segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ciência para crianças - respondendo perguntas imbecis

Não custa citar Carl Sagan mais uma vez: "não existem perguntas imbecis."

Quem me conhece pessoalmente já me ouviu dizer que esse é um capítulo que penso ser fundamental na obra prima do astrofísico americano.  Será leitura obrigatória nas minhas futuras e imaginárias aulas, provavelmente na abertura do semestre.

Esse texto é uma reflexão sobre o analfabetismo científico norte-americano - nós estamos em situação pior, garanto.  Independentemente das políticas educacionais e da quantidade de recursos investidos na educação, Sagan identifica um problema que parece estar na raiz do analfabetismo científico, seja aqui, seja lá, seja em qualquer lugar: em algum momento de nossas vidas, somos reprimidos em nossa vontade de fazer perguntas.  Pior ainda: somos reprimidos nas perguntas mais fundamentais: os "porquês".

Normalmente a repressão à pergunta mais importante de todas, tem início na ignorância dos pais - uso o termo "ignorância" em seu sentido mais literal, o do não conhecimento.  Quando a ignorância se alia à impaciência, temos um resultado desastroso.

Exemplos de perguntas "imbecis":

- Por que as coisas caem pra baixo?
- Por que o céu é azul?
- Por que a gente não ouve com a boca?
- Cachorro pensa?

A maioria dos adultos provavelmente não têm respostas para essas perguntas, ou, ao menos, não têm respostas satisfatórias.  Não há qualquer problema em desconhecer as respostas dessas perguntas, desde que se assuma o papel de auxiliar a criança a buscar as respostas, ou pelo menos, que a reação não seja no sentido da censura.  Não é incomum ouvir um adulto dando uma bronca numa criança após o terceiro "porquê" ou simplesmente dando a bronca "pare de perguntar bobagens" ou qualquer coisa parecida.  Vejam bem, provavelmente esses adultos também tiveram suas perguntas censuradas, e em algum ponto da vida, passaram a achar que certas perguntas não devem ser feitas porque são "muito bobas".  Respostas piores ainda são as seguintes:

- Porque sim.
- Porque eu tô dizendo.
- Porque Deus quis.

A criança teria, em tese, uma segunda chance de ter suas perguntas respondidas: a escola.  Porém, o ambiente escolar pode ser, muitas vezes, ainda mais repressor.  Além da possibilidade de alguns professores não serem capazes de responder perguntas básicas sobre ciência - normalmente professores do ensino fundamental têm formação científica muito fraca - os colegas sabem identificar, quase que imediatamente, as "perguntas imbecis".

A não ser quando percebemos esse ciclo vicioso, essa censura às perguntas mais fundamentais nos acompanha para o resto da vida.  Não é raro que estudantes universitários deixem de fazer perguntas básicas por vergonha de serem considerados burros.  Não consigo me lembrar, no momento, de nenhum exemplo recente, mas estou certo de que alguns colegas da graduação em Geografia não compreendiam conceitos básicos, como "bacia hidrográfica", "orogênese" ou "território"...certamente alguns quiseram perguntar o significado disso tudo e acharam melhor não o fazer.  Algumas dessas pessoas serão professores de Geografia, e certamente se um dia forem questionados sobre coisas básicas, não saberão responder de forma clara; terão como saídas a esquiva, a reprimenda ou a enrolação.  Não que eu pense que ninguém pode ser honesto e dizer que não sabe como definir o que é "rio", mas estou assumindo que a vasta maioria dos geógrafos que não foram capazes de perguntar durante a graduação não estarão dispostos a assumir, numa sala cheia de estudantes do ensino fundamental, que não sabe explicar porque rios existem.

Hoje fiquei sabendo, através de um artigo de Hélio Schwartsman, que Richard Dawkins lançou um livro de ciência para crianças:



O título, em inglês é: "The magic of Reality: How we know what´s really true".  O livro ainda não foi lançado no Brasil, mas muito provavelmente será traduzido, e o título ficaria assim, em tradução literal: "A magia da realidade: como sabemos o que é realmente verdade".

As ilustrações parecem ser muito bonitas, e a versão para iPad tem animações e joguinhos...devem ser extras fantásticos, mas acho que a versão em papel já será suficiente e de grande valia pra muita gente.

Segundo o pouco que li, a abordagem de Dawkins consiste em mostrar o quão elegantes são as explicações científicas para as perguntas propostas, e certamente como essas respostas são mais satisfatórias que os mitos que foram criados para explicar os mesmos fenômenos (que também são apresentados).  Dawkins é capaz de explicar a biologia com uma habilidade rara, o quadro da evolução pintado por ele é uma obra de beleza ímpar.  Posso dizer o mesmo do Cosmos de Sagan e Hawking e da mente de Nicolelis.

Morando em São Paulo pude acompanhar visitas escolares guiadas a muitos museus, e testemunhei muitas vezes o encantamento das crianças quando recebem respostas precisas e informações bem dadas sobre as coisas que vêem.  Muitas vezes resolvi parar a minha própria visita para acompanhar as visitas das crianças, ouvir suas perguntas e as respostas dos guias dos museus paulistanos - normalmente excelentes.  Tem sido uma experiência gratificante e creio que vai me ajudar a entender quais são as perguntas que ficam entaladas nas gargantas dos adultos e nunca são feitas.  Me faz entender melhor a razão pela qual os bons professores não deixam de repetir as coisas bobas e óbvias muitas vezes antes de mergulhar nas coisas mais complexas.

Mesmo sem ter lido (comprarei com certeza), sei que esse livro de Dawkins constitui uma obra fundamental para a alfabetização científica - não só infantil, mas também de adultos.  Praquelas pessoas que sentem que não há mais clima para perguntar a razão pela qual as coisas não caem pra cima, certamente vale a pena ler junto com seus filhos.

Bacana né?


