quarta-feira, 17 de julho de 2013

It's Evolution, babe


Este  post -- o primeiro de uma série de 3 -- esperou um longo tempo para ser feito, em parte pela falta de tempo destes últimos anos. Ele também é algo meio inédito: um recorta/cola de um debate no Facebook. Sei que parece estranho, mas foi o primeiro debate para valer em que o “Wilbor” compareceu de todo (ou seja, eu e o Marcelo juntos). Foi um debate que tem informações que julgamos interessantes, as quais ficariam perdidas no Timeline do face. Julgamos interessante, então, colocá-las aqui.
(pra quem não sabe, é o mesmo debate ao qual fiz referência neste post aqui.)


Peço desculpas pelo post ser insuportavelmente longo. Tirei da discussão as falas "laterais" que não se dedicavam diretamente a ela, mas mantive integralmente todo o texto das falas reproduzidas. (podem conferir no Face). O nome de um dos participantes está abreviado para preservá-lo (uma vez que o filme dele sai daqui meio queimado, em nossa opinião); mas principalmente porque não quero dar-lhe publicidade neste blog e nem contatá-lo para pedir (por educação) se ele se incomoda com a publicação (acho que não).


Tudo começou com o seguinte post meu:
"As idéias que sobrevivem não são as mais "verdadeiras" -- ou seja, aquelas que correspondam melhor a "fatos". Como na seleção biológica da evolução, as idéias que persistem são aquelas com melhores condições de se reproduzir.
Obviamente, a "veracidade" é um item importante na corrida por essa reprodução; mas não é o único -- e nem mesmo o mais importante..."

(Percebam: não é um comentário sobre biologia ou qualquer querela "criação x evolução".)

Bem, aí a coisa começou:

·         A.F.B.:  E a evolução (teoria da) resistiu? É conto da carochinha, matéria morta. Ou melhor, respira por aparelhos, porque os que vivem dela se recusam a enterrá-la. Não serve, até hoje, de base para nenhum conhecimento fora do campo do darwinismo. Mas vá lá, persiste, só que por ideologia, e não por m[eriot científico.
·                    
Franklin Galerani Lotufo ‎... enterrar como A.F.B., se nunca acharam nada, nenhum fóssil, nenhum mecanismo, nenhum sistema, nenhuma reação bioquímica, nenhum cílios que seja, que desligitimasse a teoria. O que existe são hiatos não encontrados ainda. Mas nada, absolutamente nada que não pudesse ser provado que surgiu de um organismo anterior. E olha que o que tem de gente procurando à décadas e com uma vontade enorme de achar uma falha mínima que seja hein!!!....
·          
A.F.B.:  É exatamente o contrário: não há evidencia de evolução. Não existem GRANDES hiatos, existem SÓ hiatos. Organismos altamente complexos que não só não tem versões intermediárias, como não poderia ter: os organismos são altamente calibrados para funcionar como são. NUNCA nenhuma mutação foi observada que agregasse uma mínima evolução. Nem em testes controlados com MILHARES de gerações de insetos. só nasceram insetos normais, com mutações limitantes, ou mortos. É uma fraude completa. E cada vez mais os cientistas estão tentando romper o silêncio. O destino do darwinismo é o mesmo do lamarckismo.
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A.F.B.:  Ah, além, é claro, de não explicar a origem da vida, como em tese se propõe. Acreditar que a vida surgiu e evoluiu a partir de uma sucessão de choque aleatório de átomos é a mais obscura das religiões. E uma baita falta de estudo.
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Franklin: ‎.... qual o problema com a lógica de ser "altamente complexo" e poder ter evoluído de um outro menos complexo?! Por sinal, complexidade se define como grande somatório de partes simples....De onde tirou também que somos altamentes calibrados por exemplo? Um ser humano não tem nem sequer rigorosamente, a mesmas formas e quantidades de elementos corporais que os outros, converse com qualquer radiologista e vai ficar espantado.....Não termos observado ainda mutações que agregassem evolução me parece o mesmo que afirmar que o petróleo é divino porque nunca vimos um material orgânico se transformando nele ainda... Por fim, sobre a origem da vida, não sei o que é mais obscuro, uma probabilistica, ou a crença literária não menos aleatória de terem nos colocado nessa poerinha cósmica chamado Terra e à imagem e semelhança de quem quer que seja.... de qq maneira isso é típica conversa de bar...portanto boa em bar...hehe.. Mas se quiser fica um link de dois bons livros que saíram a pouco reunindo dez argumentos a favor, e dez contra, a existência de Deus na história do pensamento.... tá na lista, não dá pra conversar nada...mas vou começar ouvindo as partes .....rs.... se não vou direto e sem dó pro Ceticismo (muito rigoroso por sinal) e não falo mais nisso ....nem em bar prometo...rs...abs. P.S. ...posso ter entendido mal e vc me disser que nem religioso é também...hehe... paciência...pede outra cerveja....

http://www.alamedaeditorial.com.br/dez-provas-da-existencia-de-deus-dez-provas-da-inexistencia-de-deus/ 
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Alameda Casa Editorial
12 de Julho às 10:19 · Editado ·   · 
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Franklin: ‎...o "conversa de bar" foi porque acabei de chegar de um e deu preguiça de conversar isso por aqui agora, melhor se fosse ao vivo num bar, só isso, de forma nenhuma desmerecendo o papo....pelo contrário...abraço!
A.F.B.:  Naturalmente que, se estou dizendo que não acredito que este mundo tenha sido criado no piloto automático, estou dizendo que acredito em um piloto. Sei que em certos meios que se querem intelectuais no Brasil, a simples afirmação da possibilidade de um Deus pode levar ao ostracismo, mas isso é um problema de quem escolheu esses meios pra viver, não meu.
Um arquiteto ateu é sempre um constrangimento extra: se não consegue ler o melhor Projeto de todos, estampado não apenas até onde o olho alcança, mas sendo o próprio olho uma parte integrante dele, como ele pode querer projetar algo que preste?
Os cientistas são, no melhor dos casos, bons observadores de eventos naturais. A partir de suas observações, designers (arqs e engs) trabalham pesado para tentar projetar algo que se aproxime da natureza, seja o funcionamento do cérebro, seja da precisão de vôo de uma libélula. Em alguns milhares de anos, not even close. Eis a qualidade do Projeto.
Mas no mundo de hoje, a descoberta de mais uma partícula de matéria é facilmente vendida como “de Deus”, quando a questão principal nunca é como a matéria se desenvolveu a partir do nada. A questão é de onde surgiram AS REGRAS para que se desenvolvessem. Um átomo de hidrogênio, na sua incrível simplicidade, esconde a mais simples questão: como do nada surgiu O CONCEITO de próton, elétron, nêutron, e todas as regras que fazem eles si ligarem de determinada maneira? A resposta da vida não é 42. A resposta da vida é “entenda o projeto”. Mas primeiro, é preciso admitir que ele existe, e está estampado na nossa cara.
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Gabriel Girnos:  Acreditar em Deus não leva tanto ao ostracismo no meio acadêmico; falar peremptoriamente que "teoria da evolução é conto da carochinha", sim -- e com razão.
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A.F.B.:  Claro que com razão! Vai que alguém resolve financiar... Agora falando sério, não exsite atitude mais anti-científica do que esta sua, de achar que existe razão em se ostracizar uma tese cinetífica contrária à dominante. Essa é a base da ciência. E claro, exsitem formas mais elegantes de se chamar evolucionismo de conto da carochinha, que é exatamente o que eles fazem. Agora, quer ver ofensa deselegantes de verdades é só perguntar a um darwinista militante o que ele acha das teses concorrentes.
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A.F.B.:  De resto, é claro que não há ostracismo acadêmico nenhum em ser anti-evolucionista. Todas as revistas importantes - pra ficar nas mais famosas, Nature, New Scientist e Scientifi American - publicam textos de pesquisas que desafiam bem sucedidamente os paradigmas darwinistas. Isso sem contar os próprios pesquisadores evolucionista, como Stephen J. Gould, que ninguém há de chamar de carola e nem de deixar de estender a mão na cafeteria, que já demarcaram claramente os limites do papinho furado evolucionista.
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A.F.B.:  Mas claro, fica aí a dica: o departamento de biologia de Oxford é o principal candidato a receber risadinhas jocosas suas. Antidarwinistas sérios.
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Gabriel:  Não, A.F.B.. Minha atitude não é anticientífica -- até porque não vi razão em ostracizar alguém por discordar. Eu vi razão para ostracizarem o seu TOM estridente. repetindo em caixa alta: FALAR PEREMPTORIAMENTE que "teoria da evolução é conto da carochinha". Esse tipo de retórica sua não é nada científica : é a retórica de quem quer chamar atenção.
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Gabriel:  Eu não sou denfensor de miltantes Darwinistas, A.F.B.. Aliás, a discussão foi inteira colocada por você.
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Marcelo Reis Nakashima: ‎"E a evolução (teoria da) resistiu? É conto da carochinha, matéria morta. Ou melhor, respira por aparelhos, porque os que vivem dela se recusam a enterrá-la."

Caramba, isso é muito torto! No meio dessa coisa toda, uma das melhores do A.F.B. é a afirmação de que nem em testes controlados se demonstra a Evolução...não sei de onde tirou isso coisas, mas vá em qualquer departamento de biologia e pergunte sobre seleção artificial. Eu mesmo conheço gente trabalhando com peixes, mas exemplo mais fácil é o dos cães domésticos (mas podemos pensar em gatos, passarinhos, pombos, galinhas, couve, peixinhos de aquário, gado, chester...) Se se aceita a seleção artificial, não há porque refutar a seleção natural - o planeta impõe uma série de condições que leva à Evolução. Se não se aceita a seleção artificial, temos que assumir que Deus criou os Poodles.

A Teoria da Evolução só não é consenso absoluto no meio científico porque tem gente nas universidades que pensa que o simples fato de pertencer ao meio acadêmico valida qualquer coisa que digam.

Evolução não é só mais uma idéia - é uma certeza científica. Esse papo de que só há hiatos na Evolução é uma grande bobagem. Toda vez que encontram um intermediário entre duas espécies os criacionistas apontam para o fato de que há dois hiatos.

Há provas da Evolução em diversos níveis e diversas frentes: morfológica, paleontológica, geológica e molecular. Todas elas convergem e dá pra escolher qualquer um desses argumentos sem prejuízo para a idéia de Darwin (não vamos perder tempo com o debate Wallace x Darwin, ok?). A força dessa idéia vem do fato de que suas linhas gerais permanecem praticamente inalteradas desde que foi proposta - assim é a ciência: aquilo que funciona nos leva à novas descobertas; aquilo que não funciona é descartado. Com o desenvolvimento da genética estamos corrigindo as pouquíssimas falhas na árvore genealógica da vida - que aliás, coincide quase que totalmente com os dados moleculares (DNA). A distribuição geográfica das espécies é outra evidência das mais fortes, assim como a cronologia do registro fóssil.

