sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
Sobre a melancolia de Lars
Postado por
Gabriel G;
SPOILERS!!...
Ano passado vi Melancolia, e adorei.
Difícil mesmo chamar de "sutil" e "delicado" um filme:
A) do Lars Von Trier;
B) em que o planeta Terra é destruído e todo mundo morre.
Mas é o que achei: delicado. E, a níver de Trier, otimista até. Não causa aquela indignação profunda de "Dogville", "Manderlay", "Dançando no escuro", nem o completo desconforto de "Os idiotas". Eu considerava Trier um sádico inteligente, mas depois desse filme passei a achar que ele verdadeiramente sensível.
Não vou fazer um resumo organizado do filme -- assista, se quiser saber os tintins da história -- mas apontar algumas coisas que me chamaram atenção, especialmente no quesito escala.
Antes de ver o filme, eu tinha lido uma sinopse que dizia que um outro planeta batia na terra e pau: todo mundo morria. Eu fui ao cinema com expectativa de ver um planetóide ou algo assim batendo na terra.
Aí, logo no comecinho, veio o detalhe que me impressionou: não é que algo simplesmente bate na Terra, a Terra é ENGOLIDA por um mundo imensamente maior que ela -- planeta que, por acaso, chama-se "Melancholia"...
Por estranho que pareça, pra mim isso fez muita diferença. Por causa desse detalhe foi que interpretei o filme como uma obra sobre a depressão -- ou melhor ainda, sobre a natureza universal da tristeza -- da parte de um autor que reconhecidamente sofre desse mal (Lars Von Trier). "Depressão" justamente fez mais sentido pra mim dessa maneira: não como algo que vem e "bate", mas como algo que "engole" tudo, toda a pessoa, tudo que ela conhece; o mundo torna-se inteiro envolvido por esse fundamental vazio.
O filme é dividido em duas metades e centrado em duas irmãs, as duas bem problemáticas à sua própria maneira. A primeira metade do filme mostra Justine, a irmã depressiva, imersa no mundo "normal" de Claire, a irmã obsessiva: cambaleante, oprimida, incapaz e, pior ainda, sem que ninguém consiga nem ao mesmo atingir ou compreender o que diabos a aflige. Sua incapacidade de ficar feliz em seu próprio casamento -- no momento em que todos se esforçaram para que fosse feliz e, portanto, exigiam que ela o fosse --é quase condenada como uma falha moral. Como se ela não se esforçasse o suficiente para ser normal, para ser feliz -- como se afundasse em autopiedade.
No fim dessa parte, Melancolia (o planeta) torna-se visível a olho nu no céu.
A segunda metade do filme, Melancolia se aproxima da Terra e confirma-se, enfim, que com ela colidirá. Não por acaso, o que se mostra é Claire, a irmã "normal" sendo lentamente imersa no mundo da irmã depressiva. Imersa simbolica e literalmente, já que a "Melancolia" está vindo pra engolir o mundo inteiro. E aí mostra-se sua total inadequação à nova situação, seu desespero e a artificialidade de seu apego a uma "normalidade" (p.ex: querer morrer tomando vinho ao ar livre, num clima bucólico). Sua incapacidade, enfim -- mais evidenciada diante da serenidade de Justine -- de encarar o vazio fundamental inerente a uma existência sob o signo da morte. Já Justine não se choca, não se desespera, porque ela já vive nesse mundo.
Entendam, Trier poderia ter apenas retratado um meteoro gigante, um pedregulho qualquer que batesse na gente e crau! nóis já era. O fim do mundo já estaria colocado. Mas ele criou um planeta -- algo da mesma categoria da Terra, e belo e reluzente e complexo e muito maior que o nosso planeta (nós é que estamos mais pra "meteoro"?). Tal atenção estética não visa só retratar uma tragédia, mas construir uma alegoria: o vazio da existência está lá; ele nos antecede, e é maior do que nós, e não é por que finjamos que não existe que ele não está lá.
Pessoas mais "positivas" podem achar que é um exagero de autopiedade de um diretor depressivo (à semelhança da reação das pessoas à tristeza de Justine); but he's got a point, na minha opinião. Usando a velha metáfora do copo pela metade, pode-se dizer que a moral dominante de nossa sociedade atual é a de dizer que "um copo pela metade pode ser visto como meio cheio e meio vazio, dependendo de como se queira ver". Ou seja, você escolhe como ver. Pra quem vê as coisas desse jeito, Trier pareceria estar escolhendo ver o copo como meio vazio-- seria um pessimista. Mas o que ele afirma na minha opinião é um tanto mais inquietante: um copo "meio cheio" está sempre "meio vazio", é um copo meio vazio. O vazio está lá. Há as pessoas que vivem quase exclusivamente nele, é certo; mas não as menospreze, porque o vazio é real. Está lá.
Pulando direto pro fim, dá pra dizer que Melancolia é um filme com "final feliz": há uma pequenina redenção, e é da fantasia de uma criança -- ou melhor, a necessidade do adulto de proteger e confortar uma criança -- que vem uma mínima e precária redenção possível.
Em um certo aspecto, esse final soa quase uma alegoria religiosa. É também disso que, até certo ponto, toda religião trata: uma ficção reconciliadora para se articular a insignificância humana diante do universo, diante do vazio da existência regida pela morte. O interessante aqui é notar que, justamente naquela frágil "fantasia" -- na "cabana mágica" que menino, mãe e tia fazem -- eles de certo modo estão protegidos. Não da morte, não do fim, mas do desespero.
Eu disse final feliz? É, soa exagero; mas não dá pra falar de um final exatamente triste, ou trágico; é um final... melancólico.
Epílogo: ao ver o filme, fiquei achando que o amor adulto-criança seria algo sagrado para Lars von Trier, algo que, em sua sanha destruidora, ele mantesse intacto; assim parecera em "Dançando no Escuro" e "Dogville"... Mas aí assisti "O Anticristo" (que ele fez exatamente antes de Melancolia) e vi que não; NADA é "sagrado" para von Trier.
Mas ao que parece ele acredita na existência de amor, pelo menos; ainda que destinado à tragédia, ele existe. E, diante do fim do mundo, talvez já fosse todo otimismo necessário.
