve uma reunião de Haddad com o conselho da cidade e integrantes do MPL.  No mesmo dia, a tentativa de invasão da prefeitura.  A PM se fez ausente, deixando a Guarda Civil Metropolitana encurralada dentro da prefeitura enquanto rasgava a barraca de um casal de sem-teto, só pra não deixar cair muito o nível de perversão.  A impressão que tive foi justamente a de que Alckmin resolveu deixar a bomba para Haddad: os protestos estavam mais direcionados contra a prefeitura, no centro da cidade do que ao governo estadual, no distante bairro do Morumbi – em que pese a tentativa de invasão no dia 17 (a sede do governo paulista fica dentro de um parque, todo gradeado e mais fácil para dispersar multidões).  Além de permitir a depredação da prefeitura, a PM ainda “liberou” os saques no centro da cidade por duas horas.  Há inúmeros registros de pessoas que viram policiais a poucos metros de onde os vândalos arrombavam e roubavam lojas.

No dia 19 (esse será o último registro cronológico), Haddad e Alckmin anunciam, em conjunto, a redução das tarifas.  O MPL mantém a manifestação marcada para este dia, agora, para celebrar a redução da tarifa.  Neste ponto, protestos já irromperam em várias cidades do país, com uma pauta difusa e sem objetivos claros.  Uma multidão foi para as ruas, 110 mil somente em São Paulo.  Neste dia li e ouvi, de amigos, vários relatos que davam conta da hostilização dos partidos e movimentos sociais ligados à esquerda.  O PT foi expulso da manifestação, outros partidos foram hostilizados.  Chegaram a fazer um cordão de isolamento que em pouco tempo foi rompido pelos agressores, que estavam espumando de ódio.  Bandeiras eram tomadas das mãos dos militantes, queimadas ou rasgadas, às vezes às dentadas.  Uma amiga relatou ter visto uma bandeira do PT, em chamas, ser atirada contra os militantes petistas.  Os gritos de “sem partido” dominavam.  O clima era de selvageria total – provocado justamente por aqueles que julgam que o povo não precisa de partido, afinal, somos civilizados e se cada um agir por si podemos chegar a bons acordos e decisões.  Tá.

Aí sim eu vi civilidade e respeito à pluralidade!

O MPL, missão cumprida, se retira do movimento.  Sobra uma imensa massa, brava com muita coisa, despolitizada, além de um contingente de nacionalistas, moralistas, com seus discursos anti-corrupção, contra tudo que está errado, enfim, contra o mal.  Precisam salvar o país desse estado de pouca-vergonha em que se encontra, precisam acabar com esses partidos que estão roubando nosso patrimônio, precisam prender todos os políticos, fechar o congresso e, quem sabe...derrubar a presidente.  Tudo em nome da pátria.


3.      O processo de dessantificação das esquerdas, sua demonização e as lembranças de 64


Há uma certa tensão no ar, principalmente no meio das esquerdas.  O movimento que começou pedindo a redução das tarifas de transporte público, criado e gerido por um movimento nascido no Fórum Social Mundial de 2005, recheado de integrantes de diversos partidos da esquerda brasileira, foi, de uma hora pra outra, tomado por uma turba raivosa.

É importante lembrar que, desde a redemocratização, TODAS as grandes manifestações sociais foram lideradas e conduzidas por partidos da esquerda.  São a esquerda e seus diversos movimentos sociais e partidos que historicamente lutam e lutaram pela igualdade das mulheres, pelos direitos LGBT, pelas minorias étnicas, por reajustes salariais, pelo direito de greve, pelas políticas de inclusão social e, acreditem, pela moralização na política.  A hostilização ao PT só existe porque as denúncias de corrupção envolvendo membros do partido eram inéditas, e as elites eram extremamente incomodadas com a percepção popular de que seus representantes políticos eram vistos como parte de um grupo que só buscava atuar em causa própria.  O PT, entre os grandes partidos brasileiros, ainda é o que registra, por uma larga vantagem, o menor índice de corruptos.  Tá aqui.

Não importa: sob a alegação safada de que todo partido rouba igual, relativizou-se o fato de que o quanto se rouba e quantos dentro do partido roubam varia muito entre as diversas afiliações.

Aqui vem uma digressão que julgo ser importante para compreender o atual momento: a eleição de Lula em 2002.  Pela primeira vez chegava ao poder um homem de origem humilde, representando um partido que era praticamente uma utopia.  Seu governo pode ser dividido em duas colunas: a dos grandes feitos e a das traições àqueles que bancaram sua candidatura: a militância petista.

Na coluna dos grandes feitos vêm, principalmente, as políticas sociais, que possibilitaram a inclusão de milhões de pessoas na economia do país, o que acabou levando o país a um processo de crescimento econômico e geração de empregos movidos pelo aumento no consumo – claro, mais dinheiro nas mãos dos pobres, mais dinheiro no comércio.  Por outro lado, na coluna das traições, temos duas coisas graves: o abandono completo de bandeiras históricas, como a reforma política e, mais grave, o esquema ilegal que ficou conhecido por “mensalão”, seja o que quer que tenha sido, já que o julgamento condenou sem demonstrar o esquema denunciado (compra de votos de parlamentares da própria base majoritária).  As denúncias de 2005 obrigaram o PT a vender a alma ao diabo, literalmente: através de um discurso elogioso ao ex-presidente José Sarney, Lula atrai o PMDB (ou parte dele) para o governo.  Aqui morre a reputação ilibada do Partido dos Trabalhadores.