P.S. Vai ter gente achando (de novo) que o Dawkins é abusado e arrogante...que essas pessoas fiquem falando sozinhas ou entre si, que eu já não levo mais a sério gente que acha que evolução ou deriva continental sejam "só idéias".  Vão acusar Dawkins de tentar doutrinar crianças...pra deixar claro: "doutrinar" crianças com fatos científicos tem nome: educação.  Moralmente questionável seria ensinar mitos e histórias não comprovadas como se verdade fossem, não é mesmo?  Há quem faça isso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

capas quase perfeitas


Essa é exemplar no quesito "identidade": exprime a essência da publicação.

VEJA: a revista do mauricinho revoltado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fisionomias imaginárias (2010)

Como estas semanas temos andado ocupados demais pra escrever algo que valha a pena ser escrito, segue uma série que fiz no meio do ano passado. Qualquer um que tenha visto a amostra de meus desenhos aqui no blog vai perceber que meu tema favorito são rostos. Rostos de pessoas verdadeiras; rostos de pessoas fictícias. Estes esboços são do segundo caso.




Mais pra frente tem várias outras, mas já do ano atual.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Diários de dispersão 2010

Pois é, fazia muito tempo que eu não colocava nada desenhado aqui.
Aliás, me dei conta de que em 2010 nenhum desenho meu foi colocado no blog (embora eu os tenha feito, ainda que muito pouco). Tentarei compensar a omissão agora, assim como tentarei manter-me mais atualizado ao menos a respeito deste ano presente.
Pra começar, retomar mais um dos "diários de dispersão".

Esses vermelhos foram gerados em reunião departamental:




(Pois é, um Monstro Souza infiltrado)

Este outro foi feito numa palestra na Livraria da Travessa:


Estes dois últimos foram de um um dos sarais promovidos pela comunidade do Luís Nassif. -- um evento que citei rapidamente aqui no ano passado.


(aliás, uma foto do perfil do senhor retratado aqui acima pode ser conferida neste link aqui.)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Seção fora do azul

Comecinho do ano, eu conversando com a Marilia:

"Mas Édipo não era aquele cara parido pela Vera Fischer?"

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O dia em que Frank Miller me escreveu




"Saludos,


Yo soy el Sr. Frank Miller, el gerente de créditos del Sistema Nacional de Salud Fiduciario en Holanda. Hay una cuenta que pertenece a la última miembro de la familia, Albert que voy a quiero discutir con usted acerca de y tiene algunas ofrelationship forma con que va por la similitud en el nombre. Estoy en el Reino Unido en el momento de someterse a una Curso de ingeniería financiera por favor envíeme un correo electrónico con respecto a esto. Usted me puede dar su número de teléfono personal para que yo pueda darle una llamada, que es urgente.

Saludos,

Frank Miller."



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"passivo-agressivo"

Quem acompanha o Wilbor de vez em quando pode ter percebido que geralmente é o Marcelo que coloca a questões de religião e ciência aqui. Tendo vivido num meio mais crente que eu (e sendo mais combativo), essa questão se tornou um ponto sensível para ele. Meu ateísmo geralmente é mais calmo; mas há momentos em que eu entendo bem a revolta do Marcelo. Vou narrar três "gentilezas" que presenciei.

1. Em espaço urbano
Já vi outras vezes, porque esta andou virando lema por aí.
A primeira vez que vi foi na estrada entre Maringá e Cianorte, na traseira de num carro:

"Deus sem você é DEUS.
Você sem Deus é NADA."

...Uau. Logo assim, do nada. Que gentileza. Valeu.
Descobri que há versões de estadia fixa, como esta placa que encontrei na web:


(bem, me pergunto em que diabo de terreno essa placa estava?)

2. Virtual
O e-mail a seguir eu já recebi umas três vezes. Mais do que uma questão de crença, o problema  é sobretudo o insulto à minha inteligência.


_____________________________________________________________________



VOCÊ FICARIA DE PÉ?



Havia um professor de filosofia que era um ateu convicto.



Sempre sua meta principal era tomar um semestre inteiro para provar que

DEUS não existe.

Os estudantes sempre tinham medo de argüi-lo por causa da sua lógica
impecável.
Por 20 anos ensinou e mostrou que jamais haveria alguém que ousasse
contrariá-lo, embora, às vezes surgisse alguém que o tentasse, nunca o
venciam.

No final de todo semestre, no último dia, fazia a mesma pergunta à sua
classe de 300 alunos:
- Se há alguém aqui que ainda acredita em Jesus, que fique de pé!

Em 20 anos ninguém ousou levantar-se.

Sabiam o que o professor faria em seguida....Diria : - Porque qualquer
um que acredita em Deus é um tolo! Se Deus existe impediria que este giz
caísse ao chão e se quebrasse.
Esta simples questão provaria que Ele existe, mas, não pode fazer isso!
E todos os anos soltava o giz, que caia ao chão partindo-se em pedaços.
E todos os estudantes apenas ficavam quietos,
vendo a DEMONSTRAÇÃO.

A maioria dos alunos pensavam que Deus poderia não existir. Certamente,
havia alguns cristãos mas, todos tiveram muito medo de ficar de pé.

Bem.... há alguns anos chegou a vez de um jovem cristão que tinha ouvido
sobre a fama daquele professor. O jovem estava com medo, mas, por 3
meses daquele semestre orou todas as manhãs, pedindo que tivesse coragem
de se levantar, não importando o que o professor dissesse ou o que a
classe pensasse. Nada do que dissessem abalaria sua fé...
ao menos era seu desejo.

Finalmente o dia chegou. O professor disse:

- Se há alguém aqui que ainda acredita em Jesus, que fique de pé!
O professor e os 300 alunos viram, atônitos, o rapaz levantar-se no
fundo da sala.

O professor gritou:
- Você é um TOLO!!! Se Deus existe impedirá que este giz caia ao chão e
se quebre!
E começou a erguer o braço, quando o giz escorregou entre seus dedos,
deslizou pela camisa, por uma das pernas da calça, correu sobre o sapato
e ao tocar no chão simplesmente rolou, sem se quebrar.

