segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Entresafra é fogo

Folha de São Paulo da semana passada. Na capa, vê-se a manchete:
Ministros embolsam verba de mudança sem precisar.
Na foto logo abaixo, vê-se o Lula de costas, numa situação algo desconfortável mas ativa, pulando de um barco para um píer, segurando na mão do presidente francês Sarkozy que, por sua vez, mostra a cara automaticamente sardônica de sempre.

Abaixo da foto, há uma legenda em vermelho referente à cena de Lula e Sarkozy, dizendo MÃO AMIGA.

Mas o melhor mesmo está na legenda abaixo disso:
“Lula e Nicoilas Sarkozy se encontram na Guiana Francesa; o francês propôs cooperação militar, e o petista se disse a favor da divulgação de gastos com cartões corporativos na internet”
Puta. Que. Pariu.
Em primeiro lugar, o artigo faz indiretamente o leitor desinformado incorrer no erro de pensar que os gastos dos cartões já não sejam desde sempre divulgados na internet (foram descobertos só por isso, pô) e que o Lula pode algum dia ter sido contra isso.
Em segundo lugar, O QUE É QUE ISSO TEM A VER COM O SARKOZY E O LULA, CARALHO? A negociação de Lula com o presidente-conservador-esquisitão-catador-de-modelo é (e não só ela) mil vezes mais relevante politicamente do que essa as irregularidades dos cartões, que já foram denunciadas e estão em investigação e estão visivelmente recebendo mais cartaz do que merecem, e por mais tempo do que deveriam.
A safra de escândalos está tão baixa que o jornal mais lido do Brasil tem que ficar nisso?
Pergunta retórica. Claro que tem. Porque, além de ser do interesse de muitos, é isso que muito brasileiro quer ver. Um assunto fácil de acompanhar (fácil mesmo: tá na internet, caramba!) e fácil de se indignar. Quando não é messias, político é que nem juiz: o povo gosta mesmo é de xingar. Afinal, você pode culpá-lo pelo fracasso do seu time. Juiz quando rouba mesmo, então, é muito mais gostoso: reveste o ressentimento vago e constante com a luz da ira justa dos céus.
Nos cartões, a imprensa encontrou uma fonte milagrosa de escandalinhos no atacado. Fácil de ver, fácil de apurar, fácil de denunciar.
Apelo mudo à grande imprensa: por favor, encontrem verdadeiros escândalos e parem de fabricar escandaletas. O Luis Nassif está fazendo isso agora, expondo as ligações escusas entre a mais lida revista do país, “escândalos” fabricados e o enlameadíssimo Daniel Dantas. Contudo, além de extremamente complexos e difíceis de seguir – porque envolvem alto grau de dissimulação -- escândalos verdadeiros acontecidos dentro do próprio jornalismo são sempre embaraçadores – não tanto para a categoria profissional, mas principalmente para os donos de jornal.
Um alento, nessa mesma edição da Folha de São Paulo, é a coluna de Marcelo Coelho na Ilustrada falando que “Marcathismo das miudezas é forma de fugir do debate”. Expondo o que todo mundo que pensa um pouco já percebeu – esse assunto dos cartões já deu o que tinha que dar e é só a falta do que falar e a preguiça de investigar (e ler) temas mais complexos e importantes explica a insistência desmedida da imprensa nele. E a reforma tributária? Mexe com a vida do país inteiro, mas é assunto meio complicado demais para manchete.
Pergunta: seria uma crítica do colunista à própria Folha (porque investir nessa mesquinharia de venda fácil é o que ela faz nessa mesma edição) ou se encaixa numa pequena “compensação” que o jornal ofereceu ao público que está disposto a envolver mais de meia dúzia de segundos e neurônios na reflexão acerca do assunto?

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domingo, 17 de fevereiro de 2008

... conforme queríamos demonstrar



... dê um pulo no site da ASSOCIAÇÃO STOP A DESTRUIÇÃO DO MUNDO e tire suas conclusões...



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Cuidado com as boas causas

Grande vício dos preguiçosos: falar em abstrato. Paciência, estou com pressa.