Não consigo imaginar um dia mais feliz para a direita brasileira do que o dia em que eles olharam para o governo do presidente mais popular da história do país, do partido que não roubava, e pensaram: “pegamos!” A partir da entrada do PMDB no governo, nenhum militante de esquerda ficou livre de escutar que eram exatamente iguais aos corruptos de direita.  Qualquer reacionário enche a boca para falar isso, já ouvi muitas vezes.  O julgamento de exceção que foi o mensalão acabou por condenar figuras históricas do partido.  Junto com estes, condenou toda uma militância à posição de ladrões, corruptos, defensores daquilo que há de pior em nosso país – eis a percepção da classe média reacionária brasileira.

A grande mídia brasileira é dominada por uns poucos veículos: organizações Globo, editora Abril, grupo Folha e Estado de São Paulo.  Todas pertencem à famílias abastadas paulistanas, com exceção da Globo, que é do Rio.  Todas têm em suas histórias as manchas de seu apoio ao regime militar e um corpo editorial claramente pendente pra direita.  A Abril, através da Veja, liderou a mais dura campanha de difamação já sofrida por qualquer governo no Brasil. Os fatos são grosseiramente distorcidos, manipulados, mentiras são contadas ou no mínimo ventiladas.  Do editorial à coluna de fofocas, a Veja tem uma agenda antipetista muito clara.  A Globo, lançada à condição de principal canal de TV do país para servir como porta-voz da ditadura militar brasileira faz o mesmo em sua cobertura televisiva tem ainda mais tradição no jogo: da vez em que mostrou a passeata pelas diretas já como se fosse uma comemoração pelo aniversário de São Paulo à edição do debate Lula x Collor que decidiu as eleições de 1989.  Estadão pelo menos é mais honesto: costuma assumir em editorial suas posições, enquanto a Folha posou, por muito tempo, de jornal de centro-esquerda.

Dois dias atrás, em um debate na USP, do qual participaram os professores Marcos Nobre (Filosofia/Unicamp), Pablo Ortelado (Gestão de Políticas Públicas/USP-Leste) e Renato Rovai (Cásper Líbero), avaliou-se que os atuais movimentos são dominados por uma massa que não pode ser acusada, peremptoriamente, de ser de direita, muito menos de fascista.  Concordo.  Há sim elementos e organizações de direita nessas passeatas, e também fascistas...mas a grande maioria, a massa mesmo, é formada por gente despolitizada, que lê muito pouco, que cresceu tendo como principal fonte de informação esses veículos de comunicação: Globo, Veja, Folha, Estadão.  Quando você pega uma Veja na mão, esta parece ser uma revista séria: bem diagramada, vários textos, fotos...enfim, informação!  Pode-se dizer o mesmo do Jornal Nacional.  É incrível a quantidade de gente (e não falo só da parva massa) que não acha que esses veículos não manipulem informação.  Tive muitas discussões com gente razoavelmente inteligente que se pauta pela Veja...e pior: com gente que diz que não se pauta pela revista mas posta nas redes qualquer merda que a revista publique contra o governo petista.  Normalmente gente cuja leitura não passa muito disso aí...tendem a relativizar o nível de leitura: “ah, você lê Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, esses caras?  Tudo igual.”

Enfim, o fato é que essa massa alimentada à base de Veja e JN pode não ter maldade alguma, mas é facilmente capturada pelo discurso da direita.  Na minha opinião, é o que explica o sequestro da pauta do MPL pela direita.  A coisa fica meio fascistóide no momento em que alguns elementos se combinam:

A) A pauta se torna genérica e moralista: “somos contra a corrupção”:

Pessoal...alguém (não envolvido) é a favor da corrupção?  Ser contra a corrupção é como ser contra o mal.  Quando marchamos sobre o Congresso Nacional pedindo o fim da corrupção, queremos que façam exatamente o quê?  Em primeiro lugar, a corrupção não acabará.  Nunca.  É uma questão probabilística: sabemos que uma porcentagem da população tende a querer tirar vantagem para si através de meios escusos...nossa sociedade é particularmente tolerante e praticante de pequenas safadezas, é difícil esperar que justamente no meio político, onde mais se pode atuar no sentido de tirar vantagem em benefício próprio esse pessoal não fosse aparecer.  Claro, somos contra a corrupção.  Agora, a forma de termos menos corrupção, é através do aprimoramento das instituições, da transparência...e talvez, da educação.  Enfim, daquelas coisas que todo mundo tá cansado de saber, que a Dilma colocou nesse último pronunciamento e que o pessoal genial do facebook acusou de “bla-blá-blá” – como se não fosse possível fazer o mesmo com qualquer discurso político.

B) Supressão das instituições de representação democrática:

Partidos políticos banidos do movimento, bandeiras arrancadas, rasgadas e queimadas, gente pedindo a dissolução do Congresso...é compreensível que a sociedade esteja de saco cheio de uma classe política tão corrupta quanto a nossa, e que tenha a percepção de que “político é tudo igual” (não é verdade).  Agora, não me parece que tenham inventado nada melhor que a democracia representativa...o que dá pra discutir é se parlamentarismo é ou não melhor que o presidencialismo.  Agora, democracia representativa se faz assim: a gente vota, os mais votados assumem.  Se a gente não curtir o trabalho deles, não vota mais, uai!  E se eles forem pegos aprontando, aí a gente tira.

Pedir o impeachment da Dilma, como querem alguns, é absurdo.  Primeiro, porque até onde sabemos, ela não fez nada de errado.  Segundo, porque a maioria da população aprova o governo dela: 55% segundo Ibope dessa semana, e a aprovação pessoal da presidente é de 71%.
O Datafolha publicou ontem uma pesquisa realizada entre os manifestantes que estiveram na Paulista na quinta-feira (dia em que expulsaram os partidos de esquerda da manifestação que comemorava a conquista da reivindicação colocada por eles): desses que estavam lá, apenas 10% votariam na presidente se as eleições fossem hoje, o que só mostra a distância desse pessoal para a média da população brasileira.  63% das pessoas tinham entre 21 e 35 anos – justamente a geração despolitizada à qual me referia (a minha, aliás).