Ano passado vi Melancolia, e adorei.
Difícil mesmo chamar de "sutil" e "delicado" um filme:
A) do Lars Von Trier;
B) em que o planeta Terra é destruído e todo mundo morre.
Mas é o que achei: delicado. E, a níver de Trier, otimista até. Não causa aquela indignação profunda de "Dogville", "Manderlay", "Dançando no escuro", nem o completo desconforto de "Os idiotas". Eu considerava Trier um sádico inteligente, mas depois desse filme passei a achar que ele verdadeiramente sensível.
Não vou fazer um resumo organizado do filme -- assista, se quiser saber os tintins da história -- mas apontar algumas coisas que me chamaram atenção, especialmente no quesito escala.
Antes de ver o filme, eu tinha lido uma sinopse que dizia que um outro planeta batia na terra e pau: todo mundo morria. Eu fui ao cinema com expectativa de ver um planetóide ou algo assim batendo na terra.
Aí, logo no comecinho, veio o detalhe que me impressionou: não é que algo simplesmente bate na Terra, a Terra é ENGOLIDA por um mundo imensamente maior que ela -- planeta que, por acaso, chama-se "Melancholia"...
Por estranho que pareça, pra mim isso fez muita diferença. Por causa desse detalhe foi que interpretei o filme como uma obra sobre a depressão -- ou melhor ainda, sobre a natureza universal da tristeza -- da parte de um autor que reconhecidamente sofre desse mal (Lars Von Trier). "Depressão" justamente fez mais sentido pra mim dessa maneira: não como algo que vem e "bate", mas como algo que "engole" tudo, toda a pessoa, tudo que ela conhece; o mundo torna-se inteiro envolvido por esse fundamental vazio.
O filme é dividido em duas metades e centrado em duas irmãs, as duas bem problemáticas à sua própria maneira. A primeira metade do filme mostra Justine, a irmã depressiva, imersa no mundo "normal" de Claire, a irmã obsessiva: cambaleante, oprimida, incapaz e, pior ainda, sem que ninguém consiga nem ao mesmo atingir ou compreender o que diabos a aflige. Sua incapacidade de ficar feliz em seu próprio casamento -- no momento em que todos se esforçaram para que fosse feliz e, portanto, exigiam que ela o fosse --é quase condenada como uma falha moral. Como se ela não se esforçasse o suficiente para ser normal, para ser feliz -- como se afundasse em autopiedade.
No fim dessa parte, Melancolia (o planeta) torna-se visível a olho nu no céu.
A segunda metade do filme, Melancolia se aproxima da Terra e confirma-se, enfim, que com ela colidirá. Não por acaso, o que se mostra é Claire, a irmã "normal" sendo lentamente imersa no mundo da irmã depressiva. Imersa simbolica e literalmente, já que a "Melancolia" está vindo pra engolir o mundo inteiro. E aí mostra-se sua total inadequação à nova situação, seu desespero e a artificialidade de seu apego a uma "normalidade" (p.ex: querer morrer tomando vinho ao ar livre, num clima bucólico). Sua incapacidade, enfim -- mais evidenciada diante da serenidade de Justine -- de encarar o vazio fundamental inerente a uma existência sob o signo da morte. Já Justine não se choca, não se desespera, porque ela já vive nesse mundo.
Entendam, Trier poderia ter apenas retratado um meteoro gigante, um pedregulho qualquer que batesse na gente e crau! nóis já era. O fim do mundo já estaria colocado. Mas ele criou um planeta -- algo da mesma categoria da Terra, e belo e reluzente e complexo e muito maior que o nosso planeta (nós é que estamos mais pra "meteoro"?). Tal atenção estética não visa só retratar uma tragédia, mas construir uma alegoria: o vazio da existência está lá; ele nos antecede, e é maior do que nós, e não é por que finjamos que não existe que ele não está lá.
Pessoas mais "positivas" podem achar que é um exagero de autopiedade de um diretor depressivo (à semelhança da reação das pessoas à tristeza de Justine); but he's got a point, na minha opinião. Usando a velha metáfora do copo pela metade, pode-se dizer que a moral dominante de nossa sociedade atual é a de dizer que "um copo pela metade pode ser visto como meio cheio e meio vazio, dependendo de como se queira ver". Ou seja, você escolhe como ver. Pra quem vê as coisas desse jeito, Trier pareceria estar escolhendo ver o copo como meio vazio-- seria um pessimista. Mas o que ele afirma na minha opinião é um tanto mais inquietante: um copo "meio cheio" está sempre "meio vazio", é um copo meio vazio. O vazio está lá. Há as pessoas que vivem quase exclusivamente nele, é certo; mas não as menospreze, porque o vazio é real. Está lá.
Pulando direto pro fim, dá pra dizer que Melancolia é um filme com "final feliz": há uma pequenina redenção, e é da fantasia de uma criança -- ou melhor, a necessidade do adulto de proteger e confortar uma criança -- que vem uma mínima e precária redenção possível.
Em um certo aspecto, esse final soa quase uma alegoria religiosa. É também disso que, até certo ponto, toda religião trata: uma ficção reconciliadora para se articular a insignificância humana diante do universo, diante do vazio da existência regida pela morte. O interessante aqui é notar que, justamente naquela frágil "fantasia" -- na "cabana mágica" que menino, mãe e tia fazem -- eles de certo modo estão protegidos. Não da morte, não do fim, mas do desespero.
Eu disse final feliz? É, soa exagero; mas não dá pra falar de um final exatamente triste, ou trágico; é um final... melancólico.
Epílogo: ao ver o filme, fiquei achando que o amor adulto-criança seria algo sagrado para Lars von Trier, algo que, em sua sanha destruidora, ele mantesse intacto; assim parecera em "Dançando no Escuro" e "Dogville"... Mas aí assisti "O Anticristo" (que ele fez exatamente antes de Melancolia) e vi que não; NADA é "sagrado" para von Trier.
Mas ao que parece ele acredita na existência de amor, pelo menos; ainda que destinado à tragédia, ele existe. E, diante do fim do mundo, talvez já fosse todo otimismo necessário.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Troque seu cachorro por uma criança pobre - e não se esqueça dos golfinhos!
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
É impressão minha ou a fome na África
virou tema fora de moda?