Só uma dúvida - e peço sinceras desculpas de antemão caso a pergunta ofenda, mas é comum entre criacionistas: você acredita que o mundo tenha 6 mil e poucos anos?

Concordo plenamente com o Gabriel: afirmar que Evolução é conto da carochinha é motivo sim, para o ostracismo no meio científico sim. Enfim, as pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem...só não deveriam ficar chocadas quando outros apontam para a incoerência de suas idéias. Evolução é uma obviedade.

Ah, antes que eu seja identificado como "militante darwinista": acho incrível a necessidade de cunhar tal termo. Sou geógrafo (pesquiso na Geografia Física). Pra mim, ser acusado disso é parecido com ser acusado de "militante da Terra redonda" por alguém que porventura ainda acredite na Terra chata - deve ter gente assim.

Descartar teorias científicas sem a devida apreciação é sim anticientífico. Não é o caso com o "design inteligente" - isso não é uma teoria científica.
sexta às 04:08 ·   · 2
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Marcelo: Só pra não cair no relativismo: a afirmação de que Evolução é uma "verdade cientifica" pode gerar o argumento de que se há verdades na ciência, então ela é dogmática e portanto não melhor que a religião. Bullshit. Existem coisas que não mudarão mais na ciência porque estão estabelecidas: varíola é provocada por um vírus, deriva continental, influência lunar nas marés...Evolução é uma dessas coisas.
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A.F.B.:  Marcelo, em uma coisa eu tenho que concordar com você: acho difícil que Deus tenha criado os poodles. Não os poodles. Nunca os poodles.
De resto, além de xingamentos e bravatas, você não apresentou absolutamente nada, como era de se esperar. Não existem descobertas que provem o processo evolutivo. Continuo esperando. Seleção Natural não prova que uma espécie se metamorfoseou em outra, prova que em determinado contexto, uma espécie é mais apta que outra, o que não precisa ser cientista para perceber.
Você precisa resolver se a teoria da evolução não é um consenso por causa de gente “torta” como eu ou se é uma certeza científica. Não dá para ser certeza e não ser consenso ao mesmo tempo. Em resumo, ou ela é uma Lei da Evolução ( certeza), ou ela é uma ...er...bem... uma Teoria.
A base da teoria da evolução é que uma espécie consegue, através de mutações coordenadas, transformar-se em uma espécie mais complexa e adaptada. Se essa premissa estiver errada, todo que daí decorre está errado – o que transformaria a teoria em...conto da carochinha. Simples assim. Como lamarckismo, como geração espontânea. A história da ciência é a história dos contos desmascarados. Mas retorno às mutações coordenadas, after the jump.
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A.F.B.:  Em “Waiting for Two Mutations: With Applications to Regulatory Sequence Evolution and the Limits of Darwinian Evolution,“ (http://www.genetics.org/content/180/3/1501.short  ) os geneticistas calcularam a partir de experimentos, quanto tempo levaria para ocorrerem DUAS, SÓ DUAS mutações coordenadas. 216 milhões de anos para esta pobre espécie que vos digita.
O problema é que me parece que a natureza tem prazos mais rígidos a cumprir. As libélulas (libélulas são fascinantes, amigos; melhor sistema de vôo E melhor sistema de visão no mesmo bicho)pro exemplo, furaram completamente o cronograma, ficando pronta em 30 milhões de anos, o que indica seus fósseis mais antigos.
Ficando pronta é uma concessão minha claro, porque não existem versões beta: nos mais antigos fósseis encontrados em um dos mais antigos animais encontrados, os olhos câmbricos já estavam lá, como estão hoje. Assim é como milhares de exemplos da chama complexidade irredutível, que nada mais é do que todos so órgãos que não evoluiriam por “tentativa e erro”. Nenhum ouvido humano ouviria sem ser na versão final. Olhos, idem ibdem.
Isso, claro são evidências de que não só os animais, mas o universo, tem design – e tão intricando, que sua engenharia reversa ( que só se aplica à, bem, projetos) anda a passos bem lentos. Não são provas, é claro. Mas o pessoal que pesquisa sobre o design inteligente é mais tranquilo.
Por fim, também não sou relativista não. E é por isso mesmo, que tenho muito rigor para selecionar o que é certeza científica, e o que é teoria. Me bastam as provas que a terra é redonda, e não me bastam as provas da idade da terra – uma vez que já foi provado que o decaimento do carbono 14 apresenta anomalias com o passar dos anos (Jenkins e Fischbach, da Purdue University tem o crédito da descoberta, agora já disseminada).
Por tudo isso, tenho a convicção racional que o evolucionismo não é nada além de um “ismo”. No melhor dos casos uma teoria como as outras. Fé mesmo, eu tenho que não foi Deus que criou os poodles.
Não os poodles.
http://external.ak.fbcdn.net/safe_image.php?d=AQBaHhIAjyLoz6No&w=90&h=90&url=http%3A%2F%2Fwww.genetics.org%2Fshared%2Fimg%2Fcommon%2Fsocial-bookmarking%2Fgoogleplus.jpg 
Results of Nowak and collaborators concerning the onset of cancer due to the ina...Ver mais
sexta às 19:05 ·   
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Marcelo: A.F.B.,

Não me consta ter xingado ninguém....ataquei uma idéia, como é natural em discussões desse tipo, nada mais. Como eu coloquei anteriormente, a única coisa que fiz que pode ser ofensiva foi perguntar se você acredita que a Terra tenha 6 mil e poucos anos, e continuo curioso, apesar de você ter feito menção à pesquisas que demonstrariam que o tempo para a duas mutações seria da ordem de milhões de anos.

Existem sim, muitos estudos que questionam teorias científicas sérias. Para que essas coisas sejam aceitas no meio científico, precisam passar pelo crivo de muitos cientistas, e isso ocorre com a publicação de resultados em revistas de alto fator de impacto, e pela subsequente quantidade de citações em meios igualmente sérios...ou seja: coisas que de fato funcionam, tendem a ganhar espaço no meio científico. Por isso, a genética caminhou a passos largos desde as ervilhas de Mendell, e a Evolução também. Por isso essas duas áreas (bem como muitas outras já citadas) convergiram. Apontam para as mesmas coisas - fatos naturais observáveis e testáveis.

Agora, em relação ao artigo que você citou, só posso assumir que você não leu ou não entendeu o conteúdo. Um dos objetivos desse estudo é JUSTAMENTE apontar falhas nos argumentos de Michael Behe, um criacionista famoso, que em seu livro "The edge of Evolution", coloca empecilhos matemáticos para os prazos necessários paea a Evolução, concluindo que a Terra não tem idade suficiente para a evolução de todas as espécies que agora existem (aliás, mesmo que isso fosse verdade, não legitima, de forma alguma, a idéia de que houve um designer). Você talvez não saiba, mas o Behe é um autor largamente contestado no meio científico. Os argumentos dele são tão batidos que poderia até ser surpreendente ver alguém utilizando tais coisas para contestar a Evolução. Não é porque eu já vi essa conversa antes e sei que criacionistas tendem a não ler as refutações ou - prática mais comum. Agora, citar artigos científicos que concluem coisas diferentes das que estão dizendo, isso é meio novo pra mim.

Se você prestar atenção no texto, já no abstract vai notar que os autores terminam com a seguinte frase:
"In addition, we use these results to expose flaws in some of Michael Behe’s arguments concerning mathematical limits to Darwinian evolution."
Aí, tem uma seção do texto, intitulada "The edge of Evolution"...lá eles explicam direitinho o problema com os argumentos de Behe.

Esse artigo foi publicado em uma revista séria, que por alguma razão se viu obrigada a emitir o seguinte comunicado público:

"The GSA supports educating students in genetics and consequently feels it important to express its views on the teaching of evolution in elementary and secondary schools.
The GSA strongly endorses such teaching, as genetics and evolution are two very closely interwoven disciplines. In fact, evolution might be summarized as population genetics over time. Some people have been opposed to the teaching of evolution because "it is only a theory." Such opposition rests on a mistaken understanding of what defines a scientific theory.
(...)
A theory is a hypothesis that has been subsequently confirmed by abundant, consistent data obtained from tests of the hypothesis.
(...)
The theory of evolution by natural selection is also such a confirmed hypothesis, as developed through the ongoing investigation and understanding of many different areas of biological, chemical, physical and earth science.
(...)
"Scientific creationism," "intelligent design," and other terms have been offered as alternative explanations for past and present biological processes. However, these represent a collection of beliefs usually based on a literal interpretation of religious texts and are thus disguises for religious doctrine, and not scientific theories. They ignore the empirical data around us and fail to provide a testable hypothesis. Consequently, since no testable explanation for biological history has been provided by these alternative views, they cannot be considered scientific theories and should not be part of school science curricula. They are more appropriate for courses in literature, sociology, or religion."

http://www.genetics-gsa.org/pages/pp_evolution.shtml

Hum...errr...ahn...embarassing...

Eu acho estranho que uma publicação científica tenha que dar declarações desse tipo...como disse antes, seria equivalente a ler, na Geomorphology, uma declaração afirmando que a publicação apóia a teorria da deriva continental e placas tectônicas. Minha hipótese, por enquanto, é que criacionistas vêm citando esse artigo como contestação à Evolução (tiro no pé). Agora faz assim: leia os textos do Behe antes de discutir o tema, ok? É o Behe que traz os argumentos bobinhos do design inteligente. Ele escreve bem e dá aquele ar pseudo-científico do qual os criacionistas tanto gostam...vou utilizar uma expressão que ouvi recentemente, de um amigo: sofisticated crap.