O queixo do professor caiu enquanto seu olhar, assustado, seguia o giz.
Quando o giz parou de rolar levantou a cabeça... encarou o jovem e...
saiu apressadamente da sala.
O rapaz caminhou firmemente para a frente de seus colegas e, por meia
hora, compartilhou sua fé em Jesus. Os 300 estudantes ouviram,
silenciosamente, sobre o amor de Deus por todos e sobre seu poder
através de Jesus.
Muitas vezes passamos por situações em que acreditamos que "nosso giz"
vai quebrar, mas Deus, com sua infinita sabedoria e poder faz o
contrário, por isso, você tem duas opções:

1 - Apagar esta mensagem e esquecer a história ou,

 2 - Passar a seus amigos, cristãos e não cristãos, dando-lhes a coragem
que precisamos todos os dias ao nos levantarmos.

EU ESTOU DE PÉ!!!!!!!
E VOCÊ ME ACOMPANHA????????

Abraços.

_____________________________________________________________________


Obviamente, continuei sentado.

Porque esse texto é um insulto?
Porque sua única "qualidade" é ser... temente a Deus. Todo o resto -- lógica, honestidade argumentativa -- é pure crap. Se você inverter a historinha -- colocando o professor como crente e o menino como ateu -- ela funcionaria. Ela tem locais pré-determinados de "bom" e "mal": o mal é estúpido e impositivo, o bem é resistente e digno... argh.
(Se inventar estorinha vale, posso inventar outra em que o giz cai e se parte... e o resultado? O minininho fica temporariamente calado e envergonhado; mas no final, continua achando que "é Deus testando sua fé". Fim. Êêêêê.)

3. Institucional
A chave de ouro foi este vídeo aqui, parecidíssimo com a historinha do e-mail que acabei de veicular.



Eu o chamei de "chave de ouro" porque não se trata de um simples e-mail de pessoas crentes, mas de um vídeo de propaganda institucional. E um vídeo institucional do Ministério da Educação e Ciência da Macedônia.


Alôu. Devo repetir?


Um vídeo institucional do Ministério da Educação e Ciência de um país fazendo uso mentiroso e sem-vergonha de uma figura de autoridade científica (Albert Einstein) -- pra proferir uma argumentação que, na verdade, é de Santo Agostinho!!
Ou seja, critica-se a "arrogância atéia" por meio do uso falacioso de um sofisma -- sofisma porque fundado na analogia. Atenção, meus caros: analogia nunca é "prova" de coisa alguma, mas apenas recurso retórico (ver uma crítica aqui). Presta-se a um só tempo um desserviço ao pensamento lógico e às histórias da ciência e da teologia.


E isso pra defender.... a volta da religião à escola


Tenho medo de pensar no que raios essa "volta" significa.
a) proibir professores ateus de achincalharem seus alunos? ( imagino que deva ser suuuper comum lá na macedônia!)
b) proibir professores ateus manifestarem suas opiniões a respeito?
c) proibir professores ateus at all?
d) tornar obrigatórias disciplinas de religião na escola?
e) tornar obrigatórias rezas diárias na escola?
f)  ou... tornar obrigatório o ensino de criacionismo em aulas de biologia como "uma outra teoria científica"?




Religion is science?
- MY ASS.


A não ser que a Macedônia seja um país hipercientífico onde pobres crianças cristãs sejam discriminadas com freqüencia (hahahaha), esse vídeo é puro veneno.
Prestem atenção: o professor ateu é mostrado como  imbecil (até eu teria vontade de dar um tapa na orelha dele, de tão tosca a sua argumentação) e cruel com as pobres crianças -- as quais, obviamente, já nasceram crentes. A fé delas é sempre algo "natural", que vem "de dentro"... nunca algo que lhes foi ensinado por pais ou padres. Ou seja, ao invés da questão ser representada como realmente é -- uma guerra entre "professores" -- o que se apresenta é a Guerra da desonestidade atéia contra a boa e natural inclinação, inerente às crianças, de acreditar em Deus...Minha nossa, é pra vomitar. E não por causa de quem está certo ou não; a minha questão nem precisa chegar a ser essa. O que há de doente nessa história é sua lógica enviesada: a própria forma como o outro é apresentado. Porque "outro"? Porque, obviamente, trata-se de obras de crentes para outros crentes: e o outro -- no caso, o ateu -- é apresentado como inerentemente agressivo, autoritário. (Eu pergunto: qual a força política da Igreja na Macedônia? ...)


Mas isso, obviamente, não me surpreende. E não é pela desonestidade que permeia a propaganda (embora ela seja desonesta, como já indiquei). Não, o buraco é mais embaixo: para os crentes hardcore, a existência de um não-crente por si só é agressiva. Você não precisa sequer ser um polemizador ou alguém realmente agressivo, não precisa entrar em conflito: sua escolha, sua inclinação, é por si só um insulto. 
Se você não sabe disso, é porque você não é ateu nem nunca externou esse conhecimento a pessoas muito religiosas. Nem haveria como ser de outro jeito: se seu modo de vida é a condição última e irretorquível para a decência e a salvação da alma, é simplesmente inaceitável estar fora desse modo de vida. Conclusão previsível: não há diálogo possível com alguém incapaz de suspender ou relativizar minimamente sua própria posição (a não ser, é claro, o "diálogo" da conversão -- ou melhor, da submissão).


A mesma discussão vale para a reação a homossexuais, a feministas, etc: eles é que são os agressivos, sempre. Eles é que ficam por aí incomodando, exigindo que você os aceite, que que você seja como eles; eles é que querem dominar, impor sobre os pobres "normais" e "decentes" o "matriarcado" ou a "ditadura gay"...
(Laerte, como sempre)


Nessas horas, a fala do Dawkins comparando o movimento gay com os ateus me parece especilmente relevante. O lema realmente é importável: "we're here, we're queer, get used to it."

Estamos aqui; somos diferentes*; se acostumem.


* Além de "homossexual", "queer" tem originalmente vários significados: "estranho", "distorcido",  "desalinhado", etc.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Fábrica de Monstros

Post de divulgação de coisa interessante:

No começo do ano descobri (não me lembro mais como) o seguinte site:


Achei a idéia genial.  O dono da coisa é Dave Devries, ilustrador/desenhista de quadrinhos, que trabalhou na Marvel desenhando Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico entre outras coisas, resolveu fazer arte a partir de desenhos de monstros feitos por crianças.  O cara pega os desenhos tosquinhos e dá uma bela duma arte final em cima, conferindo um grau de realismo impressionante aos personagens.