Quanto maior a abrangência das redes
sociais, maior é a fidelidade com a qual elas retratam as sociedades - ou pelo
menos mostram com mais eficácia aquilo que as pessoas querem mostrar, o que já
diz muita coisa.
Todos os dias encontramos no facebook
mensagens religiosas, ateias¹, ecológicas, gente divulgando todo tipo de
porcaria, incluindo um monte de porcarias legais...e às vezes tem coisa boa
mesmo, geralmente vindas das mesmas pessoas.
Vejam, o nosso facebook não representa a "média da sociedade",
mas como as pessoas próximas a nós se comportam no mundo digital. O meu grupo de amigos publica coisas
diferentes do seu grupo de amigos, e isso faz do facebook da cada indivíduo um
conjunto único de informações.
Essa percepção é interessante, e por
vezes eu me assusto com a frequência com que certas coisas aparecem na minha
página inicial. Uma delas é a quantidade
de gente que divulga/publica/compartilha coisas relacionadas à proteção dos
animais - e em contraste, a quase ausência de gente postando coisas que dizem
respeito com o bem estar da humanidade. Dia
desses descobri que o boom de
postagens de protetores de animais não é exclusividade do meu facebook. Eu imaginava que talvez fosse, porque conheço
muita gente envolvida diretamente em organizações de proteção aos animais;
gente o suficiente para gerar uma distorção na minha página. Acabei lembrando daquela música do Eduardo Dusek,
o "rock da cachorra":
Troque
seu cachorro por uma criança pobre
Sem
parente, sem carinho, sem rango, sem cobre
Deixe
na história de sua vida uma notícia nobre
Troque
seu cachorro por uma criança pobre
Tem
muita gente por aí que está querendo levar uma vida de cão
Eu
conheço um garotinho que queria ter nascido pastor-alemão
Esse
é o rock de despedida pra minha cachorrinha chamada "sua-mãe"
Seja
mais humano, seja menos canino
Dê
guarida pro cachorro, mas também dê pro menino
Senão
um dia desse você vai amanhecer latindo
Não quero ser mal compreendido, simpatizo
muito com a causa da adoção de bichos abandonados, da guarda responsável, da luta contra atos cruéis, etc.
Não simpatizo com a superioridade moral vegana, com o fim da
experimentação científica em animais ou com o fim da caça às baleias².
Agora,
acho curioso que tanta gente esteja tão preocupada com os bichinhos e tão pouca
gente esteja preocupada com assuntos relevantes para a espécie humana. Quantas publicações vocês têm visto sobre a
seca no nordeste ou as chuvas na Amazônia?
E já que quando se trata da proteção aos animais tem tantas postagens
genéricas - além, claro, das postagens específicas, aquelas do tipo "Totó
precisa de sua ajuda hoje" - cadê as pessoas repercutindo a fome na
África, pra ficar só no exemplo mais gritante e geral dos problemas com Direitos Humanos?
Agora, claro que a comoção com as tragédias
humanas tem muito a ver com a importância que a imprensa dá a casos específicos...as
enchentes e deslizamentos de terra em Santa Catarina (2008) foram
particularmente bem divulgadas. As
enchentes nordestinas de 2009 geraram menos comoção, menos mobilização, não
teve o Guga ou um monte de artistas globais nordestinos pedindo doações.
Já os casos de cachorrinhos torturados têm
gerado um fuzuê gigante na mídia e na internet.
É claro que é horrível, que as pessoas que fazem isso são horríveis (ou
problemáticas), mas coisas assim acontecem todos os dias, como acontecem todos
os dias casos como o dos Nardoni - lembram? Bem, a TV divulgou a história do cachorrinho torturado, daquele outro enterrado vivo, de um que foi arrastado por um carro...essas coisas já aconteciam antes, mas agora resolveram, sei lá porque, mostrar. pode ser fase, como eu espero que seja a enxurrada de filmes espíritas bancados pela Globo.
Claro que não me queixo da defesa de nenhuma das
duas coisas (bichos e gente). Me importo com ambos e não milito ativamente por nenhuma das
causas. Acho legítimo - e inteligente - o
uso da internet para a divulgação de qualquer coisa, mas acho a distorção
interessante. Não porque seja
inesperada, afinal, as pessoas nunca deram muita bola pros Direitos Humanos mesmo;
mas porque não se dava tanta bola pro direito dos animais. Parece que a proteção dos direitos dos
animais seja a bola da vez entre as coisas que as pessoas gostam de divulgar,
ou talvez seja mesmo o surgimento de um novo tempo, em que homens e bichos
caminharão nesse mundão de patas dadas...
Resumindo: acho a causa justa, acho
justo o uso da internet para divulgar a causa e acho coerente que pessoas
queiram lutar pelos animais. Porque
raios, então, estou escrevendo isso? Porque ultimamente tenho visto muita afetação.
Quem ler os comentários que seguem a
maioria das postagens relacionadas ao tema, vai encontrar uma assembleia maluca
de posições muito esquisitas, inclusive de gente que encara a coisa como uma
guerra entre humanos e outros animais - e torce pelos bichos. Gente que acha que só os seus cachorros as
entendem de verdade, gente que acha que os bichos são melhores porque não são
cruéis...por mais que poucas coisas sejam tão cruéis quanto a natureza,
argumentam que só o homem mata por crueldade, sem motivo algum. Essa ideia além de falsa, é boba. A "sacanagem" é efeito colateral da
inteligência humana - ainda que os cucos sejam uns FDP´s, não? Justificável ou não, a maioria dos
assassinatos acontecem por algum motivo, normalmente a obtenção de alguma
vantagem: dinheiro, poder, eliminação de rival, punição, obtenção de status, reação a uma briga, etc...e tem ainda os distúrbios mentais, tampouco
exclusivos dos homens.
Só pra ilustrar, peguei a postagem mais
recente na minha página...é essa aqui. Foi compartilhada por uma amiga minha, mas originalmente publicada na página "Prefiro bicho que gente". Eu não podia ter tido mais sorte nesse
exemplo...hehehe! Nos comentários
aparecem os veganos, os super-protetores e uma galera pagando pau.