Mesmo que a maioria estivesse insatisfeita com a presidente, não se tira um líder eleito assim, sem mais nem menos.  Pra nossa sorte, não se trata de time de futebol.  Democracia é coisa séria, e nela, todos têm o direito de protestar, de falar bobagem e de se expressar à vontade.  Aliás, a presidente que temos lutou diretamente pra que tivéssemos o direito de criticá-la abertamente.
FHC governou 8 anos com índices de popularidade muito abaixo dos de Dilma, que supera até mesmo Lula em período similar.

C) Símbolos nacionais (bandeiras e hinos) ostentados à exaustão:

Cria-se com isso um clima de que quem é a favor do Brasil deve se juntar a nós, afinal, somos contra o mal, lembra? Junta-se isso ao discurso da moralidade e tem-se um monte de moralistas de verde-amarelo exigindo a prisão dos ladrões de vermelho.

D) Clima de terror nas ruas:

Renato Rovai disse que há relatos de que no Rio até o tráfico colocou agentes infiltrados para aumentar o clima de caos urbano, isso viria como retaliação ao Estado do Rio pelas UPPs; em São Paulo, a polícia permitiu saques, em várias cidades há enfrentamento e o clima está cada vez mais tenso.  Se isso continuar por muito tempo, é possível que a população, assustada, peça mais polícia nas ruas, força nacional..."é necessário reestabelecer a ordem".

E) Eleição de um “salvador da pátria”: Joaquim Barbosa.

Tá, não acho que role...mas o que tem de gente no face publicando que "é só derrubar os quatro que estão na frente dele" não é brinquedo.  É uma pena que as pessoas só tenham passado a prestar atenção no Barbosa depois do mensalão.  Se tem um homem que não tem equilíbrio suficiente pra ser ministro do STF, este homem é Barbosa.


Não vejo uma ameaça iminente de golpe no país, mas os elementos necessários pra um certamente existem: imprensa, insatisfação generalizada, discurso moralista, sentimento nacionalista e uma figura messiânica (ou, minimamente, um perfil que se encaixaria). Não sei onde isso vai dar, acho que ninguém sabe.  Em São Paulo, a situação parece ter dado uma acalmada...ontem houve protestos “só” em 20 cidades. Agora, se os protestos continuarem por muito tempo, um cenário possível me parece ser o seguinte: a esquerda tentará se recolocar nas ruas.  Para tanto, seria necessário contar com suas bases, com o povo das periferias, a tal da “Classe C”.  Possivelmente a figura de Lula será utilizada para levar os mais pobres a defender o governo, o que pode por fim às tentativas de derrubar Dilma, ao menos nas ruas, mas certamente aumentará o acirramento dos debates...não vai ser nada bonito.

Pra encerrar, só mais duas ideias rápidas.  A primeira é a respeito da revogação do aumento de  vinte centavos:  é interessante (e real) pensar nessa conquista como algo muito maior que o mísero vintém. Esses vinte centavos por viagem que ficam no bolso do povo, equivalem, até 2016, a R$8,6 bilhões.  Quase um quarto do preço da Copa, só em São Paulo.  Isso tem um significado simbólico maior: o resultado das manifestações resultou na participação popular na decisão orçamentária do município.  A população e o conselho da cidade optaram por investir esse dinheiro (que a princípio sairá do orçamento mesmo) na redução da tarifa.

Por fim, um trechinho do editorial d´O Globo, de 2 de abril, celebrando o golpe militar de 64.  A versão integral está aqui.

“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.”

"verde-amarelo, sem foice nem martelo"


Parece familiar?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Eliane Brum, linda




http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/04/pela-ampliacao-da-maioridade-moral.html



"É claro que, se alguém acredita que os crimes cometidos pelos adolescentes não têm nenhuma relação com as condições concretas em que vivem esses adolescentes, assim como nenhuma relação com as condições concretas em que cumprem as medidas socioeducativas, faz sentido acreditar que se trata apenas de “vocação para o mal”. Entre os muitos problemas desse raciocínio que parece afetar o senso comum está o fato de que a maioria dos adolescentes infratores é formada por pretos, pardos e pobres. (São também os que mais morrem e sofrem todo o tipo de violência no Brasil.) Essa espécie de “marca da maldade” teria então cor e estrato social? Nesse caso, em vez de melhorar a educação e as condições concretas de vida, a única medida preventiva possível para quem defende tal crença seria enjaular ao nascer – ou nem deixar nascer. Alguém se lembra de ter visto esse tipo de tese em algum momento histórico? Percebe para onde isso leva? "

quinta-feira, 14 de março de 2013

Chico & Bento






Vou dizer já qual é o problema: esse negócio de conclave tá todo errado.  Primeiro, se o Espírito Santo inspirasse alguém, nem precisava de conclave.  Os cardeais se reuniriam em praça pública, e quando o mais velho contasse até três, todos diriam o mesmo nome, ao mesmo tempo, em voz alta.  Deviam tentar, seria divertido:

“É um...é dois...é três...e...já!”
“Ailehrgonbçdjkgjadlçfjbnaokjdfr!!!!”
“Habemus papam!  Cardeal John Olorunfemi Onaiyekan!

Mas já que a coisa do Espírito Santo certamente não vai rolar, proponho o seguinte: libera logo o uso da internet no conclave.  Se os cardeais pudessem consultar a internet, talvez evitassem esses constrangimentos.  Pra não perder a seriedade, podem bloquear os sites de pornografia e redes sociais...essas coisas distraem muito.

Cardeal pensando, enquanto descobre as maravilhas do Google Search:

“Deixa ver quem é esse tal de Bergoglio...acusado de sequestro, cooperação com uma ditadura sul-americana.  Hum...melhor escolher o outro cara”.