Tempos de ONGs, histerias “globais” e assistencialismo terceirizado, virtualizado e mundializado. Todos prontos a aliviar consciências “pesadas” nascidas da complacência e preguiça de uma vida de abundância. Vida essa que, embora atinja ainda a minoria absoluta da população mundial, já forma um contingente imenso de gente. Incluindo nós do Wilbor.
Estava pensando que, nessa época, seria bom ter em mente certas coisas. Uma delas é de que, por trás de toda causa — e não falo de enganações, mas daquelas que realmente valem a pena — vamos encontrar:
- Pessoas comprometidas, sérias e bem informadas.
- Pessoas bem-intencionadas e completamente ingênuas e desinformadas.
- Gente que quer ser “cool” ou que quer ser “boazinha”.
- Gente que só quer um motivo pra reclamar do mundo e desprezar os outros.
- Medíocres que simplesmente vêem na causa um nicho dentro da qual se estabelecer e acomodar com segurança.
- Picaretas e sacanas que verão na causa uma oportunidade de ascensão e sucesso pessoal;
- Enganadores e salafrários do nível mais baixo, que parasitam a causa fazendo-se passar por seus defensores, quando na verdade são golpistas.
- Fanáticos cuja carência afetiva e falta de estrutura psicológica e emocional farão com que se dediquem de corpo e alma à causa, cuja urgência alardeiam constante e desesperadamente por ser ela aquilo que dá a seu ego frágil a mais estável razão de ser.

Entre os muitos que vêm a público defender ou representar grupos e causas, é uma questão de primeira importância conseguir distinguir estes tipos. Acredito, porém, que tais tipos raramente vêm puros, geralmente misturam-se.
A regra geral é pensar que, por trás de uma "boa causa", sempre vai ter algum trupe de picaretas -- justamente porque vão perceber que a causa, por ser boa, oferecerá chances de sucesso.
Se digo isso tudo, é antes para é pra ressaltar o valor de boas causas, e não deixar que as limitações ou a mesquinhez de seus representantes as comprometam.


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Pequenas considerações noveleiras

Sem tempo nem saco para elaborar mais a respeito, limito-me a comentar rapidamente algo que desperta certa indignação profissional.

Sobre cena assistida da dulcíssima novela das oito que passa às nove e meia, "Duas Caras", na qual José Wilker reitor bonzão (ex-militante) é inocentado de acusações injustas de racismo. A cena mostra, além da Suzana Vieira com aquele cabelo e jeitão medonhos, alguns professores da escola visivelmente invejosos do Zé Wilker.

Os professores são sacanas e mesquinhos e o reitor é honesto e zeloso. Eles o invejam porque ele é o que "deu certo" -- o que toma como fundo que, naturalmente, o natural de ser bom professor é se tornar dono de escola...

Certo. Já vi centenas de pessoas mesquinhas, muitas delas na profissão de professor. Mas, diante de tudo o que sei sobre o ensino privado no Brasil e o sitema absurdamente picareta e exploratório que ocorre nele, em especial no trato com os contratados, sou capaz de apostar que é mais difícil achar um reitor sem essas características sacanas do que um professor.

A tempo:
A polêmica de "acusação injusta de racismo" criada pela novela é descaradamente roubada do romance "the Human Stain", de Philip Roth -- que deu num filme com Gary Sinise, Nicole Kidman e Antony Hopkins. Hopkins, aliás, sofre a calúnia que, na novela, é endereçada ao Roque Santeiro.

A questão racial no brasil tem por vezes tomado rumos estúpidos no país. Mas ver isso retratado pela globo através de um plágio moralista sempre traz mais sabor ao momento.

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Lucky me

Dear Friend

I know that this message will come to you as a surprise. I am the Auditing and Accounting section manager in AFRICAN DEVELOPMENT BANK (A.D.B) Ouagadougou Burkina faso. I Hoped that you will not expose or betray this trust and confident that i am about to repose on you for the mutual benefit of our both families.

I need your urgent assistance in transferring the sum of ($15.2)million to your account within 10 or 14 banking days. This money has been dormant for years in our Bank without claim.I want the bank to release the money to you as the nearest person to our deceased customer.

I don't want the money to go into our Bank treasurer as an abandoned fund. So this is the reason why i contacted you so that the bank can release the money to you as the next of kin to the deceased customer. Please I would like you to keep this proposal as a top secret and delete it if you are not interested.