Quanto às suas dúvidas em relação à idade da Terra, gostaria de esclarecer uma coisa, já que trabalho com gente que pesquisa justamente datação de rochas e minerais: se o carbono 14 pudesse ser utilizado para datar a Terra, isso significaria que os criacionistas da Terra jovem estão corretos. O C14 tem uma meia via muito curta, de 5730 anos. É adequado para datar amostras que contenham carbono, e o limite de datação varia entre 50 e 70 mil anos. É um método que vem sendo refinado refinado, mas nenhum cientista sério questiona a validade dessas datações. O argumento de que o C14 apresenta variações ao longo do tempo é muito ingênuo. Primeiro que o próprio decaimento é uma variação, e é justamente isso que permite a datação. segundo, porque as variações de decaimento podem ser medidas e utilizadas para ajustar o método. Isso É feito por quem pesquisa isso. Não é, de forma alguma, prova que invalide a datação por C14. Se a datação por C14 tivesse se mostrado ineficaz, fique certo de que isso seria publicado em revistas de altíssimo impacto, como Nature, Science...ninguém tem paixão pelo C14, há outras formas de datação e será ótimo quando tivermos alguma coisa ainda melhor. Uma legal, aliás, é a datação por termoluminescência de quartzo - essa é novidade, tem uma amiga minha fazendo: Fernanda Volpon Neves. Análise morfológica e morfométrica da evolução da captura de drenagem do rio Guaratuba no relevo da Serra do Mar - Boracéia - SP. Início: 2009. Dissertação - Mestrado em Geografia Física - Universidade de São Paulo - no prelo.
A datação de rochas e minerais é feita através de outros isótopos radioativos, de meia-vida muito mais longa, como Potássio, Rubídio, Tório, Samário, Urânio entre outros. A meia-vida do Rubídio87, por exemplo, é de 48,8 bilhões de anos (daí a importância de saber se você acha que a Terra tenha mais de 7 mil anos). O método mais recente e considerado o mais preciso é a datação por zircão (basicamente considera, ao mesmo tempo, o decaimento do Urânio e do Tório), temos no IGC/USP, no recém-inaugurado laboratório de geocronologia. Recomendo a leitura de "Tempo Geológico", de Eicher, D. L. Edgard Blücher/EDUSP.
Ontem às 18:11 ·   

Marcelo: Quanto ao outro ponto que você levantou: "Você precisa resolver se a teoria da evolução não é um consenso por causa de gente “torta” como eu ou se é uma certeza científica. Não dá para ser certeza e não ser consenso ao mesmo tempo. "
Vou resolver pra você: quis dizer - e acho que fui claro - que a evolução não é consenso ABSOLUTO porque existem pessoas que fazem parte da academia que discordam...acontece que a discordância dessas pessoas é baseada em princípios não científicos, como o "design inteligente", esse sim conto da carochinha e idéia já há muito tempo identificada como a versão pseudo-científica do criacionismo bíblico. A Evolução é sim uma certeza científica, e ao contrário do que você vêm dizendo, é uma das melhores idéias que já surgiram na ciência, creditada e confirmada por pesquisas nas mais diversas áreas. Vou repetir e tentar melhorar a afirmação anterior:

Teoria da Evolução É CONSENSO no meio científico. Só não é consenso ABSOLUTO porque existe um NÚMERO de pessoas que ignoram fatos científicos e/ou criam versões fantasiosas para justificar crenças religiosas; e que por trabalharem numa universidade podem se considerar pertencentes ao meio científico. Esse pertencimento à academia, NA OPINIÃO DELAS PRÓPRIAS, valida seus argumentos, por mais toscos que sejam. Então, ambas as afirmações estão corretas. Melhor assim?

Você acusou a falta de provas no meu argumento anterior...de fato, eu apenas citei os vários campos que têm descobertas que corroboram com a Teoria da Evolução. De qualquer forma, "prova" é uma coisa com a qual tomamos cuidado na ciência, porque provas, do tipo que os criacionistas esperam dos biólogos, só existem na matemática. Nem mesmo o fato da Aids ser provocado pelo HIV pode ser provado como o teorema de Pitágoras. O melhor que as outras áreas conseguem fazer é chegar à idéias muito fortes e de difícil refutação...a Evolução é uma dessas, e o fato de ter se sustentado até agora, apesar de ser, possivelmente, a idéia mais atacada pelos criacionistas, só mostra a sua força. Eu não tenho tempo ou disposição para elencar todas as provas - mesmo porque eu teria que citar quase toda as ciências que tratam do tema, de alguma forma. Mas vou citar uma ou outra coisa, só pra não te deixar no vazio. Primeiro, vou falar de uma coisa que os criacionistas adoram: o registro fóssil.

Apesar das lacunas no registro fóssil - há muitas - temos fósseis em suficiente número para demonstrar a evolução de diversas espécies. Criacionistas tendem a falar em "elos perdidos" e hiatos, mas como eu disse antes, toda vez que se encontra um fóssil que preencha a lacuna entre animais "A" e "B", digamos, animal "X", vocês apontam para o fato de que há, agora, duas lacunas: entre "A" e "X" e "X" e "B". Trata-se de um argumento pernicioso.

Fósseis, veja bem, requerem condições muito específicas para sua formação...a imensa maioria dos seres vivos não serão fossilizados, de forma que é uma sorte muito grande termos um registro tão grande quanto o que temos. De qualquer forma, ainda que não existisse nenhum fóssil, a Evolução continuaria valendo. Isso ocorre porque as análises morfológicas dos seres vivos foram, por muito tempo, suficientes para que se montasse uma árvore da vida. A semelhança entre um jabuti e uma tartaruga são suficientes para pensarmos que deveria haver um parentesco - veja, essa suspeita é tão justificável quanto imaginar, pelas formas dos continentes, que África e América do Sul estavam unidas. O mesmo vale para homens e chimpanzés.

As evidências moleculares só fizeram confirmar que, salvo raras exceções que vêm sendo corrigidas, aquilo que se observava visualmente (parentesco entre espécies), podia ser medida geneticamente. Nunca houve erros grosseiros, do tipo: "descobrimos que ursos são mais próximos dos peixes que dos cães. Enfim, humanos são parentes próximos de chimpanzés, menos próximos de gorilas, menos de orangotantos. Chimpanzés e gorilas tem praticamente a mesma distância que homens e gorilas, o que implica em dizer que homens e chimpanzés tem um ancestral comum, e esse ancestral comum tem um ancestral comum com gorilas. Esse "concestral" é, portanto, ancestral de gorilas e do ancestral de homens e chimpanzés. A evidência genética confirma tudo isso.

Nesse contexto, o rico registro fóssil que temos, que já serve como evidência pra muita coisa, pode hoje serve mais para preencher lacunas a medida em que são decsobertos...veja que belo exemplo, o das baleias:

http://etb-whales.blogspot.com.br/2012/03/whale-evolution-introduction-to.html

Você afirmou, anteriormente, que não há "versões beta" dos seres vivos. Isso também não é verdade. O registro fóssil e os seres vivos atualmente mostram, em diversas sequências, o surgimento de órgãos e feições que tinham função reduzida e evoluíram para versões mais completas posteriormente. O casco das tartarugas é uma dessas coisas. Recentemente foi descrito o fóssil de um ancestral das tartarugas, batizado de Odontochelys semitestacea. Esses animais não tinham um casco completo, apenas o plastrão abdominal, e além disso, possuía dentes e tinha uma cauda mais longa que a dos atuais quelônios - o que os qualifica como exemplos ótimos de "elos-perdidos" ou "tartaruga beta"...agora, pros defensores da complexidade irredutível, pra que serviria meio casco? Meio casco, para fins de proteção, certamente garantiu a sobrevida dos seres que possuíam os genes para essa característica. É uma boa proteção para predadores que vinham de baixo, uma vez que tartarugas sobem à superfície para respirar e não pesa tanto quanto um casco completo, portanto, menos dispendioso do ponto de vista dos trade-offs evolutivos.
http://agencia.fapesp.br/9776
Eu me espanto que você utilize o argumento da complexidade irredutível...isso é meio constrangedor, pois é um dos argumentos mais antigos e largamente refutados (o Behe, novamente, é um dos "papas" dessa besteira). Não é verdade que um olho seja uma complexidade irredutível. Olhos evoluíram muitas vezes, de forma independente (evolução convergente), e é fácil explicar, passo a passo, como uma única célula fotossensível possa ser útil...um ser que possua células fotossensívels podem, com mais facilidade, se posicionar em zonas com maior disponibilidade de alimentos ou mesmo evitar áreas de grande exposição a predadores. Da mesma forma, meia asa é melhor que nenhuma asa para fins de propulsão, permitia saltos mais longos...depois a planação e finalmente o vôo.

etb-whales.blogspot.com
Cetacean Evolution (Whales, Dolphins, Porpoises)Evidence of Common Ancestry of Cetaceans and Certain Species of Land Mammalsby Edward T. Babinski
Ontem às 18:14 ·   · 

Marcelo: O olho, aliás, é um ótimo exemplo de não-projeto corrigido por subsequentes mutações - normalmente é assim: uma mutação pode dar, inicialmente, uma grande vantagem e trazer consigo diversas falhas. Se o benefício compensar as falhas, ele se mantém, e posteriormente essas falhas vão sendo corrigidas. Olhos humanos apresentam uma série de defeitos óticos: miopia, astigmatismo, hipermetropia...não o que se espera de um engenheiro com alguma noção de controle de qualidade. Os olhos da maioria das pessoas seriam considerados inaceitáveis por técnicos da Carl Zeiss. Além desses defeitos, há ainda uma outra grande "falha de projeto": as células fotossensíveis estão apontadas para trás, enchando a superfície da retina de um emaranhado de nervos. Porque não deixar a luz atingir diretamente as células fotossensíveis? Além disso, com os nervos voltados para dentro do olho, é necessário que eles saiam, e eles fazem isso convergindo para um orifício na parte de trás do olho, gerando uma grande zona - compensada pelo cérebro, que escaneia a imagem várias vezes e as interpreta. Faria mais sentido, claro, que as células apontassem para a frente e os nervos diretamente para trás...isso é uma falha herdada, e não acontece com todos os olhos - uma vez que olhos evoluíram, de forma independente pelo menos 40 vezes no reino animal.

Aqui cabe um outro exemplo interessantíssimo: existe, nas drosófilas, um gene chamado "eyeless". Quando esse gene falha, a mosca nasce sem olhos (essa é uma convenção na genética, batizar os genes com os erros que provocam quando falham). Nos mamíferos, existe um gene semelhante, chamado Pax6 ("small eye" para camundongos" e "aniridia" (sem retina) nos humanos. A sequência genética do aniridia dos humanos é mais parecida com o eyeless das drosófilas do que com outros genes humanos - indício de que seria herdado de um ancestral comum entre drosófilas e humanos, provavelmente algum tipo de verme. O interessante é que quando o gene dos camundongos é inserido na parte do DNA das drosófilas destinado a produzir uma perna, ele produzia um olho no lugar da perna. Mas não um olho de camundongo! Um olho de drosófila. Ou seja, a ordem do gene é: produza um olho aqui, do tipo de olho que você produz normalmente. Ou seja, esse é um gene herdado.

Por outro lado, pra que serviriam, por exemplo, os olhos vestigiais das espécies de peixes que vivem em cavernas? A única explicação coerente é que esses peixes pertenceriam a espécies que tinham olhos - aliás, temos uma espécie nacional de bagre cego:

http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/blog/wp-content/upload/imagens/blogs/gambarini/30-12/GAMBARINI_5.jpg

O bagre cego é exatamente um bagre, só que albino e sem olhos (ou com olhos vestigiais, há espécies em diferentes estágios de perda dos olhos). Não é capaz de se reproduzir cruzando com bagres "normais", pertencem, portanto, a outra espécie...ocorre que os bagres cegos (e muitos outros peixes de cavernas) possuem olhos vestigiais, ou seja, atrofiados. Pra que o designer projetaria um peixe cego com olhos vestigiais?