Até entendo que algumas pessoas gostem
mais de bichos que de gente...tem muita gente chata e ruim por aí. Mas tem muita gente legal também, e pra ver isso basta
perceber que quase todo mundo (até gente de quem a gente não gosta) tem amigos e gosta de outras pessoas.
É normal que pessoas gostem muito de
certas coisas...um astrônomo que goste tanto de passar seu tempo no
telescópio que prefira, de verdade, passar tempo lá do que tendo contatos
sociais. Ou um cinéfilo que prefira ver
filmes a viver sua própria história (oh, profundo!). Mas não é esse o caso: essas pessoas gostam mais
de bichos porque acham que os bichos são melhor gente...
Se todas as pessoas que você
conhece valem menos a pena que os animais, talvez o problema não seja as outras
pessoas. Pessoalmente, não troco as
minhas amizades humanas por cachorro nenhum - e eu adoro os meus cães - conversas
com seres capazes de me entender são normalmente mais ricas, por mais que
poucas coisas sejam tão gostosas quanto o afeto incondicional de um cachorro. Ah, o amor do cão!
1) Acabo de perceber que ateia não tem mais acento...que coisa!
2) Calma, é mentira. Deixem as baleias em paz, japoneses malditos³!
3) Calma, eu sou nipo-descendente, estou
autorizado a fazer a piada.
P.S.
Me ocorreu agora uma discussão que tive com alguém a respeito da caça às
baleias (ou foi um filme que vi? Eram
baleias mesmo ou eram golfinhos?). Os
japoneses tem dificuldade em entender porque as pessoas se importam tanto com
golfinhos e baleias. Pra eles, uma baleia é "só mais um peixe". É compreensível num país em que comer esses bichos é uma tradição milenar. Matar uma vaca é tão cruel quanto, mas apenas
uma minoria entre os neoprotetores se importam com isso. Não parece ser relacionado com o risco de
extinção - os pirarucus não parecem gozar do mesmo carisma e prestígio. Tenho a impressão de que mesmo que baleias fossem muito abundantes,
a matança delas continuaria incomodando muita gente. A mim incomoda, provavelmente por razões
culturais.
Wilbor se Revolta continua tendo o selo de Blog Amigo dos Golfinhos, assumindo todas as condições que este selo implica.
1. Este blog não prejudica, de maneira nenhuma os golfinhos, esses magníficos peixes alados.
2. Este blog não utiliza redes para pesca de atum.*
3. Os criadores desse blog não possuem roupas, ou acessórios pessoais feitos de partes de golfinhos.
4. Os criadores desse blog não tomam chá de genitálias de golfinhos para melhorar seu desempenho sexual - muito embora os benefícios trazidos chá de genitália dessas criaturas mágicas e boazinhas estejam relatados nos mais diversos estudos científicos.**
5. Sopa de golfinho tem um gosto horrível. Bem, é o que dizem.
2. Este blog não utiliza redes para pesca de atum.*
3. Os criadores desse blog não possuem roupas, ou acessórios pessoais feitos de partes de golfinhos.
4. Os criadores desse blog não tomam chá de genitálias de golfinhos para melhorar seu desempenho sexual - muito embora os benefícios trazidos chá de genitália dessas criaturas mágicas e boazinhas estejam relatados nos mais diversos estudos científicos.**
5. Sopa de golfinho tem um gosto horrível. Bem, é o que dizem.
*Não, nós não pescamos atum. Nem nas férias. Não, aqueles bichos que o Gabriel pesca são peixes-bois.
**Segundo a medicina chinesa. Já viu algum chinês equivocado? E chinês brocha, já viu? E golfinho brocha???
sábado, 31 de março de 2012
"Pano rápido"
Postado por
Gabriel G;
Não é mentira: literalmente há anos tenho imagens de Millôr Fernandes que separei porque queria postar aqui no blog. Fruto de um livro dele que encontrei num sebo, e que me deixou maravilhado: eu já conhecia sua absurda sagacidade na escrita, mas percebi que não tinha real noção da sua genialidade gráfica. Comprei o livro (embora fosse caro, principalmente levando-se em conta que estava meio detonado!!). Depois fotografei algumas imagens dele para eventualmente colocar aqui.
A ocasião não aparecia, ao contrário das ocupações do trabalho e do estudo; fui esquecendo das imagens lá quietinhas, e acabei não o fazendo nenhum post delas.
Este é um dos piores motivos para postá-las, ainda que melhor do que nenhum: Millôr morreu. E o mundo -- e, mais especificamente, o Brasil -- ficou menos inteligente com isso.
Lá pelo fim da adolescência, eu pensei numa frase,que me fazia lembrar do estilão do Millôr: "Deus é grande, mas não é dois". Como quase tudo o que pensamos de bom, alguém já tinha dito isso antes -- no caso, o Lourenço Mutarelli, ainda que com uma entonação completamente distinta e mais melancólica -- mas ainda hoje eu rio quando penso que "em terra de olho, quem tem cego, errei."
Ficaram mais pobres o jornalismo, o humor gráfico, a ilustração, o teatro, as traduções e a intelectualidade livre em geral; o que disseram sobre o Chico Anísio vale aqui, ainda que com entonação distinta: morreram Millôr Fernandes.

A ocasião não aparecia, ao contrário das ocupações do trabalho e do estudo; fui esquecendo das imagens lá quietinhas, e acabei não o fazendo nenhum post delas.
Este é um dos piores motivos para postá-las, ainda que melhor do que nenhum: Millôr morreu. E o mundo -- e, mais especificamente, o Brasil -- ficou menos inteligente com isso.
Lá pelo fim da adolescência, eu pensei numa frase,que me fazia lembrar do estilão do Millôr: "Deus é grande, mas não é dois". Como quase tudo o que pensamos de bom, alguém já tinha dito isso antes -- no caso, o Lourenço Mutarelli, ainda que com uma entonação completamente distinta e mais melancólica -- mas ainda hoje eu rio quando penso que "em terra de olho, quem tem cego, errei."