Devries também dá palestras e workshops em escolas, ocasiões nas quais ele escolhe um desenho de alguma criança na hora e faz um quadro, o que deve fazer com que o (a) garoto (a) se sinta o máximo...

Alguns exemplos:




Enfim, só pra constar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

o duelo mais covarde do século

O Brasil não é uma potência científica, e nunca foi.  Apesar da recente e discreta melhora das condições de trabalho, do aumento do número de bolsas e as tentativas de repatriar pesquisadores que atuam fora do país e também atrair pesquisadores estrangeiros com incentivos que chegam à vultuosa soma de R$5 mil, ainda somos um país no qual uma única universidade concentra 10% dos doutores e 25% da produção científica nacional.

Essa constatação serve para dizer que Miguel Nicolelis não é produto da academia brasileira - ou melhor, é uma exceção; da mesma forma que um Gustavo Kuerten não surgiu aqui porque com tantos jovens jogando tênis seria inevitável que algum se tornasse o melhor do mundo.

Nicolelis, pra quem não conhece, é um neurocientista paulistano, formado em medicina pela USP, onde obteve também seu doutorado em fisiologia.  O que esse cara tem de diferente, é o fato de que foi considerado, pela revista Scientific American, um dos 20 cientistas mais influentes da atualidade, além de ter sido o primeiro brasileiro a ter seu estudo publicado na capa da revista Science e ser o brasileiro mais cotado para receber um prêmio nobel desde Cesar Lattes¹.

Pois bem...o Brasil não só produz pouco, como divulga pouco a ciência.  Os mais conhecidos autores de divulgação científica brasileiro nos últimos anos são o físico Marcelo Gleiser e o médico Dráuzio Varella.  Coincidentemente ambos com várias participações em programas da Globo (Fantástico) e colunistas da Folha.  Dráuzio me agrada mais: adota um estilo curto e grosso e não faz concessões à pseudo-ciência, enquanto o Gleiser parece ter tanto medo da rejeição que acaba fazendo um estilo conciliador, que às vezes, acaba por comprometer o argumento.  Não é por chatice, mas a obra moderna fundamental da divulgação científica (opinião minha, mas compartilhada por muitos entusiastas do tema), é "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan², e explica direitinho o porque as pseudociências são tão perigosas, e mostra ainda como a ciência preenche de forma mais adequada - e bela - o papel de explicar o universo.

Com Nicolelis, parece que temos, finalmente, um divulgador científico de primeira magnitude:

1: Trata-se, inquestionavelmente, de um grande cientista.

2: É um visionário.  à exemplo de Sagan, Nicolelis vê na ciência, uma arma poderosa de transformação social.  Ano passado lançou o Manifesto da Ciência Tropical : um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil - vale muito a pena ler.

3: Não faz concessões aos bobocas das pseudociências - mas sem perder a ternura: trata-se de um sujeito extremamente simpático e gentil.  Uma das frases preferidas dele nesse sentido é a seguinte: "Se a palavra 'milagre' não tivesse sido adotada por outro ramo de negócio, deveria ser alocada na neurociência, porque fazemos umas coisinhas melhores"

Bem, mês passado foi lançado "Muito além do nosso eu: a nova neurociência que une cérebro e máquinas - e como ela pode mudar nossas vidas".  Nesse livro, o cientista fala do novo paradigma da neurociência - pelo qual é o principal responsável.  Lembram dos esquemas que mostravam um cérebro setorizado?  Em tal lugar fica o centro da fala, ali os sentimentos, aqui as memórias, acolá a língua pátria...pois é, aparentemente tudo isso é bobagem.  Eu desconfiava de uma coisa que vejo há muito tempo: os cursos "desenhando com o lado esquerdo do cérebro" - o Gabriel certamente conhece bem essa história.  Esse paradigma é conhecido, na neurociência como "localizacionista".

Nicolelis é um "distribucionista": demonstrou que o cérebro não é setorizado.  As memórias ou qualquer comportamento não se alocam numa parte específica do cérebro, mas em todo o órgão, e são resultado de uma interação entre "populações de neurônios".  Nesse ponto a gente costuma lembrar daquelas imagens com partes diferentes do cérebro acendendo e apagando em resposta a determinados estímulos.  Ocorre que essas imagens detectam a atividade máxima dos neurônios, e os neurônios não precisam "falar tão alto" para serem ouvidos no processo maior.  Os processos neuronais ocorrem em infinitos circuitos paralelos, e um conjunto de neurônios falando baixinho influenciam, de forma determinante, para o resultado dos processos neurais.  Enfim, ainda estou lendo o livro - acreditem, o tema é interessantíssimo e a abordagem do Nicolelis é fantástica, leiam.  Voltarei a escrever quando terminar a leitura.

O importante é o seguinte: esses estudos resultaram em aplicações que permitem que o cérebro "se liberte" do corpo.  Esses princípios possibilitaram a uma macaca controlar um braço mecânico para apanhar comida e levar à boca apenas com o pensamento, e que uma outra macaca na Carolina do Norte fizesse com que um robô andasse no Japão.  Teve ainda um bônus, só porque o cara é muito foda: acidentalmente Nicolelis acabou descobrindo uma terapia de eletroestimulação para o mal de Parkinson.

Com essas descobertas, Nicolelis pretende desenvolver próteses mecânicas controladas pela mente, como braços, pernas e até exoesqueletos para tetraplégicos.  Num futuro mais remoto, acredita que essa tecnologia poderá possibilitar que nossos cérebros comandem avatares e se conectem à internet, ou como ele chama essa nova rede, a "brainet".

Tudo isso pra chegar no que me motivou a escrever esse post.  Nicolelis foi convidado a participar de um debate na Flip.  Interessante, pensei.  Funcionaria assim: Nicolelis expõe mais ou menos o que está no livro, fala de seu centro de pesquisa em Natal e da escola de educação científica, e algum outro cientista ou jornalista comenta e faz perguntas, com a participação da platéia.  Mas não foi bem assim.  Resolveram chamar um intelectual para debater e questionar moralmente o trabalho.  O escolhido foi o "filósofo"³, professor de teologia e articulista da Folha, Luiz Felipe Pondé.