Por fim, mais um último exemplo de "design burro":

Existe um nervo que sai diretamente do cérebro e se conecta à laringe, chamado nervo "vago". De um lado, ele sai do cérebro e vai direto à laringe, como seria esperado de um projetista. Do outro lado, ele desce até o tórax, passa por trás de uma artéria do coração e volta para a laringe. Não há dúvidas de que isso é um "erro de projeto", não haveria prejuízo num nervo com ligação direta. Esse aparente "erro" ocorre em TODOS os mamíferos...no caso das girafas, por exemplo, é uma coisa bastante estúpida. Esse desvio, porém, pode ser explicado por evolução, através da embriologia comparada - seria uma característica herdada de ancestrais comuns entre homens e peixes (ou seja, há muito tempo), ou mesmo anterior, lá pelo concestral entre homens e insetos, que apresentam também a segmentação corporal embrionária e ramos nervosos emaranhados.

Uma boa sugestão de leitura aqui é um livro chamado "Why we get sick - the new science of darwinian medicine".
http://www.amazon.com/Why-We-Get-Sick-Darwinian/dp/0679746749

Pra finalizar aqui, a tua afirmação de que "a história da ciências é a história dos contos desmascarados"...cara, não fala uma bobagem dessas. Esse tipo de afirmação é absurda, e é típica de gente irritada com o que chamam de "ciência tradicional" porque cientistas sérios não aceitam suas maluquices. É sentimento comum entre parapsicólogos. A ciência evolui JUSTAMENTE porque está em seu cerne o auto-questionamento. Se os criacionistas tivessem esse mesmo rigor para questionar suas afirmações, simplesmente não haveriam criacionistas, e o tal "design inteligente" desapareceria, como desapareceram os defensores da alquimia. Pelo menos do meio científico. Design Inteligente está situado no mesmo nível das seguintes coisas: astrologia, alquimia, cura por cristais, cromoterapia, passes e cirurgias espíritas, parapsicologia e gnomologia.

Enfim, A.F.B....evidências da Evolução há, e aos montes. Eu não pretendo perder muito mais tempo debatendo o tema aqui, visto que a sua resposta foi um amontoado de falácias e demonstração de desconhecimento e incompreensão de princípios básicos de biologia, geologia e ciência de forma geral. Tenho quase a certeza de que você não aceitará os argumentos colocados aqui. Esse tipo de discussão pode ser legal pra você enquanto treino de retórica, mas pra mim, é só perda de tempo, como seria debater astrologia x astronomia.

Acredite no que quiser.
viajeaqui.abril.com.br
Ontem às 18:15 ·   · 
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Gabriel:  Bem, o Marcelo deixou muito pouco para ser falado a respeito da evolução. Concordo com tudo. Ainda assim, tenho algumas coisas minhas a acrescentar, dividindo por assunto.

TERMOS E CONCEITOS:
A.F.B., me chamou atenção em sua resposta ao Marcelo alguns erros crassos quanto aos termos e significados.

1) Você disse que o Marcelo "Além de xingamentos e bravatas" não apresentou "absolutamente nada, como era de se esperar". Bem, além de não ser verdade (xingamento?), um argumento que ele ofereceu não foi discutido por você -- o da seleção natural. Você apenas o ignorou e contornou. Ou melhor: você fez com ele uma piadinha (os Poodles); depois disse que "Seleção Natural não prova que uma espécie se metamorfoseou em outra, prova que em determinado contexto, uma espécie é mais apta que outra": respostas que mostram: 1) desconhecimento preocupante do conceito básico de Seleção Natural; 2) incompreensão do que Marcelo falou e/ou, desejo de passar batido no assunto ao invés de discuti-lo. Seleção Natural não faz explicação sobre uma espécie ser "mais apta que outra"; é JUSTAMENTE a explicação de como descendentes de um mesmo ancestral podem ir se diferenciando por terem características diferentemente "selecionadas" pela diferenciação entre os ambientes em que um e outro se encontram. Isso é uma realidade FARTAMENTE observada.

3) "No melhor dos casos uma teoria como as outras."
Nesse lugar-comum ultra-repisado você simplemente parece desconehcer o conceito científico de Teoria (ou mesmo o de Lei, for that matter).
Vou citar (novamente) a definição da própria comunidade do link que você mandou, a GSA:

"In common usage "theory" means "conjecture" or "speculation," whereas in scientific usage it means a systematically organized body of knowledge that explains a large set of observations and makes testable predictions.
Science operates first by observation and then by developing a hypothesis as a preliminary explanation of the data. A theory is a hypothesis that has been subsequently confirmed by abundant, consistent data obtained from tests of the hypothesis. For example, the atomic theory explains the behavior of physical substances in terms of the properties of elementary particles (atoms) and their combinations (molecules). This theory accounts for so many observations that it is accepted as the basis for all of chemistry."

Pois é, ninguém fala em "Lei do Átomo", mas também ninguém em sã consciência chamaria a TEORIA atômica de "uma teoria como as outras"... "Teoria" é algo de altíssimo status no mundo científico. E o "design inteligente", sinto, NÃO É considerado nem mesmo "teoria" no mundo científico -- a não ser da parte exclusiva de seus defensores (dos quais ainda não vi nenhum 100% laico e desligado do mundo religioso, embora eu esteja aberto e curioso a respeito). Criacionismo é, no máximo, apenas uma hipótese. Ênfase no APENAS.

3) o Marcelo já criticou esse comentário, mas vou desenvolver um pouco mais: "A história da ciência é a história dos contos desmascarados." Bem: não. A história da ciência é a história de progressivas correções de modelos teóricos, do acúmulo coletivo de conhecimento levando ao refinamento ou até a quebra de paradigmas. "Contos desmascarados" é uma metáfora que sugere histórias que desde o início se sabia não serem verdadeiras, a esconder a "verdade" por trás de "máscaras". Diz muito sobre a maneira que você parece preferir ver as coisas -- à maneira dos polemistas, através da pujante "quebra" de "verdades aceitas" -- mas muito pouco sobre o que é o trabalho laborioso e sistemático da busca pela verdade através da dúvida, observação e experimento.

Por fim, acho que alguém que limita-se a discutir argumentos científicos em segunda mão (ou terceira), sem domínio profundo das áreas envolvidas, poderia ser um pouco mais cuidadoso. Eu, ao menos, tento ser.
há 14 horas · 
·          
Gabriel:  AS FONTES MENCIONADAS:
Dei-me ao trabalho de procurar algumas fontes que citou desde lá o início, A.F.B.. O depto. de Biologia da Universidade de Oxford foi citado genericamente, e fui procurá-lo. Olhando no site, parecia um instituto solidamente evolucionista... de modo que uma referência mais específica (link, pesquisa, pesquisador) seria necessária sobre qual o estudo "antidarwinista sério" ao qual você se referia.
O único link que você colocou, bem... o Marcelo já disse quase tudo que eu diria a respeito dele: é uma revista respeitável, o texto É evolucionista e declaradamente refuta justamente um argumento de um principais livros do Design Inteligente...
Mas eu gostaria de acrecentar que, MESMO que esse texto estivesse criticando a teoria da evolução (o que ele não fez), não seria ainda necessariamente evidência da invalidade desta. O fato de um conjunto não-definitivo de SIMULAÇÕES de um MODELO MATEMÁTICO mostrar um tempo excepcionalmente longo para duas mutações BEM específicas NOS SERES HUMANOS (as drosófilas estão Ok) está muito longe de "destruir" a evolução; antes coloca, no máximo, questões e dúvidas relevantes sobre o funcionamento de um de seus mecanismos importantes -- coisas com as quais ela convive desde sempre. Os autores bem sabem disso -- como disse, é um estudo sério. Se os autores considerassem que sua pesquisa colocava todo o edifício evolutivo em cheque, eles teriam dito isso expressamente -- afinal, seria fama e renome na certa! (um criacionista pode alegar, claro, que eles só não questionaram a evolução expressamente por medo da pressão ideológica externa...). Mas não foi o caso, claro; e querer, com base nesses dados, concluir apressadamente a "óbvia" insustentabilidade da evolução é mostrar uma forma curiosamente seletiva de interpretar dados e um atroz desconhecimento da teoria criticada (que nem de longe repousa só na "mutação").
Trata-se, tão somente, de wishful thinking.
há 14 horas · 
·          
Gabriel:  O VALIDADE DA HIPÓTESE DO DESIGN:
Agora, entrando num terreno mais filosófico até que científico: mesmo que houvesse muito menos evidências da evolução, mesmo que o artigo linkado por você a desbancasse e mesmo que se provasse que ela não poderia ocorrer da maneira prevista hoje (e você não ofereceu "prova" definitiva nenhuma disso, lembremos), AINDA ASSIM isso não seria o suficiente para validar a "teoria" do design inteligente como substituto. Ou, colocando de maneira francamente jocosa: o fato do Carbono 14 não ser totalmente confiável não prova que Deus existe.

Brincadeiras à parte, o argumento pró-designaque você apresentou comete o erro básico de por o carro diante dos bois, querendo enxergar uma necessidade de desígnio onde ela não necessariamente está. Não se vê cientificidade nenhuma ali, apenas uma teleologia auto-referente. Não há real silogismo; sua lógica é a de que o mundo PARECE projetado, então DEVE ser projetado. A única virtude dessa fala é expor a sua própria convicção: se VOCÊ é capaz de ver um "grande plano", então ELE DEVE EXISTIR... essa é, sem tirar nem por, a lógica religiosa, e não a da ciência. Nunca a da ciência.

Mas você já deixou clara essa situação ambígua quando falou que "A resposta da vida não é 42. A resposta da vida é 'entenda o projeto'". Bom, o trabalho da ciência não é dar a "resposta da vida", né? Quem busca isso nela está confundindo-a com... outra coisa.

"Como do nada surgiu O CONCEITO de próton, elétron, nêutron, e todas as regras que fazem eles si ligarem de determinada maneira?"
Seu argumento de que "se há regras, alguém as escreveu" não é apenas a-científico: é filosoficamente primário e equivocado. Pra começar, dá de barato uma inexistente identidade entre conceitos e fenômenos, entre padrões observados e modelos pensados.
Nós não sabemos, cientificamente falando, se NO UNIVERSO fora de nossas mentes existe "conceitos"; só sabemos COM CERTEZA que "conceitos" existem PARA NÓS. Conceitos são fenômenos de linguagem, de INFORMAÇÃO: modelos com os quais NÓS tentamos, por aproximação, compreender e representar os padrões encontrados nos fenômenos. Trata-se de estabelecer, no campo da LINGUAGEM, "ficções" que descrevem determinadas relações, e que vão sendo testadas e, por ventura, substituídas por outras mais operativas, ou mais internamente congruentes. O que chamamos de "leis" da natureza, nesse sentido, não são mais que os padrões que conseguimos identificar em um determinado modelo. (Uma leitura básica sobre filosofia, epistemologia ou metodologia científicas poderia pô-lo a par disso).
[Continua no próximo.]
há 14 horas · 
·          
Gabriel:  Continuando, a idéia de "design" exposta por você deriva do pressuposto de que padrões são necessariamente decorrentes de inteligência e intencionalidade.Você pode até acreditar nessa idéia (há coisas piores em que se acreditar); O que não dá é pra advogar a cientificidade dela. A idéia não se sustenta para além da fé e da convicção pessoal; porque a "necessidade" dessa intencionalidade simplesmente inexiste, não é nem nunca foi observada em instância científica alguma.