Ficaram mais pobres o jornalismo, o humor gráfico, a ilustração, o teatro, as traduções e a intelectualidade livre em geral; o que disseram sobre o Chico Anísio vale aqui, ainda que com entonação distinta: morreram Millôr Fernandes.
segunda-feira, 12 de março de 2012
A Magia da Realidade - em português
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Bom, eu já escrevi sobre este livro aqui no blog nesse post, mas acho que vale avisar que a versão brasileira acaba de ser lançada. A tradução do título ficou bastante próxima do que eu havia previsto:
"A Magia da Realidade - como sabemos o que é verdade"
A capa é diferente da versão britânica e estranhamente diferente também da versão americana, que foi a que eu comprei por engano:
Versão brasileira
.jpg)
Versão americana
Versão britânica
Detalhe do livro
Sinceramente, não entendo o motivo dessas alterações, já que nessa obra, o Dave McKean pode ser praticamente considerado co-autor, uma vez que o que ele fez foi muito mais que simples ilustração. Na minha opinião, a capa britânica é mais bonita. Em relação à capa norte-americana, a imagem está inexplicavelmente espelhada e reduzida, o subtítulo vem em cima (??) com uma fonte sem graça e os nomes de Dawkins e McKean tem menor destaque...enfim, vai entender.
Bom, tá dado o recado. Vale a pena pra quem tem criança, vale a pena pra quem não tem.
domingo, 4 de março de 2012
Humor é... (1)
Postado por
Marcílio, o gêmeo malvado
Um dos conceitos mais importantes do chamado
neodarwinismo ortodoxo, é a caracterização da Evolução como uma luta pela sobrevivência, porém, não uma batalha travada pelos
indivíduos, mas por seus genes. Um
tatu-bola nada mais é que uma máquina extremamente complexa que tem, por
objetivo final, a manutenção e
reprodução de um gene específico, ou de um conjunto deles. Quando um tatu-bola se reproduz, gera uma
prole que carrega exatamente 50% de seu DNA.
Como um tatu-bola macho qualquer compartilha quase todo o seu DNA com
uma tatu-bola fêmea, o tatuzinho-bola compartilhará com o pai praticamente 100%
de seu código genético. Trata-se de um processo de transmissão de genes muito eficiente.
Seguindo essa linha de pensamento, chega-se à
conclusão óbvia de que nós, humanos, também somos veículos de transmissão de
genes. Por acaso, veículos bastante
espertos. Certamente mais espertos que
tatus-bola. Foram genes que
construíram uma carapaça e deram aos tatus-bola a capacidade de se enrolar para
se proteger de predadores. Esses genes
permaneceram no DNA dos tatus porque os indivíduos que não tinham esses genes
tinham suas vísceras facilmente mastigadas por carnívoros, e animais que têm
suas vísceras mastigadas por carnívoros tem mais dificuldade em se reproduzir. Dessa forma, um ancestral qualquer do tatu
que tivesse um pedacinho pequeno de carapaça já teria alguma vantagem em
relação ao seu irmão que não tivesse. O
cérebro humano é também uma criação dos genes, possivelmente, a criação mais complexa
e extraordinária desse grupo de moléculas.
O cérebro humano se desenvolveu porque ser um pouco mais inteligente que
o macaco vizinho provou ser uma grande vantagem evolutiva. Como está claro que a inteligência humana é uma
manifestação do cérebro, pode-se afirmar que a inteligência é um atributo fenotípico,
e deve ter evoluído junto com os cérebros.
Discutir o que é inteligência é uma coisa muito
distante do meu campo específico de conhecimento, mas vamos ficar com as duas
primeiras definições do Aurélio e com a Wikipedia:
inteligência
[Do lat. intelligentia.]
Substantivo
feminino.
1.Faculdade
de aprender, apreender ou compreender; percepção, apreensão, intelecto,
intelectualidade.
2.Qualidade
ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração,
agudeza, perspicácia.
Inteligência pode ser
definida como a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas,
abstrair ideias, compreender ideias e linguagens e aprender.
Por mais que ainda existam pessoas que não
reconheçam qualquer inteligência nos "animais irracionais", a
inteligência humana teve que evoluir a partir de uma inteligência menor, e essa, de uma inteligência ainda menor, até
o ponto em que teremos uma inteligência muito primitiva evoluindo a partir de
alguma outra coisa que não era inteligente.
A primeira inteligência provavelmente foi, como todo o resto, um golpe
de sorte: uma mutação que levou a uma vantagem evolutiva.
Não é difícil reconhecer alguma inteligência em
animais. Quem teve cães, gatos e outros
bichos sabe que há cães mais e menos espertos.
Todos sabemos que cães são muito mais espertos que galinhas... Já as
galinhas são mesmo animais muito estúpidos: eu pretendia continuar o raciocínio
afirmando que galinhas são muito mais espertas que as minhocas que devoram, mas
tenho minhas dúvidas. Há quem diga que
tudo que um cão faz, faz por "instinto" - normalmente gente que acha que a
inteligência vem da alma e que alma é atributo exclusivo dos humanos
normalmente têm dificuldades em reconhecer inteligência em animais, ainda que
achem que seus bebês estejam se comportando como verdadeiros acadêmicos ao
encaixar um cubo em um orifício quadrado, coisa que chimpanzés fazem com
facilidade.
Bom, essa longa introdução serve somente para
estabelecer que a inteligência é um fenômeno produzido pelos cérebros; existe
porque genes capazes de gerar cérebros eficazes em produzir mais inteligência foram
recompensados com a sobrevivência.
Muitas das condições que levaram à evolução do
cérebro humano não existem mais - o cara que não sacou que podia jogar sua lança
na fera que vinha correndo, urrando e babando em sua direção não sobreviveu - mas o cérebro é um órgão
altamente sofisticado e adaptável, e logo pôs-se a produzir outros fenômenos interessantes,
sendo um deles o humor.
Humor é uma coisa muito difícil de definir. Recorrendo novamente ao Aurélio:
humor
(ô) [Do
lat. humor, oris.]
Substantivo
masculino.
6.Capacidade
de perceber, apreciar ou expressar o que é cômico ou divertido.