Upon receipt of your reply,i will give you full details on how the business will be executed and also note that you will have 40% of the above mentioned sum if you agree to handle this business.and (5%) will be preserved for helping the helpless people, like charity organization and motherless babies.

I am expecting your urgent response,as soon as you receive my message.

Best Regard.
Mr.Anani Aboumane.
WAITING FOR YOUR RESPONSE

Rapá, é até chato ser tão sortudo e ter família grande!
Somando os últimos 3 e-mails antes deste, estou pra receber uns 50 milhões.
Mordam-se de inveja vocês que não têm herança africana.


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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

gente estranha fala cada coisa

saindo do bar ontem ouvi a seguinte frase:

"...é verdade, eu preciso de muita coragem para deixar de comer cadáveres."

Olhei pro meu cunhado que me perguntou se eu tinha escutado a mesma coisa...fiquei aliviado, sou meio surdo e às vezes penso que ouvi coisas que nunca foam ditas, mas foi isso mesmo. Quem disse a frase foi uma mulher com aparência hipponga, numa mesa com umas outras 4 pessoas.

Quem resolveu a coisa foi a minha irmã, que caminhava logo atrás e ouviu mais um pedaço da conversa: tratava-se de uma carnívora se justificando para um grupo de vegans.

Eu JAMAIS deixarei de comer cadáveres, por mais que eu tenha dó dos bichinhos.



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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Pra que serve o Design

No último sábado 21, estive pela primeira vez em uma cerimônia de colação de grau na qualidade de professor.
No dia 24, eu olho a primeira página da indefectível TRIBUNA DE CIANORTE e vejo isto:





(Pra quem quiser saber, o Prefeito da cidade é a figura embaixo do "U" e o magnífico Reitor é o entre o "E" e o "M". Nada foi provado ainda.)




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Maravilhas da Internet

Não são maravilhosas as respostas automáticas de sistema de pesquisa na web? Quem mais poderia nos agraciar com isto:

> Procurando Nazista?
Compare e ache o melhor preço de nazista aqui no shopping UOL.
www.shoppinguol.com.br


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Angeli para arquitetos





Pra quem estudou o modernismo (acho que a maioria dos arquitetos brasileiros), esta tirinha é excelente.



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domingo, 27 de janeiro de 2008

Parabéns!

Hoje, 29 de janeiro: dia do jornalista católico.


Nossos parabéns, a humanidade agradece.



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Reconhecimento

Foi noticiado no último dia 15, no Portal do Governo do Maranhão.
O Monstro Souza, livro escrito por Bruno Azevêdo e projetado visualmente por mim, ganhou o Primeiro Lugar no Prêmio Gonçalves Dias de Literatura de 2006, na categoria "Engenho e Arte".

Este é o segundo prêmio de literatura que o livro ganha no Maranhão. Se bem que, na ocasião anterior (em que ganhou um segundo lugar) o livro era consideravelmente diferente de sua atual versão.



Esta acima é a capa que foi usada no livro na versão para o concurso.
A imagem abaixo é a capa que eu queria que fosse usada.



Detalhe: o prêmio, além do dinheiro (e glória) recebido por Bruno, será a publicação do livro custeada pelo Estado do Maranhão.
Porém... há grande probabiliadade de que não teremos de apelar para as magras finanças públicas neste ano.

Assim que as probabilidades virarem um contrato, ponho todos a par.



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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Comprei-a-a.

Vi pela primeira vez há uns nove anos. Fiquei animado com a de um colega no ano passado, e mais ainda com os depoimentos de Scott Mcloud dizendo quen só usava dessas ferramentas agora.

Bem.
Após uns meses de desejo e indecisão, comprei uma Tablet.
Duzentas e poucas pilas. Dois mil e cacetada níveis de pressão.

Este é o segundo desenho que fiz com ela.



Ainda estou testando. Mas a variedade de traço que ela possibilita, mesmo sendo um modelo relativamente simples e baratinho, é empolgante.

Aqui embaixo, um detalhe ampliado do desenho.





A technologia promete.




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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pitombas!

Reproduzo aqui o interessante manifesto literário (feito em contexto maranhense, bem entendido, mas que não se confina aos limites da ilha ludovicense) de meu grande amigo Bruno, do O PUTAQUEPARIU!.