Ok, Ratzinger era muito conhecido no colégio cardinalício, chefe da Inquisição, e diz que não curtia seus tempos de jovem nazista...não sou cético quanto a isso (apesar da cara dele), muita gente melhora ao longo da vida.  Será que naquele conclave, alguém não chegou e disse: “Joseph...você foi eleito, mas...assim..esse negócio de acobertamento de pedófilos e tal...fica meio difícil, né?

Mas acompanhando as biografias dos outros papabili, fiquei impressionado com a quantidade deles que já se meteu na vida política, normalmente pelo lado errado.  Um outro lá era fascista, o Odilo, por exemplo, pôs em prática seu autoritarismo há poucos meses, ao empossar na reitoria da PUC-SP a candidata que ficou em 3º lugar na eleição (à exemplo do que Serra fez ao nomear Rodas, o segundo colocado nas eleições uspianas  para o cargo de reitor...será que nenhum deles foi bom a vida toda?  Não dava pra eleger um desses?

Claro que não.  Bergoglio, segundo os analistas e especialistas em papa e Vaticano – incrível como tem gente especializada nisso – representa  uma tentativa da igreja de conter a perda de fiéis na Europa e nas Américas, reformar a Cúria Romana, e muito, muito mais.  Guess what?  Os europeus não estão deixando de ser católicos porque o papa é ruim...estão deixando a igreja porque a ideia é ruim.  Duvido que isso tenha retorno.  A igreja sobreviverá por muito tempo abaixo do Equador, por razões óbvias.

Sinceramente, Bentinho vai deixar saudades...esse foi o papa que tornou possível que todo mundo fizesse piada com a figura do papa...porque João Paulo II era muito carismático, as pessoas ficavam realmente bravas com quem tivesse ressalvas a ele.  Com Ratzinger a coisa virou uma Esbórnia...aliás, quem foi que disse pra ele que podia sair?  Mas tenho a impressão de que esse papa aí não ficará pra trás.  Só não sei se fica muito tempo.  O cara tem 76 anos e um pulmão a menos (sério!).

Pra deixar vocês com uma mensagem do novo papa, escolho um a declaração dele a respeito do projeto de lei que legalizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina:

“É uma agitação do Pai da Mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Ou seja: coisa do diabo.


P.S. Esse papa curte muito futebol.  Se eu fosse ele, tascava uma encíclica declarando que Maradona e Messi são melhores que o Pelé.  Só pra sacanear.
P.S.2. A Globonews deu o tom: "o novo papa já conquistou a todos".  Isso porque ele fez uma piada com a Argentina (o fim do mundo) e pediu que rezassem por ele...já fomos mais exigentes.
P.S.3. Chico anda de transporte público e cozinha suas próprias refeições.  Posso ser papa também?  Onde cabem dois, cabem três.
 P.S.4. Bentinho nos escreveu contando que o principal motivo de sua renúncia foi a “leitura e reflexão profunda acerca dos ensinamentos de Wilbor”. Pediu para colaborar com o blog.  Quer assumir a editoria de Religião e Gnomologia.  Estamos considerando.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Oito de março, enquanto for preciso.

“Ser mulher é para Sabina uma condição que ela não escolheu. Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Diante de uma condição que nos é imposta, é preciso, pensa Sabina, encontrar a atitude certa. Parecia-lhe tão absurdo insurgir-se contra o fato de ter nascido mulher quanto glorificar-se disso.”
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pp 95.*


Lembrete: o "dia da mulher" não é um dia de comemoração.
Nem de dar presentes. 
Ou rosas. 
Ou parabéns.

Não que seja ofensa ou crime fazê-lo (isto já foi discutido aqui em outras ocasiões); a questão é que essas atitudes simplesmente não atingem o ponto, e acabam por tratar a data como uma mistura de "dia das mães" com "dia dos namorados".

Como o 20 de novembro, o 8 de maio é um dia de reflexão e de memória; dia de comemorar sim o já conquistado, mas principalmente de lembrar do quanto se está longe do objetivo.
Fazendo minhas as palavras do Sakamoto, creio que o que posso fazer de melhor no dia é "agradecer novamente às mulheres que passaram pela minha vida e foram fundamentais para que fosse um homem menos idiota."  
E convivi com muito mais mulheres que homens na minha vida. Minhas professoras, alunas, colegas, amigas, tias, avós, irmãs, mães e esposa: é dia de agradecer o que me ensinaram e, em especial, de me lembrar de toda a merda que já tiveram e ainda têm de aguentar só por serem mulheres.
Pro terminar o dia, compartilho alguns links antigos, de textos de uma jovem blogueira que, embora eu não veja mais por aí faz muito tempo, foi bem importante na minha "feministização" em particular: a Marjorie Rodrigues. "Como você OUSA não ser “feminina”?" e "da frase que mais me irrita nessa vida"
Segue também algumas interessantes iniciativas de arquivamento e comentário de manifestações diárias de machismo na internet e na propaganda: o Slutshaming Detected e o "Dia da mulher NÃO é nada disso". Aviso, porém, que são sites deprimentes; quase tanto quanto necessários.


* Eu queria achar mais citações do lindo capítulo "As palavras incompreendidas" do livro de Kundera, mas não rolou. Fica para outra ocasião.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dia do arquiteto: a "evidência Niemeyer"

(Aconteceu há alguns meses; mas, por ocasião da recente morte de Oscar Niemeyer e de nosso novo "dia do arquiteto", acho que vale a pena relembrar...)