A Wikipedia deixa clara a dificuldade da definição
do termo; em algum ponto, citando São Tomás de Aquino, o artigo diz que o humor
pode ser visto como algo fundamental à existência humana. Pode ser, pode ser...aparentemente rir faz
bem, libera endorfinas e várias substâncias ligadas ao prazer. Parece ser também um momento de alívio
mental, e esse lado é explorado em um ótimo texto do Hélio Schwartsman, de 2001
(segundo texto nessa página). Citando
Arthur Koestler diz que o humor ocorre quando percebemos o choque entre dois
contextos ou códigos de regras diferentes, coerentes, porém excludentes entre
si:
Ou seja: quando observamos uma ação qualquer em
curso (ou um raciocínio qualquer), temos uma certa expectativa de resolução;
quando acontece alguma coisa e o
resultado não é aquele que esperaríamos, mas o resultado de uma outra ação
qualquer, inesperada, nós nos surpreendemos. Quando há alguma tensão ou expectativa sobre
o que deveria acontecer, a resolução de
uma piada é um momento de alívio de tensão.
A gente ri de nervoso.
Schwartsman segue lembrando que nós rimos de coisas
diferentes em idades diferentes: bebês e crianças riem de caretas,
pré-adolescentes gostam de piadas escatológicas e adolescentes gostam de piadas
sexuais. A estrutura é sempre a mesma:
algo inesperado acontece e leva ao resultado riso. O comercial "itaú sem papel" é um
bom exemplo:
O bebê rola de rir quando o pai rasga um papel na
sua frente. O que será que se passa na
cabeça da criança? "esse negócio é
grande, quando meu pai mexe nele, ele se movimenta". De repente, o pai
rasga um pedaço - movimentos devem gerar movimentos, não transformar um objeto
grande em algo menos, fazendo um barulho estranho. É uma relação não-óbvia.
Enfim, conforme envelhecemos, vamos percebendo
relações não óbvias no plano abstrato.
Algumas pessoa são melhores que outras nisso. A formação cultural tem algum peso na capacidade
humorística das pessoas, mas não é determinante. Claro que além de fornecer um certo
vocabulário e repertório, a imersão cultural é intelectualizante. Piadas só funcionam se as pessoas
compartilham dos elementos necessários para a compreensão. Ainda assim, há pessoas que são boas em
perceber o humor, outras que além de perceber, se divertem produzindo
humor. Essas duas habilidades
aparentemente estão relacionadas a algum tipo de inteligência.
Um indivíduo faz uma piada porque:
1. Percebeu
uma situação que julgou engraçada e teve vontade de compartilhar.
É o humor situacional: um comentário no metrô,
chamar a atenção de alguém com o olhar para uma situação qualquer, lembrar de
uma história ou piada que tenha a ver com um determinado contexto;
2. Demonstração
de habilidade intelectual.
Já li por aí que a produção humorística é uma
característica mais comum em homens que em mulheres. Embora a capacidade de entender piadas seja
igual entre os dois sexos, contar piadas seria uma forma dos homens demonstrarem
às mulheres a sua inteligência e habilidades sociais. A enorme superioridade numérica dos homens
entre os humoristas parece indicar que essa é uma hipótese razoável.
Um indivíduo não acha graça em uma piada porque:
1. Não foi
capaz de abstrair os elementos que geram a situação contraditória. Schwartsman traz dois bons exemplos:
"O
masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma
uma ducha quente".
"O
sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista"
A compreensão do humor nessas frases requer um
pensamento relativamente complexo, que vai além da simples compreensão do que é
ser masoquista ou sádico:
- o masoquista é alguém que sente prazer no
sofrimento;
- o masoquista da piada sente prazer em tomar
banhos frios pela manhã;
- o masoquista toma um banho quente para não ter o prazer do banho frio, sofre, e
assim ter prazer.
No final fica assim: o masoquista gosta de não
fazer aquilo que gosta de fazer. A
segunda frase segue uma lógica semelhante.
2. Não
entendeu porque não partilha de um certo contexto.
Situação de piadas que só podem ser compreendidas
por pessoas que tenham um conhecimento prévio qualquer: o apelido de alguém,
gírias ou termos restritos a determinados grupos, idioma ou cultura de locais
diferentes (Family Guy é um bom exemplo de humor muito autorreferente à cultura
televisiva norte-americana).
3. Entendeu,
mas não vê graça porque a piada é óbvia demais.
Conforme as pessoas vão envelhecendo, ganhando
cultura e convivendo com humor, certas coisas deixam de ter graça porque a
contradição envolvida já foi vista muitas vezes. Acontece, por exemplo, quando ouvimos anedotas
infantis (do tipo "a piada do pintinho caipira é 'pir'"). É um caso de diferença de elaboração
intelectual.
4. Entendeu,
mas não acha graça porque considera a piada "imoral".
Caso de quem, por motivos culturais (postura
conservadora), fica chocado com o simples exercício hipotético de situações
ofensivas. É também o caso dos
neuróticos do politicamente correto: não pode piada com nada, só de pintinho
caipira mesmo.
O humor não lida, necessariamente, com
preconceitos, ainda que utilize muito o preconceito como arma. Talvez isso ocorra porque quando se faz uma
piada, pressupõe-se uma certa "imunidade diplomática": percebe-se uma
situação que só seria engraçada caso preconceito "x" seja
invocado. O humor do tipo "piadas
de salão", dessas que comediantes como Ary Toledo costumam contar, são baseadas, quase que
exclusivamente em preconceitos: português, puta, preto, japonês, brasileiro
(safado ou esperto), nordestino, padre, freira, judeu, muçulmano, turco,
médico, enfermeira, advogado, corintiano.
Outras figuras comuns são o papagaio, que às vezes entra como esperto,
às vezes aparece como sidekick de algum espertalhão; o "Joãozinho",
garoto travesso.
"O Manoel,
viajando pelo Brasil, vê um papagaio falando, fica impressionado com o bicho e
resolve comprar um. O vendedor, um
brasileiro meio safado, resolve tirar proveito do gajo e o vende uma coruja,
dizendo ser um papagaio. O Manoel não
nota a diferença e leva a ave para Portugal.
Anos depois, volta ao Brasil e o vendedor pergunta: - e aí Manoel, o
louro já aprendeu a falar? E o portuga
tasca: - aprender, não aprendeu...mas presta uma atenção!"