Uma das características básicas e recorrentes da ciência é que seus resultados tendem a ser anti-intuitivos: parafraseando outro, se o verdade e aparência fossem coincidentes, a ciência mesma seria desnecessária. Dito isso, é sinceramente exasperante (e constrangedor) ver alguém que fala firme e peremptoriamente em nome de "ciência" e "provas" e contra o "obscurantismo" vir colocar um argumento de convicção: "PARECE ser assim -- é evidente, está na cara de todos, só não vê quem não quer -- então DEVE ser assim". Que conceito estranho de "evidência" isso sugere. Mas até aí, nenhuma surpresa: esse é, de cabo a rabo, o tom dominante de discursos criacionistas.

Eu não queria envolver Deus na jogada, mas a forma como você colocou as coisas torna meio impossível. Bom, mesmo quando eu acreditava em uma dimensão divina do universo -- algo vagamente parecido a um "grande plano" --, jamais achei-a incompatível com a idéia de uma evolução. Mesmo com 16 anos eu acharia muito pueril fazer essa oposição, até porque cresci convivendo com geólogos e biólogos (evolucionistas, obviamente) que acreditavam firmemente em Deus.
Sendo assim, essa busca criacionista por, a cada obstáculo, negar "in totum" a possibilidade de evolução EM FAVOR DO "INTELIGENT DESIGN" sempre me pareceu atitude de pessoas que precisam DESESPERADAMENTE se assegurar de que há um Deus garantindo o sentido de tudo; e precisam tanto que têm que negar veementemente qualquer teoria que possa chegar a SUGERIR um esquema de universo em que um "criador" não seja tão necessário.

Não tenho problema algum com pessoas acreditarem eu Deus; tenho muitos problemas quando elas acreditam DESSE JEITO.
há 14 horas · 
·          
Gabriel:  Finalizando:
"Um arquiteto ateu é sempre um constrangimento extra: se não consegue ler o melhor Projeto de todos, estampado não apenas até onde o olho alcança, mas sendo o próprio olho uma parte integrante dele, como ele pode querer projetar algo que preste?"

Bem, pode-se dizer também que um "arquiteto criacionista" é um perfeito candidato a mistificador: tende a ver "design" onde não há nenhum, ou ganha a vida convencendo pessoas que projetos inexistentes "estão lá", bastando "saber olhar"...
Um arquiteto ateu, ao menos, tem mais chances de saber quão raro e precioso é um projeto DE VERDADE.
há 14 horas · 
·          
A.F.B.:  A única coisa fartamente observada é a quantidade de texto e de quantas formas diferentes se pode escrever “evolucionismo é verdade porque todo mundo acha que é”. Mas tudo bem. Em um contexto em que sou acusado de não ter lido um texto só porque ele é evolucionista, só porque uso um dado dele para (cruzando com outro) argumentar diferente... Fartamente analisado, faltou “tempo e disposição” para irmos além de um quelônio sem casca. Poderia haver uma imagem mais significativa para o evolucionismo que um quelônio sem casca? Me pergunto. Por mim, ponto pacífico: o evolucionismo é um quelônio sem casca.

Para fins evolutivos, o que conta são características transicionais. O que realmente interessa é saber como é que o pulmão dos anfíbios se converteu em um pulmão de ave. Qual anfíbio “prendeu a respiração” por milhões de anos, enquanto o sistema mudava completamente? Qual bicho, com casca ou sem, apresenta ESSE sistema transicional? Se há um órgão complexo nesse mundo, deve ser o coração transicional de 3 câmaras dos anfíbios para o de 4 dos mamíferos.

Mas estas sucessões de exemplos, de ambos os lados, não levam a nada – ou pior, levam para longe: isso não é uma competição de quem sabe mais; é uma verificação de quem sabe menos. Da minha parte, é uma ato de afirmação de ignorância. Não sei como a vida surgiu. Os evolucionistas (contrariando todas as leis naturais observadas) acreditam na geração espontânea. E vocês, ah, vocês têm certeza. A abiogênese não evoluiu quase nada desde que cientistas afirmavam que gansos nasciam de certas árvores costeiras. Um geólogo deve saber bem quais são as evidências da sopa primordial”- que se tivesse existido, também não explicaria como a matéria inerte ganha vida , ou como o RNA escreveu a si mesmo.

Ah, e claro, falemos em TOM, já que chamar alguém de torto para vocês é normal, ofensivo é chamar uma teoria de conto da carochinha. Quando Thomas Browne resolveu lançar dúvidas, ainda no século XVII sobre a geração espontânea, ganho isso de resposta do escritor Alexander Ross, em um tom que você hão de reconhecer: “Então pode ele (Sir Thomas Browne) duvidar se do queijo ou da madeira se originam vermes; ou se besouros e vespas das fezes das vacas; ou se borboletas, lagostas, gafanhotos, ostras, lesmas, enguias, e etc., são procriadas da matéria putrefeita, que está apta a receber a forma de criatura para a qual ela é por poder formativo transformada. Questionar isso é questionar a razão, senso e experiência. Se ele duvida que vá ao Egito, e lá ele irá encontrar campos cheios de camundongos, prole da lama do Nilo, para a grande calamidade dos habitantes.”

Encerro com ele, porque como eu disse, minha vontade original não era argumentar que sabia mais, mas que todo mundo sabe menos do que parece. Mas eu estava enganado. Vocês devem saber mais que os próprios geneticistas e biologos, que não podem responder às perguntas aqui colocadas. Só me resta sugerir que convoquem um coletiva de imprensa para contar ao mundo como surgiu a vida, ou como acontecem mutações coordenadas, esses detalhes bestas. Tem muita gente se engalfinhando até hoje por causa disso, a maior parte delas cientistas evolucionistas, e tenho certeza” que eles iriam adorar saber. Quem pode resistir à razão, senso e experiência?
há 13 horas · 
·        
Gabriel:  Ok.
há 12 horas ·   · 
·        
Daniel Arbix Sensacional - migramos da defesa do design inteligente para o clamor pelo reexame permanente dos conhecimentos. Uma enorme evolução ;-)
há 12 minutos ·   (desfazer) ·




... e assim acaba. Mas o assunto continua no próximo post.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

paranóia e mistificação

As três características básicas de uma crítica conservadora, segundo Marcelo Coelho:

"Em primeiro lugar, o método de julgar a obra nova a partir de critérios inalteráveis, já estabelecidos, anteriores e externos à própria obra. Em segundo lugar, a avaliação de que vivemos um período de declínio, de decadência, de degeneração, de doença cultural. Em terceiro, a postulação de que o crítico é representante do público, do "homem comum", que está a ser enganado pelo artista. Numa fórmula mais sintética, temos um crítico que é ao mesmo tempo fiscal, médico e promotor de justiça... e seus textos adquirem um ar de boletim de ocorrência, de diagnóstico psicossocial e de denúncia pública."

O rótulo de "Conservador", no modo de dizer de Coelho, não é tanto uma acusação -- ou seja, algo necessariamente ruim -- mas principalmente a identificação de uma postura bem reconhecível. Essas três características levantadas por Coelho juntam coisas tão distantes como a crítica de Monteiro Lobato a Anita Malfatti; o documentário "Why beauty matters", feito pelo filósofo inglês Roger Scruton (conservative auto-declarado); a famosa Exposição de Arte Degenerada organizada pelos nazistas na Alemanha; ou as posições sobre arte e arquitetura do professor de matemática e teoria urbana Nikos Salingaros.

O interessante é: Coelho fala da área cultural, mas essas três características podem ser vistas em discursos políticos (a maioria à direita, mas vários à esquerda) e em posições em geral sobre "o universo, a vida e tudo mais". Só pra ilustração, vou dar um exemplo meio fácil e caricato:  algumas das respostas conservadoras mais comuns ao casamento homossexual.

- Julgar um fato novo a partir de critérios inalteráveis, anteriores e externos ao fato: falar que dois homens não podem casar porque casamento é, por definição, a junção de um homem e uma mulher;

- Diagnosticar a derrocada geral, um "fim dos tempos": casamento entre pessoas do mesmo sexo é danoso porque denigre a essência da família, destruindo seu valor social -- o que automaticamente coloca os gays interessados em casar como egoístas que, conscientes ou não, não ligam para que o mundo em volta de si caia desde que tenham sua luxúria narcisista satisfeita. (Nesses casos, a crítica toma um caráter de urgência).

- Colocar a si mesmo como um representante do "homem comum" diante do tal fato acintoso: em geral, críticos ao "casamento gay" alegam estar simplesmente vocalizando o senso comum, o senso das pessoas que estão lá em casa se indignando, mas que estão por demais alijadas do debate pela "ditadura" de pensamento críptico e auto-indulgente dos intelectuais e militantes ditos "progressistas" -- ou da dita "ditadura" de complacência do "politicamente correto".

Não me refiro aqui ao puro "conservadorismo de ignorância" -- algo mais despolitizado a que todo ser humano está sujeito, e que é só emanação do atávico medo do desconhecido. Todas as pessoas são mais "conservadoras" em alguns aspectos e menos em outros. Tento me referir aqui a certa postura intelectual bem clara e reconhecível.

Só pra terminar, jogo minha impressão descuidada e não testada sobre o "conservadorismo ilustrado": ele faz sentido principalmente para quem considera, deep inside, que a idéia, o princípio, antecede o fato, o acontecimento. (e aí, por exemplo, se compreende porque, nessa óptica, um embrião sem sistema nervoso e sem capacidade de vida independente do corpo de uma mãe é tão "indivíduo" quanto um ser humano nascido e pensante).
Me parece que, para pessoas com essa posição, a perda de valores e referências comuns -- que, geralmente, são tidos como "naturais" -- é sempre algo e si terrível, catastrófico; e é, em geral, encarada como artificial ou doentia, que só pode levar à dissolução de tudo o que é naturalmente bom, belo e verdadeiro.


(rodapé final: por essa impressão teleológica e essencialista que o conservadorismo me dá que tendo a desconfiar seriamente da existência de conservadores ateus. Mas, ei: pode ser que eu esteja completamente errado e este blog aqui não seja um cavalo de tróia querendo dar aparência de secularismo a uma agenda nada secular. Vai saber.)

domingo, 23 de junho de 2013

Super Brasil contra todo o mal!