Numa  discussão coletiva sobre Evolução x "Intelligent Design" no meu facebook (totalmente involuntária de minha parte, ressalto), tive que presenciar um arquiteto (defensor do I.D.) dizer a outro a seguinte frase:
"Um arquiteto ateu é sempre um constrangimento extra: se não consegue ler o melhor Projeto de todos, estampado não apenas até onde o olho alcança, mas sendo o próprio olho uma parte integrante dele, como ele pode querer projetar algo que preste?"
Achei interessante destacar tal frase porque nela se vê uma amostra perfeita de como funciona a retórica mistificadora de certos polemistas que têm abundado cada vez mais na imprensa e, especialmente, na internet.Trata-se de uma frase de efeito bem colocada, que irrita e ofende seu interlocutor indiretamente (ou seja, sem xingá-lo de incompetente  de forma literal), e que é aparentemente coerente e lógica... Mas que não resiste ao mais reles exame empírico de evidências.

A "evidência Niemeyer" sendo, é claro, a primeira que vem à mente.




É sempre chata a onda acrítica de canonização de alguém já absurda e excessivamente consagrado em vida. Mas ainda que haja exagero, ninguém se torna um baluarte sem algum mérito pessoal e histórico acumulado...
Oscar Niemeyer fez muitas obras bem questionáveis, especialmente no fim da vida; mas produziu obras boas, e algumas cuja excelência beira a unanimidade. Não era, enfim, alguém "incapaz" de projetar "algo que prestasse" -- embora um ateu publicamente declarado há décadas.

O mais importante, porém, é isto: se fosse "incapaz" de fazer um bom projeto, certamente não o seria por desacreditar da idéia de uma persona divina. Afinal, os que vêem uma intenção análoga à humana nos movimentos no universo não têm o monopólio da contemplação de sua beleza e complexidade; e, se pensam -- ou dizem -- que têm, é por estarem por demais enredados em seu próprio narcisismo.


Preparem-se!


A maior parte do tempo dos internautas é gasta com poucas coisas: redes sociais, webchat/videoconferências, vídeos, compras online e notícias.  Essas atividades são dominadas por quatro grandes empresas: Facebook, Google/Youtube, Microsoft/Skype e Apple.  E toda pesquisa passa por portais de busca, onde a Google reina só e são feitas a partir de sistemas que podem ser “fixos”, como PCs e laptops e “móveis” (smartphones e tablets) – aí entram, novamente, Microsoft, Google e Apple.

Não adianta mais ter muito cuidado: cada vez que navegamos ou fazemos compras online, empresas como Facebook, Apple e Google estão de olho, coletando dados e analisando nossos gostos e preferências.

Já faz algum tempo que eu me impressiono com a quantidade de produtos que me são oferecidos nessas propagandas que de fato podem me interessar.  A maioria deles, claro, são coisas semelhantes à outras que comprei online: roupas, livros, itens de cozinha, etc.  Esses produtos ficam pipocando nos cantinhos de vários sites que visito, esperando um momento de fraqueza e impulso consumista e, às vezes, aparecem com descontos imperdíveis.

Penso que não tardará muito até que a Google saiba mais sobre os nossos gostos do que nós mesmos.  É possível que, através de algoritmos, descubram relações entre características das coisas que nós compramos nas quais jamais iríamos pensar...por exemplo: Fulano, quando entra online para pesquisar roupas, dá mais atenção (ainda que não compre, necessariamente) a produtos com um certo padrão de cores – gosta de camisetas de cores sóbrias, porém, olha mais para camisetas dessas cores quando o modelo usa uma bermuda de cores mais vivas.  Talvez Fulano nem goste tanto de bermudas de cores vivas, mas por algum motivo, essa característica faz com que ele, inconscientemente, se interesse mais pela camiseta.

É só um exemplo, mas é nesse sentido que caminham as pesquisas sobre o gosto dos consumidores.  Google, Apple e Facebook, coletam uma quantidade absurda de informação sobre cada um de nós; as duas primeiras muito mais, creio, já que estão presentes em praticamente todos os smartphones e tablets do mundo – e ainda temos a Microsoft tá tentando entrar nesse jogo.

Imaginei, outro dia, a seguinte situação: Fulano acorda e tem um entregador da Google Delivery na sua porta, com um pacote.  Você não se lembra de ter comprado nada, e pergunta pro entregador se não há algum engano.

- Engano nenhum, senhor. Esse pacote é seu. Você não comprou, mas sabemos que você o quer.

- Como assim?  Eu não comprei nada, não quero.  Pode ir embora.

- Não quer receber?  Mas já está pago...ou melhor debitaremos hoje o valor no seu cartão de crédito Visa, aquele platinum com vencimento no dia 13.

- Isso é um absurdo!  Um abuso, invasão de privacidade e um crime!  Retire-se com essa merda de pacote, vou contatar as autoridades.

- Senhor, mas é aquela panela francesa que você queria, de ferro fundido esmaltado, a de trinta centímetros.  O produto entrou numa promoção, veio com 35% de desconto e hoje é dia 7, que é o seu dia de fazer compras online.  O senhor costuma comprar no dia 7, já que recebe, provavelmente, no dia 5.  Estamos apenas economizando o seu tempo, já que se encomendasse hoje, levaria mais 3 dias para receber.

- 30%?  Hum... (o sujeito olha pra cima, pensa) – não importa!  Ainda assim é um abuso, um acinte!  Vá logo com esse pacote.

- Tudo bem, senhor.  Ninguém está te obrigando a nada.  Cancelarei agora o débito no seu cartão, tenha um bom dia!

- Ótimo.

O entregador começa a sair, o Fulano fica olhando pra baixo, ainda um pouco indignado, mas certo de que está perdendo uma grande oportunidade.  O entregador já está a uns dez metros quando ouve:

- Qual é a cor?

- Deixa eu ver na nota...laranja senhor.

- Traz logo essa merda aqui!

- Tenha um boa dia, senhor!  E ó: daqui a pouco vai passar “Philadelphia”...o senhor não viu ainda, né?

- Olha só!  Que canal?

- HBO.