Em recente entrevista ao Roda Viva, Angeli
perguntou ao Laerte se seria possível fazer humor com gay sem ser
preconceituoso. A pergunta e a resposta
estão nos 3 primeiros minutos deste vídeo:
Concordo com o Laerte. Quando se faz humor com gays (ou qualquer
outro grupo), lida-se com o preconceito, porém, há uma tolerância. Um reflexo disso é a chatice do humor
televisivo brasileiro, extremamente limitado pelo que se pode ou não
dizer. Nesse sentido, o humor americano
se beneficia do fato de que o país leva muito a sério as tais da Democracia e da Liberdade de Expressão, ainda que o país não se importe muito com democracia em outros
países. No Brasil não há nada na
televisão tão ácido e engraçado como Family Guy - aliás, o Laerte citou, em texto recente no seu blog que mesmo a tradução do título do desenho e do tema de
abertura foram "babaquizados" para o mercado brasileiro. Nos EUA pode-se dizer tudo.
Seguindo com a idéia, preconceito é uma estratégia muito utilizada, porém, não a única. É possível fazer piada sem apelar para preconceitos e, no Brasil, o Laerte é mestre nisso.
Vejam, a graça dessa tirinha vem do desfecho inesperado, completamente independente da sequência dos dois primeiros quadrinhos. É o non-sense.
Esse é mais elaborado que o humor anedótico, porque requer que o receptor detecte uma mensagem sutil de um contexto no qual a punchline é non-sequitur. O humor televisivo inglês (e derivados) se apoiou largamente nessa possibilidade humorística, e o fazem muito bem há muito tempo. Não sei se Monty Python inaugurou o estilo na TV, com o Flying Circus, mas certamente o grupo fez escola. Pra quem não conhece, aqui vai um quadro clássico da trupe britânica:
Na mesma linha temos "Big Train" e "That Mitchell and Webb look", ambos ingleses, e o canadense "The kids in the Hall", produzido por Lorne Michaels, do Saturday Night Live.
Mas nem por isso o humor inglês abdicou do preconceito como arma humorística. Recentemente o Gabriel me indicou um seriado inglês, chamado "Life´s too short". A tradução literal seria "A vida é muito curta", sendo que o short em inglês pode se referir tanto a curto quanto a baixo em estatura. O programa é dirigido por Ricky Gervais, o criador e diretor do "The Office". Gervais é brilhante, e se consagrou, sobretudo, por um tipo de humor awckward, ou seja, constrangedor.
O programa é estrelado por um anão relativamente famoso, Warwick Davis, que participou de vários filmes (Harry Potter, StarWars - neste último, como ewok). No programa, feito em formato documentário-falso, ele interpreta a si próprio, e tem uma agência que aluga anões para participações em filmes, TV e eventos de toda sorte, a "dwarves for rental".
As coisas que acontecem com ele são as mais chocantes possíveis, uma vez que o cara tem um ego gigante. Gervais explora desde humilhações a quedas - e Warwick cai muitas vezes. Uma cena do terceiro episódio se desenrola da seguinte forma:
Warwick inaugura seu website, que é um fracasso de acessos. Lá pelas tantas, ele começa a receber mensagens humilhantes. Descobre que se trata de um estudante de uma escola próxima e vai lá tirar satisfação. Entra na sala e começa a ler, para a sala de aula e o professor, uma mensagem que recebeu:
"Seu trolzinho feioso, eu quero te amarrar e te espancar."
a turma ri, o professor pede silêncio e ele começa a comentar:
"agora, não entendo o porque de tanta fascinação comigo...claramente deve ter um fetiche por anões.
a turma volta a rir, ele gosta de estar sendo divertido e continua:
"quer me amarrar, não? Me parece meio gay..."
(risadas)
"talvez esteja apaixonado por mim...um fetiche gay por anões. Seu nome é Justin Palmer."
a turma silencia, claramente constrangida. O professor chama o tal Justin Palmer. Nesse momento, escuta-se um barulho de motor, a câmera foca o rosto do anão, que fica consternado. O garoto indo em direção a ele é um tetraplégico. O professor interroga o menino:
Justin, isso é verdade? Você escreveu isso? Você fez cyber-bullying com este homem?
Sim.
Nesse ponto, o professor obriga o menino a se desculpar. O anão diz que não é necessário, mas o professor prossegue, o menino se desculpa e começa a voltar pro seu lugar. Quando está no meio do caminho, alguém joga um papel nele e grita "gay". A turma ri. A câmera filma o anão várias vezes, que ocasionalmente olha para a lente, o que transporta o espectador para o constrangimento da cena. Depois, a câmera filma rapidamente o menino tetraplégico, que tem uma lágrima escorrendo.
É o tipo de coisa que normalmente revolta as pessoas, especialmente quando se transcreve a situação, como fiz aqui. Cenas como essa despertam o moralismo em muitas pessoas, antes de qualquer possibilidade de compreensão humorística. Mas quem já viu "The office" sabe como Gervais trabalha, e há uma graça nisso. O humor nessa cena consiste em alívio...é engraçado porque é muito errado. E sabemos que é uma encenação, que isso não poderia acontecer.
Infelizmente não achei nenhum vídeo com legenda dessa série, mas deixo aqui uma cena em que Liam Neeson conversa com Gervais a respeito de fazer algum trabalho humorístico. É o tipo de coisa que jamais poderia ser feito por aqui (e tem muita gente pensando "ainda bem, não queremos essa droga").
No making of, os atores que participam da série falam sobre o programa. O depoimento mais interessante é o de uma anã, que explica que sim, estão mexendo com preconceitos...mas para atingir uma idéia de humor muito mais profunda do que se imagina numa olhada rápida.
Enquanto isso, no Brasil estamos processando comediantes por conta de piadas. O post abaixo, do Gabriel, traz bons exemplos de como bobagens foram transformadas em celeumas nacionais. Além das confusões do Gentili, teve o processo do rafa Bastos.
O humor deve ser entendido como arte. Um cara como david Letterman, capaz de fazer piadas todos os dias, um Gervais, capaz de nos fazer rir das situações mais fdps, entre outros, são artistas geniais. Da mesma forma que não se cogitou censurar os quadros de assassinatos de Lula, FHC e outros na última Bienal, que não se cogita proibir estátuas nuas, fotografias da desgraça humana ou comprometedoras, deve-se respeitar a liberdade humorística - aliás, a liberdade de expressão de forma geral.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
das polêmicas seletivas
Postado por
Gabriel G;
(Este é um post motivado pela memória seletiva alheia e por um episódio virtual que, ainda que minúsculo e já antigo, permanece significativo.)