Não consegui assistir o debate, mas tenho encontrado fragmentos de vídeos e reportagens que mostram o seguinte: Nicolelis tinha uma expectativa muito boa.  Lá pelas tantas, estava com a voz embargada ao comentar seu sonho de fazer com que, na abertura da Copa de 2014, uma criança tetraplégica brasileira entre com a seleção, caminhe até o centro do campo e dê o pontapé inicial da Copa. O tal exoesqueleto é uma realidade muito próxima, e além de ser comandado pelo cérebro, devolve estímulos, de forma que a pessoa sente coisas com a prótese e ainda exercita os músculos.  Quem poderia ser contra tal coisa?

Pondé.


O video completo não está disponível em lugar nenhum (espero que alguém coloque, nesse caso eu atualizo aqui).  Pois bem, Pondé abriu sua fala dizendo-se muito preocupado, pois as aplicações propostas não passavam de mais um passo em direção à eugenia.  Adotou uma postura niilista, no sentido dostoievskiano mesmo (se Deus não existe, tudo é permitido).  Coloca que a ciência não dá sentido à vida, critica a "filosofia pobre" dos cientistas, etc...segundo o que li, foi prontamente rebatido.  Nessa entrevista, feita após a mesa, percebe-se a perplexidade de Nicolelis diante do que foi dito por seu "oponente" - o trecho a que me refiro começa em 2min e 15s:


Pondé enquanto colunista da Folha foi um cara que me chamou a atenção por um tempo, mas foi ficando claro que se trata de um polemista fraco.  Coincidentemente essa semana eu recebi uma edição da veja, acho que brinde da editora abril, e a entrevista das páginas amarelas é dele.  Pondé critica longamente os "jantares intelectuais", nos quais os comensais expõem seus esforços para melhorar o mundo andando de bicicleta ou reciclando o lixo - sobre o que deve-se conversar em jantares?  Fala ainda sobre a auto-santificação da esquerda (verdade) e da superioridade da filosofia cristã sobre tal posição, uma vez que os santos reconheciam que eram pecadores, enquanto esquerdistas são incapazes de admitir falhas morais em sua doutrina.

Trecho da entrevista da veja:

O senhor acredita em Deus?
Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou em si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilismo, e sou muitas vezes acusado de niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.

Por que o senhor deixou de ser ateu?
Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese do Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama moral muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.

Essa entrevista é absurda em tantos níveis, que eu não posso deixar de comentar algumas coisas:

1: O cara é um filósofo que "foi ateu por muito tempo", mas deixou de sê-lo porque acha o ateísmo "aborrecido do ponto de vista filosófico".  Eu não sou filósofo, mas "aborrecimento" não parece ser um argumento válido para definir uma posição a respeito do tema.  Mas Pondé parece precisar da fantasia e achar ciência uma coisa chata.  Só posso deduzir duas coisas disso: Pondé não entende muito de ciência e nunca foi um ateu fundamentado.  Declarar-se ex-ateu para um filósofo é um tiroteio no pé.

2: Pondé considera a religião como a nossa fonte de hábitos morais.  O Dawkins cuida bem dessa questão...parece claro que a nossa ética tem raízes iluministas, e não bíblicas - para nossa sorte.

3: Deus é a hipótese mais elegante para explicar a origem do universo?  Onde está a riqueza filosófica nisso?  O que há de elegância num estalar de dedos ou no trabalho de sete dias descrito no gênesis?  Elegante é a física, a evolução, o cosmos.

4: Acreditar na história, na ciência ou em si mesmo é bobagem?  Pondé é contra a realidade.

É incrível que um cara desses seja levado tão a sério.  Aliás, é frequentemente convidado para debater toda sorte de coisa na Globonews e tem uma coluna semanal na Folha.  Mais incrível ainda que esse tenha sido o intelectual selecionado para debater com Nicolelis, sem dúvida uma mente brilhante.  Eu estudei em colégio católico e não consigo imaginar nenhum dos irmãos maristas falando tanta bobagem em nome da teologia.  Achar que reabilitar um tetraplégico é um projeto de eugenia é foda.

Me parece que o Brasil, além de divulgação científica, carece também de polemistas de qualidade...na linha sucessória do Manhattan Connection, que sempre conta com um polemista no time, tivemos Paulo Francis, Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi.  Agora, o rei disso no Brasil, a nossa jóia da coroa é, certamente, Olavo de Carvalho.  Em comum, o fato de que todos esses tem um claro viés de direita, ou pelo menos anti-esquerda.

Já a Inglaterra, por outro lado, alem de produzir cientistas relevantes em bom número, produz ainda bons divulgadores científicos, humoristas e polemistas.  Um exemplo de polemista de altíssimo nível é o jornalista e professor de literatura Christopher Hitchens.  Em comum com os brasileiros citados, o fato de que é anti-esquerda.  É ex-marxista e apoiou Bush nas políticas intervencionistas americanas, embora tenha apoiado Obama contra McCain.

Um exemplo do Hitchens em ação:


Bill Maher é um comediante americano, um dos queridinhos da esquerda americana desinformada e péssimo representante dos ateus americanos "wannabe".  É dele o filme religulous...bobinho pra cacete.  Hitchens acusa, nesse vídeo, que Maher já havia feito umas 5 piadas sobre o QI de Bush, e que aquele era o tipo de piada da qual as pessoas burras agora dão risada, aquelas pessoas que vaiam na platéia porque se sentem mais espertas que o presidente...o olhar de Maher é impagável - foi abandonado por um de seus heróis.

Agora, Hitchens, ao contrário dos companheiros brasileiros, é tido como um dos mais respeitados intelectuais britânicos, justamente porque faz o que faz pela razão, não por necessidade orgânica de chamar a atenção e aparecer.