Pela primeira vez, desde o início da onda de protestos que tomou o país, sinto alguma segurança para expor em público minhas impressões sobre o que vem acontecendo.  Só nos últimos dois ou três dias as coisas começaram a se definir bem, sob o aspecto do significado político.  De qualquer forma, adianto que não é uma posição definitiva; a velocidade com a qual os fatos vêm acontecendo, o surgimento de novos elementos e a perplexidade com a qual venho observando este movimento já me fizeram mudar de posicionamento diversas vezes nos últimos dias.  Penso que essa seja a única forma saudável de construir uma posição: através dos debates e discussões, leitura e observação atenta das diversas narrativas que se colocam, tanto por parte da grande mídia quanto através das posições externadas nas redes sociais.

Posto isso, passo a discutir alguns pontos que considero fundamentais para a compreensão do atual momento histórico: os motivos que deram início aos protestos, o jogo de ressignificação que vem se desenrolando, a captura da pauta de reivindicações por setores conservadores da sociedade, o papel das instituições políticas e por fim, o que penso sobre o futuro deste processo.


1.     O começo de tudo


 Dada a proporção que os protestos atingiram, não se pode negar que havia uma demanda reprimida.  Mesmo com os avanços sociais na história recente do país - e não foi pouca coisa - havia uma insatisfação generalizada na população, especialmente na classe média.  A não-novidade é que essa insatisfação é meio que natural: dificilmente alguma sociedade não tem uma série de críticas a respeito de vários aspectos de seu país: a educação sempre pode melhorar, crime é sempre um incômodo, a vida nas grandes cidades naturalmente traz consigo uma série de problemas, políticos corruptos, etc.

  Quando falo de classe média, não estou me referindo aos pobres recém-promovidos à tal da “classe C”, mas a classe média tradicional, aquela que tem capacidade de bancar ensino e saúde privados, que pode viajar uma vez por ano pro exterior, que janta fora...enfim, o pessoal aspirante a rico.

Agora, contra o que protestam essas pessoas todas?  As manifestações começaram com um objetivo muito claro: a redução das tarifas de ônibus e metrô na cidade de São Paulo.  Mas só os R$0,20?  Em princípio, sim.  O MPL (Movimento Passe Livre) existe desde 2005, e em 2006 fizeram sua primeira manifestação na cidade de São Paulo, quando Kassab (DEM) reajustou as tarifas de ônibus de R$2,00 para R$2,30 (+15%).  Voltaram às ruas em 2010, quando o mesmo Kassab reajustou novamente a tarifa para R$2,70 (+14,81%) e novamente em 2011, quando atingimos o atual valor de R$3,00 (+11,11%).  Em 2011, foram 10 manifestações que se estenderam de janeiro a abril, além de alguns atos na frente da casa de Kassab, sendo que a maior delas reuniu 7 mil pessoas.  Enfim, foram atos contínuos, promovidos por um movimento social pequeno, praticamente uspiano, que no máximo se equivaliam a outras manifestações de médio/grande porte na cidade de São Paulo.

O reajuste proposto por Haddad neste ano, para R$3,20 é o menor da série (+6,67%), o prefeito assumiu há cerca de seis meses, a cidade de São Paulo vive uma situação de pleno emprego...o que mudou?  O que teria levado tanta gente às ruas dessa vez?  Pode-se alegar que ao bater em R$3,20 o valor finalmente chegara a um valor inaceitável, ou que o acúmulo de aumentos em relação à inflação acumulada é que chegou no limite do que se pode conceber.  Acho que não.  Acho que há algum fator superveniente que provocou o inchaço do movimento, e passo a relatar, em ordem cronológica, como fui percebendo os fatos.

Bem, as manifestações do MPL em 2013 vinham ocorrendo da forma esperada.  Eu vi a pintura da maior faixa do movimento, com os dizeres “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar”.  Essa faixa foi confeccionada no prédio da Geografia e História da USP, onde há um grande vão livre e muito espaço para produzir esse tipo de material.  Era dia de colóquio no laboratório, uma quarta-feira, e eu me lembro de ter achado graça da “ameaça" de “parar a cidade”, já tinha visto aquilo antes.  Enfim, conforme o previsto, o número de manifestantes variou de 2 a 6 mil nos três primeiros protestos, dentro da faixa dos anos anteriores e sem despertar maior atenção da mídia, exceto pelos atos de vandalismo que foram acontecendo.  No terceiro protesto, dia 11 de junho, a situação começou a mudar: houve muito vandalismo na Av. Paulista e a reação da PM terminou com o saldo de 30 manifestantes e 8 policiais feridos.  Surge a seguinte imagem:


No dia seguinte, a Folha e o Estadão publicam editoriais contra o MPL, que a Folha (leia aqui) classifica como “um grupelho ciente de sua condição marginal e sectária , cuja reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 --abaixo da inflação, é útil assinalar - não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados. (...) É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.”

O governador Geraldo Alckmin, direto de Paris, manda seu recado para a PM, que “promete ser mais dura contra protestos”.

É muito importante frisar que até este ponto toda a imprensa e a imensa maioria da sociedade estava contra as manifestações – inclusive eu e muita gente da esquerda.  O tom parecia ser exagerado para uma reivindicação tão banal, afinal, “eram só 20 centavos, o aumento do Haddad veio bem abaixo da inflação, muito inferior aos de Serra/Kassab...”

Bem, lá se vão os manifestantes para o quarto protesto, no dia 13 de junho, quinta-feira.  Já se esperava que ocorressem novos confrontos, mas o que se viu foi uma reação extremamente desproporcional da PM.  Dessa vez foram detidas mais de 200 pessoas, muitas por portar vinagre, e foram feridos 105 manifestantes, 18 policiais e tcharãn...15 jornalistas.  7 da Folha, incluindo uma repórter que tomou um tiro no olho e um fotógrafo, que também atingido no olho tinha, até a última vez que verifiquei, poucas chances de recuperar a visão.  Se o protesto gerou a imagem do PM acuado, este gerou cenas igualmente marcantes, em uma quantidade incrível:


A PM “errou a mão”...mas tudo bem, havia sido autorizada a usar da força para conter os protestos, pelo governador e também pela mídia.  Os jornais certamente lamentariam o ocorrido.  Veio o editorial da Folha:

“A Polícia Militar do Estado de São Paulo protagonizou, na noite de anteontem, um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir. Cabe à PM impor a ordem, e não contribuir para a desordem. (...) O Movimento Passe Livre preconiza a paralisação de São Paulo em nome da irreal reivindicação de tarifa zero para os transportes públicos (não eram vinte centavos, aquele pretexto?) (...) Nem mesmo o saldo de 13 PMs feridos justifica o emprego de meios excessivos pela polícia. Tampouco foi eficaz a ação da PM, afinal ela acabou contribuindo para paralisar a cidade, mais até do que o próprio protesto.

A Folha traiu a PM.  Alckmin não haveria de fazer o mesmo, certo?  Parceiro antigo, adepto de soltar seus cães sobre manifestantes - lembram de Pinheirinho??  Não?? Lembrem.  Bom, o governador se limitou a declarar que “temos a melhor polícia do Brasil”.

Aqui termina a primeira parte do post.  A partir deste momento, as coisas começam a tomar outro rumo.


2.       Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve!


Dia 17 de junho de 2013, segunda-feira.  Fomos para a rua, muito mais pela indignação de ver o direito de protestar sendo cerceado do que exatamente pelos vinte centavos.  O governo havia, através da PM, proibido o uso da Avenida Paulista como palco dos protestos, com o pretexto de não atrapalhar o trânsito, conforme pedira a Folha...a polícia acabou parando a via para coibir a manifestação na base da porrada.  No facebook, todos contra a polícia, o alvo principal das críticas era Alckmin, que acusava os atos de ser uma armação política para prejudicar seu governo.

Me encontrei com alguns amigos no cruzamento da Rebouças com a Faria Lima.  Alckmin anunciara que não permitiria o uso de balas de borracha, apesar de achar que a PM agiu bem: “eventuais desvios de conduta serão investigados e punidos”.  O clima foi de festa absoluta: conseguimos, a contragosto do governador, retomar as ruas da cidade (ou teriam eles aberto passagem?) , chegamos à Paulista sob os aplausos dos que assistiam nos prédios...de vez em quando, aplaudiam as pessoas que sacudiam lençóis brancos e bandeiras brasileiras nas janelas e sacadas - fiquei pensando que devia ser mais legal estar lá em cima, sensação de estrela do rock.  Pelo caminho, ouvia-se, principalmente, o “vem pra rua vem, contra o aumento”, além de “que coincidência, não tem polícia, não tem violência”.  Havia algumas pessoas com bandeiras, cartazes de diversos temas e o hino nacional foi cantado algumas vezes.  Alckmin e Haddad foram pouco citados, ouvi apenas uma vez um “Ei, Dilma, vai tomar no cu”.  Tudo normal, pensei...estava impressionado com a quantidade de gente que, na minha cabeça, estava lá para protestar pelo direito de protestar, direito conseguido a duras penas.  Era uma celebração da democracia.

Pelo caminho, telefonei algumas vezes para a casa dos meus pais, para acalmá-los e saber das notícias.  Soube da invasão da Alerj e da tomada da marquise do Congresso...fiquei impressionado, não achava que fosse ver isso na vida “povo muito bundão”, pensava.

Tirei fotos, compartilhei algumas coisas no facebook e a reação foi muito positiva...o grupo que curtiu era muito heterogêneo, segundo o seu espectro político.  Muita gente gostou daquilo, da esquerda à direita.

No dia seguinte, 18 de junho, começaram a aparecer coisas estranhas: a imprensa estava toda a favor dos protestos, “verdadeira festa da democracia”, apenas criticando os isolados atos de vandalismo, pontuais e pouco representativos perto das massas que protestavam pacificamente.  O facebook estava extremamente nacionalista, como está até agora...e já tinha gente com a pulga atrás da orelha, porque haviam observado, já na grande passeata do dia anterior um princípio de hostilização dos partidos e manifestantes identificados com a esquerda.  O Gabriel foi o primeiro a colocar um contraponto, e chegamos a participar de uma conversa no facebook, com o Franklin, a respeito deste texto, na qual eu argumentava que entendia que a irritação das pessoas se devia a não aceitação da liderança de partidos de esquerda, como PSTU, que tinham suas bandeiras na frente da manifestação.  A manifestação do dia 17 foi muito grande, de forma que, dependendo de onde a pessoa estivesse, veria uma passeata diferente...de qualquer forma,

Ainda no dia 18, houve uma reunião de Haddad com o conselho da cidade e integrantes do MPL.  No mesmo dia, a tentativa de invasão da prefeitura.  A PM se fez ausente, deixando a Guarda Civil Metropolitana encurralada dentro da prefeitura enquanto rasgava a barraca de um casal de sem-teto, só pra não deixar cair muito o nível de perversão.  A impressão que tive foi justamente a de que Alckmin resolveu deixar a bomba para Haddad: os protestos estavam mais direcionados contra a prefeitura, no centro da cidade do que ao governo estadual, no distante bairro do Morumbi – em que pese a tentativa de invasão no dia 17 (a sede do governo paulista fica dentro de um parque, todo gradeado e mais fácil para dispersar multidões).  Além de permitir a depredação da prefeitura, a PM ainda “liberou” os saques no centro da cidade por duas horas.  Há inúmeros registros de pessoas que viram policiais a poucos metros de onde os vândalos arrombavam e roubavam lojas.