Interessante.
Em 2009 Danilo Gentili, repórter-comediante do CQC, fez a seguinte piada:
“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”
![]() |
| A vogue também curtiu a analogia, mas com jogadores de basquete. |
Minha opinião geral sobre o episódio é mais ou menos a mesma que a de Hélio de la Peña: a piada foi meio fraca e, por depender de preconceitos dos anais do anedotário nacional, era quase impossível de ser engraçada para qualquer homem negro; processá-lo por isso, todavia, era muito exagero.
(Devo frisar por questões de rigor histórico que essa piada seria provavelmente considerada engraçada num pátio de escola quando eu era adolescente, e provavelmente em muitos colégios (principalmente particulares) a molecada (branca) continuaria se divertindo maldosamente com ela)
Gentili mesmo, depois de querelar via twitter, respondeu longa e "bravamente" às críticas, dizendo que podia fazer piada do que quisesse e com quem quisesse, e que racista era quem criticava ele quem advogava um estatuto diferenciado para um eterminado grupo e quem era incapaz de ver a leve graça de uma piada simples.
É preciso dizer que Gentili chegou a dizer que nem tinha falado que o personagem da piada era negro, ora, então racistas eram os que apontavam isso... afinal, ora, raças não existem.
“Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?Arrã.
(Opinião minha a respeito: mesmo tendo problemas com coisas como cotas, acho que pra se dizer ISSO é preciso ser muito sonsinho ou fiadaputamente cara-de-pau. Gentili já fez coisas engraçadas e bacanas como humorista, mas essa foi pra perder todo o respeito mesmo.)
Gentili depois disse que pediria perdão a pessoas que se sentissem ofendidas pelas piadas que fazia, mas que não apagaria-as do twitter ou de onde quer que fosse.
Desde então, o comediante aproveitou as agruras e o poder de impulso da "polêmica" para tentar catapultar-se um pouco mais à fama: publicou um livro intitulado "Politicamente Incorreto"...
Em 2011, Gentili se meteu em situação parecida, mas em uma piada sobre judeus -- desta vez, ao contrário da anterior, motivada por um evento particular.
Moradores de Higienópolis, bairro de São Paulo, protestaram contra a estação de metrô que planejava-se fazer lá. O bairro é conhecido por abrigar a elite paulistana e, dentro desta, muitos indivíduos judeus (um amigo paulistano, aliás, refere-se ao bairro -- não sem leve maldade -- como Hijudeunópolis). Embora uma boa parte -- alguns dizem maioria -- dos moradores de higienópolis se dissessem a favor do metrô lá, os influentes incomodados conseguiram impedi-lo; seus motivos foram imortalizados na frase infeliz de uma senhora a respeito de como ele abalaria a harmonia do bairro trazendo "uma gente diferenciada". A reação à frase, entre ondas de protestos na internet e imprensa, gerou também um dos acontecimentos mais batutas de 2011, o Churrasco da Gente Diferenciada.
Gentili, inspirado pelo absurdo da situação, aproveitou também para ironizar e deixar sua marca. Escreveu no facebook:
"Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz"[ Minha opinião: a piada é mais engraçada e criativa que a anterior, ainda que também pesada. Se apóia menos em estereótipos maldosos de judeus (p. ex: como avaros e etc), sendo que suas "ofensas", ao que parece, são fazer menção simples ao Holocausto numa piada (o que muitos considerariam inaceitável por si só) e apontar abertamente um estereótipo popularmente falado -- que higienópolis É um bairro cheio de judeus.]
Houve um rebú também nesse caso, mas aparentemente muito mais discreto -- porque mais rápido e eficiente: a comunidade judaica repudiou, a Bandeirantes repudiou, o twitter repudiou; sem mais "bravas palavras", Gentili rapidinho apagou a piada de seu facebook e se desculpou perante a comunidade judaica. Não houve nenhuma resposta "espertinha" e "cívica" contra discriminação desta vez.
Agora, "falhar no objetivo com a piada" era algo que merecia desculpas imediatas. Ora, porque com preto pode e judeu não pode?...A que devemos essa mudança?
Ao cansaço e "escaldamento" do comediante devido à polêmica anterior, talvez?
Porque o Twitter, ainda mais forte que em 2009, inundou-o inclementemente de reclamações ao invés de elogios?
Às conexões sociais e políticas "mais influentes" e advogados mais poderosos das associações judaicas?... (obviamente, tem gente que me chamaria de nazista só por colocar essa opção aqui!)
Seja qual for o motivo da diferença, não foi a reação de Gentili que me fez falar a respeito desse assunto. Que o cara continue evoluindo em sua carreira, e eu provavelmente continuarei não dando muita atenção à ela.
O que motivou este longo post foi simplesmente o seguinte: recentemente, o Facebook -- ou pior, o MEU facebook mesmo, não sei o porquê -- foi tomado de pessoas "compartilhando" a antiga resposta de Gentili aos seus críticos por ocasião da "piada de king-kong". Essa resposta é geralmente compartilhada como protótipo de resposta de alguém "inteligente" contra a "burrice" politicamente correta alheia.
Julgo que deve ser o tipo de compartilhamento de fãs do CQC, daqueles que julgam o programa uma epítome da consciência política. Ao que parece, devem ser também pessoas revoltadas com o "politicamente correto", com os caminhos da questão racial no Brasil neste momento (cotas, processos, leis, etc) ; e também pessoas que, se me permitem apostar um tostão a respeito, eu chutaria serem todas brancas.
Esse compartilhamento da resposta de Gentili por muitos Blogs afora já havia ocorrido na época, é fato antigo. O curioso é sua recuperação no facebook justamente agora: afinal, ao heroicizar Gentili novamente, ninguém compartilhando essa resposta antiga se lembrou do assunto tão mais recente de higienópiolis.
Ninguém pareceu se incomodar ou preocupar tanto com o "direito" de Gentili de fazer piada com judeu.
Nem ele mesmo.
Interessante.
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