Fulano sobe o elevador indignado, desempacotando sua panela nova.  Resolve que vai mesmo assistir o filme, resolve fazer uma pipoca,  Mas não sem antes dar um pulo no facebook.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Em Estado Laico, não.


O preâmbulo da nossa Constituição Federal diz o seguinte:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.

A mesma carta diz, um pouco adiante, o seguinte:



Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.


Acabo de ter acesso a uma reportagem que relata a retirada compulsória de um cidadão do plenário da Câmara de Vereadores do município de Piracicaba – SP, motivada por sua recusa a se levantar para a leitura de um trecho da Bíblia (para ler a reportagem, clique aqui).


Juro que o fato não me surpreendeu, embora eu sempre fique com raiva dessas coisas.  Vivemos em um Estado laico, mas no qual o laicismo, talvez pra combinar com uma porção de outras coisas, é capenga.

O texto constitucional é relativamente simples, até muito simples se comparado ao inútil e ornamental juridiquês, ao qual tantos brasileiros tiveram acesso durante o pré-julgamento do mensalão.  Neste ponto, releiam o que diz o Artigo 19 e seus incisos.  Ok?  Vamos lá: alguém mais ficou com a impressão de que a declaração de laicismo não é tão clara assim?  Que perto da declaração do preâmbulo, que deixa tão claro que os parlamentares constituintes promulgaram a CF “sob a proteção de Deus”, o disposto é meio nebuloso?  Penso que a declaração podia ser muito mais clara.  A redação do inciso I poderia ser lida da seguinte forma:

“União, Estados, Distrito Federal e Municípios não podem:
- fundar igrejas e cultos;
- ajudar, de qualquer forma, as igrejas e cultos existentes;
- atrapalhar o funcionamento destas igrejas e cultos;
- manter relações de dependência ou aliança com as tais igrejas e cultos EXCETO QUANDO HÁ INTERESSE PÚBLICO.

Creio não ter feito qualquer malabarismo desonesto com as palavras aqui.

A Liberdade de culto já está garantida no Art. 5º, VI, VII e VIII.  O art. 19, citado em vários lugares da internet como o cantinho da CF que defende o laicismo estatal me parece muito mais assegurar que o Estado não vai inteferir nos assuntos das igrejas do que garantir a isenção do Estado.  E deixa ainda uma brecha (grande) para que o Estado se alie às igrejas e cultos, desde que haja “colaboração de interesse público”.  O que isso quer dizer?  Quem determina o que é de interesse público?  Não sei.

De qualquer forma, o texto é assim provavelmente por conta da covardia dos deputados constituintes, àquela época praticamente todos católicos e com muito medo de comprar briga com a igreja.  O fato é que todos entendemos que o Brasil é um Estado laico.   Este princípio tem uma série de implicações, mas que dizer, fundamentalmente que, enquanto Estado, e por força de Lei, somos adeptos do secularismo.

Por conta desse pequeno detalhe, não deveriam ser permitidas as seguintes coisas:

- Crucifixos (ou qualquer outro símbolo religioso) em fóruns, tribunais, repartições públicas;
    Até no STF tem...e não é só uma cruz vazia, tem um Jesuizinho pendurado lá...

- A inscrição “Deus seja louvado” nas cédulas de Real;
- Ensino religioso confessional nas escolas públicas - pessoalmente sou contra qualquer forma de ensino religioso nas escolas públicas, penso que história das religiões é o único tema relevante e que este pode ser trabalhado dentro da disciplina de História;
- Orações e leituras de textos religiosos antes, durante ou depois de solenidades públicas, aulas em instituições de ensino públicas (lembram desse caso?);
- Exceções especiais para faltar dias de trabalho, provas ou atividades profissionais/estudantis por conta de crença pessoal – acho que a liberdade de crença não se sobrepõe às regras impostas à toda coletividade.  Não é o Estado laico que deve se adaptar às exigências especiais de cada crença existente no país.  Não pode trabalhar nas manhãs de terça?  Não se candidate a um emprego público.

O Estado laico não pode fazer apologia à qualquer crença ou mesmo ao ateísmo, porém, o ateísmo é a única postura possível e compatível com uma democracia.  O Estado deve se comportar como se não existisse nenhum Deus, como se nenhuma crença fosse melhor que a outra.

Voltando ao ocorrido em Piracicaba: a violência da postura do presidente da Câmara e mais, a justificativa do diretor jurídico são atitudes absurdas.   Tratam-se de reações preconceituosas relativamente comuns no cotidiano (infelizmente), porém inaceitáveis no contexto da vida pública em um Estado laico.

É sobre esse tipo de coisa que Daniel Dennett fala quando diz não ser possível o diálogo com as religiões (instituições, não pessoas).  O simples ato de permanecer em silêncio ou sentado, indicando que o sujeito não compartilha da crença dominante na Câmara Municipal foi visto como ato ofensivo pelo presidente da casa.

Dennett conta que quando estava escrevendo seu livro "Quebrando o Encanto", submeteu os manuscritos para diversas pessoas e pediu a elas que apontassem qualquer coisa que pudesse soar minimamente ofensiva, na tentativa de compor uma obra de filosofia o mais livre possível de ruídos que pudessem interferir na leitura fria dos argumentos.  Pra quem leu "Deus, um delírio", o livro de Dennett é realmente de morno pra frio, e olha que o Dawkins nesse livro faz um esforço genuíno para tentar convencer as pessoas a pelo menos refletir profundamente sobre o ateísmo.  Enfim, apesar do esforço Dennett não atingiu seu objetivo: pouco tempo após a publicação do livro, passou a receber um grande volume de correspondência ofensiva.