No dia 19 (esse será o último registro cronológico), Haddad e Alckmin anunciam, em conjunto, a redução das tarifas.  O MPL mantém a manifestação marcada para este dia, agora, para celebrar a redução da tarifa.  Neste ponto, protestos já irromperam em várias cidades do país, com uma pauta difusa e sem objetivos claros.  Uma multidão foi para as ruas, 110 mil somente em São Paulo.  Neste dia li e ouvi, de amigos, vários relatos que davam conta da hostilização dos partidos e movimentos sociais ligados à esquerda.  O PT foi expulso da manifestação, outros partidos foram hostilizados.  Chegaram a fazer um cordão de isolamento que em pouco tempo foi rompido pelos agressores, que estavam espumando de ódio.  Bandeiras eram tomadas das mãos dos militantes, queimadas ou rasgadas, às vezes às dentadas.  Uma amiga relatou ter visto uma bandeira do PT, em chamas, ser atirada contra os militantes petistas.  Os gritos de “sem partido” dominavam.  O clima era de selvageria total – provocado justamente por aqueles que julgam que o povo não precisa de partido, afinal, somos civilizados e se cada um agir por si podemos chegar a bons acordos e decisões.  Tá.

Aí sim eu vi civilidade e respeito à pluralidade!

O MPL, missão cumprida, se retira do movimento.  Sobra uma imensa massa, brava com muita coisa, despolitizada, além de um contingente de nacionalistas, moralistas, com seus discursos anti-corrupção, contra tudo que está errado, enfim, contra o mal.  Precisam salvar o país desse estado de pouca-vergonha em que se encontra, precisam acabar com esses partidos que estão roubando nosso patrimônio, precisam prender todos os políticos, fechar o congresso e, quem sabe...derrubar a presidente.  Tudo em nome da pátria.


3.      O processo de dessantificação das esquerdas, sua demonização e as lembranças de 64


Há uma certa tensão no ar, principalmente no meio das esquerdas.  O movimento que começou pedindo a redução das tarifas de transporte público, criado e gerido por um movimento nascido no Fórum Social Mundial de 2005, recheado de integrantes de diversos partidos da esquerda brasileira, foi, de uma hora pra outra, tomado por uma turba raivosa.

É importante lembrar que, desde a redemocratização, TODAS as grandes manifestações sociais foram lideradas e conduzidas por partidos da esquerda.  São a esquerda e seus diversos movimentos sociais e partidos que historicamente lutam e lutaram pela igualdade das mulheres, pelos direitos LGBT, pelas minorias étnicas, por reajustes salariais, pelo direito de greve, pelas políticas de inclusão social e, acreditem, pela moralização na política.  A hostilização ao PT só existe porque as denúncias de corrupção envolvendo membros do partido eram inéditas, e as elites eram extremamente incomodadas com a percepção popular de que seus representantes políticos eram vistos como parte de um grupo que só buscava atuar em causa própria.  O PT, entre os grandes partidos brasileiros, ainda é o que registra, por uma larga vantagem, o menor índice de corruptos.  Tá aqui.

Não importa: sob a alegação safada de que todo partido rouba igual, relativizou-se o fato de que o quanto se rouba e quantos dentro do partido roubam varia muito entre as diversas afiliações.

Aqui vem uma digressão que julgo ser importante para compreender o atual momento: a eleição de Lula em 2002.  Pela primeira vez chegava ao poder um homem de origem humilde, representando um partido que era praticamente uma utopia.  Seu governo pode ser dividido em duas colunas: a dos grandes feitos e a das traições àqueles que bancaram sua candidatura: a militância petista.

Na coluna dos grandes feitos vêm, principalmente, as políticas sociais, que possibilitaram a inclusão de milhões de pessoas na economia do país, o que acabou levando o país a um processo de crescimento econômico e geração de empregos movidos pelo aumento no consumo – claro, mais dinheiro nas mãos dos pobres, mais dinheiro no comércio.  Por outro lado, na coluna das traições, temos duas coisas graves: o abandono completo de bandeiras históricas, como a reforma política e, mais grave, o esquema ilegal que ficou conhecido por “mensalão”, seja o que quer que tenha sido, já que o julgamento condenou sem demonstrar o esquema denunciado (compra de votos de parlamentares da própria base majoritária).  As denúncias de 2005 obrigaram o PT a vender a alma ao diabo, literalmente: através de um discurso elogioso ao ex-presidente José Sarney, Lula atrai o PMDB (ou parte dele) para o governo.  Aqui morre a reputação ilibada do Partido dos Trabalhadores.

Não consigo imaginar um dia mais feliz para a direita brasileira do que o dia em que eles olharam para o governo do presidente mais popular da história do país, do partido que não roubava, e pensaram: “pegamos!” A partir da entrada do PMDB no governo, nenhum militante de esquerda ficou livre de escutar que eram exatamente iguais aos corruptos de direita.  Qualquer reacionário enche a boca para falar isso, já ouvi muitas vezes.  O julgamento de exceção que foi o mensalão acabou por condenar figuras históricas do partido.  Junto com estes, condenou toda uma militância à posição de ladrões, corruptos, defensores daquilo que há de pior em nosso país – eis a percepção da classe média reacionária brasileira.

A grande mídia brasileira é dominada por uns poucos veículos: organizações Globo, editora Abril, grupo Folha e Estado de São Paulo.  Todas pertencem à famílias abastadas paulistanas, com exceção da Globo, que é do Rio.  Todas têm em suas histórias as manchas de seu apoio ao regime militar e um corpo editorial claramente pendente pra direita.  A Abril, através da Veja, liderou a mais dura campanha de difamação já sofrida por qualquer governo no Brasil. Os fatos são grosseiramente distorcidos, manipulados, mentiras são contadas ou no mínimo ventiladas.  Do editorial à coluna de fofocas, a Veja tem uma agenda antipetista muito clara.  A Globo, lançada à condição de principal canal de TV do país para servir como porta-voz da ditadura militar brasileira faz o mesmo em sua cobertura televisiva tem ainda mais tradição no jogo: da vez em que mostrou a passeata pelas diretas já como se fosse uma comemoração pelo aniversário de São Paulo à edição do debate Lula x Collor que decidiu as eleições de 1989.  Estadão pelo menos é mais honesto: costuma assumir em editorial suas posições, enquanto a Folha posou, por muito tempo, de jornal de centro-esquerda.

Dois dias atrás, em um debate na USP, do qual participaram os professores Marcos Nobre (Filosofia/Unicamp), Pablo Ortelado (Gestão de Políticas Públicas/USP-Leste) e Renato Rovai (Cásper Líbero), avaliou-se que os atuais movimentos são dominados por uma massa que não pode ser acusada, peremptoriamente, de ser de direita, muito menos de fascista.  Concordo.  Há sim elementos e organizações de direita nessas passeatas, e também fascistas...mas a grande maioria, a massa mesmo, é formada por gente despolitizada, que lê muito pouco, que cresceu tendo como principal fonte de informação esses veículos de comunicação: Globo, Veja, Folha, Estadão.  Quando você pega uma Veja na mão, esta parece ser uma revista séria: bem diagramada, vários textos, fotos...enfim, informação!  Pode-se dizer o mesmo do Jornal Nacional.  É incrível a quantidade de gente (e não falo só da parva massa) que não acha que esses veículos não manipulem informação.  Tive muitas discussões com gente razoavelmente inteligente que se pauta pela Veja...e pior: com gente que diz que não se pauta pela revista mas posta nas redes qualquer merda que a revista publique contra o governo petista.  Normalmente gente cuja leitura não passa muito disso aí...tendem a relativizar o nível de leitura: “ah, você lê Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, esses caras?  Tudo igual.”

Enfim, o fato é que essa massa alimentada à base de Veja e JN pode não ter maldade alguma, mas é facilmente capturada pelo discurso da direita.  Na minha opinião, é o que explica o sequestro da pauta do MPL pela direita.  A coisa fica meio fascistóide no momento em que alguns elementos se combinam:

A) A pauta se torna genérica e moralista: “somos contra a corrupção”:

Pessoal...alguém (não envolvido) é a favor da corrupção?  Ser contra a corrupção é como ser contra o mal.  Quando marchamos sobre o Congresso Nacional pedindo o fim da corrupção, queremos que façam exatamente o quê?  Em primeiro lugar, a corrupção não acabará.  Nunca.  É uma questão probabilística: sabemos que uma porcentagem da população tende a querer tirar vantagem para si através de meios escusos...nossa sociedade é particularmente tolerante e praticante de pequenas safadezas, é difícil esperar que justamente no meio político, onde mais se pode atuar no sentido de tirar vantagem em benefício próprio esse pessoal não fosse aparecer.  Claro, somos contra a corrupção.  Agora, a forma de termos menos corrupção, é através do aprimoramento das instituições, da transparência...e talvez, da educação.  Enfim, daquelas coisas que todo mundo tá cansado de saber, que a Dilma colocou nesse último pronunciamento e que o pessoal genial do facebook acusou de “bla-blá-blá” – como se não fosse possível fazer o mesmo com qualquer discurso político.

B) Supressão das instituições de representação democrática:

Partidos políticos banidos do movimento, bandeiras arrancadas, rasgadas e queimadas, gente pedindo a dissolução do Congresso...é compreensível que a sociedade esteja de saco cheio de uma classe política tão corrupta quanto a nossa, e que tenha a percepção de que “político é tudo igual” (não é verdade).  Agora, não me parece que tenham inventado nada melhor que a democracia representativa...o que dá pra discutir é se parlamentarismo é ou não melhor que o presidencialismo.  Agora, democracia representativa se faz assim: a gente vota, os mais votados assumem.  Se a gente não curtir o trabalho deles, não vota mais, uai!  E se eles forem pegos aprontando, aí a gente tira.

Pedir o impeachment da Dilma, como querem alguns, é absurdo.  Primeiro, porque até onde sabemos, ela não fez nada de errado.  Segundo, porque a maioria da população aprova o governo dela: 55% segundo Ibope dessa semana, e a aprovação pessoal da presidente é de 71%.
O Datafolha publicou ontem uma pesquisa realizada entre os manifestantes que estiveram na Paulista na quinta-feira (dia em que expulsaram os partidos de esquerda da manifestação que comemorava a conquista da reivindicação colocada por eles): desses que estavam lá, apenas 10% votariam na presidente se as eleições fossem hoje, o que só mostra a distância desse pessoal para a média da população brasileira.  63% das pessoas tinham entre 21 e 35 anos – justamente a geração despolitizada à qual me referia (a minha, aliás).