Uma polêmica levantada por Hitchens, muito bem fundamentada está no livro "The missionary position: mother Teresa in theory and practice".  Aqui Hitchens coloca em xeque a bondade da freira.  Fez uma extensa pesquisa e demonstra que a maior parte do dinheiro arrecadado para ajudar os pobres da Índia (muitas vezes arrecadado com ditadores de países miséráveis, como Jean-Claude Duvalier), foi aplicado na construção de conventos e não nos poucos muquifos que ela chamava de hospitais.

Esses fatos são tidos hoje como inquestionáveis, exceto, é claro, para a igreja católica.  Agora, imaginem que o cara é tão respeitado, que foi ele o convidado pelo Vaticano a advogar contra Madre Teresa em seu processo de beatificação.  Enfim, o cara joga em outro nível.

Voltando ao começo do post, deixo aqui o vídeo do Nicolelis no Roda Viva, onde ele explica o projeto de Natal e pincela aquilo que viria a se transformar no tal Manifesto do qual falei lá em cima.


Enfim, acho que esse é um caso em que vale a torcida pelo Nobel desse cara.  O Brasil precisa de uma celebridade desse calibre na ciência, acho que faria muito bem ao país.




1) César Lattes não ganhou o Nobel de física de 1950 por um erro (ou não).  Ele liderou a equipe que descobriu o "méson pi", e por algum motivo estranho, quem foi laureado foi o americano que redigiu o estudo - assinado por Lattes.  Segundo consta na Wikipedia, "No museu de Niels Bohr, em Copenhague, Dinamarca, há uma carta em que está escrito o seguinte: 'Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - abrir 50 anos depois da minha morte'. Como Bohr morreu em 1962, somente em 2012 saberemos a resposta do enigma."

2) A grande obra de Sagan, na verdade é "Cosmos".  Mas "O mundo assombrado pelos demônios" me parece mais relevante do ponto de vista filosófico.

3) O que precisa fazer pra ser filósofo?  Basta o diploma?

4) Nicolelis é palmeirense fanático, a ponto de ter proferido seu seminário na academia sueca (como indicado ao prêmio Nobel), vestindo a camisa do Palmeiras, com patrocinadores e tudo, só porque o dia em questão era a "onda verde", um dia em que os palmeirenses saem de casa vestindo as cores do clube.

5) Desse post acho que ainda vale escrever algo específico sobre Hitchens,  além de um outro sobre o livro do Nicolelis.  Veremos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Laerte - nova fase

Sem maiores delongas: o espaço que o Laerte ocupa aos sábados, que rendeu "Muchacha" e "Laertevisão" agora está sendo utilizado para uma experiência meio rara na produção do Laerte: Charges e quadros com temas políticos.  As últimas 10 são assim, com exceção (talvez) da segunda na sequência que coloquei aqui:


Várias dessas se referem à discussão do casamento gay, sendo que na 9a. ele resolveu desenhar o Bolsonaro mesmo.  Aliás, Bolsonaro foi o que aconteceu antes da primeira tirinha dessa série, que já havíamos postado aqui, como resposta àquela estupidez racista/homofóbica que ele disse à Preta Gil.

A quarta aparentemente trata do uso da norma culta na língua portuguesa (a discussão sobre o livro que relativiza os erros de português).

As outras são mais claras, e resolvi postá-las aqui depois de ver a última - talvez uma referência à entrevista do Palocci.

Divirtam-se!


Inserido posteriormente: ok, não tinha nada a ver com o Palocci, mea culpa....eu não tinha a menor noção da existência de um "Brilhante Ustra", ache com cara de barbudinho do PT).

domingo, 5 de junho de 2011

FHC, um presidente muito louco!

Vamos embasar a discussão com cinco teses:

- A guerra contra as drogas foi perdida.  O uso de drogas ocorre desde os primórdios da humanidade, e até mesmo entre animais um exemplo curioso disso pode ser visto aqui;

- O uso de drogas é problema de saúde pública, não de polícia. O abuso dessas substâncias pode levar a problemas de saúde - físicos e psiquiátricos.  Esses usuários devem ser tratados, não presos;

- A proibição das drogas só beneficia os traficantes.  A proibição faz de seu comércio um crime e do traficante um empresári com domínio total sobre uma indústria que movimenta bilhões de dólares e leva a outros crimes.  Além disso, coloca o usuário em contato com criminosos.

- A proibição das drogas não inibe o seu consumo.  Meio óbvio, uma vez que as pessoas usam drogas;

- Campanhas publicitárias e políticas públicas direcionadas podem reduzir o consumo de drogas.  O melhor exemplo disso é a diminuição do consumo de tabaco - droga lícita.

Pois bem.  FHC agora diz tudo isso em mais um pouco no documentário "Quebrando o tabu", do meio-irmão do Luciano Huck:



Bem, nada contra, aliás, acho ótimo que uma pessoa da relevância do nosso intelectual ex-presidente  participe desse debate.  Agora, não é estranho que FHC assuma essa postura agora?

Eu não cobraria dele que tivesse feito alguma coisa durante o seu mandato, uma vez que no Brasil os fins eleitorais aliados à covardia da nossa classe política impeçam mudanças desse tipo...o exemplo mais recente é o atraso na discussão do aborto provocado pela campanha de José Serra, mas isso são outros quinhentos...agora, voltemos a analisar a posição de FHC:

O ex-presidente diz que faz parte do grupo de "fumou, mas não tragou".  E que a única droga que experimentou foi lança.

Sinceramente, eu acredito nele.

Agora, ao ser questionado sobre o porque de sua inação sobre o tema em sua presidência, a resposta me parece menos honesta: afirma que na época não tinha a mesma consciência sobre o tema - justificativa que aparece no trailer - aliás, não é estranho que Clinton e Dreifuss apareçam falando sobre o problema e FHC se justificando?

Ora, presidente...

É possível acreditar que FHC, o intelectual de Sorbonne tivesse opiniões formadas sobre tudo à época de seu governo mas não sobre a gravidade do problema do uso de drogas, especialmente tendo sido presidente durante a implantação do Plano Colômbia?  Pergunto pelo seguinte: as cinco premissas apresentadas no início desse post não são novidade alguma.  Desde quando se defende a legalização da maconha?  Desde quando a Holanda permite o uso em Coffe Shops?  Desde quando existem alunos de ciências humanas?

