domingo, 12 de setembro de 2010

L'espetacle (2): Orwell versus Huxley

Já li há vários anos atrás as duas distopias mais feijão-com-arroz da literatura do século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. Dois livros interessantíssimos.

Li Admirável mundo novo depois de 1984, numa edição barata com ilustrações vagabudas. Por contraditório que pareça, ele me soou ao mesmo mais antiquadomais fantástico que 1984, e ao mesmo tempo mais certeiro quanto ao caminho que andamos trilhando.

Aí que, chegando à história em quadrinhos abaixo (desenhada por Stuart McMillen), descobri que muitas outras pessoas tinham opinião parecida, e que já há pelo menos um livro comparando as perspectivas dos dois autores: Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show bussiness, de Neil  Postman.

Não sei se o livro é bom, mas a pequena síntese colocada na HQ abaixo é bacana.







(Eu vi essa HQ primeiro numa revista alemã chamada FAZ-FEUILLETON-SEITE, na qual cheguei através de um post do site The Edge (site sobre internet, tecnologia e cultura contemporânea). Procurando mais, achei a imagem num blog de crítica filosófica.)

Embora seja um livro posterior, li 1984 primeiro. O que mais me impressionou no livro não foi sua descrição de uma sociedade totalitária (retratada nos moldes de um estado stalinista ultra-exacerbado tecnológica e culturalmente), mas sim o processo de destruição sistemática do protagonista através da tortura,que ocorre no final.
Mas1984 também tinha um conceito para mim extremamente interessante: o doublethink ("duplipensar"). A idéia de um processo de pensamento no qual se aceitam idéias conflitantes, desde que a autoridade lhe diga que sim. Uma espécie de lavagem cerebral auto-inflingida. 
O conceito me impressionou não por seu uso numa a sociedade totalitária, mas sim por sua onipresença no "mundo livre" atual. Por um lado, há aquilo que desde a infância eu tenho ouvido ser chamado de "memória curta": a tendência do público a acreditar no que quer a mídia esteja dizendo AGORA, sem prestar atenção no fato dela estar contradizendo o que já disse antes. Mas o doublethinking me leva também àquilo que autores como Fredric Jameson assinalam como a tendência altamente esquizóide da psique pós-moderna, e como essa psique seria preocupantemente narcisista e apolítica.

Claro, a diferença está no fato de que, ao contrário de 1984, as pessoas "livres" não duplipensam por obediência fanática a dogmas centralmente ditados por um Estado; sua alienação em relação ao funcionamento da sociedade vem, antes, de estarem tão envolvidas e preocupadas com seus pequenos prazeres, com os pequenos espetáculos diários e com os pequenos lugares que lhes cabe, não por autoridade, mas por comodidade, no sistema -- como em Admirável Mundo Novo.

Mas como eu disse, Adimirável Mundo Novo me pareceu ao mesmo tempo mais atual e mais antiquado. Antiquado por que no fundo ele deixar transparecer um moralismo cultural que, francamente, me pareceu "coisa de velho". A idealização de um "ser humano pleno" como um aficcionado por Shapespeare me soou meio forçadinha, ainda ligada a um ideal romântico-liberal-oitocentista de subjetividade e individualidade. Mas a descrição do controle das pessoas num mundo tecnologicamente rico e prazeiroso me pareceu mais revelador de nosso atual momento.

Já havia me ocorrido antes a ironia: o programa Big Brother, cujo nome se baseou no líder fictício de 1984, é na verdade um dos melhores indícios da atualidade do princípio de... Admirável mundo novo.


 Mas achar que as sendas distópicas de Huxley e Orwell sejam mutuamente excludentes talvez seja uma abordagem equivocada.


Ignorance is strength, Bial.

2 comentários:

Santiago disse...

Boa tarde,

Não entendi o arroz com feijão, na minha opnião como literatura do início do século XX foram dados alguns chutes bem certeiros e bem bacanas por ambos autores. Umas coisas de um e outras coisas de outro nos trazem a impressão de que vivemos uma mistura das obras...

Enfim gostei do blog vou passar a visitar mais e ler os textos escritos anteriormente.

Parabéns.
Att.
Santiago

GABRIEL disse...

Olá, Santiago. Bem-vindo ao Wilbor, esperamos vê-lo mais aqui.

Sobre o feijão-com-arroz: eu usei a expressão no sentido de que os dois livros são as referências mais básicas e conhecidas de distopia futurista de toda a literatura. O termo não se refere à qualidade e conteúdo dos livros, mas sua popularidade.