Mesmo que a maioria estivesse insatisfeita com a presidente, não se tira um líder eleito assim, sem mais nem menos.  Pra nossa sorte, não se trata de time de futebol.  Democracia é coisa séria, e nela, todos têm o direito de protestar, de falar bobagem e de se expressar à vontade.  Aliás, a presidente que temos lutou diretamente pra que tivéssemos o direito de criticá-la abertamente.
FHC governou 8 anos com índices de popularidade muito abaixo dos de Dilma, que supera até mesmo Lula em período similar.

C) Símbolos nacionais (bandeiras e hinos) ostentados à exaustão:

Cria-se com isso um clima de que quem é a favor do Brasil deve se juntar a nós, afinal, somos contra o mal, lembra? Junta-se isso ao discurso da moralidade e tem-se um monte de moralistas de verde-amarelo exigindo a prisão dos ladrões de vermelho.

D) Clima de terror nas ruas:

Renato Rovai disse que há relatos de que no Rio até o tráfico colocou agentes infiltrados para aumentar o clima de caos urbano, isso viria como retaliação ao Estado do Rio pelas UPPs; em São Paulo, a polícia permitiu saques, em várias cidades há enfrentamento e o clima está cada vez mais tenso.  Se isso continuar por muito tempo, é possível que a população, assustada, peça mais polícia nas ruas, força nacional..."é necessário reestabelecer a ordem".

E) Eleição de um “salvador da pátria”: Joaquim Barbosa.

Tá, não acho que role...mas o que tem de gente no face publicando que "é só derrubar os quatro que estão na frente dele" não é brinquedo.  É uma pena que as pessoas só tenham passado a prestar atenção no Barbosa depois do mensalão.  Se tem um homem que não tem equilíbrio suficiente pra ser ministro do STF, este homem é Barbosa.


Não vejo uma ameaça iminente de golpe no país, mas os elementos necessários pra um certamente existem: imprensa, insatisfação generalizada, discurso moralista, sentimento nacionalista e uma figura messiânica (ou, minimamente, um perfil que se encaixaria). Não sei onde isso vai dar, acho que ninguém sabe.  Em São Paulo, a situação parece ter dado uma acalmada...ontem houve protestos “só” em 20 cidades. Agora, se os protestos continuarem por muito tempo, um cenário possível me parece ser o seguinte: a esquerda tentará se recolocar nas ruas.  Para tanto, seria necessário contar com suas bases, com o povo das periferias, a tal da “Classe C”.  Possivelmente a figura de Lula será utilizada para levar os mais pobres a defender o governo, o que pode por fim às tentativas de derrubar Dilma, ao menos nas ruas, mas certamente aumentará o acirramento dos debates...não vai ser nada bonito.

Pra encerrar, só mais duas ideias rápidas.  A primeira é a respeito da revogação do aumento de  vinte centavos:  é interessante (e real) pensar nessa conquista como algo muito maior que o mísero vintém. Esses vinte centavos por viagem que ficam no bolso do povo, equivalem, até 2016, a R$8,6 bilhões.  Quase um quarto do preço da Copa, só em São Paulo.  Isso tem um significado simbólico maior: o resultado das manifestações resultou na participação popular na decisão orçamentária do município.  A população e o conselho da cidade optaram por investir esse dinheiro (que a princípio sairá do orçamento mesmo) na redução da tarifa.

Por fim, um trechinho do editorial d´O Globo, de 2 de abril, celebrando o golpe militar de 64.  A versão integral está aqui.

“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.”

"verde-amarelo, sem foice nem martelo"


Parece familiar?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Eliane Brum, linda




http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/04/pela-ampliacao-da-maioridade-moral.html



"É claro que, se alguém acredita que os crimes cometidos pelos adolescentes não têm nenhuma relação com as condições concretas em que vivem esses adolescentes, assim como nenhuma relação com as condições concretas em que cumprem as medidas socioeducativas, faz sentido acreditar que se trata apenas de “vocação para o mal”. Entre os muitos problemas desse raciocínio que parece afetar o senso comum está o fato de que a maioria dos adolescentes infratores é formada por pretos, pardos e pobres. (São também os que mais morrem e sofrem todo o tipo de violência no Brasil.) Essa espécie de “marca da maldade” teria então cor e estrato social? Nesse caso, em vez de melhorar a educação e as condições concretas de vida, a única medida preventiva possível para quem defende tal crença seria enjaular ao nascer – ou nem deixar nascer. Alguém se lembra de ter visto esse tipo de tese em algum momento histórico? Percebe para onde isso leva? "

quinta-feira, 14 de março de 2013

Chico & Bento






Vou dizer já qual é o problema: esse negócio de conclave tá todo errado.  Primeiro, se o Espírito Santo inspirasse alguém, nem precisava de conclave.  Os cardeais se reuniriam em praça pública, e quando o mais velho contasse até três, todos diriam o mesmo nome, ao mesmo tempo, em voz alta.  Deviam tentar, seria divertido:

“É um...é dois...é três...e...já!”
“Ailehrgonbçdjkgjadlçfjbnaokjdfr!!!!”
“Habemus papam!  Cardeal John Olorunfemi Onaiyekan!

Mas já que a coisa do Espírito Santo certamente não vai rolar, proponho o seguinte: libera logo o uso da internet no conclave.  Se os cardeais pudessem consultar a internet, talvez evitassem esses constrangimentos.  Pra não perder a seriedade, podem bloquear os sites de pornografia e redes sociais...essas coisas distraem muito.

Cardeal pensando, enquanto descobre as maravilhas do Google Search:

“Deixa ver quem é esse tal de Bergoglio...acusado de sequestro, cooperação com uma ditadura sul-americana.  Hum...melhor escolher o outro cara”.

Ok, Ratzinger era muito conhecido no colégio cardinalício, chefe da Inquisição, e diz que não curtia seus tempos de jovem nazista...não sou cético quanto a isso (apesar da cara dele), muita gente melhora ao longo da vida.  Será que naquele conclave, alguém não chegou e disse: “Joseph...você foi eleito, mas...assim..esse negócio de acobertamento de pedófilos e tal...fica meio difícil, né?

Mas acompanhando as biografias dos outros papabili, fiquei impressionado com a quantidade deles que já se meteu na vida política, normalmente pelo lado errado.  Um outro lá era fascista, o Odilo, por exemplo, pôs em prática seu autoritarismo há poucos meses, ao empossar na reitoria da PUC-SP a candidata que ficou em 3º lugar na eleição (à exemplo do que Serra fez ao nomear Rodas, o segundo colocado nas eleições uspianas  para o cargo de reitor...será que nenhum deles foi bom a vida toda?  Não dava pra eleger um desses?

Claro que não.  Bergoglio, segundo os analistas e especialistas em papa e Vaticano – incrível como tem gente especializada nisso – representa  uma tentativa da igreja de conter a perda de fiéis na Europa e nas Américas, reformar a Cúria Romana, e muito, muito mais.  Guess what?  Os europeus não estão deixando de ser católicos porque o papa é ruim...estão deixando a igreja porque a ideia é ruim.  Duvido que isso tenha retorno.  A igreja sobreviverá por muito tempo abaixo do Equador, por razões óbvias.

Sinceramente, Bentinho vai deixar saudades...esse foi o papa que tornou possível que todo mundo fizesse piada com a figura do papa...porque João Paulo II era muito carismático, as pessoas ficavam realmente bravas com quem tivesse ressalvas a ele.  Com Ratzinger a coisa virou uma Esbórnia...aliás, quem foi que disse pra ele que podia sair?  Mas tenho a impressão de que esse papa aí não ficará pra trás.  Só não sei se fica muito tempo.  O cara tem 76 anos e um pulmão a menos (sério!).

Pra deixar vocês com uma mensagem do novo papa, escolho um a declaração dele a respeito do projeto de lei que legalizava o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina:

“É uma agitação do Pai da Mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”

Ou seja: coisa do diabo.


P.S. Esse papa curte muito futebol.  Se eu fosse ele, tascava uma encíclica declarando que Maradona e Messi são melhores que o Pelé.  Só pra sacanear.
P.S.2. A Globonews deu o tom: "o novo papa já conquistou a todos".  Isso porque ele fez uma piada com a Argentina (o fim do mundo) e pediu que rezassem por ele...já fomos mais exigentes.
P.S.3. Chico anda de transporte público e cozinha suas próprias refeições.  Posso ser papa também?  Onde cabem dois, cabem três.
 P.S.4. Bentinho nos escreveu contando que o principal motivo de sua renúncia foi a “leitura e reflexão profunda acerca dos ensinamentos de Wilbor”. Pediu para colaborar com o blog.  Quer assumir a editoria de Religião e Gnomologia.  Estamos considerando.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Oito de março, enquanto for preciso.

“Ser mulher é para Sabina uma condição que ela não escolheu. Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Diante de uma condição que nos é imposta, é preciso, pensa Sabina, encontrar a atitude certa. Parecia-lhe tão absurdo insurgir-se contra o fato de ter nascido mulher quanto glorificar-se disso.”
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pp 95.*


Lembrete: o "dia da mulher" não é um dia de comemoração.
Nem de dar presentes. 
Ou rosas. 
Ou parabéns.

Não que seja ofensa ou crime fazê-lo (isto já foi discutido aqui em outras ocasiões); a questão é que essas atitudes simplesmente não atingem o ponto, e acabam por tratar a data como uma mistura de "dia das mães" com "dia dos namorados".

Como o 20 de novembro, o 8 de maio é um dia de reflexão e de memória; dia de comemorar sim o já conquistado, mas principalmente de lembrar do quanto se está longe do objetivo.
Fazendo minhas as palavras do Sakamoto, creio que o que posso fazer de melhor no dia é "agradecer novamente às mulheres que passaram pela minha vida e foram fundamentais para que fosse um homem menos idiota."  
E convivi com muito mais mulheres que homens na minha vida. Minhas professoras, alunas, colegas, amigas, tias, avós, irmãs, mães e esposa: é dia de agradecer o que me ensinaram e, em especial, de me lembrar de toda a merda que já tiveram e ainda têm de aguentar só por serem mulheres.
Pro terminar o dia, compartilho alguns links antigos, de textos de uma jovem blogueira que, embora eu não veja mais por aí faz muito tempo, foi bem importante na minha "feministização" em particular: a Marjorie Rodrigues. "Como você OUSA não ser “feminina”?" e "da frase que mais me irrita nessa vida"
Segue também algumas interessantes iniciativas de arquivamento e comentário de manifestações diárias de machismo na internet e na propaganda: o Slutshaming Detected e o "Dia da mulher NÃO é nada disso". Aviso, porém, que são sites deprimentes; quase tanto quanto necessários.


* Eu queria achar mais citações do lindo capítulo "As palavras incompreendidas" do livro de Kundera, mas não rolou. Fica para outra ocasião.