Pra quem é muito religioso, a simples declaração alheia de discordância é ofensiva, e eu entendo o porquê.  Digamos que alguém te conte que acredita em um deus muito peculiar: trata-se de um grande periquito roxo, chamado Amijubi(*), que é responsável por todos os fenômenos do universo e que de vez em quando te ajuda, desde que você faça orações regulares todas as terças, pela manhã, enquanto faz uma dança na qual bate os braços e faz gestos que lembram uma galinha ciscando o solo.

Trata-se de uma ideia bastante extravagante, que você provavelmente refutará sem pensar muito.  Dizer para a pessoa que compartilha dessa crença que você não acredita pode ser entendido por ela como uma ação potencialmente ofensiva, porque se você resolver explicar as razões pelas quais não comprou a história do grande Amijubi (provavelmente porque a história toda é meio boba), fatalmente estará deixando implícito que acha a tal crença um tanto ridícula e, possivelmente que os crentes do Periquito Roxo talvez não batam muito bem da cabeça.  É bom lembrar nesse ponto que a existência dessa entidade é possível, no sentido de que não pode ser desprovada.

Em uma avaliação honesta, é muito provável que qualquer crente encare as crenças alternativas da mesma forma que encaramos o grande Periquito Roxo.  A ideia de que milhões de seguidores do hinduísmo veneram a imagem de uma divindade-elefante (Ganesh) provavelmente é engraçada ou ridícula para a maioria dos católicos...mas 900 milhões de pessoas discordam e levam o deus-elefante muito a sério.

Acreditem: é só por uma questão de imersão cultural que cristãos não acham exótica a crença em um deus tripartite que era muito severo, que vê sua criação fugir de seu controle, apesar de ser onisciente, onividente e onipotente e que depois resolve mandar o próprio filho (que é Ele mesmo) para morrer pelos pecados dos homens e que ama a todos – mas te manda prum lugar horrível por toda a eternidade caso você não aceite o sacrifício do filho Dele (de novo, Ele próprio) como sua salvação e devote sua vida à sua adoração e louvor...e nem vou mencionar o Espiritismo.

Enfim...eu entendo que o senhor presidente da Câmara dos Vereadores de Piracicaba se sinta ofendido pela simples presença de alguém que não compartilha de sua fé e se recusa a prestar reverência a uma ideia que talvez julgue ser ridícula – ainda que de forma educada.  Mas como aponta Dennett, não existe forma educada de dizer pra alguém que pensamos que sua crença não tem fundamento, que se trata de uma ilusão.  A ira desse senhor, em sua intimidade, é justificável...já a materialização dessa raiva em forma de atitude obtusa, preconceituosa e violenta é que não se justifica de jeito nenhum.  Em Estado laico, não.




 (*) estou apostando que este será um dos nomes derrotados na escolha do nome do mascote da Copa – mas me pareceu um bom nome para deus esdrúxulo genérico.

sábado, 27 de outubro de 2012

Revista Piauí e quadrinhos (carta)


Quem lê a revista Piauí sabe que quadrinhos têm presença frequente na revista. Após uma sucessão de pequenas decepções com essa presença, vi que queria dizer algo à revista; assim, após anos de assinatura, mandei minha primeira carta. Segue:



Prezados realizadores da Piauí,


Até onde sei, Piauí é praticamente a única revista jornalística de peso no Brasil a dedicar um espaço tão significativo à ilustração e histórias em quadrinhos. Mais que pelos bons cartuns, charges e tiras que aparecem aqui e ali, sempre quis parabenizar vocês por dedicarem ocasionalmente algumas de suas amplas folhas a histórias de página inteira ou bem mais longas (parabéns!). Como os quadrinhos ainda são uma mídia relativamente marginalizada ou vista com condescendência, sempre considero oportuna sua presença num espaço de reconhecida qualidade.

Contudo (e aqui vem a crítica), é desanimador quando esse espaço esporádico dado a histórias maiores é ocupado por material aquém do nível geral da revista. Isso, ao meu ver, costuma ocorrer em boa parte por certa insistência nos mesmos nomes. Por exemplo, não foi à toa que tantos leitores queixaram-se do veterano Gotlib: seus poucos bons momentos não justificavam sua antiga frequência na revista (que, graças, deu uma trégua). Da mesma maneira, a relevância histórica e os momentos interessantes do casal Crumb não justificam a publicação de qualquer coisa feita por eles: até com "astros" precisa-se ser seletivo, e parte do material veiculado aqui tem sido repetitivo e dispensável (passei do puro divertimento para o enfado). As histórias longas de Caco Galhardo, por sua vez, têm se tornado sucessivamente mais pretensiosas, desinteressantes e mal-desenhadas (passei de admiração inicial à pura indignação). Por favor, não pensem que peço algum "banimento" do artista; apenas aconselho que se apresente aqui material mais decente, do qual temos evidência de que ele é capaz.

Porque me queixo disso, afinal? Afora sempre interessar ver a revista ser a melhor possível, eu lhes escrevo porque há um enorme número de autores com obras inteligentes e relevantes, no Brasil e mundo afora,  que poderiam estar no lugar de certas aparições repetidas que, grosso modo, tornam-se cada vez mais desinteressantes. Não quero ser injusto: nomes "novos" aparecem por aqui volta e meia, e isso é ótimo. Mas além de tomar o espaço potencial desses "novos", a veiculação de material repetitivo e menos qualificado de "consagrados" presta um desserviço à mídia dos quadrinhos em geral -- que, infelizmente, ainda convive com a imagem de primo pobre, caipira, anão, corcunda e retardado das artes, para citar Art Spiegelman (cujas participações na Piauí, diga-se de passagem, têm sido impecáveis). Bem sei que nem os melhores acertam sempre, e que a crítica que apresento aqui é, inevitavelmente, um juízo subjetivo. Mas penso que muitos leitores da revista concordariam que o louvável espaço ocasional dado aos quadrinhos na Piauí tem um grande potencial que poderia ser mais frequentemente alcançado com uma seleção ainda mais ampla na autoria e mais criteriosa na qualidade.