MANIFESTO PITOMBA
(Bruno Azevêdo)


01. porque a palavra, já que dita, não é palavra, antes de ouvida.

02. porque se há de ser dito, e se convém que se ouça, que seja dito com cacofatos e microfonias, pra que, assim, quem ouça também diga.

03. porque haja uma leva de gente, por fatalidade geográfica, no mesmo tempo e à mesma inação.

04. porque a informação não se pertence e a posse de ter é a posse de dar e é essa posse que reivindicamos.

05. porque a palavra há de existir para além de quem a diga, mas não para além dela, porque a palavra está para além de nada.

06. porque pra além do caroço, que é quase tudo, existe a casca, que se quebra, e existe a polpa, que se quer.


pitomba!




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domingo, 13 de janeiro de 2008

brasilidades

Já faz algum tempo que percebi que o afastamento sempre propicia pontos de vista interessantes acerca de tudo aquilo que nos parece normal em nossas vidas. Notei isso pela primeira vez de forma mais contundente quando estive nos EUA e passei a pensar no quanto algumas palavras em português não se parecem nada com o objeto que designam, uma que me chamava muito a atenção era a palavra "feijão"...não me preguntem porque, mas na época me soava estranho.

Muito tempo antes, ouvi pela primeira vez a expressão "cagando e andando", que uso bastante. Foi no TV Pirata, Cláudia Raia pintada de azul (não tenho certeza disso), com seis braços (disso eu tenho certeza), dizia:

"Eu sou a Deusa Caganda e Andanda" - como se fosse uma daquelas divindades hindus. Achei muita graça, embora àquela época não conhecesse a expressão.

Esses dias, estava explicando pra uns amigos da Suécia algumas expressões comuns no Brasil, e quando cheguei no "cagando e andando" os caras acharam muita graça. "Cagando e andando" realmente é o ápice do "não ligar". O sujeito está tão nem aí que sai andando e ainda caga um pouquinho. Ou bastante.

As risadas são pertinentes, é realmente muito engraçado.

Depois disso não consegui pensar em nenhuma expressão brasileira mais divertida, pictórica e exata.

Sugestões?



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sábado, 12 de janeiro de 2008

Saí para Cearar...volto assim que terminar

Caros amigos...a vida é difícil mesmo. Neste exato momento estou nas minhas difíceis férias no Ceará, visitando os lugares mais horrorosos possíveis, como Jericoacoara, Canoa Quebrada...

Assim que eu resolver essa parada volto a publicar com aquela frequância de sempre: de vez em quando.

Quem lê este blog sabe que a maior parte do que se escreve por aqui é produto da observação dos autores: esquisitices desse mundo, relações estranhas entre coisas simples...já aconteceu tanta coisa por aqui que daria um livrinho bem vagabundo, mas o álcool e a agenda lotada de compromissos tem me impedido até de pensar em postar algo.

Será corrigido. Logo. Mas agora não porque to saindo pra comer caranguejo.



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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Império da Babaquice

Olhando uma edição da revista de turismo Viaje Mais (ano 7, nº79, dezembro 2007, Brasil R$6,90 Europa € 2,50), encontro uma reportagem sobre aquela extravagante fantasia Sci-Fi Árabe que chamam de Dubai (pô, até o nome parece saído de Star Wars) ....



... e aí me deparo com esta:




Deixa eu ampliar:









AAARRRRRGH!!!!



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Victor Hugo







... ah, bem.



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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Juro que queria ver essa

Daniel Clowes, Art "Spiegelmaus" e Alan Moore... nos Simpsons!

Descobri isto no blog do Eddie Campbell, mas os merdinhas da FOX tiraram do youtube antes de eu ver.



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Num foi nóis que disse não!

cash advance
(Se bem que isso também pode dizer que esta droga é tão confusa e complicada que só um gênio entende)




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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Retrospectiva literária 2007 -- 2

PAGE, Martin. Como me tornei estúpido. Rio de janeiro: Rocco, 2005


Um livro superfrancês e superdivertido para os que fazem parte ou aspiram à “intelectuália” sem perder aquela que, segundo Voltaire (era ele mesmo?), era o antídoto para a vaidade: a capacidade de rir de si mesmo. Não vou falar muito do livro de Martin Page, mas apenas vou me limitar a colar dois trechos longos que adorei ler nesse livrinho tão curto.