Finalmente: FHC não é um intelectual qualquer.  É um intelectual uspiano.  E não um uspiano qualquer: é um uspiano da FFLCH, o habitat natural do bicho-grilo.

Como foi colocado anteriormente, acredito que FHC nunca tenha experimentado maconha...nem todo mundo o fez.  Agora, na condição de sociólogo, estudante e depois professor da USP, na FFLCH, creio ser impossível que ele não tenha tido contato com usuários de maconha e com a discussão da legalização.  Logo...

Não pode ser verdade que durante sua presidência FHC não tivesse consciência das posições que adota agora.

Isso nos leva a uma questão: se FHC está assumindo uma postura corajosa, ao defender a descriminalização e regulamentação das drogas, porque não escolher uma resposta do seguinte tipo:

"No período de minha presidência, havia uma pressão muito forte do EUA pela repressão contra as drogas, culminando no plano Colômbia.  O Brasil não estava em condições de se colocar contra essa política."

Vejo duas possibilidades:

1) Não cairia bem para FHC, afirmar que o Brasil não poderia bater de frente com os EUA nos fóruns internacionais num debate global sobre a política de repressão às drogas.

 - na minha opinião, essa possibilidade é meio boba: de fato o Brasil não costumava peitar os EUA, mas ninguém jamais se envergonhou disso...o problema talvez seja a comparação com o governo de seu sucessor não-intelectual, seu sucesso junto à opinião pública e esquecimento dos avanços de seu governo.

2) FHC faz parte de um grupo chamado "The Elders", algo como "Os Anciãos".  Trata-se de um grupo de lideranças globais, todos membros da inteligentsia global - coisa certamente inalcançável para Lula, logo, porto-seguro para FHC.  Entre os Anciãos (são apenas 11!!), estão Nelson Mandela, Jimmy Carter, Desdmond Tutu e Kofi Annan.  O grupo tem uma clara inclinação liberal, e vários deles aparecem no documentário do filho do Mário de Andrade.  Talvez ficasse mal se postar contra um posicionamento liberal do grupo...mas certamente não foi isso: melhor que agir passivamente, não  se postando contra, que tal liderar os anciãos numa cruzada pró-maconha?  Isso garantiria a FHC novamente o status de liderança global em um tema de grande relevância.

Bom, é isso.  Certamente assistirei o documentário recordista de captação de recursos da Lei Rouanet, provavelmente concordarei com a discussão e tudo mais...mas é meio esquisito.  Mas legal, valeu Fernandos!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Sustentabilidade hedonista"

E eis que fui semanas atrás numa palestra do Bjarke Ingels na PUC Rio. É ele mesmo, o cara que fez a primeira publicação monográfica de Arquitetura em forma de história em quadrinhos (Yes is More), que já apareceu no Wilbor antes.

A palestra era significativamente intitulada de "hedonistic sustainability". O tema já era explicado em seu  Yes is More, e o mais novo projeto deles a ilustrar o "pincípio" pode ser visto nestes slides aqui.

(não, esta foto aqui não foi na PUC. Meramente ilustrativa.)

Lendo seu livro e acessando seu site, dá pra ver que Bjarke é um cara que entende e explora como ninguém neste momento o potencial da mídia para a propaganda e divulgação da arquitetura. Eu há tempos  tinha intuições de que uma característica forte deste seria fato de usar as mídias de maneira "popularizável", voltada a um público "middle-brow" e não um super-intelectualizado e especializado. Em uma palavra: um discurso voltado em muito para leigos interessados, alunos de arquitetura e jovens arquitetos.

A quantidade de alunos se acotovelando afoitos num auditório lotado me reforçou essa intuição. Não deixe que a cara de ator de Malhação engane: ele é muito inteligente e astuto.Com 36 anos, um escritório construindo coisas no mundo todo, uma história em quadrinhos arquitetônica cada vez mais popular e um trendy look entre o bem-vestido e o calculadamente desarrumado, Ingels me parece ter potencial para ser o mais jovem arquiteto pop-star já visto.

Além da PUC, nesta visita ao Brasil ele foi entrevistado pela GNT e pela revista AU.
Aqui a entrevista da AU:



(O mais gozado é ouvir ele falar que, quando começou o curso de arquitetura, queria na verdade ser quadrinhista. Pra mim faz todo sentido)

E aqui a entrevista do programa "Nos Trinques", da GNT. É um programa para super-descolados  (curiosidade: o entrevistador, Guto, foi meu bixo lá em São Carlos). Percebam que o tom da entrevista já é  já é mais panorâmica, rasante e um tanto fashion; uma introdução a "leigos interessados".



Algumas considerações:

1) Deve ser um saco ficar repetindo as mesmas explicações o tempo todo. No livro, na palestra, nas duas entrevistas, e em outras apresentações, vi várias coisas serem distas de novo e de novo.
Nisso, BIG se torna um escritório de slogans e punchlines; e sabe fazer isso muito bem.

2) Como vários escritórios internacionais, BIG deve estar com sérios planos de invasão aqui da Brasiléia, e parece que estamos a corroborar seus planos (ao menos em publicidade). Na palestra ele começou falando sobre Brasil, mostrou foto de suas visitas à favelas (ficou hospedado em uma anos atrás), falou destas como potencialidades arquitetônicas e que têm a melhor vista do Rio e por aí vai. Se ele conseguir aportar seus trabalhos por aqui, há riscos de que arquitetura fique mais pop do que nunca no país... ou não. Vamos ver.