No mais, permanecem meus parabéns, e que boas histórias em quadrinhos continuem a ocupando essas páginas enormes.


Gabriel Girnos
Rio de Janeiro


...

Sei que soa antipático tentar dizer a uma revista o que ela deveria ou não publicar, mas confio que às vezes uma opinião manifesta pode ajudar -- ainda mas se for consoante com a opinião oculta de muitos (o que, obviamente, não tenho como saber!).

Agora é esperar pra ver se eles vão 1) publicar o texto na seção de cartas da revista impressa, 2) publicar na íntegra ou editar muito e 3) tirar sarro da carta, como é de costume...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

carta de Miruna Genoino em defesa do pai



A coragem é o que dá sentido à liberdade
Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada.
Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.
Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?
Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas...
Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?
E sigo...
Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?
Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas...
Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas...
Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?
Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.
Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao
encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.
Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.
Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.
Com toda minha gratidão, amor e carinho,
Miruna Genoino
09.10.2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

nada mudou

Uma rápida análise dos resultados do primeiro turno das eleições municipais:


Me parece que se a exposição do mensalão na mídia teve algum impacto negativo, só foi o suficiente para manter a atual situação nas cidades - ou seja: não fosse o mensalão, talvez não existisse mais oposição no Brasil.  Fiz uma brincadeira com planilhas aqui e percebi quase nenhuma alteração no quadro de 4 anos atrás.

Do chamado "G85", que é o grupo de cidades com mais de 200 mil eleitores e capitais, tivemos 36 cidades com eleições definidas no 1º turno.  Dessas, a distribuição entre os partidos é a seguinte:

PT: 9
PSDB: 6
PSB: 5
PMDB: 4
PDT: 3
DEM: 3
PP: 2
PCdoB: 1
PR: 1
PSD: 1
PTN: 1

Teremos 2º turno em 49 cidades.  Dessas, o número de candidatos por partido que passaram para o segundo turno na primeira posição:

PT: 9
PSDB: 8
PMDB: 7
PDT: 4
PCdoB: 3
PP: 3
PPS: 3
PSB: 3
PSD: 3
DEM: 2
PSC: 1
PSOL: 1
PTC: 1
PV: 1

E dos que passaram na segunda posição:

PT: 12
PSDB: 9
PMDB: 8
PDT: 4
PSB: 3
PR: 3
PTB: 2
PCdoB: 1
PP: 1
PRB: 1
PRTB: 1
PSOL: 1
PV: 1

Nas eleições de 2008, os partidos elegeram o seguinte número de prefeitos nessas cidades:

PT: 20
PMDB: 18
PSDB: 13
PDT: 7
PSB: 5
DEM: 5
PP: 5
PTB: 3
PR: 3
PCdoB: 2

- o PT, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 18 prefeituras (2 a menos), apenas 1 capital definida (Goiânia);

- o PMDB, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 15 prefeituras (3 a menos), 2 capitais definidas (Rio de Janeiro e Porto Velho);

- o PSDB, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 14 prefeituras (1 a mais), e por enquanto fez apenas 1 capital (Maceió);

- o PDT, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 8 prefeituras (1 a mais), e por enquanto fez apenas 1 capital (Porto Alegre).

- o PSB, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 6 prefeituras (1 a mais), e por enquanto fez 2 capitais (Belo Horizonte e Recife);

- o DEM, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 5 prefeituras (mesmo número), 1 capital definida (Aracaju);

- o PP, se eleger todos os candidatos em 1º lugar fica com 5 prefeituras (mesmo número), e não venceu nenhuma capital.

Ou seja, ficou tudo muito parecido.  Lula não é um ex-Midas (ou um Midas).  Pode-se avaliar que ele tenha errado a mão em Recife, mas certamente levou Haddad para o segundo turno aqui e o Pelegrino em Salvador.

O PT entra em 3 disputas de segundo turno em capitais com vantagem: Rio Branco, Fortaleza e João Pessoa; e em outras 3 capitais em desvantagem: Salvador, Cuiabá e São Paulo.  Dessas, acredito que haverá participação intensa de Lula em Fortaleza, João Pessoa, Salvador e São Paulo.  Dilma deverá entrar em todas essas, talvez não em Fortaleza, por conta da disputa entre partidos da base - embora uma "traição" do PSB seja uma questão de tempo.

No outro polo, o PSDB entra em 3 disputas na frente: São Paulo, Teresina e Manaus (estou especialmente interessado na derrota de Arthur Virgílio); e em outras 4 em segundo lugar: Belém, Rio Branco, João Pessoa e São Luis.  No caso tucano, não há padrinhos importados que possam fazer tanta diferença - com exceção, talvez, de Aécio Neves - as campanhas provavelmente serão mais locais.

O PMDB disputa duas capitais: Campo Grande e Florianópolis, e entre em ambas as disputas com candidatos que passaram na segunda colocação; já no caso do DEM (PFL), a única capital em disputa é Salvador.  ACM Neto passou em primeiro, mas eu aposto contra.

Em São Paulo a vitória do PT parece possível, dada a imensa rejeição do sujo Zé Serra e do perfil do eleitorado de Russomanno (21,6% dos votos) e do provável apoio de Chalita (13,6% dos votos) - além da popularidade de Lula na periferia e de Dilma com a classe média.  A mesma lógica parece se aplicar ao caso de Salvador: ACM Neto tem muita rejeição e passou o primeiro turno com uma vantagem de apenas 5 mil votos - não parece ser o suficiente para segurar o resultado após a entrada pesada da dupla Lula/Dilma.

Concluindo: se o PT perder São Paulo, sai das eleições exatamente do tamanho que entrou; caso vença São Paulo, certamente poderá ser declarado o grande vitorioso das eleições...com julgamento do mensalão e tudo.