O primeiro trecho transcrito abaixo me chamou atenção pela imensa afinidade que me fez sentir em relação ao delicado protagonista do romance. (em outras palavras: parece eu, só que mais francês e mais “mariquinhas”.


Sobre Antoine:

Tinha poucos amigos, porque padecia dessa espécie de anti-sociabilidade que resulta da demasiada tolerância e compreensão. Os seus gostos não-exclusivos, disparatados, baniam-no dos grupos que se constituíam a partir de desgostos comuns. Se ele desconfiava da anatomia odiosa das multidões, era sobretudo a sua curiosidade e paixão desprezadoras de todas as fronteiras e clãs que faziam dele um apátrida no seu próprio país. Em um mundo em que a opinião pública está confinada nas pesquisas às possibilidades sim, não e sem opinião, Antoine não queria preencher nenhum quadradinho. Ser a favor ou contra era para ele uma insuportável limitação às questões complexas. Além disso, possuía uma delicada timidez à qual se aferrava como a uma reminiscência infantil. Parecia-lhe que um ser humano era tão vasto e tão rico que não poderia haver maior vaidade neste mundo que estar demasiado seguro de si com respeito aos outros, com respeito ao desconhecido e às incertezas que cada um representava. Por um momento teve medo de perder a sua singela timidez e juntar-se ao bando dos que nos desprezam se não os dominamos; mas, graças a uma vontade obstinada, soube conservá-la como um oásis da sua personalidade. Apesar de ter recebido numerosos e profundos ferimentos, isso nada lhe tinha enrijecido o caráter; ele guardava intacta a sua extrema sensibilidade, que, como uma fênix, renascia mais pura que nunca cada vez que era maltratada e morta. Enfim, se acreditava razoavelmente em si mesmo, esforçava-se por não acreditar demasiadamente, por não concordar facilmente com o que ele próprio pensava, pois sabia como as palavras do nosso espírito gostam de nos prestar serviço e nos reconfortar logrando-nos.
(p. 14)

Aqui abaixo, o final do texto de Antoine dedicado a introduzir e explicar a seus amigos a razão de querer se tornar estúpido.
“Evidentemente, os intelectuais não são os únicos a quem compete a inteligência. Em geral, quando alguém começa a dizer ‘não é para ser demagíogico, mas... ‘ é efetivamente para ser demagógico. Por isso, eu não sei dizer muito bem o que poderia ser interpretado como condescendência. Estou convencido de que a inteligência é uma virtude compartilhada pelo conjunto da população, sem distinção social: há igual porcentagem de pessoas inteligentes entre os professores de história e os marinheiros-pescadores bretões, entre os escritores e os datilógrafos... Isso o sei pela minha própria experiência, à força de me aproximar de brain-builders, pensadores e professores, intelectuais idiotas e, ao mesmo tempo, de pessoas normais, inteligentes sem certificado de inteligência, sem a aura institucional. Eu não posso dizer outra coisa. É tão contestável quão impossível é um estudo científico. Encontrar alguém inteligente e sensato não é função do diploma; não há teste de Q.I. para revelar o que se poderia chamar bom senso. Eu ´penso e repenso no que dizia Michael Herr, roteirista de Nascido para Matar, no seu magnífico livro sobre Kubrick: ‘a estupidez das pessoas não deriva da sua falta de inteligência, mas da sua falta de coragem’.”
“Uma coisa que se pode admitir é que, freqüentar grandes obras, servir-se do seu próprio espírito, ler livros de gênios não asseguram a ninguém inteligência, mas tornam isso provável. Naturalmente, há pessoas que terão lido Freud, Platão que saberão fazer trocadilhos com os quarks e ver a diferença entre os falcões-peregrinos e um peneireiro, e que, todavia, serão renomados imbecis. Não obstante, potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando o seu espírito freqüentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente da mesma maneira que uma doença. Pois a inteligência é uma doença.”
(p.63-65)
Comment je suis devenu stupide
( ...detalhe: enquanto pesquisava imagens para este post, descobri que já existe peça de teatro feita para esse livro – com aquela adorável moça, a Paula Picarelli -- e blog dedicado a ela.
...É duro ser desinformado!)


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