3)  Você assiste à apresentação dele admirado (ainda mais se, como eu, você estudar apresentações), e alguns edifícios parecem realmente empolgantes e bem-bolados. Porém, ao mesmo tempo, me gera muita desconfiaça o fato de suas explicações fazerem tudo parecer simples demais.
O ponto principal de desconfiança: basicamente, as principais argumentações de BIG se dão na forma se sínteses de oposições. Um exemplo é o mote básico do grupo:
"Historically the field of architecture has been dominated by two opposing extremes. On one side an avant-garde full of crazy ideas. Originating from philosophy,mysticism or a fascination of the formal potential of computer visualizations they are often so detached from reality that they fail to become something other than eccentric curiosities. On the other side there are well organized corporate consultants that build predictable and boring boxes of high standard. Architecture seems to be entrenched in two equally unfertile fronts: either naively utopian or petrifyingly pragmatic. We believe that there is a third way wedged in the nomansland between the diametrical opposites. Or in the small but very fertile overlap between the two. A pragmatic utopian architecture that takes on the creation of socially, economically and environmentally perfect places as a practical objective"
Assim, grande parte das contradições que em tese guiariam a sociedade -- utópico versus pragmático, público versus privado, sustentabilidade versus  conforto, ecologia versus  economia, etc-- seriam, no fundo, resolvíveis pelo bom projeto... ou seja: no fundo, seriam "falsas contradições".
A questão é: será que não estamos falando aqui de "bonecos de palha"? Será que, astutamente, Bjarke não monta oposições relativamente caricatas para, por um lado, torná-las facilmente digeríveis paro público e, por outro, poder ele mesmo se posicionar e propagandear como grande desmistificador? (Esta, afinal, tem sido uma estratégia até usual ultimamente)


Essa última inquietação me desperta outro grupo de questões, mais sério que este. Não seria BIG, juntamente com muitos escritórios internacionais centrados em sustentabilidade, uma amostra de que estaríamos retomando fortemente uma espécie de "mito do design" característico do período modernista de até meados do século XX? O "design mudando a sociedade", só que agora na linguagem atual -- magnificado pela mobilização de mídias em apresentações impressionantes? Seria esta a forma que os arquitetos --  conscientes ou só subconscientes de praticarem uma profissão fundamentalmente frágil --  têm encontrado de colocar-se como alguma coisa útil e desejável no mundo atual?

Tentarei voltar a esse assunto futuramente.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Gilmar Mendes, herói das bibas!

O dia de hoje certamente será lembrado por aqueles qe lutam pelos dirteitos civis no Brasil como uma data histórica.  O reconhecimento da união estável dos gays pelo STF veio tarde, mas veio de forma unânime e dá início a um processo de inclusão efetiva dos gays brasileiros na categoria de cidadãos plenos.

É também um dia de muitos discursos bonitos e edificantes, e quem assisitu alguma coisinha da sessão deve ter se emocionado (ou ficado com medo do colapso da sociedade).  Aparentemente é mais fácil discursar com vitórias garantidas, e a sessão de hoje era uma festa de vitória, na qual os dez ministros que votaram puderam colocar em prática toda a sua retórica.  Não me atreverei a dizer coisas mais bonitas, acho que esgotaram as possibilidades, mas tenho algumas considerações:

Essa decisão era inevitável, não havia quem esperasse outro desfecho.  Mas como o judiciário brasileiro nem sempre respeita o óbvio, e vez em quando nem mesmo quando este é "ululante", dá um certo alívio.  Marco Aurélio Mello, por exemplo, que curte brincar com a nossa cara votando na divergência das coisas mais óbvias possíveis, não foi capaz de aprontar uma dessa vez.  Ele faz por esporte, claro, mas o tema conseguiu impor nele algum limite.

O espectro conservador ficou esvaziado...cadê um Carlos Alberto Menezes Direito quando as leis de Deus precisam de proteção???  Dessa vez não compareceram

A causa gay e aqueles que lutam estão de parabéns.  Vitória mesmo é quando se consegue algo assim:


Tá certo, vai...ele fala em "opção sexual", talvez ache mesmo que ser gay seja uma escolha maluca de gente que nasce depravada, promíscua e besta, como pensa Bolsonaro e os advogados da igreja católica que estiveram presentes e disseram coisas assim, mas deixa pra lá...o cara não tá acostumado a votar pró-gente.  Eu ficarei muito feliz no dia em que acontecer algo assim:




Mas essa é uma discussão menos madura e que infelizmente já tomou sua porrada no STF.  Voltando ao assunto, embora seja difícil acreditar que Gilmar Mendes se incomode com o que pensam dele, não acredito que sua vontade tenha sido contemplada na decisão. 

Outra coisa que "embeleza" o fato de hoje é a relatoria de Carlos Ayres Britto, na minha opinião o ministro mais progressista do judiciário brasileiro nos últimos tempos, um herói nesse STF tão besta.  Uma honra merecida por ele e pela causa.

Dentre os que fizeram o discurso pelo lado contrário, obviamente estava a igreja católica, numa triste, óbvia e tacanha demonstração de sua primitividade ideológica...os discursos foram de dar medo e muita vergonha.  Óbvio que isso não é exclusividade da cúpula católica - de forma geral, as várias religiões do mundo disputam a tapa (literalmente) o monopólio do atraso de idéias.

Aliás, uma coisa que me passou pela cabeça muitas vezes hoje: porque diabos a igreja católica fala tanto em nome da família?  A igreja é constituída, basicamente por caras que não constituem família...caras, aliás, que segundo um estudo da própria igreja alemã, tem uma propensão 10 vezes maior de cometerem abusos sexuais contra menores...tá descrito nesse post, com todas as fontes - prestem atenção que é bem sutil.  Numa boa, não é estranho que essas pessoas detenham o monopólio da família?  Que nos digam o que pode ser família ou não?


Mas pra colocar os pés no chão: com tudo isso, não se trata de ato heróico do STF.  Os ministros não disputam eleições, raramente são questionados pela sociedade e são estáveis.  Ademais, talvez role uma questão de orgulho internacional: a garantia de cidadania dos gays é uma tendência mundial e questão básica de direitos humanos...fica muito feio ser um dos últimos judiciários do mundo ocidental a reconhecer esses direitos.  O mesmo raciocínio explica a unanimidade e os votos dos conservadores pelo reconhecimento das uniões civis gays.


É isso.  Temos agora um país um pouco menos escroto com seus cidadãos.  E quem quem teve que engolir isso...chuuuupa!!!

Minhas previsões para o futuro próximo: adoção por casal gay, fecundação entre gametas iguais, aborto por casal gay grávidos de feto de isogamético e é claro: permissão pesquisas científicas com embriões isogaméticos descartados por clínicas de reprodução assistida.